O daf abre completando a palavra que ficara cortada ao final de 63a: a citação de Iyov sobre quem cria um cão perigoso em casa — "afasta a bondade de seu companheiro" — se explica pela palavra grega para "cão", e Rav Nachman bar Yitzchak acrescenta que tal pessoa também afasta de si o temor aos Céus. Segue-se uma pequena anedota: uma mulher que entrou numa casa para amassar pão abortou ao ouvir o cão latir, e respondeu com amargura à tentativa do dono da casa de tranquilizá-la — a bondade de tirar-lhe os dentes e as garras já não muda o que se perdera. A Guemará então traz os ditos de Rav Huna e Reish Lakish sobre um versículo de Kohelet, dividindo-o entre as palavras do impulso mau e as do impulso bom — o primeiro segundo o sentido simples de "alegra-te e segue o coração", o segundo como advertência de que se prestará contas. A Guemará retorna então à Mishná, retomando a cláusula da biriT: Rav Yehuda a identifica com a etzada mencionada na Torá a respeito do despojo de Midiã, o que gera a objeção de Rav Yosef, pois a etzada é impura enquanto a biriT é pura — resolvida com a distinção de que a biriT ocupa, na perna, o lugar que a etzada ocupa no braço. Segue-se a disputa entre Ravin e Rav Huna sobre se a biriT e os kevalim se usam numa perna só ou em ambas, com a corrente entre elas que os torna kevalim, e a dúvida se essa própria corrente os torna um utensílio sujeito a impureza — resolvida com o precedente da família de Jerusalém cujas moças usavam correntes para moderar seus passos. O daf se volta então para o tzitz do Sumo Sacerdote, trazido por Rav Dimi como fonte de que um tecido de qualquer tamanho é impuro — objeção de Abaye, de que o tzitz não é tecido, mas lâmina de ouro, com a descrição de sua inscrição em duas linhas e o testemunho de Rabi Eliezer beRabi Yossi de tê-lo visto em Roma; a retratação de Rav Dimi ao subir a Neharde'a, atribuindo a impureza do tecido a outro versículo; a baraita dos Sábios sobre tecido, ornamento e tecido-e-ornamento de qualquer tamanho; e a versão de Rava, com suas respectivas fontes escriturísticas. O daf termina, mais uma vez de modo excepcional, interrompido no meio de uma derivação por analogia verbal entre a palavra "utensílio" usada a respeito do despojo de Midiã e a mesma palavra usada a respeito dos répteis impuros — a resposta se corta na palavra "aprendeu-se", retomando apenas na abertura de Shabat 64a.
"…a bondade de seu companheiro" — pois em língua grega chamam o cão de "lamás". Disse Rav Nachman bar Yitzchak: também lhe tira o temor aos Céus, como está dito: "e abandonará o temor ao Onipotente".
Completa-se aqui a palavra que ficara cortada ao final de 63a: a "coisa retida" do versículo de Iyov era, no sentido simples, a bondade — pois "lamás", palavra rara e de difícil identificação em hebraico, designa em grego o cão; assim, quem cria um cão perigoso em casa afasta de si a bondade dos pobres que viriam bater à porta. Rav Nachman bar Yitzchak acrescenta uma segunda perda, extraída do restante do mesmo versículo: tal pessoa também se afasta do temor aos Céus.
"De seu companheiro" — afasta a bondade; e, embora não esteja escrito "afasta", isso está implícito, pois toda palavra cuja primeira letra é um mem exprime retirada, como em "e tomou de suas mãos [miyadam]" (Êxodo 32:4), "pereceram as nações de sua terra [me'artzo]" (Salmos 10:16).
Houve certa mulher que entrou numa casa para amassar pão. Latiu-lhe um cão, e desprendeu-se dela sua criança. Disse-lhe o dono da casa: não temas, pois seus dentes foram arrancados e suas garras foram arrancadas. Disse-lhe ela: tua bondade seja tomada e lançada sobre os espinhos — já se moveu a criança.
Uma pequena anedota ilustra na prática o dito anterior: mesmo um cão já inofensivo, sem dentes nem garras, ainda causa dano só por latir — e a mulher, tendo perdido a criança que gerava, rejeita com amargura a tentativa tardia do dono da casa de tranquilizá-la, pois nenhuma bondade poderia desfazer o que já se perdera.
"Para amassar" — para cozer uma massa; o dono da casa lhe emprestara o forno. "Seus dentes foram arrancados" — foram removidos os quatro dentes com que ele morde, chamados nivin, como dizemos no tratado sobre os animais defeituosos (Chulin 59a): "o camelo tem nivin". "Suas garras foram arrancadas" — removidas as unhas com que arranha. "Seja tomada" — tua bondade seja tirada e lançada sobre os espinhos. "Tua bondade" — o benefício e o prazer de tua consolação; equivalente a uma expressão de agradecimento, em francês antigo.
Disse Rav Huna: o que é o que está escrito: "alegra-te, jovem, em tua juventude, e que teu coração te faça bem nos dias de tua mocidade, e anda pelos caminhos de teu coração e pela visão de teus olhos; mas sabe que, por tudo isso, Deus te trará a juízo"? Até aqui, palavras do impulso mau; daqui em diante, palavras do impulso bom.
Rav Huna divide o versículo de Kohelet em duas vozes opostas: a primeira parte, que convida à indulgência dos desejos e sentidos, é a voz do impulso mau; a segunda parte, que adverte sobre o juízo final, é a voz do impulso bom que a interrompe.
"Até aqui" — até "mas sabe que, por tudo isso, etc."
Reish Lakish disse: até aqui, [refere-se] às palavras da Torá; daqui em diante, às boas ações.
Reish Lakish lê o mesmo versículo de modo inteiramente positivo, sem opô-lo a um impulso mau: a primeira parte convida a estudar a Torá com alegria e satisfação do coração, seguindo o entendimento que cada um alcança; a segunda parte adverte que, de tudo o que se aprendeu, no fim se prestarão contas caso não se cumpra.
"Até aqui, para a Torá" — "alegra-te" refere-se a estudar com alegria e bom coração; e "anda pelos caminhos de teu coração" refere-se a entender o que está em teu coração, conforme a visão de teus olhos. "Daqui em diante, para as boas ações" — "mas sabe que, por tudo isso" refere-se a tudo o que aprendeste: no fim prestarás contas se não o cumprires.
"A biriT é pura." Disse Rav Yehuda: esta biriT é uma etzada.
A Guemará retorna à Mishná, agora sobre a cláusula final do daf anterior, para identificar o objeto exato a que ela se refere: Rav Yehuda identifica a biriT com a etzada, ornamento mencionado na própria Torá.
"Etzada" — do braço.
Objetou Rav Yosef: "a biriT é pura, e sai-se com ela em Shabat" — mas a etzada é impura!
Rav Yosef objeta que a identificação de Rav Yehuda contradiz a própria Mishná: se a biriT é a etzada, ela deveria ser impura, pois a etzada é expressamente tratada como impura em outro contexto bíblico.
"Mas a etzada é impura" — pois está escrito, a respeito do despojo de Midiã: "etzada, e bracelete, etc." (Bamidbar 31), e está escrito: "purificai-vos, vós e vossos cativos".
Assim se quer dizer: a biriT ocupa, na perna, o lugar da etzada.
A Guemará resolve a objeção reformulando a identificação: Rav Yehuda não quis dizer que a biriT é literalmente a mesma etzada impura mencionada na Torá, mas que ela desempenha, na perna, uma função equivalente à da etzada no braço — sem, no entanto, compartilhar seu estatuto de impureza, precisamente porque não serve de ornamento exibido, mas de peça que sustenta a roupa da perna, evitando que se descubra.
"Ocupa o lugar da etzada" — a que está no braço; ela permanece na perna para sustentar as ataduras da perna, de modo que não caiam e sua perna se descubra. Por isso é pura, pois não é para ornamento; e não é sequer um utensílio de uso, mas um utensílio que serve a outro utensílio, semelhante aos anéis dos utensílios de que dissemos, no capítulo anterior, que são puros e com os quais se pode saír, pois são necessários para o vestir; e também não há que temer que a retirem para exibi-la, pois com isso não se descobre a perna.
Estavam sentados Ravin e Rav Huna diante de Rav Yirmeya, e Rav Yirmeya estava sentado e dormitando. E Ravin, sentado, disse: a biriT é numa perna só; os kevalim, em ambas.
Uma cena de estudo retrata Ravin discorrendo, ainda em presença de Rav Yirmeya que cochilava, sobre a diferença estrutural entre os dois objetos da Mishná: a biriT se usa numa única perna, ao passo que os kevalim se usam em ambas.
"A biriT numa só" — de suas pernas.
Disse-lhe Rav Huna: tanto uma como outra se usam em duas pernas; e coloca-se uma corrente entre elas, e assim se tornam kevalim.
Rav Huna corrige Ravin: tanto a biriT quanto os kevalim, em si mesmos, se usam igualmente nas duas pernas; a diferença entre eles está em que os kevalim têm, além disso, uma corrente que os une, e é essa corrente que os transforma de simples biriT em kevalim.
Mas será que a corrente que há nele o torna um utensílio?
A Guemará questiona a explicação de Rav Huna: a Mishná ensina que os kevalim são impuros justamente por serem um utensílio; mas seria de esperar que uma simples corrente que une duas biriot, sem função própria além de uni-las, não bastasse para conferir a esse conjunto o estatuto de utensílio sujeito a impureza.
"E a corrente o torna um utensílio" — em tom de pergunta espantada, pois se ensinou que os kevalim são impuros.
E, se dirias que é como [ensinou] Rabi Shmuel bar Nachmani — pois disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yochanan: de onde se aprende que o que emite som em utensílios de metal é impuro? Como está dito: "tudo o que passar pelo fogo" — até mesmo a fala está incluída.
A Guemará propõe uma fonte para a posição de Rav Huna: assim como se aprendeu, num contexto anterior, que um elemento que apenas emite som pode conferir estatuto de utensílio sujeito a impureza a algo que já a receberia por outra via, também aqui a corrente sonora entre as biriot poderia bastar para torná-las kevalim impuros.
"E se dirias que é como [ensinou] Rabi Shmuel, etc." "Que emite som em utensílios de metal" — no início deste capítulo.
Concedido, ali eles precisam do som, e ele realiza uma função; mas aqui, que função realiza [a corrente]?
A comparação é rejeitada: no precedente citado, o som cumpre uma função ativa e desejada — é para isso que o objeto existe; já a corrente entre as biriot não parece cumprir nenhuma função própria, apenas unir dois objetos já completos em si mesmos, o que exigiria uma explicação diferente para seu estatuto de impureza.
Aqui também realiza uma função. Pois disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: havia uma família em Jerusalém cujos passos eram largos, e cujas jovens perdiam os sinais de virgindade; fizeram para elas kevalim, e colocaram uma corrente entre eles, para que seus passos não fossem largos, e suas jovens não perdessem os sinais de virgindade. Rabi Yirmeya despertou de seu sono e disse-lhes: bem dito; e assim disse Rabi Yochanan.
A Guemará traz um precedente concreto que valida a resposta: a corrente entre os kevalim não é adorno vazio, mas cumpre a função ativa de encurtar e conter os passos, evitando um dano físico real, como se deu com uma família de Jerusalém cujas moças passaram a usar tal corrente com esse propósito. É nesse ponto que Rav Yirmeya, que cochilava, desperta e confirma ter ouvido o mesmo ensinamento de seu mestre.
"E fizeram para elas uma corrente, etc." — por isso a corrente é uso da pessoa, e não uso do utensílio propriamente dito, de modo que, quanto a isso, não deveria receber impureza; mas não se sai com elas, pois talvez ela retire a corrente — sendo de ouro — para exibi-la, e, ainda que a retire, sua perna não se descobre, pois a biriT permanece em seu lugar. "Bem dito, e assim disse Rabi Yochanan" — bem disseste, e assim ouvi de Rabi Yochanan.
Quando Rav Dimi veio [da Terra de Israel], disse em nome de Rabi Yochanan: de onde se aprende que um tecido de qualquer tamanho é impuro? Do tzitz.
Deixando o tema da biriT e dos kevalim, a Guemará se volta a uma nova questão sobre impureza ritual, trazida por Rav Dimi na sua chegada da Terra de Israel: até um pedaço muito pequeno de tecido é capaz de receber impureza, e a prova viria do próprio tzitz, a placa frontal do Sumo Sacerdote, contada entre os ornamentos sacerdotais apesar de seu tamanho reduzido.
"Do tzitz" — que é algo pequeno, e a Torá o contou entre os ornamentos do sacerdote.
Disse-lhe Abaye: mas o tzitz é tecido?! Não se ensinou numa baraita: o tzitz é como uma lâmina de ouro, com a largura de dois dedos, e envolve de orelha a orelha; e está escrito nele em duas linhas: "Yod Heh" acima, e "Kodesh Lamed" abaixo?
Abaye rejeita a prova: o tzitz, segundo a descrição precisa de uma baraita, não é um tecido, mas uma placa metálica rígida — de modo que não pode servir de fonte para a impureza de tecidos pequenos, ainda que continue válido como fonte para a impureza de ornamentos pequenos.
"'Yod Heh' acima, 'Kodesh Lamed' abaixo" — ou seja, o Nome completo na linha superior, e "Kodesh Lamed" na linha inferior, para que nenhuma outra letra precedesse o Nome, já que eram duas linhas; e Rabeinu ha-Levi ensina "Kodesh LaHashem" abaixo, o que é a mesma coisa.
E disse Rabi Eliezer beRabi Yossi: eu o vi em Roma, e estava escrito nele "Kodesh LaHashem", numa só linha.
Um testemunho ocular acrescenta um detalhe adicional sobre o próprio tzitz, cujos despojos foram levados a Roma após a destruição do Templo: Rabi Eliezer beRabi Yossi relata tê-lo visto pessoalmente, com a inscrição completa numa única linha, e não em duas, como descrevera a baraita anterior.
"Eu o vi em Roma" — pois ele entrou no tesouro do rei para tomar o que quisesse, como se conta no tratado Meilá (15b), no episódio de Ben Talmion.
Quando Rav Dimi subiu a Neharde'a, mandou-lhes dizer: as palavras que vos disse foram um erro de minha parte; mas assim disseram em nome de Rabi Yochanan: de onde se aprende que um ornamento de qualquer tamanho é impuro? Do tzitz. E de onde se aprende que um tecido de qualquer tamanho é impuro? De "ou vestimenta".
Rav Dimi, ao se mudar para Neharde'a, envia uma retratação formal de seu próprio ensinamento anterior, corrigindo a atribuição das fontes: o tzitz prova a impureza dos ornamentos pequenos, não dos tecidos pequenos; a impureza destes se prova, em vez disso, por outra expressão bíblica, "ou vestimenta", tomada da lista de materiais que podem transmitir impureza de reptéis.
"Quando Rav Dimi subiu a Neharde'a" — retratou-se do que dissera, de que o tzitz é tecido. "'De ou vestimenta'" — pois está escrito, a respeito dos répteis impuros: "ou vestimenta, ou couro, ou..." — e o "ou" é um termo de amplificação.
Ensinaram os Sábios: um tecido de qualquer tamanho é impuro, e um ornamento de qualquer tamanho é impuro; um tecido-e-ornamento de qualquer tamanho é impuro. Isso acrescenta o saco ao vestido, que é impuro por ser tecido.
Uma baraita reúne as três categorias numa única formulação, incluindo o caso de um objeto que é ao mesmo tempo tecido e ornamento; e acrescenta, além disso, que o pano de saco, embora não seja propriamente um vestido, é impuro pela mesma razão que o tecido, sendo essa a categoria mais ampla das três.
"Um tecido-e-ornamento de qualquer tamanho" — metade tecido e metade ornamento que não é tecido, e o todo é "de qualquer tamanho", isto é, algo pequeno. "Isso acrescenta o saco ao vestido" — quanto a isto, que o saco é impuro por ser tecido; e isso se explica mais adiante.
Disse Rava: um tecido de qualquer tamanho é impuro — de "ou vestimenta"; um ornamento de qualquer tamanho é impuro — do tzitz; um tecido-e-ornamento de qualquer tamanho é impuro — de "todo utensílio de trabalho".
Rava organiza a mesma baraita, atribuindo a cada uma das três categorias sua fonte escriturística específica: as duas primeiras, já conhecidas dos ditos anteriores; a terceira, sobre o objeto que é ao mesmo tempo tecido e ornamento, extraída de uma expressão mais ampla sobre utensílios de trabalho, mencionada a respeito do despojo de Midiã.
Disse-lhe um dos Sábios a Rava: isso está escrito a respeito de Midiã!
Um dos Sábios objeta que a expressão "todo utensílio de trabalho" citada por Rava pertence a um contexto distinto — a purificação dos utensílios tomados como despojo na guerra contra Midiã, ligada à impureza de um cadáver —, e não deveria, por isso, ser aplicada sem mais à impureza causada por répteis, cuja severidade é diferente.
"Isso está escrito a respeito de Midiã" — a propósito da impureza de um morto; e, de um réptil, não se deriva para agravar, por comparação com um morto, pois a impureza deste é mais severa.
Disse-lhe: aprendeu-se [por analogia verbal]…
Rava começa a responder à objeção com uma derivação por analogia verbal (gezerá shavá) entre a palavra "utensílio", usada a respeito do despojo de Midiã, e a mesma palavra usada a respeito dos répteis impuros — mas a resposta se corta exatamente no início da explicação, retomando apenas na abertura de Shabat 64a: "'utensílio', 'utensílio', dali".