O daf abre completando a frase que ficara interrompida ao final de 62b: à pergunta sobre o tipo de vinho, o tipo de assento e o tipo de companhia com que os homens de Jerusalém se vangloriavam, soma-se agora a resposta de Rav Chisda — todas aquelas perguntas afetadas, segundo Rashi, eram na verdade eufemismos para o tipo de mulher com quem se tinha relação ilícita, e tudo isso visava à promiscuidade. Um último dito de Rachavá em nome de Rabi Yehuda, sobre as árvores de canela que perfumavam toda a Terra de Israel e foram escondidas com a destruição de Jerusalém, encerra o bloco aggádico. A Guemará então introduz uma nova Mishná, ainda dentro do mesmo perek: o homem não deve sair para o domínio público com espada, arco, escudo, maça ou lança, e, se saiu, é obrigado à oferenda pelo pecado — Rabi Eliezer sustenta que essas armas são ornamento para o homem, e os Sábios sustentam que não passam de desonra, citando o versículo sobre converter espadas em relhas de arado; a Mishná fecha com a biriT, pura e permitida, e os kevalim, impuros e proibidos. A Guemará explica o termo "alah" como um porrete, e explora a posição de Rabi Eliezer através de uma baraita e da réplica de Abaye — "como uma lâmpada ao meio-dia" —, chegando à divergência sobre se as armas, sendo ornamento, permanecerão nos dias do Mashiach: a posição de Shmuel, de que este mundo e os dias do Mashiach diferem apenas quanto à sujeição aos exílios, e a de Rabi Chiya bar Abba, de que todas as profecias de consolação visavam apenas os dias do Mashiach, e não o Mundo Vindouro. Segue-se a cadeia de transmissão sobre a razão de Rabi Eliezer, extraída do versículo "cinge tua espada sobre a coxa", a réplica de Rav Kahana de que esse versículo trata das palavras da Torá, a resposta de que nenhum versículo escapa de seu sentido simples, e o testemunho pessoal de Rav Kahana sobre aprender primeiro e entender depois. O daf se volta então para uma longa série de ditos aggádicos, reunidos sob o sinal mnemônico "zarot", sobre pares de discípulos dos Sábios que estudam juntos — os que se aguçam mutuamente na halachá, os que são brandos um com o outro, os que se escutam, os que se reúnem sob a mesma bandeira —, intercalados com ditos sobre o valor de emprestar e de investir em sociedade, sobre o discípulo rancoroso e sobre o ignorante piedoso. O daf termina, mais uma vez de modo excepcional, interrompido no meio de uma citação bíblica: o dito sobre quem cria um cão perigoso em casa, que afasta a bondade — a própria palavra hebraica do versículo se corta no meio, retomando apenas na abertura de Shabat 63b.
…ou com vinho de mostarda? Num assento largo, ou num assento estreito? Com bom companheiro, ou com mau companheiro? Disse Rav Chisda: e tudo isso visava à promiscuidade.
Completa-se aqui a frase que ficara suspensa ao final de 62b, no meio da descrição da fala pretensiosa dos homens de Jerusalém. Segundo Rashi, cada uma dessas perguntas aparentemente triviais — sobre o tipo de vinho, a largura do assento, a qualidade do companheiro — era na verdade um código: o vinho escuro ou claro designava a cor da pele da mulher, o assento largo ou estreito, se ela era gorda ou magra, e o bom companheiro, uma mulher de boa aparência. Rav Chisda fecha o relato revelando o que essas perguntas afetadas realmente visavam.
"Com vinho de mostarda" — escuro; ou seja, mulher clara ou escura. "Num assento largo" — o leito reclinável em que se recosta na hora de comer; e, quanto ao adultério, mulher gorda. "Estreito" — magra. "Bom companheiro" — mulher de boa aparência.
Disse Rachavá, disse Rabi Yehuda: as árvores de Jerusalém eram de canela, e, na hora em que as acendiam como lenha, seu aroma se espalhava por toda a Terra de Israel. E, desde que Jerusalém foi destruída, foram escondidas, e não restou delas senão o tamanho de um grão de cevada, e se encontra no tesouro da rainha Tzimtzemai.
Encerrando o bloco aggádico sobre a antiga glória de Jerusalém, a Guemará traz um último dito nostálgico: até mesmo as árvores da cidade eram de madeira aromática, e seu perfume, hoje quase completamente perdido, só sobrevive num punhado ínfimo guardado no tesouro de uma rainha estrangeira.
"Da rainha Tzimtzemai" — assim era seu nome.
Mishná: o homem não sai com espada, nem com arco, nem com escudo, nem com maça, nem com lança; e, se saiu, é obrigado à oferenda pelo pecado.
Uma nova Mishná se abre, ainda dentro do mesmo perek, tratando agora do homem: assim como a mulher não sai com certos ornamentos e objetos, também o homem não sai para o domínio público carregando armas — não por serem objetos comuns de transporte proibido, mas porque a Mishná lhes atribuirá a seguir um estatuto próprio, disputado entre Rabi Eliezer e os Sábios.
Mishná: "com maça" alah — explica-se na Guemará: um porrete; em francês antigo, maçue.
Rabi Eliezer diz: eles são ornamento para ele.
Rabi Eliezer discorda da premissa implícita na primeira cláusula: para ele, as armas não são um objeto qualquer transportado sem função, mas verdadeiro ornamento do homem — como uma joia —, e por isso, em princípio, não deveriam gerar responsabilidade por transporte.
E os Sábios dizem: elas não são senão desonra, como está dito: "e converterão suas espadas em relhas de arado, e suas lanças em foices podadeiras; não erguerá espada nação contra nação, e não aprenderão mais a guerra".
Os Sábios discordam, trazendo o versículo messiânico de Yeshayahu sobre a paz universal: se as armas fossem de fato ornamento, não haveria por que abolir seu uso no futuro, como o próprio versículo prevê; sendo abolidas, isso revela que sua verdadeira natureza é a desonra, e não o adorno.
"E converterão suas espadas" — e, se fossem ornamento, não seriam abolidas no futuro.
A biriT — é pura, e sai-se com ela em Shabat.
A Mishná acrescenta duas cláusulas finais sobre objetos afins. A biriT, espécie de tornozeleira ou faixa presa à perna, não recebe impureza ritual, precisamente porque a mulher não a retira em público para exibi-la — sendo assim permitida sua saída com ela em Shabat.
"A biriT" — explica-se na Guemará. "É pura" — não recebe impureza. "E sai-se com ela" — pois ela não a tira para mostrá-la, para que sua perna não seja vista.
Os kevalim — são impuros, e não se sai com eles em Shabat.
Os kevalim, uma espécie de grilhão ou corrente presa entre os dois pés, recebem impureza ritual — ambos os detalhes se explicarão na própria Guemará — e, por serem retirados e exibidos com frequência, a saída com eles em Shabat é proibida.
"Os kevalim são impuros" — explica-se isso na Guemará.
Guemará: o que é a "maça"? Um porrete.
A Guemará abre com uma breve identificação lexical do termo alah, mencionado na Mishná entre as armas proibidas: trata-se de um porrete ou clava.
"Rabi Eliezer diz: eles são ornamento para ele." Ensinou-se numa baraita: disseram a Rabi Eliezer: mas, se são ornamento para ele, por que serão abolidas nos dias do Mashiach? Disse-lhes: porque não serão necessárias, como está dito: "não erguerá espada nação contra nação". Mas que sejam, então, apenas para ornamento! Disse Abaye: é como uma lâmpada ao meio-dia.
Uma baraita traz a mesma objeção dos Sábios contra Rabi Eliezer, formulada agora como pergunta direta a ele: se as armas são de fato ornamento, deveriam permanecer mesmo quando deixarem de ser necessárias para a guerra. Rabi Eliezer responde que sua função é servir de ornamento apenas enquanto necessárias; a objeção final — que poderiam então permanecer como mero adorno, sem função prática — é respondida por Abaye com a imagem de uma lâmpada acesa ao meio-dia: assim como a luz, quando desnecessária, perde sua beleza, também as armas, sem a necessidade da guerra, deixam de ser belas.
Guemará: "lâmpada ao meio-dia" — um candeeiro ao meio-dia, por não ser necessário, não é belo; mas, em nosso tempo, que é tempo de guerra, elas são ornamento.
E isso diverge de Shmuel. Pois disse Shmuel: não há diferença entre este mundo e os dias do Mashiach, senão a sujeição aos exílios apenas, como está dito: "pois não deixará de haver pobre no meio da terra".
A Guemará nota que a posição de Rabi Eliezer — de que as armas serão abolidas nos dias do Mashiach — pressupõe uma mudança substancial na condição do mundo nessa época, o que diverge da posição de Shmuel: para ele, os dias do Mashiach diferem deste mundo apenas quanto ao fim da sujeição política de Israel aos impérios, mas as demais condições — inclusive a existência de pobreza — permanecem inalteradas, como prova o versículo que promete que o pobre nunca deixará de existir.
"E isso diverge" — o que se ensinou, que serão abolidas nos dias do Mashiach, diverge de Shmuel, pois, segundo Shmuel, não serão abolidas nos dias do Mashiach. "Não deixará de haver" — indica para sempre; logo, haverá pobreza e riqueza; conclui-se disso que as consolações profetizadas pelos profetas, inclusive "não haverá mais cananeu" (Zacarias 14:21), não foram profetizadas para os dias do Mashiach, pois estes ainda fazem parte deste mundo — pois, se assim não fosse, cessaria para ti o pobre.
Isso apoia Rabi Chiya bar Abba. Pois disse Rabi Chiya bar Abba: todos os profetas não profetizaram senão para os dias do Mashiach; mas, quanto ao Mundo Vindouro, "olho nenhum viu, ó Deus, além de Ti".
A baraita que atribui a Rabi Eliezer a abolição das armas nos dias do Mashiach serve de apoio à posição de Rabi Chiya bar Abba: todas as profecias de consolação e transformação do mundo — incluindo a promessa de paz universal que motiva a abolição das armas — dizem respeito apenas aos dias do Mashiach, uma época ainda deste mundo; já o Mundo Vindouro propriamente dito transcende toda descrição profética, como atesta o versículo de Yeshayahu.
"Isso apoia" — a baraita que ensina que serão abolidas nos dias do Mashiach apoia Rabi Chiya bar Abba. "Não profetizaram" — refere-se às suas palavras de consolação. "Olho nenhum viu" — o olho dos profetas não teve poder de vê-lo.
E há quem diga: disseram a Rabi Eliezer: mas, se são ornamento para ele, por que serão abolidas nos dias do Mashiach? Disse-lhes: também nos dias do Mashiach não serão abolidas. Isso concorda com Shmuel, e diverge de Rabi Chiya bar Abba.
A Guemará traz uma versão alternativa da mesma baraita, em que a resposta de Rabi Eliezer é invertida: as armas, sendo verdadeiro ornamento, nem sequer serão abolidas nos dias do Mashiach. Essa versão concorda com Shmuel — para quem nada de essencial muda nos dias do Mashiach além da libertação política — e diverge de Rabi Chiya bar Abba, que via ali uma transformação profetizada e completa.
Disse Abaye a Rav Dimi — e há quem diga, a Rav Avya; e há quem diga, Rav Yossef a Rav Dimi; e há quem diga, a Rav Avya; e há quem diga, Abaye a Rav Yossef: qual é a razão de Rabi Eliezer, que diz que são ornamento para ele? Porque está escrito: "cinge tua espada sobre a coxa, ó valente, tua glória e tua majestade".
Registrada com incerteza sobre os exatos interlocutores da cadeia de transmissão — traço comum quando o dito circulava em várias versões orais —, a Guemará traz enfim a fonte escriturística da posição de Rabi Eliezer: um versículo de Salmos que chama a espada cingida à coxa do valente de "sua glória e sua majestade", termos que só se aplicam a um verdadeiro ornamento.
Disse-lhe Rav Kahana a Mar, filho de Rav Huna: mas isso está escrito a respeito das palavras da Torá! Disse-lhe: nenhum versículo escapa de seu sentido simples.
Rav Kahana objeta que o versículo citado, lido em seu contexto original, refere-se não a uma espada literal, mas metaforicamente ao domínio da Torá — a "espada" do estudioso sendo seu conhecimento pronto para o debate. Mar, filho de Rav Huna, responde com um princípio hermenêutico fundamental: mesmo quando um versículo comporta uma leitura alegórica válida, seu sentido literal permanece igualmente verdadeiro, e por isso pode servir de base à posição de Rabi Eliezer.
"Está escrito a respeito das palavras da Torá" — sê cuidadoso em revisar teu estudo, para que esteja pronto para ti na hora do debate, para trazeres prova, como uma espada sobre a coxa do valente para vencer na guerra — e essa é a tua glória e a tua majestade.
Disse Rav Kahana: quando eu tinha dezoito anos, e já havia estudado todo o Talmud, ainda não sabia, até agora, que nenhum versículo escapa de seu sentido simples. O que isso vem nos ensinar? Que a pessoa deve primeiro aprender, e só depois entender.
Rav Kahana conclui a discussão com um testemunho pessoal sobre seu próprio método de estudo: mesmo tendo dominado todo o corpo do Talmud desde jovem, só compreendeu a razão desse princípio hermenêutico específico muito mais tarde. Ele extrai daí uma lição pedagógica geral — vale a pena memorizar e dominar o ensinamento do mestre mesmo antes de compreender plenamente suas razões, pois a compreensão virá depois, apoiada sobre o conhecimento já adquirido.
"Que a pessoa deve aprender" — memorizar o ensinamento de seu mestre, ainda que não conheça todas as suas razões. "E só depois entender" — a razão disso; pois isso era difícil para Rav Kahana, e ele não conhecia essa razão, embora seu domínio do Talmud já estivesse firme nele desde quando tinha dezoito anos.
Sinal mnemônico: "zarot".
Antes de uma longa série de ditos aggádicos, todos transmitidos por Rabi Abba, Rabi Yirmeya e outros Amoraítas em nome de Reish Lakish e Rabi Elazar, a Guemará insere um sinal mnemônico — recurso comum para ajudar os estudantes a memorizar a ordem correta de uma sequência de ensinamentos independentes entre si.
Disse Rabi Yirmeya, disse Rabi Elazar: dois discípulos dos Sábios que se aguçam um ao outro na halachá — o Santo, bendito seja, os faz prosperar, como está dito: "e tua majestade prospera". Não leias "vahadarechá" (tua majestade), mas "vachadadechá" (teu aguçamento). E não só isso, mas também sobem à grandeza, como está dito: "prospera, cavalga". Poderia eu pensar que isso vale mesmo quando não é por seu próprio nome? Ensina o versículo: "pela causa da verdade". Poderia eu pensar que vale mesmo se ele se ensoberbecer? Ensina o versículo: "e a humildade da justiça". E, se assim fazem, merecem a Torá, que foi dada pela mão direita, como está dito: "e Tua mão direita te ensinará coisas terríveis".
Abre-se a série com um dito sobre o valor do debate afiado entre colegas de estudo: quando dois discípulos dos Sábios discutem a halachá para aguçarem mutuamente sua compreensão — e não para humilhar um ao outro —, recebem sucesso e ascensão, desde que o façam com sinceridade de propósito e sem soberba, mérito que a Guemará extrai por leitura homilética sucessiva do mesmo versículo de Salmos.
"Que se aguçam" — que perguntam e respondem, não para humilhar, mas para se aguçarem. "Vahadarechá" — como "vachadadechá". "Te ensinará" — te instruirá.
Rav Nachman bar Yitzchak disse: merecem as coisas ditas do lado direito da Torá. Pois disse Rava bar Rav Sheila — e há quem diga que disse Rav Yossef bar Chama, disse Rav Sheshet: o que está escrito, "longevidade está em sua mão direita; em sua mão esquerda, riqueza e honra"? Mas então, em sua mão direita há longevidade, e riqueza e honra não há? Antes: para os que se voltam para ela pela direita, há longevidade, e tanto mais riqueza e honra; para os que se voltam para ela pela esquerda, há riqueza e honra, mas longevidade não há.
Continuando o tema anterior, Rav Nachman bar Yitzchak acrescenta que o mérito dos que se aguçam mutuamente na halachá é o mérito superior — associado à mão direita da Torá — em contraste com quem se dedica a ela de modo secundário ou por motivos alheios, associado à mão esquerda.
"Riqueza e honra não há" — em tom de espanto: já que há longevidade, tanto mais riqueza e honra. "Para os que se voltam pela direita" — da Torá, que examinam suas razões com precisão e as selecionam, como a mão direita, hábil para o trabalho. "Para os que se voltam pela esquerda" — que não se esforçam nela o quanto deveriam; ou, ainda, os que se voltam pela direita são os que se ocupam dela por seu próprio nome, e os que se voltam pela esquerda, os que se ocupam dela não por seu próprio nome.
Disse Rabi Yirmeya, disse Rabi Shimon ben Lakish: dois discípulos dos Sábios que são brandos um com o outro na halachá — o Santo, bendito seja, os escuta, como está dito: "então conversaram os que temem o Eterno, etc." — "conversar" não significa senão brandura, como está dito: "sujeitará povos debaixo de nós".
Um segundo dito, complementar ao primeiro, valoriza não a agudeza do debate, mas sua condução amena: dois estudiosos que discutem a halachá com espírito manso e receptivo, sem aspereza, merecem que o próprio Eterno preste atenção às suas palavras.
"Que são brandos um com o outro" — que discutem com espírito ameno, ocupando-se para aprenderem um com o outro. "Sujeitará povos debaixo de nós" — humilhará; e toda humilhação se faz com brandura. Outra explicação: "os que são brandos" são os que se conduzem um ao outro rumo ao entendimento da halachá, como em "vai, conduze" (Êxodo 32:34) — "yadber" é a tradução aramaica de "conduzir".
O que é "e para os que pensam em Seu nome"? Disse Rabi Ami: mesmo que alguém tenha pensado em cumprir um preceito, e tenha sido impedido por força maior e não o tenha cumprido, a Escritura o considera como se o tivesse cumprido.
Ainda a partir do mesmo versículo de Malaquias, a Guemará traz um dito de Rabi Ami sobre a intenção sincera de cumprir um mandamento: quando as circunstâncias impedem sua execução apesar da vontade genuína, o mérito é contado como se o preceito tivesse sido cumprido de fato.
Disse Rav Chinena bar Idi: todo aquele que cumpre um preceito conforme seu enunciado não recebe más notícias, como está dito: "quem guarda o preceito não conhecerá coisa má".
Um novo dito, apoiado num versículo de Provérbios, promete proteção contra más notícias a quem cumpre os preceitos com exatidão e fidelidade a seu enunciado original — servindo de base ao dito seguinte, que radicaliza ainda mais essa promessa.
Disse Rav Assi — e há quem diga que foi Rabi Chanina: mesmo quando o Santo, bendito seja, decreta um decreto, Ele mesmo o anula. Como está dito: "porquanto a palavra do rei tem poder, e quem lhe dirá: que fazes?" — e, logo em seguida: "quem guarda o preceito não conhecerá coisa má".
A partir da justaposição de dois versículos consecutivos em Provérbios, a Guemará extrai um dito ousado: por mais que o versículo pareça afirmar que ninguém pode questionar um decreto divino, o próprio guardião fiel dos preceitos tem esse poder — e o Eterno mesmo anula, em seu favor, decretos que de outro modo se cumpririam.
"E quem lhe dirá: que fazes?" — quem guarda o preceito poderá dizer-lhe.
Disse Rabi Abba, disse Rabi Shimon ben Lakish: dois discípulos dos Sábios que se escutam um ao outro na halachá — o Santo, bendito seja, ouve sua voz, como está dito: "ó tu que habitas nos jardins, os companheiros escutam tua voz; faze-me ouvi-la".
Retomando o tema dos pares de estudiosos, agora sob a autoria de Rabi Abba em nome de Reish Lakish, a Guemará traz mais um dito na mesma série: os que verdadeiramente se escutam e se compreendem no estudo conjunto da halachá têm sua voz de estudo ouvida pelo próprio Eterno, lido no versículo do Cântico dos Cânticos.
"Que se escutam" — que ensinam um ao outro e entendem um do outro; e a Guemará adota a linguagem do versículo. "Nos jardins" — as casas de estudo. "Os companheiros escutam" — um ao outro; a eles digo: que me façam ouvir sua voz, e eu lhes responderei.
E, se não fazem assim, causam que a Presença Divina se retire de Israel, como está dito: "foge, meu amado, e assemelha-te, etc.".
Como contraponto ao dito anterior, a Guemará acrescenta a consequência do fracasso: quando os discípulos dos Sábios não se escutam nem se compreendem mutuamente, o próprio versículo seguinte do Cântico dos Cânticos — que fala da partida do amado — passa a descrever a retirada da Presença Divina de Israel.
"Foge, meu amado" — está escrito logo depois.
Disse Rabi Abba, disse Rabi Shimon ben Lakish: dois discípulos dos Sábios que se reúnem sob a mesma bandeira um com o outro na halachá — o Santo, bendito seja, os ama, como está dito: "e sua bandeira sobre mim é amor". Disse Rava: e isso quando já conhecem o esboço do ensinamento; e isso quando não têm mestre maior na cidade de quem aprender.
Um terceiro dito da mesma série descreve colegas de estudo que, sem mestre disponível, se reúnem por conta própria para avançar juntos no estudo — imagem tomada de novo do Cântico dos Cânticos. Rava qualifica o elogio: ele vale apenas quando os dois já possuem alguma base sólida do assunto e realmente não têm acesso a um mestre superior na cidade; do contrário, deveriam procurar aprender com ele em vez de se apoiarem apenas um no outro.
"Que se reúnem sob a mesma bandeira" — que se juntam um ao outro e dizem: vem, e estudemos, e entendamos entre nós dois, já que não temos mestre que nos ensine. "O esboço" — a raiz do assunto, que já aprenderam um pouco de seu mestre.
Disse Rabi Abba, disse Rabi Shimon ben Lakish: maior é aquele que empresta do que aquele que faz caridade; e aquele que investe em sociedade, maior que todos.
A série continua, ainda em nome de Rabi Abba, mas agora sobre um tema distinto — a caridade discreta. O empréstimo é superior à doação porque preserva a dignidade do pobre, que não se envergonha de recebê-lo; e melhor ainda é associar-se a ele em sociedade comercial, forma de ajuda que dissolve por completo a distinção entre benfeitor e beneficiado.
"Maior é aquele que empresta" — porque o pobre não se envergonha da coisa. "E aquele que investe em sociedade" — dinheiro e mercadorias, para lucrarem juntos por metade do ganho; e, por estar tratando de Rabi Abba em nome de Reish Lakish, a Guemará traz todos estes ditos aggádicos que Rabi Abba transmitiu em seu nome.
Disse Rabi Abba, disse Rabi Shimon ben Lakish: se um discípulo dos Sábios guarda rancor e vingança, como uma serpente, cinge-o à tua cintura; se um ignorante em Torá é piedoso, não habites em sua vizinhança.
Um dito final, mais paradoxal: mesmo o discípulo dos Sábios de temperamento vingativo deve ser mantido próximo — como uma arma cingida à cintura —, pois no fim se beneficiará de seu ensinamento; já o ignorante em Torá, mesmo sendo pessoalmente piedoso, deve ser evitado como vizinho, pois sua piedade, não fundamentada no conhecimento preciso dos preceitos, é incompleta e pode induzir a erro.
"Cinge-o" — apega-te a ele, pois no fim te beneficiarás de seu ensinamento. "Não habites em sua vizinhança" — pois ele não conhece as minúcias dos preceitos, e sua piedade não é completa, e no fim aprenderás com ele por mau exemplo.
Disse Rav Kahana, disse Rabi Shimon ben Lakish — e há quem diga que disse Rav Assi, disse Reish Lakish; e há quem diga que disse Rabi Abba, disse Rabi Shimon ben Lakish: todo aquele que cria um cão perigoso em sua casa afasta a bondade de dentro de sua casa, como está dito: "para lamas…
O último dito da série, também transmitido por vias variadas, condena quem mantém um cão perigoso em casa: o animal afasta os pobres que viriam bater à porta em busca de caridade, privando a casa da bondade que de outro modo receberia. A prova escriturística, tirada de um versículo de Jó que emprega a palavra rara "lamás" — segundo Rashi, "cão" em língua grega —, fica interrompida bem no meio da própria palavra hebraica citada, e só se completa na abertura de Shabat 63b.