O daf abre concluindo o relato iniciado em 33b: os moradores locais informam Rabi Shimon bar Yochai de que há um lugar sobre o qual paira dúvida de impureza, causando sofrimento aos kohanim, que precisam contorná-lo por um caminho longo. Um velho lhe indica que ali Ben Zakai (Rabban Yochanan ben Zakai) outrora cortou tremoços de teruma, marcando o solo; Rabi Shimon segue esse mesmo método, purificando tudo onde a terra estava firme e marcando com sinal tudo onde estava solta. O mesmo velho, então, proclama publicamente que "bar Yochai purificou um cemitério" — provocando de Rabi Shimon uma resposta cortante sobre a hipocrisia de quem participa de uma decisão e depois a denuncia, seguida da morte do velho pelo próprio olhar de Rabi Shimon. Ao sair para a praça, Rabi Shimon avista Yehuda ben Guerim — o delator cujas palavras haviam levado à sua sentença de morte em 33b — e, com um único olhar, o transforma num monte de ossos, fechando definitivamente o longo relato agádico iniciado ainda em 33b. O daf then passa à nova Mishná do Perek Bet: as três coisas que todo homem deve perguntar em sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer — "dizimastes?", "fizestes o eiruv?" e "acendei a vela" —, com a distinção, no caso de dúvida sobre se já escureceu, entre o que ainda se pode fazer (eiruv, e guardar comida quente) e o que não se pode mais (dizimar o certamente não dizimado, imergir utensílios, acender velas). A Guemará busca a fonte bíblica dessa Mishná no versículo de Jó sobre "saber que há paz em tua tenda", debate o tom correto — ameno, não autoritário — com que essas três coisas devem ser ditas, e resolve uma aparente contradição interna da Mishná quanto ao horário de dizer essas palavras. Segue-se um mnemônico e uma extensa sugya sobre eiruvei techumin e eiruvei chatzerot: o caso de dois vizinhos que pedem a alguém para fazer eiruv por eles em horários diferentes do crepúsculo, ambos adquirindo o eiruv por razões opostas mas complementares; a objeção lógica de que isso pareceria impossível dos dois lados, resolvida pela regra de que a dúvida sobre o crepúsculo, sendo uma dúvida rabínica, se resolve para a leniência; e, por fim, a pergunta de Rava sobre por que não se pode guardar comida quente, depois de escurecido, em material que não aumenta o calor — respondida como um decreto contra ferver a comida novamente, com a réplica de Abaye sobre o próprio crepúsculo e a resposta final de que panelas retiradas do fogo perto do anoitecer ainda estão fervendo, sem risco de esfriar.
E havia (por causa desse lugar) sofrimento para os kohanim, que precisavam contorná-lo (por um caminho longo, para não se contaminar). Disse (Rabi Shimon): há alguém que saiba (dizer) que aqui se estabeleceu (um estado de) pureza? Disse-lhe um certo velho: aqui Ben Zakai (Rabban Yochanan ben Zakai) cortou tremoços de teruma (marcando, com esse ato, que o solo daquele ponto específico era puro). Fez ele (Rabi Shimon) também assim: todo lugar em que (a terra) estava firme (compacta, sinal de que nunca fora escavada para sepultamento) — purificou-o; e todo lugar em que estava solta — marcou-o (com um sinal de impureza).
O daf abre retomando exatamente onde 33b parou: Rabi Shimon bar Yochai, já reintegrado ao mundo e desejoso de realizar um reparo em gratidão pelo milagre que lhe ocorrera, à semelhança de Jacó em Shechém, pergunta aos moradores locais se há algo que precise de conserto. A resposta é que existe um lugar cuja condição de pureza é duvidosa — presumivelmente suspeito de conter sepulturas antigas —, obrigando os kohanim, que não podem se contaminar por contato com os mortos, a um desvio longo e penoso para evitá-lo. Rabi Shimon pergunta se alguém tem uma tradição confiável sobre a pureza do local, e um velho lhe informa que ali mesmo Rabban Yochanan ben Zakai (uma das maiores autoridades da geração anterior à destruição do Templo) havia cortado tremoços de teruma — um alimento sagrado que só pode ser consumido em estado de pureza; o próprio ato de cortá-los ali, segundo a lógica do relato, era prova de que aquele ponto específico do terreno era conhecidamente puro. Rabi Shimon adota o mesmo método para investigar e demarcar toda a área: onde a terra estava firme e compacta — sinal de que o solo nunca fora revolvido para abrir uma sepultura —, ele a declara pura; onde estava solta e recém-mexida, ele a marca como impura, poupando os kohanim de precisar evitar toda a região.
"E havia sofrimento para (os kohanim, que precisavam) contornar" — pois aquele mercado, sobre o qual havia a dúvida, era o lugar de passagem da cidade para o público em geral, e os kohanim não podiam entrar ali por causa da impureza, e precisavam contornar por outro caminho, longo.
"Há alguém que saiba que se estabeleceu pureza" — nesse mercado, desde sempre, (alguém que saiba) que não havia ali um verdadeiro cemitério, e que não fora concedido para (esse fim).
"Aqui cortou Ben Zakai" — plantou-os e os arrancou depois de crescidos.
"Tremoços de teruma" — que precisam ser guardados em pureza; e ele (Rabban Yochanan ben Zakai) também era kohen, como dizemos (na Tosefta de Pará, cap. 3): "se esqueci o que minhas (próprias) mãos fizeram (ainda assim confio no sinal que deixei)".
"Fez ele também assim" — cortava tremoços e os lançava ali, e ocorreu um milagre, e (o corpo do) morto flutuava (à superfície) no lugar em que estava, e marcavam o lugar da sepultura. Assim se explica na Pesikta, na porção do Omer, e no Seder Zeraim do Yerushalmi.
Disse aquele velho: "bar Yochai purificou o cemitério"! Disse-lhe (Rabi Shimon): se não tivesses estado (presente) conosco (quando fiz o exame), e ainda que tivesses estado conosco, mas não tivesses sido contado entre nós (isto é, não tivesses participado da decisão) — bem dirias (criticando-me, e eu não teria do que reclamar). Mas agora que estiveste conosco, e foste contado entre nós (participando do próprio ato de marcação), dirão: "as prostitutas se enfeitam umas às outras (cobrindo-se mutuamente de elogios falsos), e os discípulos dos sábios, não seria ainda mais (razoável esperar lealdade)?!" Fixou nele seu olhar, e (o velho) descansou sua alma (morreu). Saiu (Rabi Shimon) para a praça, viu Yehuda ben Guerim. Disse: ainda tem este (homem lugar) no mundo? Fixou nele seus olhos, e o tornou um monte de ossos.
O mesmo velho que revelara o método de purificação a Rabi Shimon torna-se, em seguida, sua própria denúncia pública: ele proclama, diante de todos, que "bar Yochai purificou um cemitério" — uma acusação carregada de insinuação, sugerindo que Rabi Shimon teria agido de modo leviano ou incorreto em matéria de pureza ritual, um assunto de extrema gravidade. A resposta de Rabi Shimon é demolidora: ele não objeta à crítica em si, mas à hipocrisia de quem a formula — pois o próprio velho estivera presente durante todo o processo de exame e marcação do terreno, participando ativamente da decisão como parte do grupo consultado. Se ele tivesse permanecido à margem, sem envolvimento direto, sua crítica posterior seria legítima; mas, tendo participado da própria deliberação e, implicitamente, concordado com o resultado, sua denúncia pública equivale à falsidade das prostitutas que se elogiam mutuamente em público para depois se difamarem em segredo — um padrão de deslealdade que, argumenta Rabi Shimon, seria ainda mais grave e inaceitável entre discípulos dos sábios, que deveriam pautar-se por um padrão moral superior. Com um único olhar — o mesmo poder que, ao sair da caverna, incinerava tudo o que tocava — Rabi Shimon causa a morte do velho. Em seguida, ao sair para a praça pública, Rabi Shimon avista Yehuda ben Guerim, o mesmo delator cujas palavras relatadas ao governo, em 33b, haviam levado à sentença de morte contra o próprio Rabi Shimon, obrigando-o a fugir e se esconder por doze anos. Ao vê-lo ainda vivo, Rabi Shimon expressa sua indignação de que tal homem ainda tivesse lugar no mundo, e, com o mesmo olhar fulminante, o reduz instantaneamente a um monte de ossos — fechando definitivamente, com essa cena severa, todo o longo relato agádico que ocupou o final de 33b e o início deste daf.
"Estiveste" — presente (no momento do exame).
"E foste contado" — concordaste com nossa opinião, para seres (incluído) no número (dos que decidiram).
"Se enfeitam umas às outras" — o cabelo de sua companheira, para que fique bela.
"Um monte de ossos" — como um morto cuja carne já apodreceu e caiu há muito tempo.
Três coisas precisa o homem dizer dentro de sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer: "dizimastes?"; "fizestes o eiruv?" — "acendei a vela". (Se houver) dúvida (se) já escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu — não se dizima o (produto) certamente (não dizimado), nem se imergem (em pureza) os utensílios, nem se acendem as velas; mas se dizima o demai (produto de dizimação duvidosa), e se faz o eiruv, e se guarda comida quente.
Encerrado o relato agádico, a Mishná abre uma nova sugya, ainda dentro do Perek Bet, "Bameh Madlikin", sobre os deveres práticos do dono da casa na véspera de Shabat. Três lembretes devem ser feitos em voz alta dentro de casa, ao entardecer, pouco antes do anoitecer: perguntar se os alimentos já foram dizimados (separando o maasser, o dízimo, dos produtos agrícolas que serão consumidos na refeição de Shabat), perguntar se o eiruv foi providenciado (seja o eiruv de techumin, que estende o limite de caminhada permitido, seja o de chatzerot, que permite carregar objetos entre os pátios de uma vizinhança), e, por fim, ordenar diretamente que se acenda a vela de Shabat — este último formulado como mandamento direto, e não como pergunta, pois, sendo uma ação visível, não há razão para simplesmente perguntar se já foi feita. A Mishná então trata do caso em que há dúvida sobre se o anoitecer (o crepúsculo, bein hashmashot) já ocorreu ou não: nesse período incerto, três ações que envolvem uma proibição mais séria ou definitiva já não podem mais ser realizadas — dizimar um produto que é certamente não dizimado (pois isso constitui um "reparo" pleno do produto, proibido em Shabat mesmo por decreto rabínico), imergir utensílios em água para purificá-los, e acender velas (proibição de origem bíblica, mais grave que as demais). Mas três outras ações, de caráter mais leniente, ainda são permitidas nesse horário duvidoso: dizimar o demai (produto comprado de um am ha'aretz, cuja dizimação é apenas duvidosa e cuja separação é, portanto, apenas de instituição rabínica), fazer o eiruv, e guardar comida quente para preservar seu calor durante o Shabat.
"Mishná: ao anoitecer" — pois, se (o dono da casa) se apressasse a mencioná-las ainda de dia, (os da casa) poderiam negligenciar, dizendo: "ainda há tempo".
"Dizimastes" — os frutos da árvore para a refeição de Shabat, pois até a comida ocasional de Shabat torna (o produto) obrigado ao dízimo, como dizemos no tratado Beitzá (34b), pois Shabat se chama "prazer" (oneg) mesmo por qualquer quantidade, sendo (considerada) prazer.
"Fizestes o eiruv" — eiruvei techumin e chatzerot; e estas duas (perguntas) convém dizê-las em forma de pergunta, pois talvez já tenham sido feitas; mas quanto à vela não convém (dizer) "acendestes", pois é coisa visível a olho nu (e não haveria dúvida).
"Dúvida (se) escureceu" — como no bein hashmashot (crepúsculo); não se dizima o (produto) certamente (não dizimado), pois é um reparo pleno; e ainda que seja apenas um shevut (proibição rabínica leve), (a Mishná) considera que decretaram o shevut mesmo sobre o bein hashmashot.
"Nem se imergem os utensílios" — pois isso também é um shevut, como dizemos no tratado Beitzá (18a), pois parece como quem repara um utensílio.
"Nem se acendem as velas" — tanto mais, pois é dúvida (sobre proibição) de origem bíblica; e (a Mishná) ensina isto e "nem é preciso dizer" aquilo (em ordem crescente de gravidade).
"Mas se dizima o demai" — pois isso não se assemelha a "reparar", já que a maioria dos amei ha'aretz (já) dizimam (e a separação é apenas uma precaução).
"E se guarda comida quente" — colocando-a numa cesta de lã cardada, para que seu calor se preserve nela; mas depois que certamente escureceu, não se guarda (mais), como se explica na Guemará.
De onde (se aprendem) estas coisas? Disse Rabi Yehoshua ben Levi: disse o versículo: "e saberás que há paz em tua tenda, e visitarás tua morada, e não pecarás" (Jó 5:24). Disse Rabá bar Rav Huna: ainda que os Sábios tenham dito "três coisas precisa o homem dizer (em sua casa)", etc. — precisa dizê-las com tranquilidade (de modo ameno, não ríspido), para que as aceitem dele. Disse Rav Ashi: eu não tinha ouvido este ensinamento de Rabá bar Rav Huna, mas o estabeleci por raciocínio próprio.
A Guemará busca a base bíblica para a exigência da Mishná de que essas três coisas sejam ditas explicitamente antes de Shabat. Rabi Yehoshua ben Levi encontra a fonte num versículo de Jó, que promete a quem age corretamente: "saberás que há paz em tua tenda, e visitarás tua morada, e não pecarás" — interpretado como uma instrução para "visitar", isto é, verificar ativamente, o estado da própria casa antes do início do Shabat, garantindo que tudo esteja em ordem para que não se venha a pecar por transgredir inadvertidamente uma proibição sabática. Rabá bar Rav Huna acrescenta uma qualificação importante sobre o modo de dizer essas três coisas: mesmo sendo um lembrete necessário, ele deve ser pronunciado com tranquilidade e delicadeza, não como uma ordem ríspida ou uma repreensão — pois um tom ameno tem muito mais chance de ser bem recebido e efetivamente seguido pelos membros da casa do que uma cobrança agressiva, que tende a gerar resistência. Rav Ashi confirma essa mesma conclusão, mas esclarece que chegou a ela de forma independente, por seu próprio raciocínio, sem conhecer previamente o ensinamento de Rabá bar Rav Huna — uma nota editorial que confirma a solidez do princípio, alcançado por duas vias distintas.
"Guemará: ao anoitecer" — (isto é, o momento de dizer as três coisas) ainda é de dia, e há tempo para dizimar e fazer o eiruv (antes que efetivamente escureça).
Isto mesmo é (uma) dificuldade: disseste (na Mishná): "três coisas precisa o homem dizer dentro de sua casa na véspera de Shabat, ao anoitecer". (Isso implica que) "ao anoitecer" — sim (se diz); "dúvida (se) escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu" — não (se diz, isto é, não se faz mais o eiruv nesse horário). Mas (a Mishná) depois ensina: "dúvida (se) escureceu, dúvida (se) ainda não escureceu — se faz o eiruv" (contradizendo a implicação anterior).
A Guemará aponta uma tensão interna na própria Mishná. A primeira cláusula, ao especificar que as três coisas — incluindo a pergunta sobre o eiruv — devem ser ditas "ao anoitecer" (um momento ainda de dia, com tempo suficiente para agir), parece implicar, por exclusão, que no horário de dúvida sobre o crepúsculo (bein hashmashot) já não seria mais apropriado sequer perguntar sobre o eiruv, pois seria tarde demais. No entanto, a própria Mishná, em sua segunda cláusula, afirma explicitamente que, mesmo nesse horário duvidoso, ainda se pode fazer o eiruv — uma aparente contradição entre as duas partes do mesmo texto, que a Guemará agora precisa resolver.
Disse Rabi Aba, disse Rav Chiya bar Ashi, disse Rav: não é (uma) dificuldade: aqui (a primeira cláusula, que exclui o horário duvidoso) trata de eiruvei techumin (eiruv de limites de caminhada); ali (a segunda cláusula, que permite no horário duvidoso) trata de eiruvei chatzerot (eiruv de pátios).
Rav resolve a contradição distinguindo os dois tipos de eiruv mencionados implicitamente pela Mishná. O eiruv de techumin, que estabelece o ponto a partir do qual se conta o limite de dois mil cótovelos que uma pessoa pode caminhar em Shabat, é considerado um "reparo" mais substancial e formal — por isso, no horário duvidoso do crepúsculo, já não se deve mais fazê-lo, assim como não se dizima o certamente não dizimado nesse mesmo período. Já o eiruv de chatzerot, que permite aos moradores de um pátio comum carregar objetos entre suas casas e o pátio em Shabat, é considerado uma estringência meramente adicional, de menor gravidade — e por isso ainda pode ser feito mesmo no horário de dúvida sobre o anoitecer, de modo semelhante à leniência concedida ao dízimo do demai.
E disse Rava: disseram-lhe dois (vizinhos a um terceiro): "vai e faze eiruv por nós" (estabelecendo um eiruv de techumin em nosso nome, depositando comida no local desejado); para um, ele fez eiruv ainda de dia; para o outro, ele fez eiruv no bein hashmashot (crepúsculo). Aquele para quem fez eiruv ainda de dia — seu eiruv foi comido (por um animal ou pessoa) no bein hashmashot; e aquele para quem fez eiruv no bein hashmashot — seu eiruv foi comido depois que já escureceu (certamente). Ambos adquiriram o eiruv.
Rava apresenta um caso complexo que ilustra a leniência do horário duvidoso do crepúsculo aplicada de modo simultâneo, mas em direções opostas, a dois vizinhos diferentes. Ambos pedem a um terceiro que estabeleça, em seu nome, um eiruv de techumin — depositando comida num ponto específico antes do anoitecer, o que lhes permitirá, no Shabat seguinte, caminhar dois mil cótovelos a partir daquele ponto, em vez de a partir de sua própria casa. Para o primeiro vizinho, o eiruv foi depositado ainda de dia, com tempo de sobra; para o segundo, foi depositado apenas durante o próprio bein hashmashot, o crepúsculo duvidoso. O problema surge quando, em ambos os casos, o alimento depositado como eiruv acaba sendo consumido por um animal ou uma pessoa — mas em momentos diferentes: o eiruv do primeiro vizinho é comido justamente durante o bein hashmashot, enquanto o eiruv do segundo é comido só depois que certamente já escureceu. A conclusão de Rava é que, surpreendentemente, ambos os vizinhos adquirem validamente seu eiruv, apesar de a comida ter sido destruída em ambos os casos — um resultado que a Guemará explicará no segmento seguinte através da natureza dupla e ambígua do próprio bein hashmashot.
"Em eiruvei techumin" — (é considerado) um reparo pleno, pois os Sábios o basearam (no versículo) "lugar" (referente ao maná), e mesmo segundo quem diz que os limites (techumin) são de instituição rabínica, como dizemos em Eruvin (51a): "deriva-se 'lugar' de 'lugar', e 'lugar' de 'fuga'", etc. Mas eiruvei chatzerot é apenas uma estringência adicional, e não se chama "repouso pleno", e a dúvida do bein hashmashot convém (ser tratada com leniência).
Seja como for (há uma dificuldade): se o bein hashmashot é (considerado) dia — que adquira o último (o segundo vizinho, cujo eiruv foi comido depois de certamente escurecido, isto é, depois que o dia terminou), e que não adquira o primeiro (cujo eiruv foi comido justamente durante o bein hashmashot, ainda de dia)! E se o bein hashmashot é (considerado) noite — que adquira o primeiro, e que não adquira o segundo! (Resposta:) o bein hashmashot é uma dúvida, e dúvida (de origem) rabínica (se resolve) para a leniência.
A Guemará levanta a objeção lógica óbvia ao caso de Rava: o bein hashmashot deveria ter um status fixo — ou é considerado parte do dia anterior, ou já é considerado parte da noite seguinte — e, seja qual for a resposta, apenas um dos dois vizinhos deveria conseguir adquirir seu eiruv, não ambos. Se o crepúsculo é tratado como ainda sendo dia, então o eiruv do primeiro vizinho (comido durante esse período, portanto "durante o dia") deveria ser considerado destruído antes que o eiruv tivesse efeito, invalidando-o; enquanto o eiruv do segundo vizinho, comido só depois que certamente escureceu (ou seja, comido à noite, depois que o eiruv já teria tomado efeito no início da noite), deveria ser válido. Inversamente, se o crepúsculo é tratado como já sendo noite, a lógica se inverteria completamente. A resposta da Guemará resolve essa aparente incoerência apontando que o próprio status do bein hashmashot é, por definição, uma dúvida não resolvida — ele pode ser dia ou pode ser noite, e o próprio sistema legal talmúdico trata essa incerteza como uma dúvida de caráter rabínico (pois a categoria em si é produto da preocupação rabínica com o momento exato da transição). Por serem dúvidas de origem rabínica, ambas se resolvem para a leniência: no caso do primeiro vizinho, aplica-se a leniência de considerar o bein hashmashot como noite (de modo que seu eiruv já havia tomado efeito antes de ser comido); no caso do segundo vizinho, aplica-se a leniência oposta, considerando o bein hashmashot como dia (de modo que seu eiruv só foi efetivamente destruído depois que a noite — e portanto o efeito do eiruv — já havia começado). Cada vizinho recebe a leniência que lhe é favorável, ainda que as duas leniências sejam logicamente opostas entre si.
"O bein hashmashot adquire o eiruv" — pois é o início da santidade do dia (de Shabat, quando tratado como noite).
"Foi comido" — que um cão ou uma pessoa o comeu.
"Que fez eiruv (por ele) ainda de dia" — depositou o eiruv no fim do limite (techum) ainda de dia, e não deu tempo de escurecer de fato, até que foi comido no bein hashmashot.
"Ambos adquiriram o eiruv" — pois, quanto a este cujo (eiruv) foi comido no bein hashmashot, tratamo-lo como noite, e dizemos que o dia (de Shabat) já havia se santificado enquanto o eiruv ainda existia, e (portanto) adquiriu o eiruv — pois a halachá segue Rabi Yosei, que diz em Eruvin (35a) que "eiruv duvidoso é válido"; e quanto a este cujo (eiruv) foi depositado no bein hashmashot e perdurou até escurecer, tratamos o bein hashmashot como dia, e o dia ainda não se havia santificado quando foi depositado, e resulta que (o eiruv) já estava ali no momento da aquisição do eiruv.
Disse Rava: por que disseram que não se guarda (comida quente) em algo que não aumenta o calor, depois que escureceu? — (É) decreto, para que não venha a fervê-la novamente. Disse-lhe Abaye: se assim, que se decrete também sobre o bein hashmashot! Disse-lhe: as panelas, em geral, ainda estão fervendo (nesse horário, e não há risco).
A Guemará passa a uma nova pergunta de Rava, relacionada à última cláusula da Mishná — a permissão de guardar comida quente mesmo no horário duvidoso do crepúsculo. Rava pergunta qual é a razão pela qual os Sábios proibiram guardar comida quente, depois que já escureceu com certeza, mesmo num material que não aumenta o calor da comida (apenas preserva o calor já existente, sem acrescentar calor novo, o que a princípio pareceria inofensivo). A resposta é que se trata de um decreto preventivo: teme-se que, ao constatar que a comida esfriou mais do que o desejado, a pessoa seja tentada a colocá-la de volta ao fogo para fervê-la novamente — um ato que constituiria cozinhar em Shabat, uma violação bíblica grave. Abaye então desafia essa lógica: se o receio é esse, por que a mesma preocupação não se aplicaria igualmente ao próprio horário do bein hashmashot, quando a Mishná permite explicitamente guardar a comida quente? Rava responde que, nesse horário específico — o crepúsculo, imediatamente antes do anoitecer —, é razoável presumir que as panelas retiradas do fogo ainda estão efetivamente fervendo, tão pouco tempo se passou desde que estavam sobre o fogo; não havendo, portanto, risco realista de que a pessoa sinta necessidade de reaquecê-las, o decreto preventivo simplesmente não se aplica a esse caso.
Assim se lê o texto: "disse Rava: por que disseram que não se guarda em algo que não aumenta o calor" — como lã e algodão cardado.
"Depois que escureceu" — como ensinamos na Mishná: "e se guarda comida quente"; a razão é que (há apenas) dúvida (se) escureceu; mas se certamente já escureceu, não se guarda; e o guardar comum é feito em algo que não aumenta o calor, pois em algo que aumenta o calor é proibido mesmo ainda de dia, como ensinamos no Perek Dalet (47b): "não se guarda em bagaço de azeitonas", etc. — (é) decreto, para que não encontre sua panela esfriada, ao querer guardá-la, e a ferva primeiro, resultando em cozinhar em Shabat.
"Se aqui, que se decrete também sobre o bein hashmashot" — pois este (decreto) é um shevut pleno, já que há (nele) um decreto contra uma proibição de origem bíblica; e o (autor da) Mishná sustenta que decretaram o shevut mesmo no bein hashmashot, pois ensina: "não se dizima o certamente (não dizimado)".
"Estão fervendo" — pois é perto do bein hashmashot que (a pessoa) as retira do fogo, e não há (razão) para temer que (a comida) tenha esfriado e venha a fervê-la (novamente).
E disse Rava: (o daf termina aqui, com a abertura de um novo ensinamento de Rava, cuja continuação prossegue em 34b).
O daf se encerra, em seu último segmento, no meio de uma nova citação: "e disse Rava" — a fórmula introdutória de um ensinamento que fica genuinamente interrompido no limite do daf, sem que seu conteúdo seja revelado. A continuação dessa frase, e o ensinamento que Rava está prestes a transmitir, seguem apenas no início de 34b, mantendo o padrão característico do Talmud Bavli de encerrar folhas no meio de uma unidade de pensamento, obrigando o leitor a prosseguir para a página seguinte.