O daf abre concluindo a baraita sobre a origem da askara: ela vem ao mundo pela negligência de maasrot (dízimos), segundo a opinião anônima, ou, segundo Rabi Elazar bar Rabi Yosei, pela maledicência — apoiada num versículo de Salmos sobre a boca dos mentirosos que será fechada. A Guemará então investiga se Rabi Elazar quis dizer que a causa é apenas a maledicência ou também a maledicência, resolvendo essa dúvida por meio do célebre episódio do "vinhedo de Yavne", em que Rabi Yehuda, Rabi Elazar bar Rabi Yosei e Rabi Shimon debatem por que a doença começa nos intestinos e termina na boca — respostas que abrangem a maledicência, a comida não dizimada e a negligência da Torá. Segue-se o debate sobre essa última causa, testada e defendida sucessivamente contra as provas das mulheres, dos gentios, das crianças e, por fim, das crianças da escola, resolvida pelo ensinamento de Rabi Guryon sobre os justos ou as crianças que são "tomados" pelos pecados da geração. A Guemará então explica por que Rabi Yehuda foi chamado "cabeça dos que falam em todo lugar": o episódio em que ele elogiou as obras dos romanos — mercados, pontes e casas de banho —, Rabi Yosei permaneceu calado, e Rabi Shimon bar Yochai denunciou os verdadeiros motivos egoístas por trás dessas obras; a delação de Yehuda ben Guerim ao governo; e a sentença que elevou Rabi Yehuda, exilou Rabi Yosei a Tzipori e condenou Rabi Shimon à morte. O daf narra então, em sua íntegra, o relato mais célebre de toda a sugya: Rabi Shimon bar Yochai e seu filho Rabi Elazar, primeiro escondidos na casa de estudo, depois numa caverna, onde um milagre lhes proveu uma alfarrobeira e uma fonte de água, e onde permaneceram doze anos, estudando Torá enterrados na areia até o pescoço; a notícia trazida por Elias de que o imperador morrera e o decreto fora revogado; a saída da caverna e o episódio chocante dos lavradores que, sob o olhar impaciente dos dois sábios, foram incinerados, provocando a ordem da voz celestial para retornarem à caverna; o segundo período de doze meses, ao final do qual saem novamente, e onde tudo que Rabi Elazar fere, Rabi Shimon cura; o encontro com o velho carregando dois molhos de mirto em honra do Shabat, que acalma o espírito de ambos; e o reencontro emocionante com o genro de Rabi Shimon, Rabi Pinchas ben Yair, na casa de banho, com a revelação de que doze anos de sofrimento na caverna elevaram Rabi Shimon a um nível de compreensão da Torá muito além do que tinha antes. O daf termina, em seu último segmento, com a decisão de Rabi Shimon de realizar um ato de bondade em gratidão pelo milagre ocorrido com ele — inspirado no exemplo de Jacó, "completo" ao retornar a Shechém —, e com a pergunta sobre se havia algo que precisasse de reparo, respondida com a menção de um lugar de suspeita de impureza, cuja resolução prossegue em 34a.
... (a askara vem ao mundo) por (negligência) do maasser (dízimo). Rabi Elazar, filho de Rabi Yosei, diz: por (o pecado da) maledicência (lashon hará). Disse Rava, e alguns dizem que foi Rabi Yehoshua ben Levi: qual é o versículo (que alude a isso)? "E o rei se alegrará em D-us, gloriar-se-á todo aquele que por Ele jura, pois se fechará (issacher) a boca dos que falam mentira" (Salmos 63:12).
O daf 33b abre completando, em suas primeiras palavras, a baraita interrompida ao final de 33a: "ensinaram os Sábios: a askara vem ao mundo" — pela negligência do maasser, o dízimo que deve ser separado dos produtos agrícolas antes de comê-los; comer produtos não dizimados (tevel) é, segundo Rashi, punível com morte pelas mãos do Céu, e essa é precisamente sua punição, medida por medida, já que o alimento não dizimado entra pela garganta, o mesmo local onde a askara se instala. Rabi Elazar bar Rabi Yosei discorda e atribui a causa à maledicência, apoiando-se num versículo de Salmos que descreve, como recompensa para os justos que juram por D-us em verdade, o fechamento (issacher — da mesma raiz de askara) da boca dos que falam mentira; a punição para a mentira e a fala prejudicial é, precisamente, o fechamento da própria boca, o órgão do pecado, pela doença da askara, que afeta a garganta junto com outras partes do corpo.
"Pela (negligência) do maasser" — aquele que come seus frutos (ainda) não dizimados (tevel), e ele é (punível) com morte pelas mãos do Céu; e esta é sua morte medida por medida, pois (o alimento não dizimado) entra por seu caminho, pela garganta, em seus intestinos.
"Issacher" — (alusão a) askara.
Levantou-se uma dúvida diante dos Sábios: Rabi Elazar bar Rabi Yosei disse (que a causa é) a maledicência (apenas), ou talvez disse que (a causa é) também a maledicência (isto é, além do maasser)? Venha e ouça: quando nossos mestres entraram no (chamado) vinhedo (kerem) em Yavne (uma sala de estudo onde os sábios se sentavam em fileiras como um vinhedo), estavam ali Rabi Yehuda, e Rabi Elazar bar Rabi Yosei, e Rabi Shimon; e foi perguntada esta questão diante deles: esta praga (askara), por que começa nos intestinos e termina na boca? Respondeu Rabi Yehuda bar Ila'i, "a cabeça dos que falam em todo lugar", e disse: ainda que os rins aconselhem, e o coração entenda, e a língua corte (a voz em palavras) — é a boca que completa (a formação da fala; por isso a doença, que começa onde começa a maledicência, termina na boca). Respondeu Rabi Elazar bar Rabi Yosei e disse: porque comem com ela (a boca) coisas impuras. (Objetaram:) "coisas impuras" viria à mente (dizer, como se muitos comessem alimentos impuros)?! Antes, (quer dizer) que comem com ela coisas (que) não foram preparadas (isto é, não dizimadas). Respondeu Rabi Shimon e disse: pelo pecado da negligência da Torá.
A Guemará levanta uma dúvida quanto à intenção exata de Rabi Elazar bar Rabi Yosei: será que ele veio discordar completamente da opinião anônima da baraita, atribuindo a askara exclusivamente à maledicência, ou será que ele veio apenas acrescentar a maledicência como causa adicional, junto com a negligência do maasser? A resposta vem de um episódio ocorrido no célebre "vinhedo de Yavne" — a sala de estudo assim chamada porque os sábios se sentavam em fileiras ordenadas, como as videiras de um vinhedo, segundo o Talmud Yerushalmi em Berachot. Ali, perguntou-se por que a askara, especificamente, começa nos intestinos e termina na boca. Rabi Yehuda respondeu que, embora todo o processo da fala envolva os rins (que aconselham), o coração (que entende) e a língua (que dá forma à voz), é a boca que "completa" a fala — e por isso a maledicência, que nasce internamente no processo de formação da fala malévola, é a causa, com a doença seguindo o mesmo trajeto interno até explodir na boca, seu instrumento final. Rabi Elazar bar Rabi Yosei respondeu, de modo mais conciso, que a causa é o comer "coisas impuras" com a boca — mas a Guemará imediatamente questiona essa formulação, já que comer alimentos ritualmente impuros não é algo suficientemente comum para justificar uma praga tão disseminada; a resposta corrigida é que ele quis dizer "coisas não preparadas", isto é, alimentos dos quais não se separou o dízimo — confirmando que Rabi Elazar mantinha também a causa do maasser, e portanto sua opinião anterior sobre a maledicência era um acréscimo, não uma substituição, respondendo à dúvida inicial da Guemará. Rabi Shimon, por fim, ofereceu uma terceira resposta: a negligência do estudo da Torá.
"Ao vinhedo" — esta é a casa de estudo, onde se sentavam fileira por fileira, como um vinhedo; assim está explicado no Yerushalmi, em Berachot.
"Cabeça dos que falam" — por ordem do rei, que decretou sobre ele que falasse primeiro em todo lugar, como se explicará adiante.
"A boca completa" — (a formação da) maledicência, e (a doença) vem por causa disso; por isso começa nos intestinos e termina na boca, pois o coração entende como contar a maledicência e inventa as palavras de seu próprio coração.
"'Coisas impuras' viria à mente?" — pois, acaso sua punição é a morte? Está bem quanto à maledicência, cuja punição é a morte, como está escrito: "quem calunia seu próximo em segredo, a este exterminarei" (Salmos 101:5).
"Preparadas" — dizimadas; pois o tevel (alimento não dizimado) é punível com morte pelas mãos do Céu, como se deriva no tratado Estes são os que são queimados (Sanhedrin 83a).
"Pelo pecado da negligência da Torá" — pois (essa negligência) também é punida com a morte, como dissemos, deduzido de um versículo lido em seu contexto: "para que se multipliquem vossos dias" — eis que, se não estudardes, (os dias) diminuirão.
Disseram-lhe: as mulheres (devem) provar (que essa não é a causa, pois elas não são obrigadas ao estudo da Torá e, mesmo assim, morrem de askara)! (Respondeu:) porque elas fazem seus maridos negligenciar (o estudo). (Disseram-lhe:) os gentios (devem) provar (o mesmo)! (Respondeu:) porque fazem Israel negligenciar. (Disseram-lhe:) as crianças (pequenas devem) provar! (Respondeu:) porque fazem seus pais negligenciar. (Disseram-lhe:) as crianças da (escola,) casa do mestre, (devem) provar (pois elas mesmas estudam Torá e ainda assim contraem a doença)!
A Guemará testa a resposta de Rabi Shimon — de que a askara vem pela negligência da Torá — com uma série de objeções crescentes. Primeiro: as mulheres, que não têm obrigação de estudar Torá (por não estarem incluídas no mandamento "e as ensinareis a vossos filhos", que Rashi lê como excluindo as filhas), também morrem de askara; se a causa fosse a negligência da Torá, por que elas seriam punidas por algo que não lhes é exigido? A resposta é que elas fazem seus próprios maridos negligenciarem o estudo, seja distraindo-os, seja não os apoiando adequadamente. Em seguida, os gentios, que também não são obrigados ao estudo da Torá, igualmente contraem askara — respondido de modo análogo, que eles fazem Israel negligenciar, seja pela opressão, seja pela influência corruptora. Depois, crianças pequenas, que ainda não atingiram a idade de estudar, também adoecem — respondido que elas ocupam o tempo de seus pais, levando-os a passear, a atendê-las e a acalmá-las com guloseimas, distraindo-os do estudo. Por fim, a objeção mais forte: as próprias crianças da escola, que já estudam Torá ativamente, também contraem a doença — um caso que não se encaixa facilmente na resposta anterior, pois essas crianças não negligenciam nem fazem outros negligenciar.
"As mulheres devem provar" — pois não são obrigadas às palavras da Torá, como está escrito: "e as ensinareis a vossos filhos" — e não a vossas filhas; e (ainda assim) morrem de askara. Disse-lhes: também elas (são punidas porque) fazem seus maridos negligenciar.
"As crianças devem provar" — pois não são (ainda) capazes de estudar. Disse-lhes: também elas (são punidas) pelo pecado de fazerem seus pais negligenciar, ao levá-las ao sol e à sombra e apaziguá-las com nozes.
"(As crianças) da casa do mestre" — (estas) nem negligenciam (a Torá) nem fazem (outros) negligenciar.
Ali (no caso das crianças da escola, a explicação segue) conforme (o ensinamento) de Rabi Guryon, pois disse Rabi Guryon, e alguns dizem que foi Rav Yossef bar Rabi Shemaya: no tempo em que há justos na geração, os justos são tomados (sofrem ou morrem) pelos (pecados) da geração; (quando) não há justos na geração, as crianças da casa do mestre são tomadas pelos (pecados) da geração. Disse Rabi Yitzchak bar Ze'iri, e alguns dizem que disse Rabi Shimon ben Nezira: qual é o versículo? "Se não sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai pelas pegadas do rebanho (e apascenta teus cabritos junto às tendas dos pastores, etc.)" (Cântico dos Cânticos 1:8); e dizemos: (os cabritos são) os cordeirinhos tomados como penhor no lugar dos pastores (isto é, as crianças morrem pelos pecados dos líderes e pastores da geração). Conclua-se disso (quanto à dúvida original): também (Rabi Elazar bar Rabi Yosei) disse (que a causa é) também a maledicência (além do maasser, pois a baraita do vinhedo de Yavne trouxe uma causa adicional para a askara). Conclua-se disso.
A Guemará resolve a última objeção — a das crianças da escola — com o ensinamento de Rabi Guryon: existe um princípio pelo qual, quando há justos numa geração, eles próprios são "tomados", isto é, sofrem ou morrem prematuramente, para expiar os pecados coletivos da geração; mas quando não há justos suficientes, são as crianças inocentes da escola, que ainda não pecaram, que assumem esse papel expiatório em lugar deles. A fonte vem de um versículo do Cântico dos Cânticos, interpretado alegoricamente: "sai pelas pegadas do rebanho e apascenta teus cabritos junto às tendas dos pastores" é lido como referindo-se aos "cordeirinhos" — as crianças — que são tomados como penhor no lugar dos "pastores", os líderes espirituais da geração; quando estes corrompem o povo, são as crianças que pagam o preço por seus pecados. Com essa resolução completa, a Guemará conclui explicitamente a dúvida original: a baraita do vinhedo de Yavne, ao trazer causas adicionais (maledicência, alimentos não dizimados, negligência da Torá) para a mesma praga, demonstra que Rabi Elazar bar Rabi Yosei não veio substituir a causa do maasser, mas acrescentar a maledicência a ela — encerrando a sugya sobre a origem da askara.
E por que o chamavam (a Rabi Yehuda) "cabeça dos que falam em todo lugar"? Pois estavam sentados Rabi Yehuda, e Rabi Yosei, e Rabi Shimon, e estava sentado Yehuda ben Guerim (filho de convertidos) junto a eles. Abriu Rabi Yehuda e disse: quão agradáveis são as obras desta nação (os romanos)! Estabeleceram mercados, estabeleceram pontes, estabeleceram casas de banho. Rabi Yosei calou-se. Respondeu Rabi Shimon bar Yochai e disse: tudo o que estabeleceram, não estabeleceram senão para sua própria necessidade. Estabeleceram mercados — para neles instalar prostitutas; casas de banho — para nelas se regalarem; pontes — para delas cobrar pedágio. Foi Yehuda ben Guerim e contou suas palavras (à sua casa, sem intenção de que chegassem além), e (as palavras) foram ouvidas pelo governo. Disseram (as autoridades): Yehuda, que elogiou — que seja elevado (a cabeça dos sábios e dos que falam em todo lugar); Yosei, que se calou — que seja exilado para Tzipori; Shimon, que denunciou — que seja morto.
A Guemará explica a origem do título "cabeça dos que falam em todo lugar", aplicado a Rabi Yehuda no episódio anterior, com um relato que se tornaria um dos mais dramáticos do Talmud. Três sábios — Rabi Yehuda, Rabi Yosei e Rabi Shimon bar Yochai — estavam sentados juntos, com Yehuda ben Guerim (filho de convertidos, portanto talvez menos cauteloso quanto à lealdade política, ou simplesmente presente por coincidência) ao lado deles. Rabi Yehuda iniciou a conversa elogiando os romanos por suas obras públicas — mercados, pontes e casas de banho —, um elogio ingênuo ou talvez politicamente prudente. Rabi Yosei permaneceu em silêncio, nem concordando nem discordando. Rabi Shimon bar Yochai, no entanto, respondeu com uma denúncia mordaz: essas mesmas obras, segundo ele, foram construídas puramente por interesse próprio dos romanos — os mercados para abrigar a prostituição, as casas de banho para o próprio prazer sensual, e as pontes para arrecadar impostos de pedágio. Yehuda ben Guerim relatou essas palavras — segundo Rashi, sem intenção maliciosa, apenas contando aos seus familiares —, mas a informação vazou até chegar ao governo romano. A sentença que se seguiu refletiu exatamente a atitude de cada um: Rabi Yehuda, que elogiara o regime, foi elevado à posição de honra como cabeça dos sábios; Rabi Yosei, que apenas se calara, recebeu a punição intermediária do exílio para a cidade de Tzipori, na Galileia; e Rabi Shimon bar Yochai, que denunciara abertamente o governo, foi condenado à morte — abrindo o caminho para o relato da fuga que ocupa o restante do daf.
"Filho de convertidos" — era filho de um convertido e de uma convertida.
"Desta nação" — os romanos.
"Mercados" — a organização do assentamento dos mercados das cidades e de suas ruas.
"E contou suas palavras" — a discípulos, ou a seu pai e sua mãe, e não com a intenção de as fazer chegar ao governo; mas foram ouvidas, por meio dele, pelo governo.
"Que seja elevado" — para ser cabeça dos que falam (em todo lugar).
Foram ele (Rabi Shimon) e seu filho (Rabi Elazar) e esconderam-se na casa de estudo. Todo dia, sua esposa lhes trazia pão e um jarro de água, e comiam. Quando o decreto (de busca) se intensificou, disse (Rabi Shimon) a seu filho: as mulheres são de espírito leve (facilmente influenciáveis ou intimidáveis) — talvez a torturem e ela nos revele. Foram e esconderam-se numa caverna. Aconteceu-lhes um milagre: foi criada para eles uma alfarrobeira e uma fonte de água; e despiam suas roupas e ficavam sentados até o pescoço na areia. O dia todo estudavam (Torá); na hora da oração, vestiam-se, cobriam-se e rezavam, e depois voltavam a despir suas roupas, para que não se gastassem. Ficaram sentados doze anos na caverna. Veio Elias e ficou de pé à entrada da caverna, e disse: quem informará a bar Yochai que morreu o imperador e foi anulado seu decreto?
Começa aqui o relato mais célebre de todo o daf, e um dos mais conhecidos de toda a literatura agádica talmúdica. Rabi Shimon bar Yochai e seu filho Rabi Elazar primeiro se escondem na própria casa de estudo, sustentados diariamente pela esposa de Rabi Shimon, que lhes traz pão e água. Quando a perseguição do governo se intensifica, Rabi Shimon teme que sua esposa, se capturada e torturada, possa (não por malícia, mas por fraqueza sob pressão) revelar seu esconderijo — e por isso decide fugir com o filho para uma caverna mais isolada, cortando até esse contato. Ali ocorre um milagre duplo: surge uma alfarrobeira, cujos frutos lhes servem de alimento, e uma fonte de água. Para preservar suas únicas roupas, e não desgastá-las com o atrito constante da areia (segundo Rashi), eles se despem e permanecem enterrados até o pescoço na areia enquanto estudam Torá o dia inteiro, vestindo-se apenas na hora da oração, por respeito. Passam doze anos inteiros nessa condição extraordinária de dedicação total ao estudo, isolados do mundo. Ao final desse período, o profeta Elias aparece à entrada da caverna para anunciar que o imperador que decretara a morte de Rabi Shimon havia falecido, e o decreto fora, portanto, anulado.
"Foi criada para eles uma alfarrobeira" — para comer seus frutos, "e uma fonte de água" — para beber.
"Na areia" — pois despiam suas roupas, para que não se gastassem, e cobriam sua nudez com a areia.
Saíram (da caverna), viram homens que araavam e semeavam. Disseram: (essas pessoas) abandonam a vida eterna e se ocupam da vida temporária! Todo lugar em que fixavam seus olhos, imediatamente se queimava. Saiu uma voz celestial (Bat Kol) e disse-lhes: para destruir meu mundo saístes?! Voltai para vossa caverna! Voltaram e ficaram sentados doze meses do ano. Disseram: o julgamento dos ímpios no Geinom (dura) doze meses (portanto já expiamos qualquer pecado). Saiu uma voz celestial e disse: saí de vossa caverna! Saíram. Todo lugar em que Rabi Elazar feria, Rabi Shimon curava. Disse-lhe (Rabi Shimon a seu filho): meu filho, bastamos ao mundo eu e tu (nós dois, dedicados ao estudo correto da Torá, somos suficientes).
Ao emergirem da caverna após doze anos de isolamento total dedicados exclusivamente ao estudo da Torá, Rabi Shimon e seu filho encontram um mundo que lhes parece profundamente errado: pessoas comuns arando e semeando, ocupadas com o trabalho material do sustento diário. Sua reação é de choque e desprezo — como podem essas pessoas abandonar a "vida eterna" do estudo da Torá para se ocuparem da "vida temporária" das necessidades mundanas? Tão intensa é sua santidade acumulada, e tão desconectada do mundo comum, que seus próprios olhares, carregados dessa energia espiritual concentrada, incineram tudo o que tocam. Uma voz celestial intervém imediatamente, repreendendo-os severamente: eles saíram da caverna para destruir o mundo de D-us? A ordem é clara — voltem para a caverna. Passam então mais doze meses ali, um período que corresponde, segundo eles mesmos observam, à duração máxima do julgamento dos ímpios no Geinom — sugerindo que, seja qual for a falha que tiveram (o julgamento excessivamente severo do mundo comum), ela já foi suficientemente expiada. Ao saírem pela segunda vez, uma transformação notável ocorreu: agora, onde quer que Rabi Elazar (ainda carregando algo do rigor anterior) causasse dano com seu olhar, Rabi Shimon (já plenamente reintegrado a uma perspectiva mais compassiva) o curava. Rabi Shimon então declara a seu filho que os dois juntos, dedicados ao estudo correto da Torá, já bastam para sustentar espiritualmente o mundo — uma afirmação de humildade renovada após a dura lição da caverna.
"Karvei" — que araavam.
"E se ocupam da vida temporária" — pois (o sustento) seria possível por meio de gentios, e é o Santo, Bendito seja, quem distribui alimento e sustento a quem faz Sua vontade.
"O julgamento dos ímpios no Geinom (dura) doze meses" — pois está dito (Isaías 66:24): "e o seu fogo não se apagará; e será que, de mês em mês, e de Shabat em Shabat, virá toda carne (a se prostrar diante de Mim)" — também os que ali são julgados estão incluídos; assim como os Shabatot (vêm) conforme sua contagem, também os meses (vêm) conforme sua contagem. E isso certamente se refere aos transgressores do Geinom, pois está escrito antes disso: "e sairão e verão os cadáveres dos homens que se rebelaram contra Mim". Assim se ensina no Seder Olam (cap. 6).
"Bastamos ao mundo" — como (os únicos) ocupados (corretamente) na Torá, eu e tu.
Ao entardecer da véspera de Shabat, viram um certo velho que segurava dois molhos de mirto e corria no crepúsculo. Disseram-lhe: para que (precisas) destes? Disse-lhes: em honra do Shabat. E não te bastaria (apenas) um? (Respondeu:) um corresponde a "lembra-te (zachor)" e um corresponde a "guarda (shamor)" (os dois verbos com que a Torá introduz o mandamento do Shabat, em Êxodo e em Deuteronômio). Disse (Rabi Shimon) a seu filho: vê quão amados são os mandamentos por Israel! Suas mentes se acalmaram (e se apaziguou sua ira contra aqueles que se ocupavam de assuntos mundanos).
Um pequeno episódio, mas de grande peso emocional na narrativa, encerra o processo de reintegração de Rabi Shimon e seu filho ao mundo comum. Ao verem um velho correndo apressadamente ao entardecer de sexta-feira, carregando não um, mas dois molhos de ramos de mirto, perguntam sua razão — e ele responde que é em honra do Shabat, um molho correspondendo à palavra "zachor" (lembra-te do dia de Shabat), usada em Êxodo, e o outro à palavra "shamor" (guarda o dia de Shabat), usada em Deuteronômio — as duas formulações do mesmo mandamento, ditas, segundo a tradição, simultaneamente por D-us numa única elocução miraculosa. Diante dessa demonstração simples, mas genuína, de devoção e amor pelos mandamentos por parte de um judeu comum, Rabi Shimon comenta a seu filho o quanto os mandamentos são amados por Israel — e, com isso, suas mentes finalmente se acalmam, dissipando a tensão e o julgamento severo que ainda carregavam desde a saída da caverna.
"Dois molhos" — feixes de mirto, para cheirar em Shabat.
"Madanei" — como (a palavra) "ma'adanot" em "os laços [ma'adanot] das Plêiades" (Jó 38:31).
Ouviu (a notícia) Rabi Pinchas ben Yair, seu genro, e saiu ao seu encontro. Levou-o à casa de banho, e começou a tratar de sua carne (massageando e cuidando de seu corpo). Viu que havia fendas em seu corpo (causadas pela areia). Estava (Rabi Pinchas) chorando, e caíam as lágrimas de seus olhos, e (as lágrimas) lhe causavam dor (a Rabi Shimon, ao caírem sobre as fendas). Disse-lhe (Rabi Pinchas): ai de mim, que te vi assim! Disse-lhe (Rabi Shimon): feliz de ti, que me viste assim, pois se não me tivesses visto assim, não terias encontrado em mim isto (este nível elevado de sabedoria). Pois no início, quando Rabi Shimon bar Yochai levantava uma dificuldade, Rabi Pinchas ben Yair lhe resolvia com doze soluções; ao final (depois dos doze anos na caverna), quando Rabi Pinchas ben Yair levantava uma dificuldade, Rabi Shimon bar Yochai lhe resolvia com vinte e quatro soluções.
O relato culmina, neste segmento, num encontro comovente entre Rabi Shimon e seu genro, Rabi Pinchas ben Yair, que, ao ouvir que seu sogro havia retornado, sai imediatamente ao seu encontro e o leva a uma casa de banho para tratar de seu corpo, gravemente marcado pelas fendas e rachaduras deixadas na pele por doze anos de contato constante com a areia. Ao ver essas marcas, Rabi Pinchas não consegue conter o choro, e suas próprias lágrimas, ao caírem sobre as feridas ainda sensíveis (feridas recém-formadas, segundo Rashi, ainda salgadas e doloridas), causam dor física a Rabi Shimon. O lamento de Rabi Pinchas — "ai de mim, que te vi assim" — expressa o choque e a tristeza diante do sofrimento físico visível de seu sogro. Mas a resposta de Rabi Shimon inverte completamente a perspectiva: ele declara que Rabi Pinchas deveria, na verdade, considerar-se feliz por tê-lo visto nesse estado, pois é precisamente esse sofrimento, esse isolamento total dedicado ao estudo, que elevou seu nível de sabedoria a um patamar sem precedentes. A prova concreta vem de uma comparação numérica precisa: antes da caverna, quando Rabi Shimon levantava uma dificuldade em seus estudos, era seu genro Rabi Pinchas quem conseguia resolvê-la, com nada menos que doze respostas diferentes possíveis; mas, após os doze anos, a situação se inverteu completamente — agora é Rabi Shimon quem, diante de qualquer dificuldade levantada por Rabi Pinchas, consegue oferecer vinte e quatro soluções distintas, o dobro de antes, numa demonstração impressionante do quanto sua compreensão da Torá se aprofundou durante o isolamento.
"Arich" — arrumava e alisava (a pele).
"Pilei" — fendas, rachaduras, por causa da areia.
"E lhe causavam dor" — a Rabi Shimon, pois as lágrimas são salgadas e causam dor à ferida em seu início (quando ainda está fresca).
Disse (Rabi Shimon): já que aconteceu (comigo) um milagre, irei e repararei alguma coisa (em gratidão, beneficiando outros). Pois está escrito: "e veio Jacó completo (à cidade de Shechém, na terra de Canaã, ao vir de Padã-Arã; e acampou diante da face da cidade)" (Gênesis 33:18). E disse Rav: completo em seu corpo, completo em seu dinheiro, completo em sua Torá (nada lhe faltou, apesar das provações). "E acampou diante da face da cidade" — disse Rav: (Jacó) lhes estabeleceu moeda (cunhada). E Shmuel disse: mercados lhes estabeleceu. E Rabi Yochanan disse: casas de banho lhes estabeleceu (cada um explicando de modo distinto o benefício que Jacó trouxe à cidade em gratidão por ter chegado a salvo). Disse (Rabi Shimon): há alguma coisa que precise de reparo? Disseram-lhe: há um lugar em que há dúvida (quanto a) impureza (cuja resolução prossegue em 34a).
O daf se encerra com Rabi Shimon, tocado pelo milagre que lhe ocorreu — tanto o milagre da caverna quanto, agora, a anulação do decreto de morte —, decidindo seguir o exemplo do patriarca Jacó, que, ao retornar em segurança de Padã-Arã e chegar "completo" à cidade de Shechém, realizou atos de benefício público para a cidade em gratidão. A Guemará explora o significado de "completo": segundo Rav, Jacó retornou completo em três dimensões — fisicamente (recuperado de seu ferimento na coxa após a luta com o anjo), materialmente (sem perdas em sua riqueza apesar dos anos com Lavão) e espiritualmente (sem ter esquecido seu estudo de Torá apesar das dificuldades da jornada). Quanto ao benefício concreto que Jacó prestou à cidade — descrito como "acampar diante da face da cidade" —, há três opiniões: Rav diz que estabeleceu uma moeda cunhada para facilitar o comércio local; Shmuel diz que estabeleceu mercados organizados; e Rabi Yochanan diz que estabeleceu casas de banho públicas. Inspirado por esse precedente, Rabi Shimon pergunta aos moradores locais se há algo que precise de reparo em sua própria comunidade, oferecendo-se para usar seu poder espiritual recém-elevado em benefício deles. A resposta que recebe — que existe um lugar sobre o qual paira uma dúvida quanto a possível impureza ritual — abre um novo episódio, cuja resolução completa (envolvendo a identificação milagrosa desse lugar por Rabi Shimon) prossegue no início do daf 34a.
"Repararei alguma coisa" — do mesmo modo que fez Jacó, quando foi salvo da mão de Esaú.
"Completo em sua Torá" — que não esqueceu seu estudo por causa do esforço do caminho.
"Completo em seu corpo" — que se curou de sua coxa (ferida na luta com o anjo).
"Estabeleceu-lhes" — palavras de graça e de acampamento (chaniyá); mas a mim parece, a partir de "e comprou [vayiken] a parte do campo" (Gênesis 33:19), que é linguagem de reparo (tikun).