O daf abre completando a frase de Rava interrompida no fim de 34a: por que os Sábios proibiram guardar comida quente em algo que aumenta o calor mesmo ainda de dia — decreto contra guardá-la em cinza com brasa, ao que Abaye replica, e a resposta final é decreto contra remexer as brasas depois de escurecido. Segue-se uma extensa baraita sobre o bein hashmashot (crepúsculo), o período de incerteza entre o dia e a noite: a regra de que se lhe impõe a estringência de ambos os dias, a definição precisa do fenômeno — do pôr do sol até o avermelhamento do horizonte oriental cessar, com a disputa entre Rabi Yehuda, Rabi Nechemia e Rabi Yosei sobre seus limites exatos —, a aplicação prática dessa incerteza às leis de pureza do zav segundo Rav Huna filho de Rav Yehoshua, uma contradição interna na própria baraita quanto à correspondência entre o horizonte avermelhado e o próprio bein hashmashot, resolvida de duas formas distintas por Rabá e por Rav Yosef em nome de Rav Yehuda em nome de Shmuel, e, por fim, o debate entre os mesmos dois amoraím sobre a duração exata do bein hashmashot em frações de mil — debate que termina genuinamente interrompido no limite do daf, no meio da resposta de Rav Yosef, cuja continuação segue apenas em 35a.
Por que disseram que não se guarda (comida quente) em algo que aumenta o calor, mesmo ainda de dia? — (É) decreto, para que não venha a guardá-la em cinza (rescaldo) que tenha brasa (misturada). Disse-lhe Abaye: e que a guarde (nessa cinza com brasa — qual é o problema, já que é ainda de dia e permitido)? (Resposta:) decreto, para que não venha a remexer as brasas.
O daf abre completando a frase que ficara suspensa no limite de 34a: "e disse Rava". O ensinamento revelado agora é uma nova pergunta, paralela à que Rava já havia feito sobre o material que não aumenta o calor: por que, além disso, os Sábios proibiram guardar comida quente em algo que efetivamente aumenta o calor — como cinza quente ou rescaldo — mesmo ainda de dia, quando não haveria, a princípio, nenhuma proibição de Shabat em jogo? A resposta inicial é um decreto preventivo: teme-se que, ao guardar a comida nessa cinza, a pessoa acabe usando cinza que contém uma brasa acesa misturada nela, o que praticamente equivaleria a cozinhar diretamente sobre o fogo. Abaye então questiona a lógica: mas se o receio é apenas quanto à presença de uma brasa na cinza, por que não permitir simplesmente que a pessoa a guarde, contanto que se certifique de que a cinza está isenta de brasas? A resposta final aprofunda o decreto: teme-se que, mesmo tendo verificado inicialmente, a pessoa seja tentada, depois de escurecido, a remexer as brasas dentro dessa cinza — para reavivar o calor e continuar cozinhando a comida —, um ato que constituiria uma violação direta e grave da proibição de acender ou atiçar fogo em Shabat.
"Por que disseram que não se guarda em algo que aumenta o calor, mesmo ainda de dia" — como ensinamos adiante (47b): "não (se guarda) em bagaço de azeitonas, nem em esterco"; e ainda que o guardar comum seja feito ainda de dia, pois (quanto ao guardar depois de escurecido) já proibimos (anteriormente).
"Em cinza (rescaldo)" — cinza misturada com brasas.
"E que a guarde" — pois (a ação de guardar) é ainda de dia.
"Decreto, para que não venha a remexer as brasas" — depois que escureceu, ao vir cozinhar a panela que ainda não cozinhou por completo; e decretaram mesmo quando já cozinhou por completo, até que a raspe (a cinza da lareira) ou a apague, e assim concluímos no Perek Kirá (Shabat 37b), onde diz Rabi (Yehuda HaNassi): "raspou-a ou apagou-a, pode-se deixar sobre ela água quente que já se aqueceu por completo ainda de dia, e um cozido que já cozinhou por completo"; e assim disse Rabi Yochanan.
Ensinaram os Sábios (numa baraita): o bein hashmashot (é) dúvida (se é composto) do dia e da noite (uma parte de cada), dúvida (se é) todo ele do dia, dúvida (se é) todo ele da noite — impõe-se-lhe a estringência de ambos os dias.
A Guemará introduz uma baraita dedicada inteiramente à natureza incerta do bein hashmashot, o período crepuscular que separa o dia da noite. A baraita identifica três possibilidades lógicas quanto à composição desse intervalo: pode ser que ele contenha, de fato, uma parte do dia anterior e uma parte da noite seguinte (misto); pode ser que, apesar da aparência de transição, ele pertença inteiramente ainda ao dia; ou pode ser que já pertença inteiramente à noite. Como não há como determinar com certeza qual dessas três possibilidades é a correta, a halachá resolve tratar esse período com a estringência cumulativa de ambas as possibilidades extremas — tratando-o, para fins práticos, tanto como se fosse ainda dia (quando essa é a leitura mais estrita para determinada proibição) quanto como se já fosse noite (quando essa é a leitura mais estrita para outra).
E qual é o bein hashmashot? — Desde que o sol se põe, todo o tempo em que o horizonte oriental está avermelhado (pela luz do sol). (Se) escureceu o (céu) inferior (próximo à terra), e não escureceu o superior — (é) bein hashmashot. (Se) escureceu o superior e se igualou ao inferior — isto é noite, palavras de Rabi Yehuda. Rabi Nechemia diz: o tempo que leva um homem para caminhar, desde que o sol se põe, meio mil. Rabi Yosei diz: o bein hashmashot é como um piscar de olhos — este (o dia) entra, e este (a noite) sai, e não é possível determiná-lo com precisão.
A baraita passa a definir com precisão os limites físicos do bein hashmashot. Segundo a opinião base, atribuída a Rabi Yehuda, o crepúsculo começa no momento em que o sol se põe abaixo do horizonte e persiste enquanto o céu na direção do leste ainda apresenta um tom avermelhado, reflexo da luz solar. Um sinal intermediário é dado: quando a parte inferior do céu, próxima à linha do horizonte, já escureceu, mas a parte superior da abóbada celeste ainda não — esse é precisamente o bein hashmashot; quando, porém, também a parte superior escurece e se iguala à inferior (isto é, todo o céu está igualmente escuro), já é noite plena. Rabi Nechemia oferece uma medida alternativa, baseada em tempo de caminhada: o bein hashmashot dura o tempo que um homem levaria para caminhar meio mil (uma unidade romana de distância) a partir do momento do pôr do sol. Rabi Yosei, por fim, oferece a visão mais radical: o bein hashmashot não é propriamente um período com duração mensurável, mas um instante fugaz, como o piscar de um olho — o momento exato em que o dia "sai" e a noite "entra" é tão infinitesimal que se torna, na prática, impossível de precisar ou fixar com certeza.
"Estão avermelhados" — pois se vê a vermelhidão do sol nas nuvens.
"Escureceu" — (isto é) enegreceu.
"O inferior" — a parte inferior da abóbada do céu, próxima à terra.
"Superior" — a altura da abóbada, que não se apressa a escurecer; e adiante (a Guemará) questiona o que (o tana) quer dizer, pois a parte final (da baraita) contradiz a inicial.
"Meio mil" — esta é a medida da duração do bein hashmashot, e depois de meio mil já é noite.
"Como um piscar de olhos" — na medida de um piscar de olhos feito com leveza, e não com força.
"Este entra" — a noite entra e o dia sai; a saída deste com a entrada daquele, quando se separam, chama-se bein hashmashot; e tudo o que é antes disso é dia pleno.
Disse o Mestre (citando a baraita): "impõe-se-lhe a estringência de ambos os dias". Para qual halachá (isso se aplica na prática)? Disse Rav Huna filho de Rav Yehoshua: quanto ao assunto de impureza, como ensinamos (numa Mishná): viu (emissão de zivá) em dois (momentos de) bein hashmashot — (há) dúvida quanto à impureza e quanto à oferenda; viu (emissão) em um (único momento de) bein hashmashot — (há) dúvida quanto à impureza.
A Guemará pergunta qual é a aplicação prática concreta da regra de que se impõe ao bein hashmashot a estringência de ambos os possíveis dias. Rav Huna filho de Rav Yehoshua responde que essa regra tem impacto direto nas leis de pureza ritual relativas ao zav (homem com emissão anormal), que se torna impuro por meio de duas emissões observadas em dias distintos, e que se torna obrigado a trazer uma oferenda somente após três dessas emissões. Se alguém teve uma emissão durante um bein hashmashot e outra emissão durante um segundo bein hashmashot (em dias diferentes), surge uma dúvida dupla e complexa: por um lado, há incerteza quanto à sua própria impureza (pois as duas emissões podem, dependendo de como se resolve a ambiguidade de cada crepúsculo, ter ocorrido no mesmo dia civil ou em dias distintos, afetando se contam como duas "visões" válidas); por outro lado, há também incerteza quanto à obrigação de trazer uma oferenda (pois, dependendo da combinação das leituras possíveis, o total de emissões em dias diferentes pode chegar a três, gerando essa obrigação, ou não). Já se a pessoa teve uma emissão durante um único bein hashmashot, há apenas dúvida quanto à impureza, mas não quanto à oferenda.
"Para qual halachá" — impõem-lhe a dúvida de que talvez haja nele (uma parte) de ambos (o dia e a noite); está bem quanto à dúvida de ser todo ele do dia — há como dizer, quanto à saída de Shabat, para trazer um sacrifício assam talui (oferenda de culpa condicional); (e) quanto à dúvida de ser todo ele da noite — quanto às noites de Shabat; mas a estringência de ambos, para qual halachá (se aplica)?
"Viu (emissão) em dois (momentos de) bein hashmashot" — a zivá (emissão anormal) torna o zav impuro tanto por (número de) dias quanto por (número de) visões (emissões), seja que viu duas num único dia, seja que viu duas em dois dias consecutivos, seja que viu uma (só) em (cada um de) dois dias — como no caso de (uma emissão em) bein hashmashot, considera-se como duas visões por conta dos (dois) dias, pois derivamos (essa regra) de (um versículo que fala) "para o macho e para a fêmea": assim como a fêmea (se torna impura) por dias, também o macho (se torna impuro) por dias; e as visões em si mesmas (também) se explicam, como ensinamos em Meguilá (8a): "a Escritura contou duas e as chamou de impuro", etc.
"Dúvida quanto à impureza e à oferenda" — dúvida (se está) impuro, dúvida (se está) puro; dúvida (se está) obrigado à oferenda junto com a impureza, dúvida (se) não está obrigado à oferenda. Mas o zav impuro por sete dias, (por ter) duas visões ou dois dias, tem sobre si toda a lei de impureza dos zavim, e a terceira (visão) o traz à obrigação da oferenda; e este que viu (emissão) em dois bein hashmashot: dúvida (se é) um único dia, e está impuro por duas visões; ou (se são) dois dias consecutivos, e também está impuro pela lei dos dias; dúvida (se são) dois dias não consecutivos, e está puro da impureza de sete dias, sendo apenas como quem teve emissão comum, pois não há nele nem duas visões num único dia nem dois dias consecutivos; (há ainda) dúvida se são três dias consecutivos, (caso em que) é um zav pleno, mesmo quanto à oferenda. Como assim? Talvez o primeiro bein hashmashot seja todo do dia, e o segundo bein hashmashot seja todo da noite, resultando que há um dia inteiro de intervalo entre eles, e está puro; ou (talvez) ambos sejam do dia, e sejam dois dias consecutivos; e da mesma forma, se ambos forem da noite, também serão dois dias consecutivos; ou talvez, se o primeiro for da noite e o segundo do dia, também sejam duas visões num único dia, e esteja impuro por sete dias em todos esses casos, sem que haja aqui oferenda; ou talvez ambas as visões tenham sido em parte de dia e em parte de noite, e haja aqui três (dias) consecutivos; e da mesma forma, se a primeira for em parte de dia e em parte de noite, e a segunda toda da noite, ou a primeira toda do dia e a segunda em parte de dia e em parte de noite, resultam três dias consecutivos, exigindo oferenda; portanto (há) dúvida também quanto à oferenda, e traz um chatat de ave que se traz por causa da dúvida, mas que não se come, pois talvez não seja (realmente) objeto de oferenda, e sua melika (degola especial) (seria então) comum, (tornando a ave uma) neveilá (carcaça proibida).
"Viu uma (emissão) em bein hashmashot — dúvida quanto à impureza" — pois talvez (a emissão) tenha sido em parte de dia e em parte de noite, e isto é a estringência dos dois dias, e está impuro por sete (dias); ou talvez seja toda ela do dia ou toda ela da noite, e não há aqui senão uma (única visão, insuficiente para a impureza de sete dias).
Isto mesmo é (uma) dificuldade. Disseste (na baraita): qual é o bein hashmashot? — desde que o sol se põe, todo o tempo em que o horizonte oriental está avermelhado. (Isso implica que) se escureceu o inferior e não escureceu o superior — já é noite (pois o avermelhamento, ainda que parcial, já cessou de ser total). Mas (a baraita) depois ensina: escureceu o inferior e não escureceu o superior — (isso ainda é) bein hashmashot (contradizendo a primeira parte)! Disse Rabá, disse Rav Yehuda, disse Shmuel: enrola e ensina (reordena o texto da baraita da seguinte forma): qual é o bein hashmashot? — desde que o sol se põe, todo o tempo em que o horizonte oriental está avermelhado; e (mesmo quando) escureceu o inferior e não escureceu o superior — também (isso ainda é) bein hashmashot. (Somente quando) escureceu o superior e se igualou ao inferior — (é) noite. E Rav Yosef disse, (também) em nome de Rav Yehuda, em nome de Shmuel: assim se ensina (a baraita, sem reordená-la): desde que o sol se põe, todo o tempo em que o horizonte oriental está avermelhado — (é ainda) dia. (Quando) escureceu o inferior e não escureceu o superior — (é) bein hashmashot. (Quando) escureceu o superior e se igualou ao inferior — (é) noite.
A Guemará aponta uma contradição na própria baraita recém-citada. A primeira definição afirma que o bein hashmashot dura "todo o tempo em que o horizonte oriental está avermelhado" — implicando que, assim que esse avermelhamento cessa (mesmo que apenas na parte inferior do céu), o bein hashmashot já teria terminado e a noite já teria começado. Mas a própria baraita, em sua continuação, trata o estado em que "o inferior escureceu, mas o superior não" como ainda sendo bein hashmashot — um estágio posterior ao simples avermelhamento total, contradizendo a implicação da primeira cláusula. Duas resoluções são propostas, atribuídas de formas diferentes à mesma cadeia de transmissão (Rav Yehuda em nome de Shmuel). Rabá resolve reordenando o texto da baraita: tanto o período de avermelhamento quanto o período seguinte, em que já escureceu o inferior mas não o superior, são ambos englobados na categoria de bein hashmashot; somente quando todo o céu (inferior e superior) escurece por igual é que se considera noite plena. Rav Yosef, por sua vez, propõe uma leitura diferente, sem reordenar o texto: o período de puro avermelhamento é considerado ainda dia pleno; apenas o estágio intermediário, em que o inferior já escureceu mas o superior ainda não, é que corresponde propriamente ao bein hashmashot; e a noite só começa quando ambos se igualam em escuridão. A diferença prática entre as duas opiniões — se o bein hashmashot inclui ou não o período de avermelhamento — será explorada na sugya seguinte, quanto à duração exata do fenômeno.
"O horizonte oriental está avermelhado" — ainda não escureceu nem sequer o (céu) inferior.
"Enrola e ensina" — as duas coisas (unidas) num único enrolamento, numa única (unidade de) ensino.
E (nisso) seguem eles (Rabá e Rav Yosef) seu (próprio) raciocínio, pois foi dito: a medida do bein hashmashot é de quanto? Disse Rabá, disse Rav Yehuda, disse Shmuel: três partes de mil. O que significa "três partes de mil"? Se dissermos que é três metades de mil — que diga (então) "um mil e meio"! Mas (se dissermos que é) três terços de mil — que diga (então, simplesmente) "um mil"! Antes, (deve significar) três quartos de mil. E Rav Yosef disse, (também) em nome de Rav Yehuda, em nome de Shmuel: duas partes de mil. O que significa "duas partes de mil"? Se dissermos que é duas metades de mil — que diga (então) "um mil"! Mas (se dissermos que é) duas quartas partes de mil — que diga (então) "meio mil"! Antes (deve significar)
A Guemará observa que a disputa entre Rabá e Rav Yosef sobre como reordenar (ou não) o texto da baraita não é um desacordo isolado, mas reflete um raciocínio já estabelecido por cada um deles, de forma independente, em outro contexto — o debate direto sobre a duração exata, em termos de tempo de caminhada, do próprio bein hashmashot, medido em frações da unidade "mil" (a distância que leva cerca de dezoito minutos para ser percorrida). Rabá, em nome da mesma cadeia de transmissão (Rav Yehuda em nome de Shmuel), afirma que o bein hashmashot dura "três partes de mil" — uma expressão ambígua que a Guemará precisa decifrar por eliminação: não pode significar "três metades de mil" (pois isso equivaleria a simplesmente dizer "um mil e meio", uma forma mais direta de expressão que o Sábio certamente teria usado); tampouco pode significar "três terços de mil" (pois isso equivaleria simplesmente a "um mil inteiro"); resta, portanto, que a expressão significa "três quartos de mil". Rav Yosef, por sua vez, transmite em nome da mesma cadeia uma medida menor: "duas partes de mil" — e a Guemará aplica o mesmo processo de eliminação lógica, descartando primeiro a leitura de "duas metades de mil" (que seria simplesmente "um mil"), e propondo em seguida a alternativa de "duas quartas partes de mil" — mas essa segunda leitura também é posta à prova, pois equivaleria, de forma mais direta, a dizer simplesmente "meio mil". É precisamente neste ponto, no meio da tentativa de determinar o real significado da expressão de Rav Yosef, que o daf termina, de modo genuinamente interrompido: a palavra final do daf é "antes" (ela), abrindo uma alternativa cuja formulação exata — e a conclusão de toda a sugya sobre a duração do bein hashmashot — só é revelada no início de 35a.
"E seguem eles seu próprio raciocínio" — pois Rabá sustenta que a medida do bein hashmashot é maior, e Rav Yosef sustenta que é menor.