Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
כׇּל יוֹמָא דְשַׁבְּתָא

A morte de David em Shabat estudando Torá; a resposta final sobre "cão vivo e leão morto"; o quase-esconder de Kohelet e Provérbios; e o início do episódio de Hilel, o paciente

Shabbat 30b — o desfecho da sugia agádica sobre David e Salomão, e a virada para os ensinamentos sobre humor, alegria e paciência

O daf continua diretamente a narrativa iniciada em 30a: todo Shabat, David sentava-se e estudava Torá o dia inteiro, e por isso o anjo da morte não conseguia se aproximar dele — até que, no dia designado para sua morte, o anjo sacode as árvores do pomar atrás de sua casa, e David, ao sair para ver o que era, morre na escada, no instante em que sua boca cessa de proferir palavras de Torá. Salomão então envia à casa de estudo perguntando o que fazer com o corpo do pai, exposto ao sol, e com os cães famintos do palácio — recebendo a resposta de cortar um animal morto para os cães e cobrir o corpo de David com pão ou com uma criança para poder movê-lo; e a Guemará volta, finalmente, à pergunta original sobre a vela: assim como "nêr" designa tanto a lamparina física quanto a alma humana, é melhor apagar a vela de carne e sangue do que deixar apagar-se a vela de D-us (a vida do doente). A seguir, a Guemará narra que os sábios quase esconderam o livro de Kohelet por suas contradições internas, salvo apenas por abrir e fechar com palavras de Torá; expõe e resolve duas outras contradições do livro — sobre ira e riso, e sobre alegria — concluindo que a Shechiná não repousa a partir de tristeza, preguiça, riso, leviandade, conversa fiada ou palavras vãs, mas apenas a partir de alegria de mitzvá, e que se deve abrir com uma palavra de humor antes da halachá (e, segundo Rava, também antes de dormir para ter bons sonhos) — ilustrado pelo costume de Rabá. A Guemará então revela que também o livro de Provérbios quase foi escondido por contradições, resolvidas pela distinção entre responder a um tolo em assuntos de Torá e em assuntos mundanos, com dois episódios de homens que afirmam parentesco vergonhoso com seus interlocutores e são silenciados com vinho até estourarem. Segue-se a ilustração da contradição em assuntos de Torá com três episódios de Rabban Gamliel expondo profecias aparentemente contraditórias com "não haverá nada novo debaixo do sol" — sobre a mulher que dará à luz todo dia, as árvores que darão fruto todo dia, e a Terra de Israel que produzirá pães finos e tecidos prontos — e sendo, em cada caso, vindicado por um exemplo já existente neste mundo (a galinha, o alcaparreiro, e os cogumelos e o linho selvagem). O daf fecha com a baraita clássica de que a pessoa deve sempre ser humilde como Hilel e não impaciente como Shamai, abrindo o primeiro dos dois episódios famosos — dois homens que apostaram para ver quem conseguiria irritar Hilel — que prossegue no daf seguinte.

A morte de David e o retorno à pergunta do doente · נֵר קְרוּיָה נֵר

01Todo Shabat David estudava o dia inteiro, e o anjo da morte não conseguia detê-lo; no dia designado, o anjo sacode as árvores do pomar, e David morre na escada, cessando de estudar
Guemará
כׇּל יוֹמָא דְשַׁבְּתָא הֲוָה יָתֵיב וְגָרֵיס כּוּלֵּי יוֹמָא. הַהוּא יוֹמָא דְּבָעֵי לְמֵינַח נַפְשֵׁיהּ, קָם מַלְאַךְ הַמָּוֶת קַמֵּיהּ וְלָא יְכִיל לֵיהּ, דְּלָא הֲוָה פָּסֵק פּוּמֵּיהּ מִגִּירְסָא. אֲמַר: מַאי אַעֲבֵיד לֵיהּ? הֲוָה לֵיהּ בּוּסְתָּנָא אֲחוֹרֵי בֵּיתֵיהּ, אֲתָא מַלְאַךְ הַמָּוֶת סָלֵיק וּבָחֵישׁ בְּאִילָנֵי. נְפַק לְמִיחְזֵי. הֲוָה סָלֵיק בְּדַרְגָּא, אִיפְּחִית דַּרְגָּא מִתּוּתֵיהּ, אִישְׁתִּיק וְנָח נַפְשֵׁיהּ.

Todo dia de Shabat, (David) sentava-se e estudava o dia inteiro. Naquele dia em que estava destinado a falecer, levantou-se o anjo da morte diante dele, mas não conseguiu (prevalecer) sobre ele, pois sua boca não cessava de (proferir palavras de) estudo. Disse (o anjo): o que farei a ele? Havia (David) um pomar atrás de sua casa; veio o anjo da morte, subiu e sacudiu as árvores. (David) saiu para ver (o que era). Estava subindo pela escada, (quando) quebrou-se um degrau sob ele; (David) emudeceu, e faleceu.

Nota

Continuando diretamente a narrativa do daf anterior, a Guemará explica por que David, sabendo apenas que morreria em algum Shabat, ainda assim conseguia escapar da morte semana após semana: seu costume de dedicar o Shabat inteiro ao estudo ininterrupto de Torá o protegia, pois — segundo a tradição citada por Rashi — a Torá protege contra a morte, e o anjo da morte não tem poder sobre quem está imerso em palavras de Torá com a boca em movimento constante. No dia finalmente designado para sua morte, o anjo da morte, incapaz de interromper o estudo de David por meios diretos, recorre a um estratagema: sobe ao pomar atrás da casa de David e sacode as árvores, criando um ruído estranho e chamativo. Movido pela curiosidade natural de investigar a origem do barulho, David interrompe — pela primeira e única vez naquele Shabat — seu estudo, e sai para ver o que está acontecendo. É exatamente nesse instante de silêncio que sua vida se extingue: ao subir a escada, um degrau se quebra sob seus pés, e o choque faz com que ele emudeça definitivamente, falecendo no mesmo momento em que suas palavras de Torá cessam — ilustrando dramaticamente o princípio de que sua vida e seu estudo estavam entrelaçados.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a proteção do estudo e o pomar
כל יומא דשבתא - של כל שבתות השנים:

"Todo dia de Shabat" — (referindo-se) a todos os Shabatot do ano.

הוה יתיב וגריס - שלא יקרב מלאך המות אליו שהתורה מגינה ממות כדאמרינן בסוטה (דף כא.):

"Sentava-se e estudava" — para que o anjo da morte não se aproximasse dele, pois a Torá protege da morte, conforme dizemos em Sotá (21a).

סליק ובחיש באילני - מנענע המלאך באילנות להשמיע קול תימה:

"Subiu e sacudiu as árvores" — o anjo balança as árvores para fazer ouvir um som estranho.

02Salomão pergunta à casa de estudo o que fazer com o corpo de David e com os cães famintos; recebe a resposta e retorna à pergunta original com a explicação de "nêr"
Guemará; Salomão
שְׁלַח שְׁלֹמֹה לְבֵי מִדְרְשָׁא: אַבָּא מֵת וּמוּטָל בַּחַמָּה, וּכְלָבִים שֶׁל בֵּית אַבָּא רְעֵבִים — מָה אֶעֱשֶׂה? שְׁלַחוּ לֵיהּ: חֲתוֹךְ נְבֵלָה וְהַנַּח לִפְנֵי הַכְּלָבִים. וְאָבִיךְ, הַנַּח עָלָיו כִּכָּר אוֹ תִּינוֹק וְטַלְטְלוֹ. וְלֹא יָפֶה אָמַר שְׁלֹמֹה: ״כִּי לְכֶלֶב חַי הוּא טוֹב מִן הָאַרְיֵה הַמֵּת״. וּלְעִנְיַן שְׁאֵילָה דְּשָׁאֵילְנָא קֳדָמֵיכוֹן: נֵר קְרוּיָה ״נֵר״, וְנִשְׁמָתוֹ שֶׁל אָדָם קְרוּיָה ״נֵר״. מוּטָב תִּכְבֶּה נֵר שֶׁל בָּשָׂר וָדָם מִפְּנֵי נֵרוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא.

Enviou Salomão (mensagem) à casa de estudo: meu pai morreu e está exposto ao sol, e os cães da casa de meu pai estão famintos — o que farei? Enviaram-lhe: corta um animal morto e põe diante dos cães; e a teu pai, põe sobre ele um pão ou uma criança e move-o (dessa forma, sem tocá-lo diretamente, já que se trata de um corpo em Shabat). E não disse bem Salomão: "pois, para um cão vivo, ele é melhor do que o leão morto"? E quanto à pergunta que me perguntastes diante de mim (sobre apagar a vela por causa do doente): "nêr" é chamada (tanto a) lamparina (quanto) a alma do homem é chamada "nêr". Melhor que se apague a vela de carne e sangue diante da vela do Santo, bendito seja (isto é, é preferível apagar a lamparina física para preservar a vida do doente, que é a "vela" de D-us).

Nota

A narrativa retorna a Salomão, agora diante do corpo de seu pai morto no dia de Shabat — situação que impõe um duplo problema prático: o corpo não pode ser deslocado diretamente em Shabat (por ser muktzê), mas fica exposto ao sol, e, ao mesmo tempo, os cães do palácio, sem ser alimentados, ameaçam profaná-lo. Salomão consulta a casa de estudo, que responde com duas soluções paralelas: para os cães, cortar um animal já morto (nevelá, que não tem a restrição de muktzê da mesma forma) e alimentá-los; para o corpo de David, cobri-lo com um pão ou colocar uma criança pequena sobre ele, permitindo que seja movido "indiretamente" (pois mover um objeto proibido junto com algo permitido, chamado tiltul min hatzad, é uma leniência reconhecida). A Guemará nota, com um toque de ironia agradável, que a própria situação vivida por Salomão ilustra perfeitamente a frase que ele mesmo escreveu — "um cão vivo é melhor que o leão morto" — pois ali estava o grande rei David, agora morto, sendo tratado com menos urgência prática do que os cães vivos que precisavam ser alimentados primeiro. Finalmente, a Guemará retoma o fio da pergunta original que abriu toda essa digressão — se é permitido apagar a lamparina de barro por causa do doente — trazendo a conclusão de Rabi Tanchum: a palavra hebraica "nêr" designa tanto a lamparina física quanto, por extensão poética e halachicamente significativa, a própria alma humana (com base em "a alma do homem é a vela de D-us", Provérbios 20:27). Sendo assim, apagar uma vela física de barro para preservar a "vela" viva de uma pessoa — sua alma — é, evidentemente, permitido e até desejável: melhor apagar a vela menor (de carne e sangue) para preservar a vela maior (a obra de D-us).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a pergunta de Salomão e a resposta sobre "nêr"
וכלבים של בית אבא רעבים - לשתי שאלות הללו הוצרך:

"E os cães da casa de meu pai estão famintos" — para essas duas perguntas (ele) precisou.

ולא יפה אמר כו' - שלתקנת הכלבים לא הצריכוהו לשנות טלטול נבילה ואת האריה המת אסרו לטלטל אלא על ידי ככר או תינוק ל"א שהקדימוהו תשובת הכלב לתשובת האריה לשון רבותי:

"E não disse bem", etc. — pois, para o benefício dos cães, não o obrigaram a alterar o transporte do animal morto, mas quanto ao "leão" morto (David), proibiram transportá-lo senão por meio de um pão ou uma criança. Outra explicação, (segundo) a linguagem de meus mestres: antepuseram-lhe a resposta sobre o cão à resposta sobre o leão.

ולענין שאילתא - דמהו לכבות:

"E quanto à pergunta" — (a que fizeste) sobre o que é (a halachá quanto) a apagar.

דשאילנא קדמיכון - דרך ענוה אמר דהוה ליה למימר דשאילתון קדמי:

"Que me perguntastes diante de mim" — por modo de humildade (assim) disse, quando deveria ter dito "que me perguntastes".

קרויה נר - נר אלהים נשמת אדם (משלי כ׳:כ״ז):

"É chamada nêr" — (conforme o versículo) "a vela de D-us é a alma do homem" (Provérbios 20:27).

מוטב תכבה נרו כו' - לאו מהכא יליף חלול שבת דפיקוח נפש נפקא לן מוחי בהם ולא שימות בהם אלא להטעימן הדבר באגדה המושכת את הלב לפי שהיו באים לשמוע הדרשה נשים ועמי הארץ והיו צריכין הדרשנין למשוך את לבבם:

"Melhor que se apague sua vela", etc. — não é daqui que se deduz a permissão de profanar o Shabat, pois (a permissão) por causa de salvar a vida deduz-se de "e viverá por eles, e não que morra por eles"; mas (essa explicação serve) apenas para tornar o assunto agradável através de uma exposição agádica que atrai o coração, pois vinham ouvir a exposição mulheres e pessoas simples, e os expositores precisavam atrair seu coração.

O quase-esconder de Kohelet e a alegria de mitzvá · בִּקְּשׁוּ חֲכָמִים לִגְנוֹז

03Os sábios quase esconderam o livro de Kohelet por suas contradições internas, salvo por começar e terminar com palavras de Torá
Guemará; Rav Yehuda em nome de Rav
אָמַר רַב יְהוּדָה בְּרֵיהּ דְּרַב שְׁמוּאֵל בַּר שִׁילַת מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב: בִּקְּשׁוּ חֲכָמִים לִגְנוֹז סֵפֶר קֹהֶלֶת מִפְּנֵי שֶׁדְּבָרָיו סוֹתְרִין זֶה אֶת זֶה. וּמִפְּנֵי מָה לֹא גְּנָזוּהוּ? — מִפְּנֵי שֶׁתְּחִילָּתוֹ דִּבְרֵי תוֹרָה וְסוֹפוֹ דִּבְרֵי תוֹרָה. תְּחִילָּתוֹ דִּבְרֵי תוֹרָה, דִּכְתִיב: ״מַה יִּתְרוֹן לָאָדָם בְּכׇל עֲמָלוֹ שֶׁיַּעֲמוֹל תַּחַת הַשֶּׁמֶשׁ״ — וְאָמְרִי דְּבֵי רַבִּי יַנַּאי תַּחַת הַשֶּׁמֶשׁ הוּא דְּאֵין לוֹ. קוֹדֶם שֶׁמֶשׁ — יֵשׁ לוֹ. סוֹפוֹ דִּבְרֵי תוֹרָה, דִּכְתִיב: ״סוֹף דָּבָר הַכֹּל נִשְׁמָע אֶת הָאֱלֹהִים יְרָא וְאֶת מִצְוֹתָיו שְׁמוֹר כִּי זֶה כׇּל הָאָדָם״. מַאי ״כִּי זֶה כׇּל הָאָדָם״? — אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: כׇּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ לֹא נִבְרָא אֶלָּא בִּשְׁבִיל זֶה. רַבִּי אַבָּא בַּר כָּהֲנָא אָמַר: שָׁקוּל זֶה כְּנֶגֶד כׇּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ. שִׁמְעוֹן בֶּן עַזַּאי אוֹמֵר, וְאָמְרִי לַהּ שִׁמְעוֹן בֶּן זוֹמָא אוֹמֵר: לֹא נִבְרָא כׇּל הָעוֹלָם כּוּלּוֹ אֶלָּא לִצְווֹת לָזֶה.

Disse Rav Yehuda, filho de Rav Shmuel bar Shilat, em nome de Rav: quiseram os sábios esconder o livro de Kohelet, porque suas palavras se contradizem umas às outras. E por que não o esconderam? Porque seu início (são) palavras de Torá e seu final (são) palavras de Torá. Seu início (são) palavras de Torá, como está escrito: "que proveito tem o homem em todo o seu labor com que labuta debaixo do sol" (Kohelet 1:3) — e dizia a escola de Rabi Yanai: "debaixo do sol" é que não tem (proveito, mas) antes do sol (isto é, no estudo da Torá, que precede o sol) tem. Seu final (são) palavras de Torá, como está escrito: "o fim de tudo, tendo ouvido tudo: teme a D-us e guarda Seus mandamentos, pois isto é todo o homem" (Kohelet 12:13). O que (significa) "pois isto é todo o homem"? Disse Rabi Elazar: todo o mundo inteiro não foi criado senão por causa disto. Rabi Abá bar Cahana disse: isto pesa tanto quanto o mundo inteiro. Shimon ben Azai diz, e há quem diga que Shimon ben Zoma diz: o mundo inteiro não foi criado senão para ordenar isto.

Nota

A Guemará abre uma nova direção na sugia, ainda ligada ao tema dos versículos "contraditórios" de Salomão, mas agora expandindo para uma discussão mais ampla sobre o próprio status canônico do livro de Kohelet. Revela-se que os sábios chegaram a considerar seriamente retirar Kohelet de circulação pública ("esconder", ginzá, um termo técnico para livros cuja leitura pública se restringe por conterem problemas teológicos ou práticos), precisamente por causa das múltiplas contradições internas que o livro parece conter — das quais a Guemará já expôs uma no daf anterior. O que salvou o livro foi a observação de que sua moldura literária — o primeiro e o último versículo — consiste em afirmações claramente consistentes com a Torá e a fé. O versículo inicial, lido superficialmente, parece ser uma declaração pessimista sobre a futilidade do esforço humano; mas a escola de Rabi Yanai propõe uma leitura sutilmente diferente: a frase "debaixo do sol" é a chave — o labor sem proveito é apenas aquele realizado em assuntos mundanos ("debaixo do sol"), mas o labor da Torá, que precede a própria criação do sol, tem proveito eterno. O versículo final, por sua vez, é uma afirmação explícita e inequívoca sobre o temor a D-us e o cumprimento dos mandamentos sendo a essência de toda a existência humana — appoiada por três formulações sucessivas e crescentes em intensidade dos amoraim: que o mundo inteiro foi criado por causa disso; que isso pesa tanto quanto o mundo inteiro; e que o próprio mundo existe apenas para servir de contexto a esse mandamento.

04A contradição sobre ira e riso, resolvida distinguindo a ira e o riso de D-us sobre justos e ímpios neste mundo e no Mundo Vindouro
Guemará
וּמַאי ״דְּבָרָיו סוֹתְרִין זֶה אֶת זֶה״? כְּתִיב: ״טוֹב כַּעַס מִשְּׂחוֹק״, וּכְתִיב ״לִשְׂחוֹק אָמַרְתִּי מְהוֹלָל״! כְּתִיב ״וְשִׁבַּחְתִּי אֲנִי אֶת הַשִּׂמְחָה״, וּכְתִיב ״וּלְשִׂמְחָה מַה זֹּה עוֹשָׂה! לָא קַשְׁיָא ״טוֹב כַּעַס מִשְּׂחוֹק״: טוֹב כַּעַס שֶׁכּוֹעֵס הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הַצַּדִּיקִים בָּעוֹלָם הַזֶּה, מִשְּׂחוֹק שֶׁמְּשַׂחֵק הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עַל הָרְשָׁעִים בָּעוֹלָם הַזֶּה. וְ״לִשְׁחוֹק אָמַרְתִּי מְהוֹלָל״ — זֶה שְׂחוֹק שֶׁמְּשַׂחֵק הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא עִם הַצַּדִּיקִים בָּעוֹלָם הַבָּא.

E o que (significa) "suas palavras se contradizem umas às outras"? Está escrito: "melhor é a ira do que o riso" (Kohelet 7:3), e está escrito: "ao riso eu disse: 'louvado'" (Kohelet 2:2)! (E também:) está escrito: "e eu louvei a alegria" (Kohelet 8:15), e está escrito: "e à alegria, o que (de bom) ela faz?" (Kohelet 2:2)! (A Guemará responde:) não é difícil. "Melhor é a ira do que o riso" — melhor é a ira com que o Santo, bendito seja, se ira contra os justos neste mundo, do que o riso com que o Santo, bendito seja, ri dos ímpios neste mundo. E "ao riso eu disse: 'louvado'" — este é o riso com que o Santo, bendito seja, ri com os justos no Mundo Vindouro.

Nota

A Guemará detalha exatamente quais são as contradições que quase levaram ao esconder de Kohelet, trazendo dois pares de versículos aparentemente incompatíveis. O primeiro par envolve ira e riso: num versículo, Kohelet declara que a ira é preferível ao riso; noutro, ele parece elogiar o riso ("louvado"). O segundo par envolve a alegria: num versículo, Kohelet louva a alegria; noutro, ele parece rebaixá-la, perguntando retoricamente o que ela realmente realiza. A Guemará resolve a primeira contradição introduzindo uma distinção temporal e teológica: a "ira" elogiada refere-se à ira divina que castiga os justos neste mundo — um sofrimento que, embora doloroso, serve para purificar seus pecados menores agora, garantindo-lhes recompensa plena e sem desconto no Mundo Vindouro; essa ira é "melhor" do que o "riso" com que D-us tolera os ímpios neste mundo, permitindo-lhes prosperar temporariamente — pois esse riso, apesar de parecer benéfico, na verdade lhes nega a purificação, condenando-os a pagar pelos pecados no mundo futuro, sem alívio. Já o "riso" elogiado no segundo versículo é de natureza completamente diferente: refere-se ao prazer e à alegria que D-us proporcionará aos justos no próprio Mundo Vindouro — um riso genuinamente positivo, sem qualquer sombra da ambiguidade do primeiro.

05A contradição sobre alegria, resolvida distinguindo a alegria de mitzvá da alegria sem mitzvá; a Shechiná só repousa a partir de alegria de mitzvá
Guemará
״וְשִׁבַּחְתִּי אֲנִי אֶת הַשִּׂמְחָה״ — שִׂמְחָה שֶׁל מִצְוָה. ״וּלְשִׂמְחָה מַה זֹּה עוֹשָׂה״ — זוֹ שִׂמְחָה שֶׁאֵינָהּ שֶׁל מִצְוָה. לְלַמֶּדְךָ שֶׁאֵין שְׁכִינָה שׁוֹרָה לֹא מִתּוֹךְ עַצְבוּת וְלֹא מִתּוֹךְ עַצְלוּת וְלֹא מִתּוֹךְ שְׂחוֹק וְלֹא מִתּוֹךְ קַלּוּת רֹאשׁ וְלֹא מִתּוֹךְ שִׂיחָה וְלֹא מִתּוֹךְ דְּבָרִים בְּטֵלִים, אֶלָּא מִתּוֹךְ דְּבַר שִׂמְחָה שֶׁל מִצְוָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְעַתָּה קְחוּ לִי מְנַגֵּן וְהָיָה כְּנַגֵּן הַמְנַגֵּן וַתְּהִי עָלָיו יַד ה׳״. אָמַר רַב יְהוּדָה: וְכֵן לִדְבַר הֲלָכָה. אָמַר רָבָא: וְכֵן לַחֲלוֹם טוֹב.

"E eu louvei a alegria" — (esta é) a alegria de mitzvá. "E à alegria, o que (de bom) ela faz?" — esta é a alegria que não é de mitzvá. (Isso vem) para ensinar-te que a Shechiná não repousa nem a partir de tristeza, nem a partir de preguiça, nem a partir de riso, nem a partir de leviandade, nem a partir de conversa (fiada), nem a partir de palavras vãs, senão a partir de uma (coisa) de alegria de mitzvá, como está dito: "e agora, trazei-me um músico; e sucedeu que, quando o músico tocava, veio sobre ele a mão do Eterno" (Melachim II 3:15). Disse Rav Yehuda: e assim também para (proferir) uma palavra de halachá. Disse Rava: e assim também para (ter) um bom sonho.

Nota

A Guemará resolve a segunda contradição de modo paralelo à primeira, distinguindo dois tipos de alegria por seu conteúdo, não por seu tempo. A alegria genuinamente louvada por Kohelet é especificamente a "alegria de mitzvá" — o prazer e a satisfação que acompanham o cumprimento de um preceito divino, como celebrar um casamento (exemplo trazido por Rashi) ou outra ocasião sagrada. Já a alegria questionada e rebaixada é a alegria vazia, desprovida de qualquer conexão com o sagrado — puro entretenimento sem propósito espiritual. A partir dessa distinção, a Guemará extrai um princípio espiritual mais amplo e influente: a Presença Divina (Shechiná) não desce e não repousa sobre uma pessoa em nenhum dos estados emocionais ou comportamentais negativos listados — tristeza, indolência, riso vazio, frivolidade, tagarelice ou futilidade — mas apenas quando a pessoa está imersa numa alegria genuína ligada ao cumprimento de uma mitzvá. A prova bíblica vem do episódio do profeta Elisha, que, precisando de inspiração profética, pede primeiro que um músico toque para ele — e é apenas através dessa alegria musical (ligada à mitzvá da profecia) que a mão de D-us repousa sobre ele. Rav Yehuda estende esse princípio ao estudo prático da halachá — também ele deveria começar com um estado de espírito alegre —, e Rava o estende ainda mais, aplicando-o também ao sono, sugerindo que adormecer num estado de alegria propicia sonhos positivos e reveladores.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o riso dos ímpios, a alegria de mitzvá e a Shechiná
מהולל - משובח:

"Louvado" — elogiado.

משחוק שמשחק עם הרשעים - שנותן להם שעה משחקת כדי להאכילן חלקן ולטורדן מן העולם הבא:

"Do que o riso com que (D-us) ri (brinca) com os ímpios" — pois lhes dá um momento próspero, para dar-lhes de comer sua (pequena) porção (de recompensa) e afastá-los do Mundo Vindouro.

שמחה של מצוה - כגון הכנסת כלה:

"Alegria de mitzvá" — como, por exemplo, conduzir a noiva ao casamento.

שחוק - שחוק ממש שאין דעת שוחק מיושבת עליו ואפילו אינו של לצון מ"מ אין בו יישוב:

"Riso" — riso literal, no qual a mente de quem ri não está serena; e, mesmo que não seja de zombaria, ainda assim não há nele serenidade.

קלות ראש - לצון:

"Leviandade" — zombaria.

קחו לי מנגן - מצוה היא להשרות עליו שכינה:

"Trazei-me um músico" — é uma mitzvá, (feita) para fazer repousar sobre ele a Shechiná.

לדבר הלכה - צריך לפתוח במילי דבדיחותא ברישא:

"Para (proferir) uma palavra de halachá" — é necessário abrir primeiro com palavras de humor.

לחלום טוב - אם בא לישן מתוך שמחה מראין לו חלום טוב:

"Para (ter) um bom sonho" — se (a pessoa) vai dormir a partir de (um estado de) alegria, mostram-lhe um bom sonho.

06Objeção a partir do ensinamento de Rav Gidel sobre lábios amargos, resolvida distinguindo mestre e aluno, ou antes e depois de abrir; o costume de Rabá
Guemará
אִינִי, וְהָאָמַר רַב גִּידֵּל אָמַר רַב: כׇּל תַּלְמִיד חָכָם שֶׁיּוֹשֵׁב לִפְנֵי רַבּוֹ וְאֵין שִׂפְתוֹתָיו נוֹטְפוֹת מָר, תִּכָּוֶינָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שִׂפְתוֹתָיו שׁוֹשַׁנִּים נוֹטְפוֹת מוֹר עוֹבֵר״: אַל תִּקְרֵי ״מוֹר עוֹבֵר״, אֶלָּא ״מָר עוֹבֵר״. אַל תִּקְרֵי ״שׁוֹשַׁנִּים״, אֶלָּא ״שֶׁשּׁוֹנִים״. לָא קַשְׁיָא: הָא בְּרַבָּה וְהָא בְּתַלְמִידָא. וְאִיבָּעֵית אֵימָא הָא וְהָא בְּרַבָּה, וְלָא קַשְׁיָא: הָא מִקַּמֵּי דְּלִפְתַּח, הָא לְבָתַר דִּפְתַח. כִּי הָא דְּרַבָּה מִקַּמֵּי דְּפָתַח לְהוּ לְרַבָּנַן אָמַר מִילְּתָא דִּבְדִיחוּתָא וּבָדְחִי רַבָּנַן, לְסוֹף יָתֵיב בְּאֵימְתָא וּפָתַח בִּשְׁמַעְתָּא.

(A Guemará questiona:) É (assim) mesmo? Mas não disse Rav Gidel em nome de Rav: todo discípulo sábio que se senta diante de seu mestre e cujos lábios não gotejam amargor, queimem-se (esses lábios), como está dito: "seus lábios (são como) lírios, gotejando mirra (mor over) que passa" (Cântico dos Cânticos 5:13): não leias "mor over" (mirra que passa), mas "mar over" (amargor que passa); não leias "shoshanim" (lírios), mas "sheshonim" (os que estudam)! (A Guemará responde:) não é difícil: este (caso trata) do mestre, e aquele (trata) do aluno. E, se quiseres, dize: este e aquele (tratam) do mestre, e não é difícil: este (é) antes de (o mestre) abrir (a exposição), e aquele (é) depois de (o mestre) ter aberto. Como aquilo (que se conta) de Rabá: antes de abrir (a exposição) para os sábios, dizia algo de humor, e os sábios se alegravam; ao final, sentava-se com temor (reverente) e abria (a exposição) com a matéria (halachica).

Nota

A Guemará traz uma objeção aparente ao princípio recém-estabelecido de que se deve abrir uma exposição halachica com humor: um ensinamento de Rav Gidel, apoiado numa leitura homilética de um versículo do Cântico dos Cânticos, exige exatamente o oposto — que os lábios de um sábio diante de seu mestre transbordem "amargor" (seriedade grave), sob pena severa. A Guemará oferece duas resoluções sucessivas. A primeira distingue entre o papel do mestre (que ensina, e por isso pode e deve abrir com leveza para conquistar a atenção da audiência) e o papel do aluno (que recebe, e deve manter uma postura de seriedade e reverência diante do mestre). A segunda resolução, mais refinada, aplica ambos os ensinamentos ao próprio mestre, mas distinguindo dois momentos de sua exposição: antes de "abrir" formalmente a aula (quando é apropriado, e até recomendado, aliviar o ambiente com humor) e depois de já ter iniciado a exposição halachica propriamente dita (quando a seriedade e o "amargor" do compromisso com a verdade da Torá devem prevalecer). Essa síntese é ilustrada com o costume relatado do próprio Rabá, um dos grandes amoraim babilônios: ele abria suas aulas com uma piada, fazendo os sábios presentes rirem e relaxarem, e só então, com o clima já mais leve e receptivo, assumia uma postura de temor reverente e passava a ensinar a matéria halachica séria.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre os lábios amargos e o costume de Rabá
נוטפות מר - מרירות מחמת אימה:

"Gotejando amargor" — amargura por causa do temor (reverente).

ובדחי רבנן - נפתח לבם מחמת השמחה:

"E os sábios se alegravam" — abria-se seu coração por causa da alegria.

O quase-esconder de Provérbios e os episódios de humor · אַף סֵפֶר מִשְׁלֵי בִּקְּשׁוּ לִגְנוֹז

07Também o livro de Provérbios quase foi escondido por suas contradições; a distinção entre responder ao tolo em Torá e em assuntos mundanos
Guemará
וְאַף סֵפֶר מִשְׁלֵי בִּקְּשׁוּ לִגְנוֹז שֶׁהָיוּ דְּבָרָיו סוֹתְרִין זֶה אֶת זֶה. וּמִפְּנֵי מָה לֹא גְּנָזוּהוּ? אָמְרִי: סֵפֶר קֹהֶלֶת לָאו עַיְינִינַן וְאַשְׁכְּחִינַן טַעְמָא? הָכָא נָמֵי לִיעַיֵּין. וּמַאי דְּבָרָיו סוֹתְרִים זֶה אֶת זֶה? — כְּתִיב ״אַל תַּעַן כְּסִיל כְּאִוַּלְתּוֹ״, וּכְתִיב: ״עֲנֵה כְסִיל כְּאִוַּלְתּוֹ״. לָא קַשְׁיָא: הָא בְּדִבְרֵי תוֹרָה, הָא בְּמִילֵּי דְעָלְמָא.

E também o livro de Provérbios quiseram esconder, pois suas palavras se contradiziam umas às outras. E por que não o esconderam? Disseram: o livro de Kohelet, não examinamos e encontramos a razão (que o salvou)? Aqui também examinemos. E o que (significa) "suas palavras se contradizem umas às outras"? Está escrito: "não respondas ao tolo conforme sua tolice" (Provérbios 26:4), e está escrito: "responde ao tolo conforme sua tolice" (Provérbios 26:5)! Não é difícil: este (trata) de assuntos de Torá, aquele (trata) de assuntos mundanos.

Nota

A Guemará estende o padrão já visto com Kohelet a um segundo livro sapiencial atribuído a Salomão: também o livro de Provérbios chegou a ser considerado para "esconder" pelos sábios, por conter uma contradição explícita e lado a lado — dois versículos consecutivos que parecem se anular mutuamente quanto a como tratar um tolo em debate. A decisão de não esconder Provérbios segue o mesmo raciocínio metodológico usado para Kohelet: já que uma investigação cuidadosa revelou uma resolução satisfatória para as contradições daquele livro, os sábios aplicaram o mesmo princípio de dar benefício da dúvida e investigar também as aparentes contradições de Provérbios antes de decidir escondê-lo. A resolução da contradição específica sobre responder ao tolo é elegante e prática: em assuntos de Torá — onde ceder terreno ao raciocínio falho de um tolo poderia consolidar um erro teológico ou halachico —, não se deve responder na mesma moeda tola, evitando dignificar ou validar o erro; mas em assuntos mundanos e práticos, onde silenciar diante de uma tolice pode ser interpretado como fraqueza ou concordância tácita, é apropriado — e às vezes necessário — responder ao tolo em seus próprios termos, para desarmar seu argumento ou constrangê-lo.

08Ilustração em assuntos mundanos: dois episódios de homens que afirmam parentesco vergonhoso e são silenciados com vinho até estourarem
Guemará
כִּי הָא דְּהָהוּא דַּאֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרַבִּי אֲמַר לֵיהּ: אִשְׁתְּךָ אִשְׁתִּי, וּבָנֶיךָ בָּנַי. אֲמַר לֵיהּ: רְצוֹנֶךָ שֶׁתִּשְׁתֶּה כּוֹס שֶׁל יַיִן? שָׁתָה וּפָקַע. הָהוּא דַּאֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרַבִּי חִיָּיא, אֲמַר לֵיהּ: אִמְּךָ אִשְׁתִּי, וְאַתָּה בְּנִי. אֲמַר לֵיהּ: רְצוֹנֶךָ שֶׁתִּשְׁתֶּה כּוֹס שֶׁל יַיִן? שָׁתָה וּפָקַע. אֲמַר רַבִּי חִיָּיא: אַהְנְיָא לֵיהּ צְלוֹתֵיהּ לְרַבִּי דְּלָא לְשַׁוּוֹיֵיהּ בְּנֵי מַמְזֵירֵי. דְּרַבִּי כִּי הֲוָה מְצַלֵּי אֲמַר: ״יְהִי רָצוֹן מִלְּפָנֶיךָ ה׳ אֱלֹהֵינוּ, שֶׁתַּצִּילֵנִי הַיּוֹם מֵעַזֵּי פָּנִים וּמֵעַזּוּת פָּנִים״.

Como aquele (episódio) daquele que veio diante de Rabi (e) lhe disse: tua esposa é minha esposa, e teus filhos são meus filhos (insinuando relações impróprias). Disse-lhe (Rabi): queres beber uma taça de vinho? Bebeu, e estourou. (Outro episódio de) aquele que veio diante de Rabi Chiya, (e) lhe disse: tua mãe é minha esposa, e tu és meu filho. Disse-lhe: queres beber uma taça de vinho? Bebeu, e estourou. Disse Rabi Chiya: ajudou-lhe sua oração a Rabi, para não os tornar filhos (ilegítimos, isto é, mamzerim, através de sua própria calúnia pública). Pois Rabi, quando rezava, dizia: "seja Tua vontade, Eterno nosso D-us, que me salves hoje de (pessoas de) face insolente e de insolência de face".

Nota

A Guemará ilustra a segunda metade da regra recém-estabelecida — como responder a um tolo em "assuntos mundanos" — trazendo dois episódios paralelos e quase idênticos, envolvendo Rabi Yehuda HaNassi e seu contemporâneo Rabi Chiya. Em ambos os casos, um homem insolente se aproxima do sábio com uma afirmação escandalosa e caluniosa, insinuando publicamente uma relação imprópria (adultério, no primeiro caso; incesto materno, no segundo) que, se levada a sério ou contestada abertamente, poderia lançar dúvidas sobre a legitimidade da própria descendência do sábio, potencialmente rotulando seus filhos como mamzerim (filhos de uniões proibidas, com status legal prejudicado). Em vez de discutir ou refutar a acusação diretamente — o que poderia dar-lhe credibilidade indesejada —, cada sábio simplesmente oferece ao provocador uma taça de vinho. O homem, provavelmente já embriagado ou fisicamente incapaz de suportar mais bebida, "estoura" (morre ou sofre um colapso, segundo a leitura simples do texto) — silenciando a calúnia de uma vez por todas sem que o sábio precisasse sequer respondê-la com palavras. Rabi Chiya credita esse desfecho favorável à oração diária que Rabi costumava recitar, pedindo especificamente proteção contra pessoas de "face insolente" — sugerindo que a intervenção divina, e não apenas a sagacidade prática, evitou que a calúnia pública prejudicasse a reputação e a linhagem do sábio.

09Ilustração em assuntos de Torá: Rabban Gamliel expõe que a mulher dará à luz todo dia; o zombador é vindicado com o exemplo da galinha
Guemará
בְּדִבְרֵי תוֹרָה מַאי הִיא? — כִּי הָא דְּיָתֵיב רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְקָא דָרֵישׁ: עֲתִידָה אִשָּׁה שֶׁתֵּלֵד בְּכָל יוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר ״הָרָה וְיוֹלֶדֶת יַחְדָּיו״. לִיגְלֵג עָלָיו אוֹתוֹ תַּלְמִיד, אָמַר: ״אֵין כׇּל חָדָשׁ תַּחַת הַשָּׁמֶשׁ״! אֲמַר לֵיהּ: בֹּא וְאַרְאֶךָּ דּוּגְמָתָן בָּעוֹלָם הַזֶּה. נְפַק אַחְוִי לֵיהּ תַּרְנְגוֹלֶת.

Em assuntos de Torá, qual é (o exemplo)? Como aquele (episódio) de Rabban Gamliel, que se sentava e expunha: destinada está a mulher a dar à luz todo dia, como está dito: "grávida e parindo juntamente" (Jeremias 31:7). Zombou dele aquele discípulo, (e) disse: "nada há de novo debaixo do sol" (Kohelet 1:9)! Disse-lhe: vem, e eu te mostrarei um exemplo (disso) neste mundo. Saiu (e) mostrou-lhe uma galinha.

Nota

A Guemará agora ilustra a primeira metade da regra — como responder a um tolo em "assuntos de Torá" — com uma série de três episódios envolvendo Rabban Gamliel, um dos grandes líderes da academia de Yavne, e um discípulo zombador não identificado pelo nome. Nesse primeiro episódio, Rabban Gamliel expõe, a partir de uma leitura homilética de um versículo de Jeremias sobre a redenção futura de Israel, uma profecia surpreendente: no futuro (isto é, na era messiânica), as mulheres darão à luz todos os dias — uma gestação instantânea, sem os nove meses habituais. O discípulo reage com zombaria, citando ironicamente contra o próprio mestre um versículo de Kohelet — "nada há de novo debaixo do sol" — como se dissesse: essa profecia é absurda, pois viola as leis naturais conhecidas e nunca antes vistas. Em vez de responder com uma explicação teórica ou defender-se com argumentos abstratos, Rabban Gamliel, seguindo exatamente o princípio de "responder ao tolo conforme sua tolice" em assuntos de Torá — aqui entendido não como validar a zombaria, mas como refutá-la nos mesmos termos concretos em que foi apresentada —, simplesmente leva o discípulo para ver uma galinha, que, de fato, produz um ovo por dia, demonstrando que um "parto" diário já existe na natureza, tornando a profecia futura menos absurda do que parecia.

10Rabban Gamliel expõe que as árvores darão fruto todo dia; o zombador é vindicado com o exemplo do alcaparreiro
Guemará
וְתוּ, יָתֵיב רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְקָא דָרֵישׁ: עֲתִידִים אִילָנוֹת שֶׁמּוֹצִיאִין פֵּירוֹת בְּכָל יוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְנָשָׂא עָנָף וְעָשָׂה פֶרִי״ — מֶה עָנָף בְּכָל יוֹם אַף פְּרִי בְּכָל יוֹם. לִיגְלֵג עָלָיו אוֹתוֹ תַּלְמִיד, אָמַר: וְהָכְתִיב ״אֵין כׇּל חָדָשׁ תַּחַת הַשָּׁמֶשׁ״. אֲמַר לֵיהּ: בֹּא וְאַרְאֶךָּ דּוּגְמָתָם בָּעוֹלָם הַזֶּה. נְפַק אַחְוִי לֵיהּ צָלָף.

E ainda, sentava-se Rabban Gamliel e expunha: destinadas estão as árvores a produzir frutos todo dia, como está dito: "e levantará ramo e fará fruto" (Ezequiel 17:23) — assim como (há) ramo todo dia, também (haverá) fruto todo dia. Zombou dele aquele discípulo, (e) disse: e não está escrito, "nada há de novo debaixo do sol"? Disse-lhe: vem, e eu te mostrarei um exemplo deles neste mundo. Saiu (e) mostrou-lhe um alcaparreiro.

Nota

O segundo dos três episódios segue exatamente o mesmo padrão retórico do primeiro. Desta vez, Rabban Gamliel expõe, a partir de um versículo de Ezequiel sobre uma árvore simbólica plantada por D-us, a profecia de que, na era futura, as árvores produzirão frutos continuamente, todos os dias — assim como continuamente produzem novos ramos e folhagem. Novamente o discípulo zomba, citando o mesmo versículo de Kohelet contra a viabilidade natural dessa profecia. E, novamente, Rabban Gamliel refuta a zombaria não com teoria, mas com um exemplo botânico concreto e já existente: o alcaparreiro (tzalaf), uma planta conhecida por produzir, segundo Rashi, três tipos diferentes de "frutos" utilizáveis (os brotos, as flores em botão, e o próprio fruto do alcaparreiro) em ciclos tão sobrepostos e contínuos que, na prática, produz algo colhível quase todos os dias — demonstrando que uma árvore com produção praticamente diária já existe na natureza atual.

11Rabban Gamliel expõe que a Terra de Israel produzirá pães finos e tecidos prontos; o zombador é vindicado com cogumelos e o linho selvagem
Guemará
וְתוּ, יָתֵיב רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְקָא דָרֵישׁ: עֲתִידָה אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל שֶׁתּוֹצִיא גְּלוּסְקָאוֹת וּכְלֵי מֵילָת שֶׁנֶּאֱמַר: ״יְהִי פִסַּת בַּר בָּאָרֶץ״. לִיגְלֵג עָלָיו אוֹתוֹ תַּלְמִיד וְאָמַר: ״אֵין כׇּל חָדָשׁ תַּחַת הַשָּׁמֶשׁ״. אֲמַר לֵיהּ: בֹּא וְאַרְאֶךָּ דּוּגְמָתָן בָּעוֹלָם הַזֶּה. נְפַק אַחְוִי לֵיהּ כְּמֵיהִין וּפִטְרִיּוֹת. וְאַכְּלֵי מֵילָת — נְבָרָא בַּר קוֹרָא.

E ainda, sentava-se Rabban Gamliel e expunha: destinada está a Terra de Israel a produzir pães finos e vestimentas de lã fina, como está dito: "haja abundância de trigo na terra" (Salmos 72:16). Zombou dele aquele discípulo, e disse: "nada há de novo debaixo do sol"! Disse-lhe: vem, e eu te mostrarei um exemplo deles neste mundo. Saiu (e) mostrou-lhe trufas e cogumelos; e quanto às vestimentas de lã fina — (mostrou-lhe) o nevará (fibra) da casca da tamareira.

Nota

O terceiro episódio conclui a série com uma profecia ainda mais grandiosa: no futuro, a própria Terra de Israel produzirá espontaneamente, diretamente do solo, pães prontos e finos (sem necessidade de plantar, colher e moer trigo) e vestimentas de tecido fino e macio pronto para uso — uma abundância miraculosa derivada de um versículo dos Salmos sobre a fartura de trigo na terra na era messiânica. A zombaria do discípulo segue o padrão já estabelecido, e a resposta de Rabban Gamliel também: ele mostra dois exemplos já existentes na natureza que prefiguram essa abundância futura. Para os "pães", aponta trufas e cogumelos — alimentos que, segundo Rashi, brotam do solo da noite para o dia, já formados, redondos e prontos, sem qualquer trabalho agrícola de plantio ou colheita, assemelhando-se ao "pão" que brotará espontaneamente da terra. Para as "vestimentas de lã fina", aponta uma fibra macia e fiada, semelhante a um tecido natural, que cresce ao redor do broto tenro da tamareira antes de endurecer — uma espécie de "roupa" natural que a própria árvore já produz.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a distinção da resposta, o alcaparreiro e o linho de tamareira
בדברי תורה - מותר לענות כאולתו:

"Em assuntos de Torá" — é permitido responder conforme sua tolice.

הרה ויולדת יחדיו - ביום שהרה זה יולדת ולד אחר כמו תרנגולת וכיון שמשמשת בכל יום נמצאת יולדת בכל יום דהכי משמע קרא בכל עת שהיא מתעברת יולדת שממהרת לגמור צורת הולד לזמן מועט:

"Grávida e parindo juntamente" — no dia em que engravida deste, dá à luz outra criança, como (sucede com) uma galinha; e, já que se acasala todo dia, resulta que dá à luz todo dia, pois assim entende-se o versículo: em todo momento em que (a fêmea) engravida, dá à luz, pois apressa-se a completar a forma do filhote em pouco tempo.

בא ואראך - טרח לענותו כאולתו כדי להעמיד דברי תורה על מכונו:

"Vem, e eu te mostrarei" — esforçou-se para responder-lhe conforme sua tolice, a fim de estabelecer as palavras de Torá em sua base (correta).

ליגלג - זו אוולת:

"Zombou" — isto é (um ato de) tolice.

צלף - מין אילן הטוען ג' מיני פירות אביונות וקפריסין ולולבין וכי איתיה להאי ליתיה להאי כדאמר בריש חזקת הבתים:

"Alcaparreiro" — um tipo de árvore que carrega três tipos de frutos: avionot (botões), kaprisin (alcaparras) e lulavin (brotos); e, quando há deste, não há daquele, como se diz no início de Chazakat HaBatim (Bava Batra 28a).

בר - כמו לשבור בר (בראשית מב) ולענין כלי מילת בר נקי כמו ברה כחמה (שיר ו):

"Trigo" (bar) — como em "para comprar trigo" (Gênesis 42:3); e, quanto a "vestimentas de lã fina" (kelei meilat), (o termo "bar" também designa) puro, limpo, como em "pura como o sol" (Cântico dos Cânticos 6:10).

פיסת בר - משמע גלוסקאות שרחבות כמין פס יד ומשמע כלי מילת כמו כתונת פסים:

"Abundância (pissat) de trigo" — sugere pães finos, largos como a palma da mão (pas yad); e sugere (também) vestimentas finas, como (a expressão) "túnica de passim" (Gênesis 37:3).

כמהין ופטריות - שיוצאין כמות שהן בלילה אחד ורחבין ועגולין כגלוסקאות:

"Trufas e cogumelos" — que brotam tais como são numa única noite, e são largos e redondos como pães finos.

נברא בר קורא - סיב כמין לבוש מצוייר גדל סביבות הקור של דקל כשהוא רך קור ענף האילן כשהוא רך יוצא בכל שנה קודם שיתקשה קרוי קור:

"O nevará do broto" — uma fibra semelhante a uma vestimenta bordada, que cresce ao redor do broto tenro da tamareira, quando este ainda é mole; (o termo) "kor" (broto) — o ramo da árvore, quando ainda é mole, brota a cada ano antes de endurecer, e é chamado "kor".

Ser humilde como Hilel · לְעוֹלָם יְהֵא אָדָם עַנְוְותָן

12Baraita: sempre se deve ser humilde como Hilel e não impaciente como Shamai; abertura do episódio dos dois homens que apostaram para irritar Hilel
Baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: לְעוֹלָם יְהֵא אָדָם עַנְוְותָן כְּהִלֵּל וְאַל יְהֵא קַפְּדָן כְּשַׁמַּאי. מַעֲשֶׂה בִּשְׁנֵי בְּנֵי אָדָם שֶׁהִמְרוּ זֶה אֶת זֶה, אָמְרוּ: כׇּל מִי שֶׁיֵּלֵךְ וְיַקְנִיט אֶת הִלֵּל יִטּוֹל אַרְבַּע מֵאוֹת זוּז. אָמַר אֶחָד מֵהֶם: אֲנִי אַקְנִיטֶנּוּ.

Ensinaram os sábios (numa baraita): sempre deve a pessoa ser humilde (paciente) como Hilel, e não impaciente como Shamai. Aconteceu (o seguinte caso) com dois homens que apostaram um com o outro; disseram: qualquer um que for e irritar Hilel receberá quatrocentos zuz. Disse um deles: eu o irritarei.

Nota

O daf fecha com a abertura de uma nova unidade temática, que se estenderá pelo daf seguinte: uma baraita clássica que contrapõe os temperamentos dos dois grandes líderes da geração final do período dos Zugot — Hilel, conhecido por sua paciência e humildade extraordinárias, e Shamai, conhecido por seu rigor e temperamento mais curto (kapdan, impaciente ou exigente). A baraita estabelece a norma comportamental esperada: a pessoa deve sempre emular a humildade paciente de Hilel, evitando a impaciência de Shamai. Para ilustrar vividamente até que ponto ia a paciência de Hilel, a Guemará introduz um episódio famoso: dois homens apostam uma soma considerável — quatrocentos zuz, uma quantia substancial — sobre quem conseguiria fazer Hilel perder a paciência e se irritar. Um deles aceita o desafio e declara sua intenção de tentar. O daf termina aqui, no ponto exato em que o desafio está prestes a começar, com o desenrolar completo do episódio (as perguntas provocativas feitas a Hilel, incluindo a famosa pergunta sobre por que as cabeças dos babilônios são redondas, já revelada de relance no início do daf 31a) continuando diretamente no daf seguinte.