O daf abre analisando a nova Mishná que fechou 29b: da cláusula final ("é responsável") a Guemará deduz que a Mishná inteira segue Rabi Yehuda, para quem uma melachá não necessária para seu próprio propósito ainda gera responsabilidade; isso levanta uma dificuldade sobre a cláusula inicial (o doente), pois, se envolvesse risco de vida, deveria dizer "é permitido" e não apenas "está isento" — resolvida ao explicar que a redação "isento" foi arrastada pelo paralelismo com a cláusula final, e que a baraita de Rabi Oshaya (que trata de um doente sem risco de vida) segue Rabi Shimon. A seguir, é narrada uma pergunta que foi feita a Rabi Tanchum de Nave: é permitido apagar uma lamparina de barro diante de um doente em Shabat? Rabi Tanchum não responde diretamente, mas abre com uma citação de Kohelet e desafia o próprio Salomão por suas palavras aparentemente contraditórias sobre os mortos — "os mortos não louvam a D-us" (Tehilim, de David) contra "eu louvo os mortos que já morreram" e, ainda pior, "melhor é um cão vivo do que um leão morto" (ambos de Kohelet, do próprio Salomão). A Guemará então desenvolve, passo a passo, a reconciliação dessas três frases: a de David refere-se ao estudo de Torá e mitzvot, que cessa com a morte; a primeira de Salomão refere-se ao mérito dos patriarcas mortos, capaz de obter perdão quando os vivos (Moshé) não conseguem — como se viu no pecado do bezerro de ouro — e à permanência eterna dos decretos de Moshé, ao contrário dos decretos de reis mortais; e, por uma segunda explicação, refere-se ao perdão do pecado de Batsheva, que David pediu a D-us em vida, mas que só seria anunciado publicamente no reinado de Salomão. A Guemará narra então o episódio da inauguração do Templo: as portas da Casa Santíssima recusam-se a abrir para a entrada da Arca, até que, depois de vinte e quatro súplicas fracassadas, Salomão invoca o mérito de David — "não afastes o rosto de teu ungido, lembra-te das mercês de David, teu servo" — e as portas cedem imediatamente, tornando público o perdão do pecado de David diante de todo o povo. A passagem conclui explicando a última frase difícil de Kohelet, "melhor um cão vivo que um leão morto", não como afirmação de valor mas como referência às leis de Shabat e Iom Tov, e narra o pedido de David para saber o dia de sua morte — pedido recusado, mas que leva à revelação de que morreria em Shabat, e à escolha, pelo próprio David, de morrer nesse dia por amor ao estudo da Torá, preferindo um dia sentado estudando a mil sacrifícios que Salomão viria a oferecer.
Guemará. Do fato de que (a Mishná) ensina, na cláusula final (sobre poupar a vela, o óleo e o pavio), "é responsável" — deduz-se disso que (a Mishná) segue (a opinião de) Rabi Yehuda (para quem uma melachá não necessária para seu próprio propósito ainda gera responsabilidade plena). (A Guemará pergunta:) Com o que estamos tratando na cláusula inicial (sobre o doente que precisa dormir)? Se se trata de um doente que corre risco de vida — deveria (a Mishná) ensinar "é permitido" (e não apenas "está isento", já que salvar uma vida permite até transgressões plenas)! E se se trata de um doente que não corre risco de vida — deveria (a Mishná) ensinar "é responsável por um sacrifício expiatório" (e não "está isento", pois, sem risco de vida, apagar para permitir o sono não afastaria a responsabilidade segundo Rabi Yehuda)!
A Guemará retoma a Mishná que fechou o daf anterior, notando que sua cláusula final — responsabilizando quem apaga a vela para poupar o candeeiro, o óleo ou o pavio — só faz sentido segundo Rabi Yehuda, que considera responsável mesmo por uma melachá "não necessária para seu próprio propósito" (isto é, cujo objetivo não é o resultado direto do ato proibido em si, mas outro benefício indireto). Isso levanta de imediato uma dificuldade quanto à cláusula inicial da mesma Mishná, referente ao doente que precisa dormir: se o doente corre risco de vida, a halachá permite qualquer transgressão necessária para salvá-lo — e a Mishná deveria ter dito explicitamente "é permitido", não apenas "está isento" (uma linguagem mais fraca, que sugere ausência de punição mas não necessariamente permissão plena). Mas, se o doente não corre risco de vida, então, segundo a mesma opinião de Rabi Yehuda que a cláusula final exige, apagar a vela para permitir seu sono deveria gerar plena responsabilidade por um sacrifício expiatório — e não "isenção".
"Do fato de que ensina, na cláusula final" — "como quem poupa a vela", etc., (é) "responsável por um sacrifício expiatório", caso tenha errado (por engano) quanto ao Shabat — esquecendo que era Shabat, ou supondo que apagar era permitido em Shabat.
"Deduz-se disso que segue Rabi Yehuda" — que disse que uma melachá não necessária para seu próprio propósito gera responsabilidade, pois esse apagar não é necessário para seu próprio propósito, mas para o propósito de outra coisa (evitar que o pavio continue queimando, ou que o candeeiro rache); e não há apagar necessário para seu próprio propósito senão o apagar para fazer carvão, quando (a pessoa) o faz, e o apagar do chamuscar do pavio, pois esse apagar é feito para que o fogo pegue nele rapidamente quando quiser acendê-lo. E, já que segue Rabi Yehuda, a cláusula inicial, que isenta por causa do doente, (também segue essa opinião), e o mesmo vale para as demais isenções da Mishná.
"Se" — (o doente) corre risco de vida, e, por causa de salvar a vida, é permitido a ele (que apague) — deveria (a Mishná) ensinar "é permitido de antemão".
"Deveria ensinar 'é responsável'" — já que segue Rabi Yehuda, que não o isenta por ser (melachá) não necessária para seu próprio propósito.
(A Guemará responde:) Na verdade, trata-se sempre de um doente que corre risco de vida, e, pela lógica estrita, deveria (a Mishná) ensinar "é permitido"; mas, já que (o tanna) precisava ensinar, na cláusula final, "é responsável", ensinou também, na cláusula inicial, "está isento" (por mero paralelismo de linguagem entre as duas cláusulas, sem que isso implique proibição alguma). (A Guemará objeta:) Mas não ensinou Rabi Oshaya (numa baraita): se (a intenção é) para que o doente durma, não deve (a pessoa) apagar; e, se apagou, está isento, mas (o ato em si) é proibido? (A resposta:) Aquela (baraita) trata de um doente que não corre risco de vida, e segue (a opinião de) Rabi Shimon (para quem uma melachá não necessária para seu próprio propósito não gera responsabilidade alguma — e por isso "isento", mas ainda proibido por decreto rabínico).
A Guemará resolve a dificuldade de duas maneiras complementares. Primeiro, explica que a Mishná trata sempre do caso mais grave — o doente em risco de vida —, onde a halachá estrita realmente permitiria "de antemão" apagar a vela; mas a redação "está isento" (mais fraca do que seria estritamente necessário) foi adotada apenas por uma questão de estilo literário, para manter o paralelismo com a cláusula final da mesma Mishná, que também usa uma linguagem técnica de responsabilidade ("é responsável"). Esse tipo de arrastamento estilístico entre cláusulas próximas é um fenômeno reconhecido na redação de Mishnayot. Em seguida, a Guemará traz uma baraita de Rabi Oshaya que parece contradizer essa leitura — pois ali se ensina explicitamente que apagar por causa do doente é proibido (embora isento de punição) — e explica que essa baraita trata de um caso diferente: um doente que não corre risco de vida algum, apenas incomodado pela luz. Nesse caso mais brando, não há permissão alguma (pois não há vida em jogo), mas ainda assim há isenção de punição formal, porque a baraita segue a opinião de Rabi Shimon, que isenta totalmente qualquer melachá não necessária para seu próprio propósito.
"E eis que ensinou Rabi Oshaya" — explicitamente "mas é proibido".
"E segue Rabi Shimon" — que o isenta por ser (melachá) não necessária para seu próprio propósito.
Foi perguntada esta pergunta diante de Rabi Tanchum de Nave: qual é (a halachá) quanto a apagar uma lamparina (de barro) por causa de um doente (ali presente) em Shabat? (Ele) abriu e disse: tu, Salomão, onde está tua sabedoria, onde está tua sensatez? Não te basta que tuas palavras contradigam as palavras de David, teu pai, mas ainda tuas próprias palavras se contradizem umas às outras! David, teu pai, disse: "não são os mortos que louvam a D-us" (Tehilim 115:17); e tu disseste: "e eu louvo os mortos que já morreram" (Kohelet 4:2); e voltaste a dizer: "pois, para um cão vivo, ele é melhor do que o leão morto" (Kohelet 9:4)!
A Guemará narra um episódio no qual perguntaram a Rabi Tanchum de Nave se seria permitido apagar uma lamparina de barro (que continua a arder e pode incomodar ou até prejudicar um doente presente no quarto) em Shabat, por causa desse doente. Em vez de responder diretamente, Rabi Tanchum abre com uma citação bíblica e uma reprimenda dramática dirigida ao próprio rei Salomão, autor de Kohelet, apontando uma aparente tríplice contradição entre versículos: David, no livro de Tehilim, afirma categoricamente que os mortos não podem louvar a D-us — sugerindo que a morte é um estado de total cessação, inferior à vida em qualquer aspecto espiritual. Salomão, porém, escreve em Kohelet que ele "louva" os mortos — sugerindo que há algo superior nos mortos em comparação aos vivos. E, para piorar, o próprio Salomão escreve, poucos capítulos depois, que um cão vivo (um animal desprezível) é melhor do que um leão morto (um animal nobre) — parecendo agora favorecer os vivos sobre os mortos, contradizendo não apenas David, mas a si mesmo. Essa abertura retórica — típica do estilo de introduzir uma exposição agádica com uma dificuldade textual aparentemente distante do tema original — prepara o terreno para uma longa digressão que só voltará, no daf seguinte, à pergunta prática original sobre o doente.
"Foi perguntada esta pergunta" — perguntaram uma pergunta.
"Diante de Rabi Tanchum" — na presença dele; e assim é a linguagem do Talmud, e (também) a do versículo "serafins estavam acima dele" (Isaías 6:2) — porque, temendo aproximar-se dele, ficavam de pé a distância.
"De Nave" — nome de um lugar.
"Por causa de um doente (be'ishá)" — (termo em aramaico para) doente; tradução (aramaica) de "má" é "bishtá".
"Abriu e disse" — assim costumavam abrir (uma resposta) primeiro com uma (exposição) agádica, e isso é semelhante a uma pergunta e (uma) exposição.
"E voltaste a dizer" — contradizendo tuas próprias palavras.
"Pois, para um cão vivo" — isto é, (dizendo que) os vivos são superiores, e (favorecendo) a preservação da vida.
"Onde está" — para onde foi.
(A Guemará responde:) Não é difícil (a contradição). O que disse David, "não são os mortos que louvam a D-us" — assim (deve entender-se o que ele) disse: sempre deve a pessoa ocupar-se com Torá e com mitzvot antes de morrer, pois, uma vez que morre, cessa (sua obrigação) de (cumprir) a Torá e as mitzvot, e não há para o Santo, bendito seja, louvor (algum que venha) dela (depois da morte, pois já não pode acrescentar mérito). E é isso que disse Rabi Yochanan: o que está escrito, "entre os mortos, livre" (Tehilim 88:6) — uma vez que a pessoa morre, torna-se livre da Torá e das mitzvot.
A Guemará resolve a primeira das três contradições apontadas por Rabi Tanchum, reinterpretando o versículo de David não como uma afirmação metafísica sobre a incapacidade absoluta dos mortos de louvar a D-us, mas como uma exortação prática: o verdadeiro sentido é "os mortos não podem mais louvar a D-us através do cumprimento de novas mitzvot" — precisamente porque, com a morte, a pessoa se torna "livre" da obrigação de observar a Torá e as mitzvot, não podendo mais acrescentar mérito próprio através da ação. Por isso, David está, na verdade, incentivando: "aproveite a vida para se ocupar de Torá e mitzvot enquanto ainda pode, pois depois da morte essa oportunidade acaba". Rabi Yochanan traz apoio textual dessa mesma ideia a partir de outro versículo de Tehilim, que descreve os mortos como "livres" — interpretando essa liberdade não como uma bênção, mas como a cessação da obrigação religiosa que caracterizava a vida.
"Não é difícil" — ele mesmo (David) as explicava.
"Que disse Rabi Yochanan" — (ele) expõe o versículo "entre os mortos, livre".
E quanto ao que disse Salomão, "e eu louvo os mortos que já morreram" — (explica-se assim:) quando Israel pecou no deserto (com o bezerro de ouro), levantou-se Moshé diante do Santo, bendito seja, e disse muitas orações e súplicas diante d'Ele, e não foi respondido; e, quando disse "lembra-Te de Avraham, de Yitzchak e de Israel, teus servos" (Shemot 32:13) — imediatamente foi respondido. E não disse bem Salomão, "e eu louvo os mortos que já morreram"? (Aqui está) outra explicação: (segundo) o costume do mundo, um rei de carne e osso decreta um decreto — talvez o cumpram, talvez não o cumpram; e, mesmo que se diga que o cumprem, em vida dele o cumprem, (mas) em sua morte não o cumprem. Já Moshé, nosso mestre, decretou tantos decretos e instituiu tantas ordenanças, e permanecem para sempre e para todo o sempre. E não disse bem Salomão, "e eu louvo os mortos", etc.?!
A Guemará oferece duas explicações complementares (a segunda introduzida como "outra explicação", davar acher) para justificar por que Salomão "louva os mortos que já morreram" — mostrando que, longe de ser uma contradição vazia à afirmação de David, essa frase expressa uma verdade profunda sobre o poder duradouro do mérito dos justos falecidos. A primeira explicação recorre ao episódio do pecado do bezerro de ouro: Moshé, ainda vivo e no auge de sua proximidade com D-us, orou repetidas vezes por perdão para o povo e não foi atendido — até que invocou o mérito dos patriarcas já mortos (Avraham, Yitzchak e Yaakov), momento em que a súplica foi imediatamente aceita. Isso demonstra que o mérito acumulado dos mortos pode ter um poder que nem a oração fervorosa dos maiores vivos consegue igualar. A segunda explicação amplia o princípio: decretos de um rei mortal comum tendem a perder força ou ser esquecidos após sua morte, mas os decretos e instituições estabelecidos por Moshé — que já havia morrido havia gerações quando Salomão escreveu Kohelet — continuam válidos e observados eternamente, uma permanência que nenhum decreto de um rei vivo poderia igualar. Em ambos os sentidos, "louvar os mortos" reflete o reconhecimento de uma força espiritual que sobrevive e até supera o poder dos vivos.
"E eu louvo os mortos" — que, em vida, ocuparam-se de Torá e mitzvot, e morreram; são dignos de louvor, mesmo (comparados) a justos vivos, pois são maiores em sua morte do que em sua vida.
"Levantou-se Moshé" — e não há justo maior do que ele, e (mesmo assim) não foi respondido por seu próprio mérito.
"E instituiu tantas ordenanças" — como aquela que se ensina em Meguilá (4a e 32a): Moshé instituiu para Israel que perguntassem e expusessem (a lei) conforme o assunto do dia.
Outra explicação: "e eu louvo (os mortos)", etc. — conforme (o que ensinou) Rav Yehuda em nome de Rav. Pois disse Rav Yehuda em nome de Rav: o que está escrito, "faze comigo um sinal para o bem, e vejam meus inimigos, e envergonhem-se" (Tehilim 86:17) — disse David diante do Santo, bendito seja: Soberano do universo, perdoa-me por aquele pecado (com Batsheva). Disse-lhe (D-us): está perdoado a ti. Disse-lhe (David): faze comigo um sinal (visível a todos) em minha vida. Disse-lhe (D-us): em tua vida não o farei saber (publicamente); na vida de Salomão, teu filho, o farei saber.
A Guemará oferece uma segunda explicação, agora ligando diretamente a frase de Salomão a um episódio pessoal do próprio David. Segundo essa leitura, David, tendo pecado com Batsheva, implorou a D-us não apenas pelo perdão em si (que foi concedido de imediato, em resposta à sua confissão), mas também por um "sinal" público e visível de que o perdão havia realmente ocorrido — algo que silenciasse definitivamente seus detratores e inimigos, que continuavam a lançar dúvida sobre sua retidão. D-us respondeu que esse reconhecimento público não aconteceria durante a vida de David, mas seria manifestado apenas no reinado de seu filho Salomão. Essa promessa prepara o terreno para o episódio narrado no beat seguinte — a inauguração do Templo — no qual esse "sinal" público finalmente se cumpre. Sob essa luz, a frase de Salomão "eu louvo os mortos que já morreram" ganha um sentido pessoal e específico: Salomão está reconhecendo e celebrando o mérito póstumo de seu próprio pai, cujo perdão ele mesmo tornaria público.
Quando Salomão construiu o Templo, quis fazer entrar a Arca na Casa Santíssima. As portas grudaram-se uma na outra (recusando-se a abrir). Disse Salomão vinte e quatro súplicas (rinot), e não foi respondido. Abriu e disse: "erguei, ó portas, vossas cabeças, e elevai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória" (Tehilim 24:7). (As próprias portas) correram atrás dele para o engolir (pensando que ele se referia a si mesmo); disseram: "quem é esse, o Rei da glória"? Disse-lhes: "o Eterno, forte e poderoso" (Tehilim 24:8). Voltou e disse: "erguei, ó portas, vossas cabeças, e erguei, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória; quem é esse, o Rei da glória? O Eterno dos exércitos, Ele é o Rei da glória, Selá" (Tehilim 24:9-10), e não foi respondido. Assim que disse: "Eterno D-us, não afastes o rosto de teu ungido, lembra-Te das mercês de David, teu servo" (Divrei HaYamim II 6:42), imediatamente foi respondido. Naquela hora, transformaram-se os rostos de todos os inimigos de David (escurecendo) como o fundo de uma panela, e soube todo o povo e todo Israel que o Santo, bendito seja, lhe havia perdoado (a David) aquele pecado. E não disse bem Salomão, "e eu louvo os mortos que já morreram"?!
A Guemará narra o cumprimento dramático da promessa feita a David: no dia da inauguração do Templo, quando Salomão tenta trazer a Arca da Aliança para dentro do Santo dos Santos, as próprias portas se recusam a abrir, grudando-se firmemente. Salomão recita vinte e quatro súplicas e orações sem sucesso; recorre então a versículos do Salmo 24, proclamando a entrada do "Rei da glória" — mas as portas, entendendo essa proclamação como referência ao próprio Salomão, avançam ameaçadoramente para "engoli-lo", corrigindo-o ao perguntar quem realmente é esse Rei da glória, ao que Salomão esclarece tratar-se de D-us. Mesmo repetindo os versículos corretamente, ainda assim as portas permanecem fechadas — até que Salomão muda de estratégia e invoca não seu próprio mérito nem apenas o nome de D-us, mas especificamente o mérito e as boas ações de seu falecido pai, David. Nesse instante exato, as portas se abrem. O efeito é imediato e público: os inimigos e detratores de David, que ainda duvidavam de seu perdão pelo pecado com Batsheva, têm os rostos escurecidos de vergonha diante de todo o povo, que agora reconhece publicamente o perdão divino concedido a David — cumprindo exatamente o "sinal" que D-us havia prometido conceder apenas no reinado de Salomão. A cena confirma e ilustra vividamente a segunda explicação da frase de Salomão: o mérito de seu pai morto foi o que, em última análise, abriu as portas do próprio Templo.
"As portas grudaram-se" — as (portas) da Casa Santíssima.
"Vinte e quatro súplicas" — (a palavra) "riná" (designa) oração, súplica; estão escritas na oração de Salomão até (o número de) vinte e quatro; e há quem diga (tratar-se das) vinte e quatro bênçãos do jejum, mas não é (interpretação) clara.
"Correram as portas atrás dele para o engolir" — pensaram que sobre si mesmo dissera "Rei da glória"; disseram-lhe as portas: "quem é esse, o Rei da glória"? Disse ele: "o Eterno, forte e poderoso" (Tehilim 24:10).
"Inimigos de David" — a família de Shaul, Shimi e semelhantes a ele.
"(O perdão) do pecado do Dia do Perdão" — pois comeram e beberam na inauguração do Templo, como está escrito "a festa (durou) sete dias e sete dias" (Melachim I 8:65), conforme dizemos em Moed Katan (9a).
E é isso que está escrito: "no oitavo dia despediu (Salomão) o povo, e abençoaram o rei, e foram para seus barracões alegres e de bom coração, por toda a bondade que fez o Eterno a David, seu servo, e a Israel, seu povo" (Melachim I 8:66). "E foram para seus barracões" — pois encontraram suas esposas em pureza (sem terem menstruado nesse período, apesar da longa ausência). "Alegres" — pois desfrutaram do esplendor da Shechiná. "E de bom coração" — pois engravidaram as esposas de cada um deles, e (cada uma) deu à luz um (filho) varão. "Por toda a bondade que fez o Eterno a David, seu servo, e a Israel, seu povo" — "a David, seu servo" — que lhe perdoou aquele pecado; "e a Israel, seu povo" — que lhes perdoou o pecado do Dia do Perdão (cometido ao comerem durante os dias da inauguração, que coincidiram com Yom Kipur).
A Guemará conclui essa parte da sugia citando o versículo final do relato bíblico da inauguração do Templo, e expondo cada frase como alusão a uma bênção específica concedida ao povo naquela ocasião extraordinária. "Foram para seus barracões" indica que, apesar da longa permanência longe de casa durante os festejos, as esposas do povo não tiveram sua pureza ritual interrompida por menstruação — um milagre discreto que preservou a santidade do momento. "Alegres" refere-se ao privilégio único de terem, naqueles dias, contemplado diretamente o esplendor da Presença Divina (Shechiná) que repousava sobre o Templo recém-inaugurado. "De bom coração" alude a uma bênção de fertilidade: todas as esposas do povo engravidaram naquele período, e cada uma teve um filho homem. E a frase final do versículo é dividida em duas alusões paralelas e conectadas: o perdão pessoal concedido a David por seu pecado (tornado público, como visto no beat anterior, precisamente durante essa inauguração) e o perdão coletivo concedido a todo o povo de Israel pelo pecado técnico de terem comido e bebido durante o que, segundo o cálculo do calendário, coincidiu com o Dia do Perdão daquele ano — mostrando que o perdão de David e o perdão do povo se revelaram publicamente juntos, no mesmo evento.
E quanto ao que disse Salomão, "pois, para um cão vivo, ele é melhor do que o leão morto" — conforme (o que ensinou) Rav Yehuda em nome de Rav (referindo-se não a valor absoluto, mas às leis de Shabat e Iom Tov, como Rashi explicará). Pois disse Rav Yehuda em nome de Rav: o que está escrito, "faze-me saber, ó Eterno, meu fim, e qual é a medida de meus dias; que eu saiba quão efêmero sou" (Tehilim 39:5) — disse David diante do Santo, bendito seja: Soberano do universo, faze-me saber, Eterno, meu fim. Disse-lhe: é um decreto vindo de Mim que não se faz saber o fim de (nenhum ser de) carne e osso. "E qual é a medida de meus dias" — é um decreto vindo de Mim que não se faz saber a medida dos dias de uma pessoa. "Que eu saiba quão efêmero sou" — disse-lhe: em Shabat morrerás. (David perguntou:) Que eu morra no primeiro dia da semana (logo após o Shabat)? Disse-lhe: já chegou o reinado de Salomão, teu filho, e um reinado não toca no outro, nem mesmo (pela largura) de um fio de cabelo (não podendo haver sobreposição entre teu reinado e o dele). (David perguntou:) Que eu morra na véspera de Shabat? Disse-lhe: "pois melhor é um dia em teus átrios do que mil" (Tehilim 84:11) — melhor para Mim é um dia em que estás sentado ocupado com a Torá do que mil sacrifícios que Salomão, teu filho, está destinado a oferecer diante de Mim sobre o altar.
A Guemará chega, enfim, à terceira e última das frases desafiadas por Rabi Tanchum: "melhor é um cão vivo do que um leão morto". Rashi explicará que essa frase não deve ser lida como uma afirmação geral sobre o valor relativo dos vivos e dos mortos, mas especificamente em relação às leis de Shabat e Iom Tov — preparando a volta, no daf seguinte, à questão prática original sobre o doente. Antes de fechar esse ponto, porém, a Guemará narra um episódio emocionante envolvendo David e seu pedido, também baseado num versículo de Tehilim, para saber a data exata de sua morte. D-us recusa revelar tanto o momento exato quanto a duração total de sua vida — um decreto geral que se aplica a todo ser humano, para que ninguém viva na ansiedade constante de contar os dias restantes. Mas David insiste em saber ao menos em que dia da semana morreria, e recebe a resposta de que seria em Shabat. Tentando então negociar os detalhes finais, David pede para morrer no dia seguinte ao Shabat, de modo a não perder nenhum tempo de vida — mas isso é negado, pois o reinado de seu filho Salomão já estava prestes a começar, e reinados sucessivos não podem se sobrepor nem por um instante. David então pede o oposto: morrer na véspera de Shabat, ganhando talvez mais um dia de vida — mas D-us também recusa esse pedido, revelando que prefere que David tenha exatamente um dia inteiro (o próprio Shabat) sentado estudando Torá, valor que supera, aos olhos de D-us, até mil sacrifícios que Salomão viria a oferecer no Templo. A passagem termina aqui, deixando implícito — e continuando diretamente no daf seguinte — o desfecho da história: como David de fato viria a morrer nesse Shabat, envolto em seu amor pelo estudo da Torá.
"E quanto ao que disse Salomão, 'pois, para um cão vivo, ele é melhor do que o leão morto'" — não foi dito quanto à questão de importância (relativa entre vivos e mortos), mas quanto às leis de Shabat e Iom Tov (referindo-se, no contexto original de Kohelet, a preceitos práticos que só os vivos podem cumprir, e não a um julgamento de valor sobre a morte).
"Meu fim" — as coisas destinadas a vir sobre mim.
"A medida de meus dias" — quantos são os dias de minha vida.
"Quão efêmero sou" — em que dia cesso e me anulo do mundo.
"Que eu morra no primeiro dia da semana" — para que possam ocupar-se de mim e de meu elogio fúnebre (sem violar o Shabat).
"Pois melhor é um dia em teus átrios" — isto é: já disseste diante de Mim que melhor é um dia em que estás em Meus átrios, ocupado com a Torá, do que mil sacrifícios que teu filho Salomão está destinado a oferecer, como está escrito (Melachim I 3:4): "mil sacrifícios ofereceu Salomão", etc.