O daf dá continuidade direta à baraita iniciada ao final de 30b: um dos dois apostadores vai até a casa de Hilel na véspera de Shabat, interrompendo-o três vezes enquanto ele se lava a cabeça, com perguntas cada vez mais provocativas e sem relevância real — por que as cabeças dos babilônios são redondas, por que os olhos dos tarmodianos são estreitos, por que os pés dos africanos são largos — e Hilel, sem nunca perder a paciência, sai a cada vez, envolve-se no manto e responde com seriedade completa, como se cada pergunta fosse genuinamente importante. Por fim, o próprio apostador confessa que perdeu quatrocentos zuz por causa dele, e Hilel responde que vale a pena perder essa soma, mas que ele, Hilel, não perderá a paciência. A seguir, a Guemará traz uma baraita com três episódios famosos de não judeus que se apresentam primeiro a Shamai e depois a Hilel para se converter sob condições provocativas: um que aceita apenas a Torá Escrita e não a Oral, expulso por Shamai e aceito por Hilel, que o converte e depois lhe ensina o alfabeto invertido no dia seguinte para lhe mostrar a necessidade de confiar na tradição oral; um que pede para aprender toda a Torá enquanto fica em pé sobre uma perna só, expulso por Shamai e respondido por Hilel com a máxima "o que te é odioso, não faças ao teu próximo — esta é toda a Torá, o resto é comentário, vai e aprende"; e um que, ao ouvir sobre as vestes do Sumo Sacerdote, quer se converter sob a condição de ser nomeado Sumo Sacerdote, também expulso por Shamai, mas aceito por Hilel, que o ensina a lógica das "regras da realeza" a partir do estudo, levando-o a perceber sozinho, ao ler "o estranho que se aproximar morrerá", que nem sequer um judeu comum pode assumir esse cargo sem qualificação — e o convertido conclui, por um raciocínio a fortiori, que jamais teria condição para o posto. Os três convertidos, tempos depois, encontram-se e concluem juntos que a impaciência de Shamai quase os expulsou do mundo, enquanto a humildade de Hilel os aproximou sob as asas da Shechiná. O daf fecha com duas exposições agádicas finais e não diretamente ligadas à narrativa anterior: Reish Lakish interpreta o versículo de Isaías 33:6 como uma referência às seis ordens da Mishná, culminando na frase "o temor do Eterno é seu tesouro"; e Rava ensina que, no julgamento final, a pessoa é questionada sobre honestidade nos negócios, fixação de horários para o estudo da Torá, dedicação à procriação, expectativa pela salvação, argumentação sabia em Torá e compreensão intuitiva — mas que, mesmo cumprindo tudo isso, só é aprovada se also tiver o temor do Eterno como seu tesouro central, ilustrado pela parábola do mensageiro que trouxe trigo sem misturar um pouco de sal conservante.
Naquele dia era véspera de Shabat, e Hilel lavava a cabeça. (O apostador) foi e passou pela porta de sua casa, (e) disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se (no manto) e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que as cabeças dos babilônios são redondas? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste. (É) porque não têm parteiras hábeis.
A narrativa retoma exatamente onde a baraita de 30b parou, no momento em que um dos dois apostadores declara sua intenção de tentar irritar Hilel. O texto especifica o cenário: era véspera de Shabat, ocasião de grande atarefamento doméstico e preparação, e Hilel estava justamente ocupado lavando a cabeça — um momento de vulnerabilidade e interrupção pouco conveniente. O apostador, de forma deliberadamente desrespeitosa, chama por Hilel do lado de fora repetindo seu nome sem título, "há aqui algum Hilel?", uma formulação que Rashi identifica como linguagem de desprezo dirigida contra o próprio Nassi (líder) de Israel. Ainda assim, Hilel não apenas atende ao chamado, como se veste formalmente (envolvendo-se no manto, sinal de respeito e dignidade) antes de sair ao encontro do provocador, dirigindo-se a ele com absoluta cordialidade, chamando-o de "meu filho". A pergunta em si — por que as cabeças dos babilônios (isto é, dos judeus que vivem na Babilônia) são arredondadas — é trivial e sem qualquer relevância halachica ou espiritual, uma tentativa clara de desperdiçar o tempo do sábio com futilidade. Hilel, contudo, trata a pergunta como se fosse genuinamente profunda ("uma grande pergunta perguntaste"), e oferece uma resposta séria: a formato da cabeça se deve à falta de parteiras qualificadas na Babilônia, capazes de moldar adequadamente o crânio dos recém-nascidos.
"Que apostaram" — fizeram uma aposta, como (a expressão) "apostam pombos", em Sanhedrin (26b).
"Há aqui algum Hilel" — (no sentido de) "acaso há aqui Hilel?" — e é uma linguagem de desprezo dirigida ao Nassi (líder) de Israel.
"Por que as cabeças dos babilônios são redondas" — (termo que designa) "bilonha" em língua estrangeira (francês antigo), que não é (perfeitamente) redondo; outra explicação: "as cabeças dos babilônios são seguelguel" (significa) redondas.
(O apostador) foi e esperou uma hora; voltou e disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que os olhos dos tarmodianos são estreitos? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste. (É) porque moram entre as areias.
O padrão se repete: o apostador espera uma hora e retorna com a mesma fórmula desrespeitosa de chamado, e Hilel, sem qualquer sinal de irritação ou impaciência pela repetição, novamente se veste com dignidade e sai a seu encontro, tratando-o com a mesma cordialidade paternal de antes. A segunda pergunta — por que os olhos dos habitantes de Tarmod (uma região desértica) são estreitos ou tortos — é igualmente trivial. Hilel responde, mais uma vez com gravidade, explicando que a condição climática e geográfica — viver entre as areias do deserto, expostos ao vento constante que sopra areia nos olhos — levou essa população a desenvolver, ao longo de gerações, olhos naturalmente mais estreitos como proteção. Rashi observa duas explicações possíveis para o termo "terutot": olhos suaves ou moles (afetados pela areia), ou, alternativamente, olhos arredondados, adaptados à necessidade de manter a fenda ocular mais curta para que a areia não penetre tão facilmente quanto entraria numa fenda mais longa.
"Estreitos" (terutot) — moles, suaves.
"Pois moram entre as areias" — e o vento sopra e entra em seus olhos; e em outro lugar (Rashi) explica "terutot" como (uma expressão) de redondeza, (referindo-se) à cavidade de sua fenda ocular, e também aqui digo assim: e por morarem entre as areias, o Lugar (D-us) os modificou para que a fenda de seus olhos não fosse longa como a nossa, para que a areia não entrasse nela; e do mesmo modo os pés dos africanos são largos, para que não afundem nos lamaçais das águas; e nossos mestres explicam (de outra forma): que moram entre lamaçais de água e andam descalços, e seus pés se alargam, pois o calçado comprime o pé e o mantém em seu molde (natural, menor).
(O apostador) foi e esperou uma hora; voltou e disse: há aqui algum Hilel, há aqui algum Hilel? (Hilel) envolveu-se e saiu ao seu encontro. Disse-lhe: meu filho, o que buscas? Disse-lhe: uma pergunta tenho para perguntar. Disse-lhe: pergunta, meu filho. Perguntou: por que os pés dos africanos são largos? Disse-lhe: meu filho, uma grande pergunta perguntaste — (é) porque moram entre lamaçais de água.
A terceira repetição segue exatamente o mesmo padrão triplo das anteriores — outra hora de espera, o mesmo chamado desrespeitoso, a mesma vestimenta formal e a mesma saída cordial de Hilel. A terceira pergunta, sobre por que os pés dos habitantes do norte da África são largos, recebe a mesma explicação ambiental: a necessidade adaptativa de uma população que vive entre pântanos e lamaçais de água, onde pés mais largos oferecem melhor estabilidade e evitam afundar no lodo. A estrutura tríplice e cuidadosamente repetitiva do episódio — três interrupções, três esperas de uma hora, três perguntas triviais, três respostas igualmente sérias e pacientes — serve para enfatizar retoricamente a extraordinária constância do temperamento de Hilel: não há sinal algum de fadiga, irritação crescente ou impaciência, mesmo diante da óbvia futilidade e da repetição provocativa das perguntas.
Disse-lhe: muitas perguntas tenho para perguntar, e temo que talvez te irrites. (Hilel) envolveu-se (novamente) e sentou-se diante dele. Disse-lhe: todas as perguntas que tens para perguntar, pergunta. Disse-lhe: és tu Hilel, a quem chamam "Nassi de Israel"? Disse-lhe: sim. Disse-lhe: se és tu, que não se multipliquem como tu em Israel! Disse-lhe: meu filho, por quê? Disse-lhe: porque perdi por tua causa quatrocentos zuz. Disse-lhe: sê cuidadoso com teu espírito (isto é, controla-te); vale a pena que (alguém) perca por causa de Hilel quatrocentos zuz e (mais) quatrocentos zuz, e Hilel não perderá a paciência.
O episódio chega ao seu clímax e desfecho. Desta vez, o apostador, em vez de repetir o padrão de sair e voltar, anuncia diretamente que tem muitas perguntas, acrescentando — com evidente ironia, já que essa é justamente sua intenção — que teme irritar Hilel. Hilel, mais uma vez, veste-se formalmente e, desta vez, senta-se diante dele, sinalizando disposição para uma conversa mais longa, convidando-o a perguntar tudo o que desejar. É nesse momento que o apostador revela sua verdadeira identidade e intenção: pergunta diretamente se ele é de fato o famoso Nassi de Israel, e, ao receber confirmação, solta uma maldição disfarçada de elogio invertido — "que não se multipliquem como tu em Israel" —, uma expressão de frustração e desprezo. Quando Hilel, sem se abalar, pergunta calmamente o motivo, o homem finalmente confessa: perdeu a aposta de quatrocentos zuz precisamente porque não conseguiu, apesar de todo o esforço, irritar Hilel. A resposta final de Hilel é a moral culminante de todo o episódio: ele não repreende o homem por sua trapaça ou grosseria, mas antes o admoesta gentilmente a "ter cuidado com seu próprio espírito" — isto é, a controlar sua própria tendência à impaciência e à provocação —, afirmando que vale totalmente a pena que alguém perca somas repetidas de quatrocentos zuz tentando irritar Hilel, pois, de qualquer forma, Hilel jamais perderá a paciência. A frase encapsula perfeitamente a lição comportamental que a baraita buscava ilustrar desde seu início.
"Vale a pena (que se perca) por causa de Hilel" — (isto é, ele) é digno disso.
Ensinaram os sábios (numa baraita): aconteceu (o seguinte caso) com um não judeu que veio diante de Shamai. Disse-lhe: quantas Torot tendes vós? Disse-lhe: duas, a Torá Escrita e a Torá Oral. Disse-lhe: a Escrita, eu te acredito; mas a Oral, não te acredito. Converte-me, sob a condição de que me ensines (apenas) a Torá Escrita. (Shamai) repreendeu-o e expulsou-o com censura. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu. No primeiro dia, disse-lhe: alef, bet, guimel, dalet. No dia seguinte, (Hilel) inverteu para ele (as letras). Disse-lhe (o convertido): mas ontem não me disseste assim! Disse-lhe: não confiaste em mim (quanto às letras)? Confia em mim também (quanto à Torá) Oral.
A Guemará abre uma nova série de três episódios famosos, todos seguindo a mesma estrutura: um não judeu se apresenta primeiro a Shamai, propondo uma condição provocativa ou irrealista para sua conversão; Shamai, fiel ao seu temperamento rigoroso e impaciente já estabelecido, rejeita-o com repreensão e o expulsa; o mesmo homem então procura Hilel, que o aceita e converte, encontrando uma forma engenhosa de ensiná-lo a lição necessária a partir de dentro da própria experiência da conversão. No primeiro episódio, o não judeu propõe aceitar apenas a Torá Escrita, rejeitando de antemão a autoridade da tradição oral (a Mishná e sua interpretação rabínica) — uma posição que, se aceita, minaria toda a estrutura do judaísmo rabínico. Hilel o aceita mesmo assim, apostando em sua própria sabedoria pedagógica: no primeiro dia de estudo, ensina-lhe o alfabeto hebraico na ordem correta; no dia seguinte, inverte deliberadamente a ordem das letras, chamando o alef de tav e assim por diante. Quando o aluno, confuso, protesta que Hilel havia lhe ensinado de forma diferente no dia anterior, Hilel aproveita o momento exato para revelar a lição: mesmo o alfabeto, a coisa mais básica e aparentemente "escrita" e objetiva possível, depende inteiramente da transmissão oral confiável de um mestre para ser corretamente compreendido — não há como aprender sequer a ler sem confiar em uma tradição transmitida verbalmente. Se o aluno já confiou nele para o alfabeto, deveria, pelo mesmo princípio, confiar nele também quanto à interpretação oral da Torá.
"Expulsou-o com censura" — pois foi ensinado (numa baraita): aquele que vem para aceitar as palavras (dos) companheiros (chaverim, isto é, tornar-se membro observante em confiabilidade), exceto por uma (única) coisa, e do mesmo modo o convertido que vem para se converter e aceita sobre si as palavras de Torá, exceto por uma (única) coisa — não o aceitam, (conforme) em Bechorot (30b).
"(Hilel) o converteu" — e confiou em sua própria sabedoria, de que ao final o habituaria a aceitá-la sobre si, pois este caso não se assemelha ao (caso de rejeitar) "exceto por uma coisa", já que (o homem) não negava a Torá Oral (por completo), mas apenas não acreditava que ela viesse da Boca do Poderoso (D-us, isto é, tinha dúvida quanto à origem, não rejeição categórica); e Hilel confiava que, depois de ensiná-lo, (o homem) confiaria nele.
"(Hilel) inverteu para ele" — (ensinando as letras na ordem invertida), como (dizer) tav, shin, resh, kof.
"Não confiaste em mim" — de onde sabes tu que esta (letra) é alef e esta é bet, senão porque eu te ensinei e confiaste em mim? Também quanto (à Torá que se transmite) oralmente, confia em minhas palavras.
Novamente aconteceu (um caso) com um não judeu que veio diante de Shamai. Disse-lhe: converte-me, sob a condição de que me ensines toda a Torá inteira enquanto estou de pé sobre uma perna só! (Shamai) empurrou-o com a vara de medir que tinha na mão. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu. Disse-lhe: o que te é odioso, ao teu próximo não faças — esta é toda a Torá inteira, e o restante é (seu) comentário; vai e aprende.
O segundo episódio é talvez o mais célebre dos três, e um dos textos mais citados de todo o Talmud. O não judeu propõe uma condição aparentemente absurda e certamente desrespeitosa: que lhe seja ensinada a totalidade da Torá enquanto ele permanece equilibrado sobre uma única perna — uma exigência de brevidade extrema, quase cômica, para algo tão vasto quanto a Torá. Shamai, sem paciência para tal impertinência, reage com violência física simbólica, empurrando o homem com a vara de medir que tinha em mãos (usada em sua profissão de construtor, segundo Rashi). Hilel, por sua vez, aceita o desafio literalmente e encontra uma resposta genial: resume o princípio ético fundamental de toda a Torá numa única frase memorável — "o que te é odioso, não faças ao teu próximo" —, uma formulação negativa da "regra de ouro", que ecoa o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo (Levítico 19:18). Hilel completa a resposta com uma ressalva essencial: essa máxima central é apenas o núcleo condensado; todo o restante do corpo imenso de mandamentos, leis e ensinamentos da Torá constitui, em essência, comentário e elaboração detalhada desse princípio fundamental — e, para verdadeiramente compreendê-la em sua totalidade, é preciso "ir e aprender" (estudar continuamente), pois um resumo de uma frase, por mais profundo que seja, não substitui o estudo aprofundado e contínuo da Torá em sua integridade.
"A vara de medir" — um bastão que (tem) a medida de um amá (côvado) de comprimento, e com ele medem o comprimento da construção, pois (os proprietários) combinavam com os artesãos (o pagamento por) tantos e tantos côvados por tal e tal preço.
"O que te é odioso, ao teu próximo não faças" — (conforme o versículo) "a teu amigo e ao amigo de teu pai não abandones" (Provérbios 27:10) — este (amigo) é o Santo, bendito seja; não transgridas Suas palavras, pois te é odioso que teu próximo transgrida tuas palavras. Outra explicação: (referindo-se) ao próximo literalmente, como (nos casos de) roubo, furto, adultério, e a maioria dos mandamentos.
"E o restante" — as demais palavras de Torá.
"É (seu) comentário" — pois esta questão é (a de) saber qual coisa é odiosa; vai, aprende, e saberás.
Novamente aconteceu (um caso) com um não judeu que passava atrás da casa de estudo, e ouviu a voz de um mestre (de crianças) que dizia: "e estas são as vestimentas que farão: peitoral e éfod" (Êxodo 28:4). Disse: essas (vestimentas são) para quem? Disseram-lhe: para o Sumo Sacerdote. Disse aquele não judeu consigo mesmo: irei e me converterei, para que me façam Sumo Sacerdote. Veio diante de Shamai, disse-lhe: converte-me, sob a condição de que me faças Sumo Sacerdote. (Shamai) empurrou-o com a vara de medir que tinha na mão. (O homem) veio diante de Hilel; (Hilel) o converteu.
O terceiro episódio começa de forma distinta dos dois anteriores: em vez de uma condição já formada de antemão, a motivação do não judeu surge por acaso, ao passar atrás de uma casa de estudo (ou escola infantil, segundo Rashi, que identifica o "mestre" como um professor de crianças) e ouvir a leitura de um versículo do Êxodo sobre as vestimentas sagradas do Sumo Sacerdote — o peitoral, o éfod e demais peças suntuosas descritas com detalhe no livro de Êxodo. Impressionado pelo prestígio e pela magnificência dessas vestimentas, e ao descobrir que são reservadas exclusivamente ao Sumo Sacerdote, o homem concebe a ideia (ingênua e presunçosa) de se converter ao judaísmo especificamente para alcançar esse cargo de honra máxima. Apresenta essa condição a Shamai, que, mais uma vez fiel ao seu padrão, reage com a mesma vara de medir, expulsando-o fisicamente pela absurdidade e presunção do pedido — um não judeu recém-chegado exigindo o cargo religioso mais elevado e sagrado de todo o povo. Hilel, contudo, mais uma vez aceita a conversão, confiando que encontraria, através do próprio processo de ensino, uma forma de o homem compreender por si mesmo a impossibilidade — e a inadequação — de seu pedido original.
"Mestre" (sofer) — professor de crianças.
Disse-lhe (Hilel): acaso (alguém) se estabelece como rei senão aquele que conhece as regras (protocolos) da realeza? Vai, aprende as regras da realeza. (O homem) foi e leu. Quando chegou (ao versículo): "e o estranho que se aproximar morrerá" (Números 1:51, referindo-se ao serviço do Templo), disse-lhe: este versículo, sobre quem foi dito? Disse-lhe: até mesmo sobre David, rei de Israel. Fez aquele convertido um raciocínio a fortiori consigo mesmo: e se (quanto a) Israel, que são chamados filhos do Lugar (D-us), e por causa do amor com que os amou os chamou: "meu filho, meu primogênito, Israel" (Êxodo 4:22), está escrito sobre eles "e o estranho que se aproximar morrerá" — (quanto a) um convertido, que é (considerado) leve, e que vem com seu bastão e sua bolsa (de viajante, sem qualquer mérito prévio), quanto mais (se aplicaria a proibição a ele)!
A resposta de Hilel a este terceiro convertido é notavelmente diferente das duas anteriores: em vez de oferecer uma resposta direta e memorável, ele o direciona para um processo pedagógico indireto e autoguiado. Hilel argumenta que, assim como ninguém pode se tornar rei sem primeiro conhecer os protocolos e as regras próprias da realeza, também o cargo sacerdotal supremo exige conhecimento prévio de suas próprias leis — e instrui o homem a ir estudar essas "regras". O convertido obedece e começa a ler os textos relevantes, mas logo se depara com um versículo do livro de Números que estabelece uma proibição severa: qualquer "estranho" (isto é, alguém não qualificado, fora da linhagem sacerdotal designada) que se aproxime indevidamente do serviço sagrado do Templo está sujeito à pena de morte. Intrigado, o homem pergunta a quem esse versículo se aplica, e recebe a resposta surpreendente de que a proibição é tão abrangente que se aplicaria até ao próprio rei David — a maior figura política e espiritual de Israel — caso tentasse assumir funções sacerdotais para as quais não fora designado. É neste momento que o próprio convertido, sem precisar de mais nenhuma instrução direta, constrói sozinho o raciocínio lógico decisivo (um kal vachomer, argumento do menor ao maior): se mesmo o povo de Israel como um todo — amado por D-us como Seus próprios filhos primogênitos — está sujeito a essa restrição severa quanto a quem pode servir como sacerdote, então um convertido recém-chegado, sem status ancestral e sem mérito acumulado ("que vem com seu bastão e sua bolsa", uma imagem vívida de humildade e desamparo), certamente estaria ainda mais excluído de tal cargo. A genialidade pedagógica de Hilel está precisamente em não ter precisado dizer isso diretamente: ao guiar o homem ao texto certo, permitiu que ele mesmo chegasse à conclusão, tornando a lição infinitamente mais persuasiva e duradoura do que uma simples recusa teria sido.
"Regras (protocolos)" — os arranjos das necessidades do rei, conforme a honra (devida a seu cargo).
Veio diante de Shamai, disse-lhe: acaso sou eu digno de ser Sumo Sacerdote? E não está escrito na Torá: "e o estranho que se aproximar morrerá"? Veio diante de Hilel, disse-lhe: humilde Hilel, repousem sobre tua cabeça bênçãos, pois me aproximaste sob as asas da Shechiná. Depois de (alguns) dias, reuniram-se os três num mesmo lugar; disseram: a impaciência de Shamai quase nos expulsou do mundo; a humildade de Hilel nos aproximou sob as asas da Shechiná.
O episódio se conclui com um duplo movimento de fechamento. Primeiro, o convertido, agora munido de sua própria compreensão lógica, retorna a Shamai — não para pedir novamente o cargo, mas para articular, com suas próprias palavras e apoiado no próprio versículo da Torá, por que agora reconhece que jamais poderia ser digno do sacerdócio supremo; a ironia é notável, pois é justamente diante de Shamai, que o expulsara fisicamente, que ele demonstra ter absorvido a lição mais profunda. Em seguida, volta a Hilel — desta vez não com uma exigência ou provocação, mas com gratidão sincera e efusiva, abençoando-o por tê-lo "aproximado sob as asas da Shechiná" (a Presença Divina), uma expressão clássica para a aceitação bem-sucedida de um convertido ao povo judeu e à sua fé. A baraita então dá um salto temporal: tempos depois, os três convertidos dos três episódios — o que rejeitava a Torá Oral, o que queria aprender tudo numa perna só, e este que buscava o sacerdócio — encontram-se por acaso num mesmo lugar, e, refletindo juntos sobre suas experiências paralelas, chegam a uma conclusão compartilhada que resume toda a extensa sugia sobre os dois sábios: o temperamento impaciente e rigoroso de Shamai quase os expulsou completamente do mundo (isto é, os teria afastado para sempre do judaísmo, caso não tivessem persistido e procurado Hilel), ao passo que a humildade paciente de Hilel foi o que efetivamente os trouxe para dentro da fé, sob a proteção da Presença Divina. Essa conclusão dos próprios convertidos serve como confirmação vivida e testemunhal do princípio ético abstrato enunciado no início da baraita, em 30b: "sempre deve a pessoa ser humilde como Hilel, e não impaciente como Shamai".
"Os três" — estes convertidos.
Disse Reish Lakish: o que (significa) o que está escrito: "e será a fidelidade de teus tempos, força de salvações, sabedoria e conhecimento, etc." (Isaías 33:6)? "Fidelidade" — esta é a ordem (Seder) de Zeraim (Sementes, referindo-se à fidelidade nos dízimos agrícolas). "Teus tempos" — esta é a ordem de Moed (Tempos designados, as festividades). "Força" — esta é a ordem de Nashim (Mulheres). "Salvações" — esta é a ordem de Nezikin (Danos). "Sabedoria" — esta é a ordem de Kodashim (Coisas Sagradas). "E conhecimento" — esta é a ordem de Taharot (Purezas). E, ainda assim, (o versículo conclui:) "o temor do Eterno é seu tesouro".
Encerrando toda essa longa sugia agádica que se estendeu por vários dapim, a Guemará traz uma exposição independente, sem conexão narrativa direta com os episódios anteriores, mas ligada tematicamente pela discussão mais ampla sobre o valor supremo do estudo da Torá. Reish Lakish interpreta um versículo de Isaías — originalmente uma profecia sobre a segurança futura de Jerusalém — como uma referência velada, palavra por palavra, às seis ordens (Sedarim) que compõem toda a estrutura da Mishná: Zeraim (leis agrícolas e bênçãos), Moed (Shabat e festivais), Nashim (leis matrimoniais), Nezikin (leis civis e danos), Kodashim (sacrifícios e o Templo) e Taharot (leis de pureza ritual). Cada palavra do versículo é associada, por afinidade temática ou lexical, a uma das seis ordens: "fidelidade" à confiabilidade exigida nas leis de separação de dízimos agrícolas de Zeraim; "teus tempos" aos tempos designados de Moed; "força" (chosen, também associado a herdeiros) às leis familiares de Nashim; "salvações" às leis de reparação e indenização de Nezikin; "sabedoria" às leis sacrificiais complexas de Kodashim; e "conhecimento" às leis sutis e detalhadas de pureza de Taharot. Mas a Guemará enfatiza, com a conclusão do próprio versículo, que mesmo o domínio completo de toda essa vasta estrutura de conhecimento talmúdico — todas as seis ordens da Mishná — não é suficiente por si só: o verdadeiro "tesouro" central e indispensável de uma pessoa deve ser o temor do Eterno, sem o qual todo o conhecimento acumulado permanece incompleto.
Disse Rava: no momento em que trazem a pessoa a julgamento (no Mundo Vindouro), dizem-lhe: negociaste com fidelidade? Fixaste tempos para a Torá? Ocupaste-te em procriação? Aguardaste pela salvação? Argumentaste com sabedoria (em debates de Torá)? Compreendeste uma coisa a partir de outra (por dedução própria)? E, ainda assim, se o temor do Eterno é seu tesouro — sim (é aprovado); se não — não. (Isso se assemelha a) uma parábola de um homem que disse a seu mensageiro: sobe para mim um cor (medida) de trigo ao sótão. (O mensageiro) foi e o levou para ele. Disse-lhe: misturaste nele para mim um kav (medida menor) de chomton (sal conservante)? Disse-lhe: não. Disse-lhe: (então) melhor seria se não o tivesses levado. Ensinou a escola de Rabi Yishmael: a pessoa deve misturar um kav de chomton num cor de grão, e não precisa se preocupar (que isso constitua uma mistura proibida, pois é para preservação).
O daf se encerra com um segundo ensinamento agádico independente, de Rava, que complementa perfeitamente a conclusão de Reish Lakish, retomando o mesmo tema do "temor do Eterno" como tesouro indispensável. Rava descreve o processo do julgamento final de uma pessoa no Mundo Vindouro através de uma série de seis perguntas fundamentais, cada uma correspondendo a uma área essencial da vida prática e espiritual: honestidade nos negócios comerciais; disciplina em fixar horários regulares e constantes para o estudo da Torá (não deixando-o à mercê do tempo livre ocasional); cumprimento do mandamento de procriar e constituir família; manutenção viva da esperança messiânica e da expectativa pela salvação futura; capacidade de debater e argumentar com sofisticação em questões de Torá; e a capacidade intelectual mais elevada de deduzir novos entendimentos a partir de princípios já conhecidos. Mas Rava enfatiza, ecoando diretamente a conclusão do versículo de Isaías citado por Reish Lakish, que mesmo uma pessoa aprovada em todas essas seis dimensões só é verdadeiramente aprovada no julgamento final se, fundamentalmente, possuir o temor do Eterno como seu valor mais íntimo e central — o "tesouro" que dá sentido e integridade a todas as outras realizações. A ideia é ilustrada por uma parábola simples e vívida: um homem pede a seu mensageiro que suba uma grande quantidade de trigo (um cor, medida generosa) ao sótão para armazenamento, mas depois pergunta se o mensageiro teve o cuidado de misturar ao grão uma pequena quantidade de um sal ou substância mineral conservante (chomton), prática comum para evitar que o trigo apodreça ou seja infestado por larvas durante o armazenamento prolongado. Ao saber que o mensageiro não fez essa mistura essencial, o homem lamenta que todo o trabalho de subir o trigo tenha sido em vão, pois sem esse elemento conservador todo o estoque se estragará de qualquer forma. A escola de Rabi Yishmael acrescenta uma nota prática final, confirmando que essa mistura de sal conservante no grão é permitida e recomendada, sem qualquer preocupação halachica quanto a proibições de mistura. A parábola ensina que o vasto "estoque" de mérito acumulado através do estudo, da prática e da observância — por mais impressionante que seja em quantidade — permanece vulnerável a se deteriorar e perder seu valor duradouro, a menos que seja "conservado" e sustentado pelo temor genuíno do Eterno, o elemento essencial que preserva e dá permanência a tudo o mais.
Disse Rabá bar Rav Huna: toda pessoa que tem Torá em si, mas não tem (o texto se interrompe aqui, no exato limite do daf, e sua continuação — "temor do Eterno" — abre imediatamente o daf seguinte, 31b)…
O daf termina no meio de uma frase — um limite de daf que corta literalmente a sentença de Rabá bar Rav Huna, tal como preservado no texto-fonte do Sefaria. Isso não é um erro de tradução nem um corte editorial deste site: é assim que o daf 31a genuinamente termina, e a continuação exata — "…temor do Eterno" — é a primeira palavra de Shabbat 31b, onde a ideia se desenvolve na parábola do tesoureiro.
"A ordem de Zeraim" — pois (depende) da fidelidade da pessoa (confia-se) para separar seus dízimos como convém.
"Força" (chosen) — (termo relacionado a) herdeiros, e por meio da esposa nascem herdeiros.
"A ordem de Nezikin" — (pois) salva-os, advertindo-os a se afastar do dano e de se tornarem obrigados (a pagar) dinheiro.
"Conhecimento" — (qualidade) superior à sabedoria.
"É seu tesouro" — este é o (elemento) principal, importante a seus olhos, para guardar e fazer (dele) um tesouro de lembrança.
"Fixaste tempos" — pois, como a pessoa precisa se ocupar do (sustento e do trato) mundano, já que sem (sustento) mundano não há Torá, foi necessário fixar tempos (determinados) para a Torá, uma medida fixa, para que (a pessoa) não se estenda o dia inteiro no (trato) mundano.
"Em procriação" — isto é (o correspondente a) "força" (chosen).
"Aguardaste pela salvação" — (referindo-se) às palavras dos profetas.
"Compreendeste uma coisa a partir de outra" — isto é (o correspondente a) "conhecimento".
"Um kav de chomton" — (um tipo de) terra salgada, que preserva os frutos (grãos) de se infestarem com larvas.
"E não precisa se preocupar" — em vendê-lo pelo preço do trigo (mesmo misturado), pois não constitui (engano) fraudulento, já que sua preservação depende disso.