Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
גּוֹי שֶׁחָקַק קַב

A questão sobre Rav Adda bar Ahava é resolvida por Rava; a baraita de Rav sobre tâmaras, caroços, nozes e cascas; o episódio dos caroços jogados ao boi; e as duas explicações finais da Mishná — a de Rav Shmuel bar bar Chana/Rav Yossef e a de Rav Hamnuna

Shabbat 29a — a Guemará fecha a análise da disputa sobre o pavio de pano dobrado

O daf abre com a continuação interrompida ao final de 28b: um gentio que entalhou uma medida de kav num toco de madeira em Yom Tov — pode um judeu queimá-lo depois, mesmo sendo, em princípio, "nolad" (algo que passou a existir só naquele dia)? A Guemará explica que essa permissão foi dita apenas segundo a opinião combinada de Rabi Eliezer e Rabi Akiva (que não creem, cada um por razão diferente, no problema do nolad nesse caso), mas não segundo a opinião de quem a transmite. Rava então propõe sua própria explicação para a real razão de Rabi Eliezer proibir o pavio de pano não chamuscado: simplesmente porque não se acende com pavio não chamuscado nem com trapos não chamuscados — sem qualquer relação com "pedaço de utensílio quebrado". A partir daí, Rava reabre a pergunta sobre a baraita de "três por três exatamente", agora ligando-a à impureza (citando a disputa entre Rabi Shimon e os sábios sobre a mesma medida, a propósito da autorização à muktzê). Segue-se uma extensa baraita de Rav, em nome de Rav Yehuda, sobre o que se pode e não se pode queimar em Yom Tov usando fogo já existente — utensílios versus pedaços de utensílios, tâmaras versus seus caroços, nozes versus suas cascas —, com Rabi Shimon permitindo tudo; a Guemará demonstra, por um processo de eliminação cuidadoso, que as duas últimas cláusulas dessa baraita (tâmaras e nozes) eram ambas necessárias, pois cada uma poderia ter sido erroneamente generalizada a partir da outra. Um episódio pessoal envolvendo Rav, que comeu tâmaras e jogou os caroços duros a um boi, e foi advertido por Rabi Chiya de que isso seria proibido em Yom Tov, é citado e depois esclarecido por um relato posterior — de que Rav, ao chegar à Babilônia, jogou os caroços a animais (arameus, não persas) que já os comiam junto com suas mães antes daquele dia, tornando-os, portanto, "muchan" (preparado de antemão) e permitidos. A Guemará então retoma a explicação de Rav Adda bar Ahava, com Rav Shmuel bar bar Chana perguntando a Rav Yossef como, segundo Rabi Yehuda, pode-se sequer virar o pavio parcialmente aceso sem já estar manuseando um pedaço de utensílio quebrado proibido — resposta: porque se procede como Rav Matna ensinou em nome de Rav, sobre gravetos caídos da tamareira em Yom Tov, que se aumenta lenha já preparada sobre eles e então se queima tudo junto. Por fim, Rav Hamnuna propõe uma explicação totalmente alternativa para a Mishná original: ela trataria, na verdade, de um pano menor que três por três (que nunca teve estatuto pleno de utensílio), e a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Akiva seria, cada um, reflexo de sua própria posição já conhecida de outra Mishná — a dos retalhos pequenos preparados para tampar o banho, sacudir a panela ou limpar o moinho.

O gentio que entalhou um kav; a explicação de Rava sobre Rabi Eliezer · גּוֹי שֶׁחָקַק קַב בִּבְקַעַת

01Um gentio que entalhou um kav num toco em Yom Tov — um judeu pode queimá-lo, mas essa permissão é só segundo Rabi Eliezer e Rabi Akiva, não segundo quem a transmite
Guemará
גּוֹי שֶׁחָקַק קַב בִּבְקַעַת — יִשְׂרָאֵל מַסִּיקָהּ בְּיוֹם טוֹב. וְאַמַּאי? נוֹלָד הוּא! לְדִבְרֵיהֶם דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר וְרַבִּי עֲקִיבָא קָאָמַר לֵיהּ, וְלֵיהּ לָא סְבִירָא לֵיהּ.

(Retomando a citação interrompida ao final de 28a-28b, de um ensinamento de Rav Adda bar Ahava:) um gentio que entalhou (a medida de) um kav num toco de madeira (em Yom Tov, esvaziando parte dele para servir de recipiente) — um judeu (pode) queimá-lo (depois, nesse mesmo Yom Tov, junto com outra lenha). (A Guemará pergunta:) E por quê (isso seria permitido)? É nolad (algo que passou a existir, em sua forma atual de utensílio entalhado, apenas naquele dia — e deveria, portanto, ser proibido)! (A resposta:) (Rav Adda bar Ahava) disse isso segundo as palavras deles, de Rabi Eliezer e Rabi Akiva (que, cada um por seu próprio raciocínio, não veem problema de nolad nesse caso específico), mas ele mesmo não sustenta assim (concordando, na realidade, com Rabi Shimon, que rejeita totalmente a categoria de nolad).

Nota

O daf retoma exatamente a frase interrompida ao final de 28b: a Guemará havia questionado se Rav Adda bar Ahava realmente sustentava a opinião de Rabi Yehuda sobre nolad, citando um ensinamento seu que pareceria contradizer essa suposição. Esse ensinamento é agora apresentado: um gentio entalhou um kav (uma medida de capacidade) num pedaço de madeira em Yom Tov, criando ali um recipiente que antes não existia; e, ainda assim, Rav Adda bar Ahava ensina que um judeu pode queimar essa madeira nesse mesmo Yom Tov. Isso pareceria estranho, pois o pedaço de madeira, em sua nova forma de utensílio entalhado, é claramente "nolad" — algo que só passou a existir (nessa forma específica) naquele dia, e que, segundo Rabi Yehuda, deveria ser proibido de mover ou queimar. A Guemará resolve a aparente contradição explicando que Rav Adda bar Ahava, ao ensinar essa permissão, não estava expressando sua própria opinião final, mas apenas descrevendo o que resultaria das posições de Rabi Eliezer e Rabi Akiva (que, unidos por razões diferentes na Mishná anterior, concordam em permitir situações semelhantes de nolad) — enquanto ele mesmo, na realidade, discorda dessa permissão, sustentando a posição mais restritiva de Rabi Yehuda sobre nolad. Isso resolve a dificuldade: a citação de "todos aceitam a opinião de Rabi Yehuda" (em 28b) descrevia apenas o pano de três por três da Mishná, não a posição pessoal e definitiva de Rav Adda bar Ahava sobre nolad em geral.

02Rava propõe outra razão para Rabi Eliezer: simplesmente não se acende com pavio ou trapo não chamuscado; e liga a baraita de "três por três" à impureza
Guemará (Rava)
רָבָא אָמַר, הַיְינוּ טַעְמָא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר: לְפִי שֶׁאֵין מַדְלִיקִין בִּפְתִילָה שֶׁאֵינָהּ מְחוֹרֶכֶת וְלֹא בִּסְמַרְטוּטִין שֶׁאֵינָן מְחוֹרָכִין. אֶלָּא הָא דְּתָנֵי רַב יוֹסֵף ״שָׁלֹשׁ עַל שָׁלֹשׁ מְצוּמְצָמוֹת״ לְמַאי הִלְכְתָא? לְעִנְיַן טוּמְאָה. דִּתְנַן: שָׁלֹשׁ עַל שָׁלֹשׁ שֶׁאָמְרוּ — חוּץ מִן הַמְּלָל, דִּבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: שָׁלֹשׁ עַל שָׁלֹשׁ מְכֻוּוֹנוֹת.

Rava disse: esta é a (verdadeira) razão de Rabi Eliezer (para proibir acender com o pano dobrado mas não chamuscado — e não a explicação de "pedaço de utensílio quebrado" dada anteriormente): porque não se acende com pavio que não está chamuscado, nem com trapos que não estão chamuscados (sendo essa uma regra independente e mais simples, sem qualquer relação com a categoria de nolad ou pedaço de utensílio quebrado). (A Guemará pergunta, então:) Mas aquilo que ensinou Rav Yossef, "três por três exatamente" — para qual halachá (se aplica, já que a explicação anterior de Rabi Elazar/Rav Oshaya, ligada ao acender, não se aplicaria mais, segundo Rava)? (A resposta:) Para a questão da impureza. Pois ensinamos (numa Mishná): "três por três", que (os sábios) disseram (como medida mínima suscetível a impureza,) exclui-se dali o que se desfaz ao ser esfregado (mellal) — palavras de Rabi Shimon. E os sábios dizem: (a medida é) três por três justas (sem essa exclusão de Rabi Shimon).

Nota

Rava oferece uma explicação alternativa e mais direta para a proibição de Rabi Eliezer na Mishná: não é necessário recorrer à complexa análise de "pedaço de utensílio quebrado" (como fizeram Rabi Elazar, Rav Oshaya e Rav Adda bar Ahava); basta a regra simples e já conhecida de que não se pode acender uma vela com um pavio, ou remendar com trapos, que ainda não foram chamuscados ao fogo — pois tais materiais não pegam fogo com facilidade e queimam mal. Isso, porém, deixa em aberto novamente a pergunta sobre a baraita "três por três exatamente" citada por Rav Yossef: se a razão de Rabi Eliezer não depende mais da medida precisa do pano, para que serve essa baraita? A resposta de Rava é que ela se aplica, na verdade, à questão da impureza, não à do acender. A Guemará então cita uma Mishná (de Massechet Kelim) que debate exatamente essa medida de três por três: Rabi Shimon exclui dessa medida mínima o material chamado "mellal" — um tecido tão fino ou desgastado que se desfaz quando esfregado entre os dedos, considerando que tal material nunca seria suscetível à impureza mesmo tendo essa medida; enquanto os sábios exigem apenas que a medida seja "justa" (três por três exatas), sem essa exclusão adicional.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o gentio que entalhou o kav
שחקק קב - בי"ט דהוה ליה נולד:

"Que entalhou um kav" — em Yom Tov, pelo que se tornou nolad.

לדבריהם דר' אליעזר ור' עקיבא קאמר - האי דאוקים להו רב אדא אליבא דר' יהודה דחזא פלוגתייהו דלא מיתוקמא אלא אליבא דר' יהודה ומיהו איהו לא סבירא ליה אלא כר' שמעון:

"Segundo as palavras deles, de Rabi Eliezer e Rabi Akiva, disse" — isto que Rav Adda estabeleceu (a disputa da Mishná) de acordo com Rabi Yehuda, foi porque viu que a disputa deles (de Rabi Eliezer e Rabi Akiva) só se sustenta de acordo com Rabi Yehuda; mas ele mesmo não sustenta (essa opinião), senão como Rabi Shimon (que permite totalmente, rejeitando a categoria de nolad).

03A baraita de Rav em nome de Rav Yehuda: utensílios versus pedaços; tâmaras versus caroços; nozes versus cascas — Rabi Shimon permite tudo
Guemará (Rav Yehuda em nome de Rav)
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: מַסִּיקִין בְּכֵלִים וְאֵין מַסִּיקִין בְּשִׁבְרֵי כֵלִים, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. מַסִּיקִין בִּתְמָרִין, אֲכָלָן אֵין מַסִּיקִין בְּגַרְעִינֵיהֶן, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. מַסִּיקִין בֶּאֱגוֹזִים, אֲכָלָן אֵין מַסִּיקִין בִּקְלִיפּוֹתֵיהֶן, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: acende-se (a fogueira em Yom Tov, alimentando fogo já existente) com utensílios (inteiros), mas não se acende com pedaços de utensílios (quebrados naquele mesmo dia) — palavras de Rabi Yehuda. E Rabi Shimon permite (também com os pedaços). Acende-se com tâmaras (inteiras, ainda não comidas); (se alguém já) as comeu, não se acende com seus caroços (separados da fruta naquele dia) — palavras de Rabi Yehuda. E Rabi Shimon permite. Acende-se com nozes (inteiras); (se alguém já) as comeu, não se acende com suas cascas (separadas naquele dia) — palavras de Rabi Yehuda. E Rabi Shimon permite.

Nota

A Guemará cita agora uma baraita ampla, transmitida por Rav Yehuda em nome de Rav, que ilustra o princípio de nolad em três formulações paralelas. Em todas elas, Rabi Yehuda proíbe usar, para alimentar uma fogueira já acesa em Yom Tov, aquilo que só se tornou separado (e portanto uma "nova" categoria de objeto) naquele mesmo dia: pedaços de um utensílio que se quebrou nesse dia (mesmo que o utensílio original já existisse antes), caroços de tâmaras que só foram separados da fruta ao serem comidas nesse dia, e cascas de nozes separadas do mesmo modo. Em todos os três casos, o item resultante (pedaço, caroço, casca) não existia, em sua forma atual e separada, antes daquele dia — sendo, portanto, nolad, e proibido de ser manuseado ou queimado, segundo Rabi Yehuda. Rabi Shimon, que rejeita inteiramente a categoria de nolad como motivo de proibição, permite o uso de todos esses itens.

04Todas as cláusulas eram necessárias: cada uma poderia ter sido erroneamente generalizada a partir da outra
Guemará
וּצְרִיכָא. דְּאִי אַשְׁמְעִינַן קַמַּיְיתָא, בְּהַהִיא קָאָמַר רַבִּי יְהוּדָה, מִשּׁוּם דְּמֵעִיקָּרָא כְּלִי וְהַשְׁתָּא שֶׁבֶר כְּלִי, וְהָוֵה לֵיהּ נוֹלַד, וְאָסוּר. אֲבָל תְּמָרִים, דְּמֵעִיקָּרָא גַּרְעִינִין וְהַשְׁתָּא גַּרְעִינִין — אֵימָא שַׁפִּיר דָּמֵי. וְאִי אַשְׁמְעִינַן גַּרְעִינִין, הֲוָה אָמֵינָא דְּמֵעִיקָּרָא מִכַּסְּיָין וְהַשְׁתָּא מִיגַּלְּיָין. אֲבָל קְלִיפֵּי אֱגוֹזִין, דְּמֵעִיקָּרָא מִיגַּלּוּ וְהַשְׁתָּא מִיגַּלּוּ — אֵימָא שַׁפִּיר דָּמֵי. צְרִיכָא.

E (todas as três cláusulas) eram necessárias (cada uma no seu lugar, sem que se pudesse dispensar nenhuma delas). Pois, se nos tivesse ensinado (apenas) a primeira (cláusula, sobre utensílios e pedaços de utensílios), (poder-se-ia pensar que) naquele caso é que Rabi Yehuda fala (assim, proibindo), porque no início (o objeto era um) utensílio (completo), e agora (é apenas) pedaço de utensílio, e (por isso) tornou-se nolad, e é proibido; mas as tâmaras, em que no início (já havia) caroços (dentro delas) e agora (ainda são) caroços (a mesma substância, apenas exposta) — poder-se-ia dizer que (nesse caso) está bem (permitido, sem necessidade de proibição por nolad). E se nos tivesse ensinado (apenas) os caroços, eu diria que (ali a proibição se aplica porque) no início estavam cobertos (pela polpa da fruta) e agora estão descobertos (e por isso são considerados nolad); mas as cascas de nozes, que no início já estavam descobertas (por fora) e agora (continuam) descobertas (sem mudança de estado aparente) — poder-se-ia dizer que (nesse caso) está bem (permitido). (Por isso todas) eram necessárias.

Nota

A Guemará demonstra, com seu método habitual de "e eram necessárias" (וצריכא), por que nenhuma das três cláusulas da baraita poderia ter sido omitida sem perda de informação halachica. Se apenas a primeira cláusula (utensílio versus pedaço de utensílio quebrado) tivesse sido ensinada, poder-se-ia supor que a proibição de Rabi Yehuda se restringe a esse caso específico — onde há uma mudança de forma clara, de utensílio íntegro para fragmento — mas não se aplicaria às tâmaras, cujo caroço já existia dentro da fruta desde o início e apenas foi exposto, sem sofrer, em si mesmo, nenhuma transformação de substância. Se, por outro lado, apenas o caso das tâmaras tivesse sido ensinado, poder-se-ia supor que a proibição se deve ao fato de o caroço estar coberto antes e descoberto depois — uma mudança de estado —, mas não se aplicaria às cascas de nozes, que já estavam expostas (por fora do fruto) tanto antes quanto depois de serem comidas, sem essa mesma mudança de coberto para descoberto. Assim, cada cláusula elimina uma possível linha de raciocínio que restringiria a proibição, exigindo que todas as três fossem ensinadas explicitamente.

05O ensinamento de Rav não foi dito explicitamente, mas inferido de um episódio: Rav comeu tâmaras e jogou os caroços duros a um bezerro; Rabi Chiya o advertiu
Guemará
וְהָא דְּרַב לָאו בְּפֵירוּשׁ אִיתְּמַר, אֶלָּא מִכְּלָלָא אִיתְּמַר. דְּרַב אֲכַל תַּמְרֵי וּשְׁדָא קַשְׁיָיתָא לְבוּכְיָא. אֲמַר לֵיהּ רַבִּי חִיָּיא: בַּר פַּחֲתֵי, כְּנֶגְדּוֹ בְּיוֹם טוֹב אָסוּר. קַבְּלַהּ מִינֵּיהּ אוֹ לָא קַבְּלַהּ מִינֵּיהּ?

E isto (o ensinamento anterior) de Rav não foi dito de forma explícita, mas foi dito (apenas) a partir de uma inferência (de um episódio). Pois Rav comeu tâmaras e jogou os caroços duros a um bezerro jovem (bucaia). Disse-lhe Rabi Chiya: filho de nobres, isso, em Yom Tov, é proibido (pois os caroços são nolad e não deveriam ser manuseados)! (A Guemará pergunta:) Aceitou (Rav essa repreensão) dele, ou não a aceitou?

Nota

A Guemará esclarece que o ensinamento anterior, atribuído a Rav por meio de Rav Yehuda, não foi transmitido por Rav como uma declaração formal e explícita de halachá, mas foi deduzido pelos sábios a partir de um episódio concreto de sua vida cotidiana. O relato é simples: Rav estava comendo tâmaras (num Yom Tov) e, tendo terminado, jogou os caroços duros e resistentes a um bezerro jovem que ali estava, provavelmente para que o animal os comesse ou brincasse com eles. Rabi Chiya, testemunhando isso, repreendeu Rav (chamando-o afetuosamente, ou talvez ironicamente, de "filho de nobres" — bar pachatei), afirmando que esse ato seria proibido em Yom Tov, pois os caroços, tendo acabado de ser separados da fruta naquele mesmo dia, seriam nolad e, portanto, muktzê (proibidos de manusear). A Guemará então levanta a questão crucial: será que Rav, diante dessa repreensão, aceitou a posição de Rabi Chiya (abandonando sua prática) ou manteve sua conduta original, rejeitando a crítica?

06Resposta: Rav, na Babilônia, jogou os caroços a animais que já os comiam com suas mães antes daquele dia — tornando-os muchan e permitidos
Guemará
תָּא שְׁמַע: דְּכִי אֲתָא רַב לְבָבֶל, אֲכַל תַּמְרֵי וּשְׁדָא קַשְׁיָיתָא לְחֵיוָתָא. מַאי לָאו בְּפַרְסָיָיאתָא, וְלָא קַבְּלַהּ? — לָא, בַּאֲרַמָּיָאתָא — הוֹאִיל וַחֲזֵי אַגַּב אִימַּיְיהוּ.

Venha e ouça (a resposta): quando Rav chegou à Babilônia, comeu tâmaras e jogou os caroços duros a animais (cheivata). (Poder-se-ia pensar:) não seria (isso a mesmos) (animais) persas, e (portanto Rav) não aceitou (a repreensão de Rabi Chiya)? (A resposta:) Não, eram (animais) arameus (domésticos, criados na própria casa) — já que (esses animais) são aptos (para comer os caroços) junto com suas mães (desde antes daquele dia, o que os torna "muchan", preparado de antemão, e por isso permitido, não contradizendo a posição de Rabi Chiya).

Nota

A Guemará resolve a dúvida trazendo outro relato sobre a conduta posterior de Rav: ao chegar à Babilônia, ele comeu tâmaras e novamente jogou os caroços a animais. A princípio, isso sugeriria que Rav não aceitou a repreensão de Rabi Chiya e continuou sua prática anterior sem restrição. Mas a Guemará esclarece que havia uma diferença crucial entre os dois episódios: os animais da Babilônia eram "arameus" — animais domésticos, criados junto à casa da família, que já se alimentavam de caroços de tâmaras junto com suas mães desde antes daquele Yom Tov especificamente, tornando os caroços "muchan" (preparados de antemão, com um uso já designado e conhecido antes do início do dia sagrado) e, portanto, permitidos mesmo segundo Rabi Yehuda. Isso é diferente de simplesmente jogar caroços recém-separados a qualquer animal sem essa preparação prévia. Assim, o segundo episódio não contradiz a repreensão de Rabi Chiya: Rav, na realidade, aceitou-a, e passou a jogar os caroços apenas a animais que já tinham esse uso designado de antemão.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre o episódio dos caroços de tâmara
בוכיא - עגל:

"Bucaia" — bezerro (jovem).

בפרסייתא - בהמת פרסיים שאין עשויין לכך:

"(Animais) persas" — animais de persas, que não são feitos para isso (isto é, não têm o costume habitual de comer caroços de tâmara).

07Rav Shmuel bar bar Chana pergunta a Rav Yossef: como se pode virar o pavio parcialmente aceso sem manusear um pedaço de utensílio proibido? — Resposta: procede-se como Rav Matna ensinou sobre gravetos caídos da tamareira
Guemará (Rav Shmuel bar bar Chana; Rav Matna em nome de Rav)
אֲמַר לֵיהּ רַב שְׁמוּאֵל בַּר בַּר חָנָה לְרַב יוֹסֵף: לְרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר מַסִּיקִין בְּכֵלִים וְאֵין מַסִּיקִין בְּשִׁבְרֵי כֵלִים, כֵּיוָן דְּאַדְלֵיק בְּהוּ פּוּרְתָּא הָוֵה לֵיהּ שִׁבְרֵי כֵלִים, וְכִי קָא מְהַפֵּךְ — בְּאִיסּוּרָא קָא מְהַפֵּךְ? — דַּעֲבַד כִּדְרַב מַתְנָה. דְּאָמַר רַב מַתְנָה אָמַר רַב: עֵצִים שֶׁנָּשְׁרוּ מִן הַדֶּקֶל לְתַנּוּר בְּיוֹם טוֹב, מַרְבֶּה עֵצִים מוּכָנִין וּמַסִּיקָן.

Disse-lhe Rav Shmuel bar bar Chana a Rav Yossef: segundo Rabi Yehuda, que disse (que) acende-se com utensílios, mas não se acende com pedaços de utensílios (quebrados naquele dia) — já que (a pessoa) acendeu neles (o pano de três por três) um pouco (reduzindo-o abaixo da medida mínima), tornou-se (esse pano, a partir daí,) pedaço de utensílio (proibido); e quando (a pessoa) vira (o pavio, para completar a maior parte que precisa ser acesa, segundo Ulá) — não estaria virando (algo) proibido (um pedaço de utensílio quebrado, que não se deveria sequer tocar)? (A resposta:) (A pessoa) procede como (ensinou) Rav Matna. Pois disse Rav Matna, disse Rav: gravetos (de madeira) que caíram da tamareira (diretamente) para dentro do forno em Yom Tov (tornando-se, em princípio, nolad e proibidos de manusear)(a pessoa) aumenta (sobre eles) lenha já preparada (muchan, de antemão) e (então) os queima (a todos juntos, sem tocar diretamente nos gravetos proibidos, mas movendo-os indiretamente ao acrescentar e acender a lenha permitida sobre eles).

Nota

Rav Shmuel bar bar Chana levanta uma dificuldade prática contra a explicação de Rabi Elazar/Rav Oshaya/Rav Adda bar Ahava (dada em 28b) sobre a posição de Rabi Eliezer: se, assim que o fogo consome uma pequena parte do pano de três por três, o restante já se torna um "pedaço de utensílio quebrado" proibido de manusear (segundo Rabi Yehuda), como pode a pessoa continuar virando ou ajustando esse mesmo pavio para garantir que o fogo pegue na "maior parte" exigida por Ulá? Isso pareceria exigir o manuseio direto de um objeto já proibido. A resposta, buscada por analogia ao ensinamento de Rav Matna em nome de Rav, é que existe uma técnica indireta para lidar com esse problema: assim como gravetos que caem inadvertidamente da tamareira para dentro do forno em Yom Tov (tornando-se nolad, pois passaram a estar nesse novo local e condição apenas naquele dia) não podem ser tocados diretamente, mas podem ser queimados se a pessoa simplesmente acrescentar lenha já preparada de antemão (muchan) por cima deles e acender o conjunto — de modo que o fogo se espalha para os gravetos proibidos sem que a mão humana precise tocá-los diretamente —, da mesma forma, o pavio parcialmente queimado pode ser manuseado indiretamente, através desse mesmo princípio, sem violar a proibição de tocar diretamente em pedaços de utensílios quebrados.

A explicação alternativa de Rav Hamnuna: o pano menor que três por três · פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה

08Rav Hamnuna: a Mishná trata, na verdade, de pano menor que três por três, dos retalhos leves
Guemará (Rav Hamnuna)
רַב הַמְנוּנָא אָמַר: הָכָא בְּפָחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה עָסְקִינַן, מִקּוּלֵּי מַטְלָנִיּוֹת שָׁנוּ כָּאן.

Rav Hamnuna disse: aqui (na Mishná) trata-se, na verdade, de (pano) menor que três por três (dedos, uma medida que nunca teria estatuto pleno de vestimenta suscetível à impureza — e não da medida exata de três por três, como propuseram as explicações anteriores); a respeito dos retalhos leves (de pouca importância) ensinaram (os sábios) aqui.

Nota

Rav Hamnuna propõe uma leitura inteiramente diferente e mais simples da Mishná original (o pavio de pano dobrado mas não chamuscado): em vez de supor que ela trata de um pano de exatamente três por três dedos (a medida-limite precisa, como propuseram as explicações anteriores de Rabi Elazar/Rav Oshaya e de Rava), ele sugere que a Mishná trata, na verdade, de um pedaço de pano menor que três por três — um simples retalho pequeno e sem importância, que, mesmo como vestimenta original, nunca teria tamanho suficiente para ser suscetível à impureza como "vestimenta" no sentido pleno. Essa proposta elimina a necessidade de toda a complexa discussão sobre "pedaço de utensílio quebrado" e nolad: a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Akiva passaria a depender de um princípio totalmente diferente, que a Guemará explica a seguir.

09Rabi Eliezer e Rabi Akiva seguem, cada um, sua posição já conhecida de outra Mishná: os retalhos pequenos preparados para tampar o banho, sacudir a panela ou limpar o moinho
Guemará; Mishná (Kelim); Ulá / Rabá bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan
וְאָזְדָא רַבִּי אֱלִיעֶזֶר לְטַעְמֵיהּ וְרַבִּי עֲקִיבָא לְטַעְמֵיהּ. דִּתְנַן: פָּחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה שֶׁהִתְקִינוֹ לִפְקֹק בּוֹ אֶת הַמֶּרְחָץ וּלְנַעֵר בּוֹ אֶת הַקְּדֵירָה וּלְקַנֵּחַ בּוֹ אֶת הָרֵחַיִים — בֵּין מִן הַמּוּכָן וּבֵין שֶׁאֵין מִן הַמּוּכָן — טָמֵא, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: בֵּין מִן הַמּוּכָן וּבֵין שֶׁלֹּא מִן הַמּוּכָן — טָהוֹר. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר: מִן הַמּוּכָן — טָמֵא, וְשֶׁלֹּא מִן הַמּוּכָן — טָהוֹר. וְאָמַר עוּלָּא, וְאִיתֵּימָא רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הַכֹּל מוֹדִים זְרָקוֹ בָּאַשְׁפָּה — דִּבְרֵי הַכֹּל טָהוֹר.

E (assim) Rabi Eliezer segue sua (própria) razão (conhecida de outro contexto), e Rabi Akiva segue sua (própria) razão. Pois ensinamos (numa Mishná, em Massechet Kelim): (um pedaço de pano) menor que três por três, que (alguém) preparou para tampar com ele o (orifício de saída de água do) banho, ou para sacudir com ele a panela (limpando-a por dentro), ou para limpar com ele o moinho — quer (seja) do (material já) preparado (de antemão para esse fim), quer não seja do preparado — (esse retalho permanece) impuro (mantendo seu estatuto anterior de vestimenta, suscetível à impureza) — palavras de Rabi Eliezer. E Rabi Yehoshua diz: quer (seja) do preparado, quer não seja do preparado — (esse retalho é) puro (pois a designação para um novo uso, mesmo menor, já anula por completo o estatuto de vestimenta). Rabi Akiva diz: (se for) do preparado — (é) impuro; e (se) não (for) do preparado — (é) puro. (E) disse Ulá — e alguns dizem, Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: todos concordam (que, se alguém) jogou (o retalho) no monturo de lixo — segundo as palavras de todos, (esse retalho é) puro (pois aí a intenção de descartá-lo completamente é inequívoca).

Nota

A Guemará explica a proposta de Rav Hamnuna citando a fonte da qual Rabi Eliezer e Rabi Akiva já derivam suas posições respectivas: uma Mishná de Massechet Kelim que trata de um retalho de pano menor que três por três, que alguém designou para um novo uso modesto — tampar o ralo do banho, sacudir/limpar uma panela, ou limpar as pedras de um moinho. Nessa Mishná, Rabi Eliezer sustenta que tal retalho permanece impuro (mantendo seu estatuto anterior de vestimenta) independentemente de o novo uso ter sido preparado de antemão ou não — pois, para ele, um uso tão menor e informal nunca é suficiente para anular completamente o estatuto anterior do pano. Rabi Yehoshua sustenta o oposto: em qualquer caso, esse retalho torna-se puro, pois a designação para qualquer novo uso, mesmo pequeno, já basta para anular o estatuto de vestimenta. Rabi Akiva ocupa uma posição intermediária: distingue entre o retalho que já fazia parte do equipamento preparado de antemão para aquele uso (permanecendo impuro, como uma extensão do próprio utensílio principal) e o que não fazia parte desse equipamento preparado (tornando-se puro). A Guemará acrescenta ainda o ensinamento de Ulá (ou, segundo outra versão, Rabá bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan) de que, em todos os casos, se o retalho foi jogado num monturo de lixo, todos concordam que ele se torna puro — pois, nessa situação, fica evidente e inequívoco que o dono desistiu completamente de qualquer uso futuro daquele pedaço de pano. Rav Hamnuna aplica essa mesma lógica à Mishná do pavio: Rabi Eliezer, fiel à sua posição de que um uso menor nunca anula por completo o estatuto de vestimenta, proíbe o pavio dobrado (mas não chamuscado) tanto para impureza quanto para acender; Rabi Akiva, fiel à sua posição intermediária, permite-o, por já ter sido "preparado" para esse novo uso específico de pavio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre a explicação de Rav Hamnuna
מקולי מטלניות שנו כאן - שאין חשובין לענין טומאה כדתנן במסכת כלים:

"A respeito dos retalhos leves ensinaram aqui" — que não são importantes quanto à questão da impureza, conforme ensinamos em Massechet Kelim.