Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet
מַזְכִּיר בַּהוֹדָאָה

A confirmação de Rav Chisda pela baraita; a menção de Chanucá e Rosh Chodesh em Birkat Hamazon; os dias com e sem Mussaf; e a menção de Chanucá no próprio Mussaf

Shabbat 24a — a baraita que confirma a explicação de Rav Chisda sobre o óleo de queima proibido em todo Yom Tov, por causa de não se queimarem objetos sagrados nesse dia; a dúvida se se deve mencionar Chanucá em Birkat Hamazon, resolvida por Rav Huna, em nome de Rav Sechorá, em nome de Rav Huna: não se menciona, e quem quiser mencionar, que mencione em Hodaá; o episódio de Rav Huna bar Yehudá na casa de Rava, que quis mencionar em "Constrói Jerusalém", corrigido por Rav Sheshet; a dúvida sobre mencionar Rosh Chodesh em Birkat Hamazon, com a disputa entre Rav (menciona) e Rabi Chanina (não menciona), decidida a favor de Rav por Rav Zerica com base em Rabi Oshaya; a baraita de Rabi Oshaya sobre os dias com sacrifício de Mussaf (Rosh Chodesh e Chol HaMoed) e os dias sem Mussaf (segundas e quintas-feiras, jejuns e ma'amadot), e suas respectivas regras de Amidá e de menção em Birkat Hamazon; a dúvida sobre mencionar Chanucá na oração de Mussaf, com a disputa entre Rav Huna e Rav Yehudá (não menciona) e Rav Nachman e Rabi Yochanan (menciona); a objeção de Abaie a Rav Yossef, comparando com o ensinamento de Rav Guidel em nome de Rav sobre Rosh Chodesh que cai em Shabat e a leitura da Haftará; e a réplica final, comparando antes com o ensinamento de Rav Achadvoi em nome de Rav Matená em nome de Rav sobre Yom Tov que cai em Shabat e a Haftará de Minchá.

O daf abre confirmando, por meio de uma baraita, a posição de Rav Chisda apresentada ao final de 23b: todos os óleos que não se pode acender em Shabat podem ser acesos em Yom Tov, exceto o óleo de queima, porque não se queimam objetos sagrados impuros em Yom Tov — validando a leitura de que a proibição da Mishná é geral, e não restrita a um Yom Tov que cai em véspera de Shabat. A partir daí, a Guemará muda de assunto e passa a uma sequência de perguntas (ibba'ya lehu) sobre menções especiais em orações e bênçãos: se se deve mencionar Chanucá em Birkat Hamazon, resolvida por Rav Huna a favor de mencioná-la apenas na bênção de Hodaá, ilustrada pelo episódio de Rav Huna bar Yehudá na casa de Rava; se se deve mencionar Rosh Chodesh em Birkat Hamazon, decidida a favor de Rav (que menciona) com base numa baraita de Rabi Oshaya sobre a distinção entre dias com sacrifício de Mussaf e dias sem ele, e as respectivas regras de repetição da Amidá e de menção em Birkat Hamazon; e, por fim, se se deve mencionar Chanucá na própria oração de Mussaf (nos dias em que Chanucá coincide com Shabat ou Rosh Chodesh), com uma disputa entre amoraítas e uma extensa comparação, por meio de Abaie, com as regras de leitura da Haftará em Rosh Chodesh e Yom Tov que caem em Shabat.

A confirmação de Rav Chisda pela baraita · תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַב חִסְדָּא

01A baraita: todos os óleos proibidos em Shabat são permitidos em Yom Tov, exceto o óleo de queima, por não se queimarem objetos sagrados em Yom Tov
Guemará (baraita)
תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַב חִסְדָּא. כׇּל אֵלּוּ שֶׁאָמְרוּ אֵין מַדְלִיקִין בָּהֶן בְּשַׁבָּת, מַדְלִיקִין בָּהֶן בְּיוֹם טוֹב, חוּץ מִשֶּׁמֶן שְׂרֵיפָה — לְפִי שֶׁאֵין שׂוֹרְפִין קׇדָשִׁים בְּיוֹם טוֹב.

Foi ensinado (numa baraita) de acordo com (a opinião de) Rav Chisda: todos esses (óleos e materiais) dos quais disseram (na Mishná de 23a) que não se acende com eles em Shabat, acende-se com eles em Yom Tov — exceto o óleo de queima, porque não se queimam objetos sagrados (impuros) em Yom Tov.

Nota

A Guemará traz uma baraita que confirma exatamente a posição de Rav Chisda apresentada ao final de 23b: como regra geral, todos os óleos e substâncias que a primeira Mishná do perek (23a) já havia proibido para a vela de Shabat (por não puxarem bem a chama, ou por outras razões técnicas) tornam-se permitidos em Yom Tov, já que em Yom Tov não existe o mesmo receio (por exemplo, o de se estar preparando algo para depois do dia, o que já é permitido em Yom Tov, ao contrário de Shabat). A única exceção, porém, permanece o óleo de queima — o óleo de teruma impura, cujo único destino legítimo é ser queimado —, que continua proibido mesmo em Yom Tov, porque não se pode realizar em Yom Tov a queima de objetos sagrados que se tornaram impuros. Essa baraita resolve a favor de Rav Chisda a leitura de que a proibição da Mishná sobre Yom Tov é uma regra geral e não um caso restrito a quando Yom Tov cai em véspera de Shabat, confirmando também a explicação final de Rav Chanina de Sura ao término do daf anterior.

A menção de Chanucá em Birkat Hamazon · מַהוּ לְהַזְכִּיר שֶׁל חֲנוּכָּה בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן

02A dúvida sobre mencionar Chanucá em Birkat Hamazon; a resolução de Rav Huna: não se menciona, e quem quiser, que mencione em Hodaá; o episódio de Rav Huna bar Yehudá na casa de Rava
Guemará (Rava em nome de Rav Sechorá em nome de Rav Huna; Rav Sheshet)
אִיבַּעְיָא לְהוּ: מַהוּ לְהַזְכִּיר שֶׁל חֲנוּכָּה בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן? כֵּיוָן דְּמִדְּרַבָּנַן הוּא — לָא מַדְכְּרִינַן, אוֹ דִילְמָא מִשּׁוּם פַּרְסוֹמֵי נִיסָּא — מַדְכְּרִינַן?! אָמַר רָבָא אָמַר רַב סְחוֹרָה אָמַר רַב הוּנָא: אֵינוֹ מַזְכִּיר. וְאִם בָּא לְהַזְכִּיר — מַזְכִּיר בַּהוֹדָאָה. רַב הוּנָא בַּר יְהוּדָה אִיקְּלַע לְבֵי רָבָא. סְבַרָה לְאַדְכּוֹרֵי בְּ״בוֹנֵה יְרוּשָׁלַיִם״. אָמַר לְהוּ רַב שֵׁשֶׁת: כִּתְפִלָּה. מַה תְּפִלָּה בַּהוֹדָאָה — אַף בִּרְכַּת הַמָּזוֹן בַּהוֹדָאָה.

Foi perguntado a eles (uma dúvida foi levantada na academia): como é (a lei quanto a) mencionar (o milagre) de Chanucá em Birkat Hamazon (a bênção após a refeição)? Visto que (Chanucá) é (uma instituição) dos sábios (e não da própria Torá), não a mencionamos (pois Birkat Hamazon é uma obrigação bíblica, e não se altera seu texto por causa de uma instituição rabínica), ou talvez, por causa da publicação do milagre (princípio essencial de Chanucá), a mencionemos (mesmo assim)? Disse Rava, disse Rav Sechorá, disse Rav Huna: não se menciona. E se (a pessoa) quiser mencionar (ainda assim, por sua própria vontade) — que mencione (o milagre) na bênção de Hodaá (agradecimento, a terceira bênção de Birkat Hamazon, e não nas bênçãos anteriores que tratam do sustento). Rav Huna bar Yehudá chegou (uma vez) à casa de Rava (em Chanucá). Pensou em mencionar (o milagre) em "Constrói Jerusalém" (a terceira bênção, cujo tema principal é a reconstrução de Jerusalém, e não o agradecimento). Disse-lhes Rav Sheshet: (a regra é) como na (própria) oração (Amidá, onde a "menção pelos milagres" — Al HaNissim — entra na bênção de Hodaá): assim como na oração (o lugar certo é) em Hodaá, também em Birkat Hamazon (o lugar certo é) em Hodaá.

Nota

A Guemará muda de assunto e passa a uma nova série de dúvidas sobre menções especiais em orações e bênçãos. A primeira delas: deve-se mencionar o milagre de Chanucá em Birkat Hamazon, a bênção obrigatória (de origem bíblica) recitada após qualquer refeição com pão? O argumento contra é que Chanucá é uma instituição meramente rabínica, e talvez não se justifique alterar o texto de uma bênção bíblica por causa dela; o argumento a favor é que o propósito essencial de Chanucá — a publicação do milagre (פרסומי ניסא) — poderia exigir sua menção em toda oportunidade litúrgica disponível. Rav Huna resolve que, tecnicamente, não há obrigação de mencionar Chanucá em Birkat Hamazon; mas quem, voluntariamente, quiser fazê-lo, deve inserir a menção na terceira bênção, chamada Hodaá (agradecimento), e não nas duas primeiras (que tratam do sustento e da Terra de Israel). Essa regra é ilustrada por um episódio em que Rav Huna bar Yehudá, hóspede na casa de Rava durante Chanucá, pensou em inserir a menção na própria bênção de "Constrói Jerusalém" (o nome usual da terceira bênção, focada no tema da reconstrução de Jerusalém), mas foi corrigido por Rav Sheshet: a regra segue o modelo já estabelecido na Amidá diária, onde a menção especial de Chanucá (Al HaNissim) é inserida dentro da bênção de Hodaá (a décima oitava bênção da Amidá, de agradecimento) — e, por analogia estrutural entre a Amidá e Birkat Hamazon, o mesmo vale para a bênção de Hodaá dentro de Birkat Hamazon.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "em Birkat Hamazon", "não mencionamos", "não menciona", "assim como a oração em Hodaá" e "em Hodaá"
בברכת המזון - בתפלה פשיטא לן שהרי להלל ולהודאה נקבעו כדאמרינן לעיל:

"Em Birkat Hamazon" — (pois quanto) à oração (Amidá), já nos é claro (que se menciona), pois (os dias de Chanucá) foram instituídos para louvor e agradecimento, como já dissemos acima (anteriormente, quando se explicou o propósito de Chanucá).

לא מזכרינן - לא חייבו להזכיר:

"Não mencionamos" — não obrigaram a mencionar.

אינו מזכיר - אינו צריך להזכיר:

"Não menciona" — não precisa mencionar.

מה תפלה בברכת הודאה - דהא כולה מילתא דחנוכה עיקרה להודאה נתקנה:

"Assim como (na) oração, na bênção de Hodaá" — pois todo o assunto de Chanucá foi, em sua essência, instituído para agradecimento.

בהודאה - בברכת הארץ:

"Em Hodaá" — (explicação alternativa: refere-se) à bênção da Terra (a segunda bênção de Birkat Hamazon; mas a explicação principal é a terceira bênção, chamada Hodaá).

A menção de Rosh Chodesh em Birkat Hamazon · מַהוּ לְהַזְכִּיר רֹאשׁ חוֹדֶשׁ בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן

03A dúvida sobre mencionar Rosh Chodesh em Birkat Hamazon; a disputa entre Rav e Rabi Chanina; a decisão de Rav Zerica a favor de Rav, com base em Rabi Oshaya
Guemará (Rav; Rabi Chanina; Rav Zerica)
אִיבַּעְיָא לְהוּ: מַהוּ לְהַזְכִּיר רֹאשׁ חוֹדֶשׁ בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן? אִם תִּימְצֵי לוֹמַר בַּחֲנוּכָּה דְּרַבָּנַן לָא צְרִיךְ, רֹאשׁ חוֹדֶשׁ דְּאוֹרָיְיתָא — צְרִיךְ. אוֹ דִילְמָא כֵּיוָן דְּלָא אֲסִיר בַּעֲשִׂיַּית מְלָאכָה — לָא מַדְכְּרִינַן. רַב אָמַר: מַזְכִּיר, רַבִּי חֲנִינָא אָמַר: אֵינוֹ מַזְכִּיר. אָמַר רַב זְרִיקָא: נְקוֹט דְּרַב בִּידָךְ, דְקָאֵי רַבִּי אוֹשַׁעְיָא כְּווֹתֵיהּ.

Foi perguntado a eles: como é (a lei quanto a) mencionar Rosh Chodesh em Birkat Hamazon? Se quiseres dizer que em Chanucá, sendo (instituição) dos sábios, não é necessário (mencionar), (quanto a) Rosh Chodesh, sendo (instituição) da própria Torá (pois os versos que ordenam os sacrifícios adicionais de Rosh Chodesh estão na Torá) — é necessário. Ou talvez, visto que (em Rosh Chodesh) não há proibição de realizar trabalho (ao contrário de Shabat e Yom Tov, cuja santidade se reflete na proibição de melachá), não o mencionamos (pois falta a esse dia uma marca distintiva forte o bastante para justificar a menção). Rav disse: menciona-se. Rabi Chanina disse: não se menciona. Disse Rav Zerica: toma a (opinião) de Rav em tua mão (como a correta), pois Rabi Oshaya se posiciona de acordo com ela.

Nota

Uma segunda dúvida, estruturalmente semelhante à primeira, mas com uma reviravolta: já que se estabeleceu que Chanucá — por ser instituição meramente rabínica — não precisa ser mencionada em Birkat Hamazon (embora possa ser mencionada, voluntariamente, em Hodaá), seria de se esperar que Rosh Chodesh, cuja observância remonta à própria Torá (que ordena sacrifícios adicionais específicos para esse dia), devesse ser mencionado obrigatoriamente. Mas há um contra-argumento: ao contrário de Shabat e Yom Tov, Rosh Chodesh não implica proibição de trabalho, e sua santidade é, nesse sentido, mais branda — talvez insuficiente para justificar uma menção especial na bênção. Os amoraítas Rav e Rabi Chanina discordam sobre o resultado dessa dúvida, e a Guemará resolve a favor de Rav, com base no testemunho de Rav Zerica de que a posição de Rabi Oshaya (apresentada na baraita a seguir) apoia a visão de Rav.

04A baraita de Rabi Oshaya: os dias com sacrifício de Mussaf e a Amidá completa com menção especial na Avodá e em Birkat Hamazon
Guemará (baraita de Rabi Oshaya)
דְּתָנֵי רַבִּי אוֹשַׁעְיָא: יָמִים שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן קׇרְבַּן מוּסָף, כְּגוֹן רֹאשׁ חוֹדֶשׁ וְחוּלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד — עַרְבִית וְשַׁחֲרִית וּמִנְחָה מִתְפַּלֵּל שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה וְאוֹמֵר מֵעֵין הַמְאוֹרָע בָּעֲבוֹדָה. וְאִם לֹא אָמַר — מַחֲזִירִין אוֹתוֹ. וְאֵין בָּהֶן קְדוּשָּׁה עַל הַכּוֹס, וְיֵשׁ בָּהֶן הַזְכָּרָה בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן.

Pois ensinou Rabi Oshaya: os dias em que há sacrifício de Mussaf, como Rosh Chodesh e Chol HaMoed (os dias intermediários das festas)(em) Arvit, Shacharit e Minchá, reza-se (a Amidá completa de) dezoito bênçãos (as dezoito bênçãos comuns dos dias de semana), e diz-se algo referente ao ocorrido (daquele dia) na bênção de Avodá (a bênção do serviço do Templo, a décima sétima da Amidá). E, se não o disse, faz-se voltar (a pessoa deve repetir a Amidá desde o início, pois é considerado uma omissão essencial). E não há neles (esses dias, a obrigação de fazer) Kidush sobre o cálice (não se recita Kidush do dia sobre o vinho, como se faz em Shabat e Yom Tov), mas há neles menção em Birkat Hamazon.

Nota

Rabi Oshaya estabelece uma baraita que distingue duas categorias de dias especiais: aqueles que têm sacrifício adicional de Mussaf no Templo (Rosh Chodesh e os dias intermediários das festas, Chol HaMoed) e aqueles que não têm. Nos dias com Mussaf, reza-se a Amidá comum de dezoito bênçãos em todas as três orações diárias (e não a Amidá reduzida de sete bênçãos de Shabat e Yom Tov, pois esses dias não têm a mesma santidade plena), mas insere-se uma menção específica do dia dentro da bênção de Avodá — a penúltima das dezoito bênçãos, referente ao serviço do Templo — e essa inserção é considerada obrigatória a ponto de, se omitida, exigir que a pessoa repita toda a Amidá. Além disso, esses dias não requerem Kidush sobre um cálice de vinho (ao contrário de Shabat e Yom Tov), mas exigem menção em Birkat Hamazon — o que confirma, por meio dessa baraita, a posição de Rav de que Rosh Chodesh deve, sim, ser mencionado em Birkat Hamazon.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "diz algo referente ao ocorrido na Avodá"
ואומר מעין המאורע בעבודה - לבקש רחמים על ישראל ועל ירושלים להשיב עבודה למקומה לעשות קרבנות היום:

"E diz algo referente ao ocorrido na (bênção de) Avodá" — para pedir misericórdia sobre Israel e sobre Jerusalém, (pedindo) que se restitua o serviço (do Templo) a seu lugar, para que se façam (ali) os sacrifícios do dia.

05Os dias sem sacrifício de Mussaf: segundas e quintas-feiras, jejuns e ma'amadot; a menção em "Ouve a Oração" e a ausência de repetição
Guemará (baraita de Rabi Oshaya, continuação)
יָמִים שֶׁאֵין בָּהֶן קׇרְבַּן מוּסָף, כְּגוֹן שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי וְשֵׁנִי וְתַעֲנִיּוֹת וּמַעֲמָדוֹת. שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי מַאי עֲבִידְתַּיְיהוּ? אֶלָּא שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי וְשֵׁנִי שֶׁל תַּעֲנִיּוֹת וּמַעֲמָדוֹת. עַרְבִית וְשַׁחֲרִית וּמִנְחָה מִתְפַּלֵּל שְׁמוֹנֶה עֶשְׂרֵה, וְאוֹמֵר מֵעֵין הַמְאוֹרָע בְּ״שׁוֹמֵעַ תְּפִלָּה״, וְאִם לֹא אָמַר — אֵין מַחֲזִירִין אוֹתוֹ. וְאֵין בָּהֶן קְדוּשָּׁה עַל הַכּוֹס וְאֵין בָּהֶן הַזְכָּרָה בְּבִרְכַּת הַמָּזוֹן.

Os dias em que não há sacrifício de Mussaf, como segunda-feira, quinta-feira e (a) segunda (-feira seguinte), e os jejuns, e os ma'amadot (as delegações rotativas de israelitas que acompanhavam, em Jerusalém, os sacrifícios oferecidos em seu nome). (Pergunta:) Segunda e quinta-feira, que assunto (especial) têm elas (por que mencioná-las aqui, já que não são, em si, dias de jejum público regular)? Mas (a baraita refere-se, precisamente) à segunda, à quinta e à segunda (seguinte) dos jejuns (públicos por falta de chuva) e dos ma'amadot. (Nesses dias:) em Arvit, Shacharit e Minchá, reza-se (a Amidá completa de) dezoito bênçãos, e diz-se algo referente ao ocorrido em "Ouve a Oração" (Shomea Tefilá, a décima sexta bênção, destinada a súplicas gerais); e, se não o disse, não se faz voltar (a pessoa; a omissão não invalida a Amidá, pois essas bênçãos rabínicas de jejum não têm a mesma força obrigatória que a menção de Rosh Chodesh na Avodá). E não há neles Kidush sobre o cálice, e não há neles menção em Birkat Hamazon.

Nota

A segunda categoria da baraita trata dos dias sem sacrifício de Mussaf: as segundas e quintas-feiras (que aqui não se referem a dias comuns da semana, mas especificamente aos dias de jejuns públicos por falta de chuva, tradicionalmente marcados às segundas, quintas e segunda-feira seguinte) e os dias de ma'amad, quando delegações de israelitas comuns se reuniam para acompanhar espiritualmente, com jejuns e leituras, os sacrifícios diários oferecidos em seu nome no Templo. Nesses dias, reza-se a Amidá comum de dezoito bênçãos, mas a menção especial do dia é inserida na décima sexta bênção, "Ouve a Oração" (dedicada a súplicas gerais, e não a um tema fixo como a Avodá) — e, ao contrário do caso de Rosh Chodesh, a omissão dessa menção não invalida a oração nem exige repetição, pois se trata de uma inserção de caráter mais leve e opcional. Além disso, esses dias não requerem Kidush nem menção em Birkat Hamazon — reforçando, por contraste, que a menção de Rosh Chodesh em Birkat Hamazon (estabelecida na baraita anterior) é, de fato, obrigatória e distintiva desse dia específico.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "segunda e quinta-feira", "dos jejuns", "e dos ma'amadot", "Arvit" e "não se faz voltar"
שני וחמישי - משמע של כל שבתות השנה ומאי עבידתייהו לזוכרם ולחלקם משאר ימות השנה:

"Segunda e quinta-feira" — (à primeira vista) soa como (referindo-se) a todas as semanas do ano; e que assunto (especial) teriam elas, para mencioná-las e separá-las dos demais dias do ano (sem qualquer razão aparente)?

של תעניות - שהיו גוזרים תעניות על הגשמים שני וחמישי [ושני] במס' תענית (דף י.):

"Dos jejuns" — pois decretavam jejuns por causa das chuvas (que tardavam), (nas) segunda, quinta e segunda (seguinte), (como se explica) no tratado Ta'anit (10a).

ושל מעמדות - כלומר לימים של מעמדות שהיו מתענין ארבעה תעניות בשבת שני ושלישי ורביעי וחמישי ומעין המאורע דידהו תפלת תענית:

"E dos ma'amadot" — isto é, para os dias de ma'amad, em que jejuavam quatro jejuns na semana: segunda, terça, quarta e quinta-feira; e o (conteúdo) referente ao ocorrido deles é a oração de jejum.

ערבית - לילי כניסתן ואע"פ שאוכל ושותה כל הלילה מתפלל תפלת תענית מאחר שנכנס היום והכי נמי אמר רב הונא במסכת תענית (דף יא:) יחיד שקבל עליו תענית אף על פי שאוכל ושותה כל הלילה מתפלל תפלת תענית:

"Arvit" — as noites de sua entrada (dos jejuns), e ainda que (a pessoa) coma e beba a noite toda, reza a oração de jejum, uma vez que o dia já entrou; e assim também disse Rav Huna, no tratado Ta'anit (11b): um particular que aceitou sobre si um jejum, ainda que coma e beba a noite toda, reza a oração de jejum.

אין מחזירין אותו - דלאו דאורייתא נינהו:

"Não se faz voltar" — pois (essas menções) não são (obrigações) da própria Torá.

A menção de Chanucá em Mussaf · מַהוּ לְהַזְכִּיר שֶׁל חֲנוּכָּה בְּמוּסָפִין

06A dúvida sobre mencionar Chanucá em Mussaf; a disputa entre Rav Huna e Rav Yehudá (não menciona) e Rav Nachman e Rabi Yochanan (menciona)
Guemará (Rav Huna e Rav Yehudá; Rav Nachman e Rabi Yochanan)
אִיבַּעְיָא לְהוּ: מַהוּ לְהַזְכִּיר שֶׁל חֲנוּכָּה בְּמוּסָפִין? כֵּיוָן דְּלֵית בֵּיהּ מוּסָף בְּדִידֵיהּ לָא מַדְכְּרִינַן, אוֹ דִילְמָא יוֹם הוּא שֶׁחַיָּיב בְּאַרְבַּע תְּפִלּוֹת. רַב הוּנָא וְרַב יְהוּדָה דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: אֵינוֹ מַזְכִּיר. רַב נַחְמָן וְרַבִּי יוֹחָנָן דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: מַזְכִּיר.

Foi perguntado a eles: como é (a lei quanto a) mencionar (o milagre) de Chanucá em (uma oração de) Mussaf (quando um dia de Chanucá coincide com Shabat ou Rosh Chodesh, que têm sua própria oração de Mussaf)? Visto que (Chanucá) em si mesma não tem (oração de) Mussaf (não sendo um dia que, por si só, exija uma quarta oração), não a mencionamos (no Mussaf daquele dia, que pertence a Shabat ou Rosh Chodesh, e não a Chanucá); ou talvez, (visto que) é um dia obrigado a quatro orações (por causa de Shabat ou Rosh Chodesh, e Chanucá coincide com todas elas), (deva-se mencioná-la ali também). Rav Huna e Rav Yehudá, que disseram ambos: não se menciona. Rav Nachman e Rabi Yochanan, que disseram ambos: menciona-se.

Nota

Uma terceira dúvida da mesma série: quando um dia de Chanucá coincide com Shabat ou Rosh Chodesh — dias que têm sua própria oração adicional de Mussaf —, deve-se mencionar o milagre de Chanucá também nessa oração de Mussaf, além das três orações diárias comuns (Arvit, Shacharit, Minchá), onde já se sabe que se menciona (Al HaNissim, na bênção de Hodaá)? O argumento contra é que Chanucá, por si mesma, nunca tem uma oração de Mussaf própria (ao contrário de Shabat, Rosh Chodesh e as festas) — logo, talvez não haja razão para inserir sua menção numa oração cuja existência se deve inteiramente a outro motivo (Shabat ou Rosh Chodesh). O argumento a favor é que, naquele dia específico, a pessoa está de fato obrigada a rezar quatro orações (as três diárias mais o Mussaf), e Chanucá coincide com todas elas igualmente — não haveria razão para excluir apenas o Mussaf. A disputa permanece sem resolução direta neste ponto, dividida entre dois pares de amoraítas: Rav Huna e Rav Yehudá sustentam que não se menciona, enquanto Rav Nachman e Rabi Yochanan sustentam que se menciona.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "de Chanucá em Mussaf" e "em quatro orações"
של חנוכה במוספין - בתפלת מוספין דשבת ור"ח שבתוך ימי חנוכה מהו להזכיר על הניסים בהודאה:

"De Chanucá em Mussaf" — na oração de Mussaf de Shabat ou de Rosh Chodesh que caem dentro dos dias de Chanucá: como é (a lei) quanto a mencionar "Al HaNissim" na (bênção de) Hodaá (desse Mussaf)?

בד' תפילות - ערבית ושחרית ומוסף ומנחה וכיון שחובת תפלה זה היום אינה פחותה משאר תפלות של יום:

"Em quatro orações" — Arvit, Shacharit, Mussaf e Minchá; e, visto que a obrigação de oração nesse dia não é menor que (a das) demais orações do dia (as outras três, onde já se menciona Chanucá, também o Mussaf deveria mencioná-la).

07A objeção de Abaie a Rav Yossef: a comparação com Rosh Chodesh que cai em Shabat e a Haftará
Guemará (Abaie; Rav Guidel em nome de Rav)
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַב יוֹסֵף: הָא דְּרַב הוּנָא וְרַב יְהוּדָה דְּרַב הוּא. דְּאָמַר רַב גִּידֵּל אָמַר רַב: רֹאשׁ חֹדֶשׁ שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת — הַמַּפְטִיר בַּנָּבִיא בְּשַׁבָּת אֵינוֹ צָרִיךְ לְהַזְכִּיר שֶׁל רֹאשׁ חֹדֶשׁ, שֶׁאִילְמָלֵא שַׁבָּת אֵין נָבִיא בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ.

Disse-lhe Abaie a Rav Yossef: essa (posição) de Rav Huna e Rav Yehudá (de que não se menciona Chanucá em Mussaf) é (a mesma posição, em essência, que já ensinou) Rav. Pois disse Rav Guidel, disse Rav: Rosh Chodesh que caiu (coincidiu) em Shabat — quem lê a Haftará (a leitura complementar dos Profetas) em Shabat não precisa mencionar (o tema) de Rosh Chodesh (na bênção que segue a leitura da Haftará), pois, não fosse Shabat, não haveria Haftará em Rosh Chodesh (comum, quando não cai em Shabat; logo, a leitura pertence inteiramente a Shabat, e não a Rosh Chodesh).

Nota

Abaie tenta demonstrar que a posição de Rav Huna e Rav Yehudá (de que não se menciona Chanucá no Mussaf) já está implícita num ensinamento anterior do próprio Rav, criando uma base mais sólida para essa opinião. Rav Guidel, em nome de Rav, havia ensinado que, quando Rosh Chodesh cai em Shabat, a pessoa que lê a Haftará (a leitura complementar dos Profetas que segue a leitura semanal da Torá) não precisa incluir, na bênção que se recita após essa leitura, uma menção específica ao tema de Rosh Chodesh — porque a existência da própria Haftará naquele dia se deve inteiramente a ser Shabat (já que, em um Rosh Chodesh comum, que não cai em Shabat, não há leitura de Haftará alguma). Por essa lógica, a leitura "pertence" a Shabat, e não a Rosh Chodesh, ainda que Rosh Chodesh também esteja presente naquele dia. Abaie sugere, por analogia, que o mesmo raciocínio se aplicaria ao Mussaf de Shabat ou Rosh Chodesh que coincide com Chanucá: como a existência do próprio Mussaf se deve a Shabat ou Rosh Chodesh, e não a Chanucá (que nunca tem Mussaf próprio), não haveria por que mencionar Chanucá nele — a mesma posição de Rav Huna e Rav Yehudá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não há Haftará em Rosh Chodesh"
אין נביא בר"ח - הכא נמי הואיל אלמלא ר"ח אין מוספין בחנוכה לא בעי לאזכורי:

"Não há (leitura dos) Profetas em Rosh Chodesh" — aqui também (no caso de Chanucá e Mussaf): visto que, não fosse Rosh Chodesh (ou Shabat), não haveria Mussaf em Chanucá, não é necessário mencioná-la (no Mussaf).

08A réplica: a comparação correta é com Yom Tov que cai em Shabat e a Haftará de Minchá, segundo Rav Achadvoi em nome de Rav Matená em nome de Rav
Guemará (réplica; Rav Achadvoi em nome de Rav Matená em nome de Rav)
מִי דָּמֵי?! הָתָם נָבִיא בִּדְרֹאשׁ חֹדֶשׁ לֵיכָּא כְּלָל, הָכָא אִיתֵיהּ בְּעַרְבִית וְשַׁחֲרִית וּמִנְחָה. אֶלָּא לְהָא דָּמְיָא: דְּאָמַר רַב אַחַדְבוּי אָמַר רַב מַתְנָה אָמַר רַב: יוֹם טוֹב שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, הַמַּפְטִיר בְּנָבִיא בְּמִנְחָה בְּשַׁבָּת אֵינוֹ צָרִיךְ לְהַזְכִּיר שֶׁל יוֹם טוֹב, שֶׁאִילְמָלֵא שַׁבָּת אֵין נָבִיא בְּמִנְחָה בְּיוֹם טוֹב.

(Objeção:) Acaso é semelhante (essa comparação de Abaie)?! Ali (no caso de Rosh Chodesh comum), não há Haftará em (um) Rosh Chodesh (que não caia em Shabat) de modo algum (nenhuma das orações desse dia tem Haftará); aqui (no caso de Chanucá), ela (a menção do milagre) existe em Arvit, Shacharit e Minchá (as três orações diárias, mesmo sem Shabat ou Rosh Chodesh; logo, o caso não é idêntico, e a comparação de Abaie falha). Antes, a isto (a este outro caso) se assemelha (o caso de Chanucá e Mussaf): pois disse Rav Achadvoi, disse Rav Matená, disse Rav: Yom Tov que caiu em Shabat — quem lê a Haftará em Minchá (a leitura adicional que se faz na oração da tarde de Shabat, quando esse Shabat coincide com Yom Tov) em Shabat não precisa mencionar (o tema) de Yom Tov, pois, não fosse Shabat, não haveria Haftará em Minchá em Yom Tov (comum, quando não cai em Shabat, já que Yom Tov não tem leitura de Haftará na oração de Minchá).

Nota

A Guemará rejeita a comparação de Abaie, apontando uma diferença essencial entre os dois casos. No caso de Rosh Chodesh que cai em Shabat, a leitura da Haftará não existe de modo algum num Rosh Chodesh comum (que não caia em Shabat) — em nenhuma das orações daquele dia há leitura de Profetas. Já no caso de Chanucá, a menção do milagre (Al HaNissim) já existe, de modo certo e estabelecido, nas três orações diárias comuns (Arvit, Shacharit e Minchá), independentemente de haver ou não Mussaf naquele dia. A situação de Chanucá e Mussaf não é, portanto, análoga à de Rosh Chodesh e Haftará (onde a leitura inteira depende de Shabat), mas sim a um caso mais preciso: o de Yom Tov que cai em Shabat, quanto à leitura adicional de Haftará que se faz na oração de Minchá desse Shabat especial. Assim como essa leitura de Minchá, embora tematicamente ligada a Yom Tov, não existe em absoluto num Yom Tov comum (que não caia em Shabat, já que Yom Tov não tem Haftará de Minchá por si só, ao contrário de Shabat), e por isso não exige menção de Yom Tov (pois pertence inteiramente à estrutura de Shabat) — da mesma forma, o Mussaf de Shabat ou Rosh Chodesh, que existe independentemente de Chanucá, não precisaria mencionar Chanucá, ainda que a menção do milagre já exista, de modo certo, nas demais três orações do dia. A comparação mais precisa reforça, portanto, a posição de Rav Huna e Rav Yehudá de que não se menciona Chanucá no Mussaf.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "aqui há em Arvit, Shacharit e Minchá", "quem lê a Haftará em Minchá em Shabat" e "não há Haftará em Minchá em Yom Tov"
הכא איתיה (בשחרית וערבית) ומנחה - וכיון שהיום מחויב בארבע תפלות כזו כן זו:

"Aqui (no caso de Chanucá) ela existe (em Shacharit e Arvit) e (em) Minchá" — e, visto que o dia está obrigado a quatro orações, assim como esta (menção existe nas três diárias), também esta (deveria existir no Mussaf).

המפטיר בנביא במנחה בשבת - מצאתי בתשובת הגאונים שהיו רגילים לקרות בנביא בשבתות במנחה עשרה פסוקים ובימי פרסיים גזרו גזרה שלא לעשות וכיון שנסתלקו נסתלקו:

"Quem lê a Haftará em Minchá em Shabat" — encontrei nos responsa dos Gueonim que costumavam ler, nos Profetas, em Shabat, em Minchá, dez versos (um pequeno trecho adicional); e, nos dias dos persas, decretaram um decreto para que não se fizesse (isso, por perseguição religiosa); e, uma vez que (essas perseguições) cessaram, (o costume) também cessou (e não foi restabelecido).

אין נביא במנחה ביום טוב - ואף על גב דאיתיה שחרית הואיל ומנחה לאו משום יום טוב אתי לא מזכרינן:

"Não há (leitura dos) Profetas em Minchá em Yom Tov" — e ainda que ela exista (a leitura da Haftará) em Shacharit (de Yom Tov), visto que (a leitura de) Minchá não vem por causa de Yom Tov (mas apenas por causa de Shabat, quando coincidem), não a mencionamos (ali, com o tema de Yom Tov).