O daf abre concluindo a Mishná iniciada em 17b: Rabban Shimon ben Gamliel relata o costume da casa de seu pai — a dinastia dos Nessiim da linhagem de Hilel — de entregar roupas brancas ao lavandeiro gentio com três dias de antecedência a Shabat, por serem mais difíceis de lavar; e a Mishná registra que, neste único caso, Bet Shamai e Bet Hilel concordam: pode-se carregar a viga do lagar de azeite sobre as azeitonas, e as rodas do lagar de uvas, mesmo já perto do anoitecer de sexta-feira, permitindo que o líquido continue a escorrer durante todo o Shabat. A Guemará então investiga qual tanna sustenta que o simples ato de pôr água sobre a tinta, sem sová-la, já constitui o início da melacha de amassar — concluindo tratar-se de Rabi Yehudá HaNassi, com base numa baraita sobre farinha e água; Abaye questiona se isso valeria também para cinza (que não é "amassável" como a farinha), e a Guemará traz outra baraita, sobre cinza e pó, para refutar a distinção. Segue-se uma baraita central que enumera atividades que podem ser iniciadas antes do anoitecer de sexta-feira e continuar por si mesmas durante todo o Shabat — abrir a água para regar o jardim, colocar incenso sob as roupas, enxofre sob utensílios de prata, colírio no olho e atadura sobre uma ferida — mas proíbe pôr trigo no moinho de água se ele só terminará de moer durante Shabat. A Guemará debate a razão dessa exceção: Rabá diz que é por causa do barulho que desonra o Shabat; Rav Yossef propõe, em vez disso, que é por causa do dever de descanso dos utensílios no Shabat, derivado por exegese do versículo do Êxodo. O daf fecha investigando se esse dever de descanso de utensílios é sustentado também por Bet Hilel, e por que, então, eles permitem o enxofre, o incenso, o linho e as armadilhas — respondendo que, nesses casos, o próprio utensílio não realiza nenhuma ação; e traz o ensinamento de Rav Oshaya em nome de Rav Assi de que, na verdade, apenas Bet Shamai sustenta o descanso de utensílios como lei da Torá, não Bet Hilel.
... (com tempo suficiente para que a atividade se inicie enquanto ainda há) sol (no céu, isto é, antes do pôr do sol). Disse Rabban Shimon ben Gamliel: costumavam (fazer assim) na casa de meu pai — que davam roupas brancas ao lavandeiro gentio três dias antes de Shabat (por serem mais difíceis de lavar do que as demais). E estes e aqueles (Bet Shamai e Bet Hilel) concordam que se pode carregar a viga do lagar de azeite (sobre as azeitonas, perto do anoitecer), e as rodas do lagar de uvas (sobre as uvas, para que o suco continue a escorrer durante Shabat).
A Mishná se completa com dois acréscimos. Primeiro, Rabban Shimon ben Gamliel relata um costume mais rigoroso da casa de seu pai — a dinastia dos Nessiim, descendente de Hilel: ao contrário do que Bet Hilel permitiria (entregar roupas ao lavandeiro gentio até perto do anoitecer), a própria família de Hilel tinha o cuidado de entregar roupas brancas com três dias de antecedência, pois estas exigem lavagem mais trabalhosa e demorada. Em seguida, a Mishná registra um ponto de consenso raro entre Bet Shamai e Bet Hilel: ambos concordam que, mesmo perto do anoitecer de sexta-feira, é permitido carregar (isto é, ajustar o peso sobre) a viga do lagar de azeite, pressionando as azeitonas já colocadas, e as pesadas rodas de pedra do lagar de uvas, para que o processo de espremer continue por si mesmo, sem intervenção humana, durante todo o Shabat. Rashi explica que, nesse caso específico, mesmo se a atividade fosse realizada ativamente no próprio Shabat não haveria transgressão de uma melacha da Torá (como a de espremer azeitonas e uvas), porque o processo, quando já iniciado dessa forma antes de Shabat, não constitui a ação proibida de "extrair líquido de algo que cresce dentro dele" — daí o consenso.
"Com o sol" — enquanto o sol ainda brilha.
"Roupas brancas" — pois (essa lavagem) é difícil de fazer e requer três dias; e (a família de Rabban Shimon) se impunha um rigor próprio, como (a opinião de) Bet Shamai.
"Carregam" — as azeitonas com as vigas do lagar de azeite, e as uvas com as rodas do lagar de uvas, pois não as espremiam com uma roda como a nossa, mas as carregavam com vigas pesadas; e estas (peças pesadas) do lagar de uvas são chamadas "rodas", pois eram tábuas grossas feitas como rodas; e (Bet Shamai e Bet Hilel) concordam que as carregam ainda de dia, e o líquido continua a escorrer durante todo o Shabat. E na Guemará (adiante, 19a) pergunta-se: qual a diferença, que Bet Shamai não discorda aqui? E se explica que é porque, mesmo que se fizesse isso no próprio Shabat, não haveria obrigação de oferenda pelo pecado — pois quando dizemos que espremer azeitonas e uvas é uma melacha principal, no capítulo "O barril que se quebrou" (mais adiante), isso se refere a azeitonas e uvas que ainda não foram esmagadas antes de Shabat, o que seria extrair algo de seu recipiente natural, derivado da debulha; mas aqui não se põe a viga sobre as azeitonas até que primeiro sejam moídas no moinho, e da mesma forma as uvas são primeiro pisadas com o pé, e, mesmo sem a viga, o líquido já sairia por si mesmo — apenas não sairia bem como agora — e isso não se assemelha à debulha.
Guemará. Quem é o tanna (que sustenta que) pôr água na tinta já é o seu (ato de) pôr de molho (equivalente a amassá-la, tornando-o culpado de uma transgressão plena se feito em Shabat)? Disse Rav Yossef: é (a opinião de) Rabi (Yehudá HaNassi). Pois foi ensinado (numa baraita): um (que) põe a farinha e outro (que) põe a água (no mesmo recipiente, sem sová-los juntos) — o último (dos dois) é culpado (pela melacha de amassar), palavras de Rabi. Rabi Yossei diz: não é culpado até que (realmente) amasse.
A Guemará retoma um ponto implícito na Mishná: ao permitir pôr tinta, corantes e vicia de molho perto do anoitecer (17b), a Mishná pressupõe que, se isso fosse feito no próprio Shabat, haveria uma transgressão plena — a melacha de amassar (lash), uma das trinta e nove categorias principais de trabalho proibido. Mas isso é surpreendente, pois amassar tinta em pó com água não envolve o gesto físico de sovar; a Guemará pergunta, então, qual tanna sustenta que o simples ato de despejar água sobre um pó já constitui, por si só, o ato de amassar. Rav Yossef identifica essa opinião com Rabi Yehudá HaNassi, com base numa baraita sobre pão: se uma pessoa põe a farinha num recipiente e outra pessoa, em seguida, despeja a água sobre ela — sem que nenhuma delas efetivamente sove a massa com as mãos — segundo Rabi, é a segunda pessoa (a que pôs a água) que é responsável pela transgressão de amassar, pois o próprio contato da água com a farinha já inicia o processo de aglutinação. Rabi Yossei discorda, exigindo o ato físico de sovar para haver responsabilidade plena.
"Quem é o tanna que sustenta (que) pôr água na tinta" — e, embora não tenha sovado, essa (ação) já é seu pôr de molho, e isso já constitui, para ela, o ato de amassar, tornando-se culpado por amassar — pois na Mishná não há (menção de) sova, e ainda assim discordaram sobre (fazê-lo) ainda de dia, de onde se conclui que, em Shabat, seria culpado de oferenda pelo pecado.
"O último é culpado" — por amassar, que é uma melacha principal.
Disse-lhe Abaye: e talvez Rabi Yossei não tenha dito (sua opinião mais branda) senão a respeito da farinha, que é uma coisa amassável (por natureza, e por isso exige um ato físico de sova); mas a tinta, que não é amassável (por natureza), diga-se que (nela, mesmo Rabi Yossei concordaria em) ser culpado (já pelo simples pôr de água)! (Resposta:) não venha isso à sua mente (como possibilidade), pois foi ensinado (noutra baraita): um (que) põe a cinza e outro (que) põe a água — o último é culpado, palavras de Rabi. Rabi Yossei, filho de Rabi Yehudá, diz: (não é culpado) até que amasse.
Abaye propõe uma distinção possível: talvez Rabi Yossei só exija o ato físico de sova no caso da farinha — uma substância que, por natureza, se presta a ser amassada e moldada — mas, no caso da tinta em pó, que não é uma substância "amassável" no sentido convencional (não se transforma numa massa moldável como o pão), talvez até Rabi Yossei concordasse que o simples ato de misturar água já basta para configurar a transgressão plena. A Guemará rejeita essa possibilidade citando outra baraita, estruturalmente idêntica, mas que trata de cinza (usada, por exemplo, para fabricar sabão ou para fins medicinais) em vez de farinha: também ali, Rabi Yossei — nesta versão citado como "Rabi Yossei, filho de Rabi Yehudá" — exige o ato físico de amassar para haver responsabilidade plena, mesmo tratando-se de uma substância que, como a tinta, não é naturalmente "amassável" como a farinha. Isso prova que a posição mais branda de Rabi Yossei não se limita a substâncias amassáveis, refutando a distinção proposta por Abaye.
E talvez o que (se quis dizer com) "cinza" seja (na verdade) "pó", que é uma coisa amassável (usada para argamassa de construção, o que anularia a prova de Abaye)?! (Resposta:) mas não foi ensinado (numa baraita) "cinza", e não foi ensinado (noutra) "pó" (cada uma com a mesma disputa)? (Réplica:) acaso foram ensinadas uma ao lado da outra (na mesma fonte, de modo que se possa concluir com segurança que se referem à mesma coisa)?
A Guemará tenta, mais uma vez, salvar a distinção de Abaye: talvez a palavra "efer" (cinza) na baraita citada seja, na verdade, uma variante ou confusão textual de "afar" (pó, terra), que é sim uma substância amassável — usada, por exemplo, para fazer argamassa de construção — e nesse caso a baraita não provaria nada contra a distinção proposta. A Guemará responde que, de fato, existem duas baraitot distintas, uma falando explicitamente de cinza e outra de pó, ambas atribuindo a mesma disputa entre Rabi e Rabi Yossei (filho de Rabi Yehudá). No entanto, a réplica final é cética quanto ao valor dessa dupla evidência: como essas duas baraitot não foram ensinadas em conjunto, na mesma fonte original, não se pode ter certeza de que ambas de fato preservam a tradição com precisão — é possível que se trate da mesma baraita original, transmitida com uma variação de linguagem por diferentes amoraim, sem que isso comprove independentemente a posição de Rabi Yossei quanto a substâncias não amassáveis como a cinza.
"Cinza" — não é (uma substância) amassável.
"Pó" — é amassável, (usado) para o barro da construção.
"E não foi ensinado" — (há) duas baraitot, uma sobre cinza e uma sobre pó.
"Acaso foram ensinadas uma ao lado da outra" — uma foi ensinada por Rabi Chiya, e outra foi ensinada por Rabi Oshaya; e uma delas ensinou "pó" com a palavra "cinza" (havendo, portanto, confusão possível de transmissão).
Ensinaram os sábios: abre-se (o curso de) água para o jardim na véspera de Shabat, ao anoitecer, e (o jardim) continua a se encher durante todo o dia (de Shabat). E põe-se incenso (perfumado sobre brasas) sob as roupas na véspera de Shabat, e (as roupas) continuam a se perfumar durante todo o dia. E põe-se enxofre sob os utensílios (de prata) na véspera de Shabat, ao anoitecer, e (os utensílios) continuam a ser defumados com enxofre durante todo o Shabat. E põe-se colírio sobre o olho, e atadura sobre uma ferida, na véspera de Shabat, ao anoitecer, e (a ferida) continua a se curar durante todo o dia. Mas não se põe trigo dentro do moinho de água, senão (com tempo suficiente) para que se moa ainda de dia.
Esta baraita (uma Tosefta) traz uma nova série de casos análogos à disputa da Mishná, mas aqui sem controvérsia — todos concordam que essas atividades, uma vez iniciadas antes do anoitecer, podem prosseguir por si mesmas durante Shabat: abrir um pequeno canal de água para irrigar um jardim, que continuará a se encher lentamente ao longo do dia; colocar ervas aromáticas sobre brasas sob roupas dobradas, para perfumá-las lentamente; colocar enxofre sob utensílios de prata gravados, para escurecê-los propositalmente com a fumaça, criando um efeito decorativo; aplicar colírio medicinal no olho ou um curativo com pomada sobre um ferimento, que continuam agindo e curando ao longo do dia. A única exceção destacada é o moinho de água: não se pode colocar grãos de trigo no moinho perto do anoitecer se a moagem só se completar durante Shabat — mesmo que, como nos outros casos, o processo ocorra sem qualquer intervenção humana adicional após o início.
"Abre-se" — abre-se, faz-se uma pequena comporta desde a margem da fonte até o jardim.
"Incenso" — incenso e espécies de perfumes que se põem sobre o fogo, e se defumam as roupas, para que seu odor se espalhe.
"Enxofre" — sob utensílios de prata em que se desenham flores e formas com um buril, e se defumam com enxofre, e eles escurecem e ficam visíveis (realçando o desenho); e chamam (esse efeito), em língua estrangeira, "nieler".
"Colírio" — um curativo que chamam, em língua estrangeira, "loza".
"E atadura" — um emplastro.
"No moinho de água" — e com mais razão no moinho de mão e no moinho de jumento, pois o homem é ordenado quanto ao descanso de seu animal (no Shabat, e um moinho movido a animal envolveria essa transgressão adicional).
"Que se moa ainda de dia" — porque (o moinho) faz ouvir seu som, e o assunto se torna notório em Shabat, e há desonra (do dia sagrado nisso).
Qual é a razão (de proibir apenas o moinho)? Disse Rabá: porque faz ouvir (seu) som. Disse-lhe Rav Yossef: e que diga o mestre (a verdadeira razão é, antes), por causa do descanso de utensílios! Pois foi ensinado (numa midrash halachá): "e em tudo o que vos disse, tomai cuidado" (Êxodo 23:13) — para incluir o descanso de utensílios. Mas (concluindo), disse Rav Yossef: (a razão é) por causa do descanso de utensílios.
A Guemará busca a razão pela qual, entre todos os processos que continuam por si mesmos durante Shabat, apenas o moinho de água é proibido. Rabá propõe uma razão prática: o moinho em funcionamento produz um som perceptível e contínuo, tornando público que uma atividade de trabalho está ocorrendo em Shabat — mesmo sem transgressão real, isso constitui uma desonra ao caráter sagrado do dia, pois passa a impressão de profanação. Rav Yossef propõe uma razão mais fundamental: o verdadeiro princípio por trás dessa proibição é o dever de "descanso dos utensílios" (shevitat kelim) — ou seja, mesmo utensílios pertencentes a um judeu (não apenas ele mesmo, nem apenas seu gado, mas seus próprios objetos e ferramentas) devem "descansar" no Shabat, não sendo usados para realizar trabalho, ainda que sem intervenção humana direta. Rav Yossef fundamenta essa obrigação numa exegese midráshica do versículo de Êxodo 23:13 ("E em tudo o que vos disse, tomai cuidado"), interpretado como uma alusão que amplia os deveres do Shabat para incluir também o descanso dos utensílios do israelita.
"Para incluir o descanso de utensílios" — pois está escrito, um pouco antes (desse versículo): "para que descanse teu boi e teu jumento, etc." (Êxodo 23:12, referindo-se ao descanso dos animais; e o versículo seguinte amplia o princípio também aos utensílios).
E agora que disseste que Bet Hilel também sustenta o descanso de utensílios como (lei) da Torá, o enxofre e o incenso, qual é a razão (pela qual) são permitidos? Porque (o utensílio) não realiza nenhuma ação (ativa; permanece parado enquanto a fumaça age). Os feixes de linho, qual é a razão (pela qual) são permitidos — porque (o forno) não realiza ação, e (permanece) parado, quieto (em seu lugar). A armadilha de animal, ave e peixe, que (aparentemente) realiza uma ação (de capturar, e deveria, portanto, ser proibida), qual é a razão (pela qual) é permitida? Também ali, (trata-se) de anzol e cestos de pesca, que não realizam (nenhuma) ação (ativa; apenas aguardam).
Tendo estabelecido que o descanso de utensílios é uma lei da própria Torá aceita também por Bet Hilel, a Guemará questiona como se conciliam, então, as permissões já vistas na Mishná e na baraita anterior. Se o enxofre e o incenso são colocados sob utensílios de prata e sob roupas, e esses utensílios "trabalham" (defumando e perfumando) durante Shabat, por que isso é permitido? A resposta é que o utensílio em si (o recipiente de prata, a peça de roupa) permanece fisicamente parado e passivo — é a fumaça que sobe e age sobre ele, mas o utensílio mesmo não realiza nenhuma ação. O mesmo se aplica ao forno onde se colocam feixes de linho para secar: o forno permanece imóvel, sem realizar ação alguma; o calor apenas o envolve. Já a armadilha para capturar animais, aves ou peixes parece ser um caso mais difícil, pois o próprio mecanismo da armadilha realiza a ação de capturar a presa quando esta se aproxima. A Guemará resolve isso especificando que a permissão se refere apenas a anzóis e cestos de pesca de boca estreita — dispositivos passivos que permanecem parados no lugar, sem qualquer mecanismo ativo, sendo o próprio animal que entra e fica preso por não conseguir sair, sem que o utensílio "aja" sobre ele.
"E agora que disseste que Bet Hilel sustenta o descanso de utensílios" — pois, por força, esta baraita (segue a opinião de) Bet Hilel, visto que permite estas (atividades), e ensina que o moinho é proibido por causa do descanso de utensílios.
"Por que são permitidos o incenso e o enxofre" — e o mesmo se aplica a todas as outras (atividades) da Mishná; eis que o incenso está colocado em recipientes de barro, e assim resulta que um utensílio está realizando uma melacha (o que deveria ser proibido).
"Não realiza o utensílio nenhuma ação" — mas está pousado no chão, e eles (o incenso ou o enxofre) estão dentro dele; mas o moinho realiza (sim) uma ação, e para Bet Shamai, já que (os grãos) estão colocados dentro dele, isso já é sua ação (própria, do utensílio).
"Armadilhas que realizam uma ação" — pois a rede se aperta e prende a ave, e igualmente a armadilha que se estende para animais, para prendê-los pelas pernas — quando (o animal) a toca, ela salta e se fecha por si mesma, e o prende.
"Anzol" — o anzol de pesca, que chamam, em língua estrangeira, "ama", que o peixe engole e (o anzol) se fixa, e o utensílio não se move de seu lugar.
"E cestos de pesca" — que se fazem cestos com uma boca larga e outra boca muito estreita, e o peixe (ou o animal, noutra versão) entra ali e põe sua cabeça para fora pela boca estreita, e seu corpo não consegue sair; e quando tenta trazer a cabeça de volta para dentro, pontas de cerdas entram sob seu queixo (impedindo-o) — de modo que, aqui, o utensílio não realiza absolutamente nada (por si mesmo, além de estar parado).
E agora que disse Rav Oshaya, disse Rav Assi: quem é o tanna (que sustenta que) o descanso de utensílios é (lei) da Torá — é Bet Shamai, e não Bet Hilel. Para Bet Shamai, quer (o utensílio) realize uma ação, quer não realize uma ação — (é) proibido. Para Bet Hilel, ainda que realize uma ação — (é) permitido. E agora que disseste que, para Bet Shamai, ainda que (o utensílio) não realize uma ação, é proibido — se assim é, ...
A Guemará traz agora um ensinamento que reorienta toda a discussão anterior: Rav Oshaya, em nome de Rav Assi, esclarece que a obrigação de "descanso de utensílios" como lei da própria Torá não é, na verdade, sustentada por Bet Hilel — é posição exclusiva de Bet Shamai. Segundo essa reformulação, Bet Shamai proíbe qualquer utensílio de realizar trabalho durante Shabat, esteja ele "realizando uma ação" ativa (como o moinho, que mói de fato) ou meramente passivo (como o enxofre sob o utensílio de prata) — para Bet Shamai, ambos os casos são igualmente proibidos, pois o próprio princípio do descanso de utensílios não distingue entre ação ativa e passiva. Bet Hilel, por sua vez, permite mesmo utensílios que realizam uma ação ativa durante Shabat, desde que o processo tenha sido iniciado antes do anoitecer — pois Bet Hilel não sustenta esse princípio como obrigação da Torá. Isso, porém, gera uma nova dificuldade que a Guemará começa a formular ao final do daf: se Bet Shamai proíbe mesmo quando o utensílio não realiza nenhuma ação, como se explica que a própria Mishná (17b) relatou que Bet Shamai discute apenas os casos em que se exige que a atividade "já esteja em curso" antes do anoitecer — permitindo, portanto, que ela continue por si mesma depois? Essa tensão entre as duas formulações é o fio que a Guemará prossegue a discutir already no início do daf 18b.
"E agora que disseste... é Bet Shamai" — e isso do moinho (a proibição registrada na baraita) é (a opinião de) Bet Shamai; e Bet Shamai não distingue entre o caso em que o utensílio realiza uma ação e o caso em que não realiza, pois eles proíbem também nos feixes (de linho) da Mishná (mesmo sendo um caso passivo); e, uma vez que (a baraita do moinho) é (também opinião de) Bet Shamai, (a Guemará prossegue a dificuldade no daf seguinte).