Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich)
מְפִירִין נְדָרִים בַּשַּׁבָּת

As mishnayot anônimas sobre o muktzeh; a halachá conforme Rabi Shimon; anular e dissolver votos no Shabat

Shabbat 157a · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) · a guemará prossegue em 157b

O daf continua diretamente de 156b, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a objeção a Rabi Yochanan a partir das mishnayot anônimas que parecem seguir Rabi Yehuda: as vigas são atribuídas a Rabi Yosei bar Yehuda, a lenha do depósito é cedro e abeto, muktzeh por perda de dinheiro, e Rabi Yochanan encontra outra mishná anônima, a dos ossos e das cascas, em que Beit Hillel seguem Rabi Shimon. Rav Acha e Ravina discutem as exceções à halachá conforme Rabi Shimon: a lamparina velha, muktzeh por repugnância, ou a lamparina acesa naquele Shabat, muktzeh por proibição; e no muktzeh por perda de dinheiro até Rabi Shimon concorda. Abre-se a última mishná do tratado: anulam-se votos no Shabat, pede-se a dissolução de votos para a necessidade do Shabat, tapa-se a janela e mede-se o retalho e o mikve, como no fato do pai de Rabi Tzadok e de Abba Shaul ben Botnit. Na guemará, pergunta-se se a anulação é permitida sem necessidade, com o ensino de Rav Zutei e a divergência dos Tanaim sobre o prazo, todo o dia ou de tempo a tempo, e se pede a dissolução também quem teve tempo antes do Shabat; o daf termina quando Rav começa a explicar o fato da janela tapada com o jarro.

Guemará: as mishnayot anônimas sobre o muktzeh · סְתָמָא אַחֲרִינָא

1805As vigas, o monte de palha e a lenha do depósito
Rabi Yochanan e a guemará
אֵין מְבַקְּעִין עֵצִים מִן הַקּוֹרוֹת, וְלֹא מִן הַקּוֹרָה שֶׁנִּשְׁבְּרָה בְּיוֹם טוֹב. רַבִּי יוֹחָנָן, הָהוּא — כְּרַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה מַתְנֵי לַהּ. תָּא שְׁמַע: מַתְחִילִין בַּעֲרֵימַת הַתֶּבֶן, אֲבָל לֹא בָּעֵצִים שֶׁבַּמּוּקְצֶה! הָתָם בְּאַרְזֵי וְאַשּׁוּחֵי, דְּמוּקְצֶה מֵחֲמַת חֶסְרוֹן כִּיס, אֲפִילּוּ רַבִּי שִׁמְעוֹן מוֹדֶה.

“Não se racham lenhas das vigas reservadas para a construção, nem da viga que se quebrou em Yom Tov” (Beitzá 4:3); esta mishná anônima parece seguir Rabi Yehuda. Responde-se: quanto a Rabi Yochanan, aquela mishná ele a ensina conforme Rabi Yosei bar Yehuda, que é uma opinião isolada. Vem e ouve: “Começa-se a acender o fogo em Yom Tov com o monte de palha, mas não com a lenha que está no depósito” (Beitzá 4:1); também esta parece seguir Rabi Yehuda! Responde-se: ali se trata de cedros e abetos, que são muktzeh (posto à parte) por causa de perda de dinheiro, e nesse caso até Rabi Shimon concorda que é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein mevakin etzim min hakorot”, “velo min kora”, “matchilin”, “aval lo ba’etzim shebamuktzeh” e “be’arzei ve’ashuchei”
אין מבקעין עצים מן הקורות - סואר של הקורות המוקצות וסדורות לבנין: ולא מן קורה - הישנה שנשברה היום ומהשתא להסקה קיימא ואפ"ה אסור הואיל ובין השמשות לא איתכן להכי: מתחילין - להסיק בערימת התבן קא סלקא דעתך בתיבנא סריא דסתמיה להסקה: אבל לא בעצים שבמוקצה - שהניחם ברחבה שאחורי ביתו והקצם לימות הסתיו. מוקצה רחבה שאחורי בתים שהקצה אחורי ביתו להכניס שם דבר לאוצר: בארזי ואשוחי - ארז זכר וארז נקבה שעומדין לבנין:

“Não se racham lenhas das vigas” — do monte de vigas postas à parte e arrumadas para a construção.

“Nem da viga” — a velha, que se quebrou hoje e desde agora está destinada a ser queimada; e, mesmo assim, é proibido, já que no crepúsculo do início da festa não estava pronta para isso.

“Começa-se” — a acender com o monte de palha; a guemará pensava que se tratava de palha podre, que, sem outra especificação, se destina a ser queimada.

“Mas não com a lenha que está no muktzeh” — que ele deixou no pátio que fica atrás da sua casa e a pôs à parte para os dias do inverno. Muktzeh é o pátio atrás das casas, pois o dono pôs à parte o fundo da sua casa para recolher ali coisas para o depósito.

“Em cedros e abetos” — cedro macho e cedro fêmea, que estão destinados à construção.

Nota

A guemará continua a objeção a Rabi Yochanan, que manda decidir conforme a mishná anônima e, ao mesmo tempo, conforme Rabi Shimon. A mishná de Beitzá sobre as vigas é atribuída a Rabi Yosei bar Yehuda, opinião isolada que não tem força de mishná anônima; a lenha do depósito é madeira de cedro e de abeto, cuja perda o dono evita, e por isso até Rabi Shimon a considera muktzeh.

1806Os animais do deserto e os domésticos
A guemará
תָּא שְׁמַע: אֵין מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין אֶת הַמִּדְבָּרִיּוֹת, אֲבָל מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין אֶת הַבַּיָּיתוֹת!

Vem e ouve: “Não se dá de beber nem se abatem os animais do deserto, mas dá-se de beber e abatem-se os animais domésticos” (Beitzá 5:7); também esta mishná anônima parece seguir Rabi Yehuda!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mashkin” e “midbariyot”
משקין - אורחא דמילתא נקט משום סירכא דמשכא שתהא נוחה להפשיט: מדבריות - שרועות באפר תמיד ולנות בתוך התחום:

“Dá-se de beber” — a mishná segue o costume das coisas, por causa da aderência da pele, para que o animal seja fácil de esfolar.

“Do deserto” — que pastam sempre no campo e pernoitam dentro do limite do Shabat.

1807Outra mishná anônima: os ossos e as cascas
Rabi Yochanan e Rav Nachman
רַבִּי יוֹחָנָן סְתָמָא אַחֲרִינָא אַשְׁכַּח: בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: מַגְבִּיהִין מֵעַל הַשֻּׁלְחָן עֲצָמוֹת וּקְלִיפִּין, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: מְסַלֵּק אֶת הַטַּבְלָה כּוּלָּהּ וּמְנַעֲרָהּ. וְאָמַר רַב נַחְמָן, אָנוּ אֵין לָנוּ אֶלָּא בֵּית שַׁמַּאי כְּרַבִּי יְהוּדָה, וּבֵית הִלֵּל כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Rabi Yochanan encontrou outra mishná anônima, que segue Rabi Shimon: “Beit Shammai dizem: Levantam-se de cima da mesa os ossos e as cascas; e Beit Hillel dizem: A pessoa retira a tábua inteira e a sacode” (Shabat 21:3). E disse Rav Nachman: Nós não temos esta mishná senão assim: Beit Shammai segundo Rabi Yehuda, e Beit Hillel segundo Rabi Shimon; e, como a halachá segue sempre Beit Hillel, a palavra deles vale como mishná anônima.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “setama acharina”
סתמא אחרינא - בית הלל חשיב כסתמא:

“Outra mishná anônima” — a opinião de Beit Hillel é considerada como mishná anônima.

A halachá conforme Rabi Shimon, com exceções · לְבַר מִמּוּקְצֶה מֵחֲמַת מִיאוּס

1808Rav Acha e Ravina: a lamparina velha e a lamparina acesa
Rav Acha e Ravina
פְּלִיגִי בַּהּ רַב אַחָא וְרָבִינָא, חַד אָמַר: בְּכׇל הַשַּׁבָּת כּוּלָּהּ הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, לְבַר מִמּוּקְצֶה מֵחֲמַת מִיאוּס, וּמַאי נִיהוּ? — נֵר יָשָׁן. וְחַד אָמַר: בְּמוּקְצֶה מֵחֲמַת מִיאוּס נָמֵי הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, לְבַר מִמּוּקְצֶה מֵחֲמַת אִיסּוּר, וּמַאי נִיהוּ? — נֵר שֶׁהִדְלִיקוּ בָּהּ בְּאוֹתָהּ שַׁבָּת, אֲבָל מוּקְצֶה מֵחֲמַת חֶסְרוֹן כִּיס, אֲפִילּוּ רַבִּי שִׁמְעוֹן מוֹדֶה. דִּתְנַן: כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין בַּשַּׁבָּת, חוּץ מִמַּסָּר הַגָּדוֹל וְיָתֵד שֶׁל מַחֲרֵישָׁה.

Divergem a respeito disso Rav Acha e Ravina. Um disse: Em todo o tema do Shabat, a halachá é conforme Rabi Shimon, exceto no muktzeh por causa de repugnância. E o que é ele? Uma lamparina velha, que não se pode mover no Shabat. E o outro disse: Também no muktzeh por causa de repugnância a halachá é conforme Rabi Shimon, exceto no muktzeh por causa de proibição. E o que é ele? Uma lamparina em que se acendeu a luz naquele mesmo Shabat. Mas, no muktzeh por causa de perda de dinheiro, até Rabi Shimon concorda que é proibido mover, pois aprendemos numa mishná: “Todos os utensílios podem ser movidos no Shabat, exceto a serra grande e a relha do arado” (Shabat 17:4).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol hakelim nitalin”, “chutz min hamassar hagadol” e “veyated shel macharesha”
כל הכלים ניטלין - ואפי' מלאכתן לאיסור ורבי שמעון היא: חוץ מן המסר הגדול - מגירה שהיא לאומנין לקוץ בה עצים ומוקצה מחמת חסרון כיס הוא שלא ישתברו חריצים שהוא עשוי כסכין מלא פגימות: ויתד של מחרישה - החופר את הקרקע קולטר"א בלע"ז:

“Todos os utensílios podem ser movidos” — mesmo que o seu uso seja para um trabalho proibido; e é a opinião de Rabi Shimon.

“Exceto a serra grande” — uma serra que é dos artesãos, para cortar com ela madeira; e é muktzeh por causa de perda de dinheiro, para que não se quebrem os dentes, pois é feita como uma faca cheia de entalhes.

“E a relha do arado” — a que escava a terra; coltre em língua estrangeira.

Nota

Rav Acha e Ravina delimitam a regra de que a halachá do Shabat segue Rabi Shimon. Para um, a exceção é o muktzeh por repugnância, como a lamparina velha e suja; para o outro, só o muktzeh por proibição, a lamparina que ardeu naquele Shabat. Ambos concordam que o objeto que o dono evita usar para não o estragar, como a serra grande e a relha do arado, é proibido de mover mesmo segundo Rabi Shimon.

Nova Mishná: anular votos, tapar a janela e medir · מְפִירִין נְדָרִים בַּשַּׁבָּת

1809Mishná: votos, a janela, o retalho e o mikve
Mishná
מַתְנִי׳ מְפִירִין נְדָרִים בַּשַּׁבָּת, וְנִשְׁאָלִין לִנְדָרִים שֶׁהֵן לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת. וּפוֹקְקִין אֶת הַמָּאוֹר, וּמוֹדְדִין אֶת הַמַּטְלֵית, וּמוֹדְדִין אֶת הַמִּקְוֶה. וּמַעֲשֶׂה בִּימֵי אָבִיו שֶׁל רַבִּי צָדוֹק וּבִימֵי אַבָּא שָׁאוּל בֶּן בָּטְנִית שֶׁפָּקְקוּ אֶת הַמָּאוֹר בַּטָּפִיחַ, וְקָשְׁרוּ אֶת הַמְּקִידָּה בְּגֶמִי לֵידַע אִם יֵשׁ בַּגִּיגִית פּוֹתֵחַ טֶפַח אִם לָאו, וּמִדִּבְרֵיהֶם לָמַדְנוּ, שֶׁפּוֹקְקִין וּמוֹדְדִין וְקוֹשְׁרִין בְּשַׁבָּת.

MISHNÁ. Anulam-se, o pai ou o marido, votos da filha ou da esposa no Shabat, e pede-se a um sábio a dissolução de votos que são para a necessidade do Shabat. E tapa-se a janela, e mede-se o retalho para saber se tem o tamanho que recebe impureza, e mede-se o mikve para saber se tem água suficiente para a imersão. E houve um fato nos dias do pai de Rabi Tzadok e nos dias de Abba Shaul ben Botnit, que taparam a janela com um jarro e amarraram o vaso de barro com um junco, para saber se havia na cobertura uma abertura de um palmo ou não. E das suas palavras e dos seus atos aprendemos que se tapa, e se mede, e se amarra no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin mefirin”, “venishalin”, “shehen letzorech hashabat”, “ufokekin et hama’or”, “umodedin et hamikve”, “ve’et hamatlit”, “batefi’ach”, “mekida”, “leida im yesh baguiguit pote’ach tefach”, “umodedin” e “vekoshrin”
מתני' מפירין - בעל לאשתו: ונשאלין - לחכם: שהן לצורך השבת - כגון שנדר שלא לאכול [היום]: ופוקקין את המאור - כרבנן דאמרי (לעיל שבת דף קכה:) פוקקין פקק החלון: ומודדין את המקוה - במדה שיהא שם עמוק שלש אמות מים ורוחב אמה על אמה: ואת המטלית - שתהא שלש על שלש אצבעות כגון אם היתה טמאה ונגעה בטהרות: בטפיח - פך של חרס וחבירו בפי"ז (דף קכה:) זמורה שהיא קשורה בטפיח ממלאין בה בשבת: מקידה - כלי חרס: לידע אם יש בגיגית פותח טפח - בגמרא מפרש לה: ומודדין - להתלמד על דבר הוראה: וקושרין - קשר שאינו של קיימא אפילו לכתחילה:

“MISHNÁ. Anulam-se” — o marido, à sua esposa.

“E pede-se” — a um sábio.

“Que são para a necessidade do Shabat” — por exemplo, que fez voto de não comer hoje.

“E tapa-se a janela” — conforme os Sábios, que dizem (Shabat 125b): Tapa-se a janela com a tampa da janela.

“E mede-se o mikve” — com a medida de que haja ali uma profundidade de três amot de água e uma largura de uma amá por uma amá.

“E o retalho” — que tenha três por três dedos, por exemplo, se estava impuro e tocou em coisas puras.

“Com um jarro” — um jarro de barro; e o seu semelhante está no capítulo dezessete (Shabat 125b): “Um sarmento que está amarrado a um jarro, enche-se com ele no Shabat.”

“Mekidá” — um vaso de barro.

“Para saber se havia na cobertura uma abertura de um palmo” — na guemará se explica.

“E mede-se” — para se instruir sobre uma questão de decisão halachica.

“E amarra-se” — um nó que não é permanente, até mesmo de antemão.

Nota

A última mishná do tratado reúne ações permitidas no Shabat. Anular os votos da filha ou da esposa é permitido; pedir ao sábio a dissolução de um voto, só quando é para a necessidade do Shabat, como quem jurou não comer naquele dia. Também se pode tapar uma janela e medir um retalho ou um mikve. O fato antigo serve de prova: para saber se a impureza passava por uma abertura de um palmo, os sábios taparam a janela com um jarro e mediram com um vaso de barro amarrado a um junco.

Guemará: a anulação e a dissolução dos votos no Shabat · הֲפָרָה וּשְׁאֵלָה

1810A anulação é permitida mesmo sem necessidade?
A guemará
גְּמָ׳ אִיבַּעְיָא לְהוּ: הֲפָרָה בֵּין לְצוֹרֶךְ וּבֵין שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ, וּשְׁאֵלָה לְצוֹרֶךְ — אִין, שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ — לָא. וּמִשּׁוּם הָכִי קָפָלְגִינְהוּ מֵהֲדָדֵי,

GUEMARÁ. Foi-lhes perguntado: A anulação é permitida tanto para a necessidade quanto não para a necessidade do Shabat; e o pedido de dissolução, para a necessidade, sim, e não para a necessidade, não; e por isso a mishná os separou um do outro?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Guemará ibaya lehu hafara” e “ushe’ela letzorech in shelo letzorech la”
גמ' איבעיא להו הפרה - דמתניתין בין לצורך [בין שלא לצורך] השבת דגבי הפרה ביום שמעו כתיב (במדבר ל׳:ו׳) ואם לא מיפר האידנא שוב אינו מיפר: ושאלה לצורך אין שלא לצורך לא - דיכול לישאל למחר ומשום הכי מפליג להו מהדדי ולא קתני מפירין ונשאלין לנדרים שהן לצורך השבת דלא קאי לצורך אלא אשאלה:

“GUEMARÁ. Foi-lhes perguntado: a anulação” — da nossa mishná é permitida tanto para a necessidade quanto não para a necessidade do Shabat, pois, a respeito da anulação, está escrito “no dia em que ouvir” (Bamidbar 30:6), e, se não anular agora, não poderá mais anular.

“E o pedido, para a necessidade, sim; não para a necessidade, não” — pois pode pedir a dissolução amanhã; e por isso a mishná os separa um do outro e não ensina “anulam-se e pede-se a dissolução de votos que são para a necessidade do Shabat”, porque “para a necessidade” não se refere senão ao pedido.

1811Ou a separação se deve ao tribunal?
A guemará
אוֹ דִילְמָא: הֲפָרָה נָמֵי לְצוֹרֶךְ — אִין, שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ — לָא, וְהָא דְּקָא פָּלֵיג לְהוּ מֵהֲדָדֵי מִשּׁוּם דַּהֲפָרָה אֵין צָרִיךְ בֵּית דִּין, וּשְׁאֵלָה צְרִיכָה בֵּית דִּין?

Ou talvez também a anulação, para a necessidade, sim, e não para a necessidade, não; e aquilo que a mishná os separa um do outro é porque a anulação não requer tribunal, e o pedido de dissolução requer tribunal?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “beit din”
בית דין - חכם:

“Tribunal” — isto é, um sábio.

1812O ensino de Rav Zutei
Rav Zutei, da escola de Rav Pappi
תָּא שְׁמַע, דְּתָנֵי [רַב] זוּטֵי דְּבֵי רַב פַּפִּי: מְפִירִין נְדָרִים בְּשַׁבָּת לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת. לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת אִין, שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת — לָא.

Vem e ouve, pois Rav Zutei, da escola de Rav Pappi, ensinou: “Anulam-se votos no Shabat para a necessidade do Shabat.” Daqui se depreende: para a necessidade do Shabat, sim; não para a necessidade do Shabat, não.

1813Outra versão: de tempo a tempo ou todo o dia?
A guemará
לִישָּׁנָא אַחֲרִינָא, אִיבַּעְיָא לְהוּ: ״לְצוֹרֶךְ״ אַתַּרְוַיְיהוּ קָתָנֵי, וְשֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ — לָא, אַלְמָא הֲפָרַת נְדָרִים מֵעֵת לְעֵת, אוֹ דִילְמָא כִּי קָתָנֵי ״לְצוֹרֶךְ״ — אַשְּׁאֵלָה הוּא דְּקָתָנֵי, אֲבָל הֲפָרַת נְדָרִים אֲפִילּוּ שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ, אַלְמָא הֲפָרַת נְדָרִים כׇּל הַיּוֹם.

Outra versão: Foi-lhes perguntado: “Para a necessidade” ensina-se sobre ambos, e não para a necessidade, não; e, portanto, a anulação de votos pode ser feita de tempo a tempo, isto é, durante vinte e quatro horas desde que o marido ouviu o voto? Ou talvez, quando ensina “para a necessidade”, é sobre o pedido que o ensina, mas a anulação de votos é permitida até não para a necessidade; e, portanto, a anulação de votos só se pode fazer durante todo o dia em que ouviu?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “letzorech atarvayhu ka’i” e “kol hayom”
הכי גרסי' ל"א איבעיא להו (במסכת נדרים דף עז.) לצורך אתרוייהו קאי - אהפרה ואשאלה אבל הפרה שלא לצורך לא אלמא הפרת נדרים מעת לעת וזה ששמע בשבת יכול להפר משתחשך בתוך מעת לעת של שמיעה הלכך שלא לצורך לא שרינן בשבת: כל היום - עד שתחשך ותו לא ואפילו שמע סמוך לחשיכה הלכך אפי' שלא לצורך שאם לא יפר עכשיו לא יפר עוד:

Assim lemos o texto: “Outra versão: Foi-lhes perguntado (Nedarim 77a): ‘Para a necessidade’ refere-se a ambos” — à anulação e ao pedido; mas a anulação não para a necessidade, não; portanto, a anulação de votos vale de tempo a tempo, e este que ouviu no Shabat pode anular depois que escurecer, dentro do período de tempo a tempo da audição; por isso, não para a necessidade, não o permitimos no Shabat.

“Todo o dia” — até que escureça, e não mais, mesmo que tenha ouvido perto do escurecer; por isso, até não para a necessidade se permite, pois, se não anular agora, não anulará mais.

Nota

Na segunda versão, a pergunta liga a mishná ao prazo da anulação. Se “para a necessidade” vale também para a anulação, o marido ainda pode anular depois do Shabat, dentro de vinte e quatro horas desde que ouviu, e por isso não precisa fazê-lo no Shabat. Se a anulação é permitida mesmo sem necessidade, é porque o prazo acaba ao anoitecer, e quem não anula no Shabat perde o direito.

1814O ensino de Rav Zutei: de tempo a tempo
Rav Zutei, da escola de Rav Pappi
תָּא שְׁמַע, דְּתָנֵי רַב זוּטֵי דְּבֵי רַב פַּפִּי: מְפִירִין נְדָרִים בְּשַׁבָּת לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת. לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת — אִין, שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ הַשַּׁבָּת — לָא, אַלְמָא הֲפָרַת נְדָרִים מֵעֵת לְעֵת.

Vem e ouve, pois Rav Zutei, da escola de Rav Pappi, ensinou: “Anulam-se votos no Shabat para a necessidade do Shabat.” Para a necessidade do Shabat, sim; não para a necessidade do Shabat, não; portanto, a anulação de votos vale de tempo a tempo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “letzorech hashabat”
לצורך השבת - אלמא הפרת נדרים מעת לעת של שמיעה הלכך שלא לצורך לא מדלא שרי אלא לצורך:

“Para a necessidade do Shabat” — portanto, a anulação de votos vale de tempo a tempo desde a audição; por isso, não para a necessidade, não, já que não o permitiu senão para a necessidade.

1815Rav Ashi: a anulação vale todo o dia
Rav Ashi
אָמַר רַב אָשֵׁי: וְהָאֲנַן תְּנַן: הֲפָרַת נְדָרִים כׇּל הַיּוֹם, וְיֵשׁ בַּדָּבָר לְהָקֵל וּלְהַחֲמִיר. כֵּיצַד? נָדְרָה לֵילֵי שַׁבָּת — מֵיפֵר לֵילֵי שַׁבָּת וְיוֹם הַשַּׁבָּת עַד שֶׁתֶּחְשַׁךְ. נָדְרָה עִם חֲשֵׁכָה — מֵיפֵר עַד שֶׁלֹּא תֶּחְשַׁךְ, שֶׁאִם לֹא הֵפֵר מִשֶּׁחָשֵׁכָה, אֵינוֹ יָכוֹל לְהָפֵר. תַּנָּאֵי הִיא, דְּתַנְיָא: הֲפָרַת נְדָרִים כׇּל הַיּוֹם. רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה וְרַבִּי אֶלְעָזָר בְּרַבִּי שִׁמְעוֹן אָמְרוּ: מֵעֵת לְעֵת.

Disse Rav Ashi: Mas não aprendemos numa mishná: “A anulação de votos vale todo o dia, e há na coisa um efeito para facilitar e para agravar. Como? Se a mulher fez voto na noite do Shabat, o marido anula na noite do Shabat e no dia do Shabat, até que escureça. Se fez voto ao escurecer, anula até que escureça, pois, se não anulou, desde que escureceu não pode anular” (Nedarim 10:8)? Responde-se: é uma divergência de Tanaim, pois foi ensinado numa baraita: A anulação de votos vale todo o dia. Rabi Yosei bar Yehuda e Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon, disseram: De tempo a tempo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehakel ulehachmir”
להקל ולהחמיר - כלומר פעמים שיש שהות גדול ופעמים שאינו אלא מעט:

“Para facilitar e para agravar” — isto é, às vezes há um prazo grande, e às vezes não é senão pouco.

Nota

Rav Ashi objeta com a mishná de Nedarim, segundo a qual o prazo da anulação termina ao anoitecer do dia em que o marido ouviu o voto, e não depois de vinte e quatro horas. A guemará responde que a questão é uma divergência entre Tanaim, e o ensino de Rav Zutei segue Rabi Yosei bar Yehuda e Rabi Elazar, filho de Rabi Shimon.

1816Pedir a dissolução mesmo quem teve tempo
A guemará; Rav Zutra, filho de Rav Zeira
וְנִשְׁאָלִים לִנְדָרִים. אִיבַּעְיָא לְהוּ: כְּשֶׁלֹּא הָיָה לוֹ פְּנַאי, אוֹ דִלְמָא אֲפִילּוּ הָיָה לוֹ פְּנַאי? תָּא שְׁמַע דְּאִזְדְּקִיקוּ לֵיהּ רַבָּנַן לְרַב זוּטְרָא בְּרֵיהּ דְּרַב זֵירָא וּשְׁרוֹ לֵיהּ נִדְרֵיהּ, וְאַף עַל גַּב דַּהֲוָה לֵיהּ פְּנַאי.

“E pede-se a dissolução de votos.” Foi-lhes perguntado: É permitido somente quando não teve tempo livre antes do Shabat, ou talvez até quando teve tempo livre? Vem e ouve, pois os Sábios atenderam a Rav Zutra, filho de Rav Zeira, e dissolveram-lhe o seu voto no Shabat, embora ele tivesse tido tempo livre.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ibaya lehu” e “keshelo haya lo pnai”
איבעיא להו - הא דקתני נשאלין לנדרים שהן לצורך: כשלא היה לו פנאי - לשאל. מערב שבת קאמר או אפילו כשהיה לו פנאי:

“Foi-lhes perguntado” — sobre aquilo que ensina: pede-se a dissolução de votos que são para a necessidade do Shabat.

“Quando não teve tempo livre” — para pedir; da véspera do Shabat é que fala; ou até quando teve tempo livre.

A janela tapada com o jarro · הִילְקָטִי קְטַנָּה

1817A pequena viela entre duas casas
Rav Yehuda em nome de Rav
שֶׁפָּקְקוּ אֶת הַמָּאוֹר בַּטָּפִיחַ וְקָשְׁרוּ אֶת הַמְּקִידָּה בְּגֶמִי. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: הִילְקָטִי קְטַנָּה הָיְתָה בֵּין שְׁנֵי בָתִּים, [וְטוּמְאָה הָיְתָה שָׁם]

“Que taparam a janela com um jarro e amarraram o vaso de barro com um junco.” Disse Rav Yehuda, disse Rav: Havia uma pequena viela entre duas casas, e havia ali impureza de morto…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hilketei ketana”
הילקטי קטנה - שביל קטן בין שני בתים:

“Uma pequena viela” — um caminho estreito entre duas casas.

Nota

Rav começa a descrever o fato narrado na mishná: uma viela estreita entre duas casas, onde havia impureza de morto. A explicação de como a janela foi tapada e de por que se mediu a abertura prossegue na página seguinte.

O daf termina aqui, no meio da explicação de Rav sobre a viela entre duas casas onde havia impureza. O Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) e o tratado terminam em Shabbat 157b.