Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich)
וּצְדָקָה תַּצִּיל מִמָּוֶת

Tzedek no oriente; a caridade salva da morte; as abóboras e a carniça; a halachá sobre o muktzeh

Shabbat 156b · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) · a guemará prossegue em 157a

O daf continua diretamente de 156a, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a resposta de Deus a Avraham: se é por causa de Tzedek, que está no ocidente, Ele o fará voltar e o porá no oriente, como diz Yeshayahu. Três relatos confirmam que não há mazal para Israel: o homem que, segundo o gentio Avlet, seria morto por uma serpente, mas voltou do lago porque poupara a vergonha de um companheiro sem pão; a filha de Rabi Akiva, que no dia do casamento cravou o alfinete no olho da serpente, porque dera a sua porção a um pobre; e Rav Nachman bar Yitzchak, que a mãe mantinha de cabeça coberta. Shmuel e Rabi Akiva expõem “e a caridade salva da morte”, da própria morte. Abre-se uma nova mishná: cortam-se as abóboras diante do animal e a carniça diante dos cães, mas Rabi Yehuda proíbe a carniça que não o era desde a véspera do Shabat. Na guemará, Ulla, Rav e Levi decidem conforme Rabi Yehuda, e Shmuel, Ze’eiri e Rabi Yochanan conforme Rabi Shimon; o daf termina quando a guemará começa a objetar a Rabi Yochanan a partir de uma mishná anônima. A discussão prossegue em Shabbat 157a.

Tzedek no oriente · מְהַדַּרְנָא וּמוֹקֵימְנָא לֵיהּ בְּמִזְרָח

1795Eu o farei voltar e o porei no oriente
O Santo, bendito seja, a Avraham
דְּקָאֵי צֶדֶק בְּמַעֲרָב — מְהַדַּרְנָא וּמוֹקֵימְנָא לֵיהּ בְּמִזְרָח. וְהַיְינוּ דִּכְתִיב: ״מִי הֵעִיר מִמִּזְרָח צֶדֶק יִקְרָאֵהוּ לְרַגְלוֹ״.

…É porque Tzedek (Júpiter) está no ocidente que pensas não poder gerar um filho? Eu o farei voltar e o porei no oriente. E é isto que está escrito: “Quem suscitou do oriente? Tzedek, Ele o chama ao seu passo” (Yeshayahu 41:2), isto é, o Santo, bendito seja, chamou o astro Tzedek ao oriente por causa de Avraham.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “deka’ei tzedek”, “bema’arav”, “bemizrecho”, “tzedek” e “leraglo”
דקאי צדק - שהוא מזל שלך: במערב - שהוא מקום מצונן ואין ראוי להוליד כך מצאתי בהש"ס רבינו הלוי: במזרחו - שהוא מקום חום: צדק - הקב"ה קראו להביאו למזרח: לרגלו - בשבילו:

“Porque Tzedek está” — Tzedek, que é o teu mazal.

“No ocidente” — que é um lugar frio, e quem nasce sob ele não é apto a gerar; assim encontrei no Shas do nosso mestre, o Levita.

“No seu oriente” — que é um lugar de calor.

“Tzedek” — o Santo, bendito seja, chamou-o para trazê-lo ao oriente.

“Ao seu passo” — isto é, por causa dele.

Nota

A resposta de Deus completa a pergunta que encerra 156a. Avraham via nos astros que Tzedek, o seu mazal, estava no ocidente, lugar frio que não favorece a geração; Deus responde que Ele mesmo move o astro para o oriente. O versículo de Yeshayahu é lido assim: Tzedek, o astro, foi chamado ao oriente “ao seu passo”, isto é, por causa de Avraham.

Shmuel e Avlet: a caridade salva da morte · וּצְדָקָה תַּצִּיל מִמָּוֶת

1796O homem que foi ao lago e voltou
Shmuel e Avlet
וּמִדִּשְׁמוּאֵל נָמֵי אֵין מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל. דִּשְׁמוּאֵל וְאַבְלֵט הֲווֹ יָתְבִי, וַהֲווֹ קָאָזְלִי הָנָךְ אִינָשֵׁי לְאַגְמָא. אֲמַר לֵיהּ אַבְלֵט לִשְׁמוּאֵל: הַאי גַּבְרָא אָזֵיל וְלָא אָתֵי, טָרֵיק לֵיהּ חִיוְיָא וּמָיֵית. אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל: אִי בַּר יִשְׂרָאֵל הוּא, אָזֵיל וְאָתֵי. אַדְּיָתְבִי אֲזַל וַאֲתָא.

E também a partir do que aconteceu com Shmuel se aprende que não há mazal para Israel. Pois Shmuel e Avlet, um sábio gentio, estavam sentados, e umas pessoas iam para o lago. Disse Avlet a Shmuel: Este homem vai e não volta; uma serpente o morderá, e ele morrerá. Disse-lhe Shmuel: Se é israelita, vai e volta. Enquanto eles ainda estavam sentados, o homem foi e voltou.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Avlet” e “azeil ve’atei”
אבלט - שם חכם נכרי היה וחוזה בכוכבים: אזיל ואתי - דאין מזל לישראל ויועיל לו תפלה:

“Avlet” — era o nome de um sábio gentio, e ele contemplava as estrelas.

“Vai e volta” — pois não há mazal para Israel, e a oração lhe será útil.

1797A serpente cortada no fardo; o pão de todos
Avlet e o homem
קָם אַבְלֵט שַׁדְיֵהּ לְטוּנֵיהּ, אַשְׁכַּח בֵּיהּ חִיוְיָא דִּפְסִיק וּשְׁדֵי בְּתַרְתֵּי גוּבֵּי. אֲמַר לֵיהּ שְׁמוּאֵל: מַאי עֲבַדְתְּ? אֲמַר לֵיהּ: כׇּל יוֹמָא הֲוָה מַרְמִינַן רִיפְתָּא בַּהֲדֵי הֲדָדֵי וְאָכְלִינַן. הָאִידָּנָא הֲוָה אִיכָּא חַד מִינַּן דְּלָא הֲוָה לֵיהּ רִיפְתָּא, הֲוָה קָא מִיכְּסַף. אָמֵינָא לְהוּ: אֲנָא קָאֵימְנָא וּמַרְמֵינָא. כִּי מְטַאי לְגַבֵּיהּ, שַׁוַּאי נַפְשַׁאי כְּמַאן דִּשְׁקִילִי מִינֵּיהּ, כִּי הֵיכִי דְּלָא לִיכְּסִיף. אֲמַר לֵיהּ: מִצְוָה עֲבַדְתְּ. נְפַק שְׁמוּאֵל וּדְרַשׁ: ״וּצְדָקָה תַּצִּיל מִמָּוֶת״, וְלֹא מִמִּיתָה מְשׁוּנָּה, אֶלָּא מִמִּיתָה עַצְמָהּ.

Levantou-se Avlet, lançou ao chão o fardo dele e encontrou nele uma serpente cortada e lançada em dois pedaços. Disse-lhe Shmuel: Que fizeste para seres salvo? Disse-lhe: Todos os dias juntávamos o pão uns com os outros e comíamos juntos. Hoje havia um de nós que não tinha pão, e estava envergonhado. Eu lhes disse: Eu me levanto e junto o pão de todos. Quando cheguei junto dele, fiz-me como quem tomava dele, para que ele não se envergonhasse. Disse-lhe Shmuel: Fizeste uma mitzvá (preceito). Saiu Shmuel e expôs: “E a caridade salva da morte” (Mishlei 10:2); e não apenas de uma morte estranha, mas da própria morte.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “betartei guvei”, “marminan bahadadei”, “ana ka’eimna umarmeina”, “shava’i nafsha’i kemaan dishkili mineih” e “lo mimita meshuna”
בתרתי גובי - בשתי חתיכות שקצצו עם הקנים בלא יודע: מרמינן בהדדי - מטילין פת [לסל] לכל החבורה כאחד ואוכלין יחד והאחד גובה מכולן: אנא קאימנא ומרמינא - אגבה ואשים בסל: שוואי נפשאי כמאן דשקלי מיניה - עשיתי עצמי כגובה ממנו ונתתי משלי חלקו: לא ממיתה משונה - ומיהו מיתה הגונה ימות אלא ממיתה עצמה מצלת ונותנת חיים:

“Em dois pedaços” — em duas partes, pois o homem a cortou junto com os caniços, sem saber.

“Juntávamos uns com os outros” — lançávamos pão num cesto para todo o grupo de uma vez, e comíamos juntos, e um recolhia de todos.

“Eu me levanto e junto” — recolherei e porei no cesto.

“Fiz-me como quem tomava dele” — fiz-me como quem recolhia dele, e dei do meu pão a parte dele.

“Não de uma morte estranha” — como se dissesse: mas de uma morte apropriada morrerá; antes, da própria morte a caridade salva e dá vida.

Nota

Avlet, astrólogo gentio, prevê pelos astros a morte do homem; Shmuel responde que, se for israelita, o destino pode mudar. O homem volta, e no seu fardo está a serpente partida em dois. O mérito foi ter poupado a vergonha de um companheiro sem pão, fingindo recolher dele. Shmuel conclui que a caridade não apenas troca uma morte estranha por uma morte comum, mas livra da própria morte.

A filha de Rabi Akiva e a mãe de Rav Nachman bar Yitzchak · אֵין מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל

1798O alfinete no olho da serpente
Rabi Akiva e a sua filha
וּמִדְּרַבִּי עֲקִיבָא נָמֵי אֵין מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל. דְּרַבִּי עֲקִיבָא הַוְיָא לֵיהּ בְּרַתָּא, אָמְרִי לֵיהּ כַּלְדָּאֵי: הָהוּא יוֹמָא דְּעָיְילָה לְבֵי גְנָנָא, טָרֵיק לַהּ חִיוְיָא, וּמִיתָא. הֲוָה דָּאֵיג אַמִּילְּתָא טוּבָא. הָהוּא יוֹמָא שְׁקַלְתַּהּ לְמַכְבַּנְתָּא, דַּצְתַּהּ בְּגוּדָא, אִיתְרְמִי אִיתִּיב בְּעֵינֵיהּ דְּחִיוְיָא. לְצַפְרָא כִּי קָא שָׁקְלָה לַהּ, הֲוָה קָא סָרֵיךְ וְאָתֵי חִיוְיָא בָּתְרַהּ.

E também a partir do que aconteceu com Rabi Akiva se aprende que não há mazal para Israel. Pois Rabi Akiva tinha uma filha, e disseram-lhe os caldeus, que eram astrólogos: No dia em que ela entrar na câmara nupcial, uma serpente a morderá, e ela morrerá. Ele estava muito preocupado com o assunto. Naquele dia, ela tomou o alfinete do cabelo e cravou-o na parede, e aconteceu que ele entrou no olho de uma serpente. De manhã, quando ela o tirou, a serpente veio arrastada atrás dele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kaldai”, “datzta” e “lemachbanta”
כלדאי - חוזים בכוכבים: דצתא - תחבתה: למכבנתא - [אישפינגלי"ז בלע"ז] נושקא של זהב שיש כמו טס בראשה:

“Caldeus” — os que contemplam as estrelas.

“Cravou-o” — fincou-o.

“O alfinete” — espingle em francês antigo: um broche de ouro que tem como que uma placa na cabeça.

1799A porção dada ao pobre: a caridade salva da morte
Rabi Akiva e a sua filha
אֲמַר לַהּ אֲבוּהּ: מַאי עֲבַדְתְּ? אֲמַרָה לֵיהּ בְּפַנְיָא אֲתָא עַנְיָא, קְרָא אַבָּבָא וַהֲווֹ טְרִידִי כּוּלֵּי עָלְמָא בִּסְעוּדְתָּא, וְלֵיכָּא דְּשָׁמְעֵיהּ. קָאֵימְנָא, שְׁקַלְתֵּיהּ לְרִיסְתָּנַאי דִּיהַבְתְּ לִי, יַהְבִתֵּיהּ נִיהֲלֵיהּ. אֲמַר לַהּ: מִצְוָה עֲבַדְתְּ. נְפַק רַבִּי עֲקִיבָא וּדְרַשׁ: ״וּצְדָקָה תַּצִּיל מִמָּוֶת״, וְלֹא מִמִּיתָה מְשׁוּנָּה, אֶלָּא מִמִּיתָה עַצְמָהּ.

Disse-lhe o seu pai: Que fizeste para seres salva? Disse-lhe: À tarde veio um pobre e chamou à porta, e estavam todos ocupados com o banquete, e não havia quem o ouvisse. Eu me levantei, tomei a porção que me deste e dei-a a ele. Disse-lhe: Fizeste uma mitzvá. Saiu Rabi Akiva e expôs: “E a caridade salva da morte” (Mishlei 10:2); e não apenas de uma morte estranha, mas da própria morte.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ristana’i”
ריסתנאי - אמנשטריישו"ן:

“A minha porção” — amenestreison em francês antigo.

Nota

Também a filha de Rabi Akiva tinha o destino marcado pelos astrólogos para o dia do casamento. Sem saber, ela matou a serpente ao guardar o alfinete numa fenda da parede. O mérito foi ter dado a sua própria porção ao pobre que ninguém ouvira durante o banquete; Rabi Akiva tira daí a mesma lição de Shmuel.

1800A cabeça coberta e o cacho de tâmaras
Rav Nachman bar Yitzchak e a sua mãe
וּמִדְּרַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק נָמֵי אֵין מַזָּל לְיִשְׂרָאֵל. דְּאִימֵּיהּ דְּרַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אָמְרִי לַהּ כַּלְדָּאֵי: בְּרִיךְ גַּנָּבָא הָוֵה. לָא שְׁבַקְתֵּיהּ גַּלּוֹיֵי רֵישֵׁיהּ. אֲמַרָה לֵיהּ: כַּסִּי רֵישָׁיךָ, כִּי הֵיכִי דְּתִיהְוֵי עֲלָךְ אֵימְתָא דִשְׁמַיָּא, וּבְעִי רַחֲמֵי. לָא הֲוָה יָדַע אַמַּאי קָאָמְרָה לֵיהּ. יוֹמָא חַד יָתֵיב קָא גָרֵיס תּוּתֵי דִיקְלָא, נְפַל גְּלִימָא מֵעִילָּוֵי רֵישֵׁיהּ, דְּלִי עֵינֵיהּ חֲזָא לְדִיקְלָא, אַלְּמֵיהּ יִצְרֵיהּ, סְלֵיק, פַּסְקֵיהּ לְקִיבּוּרָא בְּשִׁינֵּיהּ.

E também a partir do que aconteceu com Rav Nachman bar Yitzchak se aprende que não há mazal para Israel. Pois à mãe de Rav Nachman bar Yitzchak disseram os caldeus: O teu filho será ladrão. Ela não o deixava descobrir a cabeça. Dizia-lhe: Cobre a tua cabeça, para que esteja sobre ti o temor do Céu, e pede misericórdia. Ele não sabia por que ela lhe dizia isso. Um dia, estava sentado estudando debaixo de uma palmeira que não era sua; caiu-lhe o manto de cima da cabeça, e ele ergueu os olhos e viu a palmeira; o seu impulso o dominou, e ele subiu e arrancou um cacho de tâmaras com os dentes.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “uve’ei rachamei” e “kibura”
ובעי רחמי - בקש רחמים שלא ישלוט בך יצר הרע: קיבורא - אשכול תמרים והדקל לא שלו היה:

“E pede misericórdia” — pede misericórdia para que o mau impulso não te domine.

“Um cacho” — um cacho de tâmaras; e a palmeira não era dele.

Nota

A inclinação prevista pelos astrólogos existia de fato, como mostra o episódio da palmeira, mas a mãe a neutralizou com o temor do Céu, simbolizado pela cabeça coberta, e com a oração. Assim que a cabeça se descobriu, o impulso voltou a dominá-lo: não há mazal para Israel quando há educação e súplica.

Nova Mishná: as abóboras e a carniça · מְחַתְּכִין אֶת הַדִּלּוּעִין

1801Mishná: cortar diante do animal e dos cães
Mishná
מַתְנִי׳ מְחַתְּכִין אֶת הַדִּלּוּעִין לִפְנֵי הַבְּהֵמָה, וְאֶת הַנְּבֵלָה לִפְנֵי הַכְּלָבִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אִם לֹא הָיְתָה נְבֵלָה מֵעֶרֶב שַׁבָּת, אֲסוּרָה — לְפִי שֶׁאֵינָהּ מִן הַמּוּכָן.

MISHNÁ. Cortam-se no Shabat as abóboras diante do animal, e a carniça diante dos cães. Rabi Yehuda diz: Se não era carniça já desde a véspera do Shabat, é proibida, porque não é do que está preparado para o uso no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin et hadilu’in” e “ve’et haneveila”
מתני' את הדלועין - התלושין ומיהו סתמן לאו למאכל בהמה קיימי אלא לאדם: ואת הנבלה - שנתנבלה היום ובין השמשות היתה עומדת לאדם ואפ"ה מחתכין:

“MISHNÁ. As abóboras” — as que já estavam colhidas; contudo, sem outra especificação, não estão destinadas a alimento de animal, mas de pessoa.

“E a carniça” — que se tornou carniça hoje, e no crepúsculo do início do Shabat estava destinada à pessoa; e, mesmo assim, corta-se.

Nota

A mishná permite preparar no Shabat a comida dos animais: cortar as abóboras e a carniça. Rashi observa que nenhuma das duas estava destinada aos animais quando o Shabat começou, e ainda assim é permitido. Rabi Yehuda discorda quanto ao animal que morreu no próprio Shabat: como não estava preparado para isso desde a véspera, é muktzeh.

Guemará: a halachá sobre o muktzeh · הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

1802Ulla, Rav e Levi: conforme Rabi Yehuda
Ulla, Shmuel, Rav e Levi
גְּמָ׳ אִיתְּמַר: (עָרֵל שַׁחַז סִימָן.) אָמַר עוּלָּא: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה (וּשְׁמוּאֵל אָמַר: הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן).

GUEMARÁ. Foi dito a respeito do muktzeh (o que foi posto à parte) no Shabat; Ayin, Reish, Lamed, Shin, Chet, Zayin é o sinal mnemônico dos nomes dos amoraítas. Disse Ulla: A halachá é conforme Rabi Yehuda, que proíbe o muktzeh. E Shmuel disse: A halachá é conforme Rabi Shimon, que o permite.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Guemará kerabi Shimon”
גמ' כר"ש - דלית ליה מוקצה:

“GUEMARÁ. Conforme Rabi Shimon” — que não admite muktzeh.

1803Rav e Levi: as esteiras dos navios e o animal duvidoso
Rav e Levi
וְאַף רַב סָבַר הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. מִדִּכְרָכֵי דְזוּזֵי, דְּרַב אָסַר וּשְׁמוּאֵל שָׁרֵי. וְאַף לֵוִי סָבַר הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. כִּי הָא דְּלֵוִי כִּי הֲווֹ מַיְיתִי טְרֵיפְתָּא לְקַמֵּיהּ בְּיוֹמָא טָבָא, לָא הֲוָה חָזֵי לַהּ אֶלָּא כִּי יָתֵיב אַקִּיקְלִיתָא. דַּאֲמַר: דִּילְמָא לָא מִתַּכְשְׁרָא, וַאֲפִילּוּ לִכְלָבִים לָא חַזְיָא.

E também Rav entende que a halachá é conforme Rabi Yehuda. De onde se sabe? A partir das esteiras dos navios, que Rav proibia mover no Shabat e Shmuel permitia. E também Levi entende que a halachá é conforme Rabi Yehuda, como aquilo de Levi: quando lhe traziam, em Yom Tov, um animal abatido com dúvida de tereifá (defeito que o torna proibido), ele não o examinava senão quando estava sentado junto ao monturo. Pois dizia: Talvez não se mostre kasher, e nem para os cães servirá, e então será proibido movê-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “midicharchei dezuzei”, “ki havu maytei tereifta lekameih”, “akikleita” e “va’afilu lichlavim la chazya”
מדכרכי דזוזי - מחצלות העשויות לספינות לכסות פרקמטיא שבתוכן. זוזי ספינות בלשון ארמי כך מצאתי בתשובת הגאונים: כי הוו מייתי טריפתא לקמיה - בהמה שנולד בה ספק טרפות וצריכה להוראת חכם: אקלקילתא - על האשפה שאם יראנה טריפה יניחה שם: ואפילו לכלבים לא חזיא - דנשחטה היום ולא יוכלו לטלטל כרבי יהודה:

“Das esteiras dos navios” — esteiras feitas para os navios, para cobrir a mercadoria que está dentro deles; “zuzei” são navios em língua aramaica; assim encontrei numa responsa dos Gueonim.

“Quando lhe traziam uma tereifá” — um animal em que surgiu uma dúvida de tereifá e que precisa da decisão de um sábio.

“Junto ao monturo” — pois, se a visse tereifá, a deixaria ali.

“E nem para os cães servirá” — pois foi abatido hoje, e não poderiam movê-lo, conforme Rabi Yehuda.

Nota

Começa a lista dos amoraítas que decidem a halachá do muktzeh, indicados pelo sinal mnemônico. Ulla, Rav e Levi seguem Rabi Yehuda: Rav proibia mover as esteiras dos navios, e Levi só examinava o animal duvidoso junto ao monturo, para poder deixá-lo ali se fosse declarado tereifá, pois não estaria destinado nem aos cães desde a véspera e não poderia ser movido.

1804Shmuel, Ze’eiri e Rabi Yochanan: conforme Rabi Shimon
Shmuel, Ze’eiri e Rabi Yochanan
וּשְׁמוּאֵל אָמַר: הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, וְאַף זְעֵירִי סָבַר הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן. דִּתְנַן: בְּהֵמָה שֶׁמֵּתָה — לֹא יְזִיזֶנָּה מִמְּקוֹמָהּ, וְתַרְגְּמַהּ זְעֵירִי: בְּבֶהֱמַת קׇדָשִׁים. אֲבָל בְּחוּלִּין — שַׁפִּיר דָּמֵי. וְאַף רַבִּי יוֹחָנָן אָמַר הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן. וּמִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן הָכִי? וְהָא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כִּסְתַם מִשְׁנָה, וּתְנַן:

E Shmuel disse: A halachá é conforme Rabi Shimon. E também Ze’eiri entende que a halachá é conforme Rabi Shimon, pois aprendemos numa mishná: “Um animal que morreu, não se o mova do seu lugar” (Beitzá 3:5); e Ze’eiri explicou-a como tratando de um animal consagrado, que não serve nem para os cães; mas, num animal não consagrado, movê-lo é permitido. E também Rabi Yochanan disse que a halachá é conforme Rabi Shimon. Mas acaso Rabi Yochanan disse assim? Pois não disse Rabi Yochanan: A halachá é conforme a mishná anônima? E aprendemos numa mishná: …

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “targema Ze’eiri”
תרגמא זעירי - במסכת ביצה בבהמת קדשים דאסורה בהנאה ולא חזיא לכלבים הא דחולין שפיר דמי להאכילה לכלבים:

“Explicou-a Ze’eiri” — no tratado Beitzá, como tratando de um animal consagrado, que é proibido para o proveito e não serve para os cães; mas o animal não consagrado é permitido dar de comer aos cães.

Nota

Do outro lado estão Shmuel, Ze’eiri e Rabi Yochanan. Ze’eiri restringe a mishná de Beitzá, que proíbe mover o animal morto, ao animal consagrado, que nem aos cães pode ser dado; o animal comum, por estar destinado aos cães, não é muktzeh. A guemará começa a objetar a Rabi Yochanan a partir da sua própria regra sobre a mishná anônima; a citação prossegue na página seguinte.

O daf termina aqui, no meio da objeção da guemará a Rabi Yochanan, logo antes da citação da mishná anônima. O Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) prossegue em Shabbat 157a.