O daf continua diretamente de 155b, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a resposta de Rav Chisda: quem permite amassar o kali é Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, e somente com alteração, pouco a pouco. A baraita permite mexer a shatit rala e beber o zitom egípcio; Rav Yosef inverte a ordem do vinagre, Levi, filho de Rav Huna bar Chiya, repreende o amassador do boi, e Rav Yeimar e Rav Yehuda descrevem outras alterações. Os cadernos de Ze’eiri e de Levi registram a proibição de Rabi Chiya e o protesto de Rabi contra a shetita amassada na Babilônia. Segue-se o caderno de Rabi Yehoshua ben Levi, que liga o caráter de quem nasce ao que foi criado em cada dia da semana; Rabi Chanina responde que determina o mazal da hora, e percorre os sete astros, de Chamá a Maadim. Por fim, Rabi Chanina diz que há mazal para Israel, e Rabi Yochanan e Rav negam, a partir de Yirmeyahu e de Avraham levado “para fora” da sua ciência dos astros; o daf termina na pergunta de Deus a Avraham, que prossegue em Shabbat 156b.
…É Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, que diz que só é culpado quem de fato amassa. E isto vale somente quando a pessoa altera o modo de amassar. Como altera? Disse Rav Chisda: Amassa-se pouco a pouco, e não tudo de uma vez.
“É Rabi Yosei bar Yehuda” — pois, se fosse Rabi, a alteração não lhe adiantaria, já que para ele se é culpado pelo pôr da água, mesmo numa coisa que não é passível de amassar, como dissemos a respeito do farelo; mas, segundo Rabi Yosei bar Yehuda, que diz que não é culpado até que amasse, aqui se amassa de modo inabitual, como a guemará passa a explicar: “e isto vale somente quando altera”.
A resposta de Rav Chisda, iniciada no fim de 155b, atribui a opinião permissiva sobre o kali a Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, para quem só o ato de amassar é proibido, e não o de pôr a água. Ainda assim, é preciso alterar o modo habitual, amassando aos poucos.
E a baraita prossegue: “E concordam que se mexe a shatit (papa de farinha tostada) no Shabat e que se bebe zitom egípcio (uma bebida fermentada).” Mas não disseste na mesma baraita: “Não se amassa”? Não é difícil: aquela proibição trata da mistura espessa; esta permissão, da mistura rala. E isto vale somente quando a pessoa altera o modo de fazê-lo.
“Que se mexe” — com uma concha, o que é propriamente amassar.
“E que se bebe zitom egípcio” — pois também sem fim de cura é uma bebida, como aprendemos acima: “Todas as bebidas, a pessoa bebe no Shabat para cura” (Shabbat 109b).
“Da espessa” — não se amassa; da rala, mexe-se, pois isto não é sovar.
A baraita acrescenta que todos concordam em permitir mexer a shatit e beber o zitom egípcio, que é bebida comum e não remédio. A aparente contradição com “não se amassa” resolve-se distinguindo a mistura espessa, que se assemelha a amassar, da rala, que não; e em todo caso exige-se alteração.
Como altera? Disse Rav Yosef: Num dia comum, a pessoa põe o vinagre e depois põe a shatit; no Shabat, põe a shatit e depois põe o vinagre. Levi, filho de Rav Huna bar Chiya, encontrou o amassador da casa dos seus pais, que estava amassando farelo no Shabat e dando-o de comer ao seu boi. Deu-lhe um pontapé, para que parasse. Veio o seu pai, encontrou-o assim e disse-lhe: Assim disse o pai da tua mãe em nome de Rav. E quem é o pai da tua mãe? Rabi Yirmeya bar Abba. Ele disse: Amassa-se, mas não se dá de comer à força aos bois; e ao bezerro que não apanha a comida com a língua, põe-se-lhe a comida na boca. E isto vale somente quando a pessoa altera o modo de amassar.
“Num dia comum, põe o vinagre etc.” — isto é, assim é o seu modo habitual num dia comum.
“O amassador da casa dos seus” — o guardador dos animais do seu pai, que amassava a comida deles.
“Que estava amassando” — farelo, com alteração.
“Deu-lhe um pontapé” — pois, segundo todos, aprendemos na mishná: “mas não se amassa”.
“Amassa-se” — o farelo, com alteração, como a guemará passa a explicar: “e isto quando altera”.
“Mas não se dá de comer à força” — aos bois: não se lhes faz hamra’a (dar de comer à força).
“E ao que não apanha com a língua” — um bezerro pequeno, que ainda não aprendeu a comer.
“E isto vale” — isto é, o que dissemos, que é permitido amassar o farelo.
Rav Yosef define a alteração: inverter a ordem habitual dos ingredientes. Levi repreende com um pontapé o servo que amassava farelo para o boi, mas o pai lhe mostra que Rav, por meio de Rabi Yirmeya bar Abba, permitia amassar, desde que com alteração, e só proibia forçar a comida ao animal, salvo o bezerro que ainda não sabe comer.
Como altera? Disse Rav Yeimar bar Shelamya em nome de Abaie: Mexe-se no sentido da urdidura e da trama. Mas assim não se mistura bem? Disse Rav Yehuda: Sacode-o para dentro de outro utensílio, e assim se mistura.
“Urdidura e trama” — uma vez conduz o bastão no sentido da urdidura, e outra vez no sentido da trama.
“Sacode-o para um utensílio” — e ele se mistura por si mesmo.
Outra forma de alteração: mexer em cruz, ora num sentido, ora no outro. Como assim a mistura não fica homogênea, Rav Yehuda explica que se verte o conteúdo para outro utensílio, e a mistura se completa por si.
Estava escrito no pinax (caderno de tabuinhas) de Ze’eiri: Eu disse diante do meu mestre. E quem é o seu mestre? Rabi Chiya. Perguntei-lhe: Qual é a lei quanto a amassar no Shabat? Disse: É proibido. Qual é a lei quanto a transferir a comida de diante de um animal para diante de outro? Disse: É permitido. Disse Rav Menashya: Uma medida diante de um animal, ou duas diante de dois, é permitido; três diante de dois é proibido. Rav Yosef disse: É permitido acrescentar um kav (medida de capacidade), e até dois kav. Ulla disse: Um kor, e até dois kor, sem receio.
“No pinax” — tabuinhas atadas umas às outras, como as dos mercadores.
“Eu disse diante do meu mestre” — é Rabi Levi quem relata que ele disse diante de Rabi a respeito daquelas pessoas que amassavam shetita.
“Quanto a transferir” — tirar de dentro do utensílio que está diante deste animal e pôr diante do seu companheiro.
“Uma diante de um” — é uma questão à parte: uma medida, que se costuma pôr diante de um animal, é permitido pô-la diante dele no Shabat; e assim também duas diante de dois animais que comem numa só manjedoura.
“Mas três diante de dois” — uma vez que num dia comum não se lhes dá assim, é um esforço de que não se precisa; e com mais razão duas diante de um.
Rabi Chiya proíbe amassar, mas permite passar a forragem de um animal a outro. Rav Menashya limita a quantidade à medida habitual, pois o que excede é esforço sem necessidade; Rav Yosef e Ulla são mais lenientes quanto ao acréscimo.
Estava escrito no pinax de Levi: Eu disse diante do meu mestre. E quem é o seu mestre? Nosso santo Mestre. Disse-o a respeito de que se amassava shetita no Shabat na Babilônia; e Rabi clamava contra isso. E quem é Rabi? Nosso santo Mestre, que clamava a respeito de que se amassava shetita. E não havia quem o escutasse, e não havia força nas suas mãos para proibir o costume, por causa de Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, que o permitia.
“Por causa de Rabi Yosei bar Yehuda” — o seu oponente na disputa, que acima permitia até na mistura espessa, por meio de alteração; e costumavam agir conforme ele.
Rabi Yehuda HaNasi protestava contra o costume babilônico de amassar shetita no Shabat, mas não conseguiu proibi-lo, porque o povo se apoiava na opinião permissiva de Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda.
Estava escrito no pinax de Rabi Yehoshua ben Levi: Aquele que nasceu no primeiro dia da semana será um homem, e não haverá uma só coisa nele.
“Aquele que no primeiro dia da semana” — o que nasceu no primeiro dia da semana.
“Será um homem, e não uma só nele” — será um homem completo numa única qualidade, e não haverá nele uma só coisa de outra qualidade; e adiante a guemará passa a explicá-lo.
Que é “e não uma só coisa nele”? Se dizes: e não haverá uma só qualidade para o bem, mas não disse Rav Ashi: Eu nasci no primeiro dia da semana? Antes, dirás que não haverá uma só para o mal; mas não disse Rav Ashi: Eu e Dimi bar Kakuzta nascemos no primeiro dia da semana; eu tornei-me rei, isto é, chefe da academia, e ele foi chefe de ladrões? Antes, o sentido é: ou todo para o bem, ou todo para o mal. Qual é a razão? Porque nele foram criadas a luz e a escuridão.
“E ele foi chefe de ladrões” — pois quem nasce no primeiro dia da semana será chefe, assim como o dia é o primeiro da obra da Criação; contudo, deduz-se daí que nascem nele justos e perversos.
O caderno de Rabi Yehoshua ben Levi associa o caráter de quem nasce ao que foi criado em cada dia. O próprio Rav Ashi serve de contraprova a duas leituras, e a guemará conclui que quem nasce no primeiro dia é extremo, todo para o bem ou todo para o mal, como a luz e a escuridão criadas nesse dia.
Aquele que nasceu no segundo dia da semana será um homem irascível. Qual é a razão? Porque nele foram divididas as águas, as superiores das inferiores. Aquele que nasceu no terceiro dia da semana será um homem rico e devasso. Qual é a razão? Porque nele foram criadas as ervas, que se multiplicam muito e crescem misturadas. Aquele que nasceu no quarto dia da semana será um homem sábio e luminoso. Qual é a razão? Porque nele foram suspensos os luzeiros no firmamento.
“Porque foram divididas as águas” — assim ele se separará de toda pessoa.
“Devasso” — isto é, adúltero.
“Porque nele foram criadas as ervas” — pois está escrito: “Produza a terra erva” (Bereshit 1:11); e é algo que frutifica e se multiplica muito, e se apressa a crescer e a brotar, o que é coisa de licenciosidade, ashvei’a em francês antigo. Outra explicação: porque não está escrito “segundo a sua espécie” a respeito das ervas, nas ordens divinas; e, além disso, elas saem misturadas e sugam umas das outras.
“E luminoso” — isto é, radiante.
“Porque nele foram suspensos os luzeiros” — e está escrito: “e a Torá é luz” (Mishlei 6:23).
Cada traço deriva da obra do dia: a separação das águas, a vegetação que se multiplica e se mistura, os luzeiros que Rashi associa à luz da Torá.
Aquele que nasceu no quinto dia da semana será um homem que pratica atos de bondade. Qual é a razão? Porque nele foram criados os peixes e as aves, que se sustentam só pela bondade de Deus. Aquele que nasceu na véspera do Shabat será um homem que vai em busca. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: Que vai em busca de mitzvot (preceitos). Aquele que nasceu no Shabat, no Shabat morrerá, porque profanaram por causa dele o grande dia do Shabat, ao cuidar do seu parto. Disse Rava bar Rav Sheila: E será chamado grande santo.
“Porque nele foram criados os peixes e as aves” — que não se esforçam pela sua comida, mas se sustentam pela bondade do Santo, bendito seja.
“Que vai em busca” — que corre atrás de mitzvot.
“Que vai em busca de mitzvot” — pois assim é o costume da véspera do Shabat: correr atrás das mitzvot do Shabat.
“E será chamado grande santo” — que será separado e santo, pois está escrito: “e o santificou” (Shemot 20:11).
Os peixes e as aves, que vivem da bondade divina, sugerem quem pratica a bondade; a véspera do Shabat, dia de preparativos, sugere quem busca mitzvot. Quem nasce no Shabat, por cujo parto se profanou o dia, morrerá no Shabat, e Rava bar Rav Sheila acrescenta que será chamado santo.
Disse-lhes Rabi Chanina, aos alunos que leram aquele caderno: Saí e dizei ao filho de Leivai, Rabi Yehoshua ben Levi: Não é o mazal (a influência astral) do dia que determina, mas o mazal da hora que determina. Aquele que nasceu sob Chamá (o sol) será um homem radiante; comerá do que é seu e beberá do que é seu, e os seus segredos serão revelados; se roubar, não terá êxito. Aquele que nasceu sob Kochav Nogá (Vênus) será um homem rico e devasso. Qual é a razão? Porque nele nasceu o fogo, o fogo do desejo. Aquele que nasceu sob Kochav (Mercúrio) será um homem luminoso e sábio, porque ele é o escriba de Chamá. Aquele que nasceu sob Levaná (a lua) será um homem que suporta doenças, que constrói e derruba, derruba e constrói; comerá do que não é seu e beberá do que não é seu, e os seus segredos serão ocultos; se roubar, terá êxito. Aquele que nasceu sob Shabtai (Saturno) será um homem cujos pensamentos se anulam. E há quem diga: tudo o que outros planejam contra ele se anula. Aquele que nasceu sob Tzedek (Júpiter) será um homem justo. Disse Rav Nachman bar Yitzchak: E justo nas mitzvot, isto é, que dá caridade. Aquele que nasceu sob Maadim (Marte) será um homem que derrama sangue. Disse Rav Ashi: Ou sangrador, ou ladrão, ou açougueiro, ou circuncidador. Disse Rabba: Eu nasci sob Maadim, e nada disso faço. Disse Abaie: Também o Mestre pune e mata, como juiz.
“Disse-lhes Rabi Chanina” — aos alunos que leram o caderno de Rabi Yehoshua.
“O mazal da hora” — sete mazalot (astros) são os que servem às horas, na ordem cujas iniciais formam ChaNaKhaL ShaTzaM; Chamá é o sol propriamente, e é um dos mazalot, e assim também Levaná; e os demais são estrelas.
“Radiante” — como o sol que ilumina.
“Comerá do que é seu” — como o sol, que não invade o domínio do seu companheiro para governar à noite.
“E os seus segredos serão revelados” — não tem como encobrir o seu segredo e as suas coisas ocultas, mas é como este sol, que é público para todos.
“Porque nele está suspenso o fogo” — o fogo está suspenso naquele mazal: o impulso da união carnal, que arde como um forno.
“O mazal de Kochav” — é o escriba do mazal de Chamá, para escrever o caminho do seu curso e os seus ciclos, e está sempre junto dele.
“Que suporta doenças” — como esta lua, que vai definhando.
“Que constrói e derruba” — como esta lua, que cresce e diminui.
“Comerá do que não é seu” — como a lua, que invade o domínio do sol para governar também de dia.
“E os seus segredos serão ocultos” — como a lua, que não ilumina.
“Sob Shabtai” — o mazal da estrela cujo nome é Shabtai.
“Se anulam” — como em “não cessarão” (Bereshit 8:22).
“Justo nas mitzvot” — isto é, caridade aos pobres, que é chamada “mitzvá” em toda a linguagem da agadá.
“Ladrão” — um salteador que mata pessoas.
“Sangrador” — o que tira sangue pela sangria.
“Pune” — as pessoas que transgridem as suas palavras.
Rabi Chanina contesta o caderno de Rabi Yehoshua ben Levi: o que influi não é o dia, mas o astro que rege a hora do nascimento, na ordem que Rashi resume como ChaNaKhaL ShaTzaM. Os traços atribuídos a cada astro admitem desfechos opostos: Rav Ashi mostra que o sangue de Maadim pode ser o do circuncidador, e Abaie vê em Rabba, juiz, a mesma inclinação canalizada para o bem.
Foi dito: Rabi Chanina diz: O mazal torna sábio, o mazal torna rico, e há mazal para Israel. Rabi Yochanan disse: Não há mazal para Israel, pois o mérito e a oração mudam o seu destino. E Rabi Yochanan segue o seu raciocínio, pois disse Rabi Yochanan: De onde se aprende que não há mazal para Israel? Pois foi dito: “Assim disse o Eterno: Não aprendais o caminho das nações, e não vos atemorizeis dos sinais dos céus, pois as nações se atemorizam deles” (Yirmeyahu 10:2). Elas se atemorizarão, e não Israel.
“O mazal torna sábio” — conforme o mazal é a sabedoria, como disse: “quem nasceu sob Chamá será luminoso e sábio”; “e há mazal para Israel” — pois a oração e a caridade não mudam o mazal.
“Não há mazal para Israel” — pois, por meio da oração e do mérito, o seu mazal se muda para o bem.
Rabi Chanina sustenta que o astro influi também sobre Israel; Rabi Yochanan nega, com base em Yirmeyahu: os sinais dos céus atemorizam as nações, não Israel. Rashi explica a divergência: para Rabi Yochanan, a oração e o mérito mudam o destino para o bem.
E também Rav entende que não há mazal para Israel, pois disse Rav Yehuda que disse Rav: De onde se aprende que não há mazal para Israel? Pois foi dito: “E levou-o para fora” (Bereshit 15:5). Pois disse Avraham diante do Santo, bendito seja: Senhor do universo, “o filho da minha casa é o meu herdeiro” (Bereshit 15:3). Disse-lhe: Não; “mas aquele que sair das tuas entranhas” (Bereshit 15:4) será o teu herdeiro.
Disse diante dEle: Senhor do universo, observei a minha itztagninut (ciência dos astros), e vi que não sou apto a gerar um filho. Disse-lhe: Sai da tua itztagninut, pois não há mazal para Israel. Qual é o teu pensamento, que te leva a dizer isso?
“Itztagninut” — a ciência dos mazalot.
“Sai da tua itztagninut” — é isto que está escrito: “E levou-o para fora” (Bereshit 15:5), para fora da sua itztagninut.
Rav lê “levou-o para fora” como tirar Avraham do cálculo dos astros: segundo a sua leitura das estrelas, não teria filho, mas Deus lhe diz que Israel não está sujeito a elas. A pergunta final de Deus a Avraham prossegue na página seguinte.