O daf continua diretamente de 155a, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a prova da mishná que corta as abóboras diante do animal e a carniça diante dos cães: Rav Yehuda responde que se trata de coisas duras, como carne de elefante ou carne para cachorrinhos, e a palha e a alfafa de Rav Chanan de Neharde’a são palha podre e forragem para jumentinhos. Abre-se uma nova mishná: não se empanturra o camelo nem se lhe calca a comida, não se faz hamra’a aos bezerros mas faz-se halata, alimentam-se as galinhas, põe-se água no farelo sem amassar, e não se dá água às abelhas e aos pombos do pombal. Rav Yehuda e Rav Chisda definem a hamra’a, Rav Yosef objeta a partir das galinhas e dos pombos, e Rav Yehuda responde que o sustento dos pombos não cabe ao dono, como o do porco, ao contrário do cão; Rav Ashi busca apoio na mishná, mas a água se encontra no lago. Rabi Yona expõe “o justo conhece a causa dos pobres” sobre o cão, cuja comida fica três dias no ventre, e Rav Hamnuna, Rav Mari e Rav Pappa falam da carne lançada ao cão. Uma baraita confirma Rav Yehuda, Abaie atribui a mishná do farelo a Rabi Yosei bar Yehuda, e o daf termina no início da resposta de Rav Chisda sobre o kali. A discussão prossegue em Shabbat 156a.
…as abóboras diante do animal e a carniça diante dos cães.” Acaso não se trata de abóboras semelhantes à carniça: assim como a carniça é macia, também as abóboras de que se fala são macias? Logo, nós nos esforçamos com o alimento, e isto é uma refutação de Rav Yehuda!
Rav Yehuda te dirá: Não; trata-se de carniça semelhante às abóboras: assim como se fala de abóboras duras, também se fala de carniça dura, que só cortada se torna alimento. E como encontras isso, uma carniça tão dura que o animal não a coma? Com carne de elefantes. Ou ainda: com cachorrinhos pequenos, que só comem a carne cortada.
“As abóboras” — isto é, as já colhidas; e não dizemos que são muktzeh (vedadas ao uso) para o animal, pois são alimento de pessoas.
“Duras” — isto é, rijas.
“Ou ainda” — os cães de que a mishná fala são cachorrinhos pequenos, para os quais toda carniça é dura.
A guemará prossegue a tentativa de decidir entre Rav Huna e Rav Yehuda. Se as abóboras da mishná são macias como a carniça, cortá-las seria só melhorar um alimento que já se come, o que contradiz Rav Yehuda. Ele responde que a mishná fala de coisas duras, que sem cortar não se comem: cortá-las é torná-las alimento, o que ele permite.
Vem e ouve o que ensinou Rav Chanan de Neharde’a: “Esfarelam-se a palha e a alfafa no Shabat e misturam-se uma com a outra.” Logo, nós nos esforçamos com o alimento!
Não: a palha de que se fala é palha podre, que sem preparo não serve ao animal; a alfafa, ensina-se para jumentinhos pequenos, que só a comem esfarelada.
“E misturam-se” — a palha e a alfafa juntas, e o animal come a palha por causa da alfafa.
“Palha, com palha podre” — que não é apta para alimento, e agora ele a torna alimento. E esta palha podre não é podre de todo, pois aquela que está toda podre fica destinada ao barro, e é proibido movê-la.
Nova prova a favor de Rav Huna: esfarelar e misturar a forragem parece ser esforço com algo que já é alimento. A guemará responde que se trata de palha estragada, que só assim volta a servir de comida, e de alfafa para jumentinhos que não a mastigam inteira: em ambos os casos, torna-se a coisa alimento.
MISHNÁ. Não se empanturra o camelo no Shabat, nem se lhe calca a comida na garganta, mas faz-se-lhe halata (pôr a comida na boca). E não se faz hamra’a (dar de comer à força) aos bezerros, mas faz-se-lhes halata, termos que a guemará explicará. E alimentam-se as galinhas pelo modo de mehalketin; e põe-se água no farelo, mas não se amassa a mistura. E não se põe água diante das abelhas e diante dos pombos que estão no pombal, mas põe-se diante dos gansos e das galinhas, e diante dos pombos hardisiyot (criados dentro de casa).
“MISHNÁ. Não se empanturra” — isto é, fazem-no comer muito contra a sua vontade, e enfiam-lhe a comida na garganta; e na guemará explica-se a expressão “ovsin”: fazem-lhe como que uma manjedoura dentro do ventre.
“Nem se calca” — que lhe calca a cevada dentro da garganta; contudo, não é tanto quanto empanturrar.
“Mas faz-se halata” — explica-se na guemará.
“Não se faz hamra’a” — explica-se na guemará.
“Mehalketin” — explica-se na guemará.
“Não se põe água diante das abelhas” — a razão explica-se na guemará: ou porque o seu sustento não cabe a ele, pois elas saem e comem no campo, ou porque a água lhes é comum no lago.
“Hardisiot” — assim chamados pelo nome do seu lugar de origem; e alimentam-se dentro da casa.
A nova mishná trata de alimentar os animais no Shabat. Empanturrar o camelo ou calcar-lhe a comida na garganta é esforço excessivo; pôr-lhe a comida na boca é permitido. Os termos hamra’a, halata e mehalketin serão definidos pela guemará. Dar água é permitido só aos animais que dependem do dono, não às abelhas nem aos pombos do pombal, que a encontram sozinhos.
GUEMARÁ. Que é “não se empanturra”? Disse Rav Yehuda: Não se lhe faz uma manjedoura dentro do ventre, isto é, não se lhe dá tanta comida que o ventre se alargue como uma manjedoura.
Acaso existe algo deste tipo, um camelo que coma tanto? Sim; e é como disse Rav Yirmeya de Difti: Eu mesmo vi um árabe que deu de comer ao seu camelo um kor (grande medida de grãos), e carregou-o com outro kor sobre o dorso.
“Deste tipo” — que o faça comer tanto que o seu ventre se alargue como uma manjedoura.
“E carregou-o com um kor” — sobre o seu dorso, para o sustento do caminho, além das outras cargas.
A palavra da mishná, “ovsin”, é lida a partir de “evus”, manjedoura: é proibido encher o camelo a ponto de o ventre virar um cocho. A guemará mostra que isso é real com o testemunho de Rav Yirmeya, que viu um camelo comer um kor inteiro e ainda carregar outro tanto como provisão.
Aprendemos na mishná: “Não se faz hamra’a.” Qual é a hamra’a e qual é a halata? Disse Rav Yehuda: A hamra’a é pôr a comida num lugar da garganta de onde o animal não consegue devolvê-la; a halata, num lugar de onde consegue devolvê-la.
Rav Chisda disse: Tanto esta como aquela são num lugar de onde o animal não consegue devolvê-la; mas a hamra’a é feita com um utensílio, e a halata, com a mão.
“Num lugar de onde não consegue devolvê-la” — que lha enfia para dentro, além da entrada da garganta.
“Com um utensílio” — isto é, com uma concha.
Duas definições: para Rav Yehuda, a diferença está na profundidade, pois na hamra’a a comida vai tão fundo que o animal não pode expeli-la; para Rav Chisda, ambas vão fundo, e a diferença está no instrumento, utensílio ou mão.
Rav Yosef objetou a partir da Tosefta: “Alimentam-se as galinhas pelo modo de mehalketin, e não é preciso dizer que se alimentam pelo modo de malkitin; e não se alimentam pelo modo de malkitin os pombos do pombal e os pombos do sótão, e não é preciso dizer que não se alimentam pelo modo de mehalketin.”
Que é mehalketin e que é malkitin? Se dizes que mehalketin é que lhe dá de comer na mão, e malkitin, que se lança a comida diante deles, deduz-se que aos pombos do pombal e aos pombos do sótão também lançar a comida diante deles não é permitido? Que esforço há nisso?
“Que lhe dá de comer na mão” — enfia-lhe a comida dentro da boca.
“Mas os pombos do pombal etc.” — dito em espanto: e por que não? Que esforço há?
Antes, acaso não é assim: mehalketin é pôr a comida num lugar de onde a ave não consegue devolvê-la, e malkitin, num lugar de onde consegue devolvê-la? E, já que o mehalketin das aves corresponde à halata que a mishná permite, deduz-se que a hamra’a é feita com um utensílio, e isto é uma refutação de Rav Yehuda!
“Antes, acaso não etc.” — e, já que o mehalketin da mishná, num lugar de onde não consegue devolvê-la, também é permitido, deduz-se daí que a halata dos bezerros e dos camelos se faz num lugar de onde não consegue devolvê-la, e é permitida; só que, a respeito do animal, chama-se halata, e a respeito das aves chama-se hilkut. E forçosamente o “não se faz hamra’a”, que a mishná proíbe, é com um utensílio.
Rav Yosef argumenta que, se malkitin fosse simplesmente lançar o grão, não haveria razão para proibi-lo aos pombos. Logo, os dois termos se distinguem pela profundidade; e, como pôr a comida fundo com a mão é permitido às galinhas, a hamra’a proibida só pode ser a feita com um utensílio, como diz Rav Chisda, e não como Rav Yehuda.
Rav Yehuda te dirá: Na verdade, mehalketin é que lhe dá de comer na mão, e malkitin, que se lança a comida diante deles. E o que te é difícil, que aos pombos do pombal e aos pombos do sótão também lançar a comida diante deles não é permitido: estes, as galinhas e os gansos, o seu sustento cabe a ti; e estes, os pombos, o seu sustento não cabe a ti.
Como foi ensinado numa baraita: “Põe-se comida diante do cão no Shabat, mas não se põe comida diante do porco. E qual é a diferença entre este e aquele? Este, o seu sustento cabe a ti; e aquele, o seu sustento não cabe a ti.”
“Na verdade, mehalketin é que lhe dá de comer na mão” — e num lugar de onde a ave consegue devolvê-la.
“O seu sustento não cabe a ti” — pois a comida lhes é comum no campo.
“O porco, o seu sustento não cabe a ti” — pois maldito é o judeu que cria porcos.
Rav Yehuda mantém a sua leitura: aos pombos não se dá comida no Shabat, nem mesmo lançando-a, porque eles se alimentam sozinhos no campo e o seu sustento não depende do dono. O mesmo critério separa o cão, que depende de quem o cria, do porco, que um judeu não deve criar.
Disse Rav Ashi: Também a mishná é precisa neste sentido: “Não se põe água diante das abelhas e diante dos pombos que estão no pombal, mas põe-se diante dos gansos, e diante das galinhas, e diante dos pombos hardisiyot.” Qual é a razão dessa distinção? Acaso não é porque estes, o seu sustento cabe a ti, e estes, o seu sustento não cabe a ti?
“Também a mishná é precisa” — pois nem mesmo lançar algo diante deles é permitido.
Mas, segundo o teu raciocínio, por que a mishná fala especificamente de água? Nem mesmo trigo e cevada seria permitido! Antes, a água é diferente, pois se encontra no lago, e não é preciso esforçar-se para dá-la às abelhas e aos pombos.
“Pois se encontra no lago” — mas comida não lhes é comum.
Rav Ashi quer apoiar Rav Yehuda na própria mishná, que nega água às abelhas e aos pombos do pombal. A guemará recusa a prova: se o motivo fosse o sustento, a mishná teria proibido também o trigo e a cevada; o que distingue a água é que esses animais a encontram facilmente no lago.
Rabi Yona expôs à entrada da casa do Nasi: Que é o que está escrito: “O justo conhece a causa dos pobres” (Mishlei 29:7)? O Santo, bendito seja, sabe do cão que o seu sustento é escasso; por isso, a sua comida permanece nas suas entranhas três dias, para que se sustente com ela.
Como aprendemos numa mishná: “Quanto tempo a comida permanece nas suas entranhas sem ser digerida, e é impura, se o animal comeu carne de um morto? No cão, três dias de vinte e quatro horas; e nas aves e nos peixes, o tempo suficiente para a comida cair no fogo e ser queimada.”
“Que o seu sustento é escasso” — pois ninguém tem pena dele para lhe dar muita comida.
“Quanto tempo permanece nas suas entranhas” — pois o cão que comeu carne de um morto, e o cão morreu dentro de casa dentro de três dias, torna impuro tudo o que está sob o mesmo teto; mas, em vida, não torna impuro, pois a impureza engolida, nos seres vivos, não torna impuro, como se diz no capítulo Behemá Hamakshá (Chulin 71b).
Rabi Yona lê o versículo de Mishlei como dito sobre Deus, o Justo, que conhece a necessidade do mais pobre dos animais: como o cão recebe pouca comida, ela lhe fica três dias no ventre. A prova vem da lei de impureza, que conta três dias para a carne de um morto engolida pelo cão.
Disse Rav Hamnuna: Deduz-se daí que é boa conduta lançar um pedaço de carne ao cão. E quanto? Disse Rav Mari: A medida da sua orelha, e o bastão atrás dele, isto é, bate-se nele em seguida, para que não se apegue a quem o alimenta.
Isto vale no campo, mas na cidade, não, pois o cão virá a se apegar a ele e a segui-lo. Disse Rav Pappa: Não há quem seja mais pobre que o cão, e não há quem seja mais rico que o porco.
“Deduz-se daí” — do fato de o versículo dizer que o Santo, bendito seja, se preocupou com o seu sustento.
“A medida da sua orelha” — pouco, o tamanho da sua orelha; “e o bastão atrás dele” — que lhe bata com um bastão logo, para que não o acostume a ficar junto de si.
“Mas na cidade, não” — não lhe dê nada, se o cão não for seu.
“Porque virá a se apegar” — atrás dele, e os cães causarão prejuízo.
“Não há quem seja mais rico que o porco” — pois toda comida lhe é apropriada, e acha o que comer, e também lhe dão muito de comer.
Do cuidado divino com o cão, Rav Hamnuna tira uma regra de conduta: dar-lhe um pedaço de carne. Rav Mari limita a porção a um bocado pequeno e manda afastá-lo depois, e só fora da cidade, para que o animal não passe a seguir quem o alimentou. Rav Pappa resume o contraste: o cão é o mais pobre, o porco, que come de tudo, o mais rico.
Foi ensinado numa baraita conforme Rav Yehuda: “Qual é a hamra’a e qual é a halata? A hamra’a: ele deita o animal no chão, abre-lhe a boca à força e dá-lhe de comer ervilhacas e água de uma só vez. A halata: dá-lhe de comer em pé e dá-lhe de beber em pé, e põem-se as ervilhacas à parte e a água à parte.”
“Conforme Rav Yehuda” — que a hamra’a é num lugar de onde o animal não consegue devolvê-la.
“Abre-lhe a boca à força” — põe um gancho dentro da sua boca, para que não possa fechar a boca.
“E dá-lhe de comer ervilhacas e água de uma só vez” — e a água faz as ervilhacas descerem para dentro da garganta, contra a sua vontade.
“Dá-lhe de comer em pé” — põe a comida dentro da sua boca; e, enquanto não o deita, não consegue enfiá-la tanto, e o animal consegue devolvê-la.
A baraita confirma Rav Yehuda: a hamra’a se distingue pela força e pela profundidade, deitando o animal e fazendo a comida descer com água, sem que ele possa expeli-la. A halata é dar a comida ao animal em pé, de modo que ele ainda pode devolvê-la.
Aprendemos na mishná: “Alimentam-se as galinhas pelo modo de mehalketin etc.” Disse Abaie: Eu disse isto diante do Mestre, Rabba: De quem é a mishná? E ele me disse: É de Rabi Yosei bar Yehuda.
Pois foi ensinado numa baraita: “Um põe a farinha e outro põe água nela: o último é culpado por amassar; são palavras de Rabi. Rabi Yosei bar Yehuda diz: Não é culpado até que amasse.”
“De quem é a mishná” — que ensina que se põe água no farelo, pois pôr água não é o seu amassar.
A mishná permite pôr água no farelo, mas não amassá-lo. Rabba atribui isso a Rabi Yosei bar Yehuda, para quem só amassar de fato é a obra proibida, ao passo que, para Rabi, já quem derrama a água sobre a farinha é culpado.
Talvez Rabi Yosei bar Yehuda não tenha dito a sua regra ali senão quanto à farinha, que é passível de amassar; mas quanto ao farelo, que não é passível de amassar, até Rabi Yosei bar Yehuda concorda que pôr-lhe água é proibido.
Não te venha à mente, pois foi ensinado explicitamente numa baraita: “Não se põe água no farelo; são palavras de Rabi. Rabi Yosei bar Yehuda diz: Põe-se água no farelo.”
“Até Rabi Yosei concorda” — que isto é o seu amassar.
A objeção sugere que o farelo, que não forma massa, teria como amassar o simples derramar da água, de modo que até Rabi Yosei bar Yehuda o proibiria. Uma baraita explícita desfaz a dúvida: Rabi Yosei bar Yehuda permite pôr água no farelo.
Ensinaram os Sábios: “Não se amassa o kali (farinha de grão tostado). E há quem diga: Amassa-se.” Quem é o “há quem diga”? Disse Rav Chisda:…
“Kali” — farinha de cereal que se secou quando os grãos estavam tostados no forno; e essa farinha é sempre doce, e é a chamada kimcha de’avshuna, e faz-se dela shetita (uma papa) de azeite, água e sal que se misturam nela.
Uma nova baraita traz uma divergência sobre amassar a farinha de grão tostado no Shabat. A guemará começa a identificar a autoria da opinião “há quem diga”; a resposta de Rav Chisda prossegue na página seguinte.