Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich)
פְּקִיעֵי עָמִיר

O cesto na estaca e a escada na palmeira; desatar os feixes diante do animal; esforçar-se com o alimento ou torná-lo alimento

Shabbat 155a · Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) · a guemará prossegue em 155b

O daf continua diretamente de 154b, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a objeção de Rav Mesharshiya a Rava: o eruv posto num cesto pendurado numa estaca cravada na árvore vale abaixo de dez palmos, o que parece proibir os lados e permitir os lados dos lados. Rav Pappa responde que se trata de um cesto apertado, que sacode a própria árvore, e a guemará fixa a halachá: os lados são proibidos, os lados dos lados permitidos; Rav Ashi aplica a regra à escada encostada na palmeira. Abre-se uma nova mishná sobre o alimento do animal no Shabat: desatar os feixes de cereal, espalhar os kifin e não os zirin, e não esmagar a forragem nem as alfarrobas, com a exceção de Rabi Yehuda para o animal miúdo. Rav Huna e Rav Yehuda explicam os termos de modos opostos, segundo Rav Chisda e Rava: um permite esforçar-se com o alimento e proíbe torná-lo alimento, o outro o contrário. A guemará objeta a Rav Huna pela forragem macia e pelo animal “miúdo” de Rabi Yehuda, a dificuldade permanece, e o daf termina no início de uma nova prova, “cortam-se…”. A discussão prossegue em Shabbat 155b.

A objeção de Rav Mesharshiya: o cesto pendurado na estaca · נָעַץ יָתֵד בָּאִילָן

1752O eruv no cesto pendurado na árvore
Rav Mesharshiya
יָתֵד בָּאִילָן וְתָלָה בָּהּ כַּלְכַּלָּה. לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים — אֵין עֵירוּבוֹ עֵירוּב. לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים — עֵירוּבוֹ עֵירוּב.

“Se cravou uma estaca na árvore e pendurou nela um cesto, no qual pôs o alimento do seu eruv (junção dos limites do Shabat): se o cesto estava acima de dez palmos do chão, o seu eruv não é eruv válido; se estava abaixo de dez palmos, o seu eruv é eruv válido.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yated”, “vetala bah kalkalá” e “lemata mi’assará tefachim”
יתד - נגר: ותלה בה כלכלה - ונתן בה עירובו והוא נתכוון לשבות למטה תחת האילן: למטה מי' טפחים - אם הכלכלה בתוך י' לארץ עירובו עירוב דהוא ועירובו ברה"ר אבל למעלה מי' וסתם כלכלה רחבה ארבעה הויא לה כלכלה רשות היחיד והוא נתכוין לשבות ברשות הרבים ואינו יכול ליטלו שם ולאכלו וכיון דאינה סעודה הראויה לו אינו קונה שביתה על ידה:

“Uma estaca” — isto é, um pino.

“E pendurou nela um cesto” — e pôs nele o seu eruv, e ele pretendia fixar a sua residência de Shabat embaixo, sob a árvore.

“Abaixo de dez palmos” — se o cesto está dentro de dez palmos do chão, o seu eruv é eruv, pois ele e o seu eruv estão no domínio público. Mas, se está acima de dez, e um cesto comum tem quatro palmos de largura, o cesto torna-se domínio privado; e ele pretendia residir no domínio público, e não pode tomar o eruv dali e comê-lo. E, já que não é uma refeição apta para ele, não adquire residência por meio dela.

1753Sem a estaca: o uso dos lados da árvore
Dedução da guemará
טַעְמָא דְּנָעַץ יָתֵד בָּאִילָן, הָא לֹא נָעַץ, אֲפִילּוּ לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים אֵין עֵירוּבוֹ עֵירוּב. וְהָא הַאי תַּנָּא דְּקָאָסַר בִּצְדָדִין, וְקָשָׁרֵי בְּצִדֵּי צְדָדִין!

Daqui se deduz: a razão da regra é que cravou uma estaca na árvore; mas, se não cravou a estaca e atou o cesto à própria árvore, mesmo abaixo de dez palmos o seu eruv não é eruv, porque, ao tomar o pão, faria uso dos lados da árvore. E eis que este tanaíta proíbe o uso dos lados e permite o dos lados dos lados, contra o que disse Rava!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ta’ama denatz yated”
טעמא דנעץ יתד - דכי שקיל לעירובו משתמש בצדי צדדין אבל לא נעץ יתד אלא קשרה בצדי אילן לא:

“A razão é que cravou uma estaca” — pois, quando toma o seu eruv, faz uso apenas dos lados dos lados; mas, se não cravou uma estaca e sim atou o cesto aos lados da árvore, não é eruv.

Nota

O eruv de limites só vale se, no início do Shabat, o alimento estiver num lugar de onde a pessoa poderia tomá-lo. Com a estaca, quem pega o pão usa o cesto, que está preso à estaca, que está presa à árvore: são os “lados dos lados”. Sem a estaca, usaria diretamente os “lados” da árvore. A baraita parece, portanto, proibir os lados e permitir os lados dos lados, o que contradiz Rava, para quem quem proíbe uns proíbe também os outros.

1754Rav Pappa: o cesto apertado; a halachá
Rav Pappa
אָמַר רַב פָּפָּא: הָכָא בְּכַלְכַּלָּה דְּחוּקָה עָסְקִינַן, דְּבַהֲדֵי דְּשָׁקֵיל לֵיהּ לְעֵירוּב — קָמְנַיֵּד לֵיהּ לְאִילָן, וְקָמִשְׁתַּמֵּשׁ בְּאִילָן גּוּפֵיהּ. וְהִלְכְתָא: צְדָדִין אֲסוּרִין, צִדֵּי צְדָדִין מוּתָּרִין.

Disse Rav Pappa: Aqui tratamos de um cesto apertado, de boca estreita, de modo que, enquanto toma o eruv de dentro dele, move a árvore, e faz uso da própria árvore, e não só dos seus lados. E a halachá é: os lados da árvore ou do animal são proibidos; os lados dos lados são permitidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hacha bechalkalá dechuká”
הכא בכלכלה דחוקה - שפיה צר וקצרה היא ומכניס ידו לתוכה בדוחק הלכך אי ממש הוה קטר לה בצדי אילן כי שקיל ליה לעירוביה מניד ליה לאילן הלכך כי איכא יתד הוא דשרי ואי לא לא:

“Aqui, num cesto apertado” — cuja boca é estreita, e é curto, e ele introduz a mão nele com dificuldade. Por isso, se de fato o tivesse atado aos lados da árvore, quando tomasse o seu eruv moveria a árvore. Por isso, quando há uma estaca, é permitido; e, se não, não.

Nota

Rav Pappa salva a posição de Rava: sem a estaca, a proibição não vem do uso dos lados, mas de que, ao enfiar a mão no cesto estreito atado ao tronco, a pessoa sacode a própria árvore. A guemará fixa então a halachá: o uso dos lados é proibido, o dos lados dos lados é permitido.

1755Rav Ashi: a escada encostada na palmeira
Rav Ashi
אָמַר רַב אָשֵׁי: הַשְׁתָּא דְּאָמְרַתְּ צְדָדִין אֲסוּרִין, הַאי דַּרְגָּא דְּמִדַּלְיָא — לָא לַינְּחֵיהּ אִינִישׁ אַדִּיקְלָא, דְּהָווּ לְהוּ צְדָדִין. אֶלָּא, לַינְּחֵיהּ אַגְּווֹאזֵי לְבַר מִדִּיקְלָא, וְכִי סָלֵיק — לָא לַינַּח כַּרְעֵיהּ אַגְּווֹאזֵי, אֶלָּא לִיתְּנַח אַקָּנִין.

Disse Rav Ashi: Agora que disseste que os lados são proibidos, esta escada pela qual se sobe a um lugar elevado, uma pessoa não a apoie na palmeira, pois seriam uso dos lados. Antes, apoie-a sobre estacas que saem para fora da palmeira; e, quando subir, não ponha o pé sobre as estacas, mas ponha-o sobre as canas da escada.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hai darga demidalya”, “la linecheih”, “ela linecheih aguevazei levar midikla” e “vechi salek”
האי דרגא דמדלא - סולם שעולין בו לסוכת נוצרים שעושין ע"ג קונדיסין גבוהין והיא סמוכה לאילן: לא לינחיה - ראש הסולם אדיקלא לא יסמוך ראש הסולם לצד דקל דכי סליק משתמש בצדדין: אלא לינחיה אגוואזי לבר מדיקלא - יתקע יתד בצדי האילן ויסמוך הסולם עליו דהוה ליה יתד צדדים וסולם צדי צדדין: וכי סליק לא לינח כרעיה על היתד אלא אקניא - על שליבות הסולם או קנים היוצאים מהקונדיסין:

“Esta escada que se ergue” — uma escada pela qual se sobe à cabana dos guardas, que se faz sobre postes altos, e a escada está encostada à árvore.

“Não a apoie” — o topo da escada, na palmeira: não apoie o topo da escada no lado da palmeira, pois, quando sobe, faz uso dos lados.

“Antes, apoie-a sobre estacas fora da palmeira” — crave uma estaca nos lados da árvore e apoie a escada sobre ela, de modo que a estaca fica sendo os lados, e a escada, os lados dos lados.

“E quando subir, não ponha o pé sobre a estaca, mas sobre as canas” — isto é, sobre os degraus da escada, ou sobre as canas que saem dos postes.

Nota

Aplicação prática da halachá: a escada apoiada diretamente na palmeira seria uso dos lados; apoiada sobre estacas cravadas no tronco, torna-se uso dos lados dos lados, que é permitido. Mesmo assim, quem sobe deve pisar só nos degraus, e não nas estacas, que já são os lados da árvore.

Nova Mishná: desatar os feixes diante do animal · מַתִּירִין פְּקִיעֵי עָמִיר

1756Mishná: os feixes, os kifin e os zirin; a forragem e as alfarrobas
Mishná
מַתְנִי׳ מַתִּירִין פְּקִיעֵי עָמִיר לִפְנֵי בְּהֵמָה, וּמְפַסְפְּסִין אֶת הַכִּיפִין, אֲבָל לֹא אֶת הַזִּירִין. אֵין מְרַסְּקִין לֹא אֶת הַשַּׁחַת וְלֹא אֶת הֶחָרוּבִין לִפְנֵי בְּהֵמָה, בֵּין דַּקָּה וּבֵין גַּסָּה. רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר בֶּחָרוּבִין לַדַּקָּה.

MISHNÁ. Desatam-se os peki’in (feixes) de cereal ceifado diante do animal no Shabat, e espalham-se os kifin, mas não os zirin, termos que a guemará explicará. Não se esmagam nem a forragem nem as alfarrobas diante do animal, para facilitar-lhe o comer, seja para o animal miúdo, seja para o graúdo. Rabi Yehuda permite esmagar as alfarrobas para o animal miúdo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin peki’ei amir”, “mefasfesin”, “et hakifin”, “ein merasskin”, “shachat” e “Rabi Yehuda matir becharuvin ladaká”
מתני' פקיעי עמיר - קשין של שבלים (שאותם) שאוגדים מתירין אותם שיהו נוחין לבהמה לאוכלה: מפספסין - שכן דרך שמפזרים לבהמה העשבים ויפין לה לאוכלן שכשהן דחוקין מתחממין ואינה מריחה ריחה כל כך וקצה בהן: את הכיפין - מפרש בגמרא וכן זירין: אין מרסקין - אין מחתכין: שחת - עשב של תבואה והוא אספסתא ומשום דטירחא דלא צריך הוא: רבי יהודה מתיר בחרובין לדקה - ששיניה דקות וקשין לה:

“MISHNÁ. Feixes de cereal ceifado” — hastes de espigas que se atam em feixes; desatam-nas para que sejam cômodas ao animal para comê-las.

“Espalham-se” — pois é costume espalhar as ervas para o animal, e assim ficam melhores para ele comê-las; pois, quando estão apertadas, aquecem-se, e o animal não lhes sente tanto o cheiro, e enjoa delas.

“Os kifin” — explica-se na guemará, e assim também os zirin.

“Não se esmagam” — isto é, não se cortam.

“Forragem” — erva de cereal, que é a aspasta (alfafa); e é proibido por ser um esforço de que não há necessidade.

“Rabi Yehuda permite, quanto às alfarrobas, para o miúdo” — pois os seus dentes são finos, e elas lhe são duras.

Nota

A mishná trata do preparo da comida do animal no Shabat. Desatar os feixes e espalhar a palha é permitido; com os zirin a mishná é mais restritiva. Esmagar a forragem ou as alfarrobas é vedado, por ser esforço desnecessário, e Rabi Yehuda abre exceção para o animal miúdo, que não consegue mastigar as alfarrobas duras.

Guemará: esforçar-se com o alimento ou torná-lo alimento · מִטְרַח בְּאוּכְלָא

1757Rav Huna: os zirin são ramos de cedro
Rav Huna e Rav Chisda
גְּמָ׳ אָמַר רַב הוּנָא: הֵן הֵן פְּקִיעִין, הֵן הֵן כִּיפִין. פְּקִיעִין תְּרֵי, כִּיפִין תְּלָתָא, זִירִין — דְּאַרְזֵי. וְהָכִי קָאָמַר: מַתִּירִין פְּקִיעֵי עָמִיר לִפְנֵי בְּהֵמָה, וּמְפַסְפְסִין. וְהוּא הַדִּין לְכִיפִין, אֲבָל לֹא אֶת הַזִּירִין — לֹא לְפַסְפֵס וְלֹא לְהַתִּיר. אָמַר רַב חִסְדָּא: מַאי טַעְמָא דְּרַב הוּנָא קָא סָבַר לְמִטְרַח בְּאוּכְלָא — טָרְחִינַן, לְשַׁוּוֹיֵי אוּכְלָא לָא מְשַׁוֵּינַן.

GUEMARÁ. Disse Rav Huna: São o mesmo tipo de coisa os peki’in e os kifin, ambos feixes de hastes de cereal: os peki’in são atados com dois laços, os kifin com três; os zirin são ramos de cedro. E assim diz a mishná: desatam-se os feixes de cereal ceifado diante do animal e espalham-se também; e o mesmo vale para os kifin; mas não os zirin, nem para espalhar nem para desatar. Disse Rav Chisda: Qual é a razão de Rav Huna? Ele entende que esforçar-se com o alimento, nós nos esforçamos; tornar algo alimento, não o tornamos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “guemará hen hen peki’in hen hen kifin”, “kifin telat”, “zirin de’arza”, “vehachi ka’amar” e “mitrach be’uchla”
גמ' הן הן פקיעין הן הן כיפין - כולן קשין של שבלין הן מיהו פקיעין תרי שאינן קשורין אלא בשני ראשים: כיפין תלת - קשורין ג' [אגודים]: זירין דארזא - ענפים לחין של ארז שמזרדין אותם ובעודם לחין ראויין לבהמה ורוב בני אדם מניחין אותם לעצים: וה"ק מתירין פקיעי עמיר ומפספסין - דכיון דמעיקרא אוכלא נינהו מותר לטרוח בהן להכשירם למתקן לה ואת הכיפין אף הן מתירין ומפספסין ואע"ג דנפיש טרחייהו אבל לא הזירין לא לפספס ולא להתיר דכיון דמעיקרא סתמייהו לאו אוכלא והשתא הוא דמשוי להו אוכלא ה"ל אולודי אוכלא בשבת: מיטרח באוכלא - בדבר שתחילתו אוכל קודם תיקון זה טרחינן ומכשרינן לייפותן לה:

“GUEMARÁ. São o mesmo os peki’in e os kifin” — todos eles são hastes de espigas; contudo, os peki’in são dois, pois só estão atados nas duas extremidades.

“Kifin, três” — atados em três feixes.

“Zirin são de cedro” — ramos verdes de cedro que se podam; enquanto estão verdes, são aptos para o animal, mas a maioria das pessoas os destina à lenha.

“E assim diz: Desatam-se os feixes de cereal e espalham-se” — pois, como desde o início são alimento, é permitido esforçar-se com eles para prepará-los e melhorá-los para o animal. E os kifin, também a eles se desatam e se espalham, embora o esforço com eles seja maior. Mas não os zirin, nem para espalhar nem para desatar, pois, como originalmente, em geral, não são alimento, e só agora os torna alimento, é como gerar alimento no Shabat.

“Esforçar-se com o alimento” — com algo que já era alimento antes desta preparação, nós nos esforçamos e o preparamos para melhorá-lo para o animal.

Nota

Para Rav Huna, peki’in e kifin são feixes de palha, que já são comida; por isso pode-se desatá-los e espalhá-los, embora seja um esforço. Os zirin, ramos de cedro que em geral se guardam para lenha, não podem ser desatados, porque isso os transformaria em comida no Shabat.

1758Rav Yehuda: os kifin são ramos de cedro
Rav Yehuda e Rava
רַב יְהוּדָה אָמַר: הֵן הֵן פְּקִיעִין, הֵן הֵן זִירִין. פְּקִיעִין תְּרֵי, זִירִין תְּלָתָא, כִּיפִין — דְּאַרְזֵי. וְהָכִי קָאָמַר: מַתִּירִין פְּקִיעֵי עָמִיר לִפְנֵי בְּהֵמָה, אֲבָל פַּסְפּוֹסֵי — לָא, וְכִיפִין — פַּסְפּוֹסֵי נָמֵי מְפַסְפְּסִינַן, אֲבָל לֹא הַזִּירִין, לְפַסְפֵּס אֶלָּא לְהַתִּיר. אָמַר רָבָא: מַאי טַעְמָא דְּרַב יְהוּדָה — קָסָבַר: שַׁוּוֹיֵי אוּכְלָא — מְשַׁוֵּינַן, מִטְרָח בְּאוּכְלָא — לָא טָרְחִינַן.

Rav Yehuda disse: São o mesmo tipo de coisa os peki’in e os zirin: os peki’in são atados com dois laços, os zirin com três; os kifin são ramos de cedro. E assim diz a mishná: desatam-se os feixes de cereal ceifado diante do animal; mas espalhá-los, não. E os kifin, também os espalhamos; mas não os zirin, isto é, não é permitido espalhá-los, mas somente desatá-los. Disse Rava: Qual é a razão de Rav Yehuda? Ele entende que tornar algo alimento, nós o tornamos; esforçar-se com o alimento, não nos esforçamos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hen hen peki’in hen hen zirin” e “vehachi ka’amar”
הן הן פקיעין הן הן זירין - שניהן בקשים של שבלים ומה שהתיר בזה התיר בזה ודקתני אבל לא הזירין אפספוס קאי: וה"ק מתירין פקיעי עמיר - דכל זמן שהוא קשור לאו אוכלא הוא ומתירו לשוויי אוכלא ומשום צער בהמה שרי אבל פספוס לא דסגי ליה בהתרה ואיתעביד אוכלא ופספוסיה לתענוג בעלמא הוא ומטרח באוכל בדבר שהוא כבר אוכל בלא תיקון זה לא טרחינן ומפספסין את הכיפין דארזא דבלאו פספוס לא הוי אוכלא אבל לא את הזירין לפספס אלא להתיר שלשה אוגדיהן בפקיעין דהתרת אוגדיהן שוויי אוכלא הוא:

“São o mesmo os peki’in e os zirin” — ambos são de hastes de espigas, e o que a mishná permitiu num, permitiu no outro; e o que se ensina, “mas não os zirin”, refere-se a espalhar.

“E assim diz: Desatam-se os feixes de cereal” — pois, enquanto está atado, não é alimento, e ele o desata para torná-lo alimento; e, por causa do sofrimento do animal, é permitido. Mas espalhar, não, pois basta-lhe desatar e já se tornou alimento, e espalhá-lo é mero deleite; e esforçar-se com o alimento, com algo que já é alimento sem esta preparação, não nos esforçamos. E espalham-se os kifin de cedro, pois sem espalhar não são alimento. Mas não os zirin, para espalhar, mas somente para desatar os seus três laços, como nos peki’in, pois desatar os seus laços é tornar algo alimento.

Nota

Rav Yehuda inverte o critério: tornar comestível o que não o é, por causa do sofrimento do animal, é permitido; melhorar o que já é comida, não. Por isso, os feixes de palha podem ser desatados, mas não espalhados, e os ramos de cedro, que sem isso não se comem, podem ser espalhados.

1759A forragem macia e os jumentinhos
Objeção a Rav Huna
תְּנַן: אֵין מְרַסְּקִין אֶת הַשַּׁחַת וְאֶת הֶחָרוּבִין לִפְנֵי בְּהֵמָה, בֵּין דַּקָּה וּבֵין גַּסָּה. מַאי לָאו, חָרוּבִין דּוּמְיָא דְשַׁחַת: מָה שַׁחַת דְּרַכִּיכָא, אַף חָרוּבִין דְּרַכִּיכֵי. אַלְמָא לָא טָרְחִינַן בְּאוּכְלָא — וּתְיוּבְתֵּיהּ דְּרַב הוּנָא!

Aprendemos na mishná: “Não se esmagam a forragem e as alfarrobas diante do animal, seja miúdo, seja graúdo.” Acaso não se trata de alfarrobas semelhantes à forragem: assim como a forragem é macia, também as alfarrobas são macias? Logo, não nos esforçamos com o alimento, e isto é uma refutação de Rav Huna!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein merasskin” e “derakichei”
אין מרסקין - סיפא דמתניתין היא וחד טעמא: דרכיכי - כגון חרובין לחין דראויין למאכל בהמה בלא ריסוק וריסוק דידהו לתענוג בעלמא:

“Não se esmagam” — é a cláusula final da mishná, e tem uma só razão com a primeira.

“Macias” — como alfarrobas frescas, que são aptas para alimento do animal sem esmagar, e esmagá-las é mero deleite.

1760Forragem dura para jumentinhos pequenos
Resposta em nome de Rav Huna
אָמַר לְךָ רַב הוּנָא: לָא, שַׁחַת דּוּמְיָא דְּחָרוּבִין: מָה חָרוּבִין דַּאֲקוֹשֵׁי, אַף שַׁחַת דַּאֲקוֹשֵׁי. הֵיכִי מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ? בְּעִילֵי זוּטְרֵי.

Rav Huna te dirá: Não; trata-se de forragem semelhante às alfarrobas: assim como as alfarrobas são duras, também a forragem é dura. Como encontras isso, uma forragem tão dura que o animal não a coma? Com jumentinhos pequenos, que só a comem bem esmagada.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “de’akushei” e “be’ilei zutrei”
דאקושי - קשין כגון שיבשו: בעילי זוטרי - עיירים קטנים שאף השחת קשה להם וצריכה ריסוק לשוויי אוכלא:

“Duras” — isto é, rijas, como quando secaram.

“Com jumentinhos pequenos” — jumentos pequenos, para os quais até a forragem é dura, e precisa ser esmagada para torná-la alimento.

Nota

A objeção lê a mishná como se falasse de alimento já comestível, o que proibiria o esforço com o alimento, contra Rav Huna. Rav Huna responde que a mishná fala de alimento duro, que o animal não come sem esmagar: proibi-lo seria proibir tornar algo alimento, exatamente o que ele sustenta.

1761Rabi Yehuda e o animal “miúdo”
Segunda objeção
תָּא שְׁמַע: רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר בֶּחָרוּבִין לַדַּקָּה. לַדַּקָּה — אִין, לְגַסָּה — לָא. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא תַּנָּא קַמָּא סָבַר: מִיטְרָח בְּאוּכְלָא לָא טָרְחִינַן, שַׁוּוֹיֵי מְשַׁוֵּינַן, הַיְינוּ דְּקָא אָמַר רַבִּי יְהוּדָה חָרוּבִין לַדַּקָּה נָמֵי שַׁוּוֹיֵי אוּכְלָא הוּא. אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ תַּנָּא קַמָּא סָבַר שַׁוּוֹיֵי אוּכְלָא לָא מְשַׁוֵּינַן, מִיטְרָח בְּאוּכְלָא טָרְחִינַן — רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר בֶּחָרוּבִין לַדַּקָּה, כׇּל שֶׁכֵּן לְגַסָּה!

Vem e ouve: “Rabi Yehuda permite esmagar as alfarrobas para o miúdo.” Para o miúdo, sim; para o graúdo, não. Compreende-se, se dizes que o primeiro tanaíta entende: esforçar-se com o alimento, não nos esforçamos; tornar algo alimento, nós o tornamos; é isto o que Rabi Yehuda diz a ele: dar alfarrobas ao miúdo também é tornar algo alimento, pois o miúdo não consegue comê-las duras. Mas, se dizes que o primeiro tanaíta entende: tornar algo alimento, não o tornamos; esforçar-se com o alimento, nós nos esforçamos — então Rabi Yehuda, que permite as alfarrobas para o miúdo, com mais razão deveria permiti-las para o graúdo!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ladaká in”, “legassá la”, “i amrat bishlama” e “Rabi Yehuda matir becharuvin ladaká”
לדקה אין - דהוה ליה שוויי אוכלא: לגסה לא - דהוה ליה מטרח באוכלא: אי אמרת בשלמא - שמע רבי יהודה לת"ק דאמר מיטרח באוכלין אסור ואין מרסקין ברכיכי קאמר אבל שוויי אוכלא שרי היינו דקאמר ליה רבי יהודה חרובין לדקה לית לן למיסר דשווי אוכלא הוא ואע"ג דרכיכי אלא אי אמרת קסבר ת"ק מיטרח באוכלא שרי שווי אוכלא אסור ואין מרסקין דקאמר בדאקושי קאמר דשויי אוכלא הוי: רבי יהודה מתיר בחרובין לדקה - בתמיה הא כל שכן דלגסה למיטרח באוכלא הוא ושרי הכי ה"ל למיתני ור' יהודה מתיר בחרובין לגסה דהוה ליה מיטרח באוכלא והא ליכא למימר דר' יהודה מפיך דשויי אוכלא שרי מיטרח באוכלא אסיר דהא ת"ק בדאקושי קאמר וגבי גסה נמי שוויי אוכלא הוא וה"ל למיתני ורבי יהודה מתיר סתמא בין דקה בין גסה ועוד הוה ליה למישרי נמי זירין להתיר ולפספס דשוויי אוכלא נמי הוא:

“Para o miúdo, sim” — pois é tornar algo alimento.

“Para o graúdo, não” — pois é esforçar-se com o alimento.

“Compreende-se, se dizes” — Rabi Yehuda ouviu o primeiro tanaíta dizer que esforçar-se com os alimentos é proibido, e que “não se esmagam” se refere às macias, mas tornar algo alimento é permitido. É isto o que Rabi Yehuda lhe diz: as alfarrobas para o miúdo não temos por que proibir, pois é tornar algo alimento, ainda que sejam macias. Mas, se dizes que o primeiro tanaíta entende que esforçar-se com o alimento é permitido e tornar algo alimento é proibido, e o “não se esmagam” que diz se refere às duras, que é tornar algo alimento, surge a dificuldade seguinte.

“Rabi Yehuda permite, quanto às alfarrobas, para o miúdo” — dito em espanto: acaso não deveria permitir com mais razão para o graúdo, já que é esforçar-se com o alimento, e isso é permitido? Assim deveria ensinar: “E Rabi Yehuda permite as alfarrobas para o graúdo”, pois é esforçar-se com o alimento. E não se pode dizer que Rabi Yehuda inverte a posição do primeiro tanaíta, entendendo que tornar algo alimento é permitido e esforçar-se com o alimento é proibido, pois o primeiro tanaíta fala das duras, e também para o graúdo é tornar algo alimento; e então deveria ensinar: “E Rabi Yehuda permite”, sem especificar, tanto para o miúdo quanto para o graúdo. E, além disso, deveria permitir também os zirin, desatar e espalhar, pois também isso é tornar algo alimento.

1762“Miúdo”: o animal exigente com o alimento
Resposta da guemará
מִי סָבְרַתְּ ״דַּקָּה״ — דַּקָּה מַמָּשׁ? מַאי ״דַּקָּה״ — גַּסָּה, וּמַאי קָרֵי לַהּ ״דַּקָּה״ — דְּדָיְיקָא בְּאוּכְלָא.

Acaso pensas que o “miúdo” é um miúdo de fato? Que é o daka (miúdo)? Um animal graúdo. E por que a mishná o chama daka? Porque é dayka (exigente) com o alimento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dedaika”
דדייקא - כוססת יפה ומדקת אוכלין בפיה:

“Exigente” — mastiga bem e tritura os alimentos na boca.

1763Permanece uma dificuldade
A guemará
הָא מִדְּקָתָנֵי רֵישָׁא: ״בֵּין דַּקָּה וּבֵין גַּסָּה״, מִכְּלָל דְּרַבִּי יְהוּדָה ״דַּקָּה״ — דַּקָּה מַמָּשׁ קָאָמַר! קַשְׁיָא.

Mas, pelo fato de que se ensina na primeira cláusula, “seja miúdo, seja graúdo”, deduz-se que Rabi Yehuda, quando diz “miúdo”, fala de um miúdo de fato! Permanece uma dificuldade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veha midekataní reisha”
והא מדקתני רישא בין דקה בין גסה שמע מינה דקה ממש - ורבי יהודה את"ק קאי:

“Mas, pelo fato de que se ensina na primeira cláusula, ‘seja miúdo, seja graúdo’, deduz-se que é um miúdo de fato” — e Rabi Yehuda se refere ao que disse o primeiro tanaíta.

Nota

A guemará tenta provar, pelas palavras de Rabi Yehuda, que o primeiro tanaíta proíbe o esforço com o alimento e permite torná-lo alimento, ao contrário de Rav Huna. A resposta lê “daka” como um animal graúdo, exigente com a comida; a primeira cláusula da mishná, que opõe “miúdo” e “graúdo”, desmente essa leitura, e a dificuldade fica sem solução, embora a opinião de Rav Huna não seja refutada.

1764Uma nova prova: “cortam-se…”
Terceira tentativa
תָּא שְׁמַע: מְחַתְּכִין

Vem e ouve de outra mishná: “Cortam-se…

Nota

A guemará começa a citar outra mishná para decidir entre Rav Huna e Rav Yehuda; a citação prossegue na página seguinte.

O daf termina aqui, no início da nova prova da guemará, que começa com “cortam-se…”. O Perek Vinte e Quatro (Mi Shehechshich, Shabbat 153a:11-157b:3) prossegue em Shabbat 155b.