O daf continua diretamente de 153b, sem qualquer pausa e dentro do Perek Vinte e Quatro, Mi Shehechshich (Shabbat 153a:11-157b:3, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), prosseguindo a discussão sobre quem conduz o seu animal carregado no Shabat. Na versão de Rav Zevid, Rami bar Chama ensina que, por inadvertência, não se traz chatat, mas, intencionalmente, há apedrejamento; Rava objeta a partir da mishná dos apedrejados, e a guemará responde que ela não exclui um caso de apedrejamento sem chatat. Rava, irmão de Rav Mari bar Rachel, e há quem diga seu pai, transmite outra tradição, e a guemará discute essa genealogia à luz da nomeação de Rav Mari entre os oficiais da Babilônia. Em nome de Rabi Yochanan, ele ensina que quem conduz o animal carregado está isento de tudo: não traz chatat, porque toda a Torá foi comparada à idolatria; não é apedrejado, por causa da mishná dos apedrejados; e não recebe açoites, porque se trata de um lav dado como advertência para a pena de morte do tribunal. A discussão prossegue em Shabbat 154b.
Rav Zevid ensinava o ensinamento de Rami bar Chama assim: Disse Rami bar Chama: Quem conduz um animal carregado no Shabat, se o fez por inadvertência, não é obrigado a trazer um chatat; se o fez intencionalmente, é passível de apedrejamento.
“Rav Zevid ensinava” — o ensinamento de Rami bar Chama assim.
“Não é obrigado a chatat” — pois aprendemos da idolatria que não se é obrigado até que se faça uma ação com o próprio corpo.
“Mas, intencionalmente, é passível de apedrejamento” — pela comparação de “tu e o teu animal” (Shemot 20:10), mencionada acima.
Na versão de Rav Zevid, Rami bar Chama aceita a primeira refutação de Rava em 153b: quem apenas conduz o animal não faz uma ação com o próprio corpo, e por isso não traz chatat. Mas mantém a pena de apedrejamento para quem o faz intencionalmente, com base na justaposição “tu e o teu animal” do versículo do Shabat.
Rava objetou: Quem profana o Shabat com algo pelo qual se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, é obrigado a apedrejamento quando o faz intencionalmente. Eis que, por algo pelo qual não se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, não se é obrigado a apedrejamento quando feito intencionalmente! Isso contradiz Rami bar Chama.
Acaso ensina a mishná: “eis que, por algo pelo qual não se é obrigado etc.”? Não; antes, assim diz: por algo pelo qual se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, é-se obrigado a apedrejamento quando feito intencionalmente; e há algo pelo qual não se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência e, ainda assim, se é obrigado a apedrejamento quando feito intencionalmente. E o que é isso? É o mechamer (quem conduz o animal carregado).
“Acaso ensina?” — esta inferência que inferimos, “eis que não se é obrigado etc.”? Talvez diga assim: quem profana o Shabat com algo pelo qual se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, é obrigado a apedrejamento quando o faz intencionalmente; eis que, entre as coisas pelas quais não se é obrigado a chatat quando feitas por inadvertência, há algumas pelas quais se é obrigado a apedrejamento quando feitas intencionalmente, e há outras pelas quais não se é obrigado. E qual é aquela pela qual se é obrigado a apedrejamento quando feita intencionalmente, e não se é obrigado a chatat quando feita por inadvertência? É o mechamer.
“E há quem diga: o pai de Rav Mari bar Rachel” — não lemos estas palavras, pois o pai de Rav Mari se chamava Issur, o convertido. E quem as lê lê depois delas assim: “segundo esta última versão, é difícil aquilo que se conta, que Rav validou Rav Mari bar Rachel e o nomeou entre os pursei da Babilônia”. E esse episódio está no tratado Yevamot (Yevamot 45b). Pursei, em la'az (língua estrangeira, aqui o francês antigo), são menestral; são oficiais. E, embora o mestre tenha dito: “todas as nomeações que fizeres não sejam senão do meio dos teus irmãos”, este, já que a sua mãe era de Israel, lemos a seu respeito: “do meio dos teus irmãos” (Devarim 17:15).
A guemará defende Rami bar Chama: a mishná de Sanhedrin afirma apenas que o que obriga a chatat obriga também a apedrejamento, sem negar que exista um caso que obrigue a apedrejamento sem obrigar a chatat; esse caso é justamente o de conduzir o animal carregado. A segunda parte do comentário de Rashi, sobre Rav Mari bar Rachel, refere-se à passagem seguinte: segundo Rashi, a versão de que Rava era o pai de Rav Mari não deve ser lida, porque o pai dele era Issur, o convertido.
Rava, irmão de Rav Mari bar Rachel, e há quem diga que era o pai de Rav Mari bar Rachel, tinha outra tradição a este respeito. Segundo a última versão, é difícil aquilo que se conta: que Rav validou Rav Mari bar Rachel e o nomeou entre os pursei (oficiais) da Babilônia. Se o seu pai era um sábio, por que era preciso validá-lo pela linhagem da mãe? Talvez tenha havido dois chamados Mari bar Rachel.
Rav Mari bar Rachel era filho de mãe judia e de pai convertido; por isso precisou que a sua linhagem fosse validada antes de ser nomeado para um cargo de autoridade, pois a Torá exige que as nomeações sejam “do meio dos teus irmãos”. Se o seu pai fosse um sábio chamado Rava, essa validação seria desnecessária; a guemará responde que talvez houvesse duas pessoas com esse nome.
Ele ensinava este ensinamento em nome de Rabi Yochanan, para isentar: Disse Rabi Yochanan: Quem conduz o seu animal carregado no Shabat está isento de tudo.
Se o fez por inadvertência, não é obrigado a chatat, porque toda a Torá foi comparada à idolatria, e só se é obrigado por uma ação feita com o próprio corpo. Se o fez intencionalmente, também não é obrigado a apedrejamento, pois aprendemos na mishná: Quem profana o Shabat com algo pelo qual se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, e a apedrejamento quando feito intencionalmente. Eis que, por algo pelo qual não se é obrigado a chatat quando feito por inadvertência, não se é obrigado a apedrejamento quando feito intencionalmente.
Também por violar uma proibição simples não é obrigado a açoites, pois é um lav (proibição) que foi dado como advertência para a pena de morte do tribunal; e por todo lav que foi dado como advertência para a pena de morte do tribunal não se aplicam açoites.
“Como advertência para a pena de morte do tribunal” — pois também para os demais trabalhos do Shabat a advertência deles provém deste versículo; por isso foi dado como advertência para a pena de morte do tribunal, pois a Torá não pune com a morte sem antes ter advertido. Por isso, a sua advertência veio essencialmente para o caso em que há pena de morte, e não para açoites.
Segundo Rabi Yochanan, quem conduz o animal carregado não recebe punição alguma: não traz chatat, porque não faz uma ação com o próprio corpo; não é apedrejado, porque a mishná de Sanhedrin liga o apedrejamento ao que obriga a chatat; e não recebe açoites, porque a proibição “não farás trabalho algum” é a advertência que fundamenta a pena capital do Shabat, e uma proibição dada como advertência para a pena de morte do tribunal não acarreta açoites.