O daf continua diretamente de 152a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo o caso do morto sem consoladores na vizinhança de Rav Yehuda: durante os sete dias, dez pessoas sentaram-se no seu lugar, e o falecido apareceu a Rav Yehuda em sonho para agradecer. Rabi Abbahu ensina que o morto sabe tudo o que se diz diante dele até que se feche o golel, e Rabi Chiya e Rabi Shimon, filho de Rabi, divergem entre o fechamento do túmulo e a decomposição da carne, com Iyov 14:22 e Kohelet 12:7. Segue-se a baraita sobre “e o espírito volte a Deus que o deu”, com a parábola do rei que distribuiu vestes reais aos servos sensatos e aos tolos, aplicada aos corpos e às almas dos justos e dos ímpios; Rabi Eliezer ensina que as almas dos justos são guardadas sob o Trono da Glória e as dos ímpios são arremessadas por dois anjos de um extremo ao outro do mundo, e Rav Nachman, em nome de Shmuel, diz que as almas dos ímpios e dos intermediários são entregues a Duma. Rav Mari afirma que até os justos se tornam pó, e o caso de Rav Achai bar Yoshiya, encontrado intacto na sua sepultura, ensina que só a inveja apodrece os ossos. O daf termina no meio da resposta de Rabi Abbahu a um herege sobre a necromante que fez subir Shmuel, com a baraita dos doze meses, que prossegue em Shabbat 153a.
…todos os dias dos sete do luto, Rav Yehuda levava consigo um grupo de dez pessoas, e eles se sentavam no lugar dele, onde o falecido morrera. Depois de sete dias, o falecido apareceu a Rav Yehuda no seu sonho e lhe disse: Que a tua mente repouse, pois fizeste repousar a minha mente.
“Todos os dias” — isto é, os sete dias do luto.
Rav Yehuda pôs em prática a regra que ele mesmo enunciara no fim de 152a: como o vizinho não deixara enlutados, ele reuniu diariamente dez pessoas para receber o consolo no lugar do falecido, e este, em sonho, mostrou que esse consolo lhe dera descanso.
Disse Rabi Abbahu: tudo o que se diz diante do morto, ele sabe, até que se feche o golel (a cobertura do túmulo). Divergiram a respeito disso Rabi Chiya e Rabi Shimon, filho de Rabi Yehuda HaNasi. Um deles disse: o morto sabe até que se feche o golel; e o outro disse: ele sabe até que a carne se decomponha.
“Golel” — é a cobertura que se coloca sobre o seu caixão.
O golel é a pedra ou tampa que fecha o túmulo. Para Rabi Abbahu, até esse momento o morto ainda percebe o que se fala na sua presença; os dois amoraítas divergem sobre quanto dura essa percepção.
Aquele que disse que o morto sabe até que a carne se decomponha apoia-se no que está escrito: “Mas a sua carne sobre ele sofre dor, e a sua alma sobre ele se enluta” (Iyov 14:22). Aquele que disse que ele sabe apenas até que se feche o golel apoia-se no que está escrito: “E volte o pó à terra como era etc.” (Kohelet 12:7), e logo em seguida o espírito volta a Deus.
“E a sua alma sobre ele se enluta” — todo o tempo em que ele tem carne, a alma tem ainda uma parcela de vida para compreender.
“E volte o pó” — o seu corpo é chamado pó, e, desde que volta à terra como era, imediatamente se cumpre “e o espírito volte”, pois já não há nele espírito que perceba.
Segundo a primeira opinião, enquanto resta carne a alma ainda sente o que acontece ao corpo. Segundo a segunda, assim que o corpo é coberto e volta à terra, o espírito retorna a Deus e já não percebe o que se passa junto ao túmulo.
Ensinaram os nossos rabinos: “E o espírito volte a Deus que o deu” (Kohelet 12:7) — quer dizer: dá-o a Ele como Ele to deu; Ele to deu em pureza, também tu devolve-o em pureza. É uma parábola de um rei de carne e sangue que distribuiu vestes reais aos seus servos. Os sensatos dentre eles dobraram-nas e guardaram-nas numa caixa para protegê-las. Os tolos dentre eles foram e trabalharam vestidos com elas. Depois de alguns dias, o rei pediu de volta as suas vestes: os sensatos dentre eles devolveram-lhas passadas, como as haviam recebido; os tolos dentre eles devolveram-lhas sujas. O rei alegrou-se ao encontro dos sensatos e irou-se ao encontro dos tolos.
“Que o deu” — é uma expressão supérflua no versículo, escrita para ser interpretada: sê cuidadoso para devolvê-lo a Ele assim como Ele to deu, limpo, sem pecado.
O versículo poderia ter dito apenas que o espírito volta a Deus; as palavras “que o deu” ensinam que ele deve ser devolvido no mesmo estado em que foi recebido. A parábola das vestes reais ilustra a diferença entre quem preserva o que lhe foi confiado e quem o degrada.
A respeito dos sensatos ele disse: Sejam as minhas vestes entregues ao depósito real, e eles vão para as suas casas em paz. E a respeito dos tolos ele disse: Sejam as minhas vestes entregues ao lavadeiro, e eles sejam encarcerados na prisão, por terem rebaixado as vestes do rei.
“Sejam as minhas vestes entregues ao depósito” — para guardá-las; assim também esta alma é colocada sob o Trono da Glória.
“Ao lavadeiro” — para branqueá-las; assim também esta alma é entregue ao Guehinom, para refiná-la ali.
“Na prisão” — na escuridão, sem luz e sem tranquilidade.
Rashi decifra a parábola: o depósito do rei é o lugar sob o Trono da Glória onde se guardam as almas puras; o lavadeiro é o Guehinom, que purifica a alma manchada; a prisão escura é o castigo de quem a sujou.
Assim age também o Santo, bendito seja Ele: a respeito do corpo dos justos, que são como as vestes bem guardadas, Ele diz: “Virá a paz, repousarão sobre os seus leitos” (Yeshayahu 57:2); e a respeito da sua alma Ele diz: “E a alma do meu senhor estará atada no feixe da vida” (I Shmuel 25:29). E, ao contrário, a respeito do corpo dos ímpios Ele diz: “Não há paz, disse o Eterno, para os ímpios” (Yeshayahu 48:22); e a respeito da sua alma Ele diz: “E a alma dos teus inimigos Ele a arremessará no côncavo da funda” (I Shmuel 25:29).
“O côncavo da funda” — a parte larga da correia, dentro da qual se põe a pedra para atirar; é feita à semelhança de uma palma de mão.
A citação “Não há paz, disse o Eterno, para os ímpios” corresponde, palavra por palavra, a Yeshayahu 48:22; em Yeshayahu 57:21 o versículo quase idêntico diz “disse o meu Deus”. As duas metades de I Shmuel 25:29, palavras de Avigail a David, opõem o destino da alma do justo ao da alma do ímpio.
Foi ensinado numa baraita: Rabi Eliezer diz: as almas dos justos estão guardadas sob o Trono da Glória, como foi dito: “E a alma do meu senhor estará atada no feixe da vida” (I Shmuel 25:29). E as dos ímpios andam continuamente presas, e um anjo está de pé num extremo do mundo e outro anjo está de pé no outro extremo do mundo, e arremessam as suas almas um para o outro, como foi dito: “E a alma dos teus inimigos Ele a arremessará no côncavo da funda” (I Shmuel 25:29).
“No feixe da vida etc.” — e o versículo continua: com o Eterno, teu Deus, junto ao Seu Trono.
“Andam presas” — como bezimama defarzela (a focinheira de ferro) (acima, Shabat 51b): encarceradas na prisão.
Rashi lê a continuação do versículo, “com o Eterno, teu Deus”, como a morada das almas dos justos junto ao Trono. As almas dos ímpios, ao contrário, não têm lugar de repouso e são lançadas de um lado para o outro como a pedra de uma funda.
Rabba disse a Rav Nachman: e as almas dos intermediários, o que acontece com elas? Disse-lhe: Se eu já estivesse morto, não poderia vos dizer esta coisa. Assim disse Shmuel: estas e aquelas, as almas dos ímpios e as dos intermediários, são entregues a Duma. Estas, as dos intermediários, têm descanso; aquelas, as dos ímpios, não têm descanso. Disse Rav Mari: até os corpos dos justos estão destinados a se tornar pó, como está escrito: “E volte o pó à terra como era” (Kohelet 12:7).
“Estas e aquelas” — os ímpios e os intermediários.
“A Duma” — o anjo encarregado dos espíritos.
“A se tornar pó” — mesmo os justos apodrecem e se tornam cinza.
Rav Nachman responde que é uma sorte a pergunta ter sido feita enquanto ele vive, pois só ele guardava essa tradição de Shmuel. Duma, cujo nome evoca o silêncio do túmulo, é o anjo a quem são confiadas as almas dos que não são justos.
Certos kafolaei (cavadores) estavam cavando na terra de Rav Nachman, e chegaram a uma sepultura. Rav Achai bar Yoshiya, que estava enterrado ali, bufou contra eles. Vieram e disseram a Rav Nachman: Um homem bufou contra nós. Rav Nachman veio e lhe disse: Quem é o mestre, isto é, quem és tu? Disse-lhe: Eu sou Achai bar Yoshiya. Disse-lhe: Como o teu corpo se conservou? E não disse Rav Mari: os justos estão destinados a se tornar pó? Disse-lhe: E quem é Mari, que eu não o conheço? Disse-lhe: Mesmo sem Rav Mari, eis que há um versículo escrito: “E volte o pó à terra como era” (Kohelet 12:7)!
“Kafolaei” — cavadores.
“Rabi Achai bufou contra eles” — pois ele estava enterrado ali.
“Que eu não o conheço” — e por isso não me preocupo com as suas palavras.
O verbo usado, nechar, descreve o resfolegar de quem se irrita: o morto protestou contra a perturbação da sua sepultura. Rav Nachman, surpreso ao encontrar o corpo intacto, confronta-o com a opinião de Rav Mari e, em seguida, com o próprio versículo de Kohelet.
Rav Achai disse-lhe: Quem te ensinou a ler o livro de Kohelet não te ensinou a ler o livro de Mishlei, pois está escrito: “E a podridão dos ossos é a inveja” (Mishlei 14:30). Todo aquele que tem inveja no seu coração, os seus ossos apodrecem na sepultura; todo aquele que não tem inveja no seu coração, os seus ossos não apodrecem.
“Quem tem inveja” — e rivalidade contra o seu companheiro.
“Os seus ossos apodrecem” — e a respeito dele foi dito: “e volte ao pó”.
Para Rav Achai, o versículo de Kohelet não se aplica a todos: a decomposição do corpo é consequência da inveja, e quem viveu sem ela tem os ossos preservados.
Rav Nachman apalpou-o e viu que havia nele substância. Disse-lhe: Levante-se o mestre e venha para dentro da casa. Disse-lhe: Deixaste claro que nem sequer os Profetas leste, e não apenas os Escritos, pois está escrito: “E sabereis que Eu sou o Eterno, quando Eu abrir as vossas sepulturas” (Yechezkel 37:13); enquanto Ele não as abrir, não nos é permitido sair delas.
“Levante-se o mestre para dentro” — venha o meu senhor para a casa.
“Quando Eu abrir” — quando Eu fizer subir; até que o Santo, bendito seja Ele, nos faça subir das nossas sepulturas, não temos permissão para subir.
Rav Nachman convida o morto a deixar a sepultura e entrar em sua casa; Rav Achai recusa, pois os mortos só sairão dos túmulos quando o próprio Deus os abrir, na ressurreição.
Rav Nachman disse-lhe: Mas não está escrito: “Pois pó és, e ao pó voltarás” (Bereshit 3:19)? Por que, então, o teu corpo não se tornou pó? Disse-lhe: Aquele versículo se cumpre para os justos apenas uma hora antes da ressurreição dos mortos.
“Mas está escrito: e ao pó voltarás” — e não se pode dizer que isto se aplique apenas aos ímpios, pois de todas as maldições de Adam, o primeiro homem, todas as suas gerações participam igualmente.
A maldição dita a Adam vale para toda a humanidade, e por isso Rav Nachman a opõe a Rav Achai. A resposta é que, para os justos, ela se cumprirá apenas por um instante, uma hora antes da ressurreição, para que sejam formados de novo.
Disse um certo min (herege) a Rabi Abbahu: Vós dizeis que as almas dos justos estão guardadas sob o Trono da Glória. A necromante de ossos, como fez subir Shmuel por meio da feitiçaria, se a sua alma já não estava neste mundo? Disse-lhe: Ali foi dentro dos doze meses após a sua morte, pois foi ensinado numa baraita: durante todos os doze meses, o corpo do falecido subsiste e a sua alma sobe e desce, estando às vezes neste mundo junto ao corpo. Depois de doze meses, o corpo deixa de existir…
“A necromante de ossos” — a mulher do ov, que se serve de ossos: tamia, em língua aramaica, significa ossos; e assim explicou Rav Hai, no seu comentário a Taharot: “uma casa que está cheia de tamia”, isto é, cheia de ossos.
“Por meio da feitiçaria” — assim se chamam, em língua aramaica, as feiticeiras do ov.
O herege alude ao episódio da necromante de Ein Dor, que fez subir Shmuel diante de Shaul (I Shmuel 28). Rabi Abbahu responde que Shmuel morrera havia menos de doze meses, período em que a alma ainda sobe e desce. A baraita prossegue em 153a.