Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Três (Sho'el)
אֵין מְעַצְּמִין אֶת הַמֵּת

O queixo atado e a viga escorada; ungir o morto; nova mishná: não fechar os olhos do morto; o vivo e o morto; a roda que gira no mundo; as lágrimas e o colírio

Shabbat 151b · Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) · o daf prossegue em 152a

O daf continua diretamente de 151a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), completando a mishná sobre as necessidades do morto no Shabat: deita-se o morto sobre a areia para retardar a decomposição, ata-se o queixo para que a boca não se abra mais, e escora-se a viga quebrada para que não ceda mais, sem erguê-la. Na guemará, o caso do discípulo de Rabi Meir, a quem se proibiu lavar e ungir o chão da casa de banhos, não contradiz a permissão de ungir o morto, pois o chão se confunde com o chão e o morto não; o “todas” da mishná inclui os utensílios frios sobre o ventre e o tapar dos orifícios, e Kohelet 12:6 é lido como descrição do corpo que se desfaz, com o “excremento das vossas festas” de Malachi. Abre-se então uma nova mishná: não se fecham os olhos do morto no Shabat, e quem os fecha no momento da saída da alma derrama sangue. A guemará compara o moribundo à lâmpada que se vai apagando e traz o conselho de Rabban Shimon ben Gamliel; seguem-se o bebê de um dia vivo e David morto, “entre os mortos, livre”, o bebê e Og, o leão que não se lança sobre dois e a proibição de dormir sozinho em casa; Rabi Shimon ben Elazar ensina “faz enquanto encontras” e lê os dias do mal e os anos sem prazer como a velhice e os dias do Mashiach, contra Shmuel; Rabi Elazar HaKappar e a casa de Rabi Yishmael falam da roda que gira no mundo, com o pão de Rabi Chiyya e a misericórdia ensinada por Rabi Gamliel, filho de Rabi; e Kohelet 12:2 leva às lágrimas e ao colírio depois dos quarenta anos. O daf termina no meio da lista das seis lágrimas, ensinada por Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei ben Katzarta, que prossegue em Shabbat 152a.

Continuação da Mishná: atar o queixo e escorar a viga · קוֹשְׁרִין אֶת הַלֶּחִי

1651Continuação da Mishná: retardar a decomposição; atar o queixo; escorar a viga quebrada
Mishná · continuação de 151a
שֶׁיַּמְתִּין. קוֹשְׁרִין אֶת הַלֶּחִי, לֹא שֶׁיַּעֲלֶה, אֶלָּא שֶׁלֹּא יוֹסִיף. וְכֵן קוֹרָה שֶׁנִּשְׁבְּרָה — סוֹמְכִין אוֹתָהּ בְּסַפְסָל אוֹ בַּאֲרוּכּוֹת הַמִּטָּה, לֹא שֶׁתַּעֲלֶה, אֶלָּא שֶׁלֹּא תּוֹסִיף.

…que se retarde a decomposição. Do mesmo modo, ata-se o queixo do morto cuja boca vai se abrindo, não para que suba de volta ao seu lugar, mas para que não continue a abrir-se. E assim também uma viga do telhado que se quebrou no Shabat: escora-se com um banco ou com as traves compridas da cama, não para que suba de volta ao seu lugar, mas para que não continue a ceder.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “sheyamtin”, “korshin et halechi”, “lo sheya'aleh”, “somchin otah bessafsal” e “lo sheta'aleh”
שימתין - שלא יסריח מחמת חום הסדין והכרים: קושרין את הלחי - של מת שהיה פיו הולך ונפתח קושרין את לחייו כדי שלא יפתח פיו יותר: ולא שיעלה - להסגר ממה שנפתח דהיינו מזיז אבר אלא שלא יוסיף ליפתח: סומכין אותה בספסל - שהרי תורת כלי עליו: לא שתעלה - דהוה ליה בונה:

“Que se retarde” — a decomposição, isto é, que não apodreça por causa do calor do lençol e das almofadas sobre os quais jazia.

“Ata-se o queixo” — de um morto cuja boca ia se abrindo, ata-se o seu queixo para que a sua boca não se abra mais do que já se abriu.

“Não para que suba” — isto é, não se aperta o queixo para se fechar do que se abriu, pois isso é mover um membro do morto, o que é proibido no Shabat; mas apenas para que não continue a abrir-se.

“Escora-se com um banco” — e é permitido manejá-lo, pois tem sobre si o estatuto de utensílio.

“Não para que suba” — a viga de volta ao seu lugar, pois isso seria construir, trabalho proibido no Shabat.

Nota

A mishná iniciada no fim de 151a conclui-se aqui: deita-se o morto sobre a areia para retardar a decomposição; pode-se atar-lhe o queixo para que a boca não se abra mais, mas não fechá-la, o que seria mover um membro. Do mesmo modo, uma viga quebrada pode ser escorada para não cair mais, mas não erguida de volta, o que seria construir.

Guemará: ungir o morto, o “todas” e o ventre que se rompe · מֵת בְּקַרְקַע לָא מִיחַלַּף

1652O discípulo de Rabi Meir na casa de banhos: “o morto não se confunde com o chão”
Rav Yehuda e Shmuel; Rabi Meir e o seu discípulo
גְּמָ׳ וְהָאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מַעֲשֶׂה בְּתַלְמִידוֹ שֶׁל רַבִּי מֵאִיר שֶׁנִּכְנַס אַחֲרָיו לְבֵית הַמֶּרְחָץ, בִּיקֵּשׁ לְהָדִיחַ קַרְקַע, אָמַר לוֹ: אֵין מְדִיחִין. לָסוּךְ קַרְקַע, אָמַר לוֹ: אֵין סָכִין. קַרְקַע בְּקַרְקַע — מִחַלְּפָא, מֵת בְּקַרְקַע — לָא מִיחַלַּף.

GUEMARÁ. Pergunta-se sobre a permissão da mishná de ungir o morto: Mas não disse Rav Yehuda, disse Shmuel: houve um caso com um discípulo de Rabi Meir, que entrou atrás dele na casa de banhos no Shabat; quis lavar o chão, disse-lhe Rabi Meir: não se lava no Shabat; quis ungir o chão com óleo, disse-lhe: não se unge? Daí se conclui que o que não se pode mover não se pode ungir, e o morto também não se pode mover. Responde-se: o chão confunde-se com o chão, e por isso proibiram mesmo num piso de pedras, para que não se venha a fazê-lo num chão de terra e nivelar os buracos; o morto não se confunde com o chão, e por isso é permitido lavá-lo e ungi-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve'amar lo ein sachin” e “karka bekarka michalfa”
גמ' ואמר לו אין סכין - אלמא דבר האסור לטלטל אסור לסוך: קרקע בקרקע מיחלף - כלומר ההוא לאו משום טלטול הוא אלא משום אשוויי גומות ואע"ג דמרחץ רצפת אבנים הוא וליכא למיחש לאשוויי גומות מיחלף מיהא בקרקע אחר:

“GUEMARÁ. E disse-lhe: não se unge” — daí conclui-se que uma coisa que é proibido mover é proibido ungir, e o mesmo valeria para o morto.

“O chão confunde-se com o chão” — isto é, aquilo que Rabi Meir proibiu não é por causa de mover, mas por causa de nivelar buracos no chão; e, embora a casa de banhos seja um piso de pedras e não haja que temer nivelar buracos, em todo caso confunde-se com outro chão de terra.

Nota

Parecia que o caso de Rabi Meir proíbe ungir aquilo que não se pode mover, como o morto. A guemará responde que a proibição de lavar e ungir o chão vem do receio de nivelar buracos num chão de terra, com o qual o piso da casa de banhos se confunde; o morto não se confunde com o chão.

1653“Todas” as necessidades: os utensílios frios sobre o ventre
Anônimo; Baraita
״כֹּל״ לְאֵתוֹיֵי מַאי? לְאֵתוֹיֵי הָא דְּתָנוּ רַבָּנַן: מְבִיאִין כְּלִי מֵיקַר וּכְלֵי מַתָּכוֹת, וּמַנִּיחִין עַל כְּרֵיסוֹ כְּדֵי שֶׁלֹּא תָּפוּחַ. וּפוֹקְקִין אֶת נְקָבָיו כְּדֵי שֶׁלֹּא תִּיכָּנֵס בָּהֶן הָרוּחַ.

“Todas”, na expressão da mishná “todas as necessidades do morto”, vem incluir o quê? Vem incluir isto que ensinaram os Rabanan: trazem-se utensílios de resfriar e utensílios de metal para o morto, e colocam-se sobre o seu ventre, para que não inche. E tapam-se os seus orifícios, para que não entre neles o ar e o faça inchar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol tzorchei hamet le'atuyei mai” e “kli meikar”
כל צרכי המת לאתויי מאי - דלא תנן: כלי מיקר - שמביאים קרירות כגון זכוכית:

“Todas as necessidades do morto, vem incluir o quê” — isto é, inclui algo que não aprendemos explicitamente na mishná.

“Utensílios de resfriar” — que trazem frescor, como o vidro, e assim retardam o inchaço.

Nota

A palavra “todas” da mishná inclui providências que ela não menciona: colocar sobre o ventre do morto objetos frios ou de metal para que não inche, e tapar-lhe os orifícios.

1654“Antes que se rompa o cordão de prata”: a leitura de Kohelet sobre o corpo
Anônimo
וְאַף שְׁלֹמֹה אָמַר בְּחׇכְמָתוֹ: ״עַד שֶׁלֹּא יֵרָתֵק חֶבֶל הַכֶּסֶף״ — זֶה חוּט הַשִּׁדְרָה. ״וְתָרוּץ גּוּלַּת הַזָּהָב״ — זֶה אַמָּה. ״וְתִשָּׁבֶר כַּד עַל הַמַּבּוּעַ״ — זֶה הַכָּרֵס. ״וְנָרוֹץ הַגַּלְגַּל אֶל הַבּוֹר״ — זֶה פֶּרֶשׁ.

E também Shlomo disse na sua sabedoria a respeito da velhice e da morte: “Antes que se rompa o cordão de prata” (Kohelet 12:6) — esta é a medula espinhal. “E se despedace a taça de ouro” — este é o membro viril, que é como uma fonte. “E se quebre o cântaro junto à fonte” — este é o ventre, que incha e se rompe como um cântaro. “E se despedace a roda na cisterna” — este é o excremento, pois a roda, galgal, lembra gelalim, excrementos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve'af Shlomo amar bechochmato”, “ze chut hashidra”, “zo ama”, “ze peresh” e “el habor”
ואף שלמה אמר בחכמתו - שכריסו של מת ניפחת ונבקעת: זה חוט השדרה - שהוא כמין חבל ולבן ככסף: זו אמה - שהוא מעין של תולדה כמו גולות מים (יהושע טו): זה פרש - וגלגל לשון גלל (יחזקאל ד): אל הבור - שנופל לתוך פיו:

“E também Shlomo disse na sua sabedoria” — isto se traz a propósito do que se disse, que o ventre do morto incha e se rompe.

“Esta é a medula espinhal” — que é como uma espécie de cordão, e branca como a prata, e por isso é chamada “cordão de prata”.

“Este é o membro” — que é uma fonte de geração, como se diz “fontes de água” (Yehoshua 15:19), com a mesma palavra que “taça”.

“Este é o excremento” — e “galgal”, roda, é da linguagem de “gelal”, excremento (Yechezkel 4:12).

“Na cisterna” — o excremento que cai para dentro da sua boca, a do morto.

Nota

O versículo de Kohelet sobre a velhice e a morte é lido como descrição do corpo que se desfaz: a medula, o membro, o ventre que incha e se rompe, e o excremento. Daí a necessidade de impedir que o ventre do morto inche.

1655“O excremento das vossas festas”
Rav Huna, ou Rav Chagga; Rabi Levi, Rav Pappi e Rabi Yehoshua
וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״וְזֵרִיתִי פֶרֶשׁ עַל פְּנֵיכֶם פֶּרֶשׁ חַגֵּיכֶם״. אָמַר רַב הוּנָא וְאָמְרִי לַהּ אָמַר רַב חַגָּא: אֵלּוּ בְּנֵי אָדָם שֶׁמַּנִּיחִין דִּבְרֵי תוֹרָה, וְעוֹשִׂין כׇּל יְמֵיהֶם כְּחַגִּים. אָמַר רַבִּי לֵוִי אָמַר רַב פַּפֵּי אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: לְאַחַר שְׁלֹשָׁה יָמִים כְּרֵיסוֹ נִבְקַעַת וְנוֹפֶלֶת לוֹ עַל פָּנָיו, וְאוֹמֶרֶת לוֹ: ״טוֹל מַה שֶּׁנָּתַתָּ בִּי״.

E assim diz o versículo: “E espalharei excremento sobre os vossos rostos, o excremento das vossas festas” (Malachi 2:3). Disse Rav Huna, e alguns o dizem, disse Rav Chagga: estes são as pessoas a quem se refere o versículo, que deixam as palavras da Torá e fazem todos os seus dias como festas. Disse Rabi Levi, disse Rav Pappi, disse Rabi Yehoshua: depois de três dias da morte, o seu ventre se rompe e cai-lhe sobre o rosto, e diz-lhe o ventre: “Toma o que puseste em mim.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kechagim”
כחגים - בתענוגים:

“Como festas” — passando os dias em deleites.

Nota

O versículo de Malachi é aplicado a quem abandona a Torá e vive cada dia como festa de prazeres: três dias depois da morte, o seu ventre se rompe e cai sobre o seu rosto, devolvendo-lhe o que ele lhe deu.

Nova Mishná: não fechar os olhos do morto · אֵין מְעַצְּמִין אֶת הַמֵּת

1656Mishná: não se fecham os olhos do morto no Shabat; quem os fecha na saída da alma derrama sangue
Mishná
מַתְנִי׳ אֵין מְעַצְּמִין אֶת הַמֵּת בַּשַּׁבָּת, וְלֹא בַּחוֹל עִם יְצִיאַת נֶפֶשׁ. וְהַמְעַצֵּים עִם יְצִיאַת הַנֶּפֶשׁ — הֲרֵי זֶה שׁוֹפֵךְ דָּמִים.

MISHNÁ. Não se fecham os olhos do morto no Shabat, pois não se move o corpo do morto, nem no dia comum no momento da saída da alma, mas espera-se até que tenha morrido. E quem fecha os olhos no momento da saída da alma, eis que este derrama sangue, pois apressa a sua morte.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin ein me'atzmin” e “shofech damim”
מתני' אין מעצמין - את עיניו בשבת אפילו אחר יציאת הנפש דמזיז בו אבר: שופך דמים - כדמפרש בברייתא בגמ' שבטורח מועט מקרב מיתתו:

“MISHNÁ. Não se fecham” — os seus olhos no Shabat, mesmo depois da saída da alma, pois move nele um membro, o que é proibido.

“Derrama sangue” — como se explica na baraita na guemará, que com um pequeno esforço aproxima a sua morte, como quem apaga uma lâmpada.

Nota

Abre-se outra mishná, ainda no Perek Vinte e Três: no Shabat não se fecham os olhos do morto, pois isso é mover um membro; e em nenhum dia se fecham os olhos de quem está morrendo, pois isso apressa a sua morte.

1657A lâmpada que se vai apagando; como fazer fechar os olhos do morto
Baraita; Rabban Shimon ben Gamliel
גְּמָ׳ תָּנוּ רַבָּנַן: הַמְעַצְּמוֹ עִם יְצִיאַת הַנֶּפֶשׁ — הֲרֵי זֶה שׁוֹפֵךְ דָּמִים. מָשָׁל לְנֵר שֶׁכָּבָה וְהוֹלֶכֶת, אָדָם מַנִּיחַ אֶצְבָּעוֹ עָלֶיהָ — מִיָּד כָּבְתָה. תַּנְיָא, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: הָרוֹצֶה שֶׁיִּתְעַצְּמוּ עֵינָיו שֶׁל מֵת — נוֹפֵחַ לוֹ יַיִן בְּחוֹטְמוֹ, וְנוֹתֵן שֶׁמֶן בֵּין רִיסֵי עֵינָיו, וְאוֹחֵז בִּשְׁנֵי גּוּדְלֵי רַגְלָיו, וְהֵן מִתְעַצְּמִין מֵאֲלֵיהֶן.

GUEMARÁ. Ensinaram os Rabanan: quem lhe fecha os olhos ao moribundo no momento da saída da alma, eis que este derrama sangue. É semelhante a uma lâmpada que se vai apagando mas ainda arderia um pouco: uma pessoa põe o dedo sobre ela, e imediatamente se apaga. Foi ensinado numa baraita: Rabban Shimon ben Gamliel diz: quem quer que se fechem os olhos de um morto sopra-lhe vinho no nariz, e põe azeite entre as pálpebras dos seus olhos, e segura os dois dedões dos seus pés, e eles, os olhos, se fecham por si mesmos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve'ochez bishnei gudlei raglav”
גמ' ואוחז בשני גודלי רגליו - עוצרן באצבעותיו:

“GUEMARÁ. E segura os dois dedões dos seus pés” — aperta-os com os seus dedos, e com isso os olhos se fecham.

Nota

A vida de quem está morrendo é como a chama prestes a se extinguir: um leve toque a apaga antes do tempo. Rabban Shimon ben Gamliel ensina um modo de fazer com que os olhos do morto se fechem por si mesmos.

O vivo e o morto: o bebê de um dia, David e Og · תִּינוֹק בֶּן יוֹמוֹ חַי

1658O bebê de um dia vivo e David morto: “entre os mortos, livre”
Rabban Shimon ben Gamliel; Rabi Yochanan
תַּנְיָא, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: תִּינוֹק בֶּן יוֹמוֹ חַי — מְחַלְּלִין עָלָיו אֶת הַשַּׁבָּת, דָּוִד מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל מֵת — אֵין מְחַלְּלִין עָלָיו אֶת הַשַּׁבָּת. תִּינוֹק בֶּן יוֹמוֹ חַי מְחַלְּלִין עָלָיו אֶת הַשַּׁבָּת, אָמְרָה תּוֹרָה: חַלֵּל עָלָיו שַׁבָּת אַחַת, כְּדֵי שֶׁיִּשְׁמוֹר שַׁבָּתוֹת הַרְבֵּה. דָּוִד מֶלֶךְ יִשְׂרָאֵל מֵת אֵין מְחַלְּלִין עָלָיו, כֵּיוָן שֶׁמֵּת אָדָם בָּטֵל מִן הַמִּצְוֹת. וְהַיְינוּ דְּאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: ״בַּמֵּתִים חׇפְשִׁי״ — כֵּיוָן שֶׁמֵּת אָדָם, נַעֲשָׂה חׇפְשִׁי מִן הַמִּצְוֹת.

Foi ensinado numa baraita, a propósito dos mortos: Rabban Shimon ben Gamliel diz: por um bebê de um dia, vivo, profana-se o Shabat para salvar-lhe a vida; por David, rei de Israel, morto, não se profana o Shabat. Por um bebê de um dia, vivo, profana-se o Shabat, pois disse a Torá: profana por ele um Shabat, para que guarde muitos Shabatot. Por David, rei de Israel, morto, não se profana, pois, uma vez que a pessoa morreu, cessa dos preceitos, e não há Shabatot que ele venha a guardar. E é isto que disse Rabi Yochanan sobre o versículo: “Entre os mortos, livre” (Tehilim 88:6): uma vez que a pessoa morreu, torna-se livre dos preceitos.

Nota

O valor da vida está na possibilidade de cumprir os preceitos: pelo recém-nascido profana-se o Shabat, pois ainda guardará muitos; pelo maior dos reis, depois de morto, não, pois o morto está livre dos preceitos.

1659O bebê vivo e Og morto: o temor que cessa
Rabi Shimon ben Elazar
תַּנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: תִּינוֹק בֶּן יוֹמוֹ חַי — אֵין צָרִיךְ לְשׁוֹמְרוֹ מִן הַחוּלְדָּה וּמִן הָעַכְבָּרִים. אֲבָל עוֹג מֶלֶךְ הַבָּשָׁן מֵת — צָרִיךְ לְשׁוֹמְרוֹ מִן הַחוּלְדָּה וּמִן הָעַכְבָּרִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמוֹרַאֲכֶם וְחִתְּכֶם יִהְיֶה״, כׇּל זְמַן שֶׁאָדָם חַי — אֵימָתוֹ מוּטֶּלֶת עַל הַבְּרִיּוֹת, כֵּיוָן שֶׁמֵּת — בָּטְלָה אֵימָתוֹ.

Foi ensinado também numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: um bebê de um dia, vivo, não é preciso guardá-lo da doninha e dos ratos, pois eles fogem dele; mas Og, rei de Bashan, morto, é preciso guardá-lo da doninha e dos ratos, como foi dito: “E o vosso temor e o vosso pavor estará” (Bereshit 9:2) sobre todo animal da terra: todo o tempo que a pessoa está viva, o seu temor está posto sobre as criaturas; uma vez que morreu, cessou o seu temor, e os animais já não a temem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechitchem”
וחתכם - לשון חיותכם:

“E o vosso pavor” — a palavra hebraica é linguagem de “a vossa vida”, isto é, o temor dura enquanto estais vivos.

Nota

Rashi lê “vechitchem” como aludindo a “chayutchem”, a vossa vida: o temor que os animais têm do homem dura enquanto ele vive. Por isso o recém-nascido vivo não precisa de guarda, e o gigante Og, morto, precisa.

1660O leão não se lança sobre dois; quem se assemelha ao animal; não dormir sozinho
Rav Pappa; Rami bar Abba; Rabi Chanina
אָמַר רַב פָּפָּא, נְקִיטִינַן: אַרְיֵה אַבֵּי תְּרֵי — לָא נָפֵיל. הָא קָא חָזֵינַן דְּנָפֵיל? הָהוּא כִּדְרָמֵי בַּר אַבָּא. דְּאָמַר רָמֵי בַּר אַבָּא: אֵין חַיָּה שׁוֹלֶטֶת בָּאָדָם עַד שֶׁנִּדְמָה לוֹ כִּבְהֵמָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״אָדָם בִּיקָר בַּל יָלִין נִמְשַׁל כַּבְּהֵמוֹת נִדְמוּ״. אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: אָסוּר לִישַׁן בַּבַּיִת יְחִידִי, וְכׇל הַיָּשֵׁן בַּבַּיִת יְחִידִי — אֹחַזְתּוֹ לִילִית.

Disse Rav Pappa: temos por tradição: um leão não se lança sobre dois homens. Pergunta-se: Mas não vemos que se lança? Responde-se: aquele dito de Rav Pappa é conforme Rami bar Abba, pois disse Rami bar Abba: um animal selvagem não domina o homem até que este lhe pareça como um animal, como foi dito: “E o homem com honra não permanece; é comparado aos animais: assemelham-se” (Tehilim 49:13). Na mesma linha, disse Rabi Chanina: é proibido dormir numa casa sozinho, e todo aquele que dorme numa casa sozinho, Lilit, o espírito maligno, o apanha.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “arye abei trei lo nafil”, “kidrami bar Abba” e “nimshal”
אריה אבי תרי לא נפיל - להורגן כדכתי' ומוראכם תרי וכתיב על כל חית הארץ ואפי' ארי: כדרמי בר אבא - דנקנסה עליו מיתה ונדמה לארי כבהמה: נמשל - מי שחיה מושלת בו בידוע שכבהמה נדמה:

“Um leão não se lança sobre dois” — para matá-los, como está escrito: “E o vosso temor”, no plural, o que indica ao menos dois; e está escrito: “sobre todo animal da terra”, e até o leão está incluído.

“Conforme Rami bar Abba” — aquele sobre quem o leão se lançou é alguém a quem foi imposta a morte como pena, e por isso pareceu ao leão como um animal.

“É comparado” — aquele sobre quem o animal selvagem domina, sabe-se que se assemelhou a um animal pelo seu comportamento.

Nota

Rav Pappa deduz do versículo de Bereshit, dirigido a muitos, que o leão não ataca dois homens juntos. Quando ataca, é porque aquele homem, condenado no Céu, se assemelhou a um animal, como lê Rami bar Abba em Tehilim.

“Faz enquanto encontras”: a velhice, o Mashiach e a roda que gira · גַּלְגַּל הוּא שֶׁחוֹזֵר בָּעוֹלָם

1661“Faz enquanto encontras”: os dias da velhice e os dias do Mashiach
Rabi Shimon ben Elazar
תַּנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: עֲשֵׂה עַד שֶׁאַתָּה מוֹצֵא, וּמָצוּי לְךָ, וְעוֹדְךָ בְּיָדֶךָ. וְאַף שְׁלֹמֹה אָמַר בְּחׇכְמָתוֹ: ״וּזְכוֹר אֶת בּוֹרְאֶיךָ בִּימֵי בְּחוּרוֹתֶיךָ עַד [אֲשֶׁר] (שֶׁ)לֹא יָבֹאוּ יְמֵי הָרָעָה״ — אֵלּוּ יְמֵי הַזִּקְנָה, ״וְהִגִּיעוּ שָׁנִים אֲשֶׁר תֹּאמַר אֵין לִי בָהֶם חֵפֶץ״ — אֵלּוּ יְמֵי הַמָּשִׁיחַ, שֶׁאֵין בָּהֶם לֹא זְכוּת וְלֹא חוֹבָה.

Foi ensinado também numa baraita: Rabi Shimon ben Elazar diz: faz caridade enquanto encontras a quem fazê-la, e está ao teu alcance o dinheiro, e ainda estás em tua mão, em teu próprio domínio. E também Shlomo disse na sua sabedoria: “E lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que venham os dias do mal” (Kohelet 12:1) — estes são os dias da velhice; “e cheguem anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” — estes são os dias do Mashiach, nos quais não há nem mérito nem culpa, pois não haverá pobres a quem dar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “asse”, “ad she'ata motze”, “umatzui lecha”, “ve'odcha beyadecha”, “lo zechut” e “velo chova”
עשה - צדקה: עד שאתה מוצא - למי לעשות: ומצוי לך - ממון: ועודך בידך - עודך ברשותך קודם שתמות: לא זכות - לא דבר לזכות בו שכולם עשירים: ולא חובה - לאמץ לב ולקפוץ יד:

“Faz” — isto é, caridade.

“Enquanto encontras” — pobres a quem fazê-la.

“E está ao teu alcance” — tens dinheiro.

“E ainda estás em tua mão” — isto é, ainda estás em teu domínio, antes de morreres.

“Nem mérito” — não haverá nenhuma coisa com que obter mérito pela caridade, pois todos são ricos.

“Nem culpa” — não haverá culpa por endurecer o coração e fechar a mão diante do pobre.

Nota

Dá-se caridade enquanto há pobres, enquanto se tem dinheiro e enquanto se está vivo. Os anos “sem prazer” são os do Mashiach, quando, segundo esta opinião, não haverá pobres, e por isso nem mérito em dar nem culpa em negar.

1662Shmuel: entre este mundo e os dias do Mashiach, só a sujeição aos reinos
Shmuel
וּפְלִיגָא דִּשְׁמוּאֵל, דְּאָמַר שְׁמוּאֵל: אֵין בֵּין הָעוֹלָם הַזֶּה לִימוֹת הַמָּשִׁיחַ אֶלָּא שִׁיעְבּוּד מַלְכִיּוֹת בִּלְבַד, שֶׁנֶּאֱמַר: כִּי ״לֹא יֶחְדַּל אֶבְיוֹן מִקֶּרֶב הָאָרֶץ״.

E esta explicação discorda de Shmuel, pois disse Shmuel: não há diferença entre este mundo e os dias do Mashiach senão a sujeição aos reinos estrangeiros somente, como foi dito: “Pois não cessará o pobre do meio da terra” (Devarim 15:11), o que indica que sempre haverá pobres, também nos dias do Mashiach.

Nota

Para Shmuel, a era messiânica não muda a ordem do mundo, só liberta Israel do domínio dos reinos; e, como o pobre nunca cessará, também então haverá mérito na caridade.

1663A roda que gira no mundo; o estudioso que empobrece
Rabi Elazar HaKappar; a casa de Rabi Yishmael; Rav Yosef
תַּנְיָא, רַבִּי אֶלְעָזָר הַקַּפָּר אוֹמֵר: לְעוֹלָם יְבַקֵּשׁ אָדָם רַחֲמִים עַל מִדָּה זוֹ, שֶׁאִם הוּא לֹא בָּא — בָּא בְּנוֹ, וְאִם בְּנוֹ לֹא בָּא — בֶּן בְּנוֹ בָּא, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי בִּגְלַל הַדָּבָר הַזֶּה״. תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: גַּלְגַּל הוּא שֶׁחוֹזֵר בָּעוֹלָם. אָמַר רַב יוֹסֵף, נְקִיטִינַן: הַאי צוּרְבָּא מֵרַבָּנַן לָא מִיעֲנֵי. וְהָא קָא חָזֵינַן דְּמִיעֲנֵי! אִם אִיתָא דְּמִיעֲנֵי, אַהְדּוֹרֵי אַפִּתְחָא לָא מַהְדַּר.

Foi ensinado numa baraita: Rabi Elazar HaKappar diz: sempre peça a pessoa misericórdia divina a respeito desta condição da pobreza, pois, se ela não chega a ela, chega o seu filho; e, se o seu filho não chega, chega o filho do seu filho, como foi dito: “Pois por causa desta coisa” (Devarim 15:10). Ensinou-se na casa de Rabi Yishmael sobre este versículo: “por causa de”, biglal, alude a galgal, roda, pois é uma roda que gira no mundo, na qual uns sobem e outros descem. Disse Rav Yosef: temos por tradição: um jovem estudioso dentre os Rabanan não empobrece. Pergunta-se: Mas eis que vemos que empobrece! Responde-se: se acontece que empobrece, ao menos não anda a mendigar de porta em porta.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “al mida zo”
על מדה זו - שלא יבא לידי עניות דדבר המזומן הוא לבא או עליו או על בנו או על בן בנו:

“A respeito desta condição” — isto é, que peça que não chegue à pobreza, pois é coisa destinada a vir, ou sobre ele, ou sobre o seu filho, ou sobre o filho do seu filho.

Nota

A pobreza circula pelas gerações; a casa de Rabi Yishmael lê “biglal”, por causa, como “galgal”, roda. Rav Yosef acrescenta que o estudioso da Torá, mesmo que empobreça, não chega a mendigar.

1664O pão dado ao pobre; quem tem misericórdia das criaturas
Rabi Chiyya e a sua esposa; Rabi Gamliel, filho de Rabi
אֲמַר לַהּ רַבִּי חִיָּיא לִדְבֵיתְהוּ: כִּי אָתֵי עַנְיָא — אַקְדִּימִי לֵיהּ רִיפְתָּא, כִּי הֵיכִי דְּלַקְדְּמוּ לִבְנַיִךְ. אֲמַרָה לֵיהּ: מֵילָט קָא לָיְיטַתְּ לְהוּ?! אֲמַר לַהּ, קְרָא קָא כְּתִיב: ״כִּי בִּגְלַל הַדָּבָר הַזֶּה״, וְתָנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל — גַּלְגַּל הוּא שֶׁחוֹזֵר בָּעוֹלָם. תַּנְיָא, רַבִּי גַּמְלִיאֵל בְּרַבִּי אוֹמֵר: ״וְנָתַן לְךָ רַחֲמִים וְרִחַמְךָ וְהִרְבֶּךָ״, כׇּל הַמְרַחֵם עַל הַבְּרִיּוֹת — מְרַחֲמִין עָלָיו מִן הַשָּׁמַיִם, וְכֹל שֶׁאֵינוֹ מְרַחֵם עַל הַבְּרִיּוֹת — אֵין מְרַחֲמִין עָלָיו מִן הַשָּׁמַיִם.

Disse Rabi Chiyya à sua esposa: quando vier um pobre à casa, apressa-te a dar-lhe pão, para que se apressem a dá-lo aos teus filhos se um dia precisarem. Ela lhe disse: estás amaldiçoando-os?! Disse-lhe: um versículo está escrito: “Pois por causa desta coisa”, e ensinou-se na casa de Rabi Yishmael: é uma roda que gira no mundo. Foi ensinado numa baraita: Rabi Gamliel, filho de Rabi Yehuda HaNasi, diz: “E te dará misericórdia, e terá misericórdia de ti, e te multiplicará” (Devarim 13:18) ensina que todo aquele que tem misericórdia das criaturas de Deus, tem-se misericórdia dele desde o Céu; e todo aquele que não tem misericórdia das criaturas, não se tem misericórdia dele desde o Céu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “venatan lecha rachamim”
ונתן לך רחמים - שתרחם על הבריות:

“E te dará misericórdia” — isto é, porá em ti a misericórdia, para que tenhas misericórdia das criaturas, e então Ele terá misericórdia de ti.

Nota

Rabi Chiyya não amaldiçoa os filhos: apenas reconhece que a roda pode girar, e quem hoje dá poderá um dia precisar. Rabi Gamliel lê no versículo que a misericórdia do Céu corresponde à misericórdia que se tem pelas criaturas.

“Antes que se escureçam o sol e a luz”: as lágrimas e o colírio · שֵׁשׁ דְּמָעוֹת הֵן

1665O sol, a lua e as estrelas do rosto; a lágrima depois dos quarenta anos
Anônimo; Shmuel
״עַד אֲשֶׁר לֹא תֶחְשַׁךְ הַשֶּׁמֶשׁ וְהָאוֹר״ — זוֹ פַּדַּחַת וְהַחוֹטֶם, ״וְהַיָּרֵחַ״ — זוֹ נְשָׁמָה, ״וְהַכּוֹכָבִים״ — אֵלּוּ הַלְּסָתוֹת, ״וְשָׁבוּ הֶעָבִים אַחַר הַגָּשֶׁם״ — זוֹ מְאוֹר עֵינָיו שֶׁל אָדָם, שֶׁהוֹלֵךְ אַחַר הַבֶּכִי. אָמַר שְׁמוּאֵל: הַאי דִּמְעֲתָא — עַד אַרְבְּעִין שְׁנִין הָדְרָא, מִכָּאן וְאֵילָךְ לָא הָדְרָא.

Volta-se aos versículos de Kohelet sobre a velhice: “Antes que se escureçam o sol e a luz” (Kohelet 12:2) — esta é a fronte e o nariz, que sobressaem no rosto; “e a lua” — esta é a alma, que ilumina a pessoa; “e as estrelas” — estas são as mandíbulas, isto é, as faces; “e voltem as nuvens depois da chuva” — esta é a luz dos olhos da pessoa, que se vai após o choro, como se coberta de nuvens. Disse Shmuel: esta lágrima que a pessoa chora: até os quarenta anos, a vista se recupera; daqui em diante, passados os quarenta, não se recupera, e cada choro enfraquece a vista.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “zo padachat”, “ze chotem”, “zo neshama”, “haleset” e “veshavu he'avim”
זו פדחת - המצח שהוא חלק ומצהיר יותר מכל הפרצוף: זה חוטם - שהוא תואר פני אדם: זו נשמה - כדכתיב נר אלהים נשמת אדם (משלי כ): הלסתות - לחיים: ושבו העבים - חשכת עינים יבא ויכסה המאור אחר שירבה בבכיה בזקנותו מחמת תשות כח וצרות רבות עליו:

“Esta é a fronte” — a testa, que é lisa e brilha mais do que todo o rosto, como o sol.

“Este é o nariz” — chamado “luz”, que é a forma do rosto da pessoa.

“Esta é a alma” — chamada “lua” porque ilumina, como está escrito: “Lâmpada de Deus é a alma do homem” (Mishlei 20:27).

“As mandíbulas” — isto é, as faces.

“E voltem as nuvens” — a escuridão dos olhos virá e cobrirá a luz, como nuvens que cobrem o céu, depois que a pessoa multiplicar o choro na sua velhice, por causa do enfraquecimento das forças e das muitas angústias que vêm sobre ela.

Nota

Retoma-se a leitura de Kohelet 12 sobre a velhice: os astros que escurecem são os traços do rosto e a alma, e as nuvens que voltam são a vista que se turva pelo choro. Shmuel acrescenta que o dano das lágrimas só é reversível até os quarenta anos.

1666O colírio depois dos quarenta anos
Rav Nachman
וְאָמַר רַב נַחְמָן: הַאי כּוּחְלָא עַד אַרְבְּעִין שְׁנִין — מַרְוַוח, מִכָּאן וְאֵילָךְ — אֲפִילּוּ מְלֵי כְּאַכְסְנָא דְגַרְדָאֵי — אוֹקוֹמֵי מוֹקֵים, אַרְווֹחֵי לָא מַרְוַוח. מַאי קָא מַשְׁמַע לַן? דְּכַמָּה דְּאַלִּים מִכּוּחְלָא — טְפֵי מְעַלֵּי.

E do mesmo modo disse Rav Nachman: este colírio, até os quarenta anos, alarga a vista; daqui em diante, mesmo que se encha dele como o fuso dos tecelões, conservar a vista conserva, alargar não alarga. Pergunta-se: o que nos ensina com o exemplo do fuso dos tecelões? Responde-se: que quanto mais grosso o bastão do colírio, tanto melhor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “marvach”, “afilu malya”, “ke'avisna shel gardai”, “okumei”, “mai kamashma lan”, “alim” e “mikuchla”
מרווח - מאור עינים: אפילו מליא - כחלא בעיניו כמכחול גדול: כאביסנא של גרדאי - כובד של גרדיים אינשובל"ש בלע"ז: אוקומי - המאור מוקים שלא יחשיך יותר ממה שהוא: מאי קמ"ל - בהא דאמר אפי' כאביסנא דגרדאי: אלים - עב: מכוחלא - עץ שהוא מכניס בשפופרת ונותן בעיניו וקורין לו מכחול:

“Alarga” — isto é, aumenta a luz dos olhos.

“Mesmo que se encha” — de colírio nos seus olhos, em grande quantidade, como um bastão grande de colírio.

“Como o fuso dos tecelões” — o peso dos tecelões, chamado inshubles em língua vernácula.

“Conservar” — a luz dos olhos conserva, para que não escureça mais do que está.

“O que nos ensina” — Rav Nachman com isto que disse: “mesmo como o fuso dos tecelões”.

“Grosso” — isto é, espesso.

“O bastão do colírio” — é uma haste de madeira que se introduz no tubo e se aplica nos olhos, e chamam-lhe michchol.

Nota

Também o colírio só melhora a vista até os quarenta anos; depois, apenas a conserva. A comparação com o fuso grosso dos tecelões ensina que, em geral, quanto mais espesso o bastão com que se aplica o colírio, melhor.

1667Rabi Chanina não chora a filha; as seis lágrimas
Rabi Chanina e a sua esposa; Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei ben Katzarta
רַבִּי חֲנִינָא שְׁכִיבָא לֵיהּ בַּרְתֵּיהּ, לָא הֲוָה קָא בָכֵי עֲלַהּ. אֲמַרָה לֵיהּ דְּבֵיתְהוּ: תַּרְנְגוֹלְתָּא אַפֵּיקְתְּ מִבֵּיתָךְ?! אֲמַר לַהּ: תַּרְתֵּי — תְּכָלָא וְעִיוְרָא. סָבַר לַהּ כִּי הָא דַּאֲמַר רַבִּי יוֹחָנָן מִשּׁוּם רַבִּי יוֹסֵי בֶּן קַצַּרְתָּה: שֵׁשׁ דְּמָעוֹת הֵן — שָׁלֹשׁ יָפוֹת, וְשָׁלֹשׁ רָעוֹת. שֶׁל עָשָׁן וְשֶׁל בְּכִי

A Rabi Chanina morreu-lhe a filha, e ele não chorava por ela. Disse-lhe a sua esposa: acaso uma galinha fizeste sair da tua casa, para não mostrares tristeza?! Disse-lhe: se eu chorar, haveria duas desgraças, a perda de filhos e a cegueira. Ele sustentava conforme isto que disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei ben Katzarta: seis lágrimas há, três boas para os olhos e três más. As da fumaça e as do choro

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tichla ve'ivra” e “shel bechi”
תיכלא ועיורא - שיכול בנים ועיורון הדמעה: של בכי - מתוך אבל וצרה:

“A perda de filhos e a cegueira” — a perda dos filhos e a cegueira que vem da lágrima.

“As do choro” — por luto e angústia, são más para os olhos.

Nota

Rabi Chanina, já idoso, não chorou a filha para não acrescentar à perda a cegueira causada pelas lágrimas. A lista das seis lágrimas de Rabi Yosei ben Katzarta começa aqui e prossegue em 152a.

O daf termina aqui, no meio da lista das seis lágrimas, três boas e três más, ensinada por Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei ben Katzarta. O Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) prossegue em Shabbat 152a.