Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Três (Sho'el)
גּוֹי שֶׁהֵבִיא חֲלִילִין

A regra de Abba Shaul e a guarda recíproca; nova mishná: as flautas do gentio, o caixão e a sepultura; “de um lugar próximo” e a casa de banhos; as necessidades do morto

Shabbat 151a · Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) · a mishná prossegue em 151b

O daf continua diretamente de 150b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a pergunta sobre a que cláusula da mishná se refere a regra de Abba Shaul: refere-se à cláusula final, e a permissão de dizer vem do ensinamento de Rav Yehuda em nome de Shmuel, que permite combinar no Shabat a guarda recíproca dos frutos; a “regra” vem incluir o animal que se chama de fora do limite, e a baraita acrescenta os assuntos da noiva e do morto, com a ressalva de Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, sobre não mencionar o preço. Abre-se então uma nova mishná: espera-se o anoitecer pela noiva e pelo morto; as flautas trazidas por um gentio no Shabat só servem à lamentação se vieram de um lugar próximo; e o caixão e a sepultura feitos por gentios servem a um israelita, salvo se foram feitos para ele. Na guemará, Rav exige certeza de que vieram de perto, e Shmuel supõe que pernoitaram junto à muralha; a mishná é precisa conforme Shmuel, e a baraita da casa de banhos na cidade mista apoia Rav, com a banheira pequena e as dez chaleiras da pessoa importante segundo Rabi Yehuda. Ulla e Rabi Abbahu explicam que a sepultura estava numa estrada pública e o caixão posto sobre ela. O daf termina no meio da nova mishná sobre as necessidades do morto no Shabat, que prossegue em Shabbat 151b.

A regra de Abba Shaul: a cláusula final e a guarda recíproca · אַבָּא שָׁאוּל אַסֵּיפָא קָאֵי

1640Nem na primeira cláusula, nem na final?
Anônimo
הַאי ״כׇּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ רַשַּׁאי אֲנִי בַּחֲשִׁיכָתו״? ״כׇּל שֶׁאֵינִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ אֵינִי רַשַּׁאי בַּחֲשִׁיכָתוֹ״ מִיבְּעֵי לֵיהּ! אֶלָּא אַסֵּיפָא קָאֵי: ״אֲבָל מַחְשִׁיךְ הוּא לִשְׁמוֹר וּמֵבִיא פֵּירוֹת בְּיָדוֹ״ — הַאי ״כׇּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּחֲשִׁיכָתוֹ רַשַּׁאי אֲנִי בַּאֲמִירָתוֹ״ מִיבְּעֵי לֵיהּ!

Pergunta-se: se Abba Shaul se refere à primeira cláusula da mishná, que proíbe esperar o anoitecer para trazer frutos, este enunciado, “tudo aquilo que me é permitido dizer no Shabat, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa”, é adequado? “Tudo aquilo que não me é permitido dizer, não me é permitido esperar o anoitecer por sua causa” deveria ter dito, em forma negativa, como na primeira cláusula! Responde-se: antes, refere-se à cláusula final: “mas espera o anoitecer para guardar os seus frutos, e traz frutos na sua mão”. Pergunta-se: então, este enunciado é adequado? “Tudo aquilo por que me é permitido esperar o anoitecer, é-me permitido dizê-lo” deveria ter dito, no sentido inverso!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ela asseifa ka'ei” e “hai kol she'ani zakai lehachshich alav”
אלא אסיפא קאי - דקאמר ת"ק להיתרא אבל מחשיך הוא לשמור ואתא איהו ושווייה ביה כללא להביא כל כיוצא בהן: האי כל שאני זכאי להחשיך עליו זכאי אני באמירתו מיבעי ליה - דהיתר דחשיכה תנן והיתר דאמירה לא תנן והיכי תלי תניא בדלא תניא:

“Antes, refere-se à cláusula final” — isto é, à cláusula que o primeiro tanaíta disse para permissão: “mas espera o anoitecer para guardar”; e vem ele, Abba Shaul, e estabelece nela uma regra, para incluir tudo o que é semelhante a elas, às coisas ali permitidas.

“Este ‘tudo aquilo por que me é permitido esperar o anoitecer, é-me permitido dizê-lo’ deveria ter dito” — a formulação está invertida, pois a permissão de esperar o anoitecer para guardar aprendemos na mishná, e a permissão de dizer ao companheiro que guarde não aprendemos; e como se faz depender o que foi ensinado explicitamente do que não foi ensinado?

Nota

Conclui-se a pergunta iniciada no fim de 150b. Se a regra de Abba Shaul se ligasse à cláusula proibitiva, deveria ter sido formulada como proibição; se se liga à cláusula permissiva, a mishná só ensinou explicitamente a permissão de esperar o anoitecer para guardar, e então a regra deveria partir do esperar o anoitecer para o dizer, e não o inverso.

1641“Guarda-me os frutos do teu limite”
Rav Yehuda e Shmuel; Abba Shaul
לְעוֹלָם אַסֵּיפָא קָאֵי, וְאַבָּא שָׁאוּל אַהָא קָאֵי דְּאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מוּתָּר לָאָדָם לוֹמַר לַחֲבֵירוֹ ״שְׁמוֹר לִי פֵּירוֹת שֶׁבִּתְחוּמְךָ, וַאֲנִי אֶשְׁמוֹר לְךָ פֵּירוֹת שֶׁבִּתְחוּמִי״. וְקָאָמַר אַבָּא שָׁאוּל לְתַנָּא קַמָּא: מִי לָא מוֹדֵית דְּמוּתָּר אָדָם לוֹמַר לַחֲבֵירוֹ: ״שְׁמוֹר לִי פֵּירוֹת שֶׁבִּתְחוּמְךָ וַאֲנִי אֶשְׁמוֹר לְךָ פֵּירוֹת שֶׁבִּתְחוּמִי״.

Responde-se: na verdade, refere-se à cláusula final; e Abba Shaul refere-se a isto que disse Rav Yehuda, disse Shmuel: é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro no Shabat: “Guarda-me os frutos que estão no teu limite, e eu te guardarei os frutos que estão no meu limite.” E é isto que diz Abba Shaul ao primeiro tanaíta: acaso não concordas que é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro: “Guarda-me os frutos que estão no teu limite, e eu te guardarei os frutos que estão no meu limite”? É num caso assim, em que é permitido dizer, que Abba Shaul permite esperar o anoitecer junto ao limite para guardar os frutos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le'olam asseifa ka'ei”
לעולם אסיפא קאי - כדקאמרת ודקשיא לך אמירה מהיכא קאמר ליה להיתירא דתלי בה החשכה אהא קאי דאמר רב יהודה כו' אלמא זכאי אני באמירתו ואבא שאול ות"ק כולהו פשיטא להו הא דשמואל וקאמר ליה אבא שאול לת"ק מי לא מודית בהא שאתה מתיר להחשיך דמותר הוא לומר כדשמואל אלמא הואיל ומותר לומר מותר להחשיך הלכך אמאי נקטת החשכה לשמור לחודא שוי כללא למילתא ואימא כל שאני זכאי באמירתו רשאי אני להחשיך עליו דש"מ הך וש"מ מת וכלה דהא נמי זכאי באמירתו הוא כדמפרש לקמן והלכך מחשיכין עליו וסיפא דמתני' דקתני מחשיכין על התחום לפקח על עסקי כלה אבא שאול היא:

“Na verdade, refere-se à cláusula final” — como disseste na segunda tentativa; e quanto ao que te é difícil, a permissão de dizer, de onde ele, Abba Shaul, a tira, para fazer depender dela o esperar o anoitecer: a resposta é que se refere a isto que disse Rav Yehuda etc.; conclui-se que me é permitido dizê-lo. E a Abba Shaul e ao primeiro tanaíta, a todos eles é óbvia esta lei de Shmuel; e diz Abba Shaul ao primeiro tanaíta: acaso não concordas, neste caso em que permites esperar o anoitecer para guardar, que é permitido dizer, conforme Shmuel? Conclui-se que, já que é permitido dizer, é permitido esperar o anoitecer. Portanto, por que tomaste tu apenas o esperar o anoitecer para guardar? Antes, estabelece uma regra para a matéria e diz: tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa; pois se aprende dela este caso dos frutos, e se aprendem dela o morto e a noiva, pois também isto é permitido dizer no Shabat, como se explica adiante; e por isso espera-se o anoitecer por sua causa. E a cláusula final da nossa mishná, que ensina: “espera-se o anoitecer junto ao limite para cuidar dos assuntos da noiva”, é de Abba Shaul, segundo a sua regra.

Nota

A regra se liga à cláusula permissiva. A permissão de dizer, que não está na mishná, vem do ensinamento de Shmuel: pode-se combinar no Shabat a guarda recíproca dos frutos. Abba Shaul argumenta com o primeiro tanaíta: se é permitido dizer, é permitido esperar o anoitecer, e por isso a guarda dos frutos é apenas um exemplo de uma regra mais ampla, que inclui também os assuntos da noiva e do morto.

1642A “regra” para incluir o animal
Anônimo; Baraita
וְאֵימָא: ״כׇּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ — רַשַּׁאי אֲנִי לְהַחְשִׁיךְ עָלָיו״. ״כְּלָל״ לְאֵתוֹיֵי מַאי? לְאֵתוֹיֵי הָא דְּתָנוּ רַבָּנַן: אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לְהָבִיא בְּהֵמָה. הָיְתָה עוֹמֶדֶת חוּץ לַתְּחוּם — קוֹרֵא לָהּ וְהִיא בָּאָה. כְּלָל אָמַר אַבָּא שָׁאוּל: כׇּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ — רַשַּׁאי אֲנִי לְהַחְשִׁיךְ עָלָיו.

Pergunta-se ainda: mas diga-se simplesmente: “tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa”! A “regra” de Abba Shaul vem incluir o quê? Responde-se: vem incluir isto que ensinaram os Rabanan numa baraita: não se espera o anoitecer junto ao limite do Shabat para trazer um animal logo após o Shabat. Se estava parado logo fora do limite, chama-o e ele vem até ele. Uma regra disse Abba Shaul: tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa; e, como é permitido chamar o animal, é permitido também esperar o anoitecer para trazê-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “klal amar Abba Shaul”
כלל אמר אבא שאול כו' - והאי נמי זכאי באמירתו כדקתני סיפא ואומר לו לך למקום פלוני:

“Uma regra disse Abba Shaul etc.” — e inclui o animal, e também isto é permitido dizer no Shabat, como ensina a cláusula final da baraita: “e diz-lhe: vai a tal lugar”.

Nota

Por que chamar o ensinamento de “regra”? Para incluir o caso da baraita sobre o animal: o primeiro tanaíta não permite esperar o anoitecer junto ao limite para trazê-lo, mas, já que é permitido chamá-lo quando está logo fora do limite, Abba Shaul permite também esperar o anoitecer por sua causa.

1643Os assuntos da noiva e do morto: “se não encontrares por um mané”
Baraita; Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda
וּמַחְשִׁיכִין לְפַקֵּחַ עַל עִסְקֵי כַּלָּה וְעַל עִסְקֵי הַמֵּת לְהָבִיא לוֹ אָרוֹן וְתַכְרִיכִין. וְאוֹמְרִים לוֹ: ״לֵךְ לְמָקוֹם פְּלוֹנִי, וְאִם לֹא מָצָאתָ בְּמָקוֹם פְּלוֹנִי — הָבֵא מִמָּקוֹם פְּלוֹנִי״. ״לֹא מָצָאתָ בְּמָנֶה — הָבֵא בְּמָאתַיִם״. רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַזְכִּיר לוֹ סְכוּם מִקָּח.

E, segundo todos, espera-se o anoitecer para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto, como para trazer-lhe caixão e mortalhas. E diz-se-lhe, ao mensageiro, no Shabat: “Vai a tal lugar, e, se não encontrares em tal lugar, traz de tal lugar.” E diz-se-lhe também: “Não encontraste por um mané, traz por duzentos.” Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, diz: é permitido dar-lhe instruções, contanto que não lhe mencione a soma da compra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “sechum mekach”
סכום מקח - מנה ומאתים:

“A soma da compra” — isto é, que não lhe diga um mané, ou duzentos.

Nota

A baraita prossegue: para as necessidades da noiva e do morto pode-se esperar o anoitecer junto ao limite, e pode-se até instruir no Shabat o mensageiro sobre onde comprar e quanto pagar. Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, restringe: não se menciona um preço determinado.

Nova Mishná: a noiva e o morto; as flautas do gentio; o caixão e a sepultura · גּוֹי שֶׁהֵבִיא חֲלִילִין

1644Mishná: esperar o anoitecer pela noiva e pelo morto; as flautas trazidas no Shabat; o caixão e a sepultura feitos pelo gentio
Mishná
מַתְנִי׳ מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לְפַקֵּחַ עַל עִסְקֵי כַּלָּה, וְעַל עִסְקֵי הַמֵּת לְהָבִיא לוֹ אָרוֹן וְתַכְרִיכִים. גּוֹי שֶׁהֵבִיא חֲלִילִין בְּשַׁבָּת — לֹא יִסְפּוֹד בָּהֶן יִשְׂרָאֵל, אֶלָּא אִם כֵּן בָּאוּ מִמָּקוֹם קָרוֹב. עָשׂוּ לוֹ אָרוֹן וְחָפְרוּ לוֹ קֶבֶר — יִקָּבֵר בּוֹ יִשְׂרָאֵל. וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל — לֹא יִקָּבֵר בּוֹ עוֹלָמִית.

MISHNÁ. Espera-se o anoitecer junto ao limite do Shabat para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto, como para trazer-lhe caixão e mortalhas. Um gentio que trouxe flautas no Shabat para tocá-las no lamento, um israelita não faça lamentação com elas, a não ser que tenham vindo de um lugar próximo, de dentro do limite. Se gentios lhe fizeram um caixão e lhe cavaram uma sepultura no Shabat, e depois os destinaram a outro, seja sepultado nela um israelita; mas, se foi feito desde o início para um israelita, um israelita não seja sepultado nela jamais.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin nochri shehevi chalilin bashabat”, “lo yispod bahen Yisrael”, “mimakom karov” e “assu lo aron”
מתני' נכרי שהביא חלילין בשבת - בשביל ישראל: לא יספוד בהן ישראל - לעולם וקנסא הוא משום דמוכחא מילתא דבשבילו הובאו דאין דרך להביא חלילין אלא בשביל מת: ממקום קרוב - בתוך התחום: עשו לו ארון - בשביל נכרי או למכור:

“MISHNÁ. Um gentio que trouxe flautas no Shabat” — isto é, trouxe-as para a necessidade de um israelita.

“Um israelita não faça lamentação com elas” — jamais, nem mesmo após esperar o tempo de trazê-las; e é uma multa dos sábios, porque a coisa é evidente, que por causa dele, do israelita, foram trazidas, pois não é costume trazer flautas senão por causa de um morto.

“De um lugar próximo” — isto é, dentro do limite do Shabat.

“Se lhe fizeram um caixão” — isto é, se o fizeram para um gentio, ou para vender, e não para um israelita.

Nota

Ainda no Perek Vinte e Três, abre-se uma nova mishná. Pelas necessidades da noiva e do morto pode-se esperar o anoitecer junto ao limite. Flautas trazidas por um gentio no Shabat para um funeral não podem ser usadas por um israelita, a menos que tenham vindo de dentro do limite; e um caixão ou uma sepultura feitos no Shabat por gentios podem servir a um israelita, salvo se foram feitos para ele.

Guemará: “de um lugar próximo” e a casa de banhos · מִמָּקוֹם קָרוֹב

1645Rav e Shmuel: “de um lugar próximo”
Rav e Shmuel
גְּמָ׳ מַאי מִמָּקוֹם קָרוֹב? רַב אָמַר: מִמָּקוֹם קָרוֹב מַמָּשׁ. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: חָיְישִׁינַן שֶׁמָּא חוּץ לַחוֹמָה לָנוּ.

GUEMARÁ. Pergunta-se: o que é “de um lugar próximo”? Rav disse: de um lugar próximo de fato, que se sabe com certeza de onde vieram. E Shmuel disse: mesmo sem saber de onde vieram, tememos que talvez tenham pernoitado fora da muralha, que ainda está dentro do limite, e nada se transgrediu por causa delas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gemara Rav amar mimakom karov mamash” e “uShmuel amar chayeshinan shema chutz lachoma lanu”
גמ' רב אמר ממקום קרוב ממש - כלומר שידוע לנו בירור הדבר דממקום קרוב באו שראינום שהיו בביתו: ושמואל אמר חיישינן שמא חוץ לחומה לנו - אפילו הביא מחוץ לעיר אנו תולין להתיר ואומרים שמא בתוך התחום לנו ערב שבת וסופדין בהן במוצ"ש מיד וחיישינן נמי אמרינן לקולא כדאמרי' במס' חגיגה (דף טו.) גבי בתולה שעיברה חיישינן שמא באמבטי עיברה ומותרת לכהונה ולשמואל הכי קאמר מתני' לא יספוד בהן ישראל אא"כ יש לתלות שבאו ממקום קרוב ולאפוקי בידוע דמחוץ לתחום באו:

“GUEMARÁ. Rav disse: de um lugar próximo de fato” — isto é, que nos é conhecida com clareza a coisa, que vieram de um lugar próximo, pois as vimos, que estavam na sua casa, dentro do limite; mas, na dúvida, é proibido.

“E Shmuel disse: tememos que talvez tenham pernoitado fora da muralha” — mesmo que o gentio as tenha trazido de fora da cidade, nós atribuímos a dúvida para permitir, e dizemos: talvez tenham pernoitado dentro do limite, junto à muralha, na véspera do Shabat; e por isso faz-se lamentação com elas à saída do Shabat imediatamente. E também a expressão “tememos” dizemos para a leniência, e não só para a rigidez, como dizemos no tratado Chagiga (15a), a respeito da virgem que engravidou: tememos que talvez tenha engravidado numa banheira, e é permitida ao sacerdócio, pois se presume que ainda é virgem. E, segundo Shmuel, assim diz a mishná, isto é, assim deve ser lida: um israelita não faça lamentação com elas, a não ser que se possa atribuir que vieram de um lugar próximo; para excluir apenas quando se sabe que vieram de fora do limite.

Nota

Rav exige saber com certeza que as flautas vieram de dentro do limite. Shmuel é leniente: mesmo trazidas de fora da cidade, supõe-se que tenham passado a noite junto à muralha, dentro do limite, e só se proíbe quando se sabe que vieram de fora dele. Rashi observa que aqui o “tememos” serve à leniência, como no caso de Chagiga.

1646A mishná é precisa conforme Shmuel
Anônimo
דַּיְקָא מַתְנִיתִין כְּווֹתֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל, דְּקָתָנֵי: ״עָשָׂה לוֹ אָרוֹן וְחָפַר לוֹ קֶבֶר — יִקָּבֵר בּוֹ יִשְׂרָאֵל״. אַלְמָא מִסְּפֵיקָא שְׁרֵי, הָכָא נָמֵי מִסְּפֵיקָא שְׁרֵי.

Diz-se: a nossa mishná é precisa conforme Shmuel, pois ensina: “Se lhe fez um caixão e lhe cavou uma sepultura, seja sepultado nela um israelita.” Conclui-se que, na dúvida se foram feitos para um israelita, é permitido; aqui também, no caso das flautas, na dúvida se foram trazidas de fora do limite, é permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre a versão do texto e “yikaver bo Yisrael”
ה"ג דיקא מתני' כוותיה דשמואל ותניא כוותיה דרב: יקבר בו ישראל - דתלינן מספיקא שמא לצורך נכרי נעשה:

Assim lemos o texto: “A nossa mishná é precisa conforme Shmuel, e foi ensinado conforme Rav”, de modo que cada opinião tem o seu apoio.

“Seja sepultado nela um israelita” — pois atribuímos, por causa da dúvida, que talvez a sepultura tenha sido feita para a necessidade de um gentio, e a dúvida é permitida.

Nota

A cláusula do caixão e da sepultura permite o uso mesmo sem saber para quem foram feitos; do mesmo modo, no caso das flautas, a dúvida leva à permissão, como diz Shmuel.

1647A casa de banhos na cidade mista
Baraita; Rabi Yehuda
וְתַנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַב: עִיר שֶׁיִּשְׂרָאֵל וְגוֹיִם דָּרִים בָּהּ, וְהָיְתָה בָּהּ מֶרְחָץ הַמַּרְחֶצֶת בְּשַׁבָּת, אִם רוֹב גּוֹיִם — לָעֶרֶב רוֹחֵץ בָּהּ מִיָּד. אִם רוֹב יִשְׂרָאֵל — יַמְתִּין עַד כְּדֵי שֶׁיֵּחַמּוּ חַמִּין. מֶחֱצָה עַל מֶחֱצָה — אָסוּר וְיַמְתִּין עַד כְּדֵי שֶׁיֵּחַמּוּ חַמִּין. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בְּאַמְבָּטִי קְטַנָּה, אִם יֵשׁ בָּהּ רְשׁוּת רוֹחֵץ בָּהּ מִיָּד.

E, por outro lado, foi ensinado numa baraita conforme Rav: uma cidade em que moram juntos israelitas e gentios, e havia nela uma casa de banhos que dá banhos no Shabat: se a maioria dos moradores é de gentios, à noite, após o Shabat, o israelita banha-se nela imediatamente; se a maioria é de israelitas, espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente após o Shabat, para não se beneficiar do que foi aquecido no Shabat; metade e metade, é proibido banhar-se logo, e espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente. Rabi Yehuda diz: numa banheira pequena, se há nela autoridade, banha-se nela imediatamente após o Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tanya keveteih deRav”, “be'ambati ketana”, “im yesh bah reshut” e “rochetz bah”
תניא כוותיה דרב - דספיקא אסור דקתני מחצה על מחצה ימתין בכדי שיחמו חמין וא"ת בכדי שיחמו חמין מיהא שרי והכא תני לא יספוד בהן משמע לעולם הכא מוכחא מילתא אבל במרחץ לא מוכחא מילתא כולי האי הואיל ואיכא נכרים: באמבטי קטנה - שיש לתלות ולומר משחשיכה הוחמה על ידי עבדים וקומקמין הרבה: אם יש בה רשות - אדם חשוב שליט: רוחץ בה - ישראל מיד דיש לומר משחשיכה הוחמו חמין לאותו נכרי לישנא אחרינא גרסינן תניא כוותיה דשמואל ולא גרסי' דייקא מתני' כו' עד מספיקא שרי ומייתי סייעתא לשמואל מדרבי יהודה דתלינן לקולא ורישא לא קשיא ליה כיון דמחצה על מחצה ודאי בשביל ישראל ונכרים הוחמו שהרי לא לאדם אחד לבדו הוחמו דנימא ספיקא לנכרי ספק לישראל ולשון זה נראה לי עיקר ורבותי נמי לא גרסי לעיל להא דקתני עשה נכרי את הארון עד מספיקא שרי ומיהו לא מפרשי לה כדפרישית:

“Foi ensinado conforme Rav” — isto é, conforme a sua opinião de que a dúvida é proibida, pois ensina a baraita: metade e metade, que é caso de dúvida, espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente. E, se disseres: na casa de banhos, ao menos depois do tempo suficiente para que se aqueça a água quente é permitido, e aqui, nas flautas, ensina “não faça lamentação com elas”, que significa jamais: responde-se que aqui a coisa é evidente, que foram trazidas para o israelita, mas na casa de banhos a coisa não é tão evidente, já que há gentios que também se banham ali.

“Numa banheira pequena” — trata-se de uma banheira que se pode atribuir e dizer que, depois que anoiteceu, ao término do Shabat, foi aquecida rapidamente por meio de escravos e muitas chaleiras.

“Se há nela autoridade” — isto é, uma pessoa importante, que governa a cidade.

“Banha-se nela” — o israelita, imediatamente, pois se pode dizer que, depois que anoiteceu, a água foi aquecida para aquele gentio importante. Em outra versão do texto da Guemará, lemos: “foi ensinado conforme Shmuel”, e não lemos “a nossa mishná é precisa” etc., até “na dúvida, é permitido”; e traz-se apoio para Shmuel a partir de Rabi Yehuda, pois com ele atribuímos a dúvida para a leniência. E a primeira cláusula da baraita não lhe é difícil, a Shmuel, já que, metade e metade, certamente foi aquecida para israelitas e gentios juntos, pois não foi aquecida para uma só pessoa, para que digamos: é dúvida se para um gentio, dúvida se para um israelita. E esta versão parece-me a principal; e os meus mestres também não leem acima, na Guemará, isto que ensina “o gentio fez o caixão”, até “na dúvida, é permitido”; porém não a explicam, essa versão, como eu expliquei.

Nota

Na cidade de população dividida, a dúvida sobre para quem a água foi aquecida no Shabat leva à proibição, como diz Rav. Rabi Yehuda permite banhar-se imediatamente numa banheira pequena quando há na cidade uma autoridade, pois se pode supor que foi aquecida depois do anoitecer. Rashi registra outra versão, que prefere, em que a baraita apoia Shmuel por meio de Rabi Yehuda.

1648O que é “autoridade”: as dez chaleiras
Rav Yehuda e Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda
מַאי ״רְשׁוּת״? אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב יִצְחָק בְּרֵיהּ דְּרַב יְהוּדָה: אִם יֵשׁ בָּהּ אָדָם חָשׁוּב שֶׁיֵּשׁ לוֹ עֲשָׂרָה עֲבָדִים שֶׁמְּחַמְּמִין לוֹ עֲשָׂרָה קוּמְקוּמִין בְּבַת אַחַת בְּאַמְבָּטִי קְטַנָּה — מוּתָּר לִרְחוֹץ בָּהּ מִיָּד.

Pergunta-se: o que é “autoridade”? Disse Rav Yehuda, disse Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda: se há nela, na cidade, uma pessoa importante, que tem dez escravos que lhe aquecem dez chaleiras de uma só vez numa banheira pequena, é permitido ao israelita banhar-se nela imediatamente após o Shabat, pois pode ter sido aquecida para essa pessoa logo após o Shabat, e não no próprio Shabat.

Nota

Uma pessoa importante com muitos escravos pode mandar aquecer de uma vez água suficiente para uma banheira pequena logo após o Shabat; por isso não se presume que a água foi aquecida no Shabat.

1649O caixão e a sepultura: a estrada pública
Ulla e Rabi Abbahu
עָשׂוּ לוֹ אָרוֹן וְחָפְרוּ לוֹ קֶבֶר וְכוּ׳. אַמַּאי? הָכָא נָמֵי יַמְתִּין בִּכְדֵי שֶׁיֵּעָשׂוּ! אָמַר עוּלָּא: בְּעוֹמֵד בְּאַסְרַטְיָא. תִּינַח קֶבֶר, אָרוֹן מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ: בְּמוּטָל עַל קִבְרוֹ.

“Se lhe fizeram um caixão e lhe cavaram uma sepultura” etc. Pergunta-se: por que é permitido de imediato? Aqui também, espere o tempo suficiente para que sejam feitos após o Shabat! Responde-se: disse Ulla: quando a sepultura está numa estrada pública, onde israelitas não costumam ser sepultados. Pergunta-se: compreende-se a sepultura; o caixão, o que há para dizer? Responde-se: disse Rabi Abbahu: quando o caixão está posto sobre a sua sepultura, a de um gentio, o que prova que foi feito para ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yamtin bichdei sheye'assu”, “be'omed”, “aron mai ika lemeimar”, “bemutal” e “al kivro”
ימתין בכדי שיעשו - נהי דלא מוכחא מילתא מיהו י"ל שמא בשביל ישראל נעשה: בעומד - הקבר באיסרטיא שאין דרך ישראל ליקבר שם דודאי לא נעשה בשביל ישראל: ארון מאי איכא למימר - להוכיח דלא בשביל ישראל נעשה: במוטל - הארון: על קברו - של נכרי באיסרטיא דמוכח דלשם אותו קבר נעשה הארון:

“Espere o tempo suficiente para que sejam feitos” — como na casa de banhos, pois, ainda que a coisa não seja evidente, em todo caso pode-se dizer que talvez tenha sido feito para um israelita.

“Quando está” — isto é, a sepultura, numa estrada pública, onde não é costume de israelitas serem sepultados ali, de modo que certamente não foi feita para um israelita, e é permitida de imediato.

“O caixão, o que há para dizer” — que sinal há nele para provar que não foi feito para um israelita?

“Quando está posto” — isto é, o caixão.

“Sobre a sua sepultura” — isto é, sobre a sepultura de um gentio, numa estrada pública, o que prova que para aquela sepultura foi feito o caixão, e não para um israelita.

Nota

Por que a mishná permite o uso imediato, sem esperar o tempo necessário para fazer o trabalho depois do Shabat? Ulla responde que a sepultura está numa estrada pública, onde judeus não são enterrados, de modo que claramente não foi feita para um israelita; e Rabi Abbahu explica o caixão: estava posto sobre a sepultura do gentio.

Nova Mishná: todas as necessidades do morto · עוֹשִׂין כׇּל צׇרְכֵי הַמֵּת

1650Mishná: ungir e lavar o morto, sem mover-lhe um membro
Mishná
מַתְנִי׳ עוֹשִׂין כׇּל צׇרְכֵי הַמֵּת: סָכִין וּמְדִיחִין אוֹתוֹ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יָזִיז בּוֹ אֵבֶר. שׁוֹמְטִין אֶת הַכַּר מִתַּחְתָּיו, וּמְטִילִין אוֹתוֹ עַל הַחוֹל בִּשְׁבִיל

MISHNÁ. Fazem-se no Shabat todas as necessidades do morto: unge-se com óleo e lava-se o morto com água, contanto que não se lhe mova nenhum membro, pois o morto é coisa que não se pode manejar no Shabat. Retira-se a almofada de debaixo dele, e deita-se-o sobre a areia fria, a fim de

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin umedichin” e “shelo yaziz bo ever”
מתני' ומדיחין - במים: שלא יזיז בו אבר - לא יגביה לו ידו או רגלו או ריסי עיניו:

“MISHNÁ. E lava-se” — o corpo, com água.

“Contanto que não se lhe mova nenhum membro” — isto é, que não lhe levante a mão, ou o pé, ou as pálpebras dos olhos do morto.

Nota

Abre-se outra mishná, ainda no Perek Vinte e Três: no Shabat podem-se fazer todas as necessidades do morto, como ungi-lo e lavá-lo, desde que não se movam os seus membros, pois o corpo é muktze. A mishná prossegue em 151b.

O daf termina aqui, no meio da nova mishná sobre as necessidades do morto no Shabat, ao começar a tratar da areia sob o corpo. O Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) prossegue em Shabbat 151b.