O daf continua diretamente de 150b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a pergunta sobre a que cláusula da mishná se refere a regra de Abba Shaul: refere-se à cláusula final, e a permissão de dizer vem do ensinamento de Rav Yehuda em nome de Shmuel, que permite combinar no Shabat a guarda recíproca dos frutos; a “regra” vem incluir o animal que se chama de fora do limite, e a baraita acrescenta os assuntos da noiva e do morto, com a ressalva de Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, sobre não mencionar o preço. Abre-se então uma nova mishná: espera-se o anoitecer pela noiva e pelo morto; as flautas trazidas por um gentio no Shabat só servem à lamentação se vieram de um lugar próximo; e o caixão e a sepultura feitos por gentios servem a um israelita, salvo se foram feitos para ele. Na guemará, Rav exige certeza de que vieram de perto, e Shmuel supõe que pernoitaram junto à muralha; a mishná é precisa conforme Shmuel, e a baraita da casa de banhos na cidade mista apoia Rav, com a banheira pequena e as dez chaleiras da pessoa importante segundo Rabi Yehuda. Ulla e Rabi Abbahu explicam que a sepultura estava numa estrada pública e o caixão posto sobre ela. O daf termina no meio da nova mishná sobre as necessidades do morto no Shabat, que prossegue em Shabbat 151b.
Pergunta-se: se Abba Shaul se refere à primeira cláusula da mishná, que proíbe esperar o anoitecer para trazer frutos, este enunciado, “tudo aquilo que me é permitido dizer no Shabat, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa”, é adequado? “Tudo aquilo que não me é permitido dizer, não me é permitido esperar o anoitecer por sua causa” deveria ter dito, em forma negativa, como na primeira cláusula! Responde-se: antes, refere-se à cláusula final: “mas espera o anoitecer para guardar os seus frutos, e traz frutos na sua mão”. Pergunta-se: então, este enunciado é adequado? “Tudo aquilo por que me é permitido esperar o anoitecer, é-me permitido dizê-lo” deveria ter dito, no sentido inverso!
“Antes, refere-se à cláusula final” — isto é, à cláusula que o primeiro tanaíta disse para permissão: “mas espera o anoitecer para guardar”; e vem ele, Abba Shaul, e estabelece nela uma regra, para incluir tudo o que é semelhante a elas, às coisas ali permitidas.
“Este ‘tudo aquilo por que me é permitido esperar o anoitecer, é-me permitido dizê-lo’ deveria ter dito” — a formulação está invertida, pois a permissão de esperar o anoitecer para guardar aprendemos na mishná, e a permissão de dizer ao companheiro que guarde não aprendemos; e como se faz depender o que foi ensinado explicitamente do que não foi ensinado?
Conclui-se a pergunta iniciada no fim de 150b. Se a regra de Abba Shaul se ligasse à cláusula proibitiva, deveria ter sido formulada como proibição; se se liga à cláusula permissiva, a mishná só ensinou explicitamente a permissão de esperar o anoitecer para guardar, e então a regra deveria partir do esperar o anoitecer para o dizer, e não o inverso.
Responde-se: na verdade, refere-se à cláusula final; e Abba Shaul refere-se a isto que disse Rav Yehuda, disse Shmuel: é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro no Shabat: “Guarda-me os frutos que estão no teu limite, e eu te guardarei os frutos que estão no meu limite.” E é isto que diz Abba Shaul ao primeiro tanaíta: acaso não concordas que é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro: “Guarda-me os frutos que estão no teu limite, e eu te guardarei os frutos que estão no meu limite”? É num caso assim, em que é permitido dizer, que Abba Shaul permite esperar o anoitecer junto ao limite para guardar os frutos.
“Na verdade, refere-se à cláusula final” — como disseste na segunda tentativa; e quanto ao que te é difícil, a permissão de dizer, de onde ele, Abba Shaul, a tira, para fazer depender dela o esperar o anoitecer: a resposta é que se refere a isto que disse Rav Yehuda etc.; conclui-se que me é permitido dizê-lo. E a Abba Shaul e ao primeiro tanaíta, a todos eles é óbvia esta lei de Shmuel; e diz Abba Shaul ao primeiro tanaíta: acaso não concordas, neste caso em que permites esperar o anoitecer para guardar, que é permitido dizer, conforme Shmuel? Conclui-se que, já que é permitido dizer, é permitido esperar o anoitecer. Portanto, por que tomaste tu apenas o esperar o anoitecer para guardar? Antes, estabelece uma regra para a matéria e diz: tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa; pois se aprende dela este caso dos frutos, e se aprendem dela o morto e a noiva, pois também isto é permitido dizer no Shabat, como se explica adiante; e por isso espera-se o anoitecer por sua causa. E a cláusula final da nossa mishná, que ensina: “espera-se o anoitecer junto ao limite para cuidar dos assuntos da noiva”, é de Abba Shaul, segundo a sua regra.
A regra se liga à cláusula permissiva. A permissão de dizer, que não está na mishná, vem do ensinamento de Shmuel: pode-se combinar no Shabat a guarda recíproca dos frutos. Abba Shaul argumenta com o primeiro tanaíta: se é permitido dizer, é permitido esperar o anoitecer, e por isso a guarda dos frutos é apenas um exemplo de uma regra mais ampla, que inclui também os assuntos da noiva e do morto.
Pergunta-se ainda: mas diga-se simplesmente: “tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa”! A “regra” de Abba Shaul vem incluir o quê? Responde-se: vem incluir isto que ensinaram os Rabanan numa baraita: não se espera o anoitecer junto ao limite do Shabat para trazer um animal logo após o Shabat. Se estava parado logo fora do limite, chama-o e ele vem até ele. Uma regra disse Abba Shaul: tudo aquilo que me é permitido dizer, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa; e, como é permitido chamar o animal, é permitido também esperar o anoitecer para trazê-lo.
“Uma regra disse Abba Shaul etc.” — e inclui o animal, e também isto é permitido dizer no Shabat, como ensina a cláusula final da baraita: “e diz-lhe: vai a tal lugar”.
Por que chamar o ensinamento de “regra”? Para incluir o caso da baraita sobre o animal: o primeiro tanaíta não permite esperar o anoitecer junto ao limite para trazê-lo, mas, já que é permitido chamá-lo quando está logo fora do limite, Abba Shaul permite também esperar o anoitecer por sua causa.
E, segundo todos, espera-se o anoitecer para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto, como para trazer-lhe caixão e mortalhas. E diz-se-lhe, ao mensageiro, no Shabat: “Vai a tal lugar, e, se não encontrares em tal lugar, traz de tal lugar.” E diz-se-lhe também: “Não encontraste por um mané, traz por duzentos.” Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, diz: é permitido dar-lhe instruções, contanto que não lhe mencione a soma da compra.
“A soma da compra” — isto é, que não lhe diga um mané, ou duzentos.
A baraita prossegue: para as necessidades da noiva e do morto pode-se esperar o anoitecer junto ao limite, e pode-se até instruir no Shabat o mensageiro sobre onde comprar e quanto pagar. Rabi Yosei, filho de Rabi Yehuda, restringe: não se menciona um preço determinado.
MISHNÁ. Espera-se o anoitecer junto ao limite do Shabat para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto, como para trazer-lhe caixão e mortalhas. Um gentio que trouxe flautas no Shabat para tocá-las no lamento, um israelita não faça lamentação com elas, a não ser que tenham vindo de um lugar próximo, de dentro do limite. Se gentios lhe fizeram um caixão e lhe cavaram uma sepultura no Shabat, e depois os destinaram a outro, seja sepultado nela um israelita; mas, se foi feito desde o início para um israelita, um israelita não seja sepultado nela jamais.
“MISHNÁ. Um gentio que trouxe flautas no Shabat” — isto é, trouxe-as para a necessidade de um israelita.
“Um israelita não faça lamentação com elas” — jamais, nem mesmo após esperar o tempo de trazê-las; e é uma multa dos sábios, porque a coisa é evidente, que por causa dele, do israelita, foram trazidas, pois não é costume trazer flautas senão por causa de um morto.
“De um lugar próximo” — isto é, dentro do limite do Shabat.
“Se lhe fizeram um caixão” — isto é, se o fizeram para um gentio, ou para vender, e não para um israelita.
Ainda no Perek Vinte e Três, abre-se uma nova mishná. Pelas necessidades da noiva e do morto pode-se esperar o anoitecer junto ao limite. Flautas trazidas por um gentio no Shabat para um funeral não podem ser usadas por um israelita, a menos que tenham vindo de dentro do limite; e um caixão ou uma sepultura feitos no Shabat por gentios podem servir a um israelita, salvo se foram feitos para ele.
GUEMARÁ. Pergunta-se: o que é “de um lugar próximo”? Rav disse: de um lugar próximo de fato, que se sabe com certeza de onde vieram. E Shmuel disse: mesmo sem saber de onde vieram, tememos que talvez tenham pernoitado fora da muralha, que ainda está dentro do limite, e nada se transgrediu por causa delas.
“GUEMARÁ. Rav disse: de um lugar próximo de fato” — isto é, que nos é conhecida com clareza a coisa, que vieram de um lugar próximo, pois as vimos, que estavam na sua casa, dentro do limite; mas, na dúvida, é proibido.
“E Shmuel disse: tememos que talvez tenham pernoitado fora da muralha” — mesmo que o gentio as tenha trazido de fora da cidade, nós atribuímos a dúvida para permitir, e dizemos: talvez tenham pernoitado dentro do limite, junto à muralha, na véspera do Shabat; e por isso faz-se lamentação com elas à saída do Shabat imediatamente. E também a expressão “tememos” dizemos para a leniência, e não só para a rigidez, como dizemos no tratado Chagiga (15a), a respeito da virgem que engravidou: tememos que talvez tenha engravidado numa banheira, e é permitida ao sacerdócio, pois se presume que ainda é virgem. E, segundo Shmuel, assim diz a mishná, isto é, assim deve ser lida: um israelita não faça lamentação com elas, a não ser que se possa atribuir que vieram de um lugar próximo; para excluir apenas quando se sabe que vieram de fora do limite.
Rav exige saber com certeza que as flautas vieram de dentro do limite. Shmuel é leniente: mesmo trazidas de fora da cidade, supõe-se que tenham passado a noite junto à muralha, dentro do limite, e só se proíbe quando se sabe que vieram de fora dele. Rashi observa que aqui o “tememos” serve à leniência, como no caso de Chagiga.
Diz-se: a nossa mishná é precisa conforme Shmuel, pois ensina: “Se lhe fez um caixão e lhe cavou uma sepultura, seja sepultado nela um israelita.” Conclui-se que, na dúvida se foram feitos para um israelita, é permitido; aqui também, no caso das flautas, na dúvida se foram trazidas de fora do limite, é permitido.
Assim lemos o texto: “A nossa mishná é precisa conforme Shmuel, e foi ensinado conforme Rav”, de modo que cada opinião tem o seu apoio.
“Seja sepultado nela um israelita” — pois atribuímos, por causa da dúvida, que talvez a sepultura tenha sido feita para a necessidade de um gentio, e a dúvida é permitida.
A cláusula do caixão e da sepultura permite o uso mesmo sem saber para quem foram feitos; do mesmo modo, no caso das flautas, a dúvida leva à permissão, como diz Shmuel.
E, por outro lado, foi ensinado numa baraita conforme Rav: uma cidade em que moram juntos israelitas e gentios, e havia nela uma casa de banhos que dá banhos no Shabat: se a maioria dos moradores é de gentios, à noite, após o Shabat, o israelita banha-se nela imediatamente; se a maioria é de israelitas, espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente após o Shabat, para não se beneficiar do que foi aquecido no Shabat; metade e metade, é proibido banhar-se logo, e espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente. Rabi Yehuda diz: numa banheira pequena, se há nela autoridade, banha-se nela imediatamente após o Shabat.
“Foi ensinado conforme Rav” — isto é, conforme a sua opinião de que a dúvida é proibida, pois ensina a baraita: metade e metade, que é caso de dúvida, espere o tempo suficiente para que se aqueça a água quente. E, se disseres: na casa de banhos, ao menos depois do tempo suficiente para que se aqueça a água quente é permitido, e aqui, nas flautas, ensina “não faça lamentação com elas”, que significa jamais: responde-se que aqui a coisa é evidente, que foram trazidas para o israelita, mas na casa de banhos a coisa não é tão evidente, já que há gentios que também se banham ali.
“Numa banheira pequena” — trata-se de uma banheira que se pode atribuir e dizer que, depois que anoiteceu, ao término do Shabat, foi aquecida rapidamente por meio de escravos e muitas chaleiras.
“Se há nela autoridade” — isto é, uma pessoa importante, que governa a cidade.
“Banha-se nela” — o israelita, imediatamente, pois se pode dizer que, depois que anoiteceu, a água foi aquecida para aquele gentio importante. Em outra versão do texto da Guemará, lemos: “foi ensinado conforme Shmuel”, e não lemos “a nossa mishná é precisa” etc., até “na dúvida, é permitido”; e traz-se apoio para Shmuel a partir de Rabi Yehuda, pois com ele atribuímos a dúvida para a leniência. E a primeira cláusula da baraita não lhe é difícil, a Shmuel, já que, metade e metade, certamente foi aquecida para israelitas e gentios juntos, pois não foi aquecida para uma só pessoa, para que digamos: é dúvida se para um gentio, dúvida se para um israelita. E esta versão parece-me a principal; e os meus mestres também não leem acima, na Guemará, isto que ensina “o gentio fez o caixão”, até “na dúvida, é permitido”; porém não a explicam, essa versão, como eu expliquei.
Na cidade de população dividida, a dúvida sobre para quem a água foi aquecida no Shabat leva à proibição, como diz Rav. Rabi Yehuda permite banhar-se imediatamente numa banheira pequena quando há na cidade uma autoridade, pois se pode supor que foi aquecida depois do anoitecer. Rashi registra outra versão, que prefere, em que a baraita apoia Shmuel por meio de Rabi Yehuda.
Pergunta-se: o que é “autoridade”? Disse Rav Yehuda, disse Rav Yitzchak, filho de Rav Yehuda: se há nela, na cidade, uma pessoa importante, que tem dez escravos que lhe aquecem dez chaleiras de uma só vez numa banheira pequena, é permitido ao israelita banhar-se nela imediatamente após o Shabat, pois pode ter sido aquecida para essa pessoa logo após o Shabat, e não no próprio Shabat.
Uma pessoa importante com muitos escravos pode mandar aquecer de uma vez água suficiente para uma banheira pequena logo após o Shabat; por isso não se presume que a água foi aquecida no Shabat.
“Se lhe fizeram um caixão e lhe cavaram uma sepultura” etc. Pergunta-se: por que é permitido de imediato? Aqui também, espere o tempo suficiente para que sejam feitos após o Shabat! Responde-se: disse Ulla: quando a sepultura está numa estrada pública, onde israelitas não costumam ser sepultados. Pergunta-se: compreende-se a sepultura; o caixão, o que há para dizer? Responde-se: disse Rabi Abbahu: quando o caixão está posto sobre a sua sepultura, a de um gentio, o que prova que foi feito para ele.
“Espere o tempo suficiente para que sejam feitos” — como na casa de banhos, pois, ainda que a coisa não seja evidente, em todo caso pode-se dizer que talvez tenha sido feito para um israelita.
“Quando está” — isto é, a sepultura, numa estrada pública, onde não é costume de israelitas serem sepultados ali, de modo que certamente não foi feita para um israelita, e é permitida de imediato.
“O caixão, o que há para dizer” — que sinal há nele para provar que não foi feito para um israelita?
“Quando está posto” — isto é, o caixão.
“Sobre a sua sepultura” — isto é, sobre a sepultura de um gentio, numa estrada pública, o que prova que para aquela sepultura foi feito o caixão, e não para um israelita.
Por que a mishná permite o uso imediato, sem esperar o tempo necessário para fazer o trabalho depois do Shabat? Ulla responde que a sepultura está numa estrada pública, onde judeus não são enterrados, de modo que claramente não foi feita para um israelita; e Rabi Abbahu explica o caixão: estava posto sobre a sepultura do gentio.
MISHNÁ. Fazem-se no Shabat todas as necessidades do morto: unge-se com óleo e lava-se o morto com água, contanto que não se lhe mova nenhum membro, pois o morto é coisa que não se pode manejar no Shabat. Retira-se a almofada de debaixo dele, e deita-se-o sobre a areia fria, a fim de
“MISHNÁ. E lava-se” — o corpo, com água.
“Contanto que não se lhe mova nenhum membro” — isto é, que não lhe levante a mão, ou o pé, ou as pálpebras dos olhos do morto.
Abre-se outra mishná, ainda no Perek Vinte e Três: no Shabat podem-se fazer todas as necessidades do morto, como ungi-lo e lavá-lo, desde que não se movam os seus membros, pois o corpo é muktze. A mishná prossegue em 151b.