Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Três (Sho'el)
מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד

As contas que já passaram; o piedoso e a alcaparreira; “se houvesse ali divisórias”: frutos, palha, a noiva e o morto; a havdalá entre os lagares; a regra de Abba Shaul

Shabbat 150b · Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) · a guemará prossegue em 151a

O daf continua diretamente de 150a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a baraita sobre as contas de “malach” e de “ma bechach”, que é permitido calcular no Shabat. Outra baraita parece permitir as contas que já passaram, e a guemará concilia: a conta passada é proibida enquanto ainda se deve o salário do contratado. Sobre “não se espera o anoitecer”, conta-se do piedoso que pensou em cercar no Shabat a brecha do seu campo, absteve-se para sempre e foi sustentado por uma alcaparreira que nasceu nela. Rav Yehuda, em nome de Shmuel, permite dizer “à cidade tal eu vou amanhã”, pois com postos de guarda a viagem seria permitida; a guemará testa esse princípio com os frutos presos ao solo, a palha apodrecida de Rabi Oshaya e a baraita sobre os assuntos da noiva e do morto, com a murta e o manto cortado para as mortalhas. Sobre “mas espera o anoitecer” para guardar, pergunta-se como se trabalha antes da havdalá: Rabi Natan bar Ami responde que se trata do limite entre os lagares, e Rabi Abba e Rav Ashi relatam o costume de dizer “que distingue entre o sagrado e o profano” antes de voltar ao trabalho. O daf termina no meio da pergunta sobre a que cláusula da mishná se refere a regra de Abba Shaul, que prossegue em Shabbat 151a.

Contas desnecessárias e contas que já passaram · חוֹשְׁבִין חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁאֵינָן צְרִיכִין

1627“E de ma bechach”: o fim da baraita
Baraita
וְשֶׁל מַה בְּכָךְ — מוּתָּר לְחַשְּׁבָן.

Termina a baraita: e as contas de ma bechach (que importância tem isso), isto é, as que já não têm consequência prática, é permitido calculá-las no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshel ma bechach”
ושל מה בכך - כגון שכבר היו לצורך אלא שעברו כגון כך וכך הוצאתי בבנין זה:

“E de ma bechach” — são, como, por exemplo, as contas que já foram feitas para uma necessidade, mas que passaram; como, por exemplo, quem diz: tanto e tanto gastei nesta construção.

Nota

Conclui-se a baraita iniciada no fim de 150a: as contas de “malach” e as de “ma bechach”, isto é, as que não têm mais consequência prática, como o registro de quanto já se gastou numa obra concluída, podem ser feitas no Shabat.

1628A contradição: “tanto e tanto gastei”
Baraita
וּרְמִינְהוּ: חוֹשְׁבִין חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁאֵינָן צְרִיכִין, וְאֵין מְחַשְּׁבִין חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁצְּרִיכִין, בְּשַׁבָּת. כֵּיצַד? אוֹמֵר אָדָם לַחֲבֵירוֹ: ״כָּךְ וְכָךְ פּוֹעֲלִים הוֹצֵאתִי עַל שָׂדֶה זוֹ, כָּךְ וְכָךְ דִּינָרִין הוֹצֵאתִי עַל דִּירָה זוֹ״. אֲבָל לֹא יֹאמַר לוֹ: ״כָּךְ וְכָךְ הוֹצֵאתִי, וְכָךְ וְכָךְ אֲנִי עָתִיד לְהוֹצִיא״!

E a guemará contrapõe-se a elas com outra baraita: calculam-se contas que não são necessárias, e não se calculam contas que são necessárias, no Shabat. Como assim? Uma pessoa diz ao seu companheiro: “Tantos e tantos trabalhadores empreguei neste campo, tantos e tantos dinares gastei nesta morada.” Mas não lhe diga: “Tanto e tanto gastei, e tanto e tanto hei de gastar”! Pelo visto, é permitido calcular no Shabat as despesas já passadas, ao contrário do que ensinou a primeira baraita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “cheshbonot she'avru” e “kach vechach hotzeti”
חשבונות שעברו - לקמן מוקי לה דלא עברו לגמרי שעדיין שכר הפועלים עליו שלא נתנו להן ושל מה בכך שעברו לגמרי ואין שכר פועלים עליו: כך וכך הוצאתי - אלמא עברו מותרין:

“Contas que já passaram” — que a primeira baraita proíbe: adiante se estabelece que são contas que não passaram completamente, pois ainda pesa sobre ele o salário dos trabalhadores, que não lhes deu; e as de “ma bechach”, que ela permite, são as que passaram completamente, e não pesa sobre ele salário de trabalhadores.

“Tanto e tanto gastei” — desta segunda baraita conclui-se que as contas que passaram são permitidas, o que contradiz a primeira.

Nota

A baraita anterior proibia calcular as contas que já passaram; esta outra baraita permite justamente dizer quanto se gastou com trabalhadores e com a casa, e só proíbe somar o que se gastou ao que ainda se há de gastar.

1629O salário do contratado ainda com ele
Anônimo
וּלְטַעְמָיךְ, קַשְׁיָא לָךְ הִיא גּוּפַהּ! אֶלָּא: הָא — דְּאִיכָּא אַגְרָא דַאֲגִירָא גַּבֵּיהּ. הָא — דְּלֵיכָּא אַגְרָא דַאֲגִירָא גַּבֵּיהּ.

Responde-se: e, segundo o teu raciocínio, ela própria, a primeira baraita, te é difícil, pois proíbe as contas passadas e permite as de ma bechach! Antes, explique-se assim: esta, que proíbe, trata do caso em que o salário do contratado ainda está com ele, por pagar; esta, que permite, trata do caso em que o salário do contratado não está com ele, pois já pagou tudo e a conta não tem consequência prática.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tikshei lach hi gufa”
תקשי לך היא גופא - ברייתא קמייתא רישא קתני שעברו אסורין וסיפא קתני של מה בכך מותרין דהיינו עברו:

“Ela própria te é difícil” — isto é, a primeira baraita: no início ensina que as contas que passaram são proibidas, e no fim ensina que as de “ma bechach” são permitidas, que são justamente as que passaram.

Nota

A própria primeira baraita parece contraditória, pois proíbe as contas passadas e permite as de “ma bechach”, que também são passadas. A solução: a conta passada é proibida enquanto ainda se deve o salário dos trabalhadores, pois então tem consequência prática; quitada a dívida, é mera conta sem importância.

“Não se espera o anoitecer”: o piedoso e a brecha no campo · מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד

1630O piedoso que não cercou a brecha e a alcaparreira
Baraita
אֵין מַחְשִׁיכִין. תָּנוּ רַבָּנַן: מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֶׁנִּפְרְצָה לוֹ פִּרְצָה בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ וְנִמְלַךְ עָלֶיהָ לְגוֹדְרָהּ, וְנִזְכַּר שֶׁשַּׁבָּת הוּא, וְנִמְנַע אוֹתוֹ חָסִיד וְלֹא גְּדָרָהּ, וְנַעֲשָׂה לוֹ נֵס וְעָלְתָה בּוֹ צָלָף, וּמִמֶּנָּה הָיְתָה פַּרְנָסָתוֹ וּפַרְנָסַת אַנְשֵׁי בֵיתוֹ.

“Não se espera o anoitecer” junto ao limite, como aprendemos na mishná. A esse respeito, ensinaram os Rabanan: aconteceu com um piedoso, a quem se abriu uma brecha no meio do seu campo, e ele resolveu no Shabat cercá-la; e então lembrou-se de que era Shabat, e aquele piedoso absteve-se e não a cercou jamais, por ter pensado nisso no Shabat; e foi-lhe feito um milagre, e nasceu nela, na brecha, uma alcaparreira, que a fechou, e dela vinha o seu sustento e o sustento das pessoas da sua casa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tzalaf”
צלף - אילן גדול הוא ובעל ענפים הרבה ושלשה מיני אוכל יש בפירותיו אביונות קפריסין ולולבין:

“Alcaparreira” — é uma árvore grande e de muitos ramos, e há três espécies de alimento nos seus frutos: evyonot (os frutos), kafrisin (as cascas) e lulavin (os brotos).

Nota

O piedoso apenas pensou, no Shabat, em consertar a cerca, e por isso nunca mais a consertou; em recompensa, a brecha foi fechada por uma alcaparreira que passou a sustentar a sua família. A história ilustra a mishná: o que se planeja no Shabat para depois dele merece cautela.

1631“À cidade tal eu vou amanhã”: se houvesse postos de guarda
Rav Yehuda e Shmuel
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מוּתָּר לָאָדָם לוֹמַר לַחֲבֵירוֹ ״לִכְרַךְ פְּלוֹנִי אֲנִי הוֹלֵךְ לְמָחָר״, שֶׁאִם יֵשׁ בּוּרְגָּנִין — הוֹלֵךְ.

Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro no Shabat: “À cidade tal eu vou amanhã”, embora hoje seja proibido ir até lá, pois, se há burganin (postos de guarda), vai até lá mesmo no Shabat; e o que pode ser feito de modo permitido, é permitido dizê-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “she'im yesh burganin”
שאם יש בורגנין - מע' אמה לע' אמה הולך אפי' בשבת שהכל חשוב כעיר אחת וכל העיר כד' אמות כדאמרינן בעירובין (דף כא.) וכיון דהוא דבר שיש לו היתר על ידי תקנה בשבת מותר לאומרו אפילו במקום שאין שם ההיתר:

“Pois, se há burganin” — isto é, postos de setenta cúbitos em setenta cúbitos, vai-se mesmo no Shabat, pois tudo é considerado como uma só cidade, e toda a cidade é como quatro cúbitos, como dizemos em Eruvin (21a); e, já que é coisa que tem permissão por meio de um arranjo como esse no Shabat, é permitido dizê-lo ao companheiro mesmo em lugar onde não há ali a permissão, isto é, onde não há postos de guarda.

Nota

Se houvesse postos de guarda a cada setenta cúbitos ao longo do caminho, toda a área contaria como uma só cidade e seria permitido percorrê-la no Shabat. Como a viagem pode, em tese, ser permitida, também é permitido falar dela, ainda que de fato não haja tais postos.

“Se houvesse ali divisórias”: frutos presos, palha, a noiva e o morto · שֶׁאִם יֵשׁ שָׁם מְחִיצּוֹת

1632Trazer frutos: os frutos presos ao solo
Anônimo
תְּנַן: אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לִשְׂכּוֹר פּוֹעֲלִים וּלְהָבִיא פֵּירוֹת. בִּשְׁלָמָא לִשְׂכּוֹר פּוֹעֲלִים דִּבְשַׁבָּת לָא מָצֵי אָגַר, אֶלָּא לְהָבִיא פֵּירוֹת? לֵימָא: שֶׁאִם יֵשׁ שָׁם מְחִיצּוֹת — מֵבִיא! מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ בְּפֵירוֹת הַמְחוּבָּרִים.

Aprendemos na mishná: não se espera o anoitecer junto ao limite do Shabat para contratar trabalhadores e para trazer frutos logo após o Shabat. Pergunta-se: compreende-se a proibição de esperar para contratar trabalhadores, pois no Shabat não pode contratar de modo algum; mas para trazer frutos, por que é proibido? Diga-se: pois, se há ali divisórias, traz os frutos mesmo no Shabat, e pelo princípio de Shmuel deveria ser permitido esperar! Responde-se: encontras isso nos frutos presos ao solo, que não há como colher no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hamechubarim”
המחוברים - שא"א לקצצן בשבת ע"י שום תקנה:

“Presos” — isto é, frutos que é impossível cortá-los no Shabat por meio de qualquer arranjo, e por isso é proibido esperar por eles.

Nota

Pelo princípio de Shmuel, se trazer frutos de fora do limite fosse permitido caso houvesse divisórias, também seria permitido esperar o anoitecer para trazê-los. A guemará responde que a mishná trata de frutos ainda presos ao solo, cuja colheita no Shabat não admite permissão alguma.

1633Palha e restolho: a palha apodrecida
Rabi Oshaya
וְהָתָנֵי רַבִּי אוֹשַׁעְיָא: אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לְהָבִיא תֶּבֶן וָקַשׁ. בִּשְׁלָמָא קַשׁ מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ בִּמְחוּבָּר. אֶלָּא תֶּבֶן, הֵיכִי מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ? בְּתִיבְנָא סַרְיָא.

Pergunta-se: mas não ensinou Rabi Oshaya: não se espera o anoitecer junto ao limite para trazer palha e restolho? Compreende-se o restolho: encontras isso no que está preso ao solo. Mas a palha, que já está cortada, como a encontras proibida mesmo com divisórias? Responde-se: em palha apodrecida, que é muktze.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kash” e “betivna sarya”
קש - זנבות השבולים אשטרצי"א: בתיבנא סריא - שאפי' יש מחיצות אינו מביא משום דמוקצה הוא:

“Restolho” — são as caudas das espigas; em francês antigo, eshtratzia.

“Em palha apodrecida” — que, mesmo se há divisórias, não a traz no Shabat, porque é muktze (separada do uso no Shabat).

Nota

O restolho pode estar ainda preso ao solo, mas a palha já está cortada. A guemará explica que Rabi Oshaya se refere à palha apodrecida, que é muktze e não pode ser carregada no Shabat de modo algum, nem com divisórias.

1634Os assuntos da noiva e do morto
Baraita
תָּא שְׁמַע: מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לְפַקֵּחַ עַל עִסְקֵי כַלָּה וְעַל עִסְקֵי הַמֵּת. עַל עִסְקֵי כַלָּה וָמֵת — אִין, עַל עִסְקֵי אַחֵר — לָא.

Vem e ouve uma prova contra Shmuel: espera-se o anoitecer junto ao limite para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto. Daí se infere: sobre os assuntos da noiva e do morto, sim, é permitido; sobre os assuntos de outro, não, é proibido esperar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “al iskei kalah vamet in”
על עסקי כלה ומת אין - דחפצי שמים הן אבל על עסקי אחר אפי' דומיא דכלה לא:

“Sobre os assuntos da noiva e do morto, sim” — pois são negócios do Céu, isto é, mitzvá; mas sobre os assuntos de outro qualquer, mesmo semelhantes aos da noiva, não se espera.

Nota

A guemará busca nesta baraita uma prova contra o princípio de Shmuel: só pela noiva e pelo morto, que são mitzvá, é permitido esperar o anoitecer junto ao limite; para outra pessoa, não.

1635Cortar murta para a noiva; caixão e mortalhas para o morto
Anônimo
בִּשְׁלָמָא אַחֵר דּוּמְיָא דְכַלָּה מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ לְמֵיגַז לֵיהּ אַסָּא. אֶלָּא מֵת מַאי נִיהוּ? — לְהָבִיא לוֹ אָרוֹן וְתַכְרִיכִין. וְקָתָנֵי מֵת — אִין, אֲבָל אַחֵר — לָא.

A guemará analisa: compreende-se o outro, semelhante à noiva: encontras isso proibido para cortar-lhe murta de uma planta presa ao solo, o que nunca é permitido no Shabat. Mas o morto, o que é que se faz por ele e seria proibido para outro? Para trazer-lhe caixão e mortalhas. E ensina a baraita: o morto, sim; mas outro, não, embora trazer tais objetos seja possível de modo permitido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bishlama acher dumya dekalah”, “lemigaz lah asa” e “ela iskei met mai hi”
בשלמא אחר דומיא דכלה משכחת לה - דאסור להחשיך כגון לחתוך מן המחובר: למיגז לה אסא - דעבדו לה גננא דאסא לכלתא: אלא עסקי מת מאי היא - הבאה דארון ותכריכין ואמאי לאחר לא לימא הואיל ואם יש שם מחיצות מביא:

“Compreende-se o outro, semelhante à noiva: encontras isso” — isto é, um caso em que é proibido esperar o anoitecer, como, por exemplo, para cortar do que está preso ao solo.

“Para cortar-lhe murta” — pois faziam um dossel de murta para as noivas, e cortar murta presa ao solo é proibido no Shabat.

“Mas os assuntos do morto, o que são?” — são o trazer de caixão e mortalhas; e por que, para outro, não se espera? Diga-se: já que, se há ali divisórias, traz tais coisas mesmo no Shabat, seja permitido esperar o anoitecer por elas!

Nota

Cortar murta de uma planta presa ao solo nunca é permitido no Shabat, de modo que se entende a proibição para outra pessoa. Mas trazer caixão e mortalhas já prontos seria permitido se houvesse divisórias; por que, então, a baraita só o permite em favor do morto?

1636Cortar um manto para o morto
Anônimo
וְאַמַּאי? לֵימָא: שֶׁאִם יֵשׁ שָׁם מְחִיצּוֹת — מֵבִיא! מֵת נָמֵי מַשְׁכַּחַתְּ לַהּ לְמֵיגַז לֵיהּ גְּלִימָא.

E por que é proibido para outro? Diga-se: pois, se há ali divisórias, traz tais coisas no Shabat! Responde-se: também o morto, encontras isso proibido em si, para cortar-lhe um manto para as mortalhas, o que nunca é permitido no Shabat; e só por ser mitzvá se permite esperar por ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lemigaz leh glima”
למיגז ליה גלימא - לתקן לו תכריכין דאין היתר לדבר היום כלל:

“Para cortar-lhe um manto” — para preparar-lhe mortalhas, pois não há permissão para a coisa hoje, no Shabat, de modo algum, nem com divisórias.

Nota

A baraita trata do caso em que se espera para cortar um manto e confeccionar as mortalhas, trabalho que nunca é permitido no Shabat. Assim, para outro seria proibido, e só pelo morto, por ser mitzvá, se permite esperar o anoitecer.

“Mas espera o anoitecer”: guardar antes da havdalá · הַמַּבְדִּיל בֵּין קוֹדֶשׁ לְחוֹל

1637Antes da havdalá? Entre os lagares
Rabi Elazar ben Antigonos, Rav Yehuda, Shmuel e Rabi Natan bar Ami
אֲבָל מַחְשִׁיכִין. וְאַף עַל גַּב דְּלָא אַבְדֵּיל וְהָאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן אַנְטִיגְנוֹס מִשּׁוּם רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב: אָסוּר לוֹ לָאָדָם שֶׁיַּעֲשֶׂה חֲפָצָיו קוֹדֶם שֶׁיַּבְדִּיל! וְכִי תֵּימָא דְּאַבְדֵּיל בִּתְפִלָּה — וְהָאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הַמַּבְדִּיל בַּתְּפִלָּה צָרִיךְ שֶׁיַּבְדִּיל עַל הַכּוֹס! וְכִי תֵּימָא דְּאַבְדֵּיל עַל הַכּוֹס, כּוֹס בַּשָּׂדֶה מִי אִיכָּא?! תַּרְגְּמָא רַבִּי נָתָן בַּר אַמֵּי קַמֵּיהּ דְּרָבָא בֵּין הַגִּיתּוֹת שָׁנוּ.

“Mas espera o anoitecer” para guardar, como ensina a mishná. Pergunta-se: e mesmo que não tenha feito a havdalá pode começar a trabalhar? Mas disse Rabi Elazar ben Antigonos em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: é proibido à pessoa fazer os seus afazeres após o Shabat antes que faça a havdalá! E, se disseres que fez a havdalá na oração, na bênção “que concede o conhecimento”, mas disse Rav Yehuda, disse Shmuel: quem faz a havdalá na oração precisa fazer a havdalá também sobre o copo de vinho! E, se disseres que fez a havdalá sobre o copo, há copo no campo?! Responde-se: explicou-a Rabi Natan bar Ami diante de Rava: entre os lagares ensinaram esta lei, quando o limite ficava entre os lagares e ele tomou vinho dali para fazer a havdalá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve'af al gav dela avdil” e “bein hagitot shanu”
ואע"ג דלא אבדיל - אסיפא דמתני' מתמה דקתני ומביא פירות בידו לקוצצן מן המחובר בלא הבדלה: בין הגיתות שנו - דאיכא כוס בשדה:

“E mesmo que não tenha feito a havdalá” — estranha-se a guemará sobre o fim da nossa mishná, que ensina: “e traz frutos na sua mão”, para cortá-los do que está preso ao solo, logo após o Shabat, sem havdalá.

“Entre os lagares ensinaram” — pois ali há copo de vinho no campo.

Nota

Quem espera o anoitecer no campo para guardar e trazer os frutos começa a trabalhar logo após o Shabat, sem ter feito a havdalá sobre o vinho. A resposta é que a mishná trata de um limite situado entre lagares, onde há vinho disponível para a havdalá.

1638“Que distingue entre o sagrado e o profano”
Rabi Abba, Rav Ashi e Rav Kahana
אֲמַר לֵיהּ רַבִּי אַבָּא לְרַב אָשֵׁי: בְּמַעְרְבָא אָמְרִינַן הָכִי: ״הַמַּבְדִּיל בֵּין קוֹדֶשׁ לְחוֹל״ וְעָבְדִינַן צוּרְכִּין. אָמַר רַב אָשֵׁי: כִּי הֲוֵינָא בֵּי רַב כָּהֲנָא הֲוָה אָמַר ״הַמַּבְדִּיל בֵּין קוֹדֶשׁ לְחוֹל״ וּמְסַלְּתִינַן סִילְתֵי.

Outra resposta: disse-lhe Rabi Abba a Rav Ashi: no Ocidente, na Terra de Israel, dizemos assim ao término do Shabat: “Que distingue entre o sagrado e o profano”, e então fazemos as nossas necessidades, antes da havdalá sobre o copo. Do mesmo modo, disse Rav Ashi: quando eu estava na casa de Rav Kahana, ele dizia: “Que distingue entre o sagrado e o profano”, e cortávamos lenha em seguida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hamavdil bein kodesh lechol”, “ve'avdinan tzorchin” e “umesaltinan silte”
המבדיל בין קודש לחול - להיכרא בעלמא ללוות את המלך: ועבדינן צורכין - ואחר כך אנו מברכין על הכוס ברכה גמורה דהבדלה וכ"ש דאי אבדיל בתפלה מותר לעשות צרכיו וחוזר ומבדיל על הכוס: ומסלתינן סילתי - חוטבין עצים:

“Que distingue entre o sagrado e o profano” — dizíamos como mero sinal, para acompanhar o Rei, isto é, para despedir-se do Shabat.

“E fazemos as nossas necessidades” — isto é, trabalhamos logo, e depois disso bendizemos sobre o copo a bênção completa da havdalá; e com mais razão, se fez a havdalá na oração, que é mais do que essa fórmula breve, é permitido fazer as suas necessidades, e depois volta e faz a havdalá sobre o copo de vinho.

“E cortávamos lenha” — isto é, racham lenha logo após o Shabat.

Nota

Outra resposta: na Terra de Israel bastava dizer a fórmula breve “que distingue entre o sagrado e o profano” para poder voltar ao trabalho, deixando a havdalá completa sobre o copo para depois; assim também procedia Rav Kahana.

A regra de Abba Shaul: a que se refere? · אַבָּא שָׁאוּל אַהֵיָיא

1639A que se refere a regra de Abba Shaul?
Anônimo
כְּלָל אָמַר אַבָּא שָׁאוּל: כֹּל שֶׁאֲנִי וְכוּ׳. אִיבַּעְיָא לְהוּ: אַבָּא שָׁאוּל אַהֵיָיא? אִילֵּימָא אַרֵישָׁא קָאֵי: ״אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לִשְׂכּוֹר פּוֹעֲלִים לְהָבִיא פֵּירוֹת״ —

Aprendemos na mishná: “Uma regra disse Abba Shaul: tudo aquilo que me etc.” Foi-lhes perguntado aos sábios: Abba Shaul, a qual cláusula da mishná se refere? Se dizes que se refere à primeira cláusula, que proíbe: “não se espera o anoitecer junto ao limite para contratar trabalhadores, para trazer frutos”,

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ahaya” e “i nima areisha”
אהייא - קאי ומשוי כללא: אי נימא ארישא - דקתני ת"ק לאיסורא וקאתי אבא שאול לשוויה בה כללא א"כ דכללא לאיסורא ה"ל למימר בהדיא כל שאינו זכאי באמירה כגון אלו שאינו רשאי לומר לחבירו שכור לי פועלים או הבא לי פירות למוצאי שבת אינו רשאי להחשיך מיבעי ליה:

“A qual” — cláusula se refere e estabelece sobre ela uma regra.

“Se dizes que à primeira” — isto é, que o primeiro tanaíta ensina para proibição, e vem Abba Shaul estabelecer nela uma regra; se é assim, que a regra é para proibição, deveria ter dito explicitamente, em forma negativa: tudo aquilo que não é permitido dizer no Shabat, como estes, que não é permitido dizer ao seu companheiro “contrata-me trabalhadores” ou “traz-me frutos” para a saída do Shabat, não é permitido esperar o anoitecer por sua causa.

Nota

A guemará começa a investigar a que parte da mishná se liga a regra de Abba Shaul: se à cláusula proibitiva, ele a teria formulado como proibição. A discussão prossegue em 151a.

O daf termina aqui, no meio da pergunta sobre a que cláusula da mishná se refere a regra de Abba Shaul. O Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) prossegue em Shabbat 151a.