O daf continua diretamente de 150a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a baraita sobre as contas de “malach” e de “ma bechach”, que é permitido calcular no Shabat. Outra baraita parece permitir as contas que já passaram, e a guemará concilia: a conta passada é proibida enquanto ainda se deve o salário do contratado. Sobre “não se espera o anoitecer”, conta-se do piedoso que pensou em cercar no Shabat a brecha do seu campo, absteve-se para sempre e foi sustentado por uma alcaparreira que nasceu nela. Rav Yehuda, em nome de Shmuel, permite dizer “à cidade tal eu vou amanhã”, pois com postos de guarda a viagem seria permitida; a guemará testa esse princípio com os frutos presos ao solo, a palha apodrecida de Rabi Oshaya e a baraita sobre os assuntos da noiva e do morto, com a murta e o manto cortado para as mortalhas. Sobre “mas espera o anoitecer” para guardar, pergunta-se como se trabalha antes da havdalá: Rabi Natan bar Ami responde que se trata do limite entre os lagares, e Rabi Abba e Rav Ashi relatam o costume de dizer “que distingue entre o sagrado e o profano” antes de voltar ao trabalho. O daf termina no meio da pergunta sobre a que cláusula da mishná se refere a regra de Abba Shaul, que prossegue em Shabbat 151a.
Termina a baraita: e as contas de ma bechach (que importância tem isso), isto é, as que já não têm consequência prática, é permitido calculá-las no Shabat.
“E de ma bechach” — são, como, por exemplo, as contas que já foram feitas para uma necessidade, mas que passaram; como, por exemplo, quem diz: tanto e tanto gastei nesta construção.
Conclui-se a baraita iniciada no fim de 150a: as contas de “malach” e as de “ma bechach”, isto é, as que não têm mais consequência prática, como o registro de quanto já se gastou numa obra concluída, podem ser feitas no Shabat.
E a guemará contrapõe-se a elas com outra baraita: calculam-se contas que não são necessárias, e não se calculam contas que são necessárias, no Shabat. Como assim? Uma pessoa diz ao seu companheiro: “Tantos e tantos trabalhadores empreguei neste campo, tantos e tantos dinares gastei nesta morada.” Mas não lhe diga: “Tanto e tanto gastei, e tanto e tanto hei de gastar”! Pelo visto, é permitido calcular no Shabat as despesas já passadas, ao contrário do que ensinou a primeira baraita.
“Contas que já passaram” — que a primeira baraita proíbe: adiante se estabelece que são contas que não passaram completamente, pois ainda pesa sobre ele o salário dos trabalhadores, que não lhes deu; e as de “ma bechach”, que ela permite, são as que passaram completamente, e não pesa sobre ele salário de trabalhadores.
“Tanto e tanto gastei” — desta segunda baraita conclui-se que as contas que passaram são permitidas, o que contradiz a primeira.
A baraita anterior proibia calcular as contas que já passaram; esta outra baraita permite justamente dizer quanto se gastou com trabalhadores e com a casa, e só proíbe somar o que se gastou ao que ainda se há de gastar.
Responde-se: e, segundo o teu raciocínio, ela própria, a primeira baraita, te é difícil, pois proíbe as contas passadas e permite as de ma bechach! Antes, explique-se assim: esta, que proíbe, trata do caso em que o salário do contratado ainda está com ele, por pagar; esta, que permite, trata do caso em que o salário do contratado não está com ele, pois já pagou tudo e a conta não tem consequência prática.
“Ela própria te é difícil” — isto é, a primeira baraita: no início ensina que as contas que passaram são proibidas, e no fim ensina que as de “ma bechach” são permitidas, que são justamente as que passaram.
A própria primeira baraita parece contraditória, pois proíbe as contas passadas e permite as de “ma bechach”, que também são passadas. A solução: a conta passada é proibida enquanto ainda se deve o salário dos trabalhadores, pois então tem consequência prática; quitada a dívida, é mera conta sem importância.
“Não se espera o anoitecer” junto ao limite, como aprendemos na mishná. A esse respeito, ensinaram os Rabanan: aconteceu com um piedoso, a quem se abriu uma brecha no meio do seu campo, e ele resolveu no Shabat cercá-la; e então lembrou-se de que era Shabat, e aquele piedoso absteve-se e não a cercou jamais, por ter pensado nisso no Shabat; e foi-lhe feito um milagre, e nasceu nela, na brecha, uma alcaparreira, que a fechou, e dela vinha o seu sustento e o sustento das pessoas da sua casa.
“Alcaparreira” — é uma árvore grande e de muitos ramos, e há três espécies de alimento nos seus frutos: evyonot (os frutos), kafrisin (as cascas) e lulavin (os brotos).
O piedoso apenas pensou, no Shabat, em consertar a cerca, e por isso nunca mais a consertou; em recompensa, a brecha foi fechada por uma alcaparreira que passou a sustentar a sua família. A história ilustra a mishná: o que se planeja no Shabat para depois dele merece cautela.
Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: é permitido a uma pessoa dizer ao seu companheiro no Shabat: “À cidade tal eu vou amanhã”, embora hoje seja proibido ir até lá, pois, se há burganin (postos de guarda), vai até lá mesmo no Shabat; e o que pode ser feito de modo permitido, é permitido dizê-lo.
“Pois, se há burganin” — isto é, postos de setenta cúbitos em setenta cúbitos, vai-se mesmo no Shabat, pois tudo é considerado como uma só cidade, e toda a cidade é como quatro cúbitos, como dizemos em Eruvin (21a); e, já que é coisa que tem permissão por meio de um arranjo como esse no Shabat, é permitido dizê-lo ao companheiro mesmo em lugar onde não há ali a permissão, isto é, onde não há postos de guarda.
Se houvesse postos de guarda a cada setenta cúbitos ao longo do caminho, toda a área contaria como uma só cidade e seria permitido percorrê-la no Shabat. Como a viagem pode, em tese, ser permitida, também é permitido falar dela, ainda que de fato não haja tais postos.
Aprendemos na mishná: não se espera o anoitecer junto ao limite do Shabat para contratar trabalhadores e para trazer frutos logo após o Shabat. Pergunta-se: compreende-se a proibição de esperar para contratar trabalhadores, pois no Shabat não pode contratar de modo algum; mas para trazer frutos, por que é proibido? Diga-se: pois, se há ali divisórias, traz os frutos mesmo no Shabat, e pelo princípio de Shmuel deveria ser permitido esperar! Responde-se: encontras isso nos frutos presos ao solo, que não há como colher no Shabat.
“Presos” — isto é, frutos que é impossível cortá-los no Shabat por meio de qualquer arranjo, e por isso é proibido esperar por eles.
Pelo princípio de Shmuel, se trazer frutos de fora do limite fosse permitido caso houvesse divisórias, também seria permitido esperar o anoitecer para trazê-los. A guemará responde que a mishná trata de frutos ainda presos ao solo, cuja colheita no Shabat não admite permissão alguma.
Pergunta-se: mas não ensinou Rabi Oshaya: não se espera o anoitecer junto ao limite para trazer palha e restolho? Compreende-se o restolho: encontras isso no que está preso ao solo. Mas a palha, que já está cortada, como a encontras proibida mesmo com divisórias? Responde-se: em palha apodrecida, que é muktze.
“Restolho” — são as caudas das espigas; em francês antigo, eshtratzia.
“Em palha apodrecida” — que, mesmo se há divisórias, não a traz no Shabat, porque é muktze (separada do uso no Shabat).
O restolho pode estar ainda preso ao solo, mas a palha já está cortada. A guemará explica que Rabi Oshaya se refere à palha apodrecida, que é muktze e não pode ser carregada no Shabat de modo algum, nem com divisórias.
Vem e ouve uma prova contra Shmuel: espera-se o anoitecer junto ao limite para cuidar dos assuntos da noiva e dos assuntos do morto. Daí se infere: sobre os assuntos da noiva e do morto, sim, é permitido; sobre os assuntos de outro, não, é proibido esperar.
“Sobre os assuntos da noiva e do morto, sim” — pois são negócios do Céu, isto é, mitzvá; mas sobre os assuntos de outro qualquer, mesmo semelhantes aos da noiva, não se espera.
A guemará busca nesta baraita uma prova contra o princípio de Shmuel: só pela noiva e pelo morto, que são mitzvá, é permitido esperar o anoitecer junto ao limite; para outra pessoa, não.
A guemará analisa: compreende-se o outro, semelhante à noiva: encontras isso proibido para cortar-lhe murta de uma planta presa ao solo, o que nunca é permitido no Shabat. Mas o morto, o que é que se faz por ele e seria proibido para outro? Para trazer-lhe caixão e mortalhas. E ensina a baraita: o morto, sim; mas outro, não, embora trazer tais objetos seja possível de modo permitido.
“Compreende-se o outro, semelhante à noiva: encontras isso” — isto é, um caso em que é proibido esperar o anoitecer, como, por exemplo, para cortar do que está preso ao solo.
“Para cortar-lhe murta” — pois faziam um dossel de murta para as noivas, e cortar murta presa ao solo é proibido no Shabat.
“Mas os assuntos do morto, o que são?” — são o trazer de caixão e mortalhas; e por que, para outro, não se espera? Diga-se: já que, se há ali divisórias, traz tais coisas mesmo no Shabat, seja permitido esperar o anoitecer por elas!
Cortar murta de uma planta presa ao solo nunca é permitido no Shabat, de modo que se entende a proibição para outra pessoa. Mas trazer caixão e mortalhas já prontos seria permitido se houvesse divisórias; por que, então, a baraita só o permite em favor do morto?
E por que é proibido para outro? Diga-se: pois, se há ali divisórias, traz tais coisas no Shabat! Responde-se: também o morto, encontras isso proibido em si, para cortar-lhe um manto para as mortalhas, o que nunca é permitido no Shabat; e só por ser mitzvá se permite esperar por ele.
“Para cortar-lhe um manto” — para preparar-lhe mortalhas, pois não há permissão para a coisa hoje, no Shabat, de modo algum, nem com divisórias.
A baraita trata do caso em que se espera para cortar um manto e confeccionar as mortalhas, trabalho que nunca é permitido no Shabat. Assim, para outro seria proibido, e só pelo morto, por ser mitzvá, se permite esperar o anoitecer.
“Mas espera o anoitecer” para guardar, como ensina a mishná. Pergunta-se: e mesmo que não tenha feito a havdalá pode começar a trabalhar? Mas disse Rabi Elazar ben Antigonos em nome de Rabi Eliezer ben Yaakov: é proibido à pessoa fazer os seus afazeres após o Shabat antes que faça a havdalá! E, se disseres que fez a havdalá na oração, na bênção “que concede o conhecimento”, mas disse Rav Yehuda, disse Shmuel: quem faz a havdalá na oração precisa fazer a havdalá também sobre o copo de vinho! E, se disseres que fez a havdalá sobre o copo, há copo no campo?! Responde-se: explicou-a Rabi Natan bar Ami diante de Rava: entre os lagares ensinaram esta lei, quando o limite ficava entre os lagares e ele tomou vinho dali para fazer a havdalá.
“E mesmo que não tenha feito a havdalá” — estranha-se a guemará sobre o fim da nossa mishná, que ensina: “e traz frutos na sua mão”, para cortá-los do que está preso ao solo, logo após o Shabat, sem havdalá.
“Entre os lagares ensinaram” — pois ali há copo de vinho no campo.
Quem espera o anoitecer no campo para guardar e trazer os frutos começa a trabalhar logo após o Shabat, sem ter feito a havdalá sobre o vinho. A resposta é que a mishná trata de um limite situado entre lagares, onde há vinho disponível para a havdalá.
Outra resposta: disse-lhe Rabi Abba a Rav Ashi: no Ocidente, na Terra de Israel, dizemos assim ao término do Shabat: “Que distingue entre o sagrado e o profano”, e então fazemos as nossas necessidades, antes da havdalá sobre o copo. Do mesmo modo, disse Rav Ashi: quando eu estava na casa de Rav Kahana, ele dizia: “Que distingue entre o sagrado e o profano”, e cortávamos lenha em seguida.
“Que distingue entre o sagrado e o profano” — dizíamos como mero sinal, para acompanhar o Rei, isto é, para despedir-se do Shabat.
“E fazemos as nossas necessidades” — isto é, trabalhamos logo, e depois disso bendizemos sobre o copo a bênção completa da havdalá; e com mais razão, se fez a havdalá na oração, que é mais do que essa fórmula breve, é permitido fazer as suas necessidades, e depois volta e faz a havdalá sobre o copo de vinho.
“E cortávamos lenha” — isto é, racham lenha logo após o Shabat.
Outra resposta: na Terra de Israel bastava dizer a fórmula breve “que distingue entre o sagrado e o profano” para poder voltar ao trabalho, deixando a havdalá completa sobre o copo para depois; assim também procedia Rav Kahana.
Aprendemos na mishná: “Uma regra disse Abba Shaul: tudo aquilo que me etc.” Foi-lhes perguntado aos sábios: Abba Shaul, a qual cláusula da mishná se refere? Se dizes que se refere à primeira cláusula, que proíbe: “não se espera o anoitecer junto ao limite para contratar trabalhadores, para trazer frutos”,
“A qual” — cláusula se refere e estabelece sobre ela uma regra.
“Se dizes que à primeira” — isto é, que o primeiro tanaíta ensina para proibição, e vem Abba Shaul estabelecer nela uma regra; se é assim, que a regra é para proibição, deveria ter dito explicitamente, em forma negativa: tudo aquilo que não é permitido dizer no Shabat, como estes, que não é permitido dizer ao seu companheiro “contrata-me trabalhadores” ou “traz-me frutos” para a saída do Shabat, não é permitido esperar o anoitecer por sua causa.
A guemará começa a investigar a que parte da mishná se liga a regra de Abba Shaul: se à cláusula proibitiva, ele a teria formulado como proibição. A discussão prossegue em 151a.