Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Três (Sho'el)
לֹא יִשְׂכּוֹר אָדָם פּוֹעֲלִים

A nação que cessou e o leão de Nevuchadnetzar; nova mishná: contratar trabalhadores no Shabat e esperar o anoitecer junto ao limite; falar é proibido, pensar é permitido; os negócios do Céu

Shabbat 150a · Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) · a guemará prossegue em 150b

O daf continua diretamente de 149b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a fala de Rav Yehuda em nome de Rav sobre a “madhevá”: a nação que dizia “mede e traz”, ou “traz muito, muito, sem medida”; Rav Yirmeya bar Abba descreve Nevuchadnetzar montado num leão com uma serpente atada à cabeça. Abre-se então uma nova mishná: não se contratam trabalhadores no Shabat, nem por meio do companheiro, nem se espera o anoitecer junto ao limite para contratá-los ou trazer frutos, mas espera-se para guardar; e Abba Shaul dá a regra de que tudo o que é permitido dizer é permitido esperar o anoitecer por sua causa. Na guemará, Rav Pappa e Rav Ashi discutem quem é o companheiro, e Rav Ashi conclui que é permitido dizer “parece que estarás comigo ao anoitecer?”, conforme Rabi Yehoshua ben Korcha, cuja razão é que falar é proibido e pensar é permitido. Rav Acha bar Rav Huna objeta a partir da proibição de pensar em Torá na casa de banhos, explicada por “e o teu acampamento será santo”, e “ervat davar” é reservado à lei de Rav Yehuda sobre recitar o Shemá diante de um gentio nu. A guemará prova que os negócios do Céu são permitidos: contas de mitzvá, tzedaká, assuntos públicos, noivados e o ofício da criança. O daf termina no meio da baraita sobre as contas de “malach” e de “ma bechach”, que prossegue em Shabbat 150b.

“Mede e traz”: a nação que cessou; o leão e a serpente de Nevuchadnetzar · מְדוֹד וְהָבֵא

1614“Mede e traz”, ou “traz muito, muito, sem medida”
Rav Yehuda e Rav
מְדוֹד וְהָבֵא. וְאִיכָּא דְאָמְרִי, שֶׁאָמְרָה ״מְאֹד מְאֹד הָבֵיא בְּלֹא מִדָּה״.

A nação que dizia “Mede e traz” muito dinheiro, essa cessou, conforme a explicação de “madhevá” iniciada em 149b. E há quem diga que o sentido é que essa nação dizia: “Traz muito, muito, sem medida.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “medod”
מדוד - מעות ודינרי זהב והבא:

“Mede” — isto é, mede moedas e dinares de ouro, e traz-os em grande quantidade.

Nota

Conclui-se a fala de Rav Yehuda em nome de Rav iniciada em 149b: a palavra rara “madhevá” é lida como “mede e traz”, a exigência de tributo em ouro feita pela Babilônia às nações; segundo a outra versão, a nação dizia que se trouxesse sem medida alguma.

1615“E grandeza excessiva me foi acrescentada”: o leão e a serpente
Rav Yehuda e Rav Yirmeya bar Abba
״וּרְבוּ יַתִּירָה הוּסְפַת לִי״, אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב יִרְמְיָה בַּר אַבָּא: מְלַמֵּד שֶׁרָכַב עַל אֲרִי זָכָר, וְקָשַׁר תַּנִּין בְּרֹאשׁוֹ, לְקַיֵּים מַה שֶּׁנֶּאֱמַר: ״וְגַם אֶת חַיַּת הַשָּׂדֶה נָתַתִּי לוֹ לְעׇבְדוֹ״.

A guemará cita outro versículo sobre Nevuchadnetzar: “E grandeza excessiva me foi acrescentada” (Daniel 4:33). A esse respeito, disse Rav Yehuda, disse Rav Yirmeya bar Abba: ensina que ele, Nevuchadnetzar, montava num leão macho e atava uma serpente à sua cabeça, à cabeça do leão, para cumprir o que foi dito sobre ele: “e também os animais do campo lhe dei, para que o sirvam” (Yirmeyahu 27:6).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “urevu yatirah hussefat li”
ורבו יתירה הוספת לי - לאחר שהיה ז' שנים בהמה וחזר למלכותו היה משתבח כן ומהו התוספת שקשר תנין גדול נחש גדול בראשו של ארי כמין אפסר:

“E grandeza excessiva me foi acrescentada” — Nevuchadnetzar disse isto depois que esteve sete anos como animal e voltou ao seu reino; então gabava-se assim. E qual é o acréscimo de grandeza? Que atou um grande tanin, uma grande serpente, à cabeça do leão, como uma espécie de cabresto.

Nota

Depois de sete anos vivendo como animal, Nevuchadnetzar voltou ao trono e gabou-se da grandeza acrescentada. Rav Yirmeya bar Abba descreve esse acréscimo: o rei cavalgava um leão guiado por uma serpente, cumprindo a profecia de que até os animais do campo o serviriam.

Nova Mishná: contratar trabalhadores e esperar o anoitecer junto ao limite · לֹא יִשְׂכּוֹר אָדָם פּוֹעֲלִים

1616Mishná: não contratar trabalhadores no Shabat; esperar o anoitecer junto ao limite; a regra de Abba Shaul
Mishná
מַתְנִי׳ לֹא יִשְׂכּוֹר אָדָם פּוֹעֲלִים בְּשַׁבָּת. וְלֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ לִשְׂכּוֹר לוֹ פּוֹעֲלִים. אֵין מַחְשִׁיכִין עַל הַתְּחוּם לִשְׂכּוֹר לוֹ פּוֹעֲלִים וּלְהָבִיא פֵּירוֹת, אֲבָל מַחְשִׁיךְ הוּא לִשְׁמוֹר, וּמֵבִיא פֵּירוֹת בְּיָדוֹ. כְּלָל אָמַר אַבָּא שָׁאוּל: כׇּל שֶׁאֲנִי זַכַּאי בַּאֲמִירָתוֹ — רַשַּׁאי אֲנִי לְהַחְשִׁיךְ עָלָיו.

MISHNÁ. Uma pessoa não contrata trabalhadores no Shabat para trabalharem para ele depois do Shabat, pois mesmo falar de assuntos profanos é proibido no Shabat. E igualmente uma pessoa não diz ao seu companheiro no Shabat que lhe contrate trabalhadores. Não se espera o anoitecer junto ao limite do Shabat, para sair dele logo que o Shabat termine, para contratar para si trabalhadores e para trazer frutos do seu campo; mas espera o anoitecer junto ao limite para guardar os seus frutos que estão fora do limite, e depois traz frutos na sua mão, já que de início não esperou para isso. Uma regra geral disse Abba Shaul: tudo aquilo que me é permitido dizer no Shabat, é-me permitido esperar o anoitecer junto ao limite por sua causa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin lo yiskor adam po'alim”, “velo yomar lachavero”, “ein machshichin al hatechum”, “aval machshich hu”, “umevi perot beyado”, “klal amar Abba Shaul” e “kol she'ani zakai ba'amirato”
מתני' לא ישכור אדם פועלים - דכתיב (ישעיהו נח, יג) ממצוא חפצך: ולא יאמר לחבירו כו' - בגמרא פריך פשיטא כיון דהוא אסור חבירו נמי אסור דהא ישראל הוא והשולחו עובר משום לפני עור לא תתן מכשול: אין מחשיכין על התחום - לקרב עצמו בשבת עד סוף התחום ולהחשיך שם שיהא קרוב למקום הפועלים או לפרדס להביא פירות דכל דבר שאסור לעשותו בשבת אסור להחשיך עליו: אבל מחשיך הוא - להיות קרוב לצאת לשמור פירותיו וזה דבר המותר בשבת לשמור פירותיו אם היו בתוך תחומו: ומביא פירות בידו - הואיל ועיקר מחשבתו לא היה לכך: כלל אמר אבא שאול - נותן היה כלל בדבר זה להוסיף דברים אחרים כיוצא בו ולקמיה מפרש לאתויי מאי: כל שאני זכאי באמירתו - שאני רשאי לאומרו לחבירו או לנכרי בשבת לעשות למוצאי שבת רשאי אני להחשיך עליו:

“MISHNÁ. Uma pessoa não contrata trabalhadores” — no Shabat, e a fonte da proibição é o versículo, pois está escrito: “de buscar o teu negócio” (Yeshayahu 58:13).

“E uma pessoa não diz ao seu companheiro etc.” — sobre isto na guemará objeta-se: é óbvio! Já que a ele é proibido contratar, ao seu companheiro também é proibido, pois é israelita; e quem o envia a contratar transgride por causa de “diante do cego não porás tropeço” (Vayikra 19:14).

“Não se espera o anoitecer junto ao limite” — isto é, aproximar-se no Shabat até o fim do limite e esperar ali o anoitecer, para que esteja perto do lugar dos trabalhadores quando o Shabat terminar, ou do pomar, para trazer frutos; pois tudo o que é proibido fazer no Shabat é proibido esperar o anoitecer por sua causa.

“Mas espera o anoitecer” — junto ao limite, para estar perto, para sair a guardar os seus frutos logo ao anoitecer; e isto é coisa permitida no Shabat, guardar os seus frutos, se estivessem dentro do seu limite; por isso é permitido esperar por sua causa.

“E traz frutos na sua mão” — ao voltar, e não há nisso proibição, já que a sua intenção principal ao esperar não era para isso, mas para guardar.

“Uma regra disse Abba Shaul” — dava uma regra geral nesta matéria, para acrescentar outras coisas semelhantes a ela; e adiante na guemará se explica o que vem incluir esta regra.

“Tudo aquilo que me é permitido dizer” — isto é, aquilo que me é permitido dizê-lo ao meu companheiro ou ao gentio no Shabat, para que o faça à saída do Shabat: quanto a isso, é-me permitido esperar o anoitecer por sua causa.

Nota

Ainda no Perek Vinte e Três, abre-se uma nova mishná. No Shabat não se contratam trabalhadores, nem diretamente nem por meio de outro. Também não se pode ir até a borda do limite do Shabat e esperar ali a noite para, logo ao seu término, contratar trabalhadores ou trazer frutos do campo; mas pode-se esperar ali para guardar os frutos, e então trazê-los. Abba Shaul generaliza: o que é permitido dizer no Shabat é também permitido esperar o anoitecer para fazê-lo.

Guemará: “contrata-me trabalhadores” e “parece que estarás comigo ao anoitecer?” · הֲנִרְאֶה שֶׁתַּעֲמוֹד עִמִּי לָעֶרֶב

1617O companheiro gentio e a objeção de Rav Ashi
Rav Pappa e Rav Ashi
גְּמָ׳ פְּשִׁיטָא מַאי שְׁנָא הוּא וּמַאי שְׁנָא חֲבֵירוֹ? אָמַר רַב פָּפָּא: חָבֵר גּוֹי. מַתְקֵיף לַהּ רַב אָשֵׁי: אֲמִירָה לְגוֹי שְׁבוּת!

GUEMARÁ. Pergunta-se sobre o início da mishná: é óbvio! Que diferença há entre ele e o seu companheiro? Assim como a ele é proibido contratar trabalhadores no Shabat, também ao companheiro é proibido. Disse Rav Pappa: o “companheiro” da mishná é um companheiro gentio. Objetou-lhe Rav Ashi: mas dizer a um gentio que faça algo proibido é em si mesmo shevut (proibição rabínica), e isso já foi ensinado noutra mishná!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ma shena” e “amirah lenochri shevut”
גמ' מאי שנא כו' - ופשיטא דכיון דאמר לא ישכור ה"ה לא יאמר לחבירו דהא ישראל הוא כמותו ולא מצי לאוגרינהו: אמירה לנכרי שבות - וכבר סתמה רבי למתני' נכרי שבא לכבות אין אומרים לו כבה:

“Que diferença há etc.” — a pergunta é: é óbvio que, já que disse “não contrate”, o mesmo vale para “não diga ao seu companheiro”, pois o companheiro é israelita como ele e também não pode contratá-los.

“Dizer a um gentio é shevut” — e sobre isso Rabi já estabeleceu anonimamente na mishná: um gentio que veio apagar um incêndio no Shabat, não se lhe diz “apaga” (Shabat 121a); logo, não haveria novidade em ensiná-lo aqui.

Nota

Se a própria pessoa não pode contratar, é evidente que também não pode pedir a outro israelita que o faça; por isso Rav Pappa entende que o “companheiro” da mishná é um gentio. Rav Ashi objeta: pedir algo a um gentio no Shabat já é proibido por decreto rabínico, como a mishná estabelece sem divergência, de modo que também isso seria óbvio.

1618Rav Ashi: o que a mishná ensina, conforme Rabi Yehoshua ben Korcha
Rav Ashi
אֶלָּא אָמַר רַב אָשֵׁי: אֲפִילּוּ תֵּימָא חֲבֵירוֹ יִשְׂרָאֵל, הָא קָא מַשְׁמַע לַן: לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ ״שְׂכוֹר לִי פּוֹעֲלִים״, אֲבָל אוֹמֵר אָדָם לַחֲבֵירוֹ ״הֲנִרְאֶה שֶׁתַּעֲמוֹד עִמִּי לָעֶרֶב?״ וּמַתְנִיתִין מַנִּי — כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קׇרְחָה. דְּתַנְיָא: לֹא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵירוֹ ״הֲנִרְאֶה שֶׁתַּעֲמוֹד עִמִּי לָעֶרֶב״. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קׇרְחָה אוֹמֵר: אוֹמֵר אָדָם לַחֲבֵירוֹ ״הֲנִרְאֶה שֶׁתַּעֲמוֹד עִמִּי לָעֶרֶב״.

Responde-se: antes, disse Rav Ashi: mesmo que digas que o seu companheiro é israelita, a novidade não está na proibição em si, mas no que dela se deduz; isto nos ensina: uma pessoa não diz ao seu companheiro explicitamente “contrata-me trabalhadores”, mas uma pessoa diz ao seu companheiro: “Parece que estarás comigo ao anoitecer?” E isso é permitido, embora ambos entendam que ele o quer contratar. E de quem é a nossa mishná, isto é, conforme que opinião foi ensinada? É conforme Rabi Yehoshua ben Korcha. Pois foi ensinado numa baraita: uma pessoa não diz ao seu companheiro no Shabat: “Parece que estarás comigo ao anoitecer?” Rabi Yehoshua ben Korcha diz: uma pessoa diz ao seu companheiro: “Parece que estarás comigo ao anoitecer?”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ha kamashma lan” e “hanir'eh”
הא קמ"ל - משנה יתירה בהדיא הוא דלא לימא ליה אבל סתמא שרי ליה למימר: הנראה - עכשיו נראה אם תעמוד עמי לערב אם תבא אלי לכשתחשך ושניהם יודעין שעל מנת לשוכרו לפעולתו הוא מזהירו וכיון דלא מפרש בהדיא שרי כדמפרש טעמא לקמן דבור אסור הרהור מותר:

“Isto nos ensina” — isto é, a mishná é supérflua quanto à proibição óbvia, e vem ensinar que é explicitamente que não lhe diga, mas de modo indefinido é-lhe permitido dizer.

“Parece” — isto é: agora se vê se estarás comigo ao anoitecer, se virás a mim quando escurecer; e ambos sabem que é para contratá-lo para o seu trabalho que quem pergunta o avisa; e, já que não o explicita, é permitido, como se explica a razão adiante: falar é proibido, pensar é permitido.

Nota

A cláusula, embora óbvia, ensina por inferência: só o pedido explícito é proibido, mas é permitido sugerir ao trabalhador, sem dizê-lo, que venha ao fim do Shabat. Isso segue Rabi Yehoshua ben Korcha, que na baraita diverge do primeiro tanaíta.

1619A halachá e a razão: falar é proibido, pensar é permitido
Rabba bar bar Chana e Rabi Yochanan
אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קׇרְחָה. וְאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קׇרְחָה — דִּכְתִיב: ״מִמְּצוֹא חֶפְצְךָ וְדַבֵּר דָּבָר״. דִּיבּוּר — אָסוּר, הִרְהוּר — מוּתָּר.

Disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: a halachá é conforme Rabi Yehoshua ben Korcha. E disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: qual é a razão de Rabi Yehoshua ben Korcha, que permite falar de modo indefinido? Pois está escrito no versículo de onde se deriva a proibição de falar no Shabat: “de buscar o teu negócio e de falar palavra” (Yeshayahu 58:13): daqui se deduz que falar de assuntos proibidos é proibido; pensar neles é permitido.

Nota

O versículo de Yeshayahu sobre a honra do Shabat proíbe “falar palavra” dos próprios negócios; daí Rabi Yochanan deduz que só a fala é proibida, e não o pensamento, nem a alusão que não explicita o assunto.

Pensar é como falar? A casa de banhos e a nudez · הִרְהוּר לָאו כְּדִיבּוּר דָּמֵי

1620A objeção de Rav Acha bar Rav Huna: pensar na casa de banhos
Rav Acha bar Rav Huna e Rava
רָמֵי לֵיהּ רַב אַחָא בַּר רַב הוּנָא לְרָבָא: מִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן דִּיבּוּר אָסוּר הִרְהוּר מוּתָּר — אַלְמָא הִרְהוּר לָאו כְּדִיבּוּר דָּמֵי? וְהָאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: בְּכׇל מָקוֹם מוּתָּר לְהַרְהֵר, חוּץ מִבֵּית הַמֶּרְחָץ וּמִבֵּית הַכִּסֵּא! שָׁאנֵי הָתָם, דְּבָעֵינַן ״וְהָיָה מַחֲנֶיךָ קָדוֹשׁ״, וְלֵיכָּא.

Rav Acha bar Rav Huna contrapôs a Rava: será que disse Rabi Yochanan que falar é proibido e pensar é permitido? Conclui-se daí que pensar não é como falar? Mas disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: em todo lugar é permitido pensar em palavras de Torá, exceto na casa de banhos e no banheiro! Pelo visto, pensar é como falar, pois ali até pensar é proibido. Responde-se: ali é diferente, pois precisamos cumprir “e o teu acampamento será santo” (Devarim 23:15), e ali não há santidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mutar leharher” e “vehayah machanecha kadosh”
מותר להרהר - בדברי תורה: והיה מחניך קדוש - ולא כתיב ביה דבר אלא מקום חנייתך תהא בקדושה וטעמא משום דישראל מהרהרין תמיד בדברי תורה:

“É permitido pensar” — isto é, em palavras de Torá.

“E o teu acampamento será santo” — e não está escrito nele “palavra”, que indicaria fala, mas que o lugar do teu acampamento esteja em santidade; e a razão de proibir até o pensamento é porque Israel pensa sempre em palavras de Torá.

Nota

Se na casa de banhos é proibido até pensar em Torá, parece que o pensamento equivale à fala. A guemará responde que ali a proibição vem de outra fonte: o acampamento deve ser santo, e esse lugar não o é, de modo que até o pensamento de Torá é vedado.

1621“Ervat davar” e o gentio nu
Rav Yehuda
הָכָא נָמֵי, כְּתִיב: ״וְלֹא יִרְאֶה בְךָ עֶרְוַת דָּבָר״? הַהוּא, מִיבְּעֵי לֵיהּ לְכִדְרַב יְהוּדָה. דְּאָמַר רַב יְהוּדָה גּוֹי עָרוֹם — אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיַּת שְׁמַע כְּנֶגְדּוֹ.

Pergunta-se: aqui também, a respeito da casa de banhos, está escrito: “e não veja em ti ervat davar (coisa indecente)” (Devarim 23:15)? A palavra davar sugere fala, e então só a fala seria proibida, e não o pensamento. Responde-se: esse versículo é necessário para o de Rav Yehuda. Pois disse Rav Yehuda: diante de um gentio nu é proibido recitar o Shemá, e isso está incluído na proibição de ervat davar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ervat davar”, “hahi kidrav Yehuda” e “oved kochavim arom”
ערות דבר - אלמא לא אסיר ליה אלא בשעת דבור: ההיא כדרב יהודה - כלומר לעולם והיה מחניך קדוש משום הרהור תורה ואפי' אין דבור ולא יראה בך ערות דבר במילתא אחריתי מיירי דאסור בשעת הדבור ולא בשעת הרהור כגון להסתכל בערוה: עכו"ם ערום - כ"ש ישראל כדמפרש ואזיל:

“Ervat davar” — daqui conclui-se que só lhe é proibido no momento da fala, pois a palavra davar remete à fala.

“Esse é para o de Rav Yehuda” — isto é, sempre “e o teu acampamento será santo” é por causa do pensamento de Torá, e proíbe mesmo sem fala; e “e não veja em ti ervat davar” trata de outra coisa, que é proibida no momento da fala e não no momento do pensamento, como olhar para a nudez enquanto se recita o Shemá.

“Gentio nu” — com mais razão um israelita nu, como se explica a seguir na guemará.

Nota

A palavra “davar”, coisa, também significa palavra, e assim o versículo pareceria limitar a proibição à fala. A guemará responde que essa parte do versículo ensina outra lei: a de Rav Yehuda, que proíbe recitar o Shemá diante de alguém nu.

1622“Não é necessário”: “cuja carne é carne de jumentos”
Anônimo
מַאי אִירְיָא גּוֹי, אֲפִילּוּ יִשְׂרָאֵל נָמֵי?! ״לָא מִיבַּעְיָא״ קָאָמַר: לָא מִיבַּעְיָא יִשְׂרָאֵל דְאָסוּר, אֲבָל גּוֹי, כֵּיוָן דִּכְתִיב בֵּיהּ: ״אֲשֶׁר בְּשַׂר חֲמוֹרִים בְּשָׂרָם״, אֵימָא שַׁפִּיר דָּמֵי, קָא מַשְׁמַע לַן.

Pergunta-se: por que justamente um gentio? Mesmo diante de um israelita nu também é proibido! Responde-se: diz no estilo de “não é necessário”: não é necessário dizer que um israelita é proibido; mas um gentio, já que está escrito sobre ele “cuja carne é carne de jumentos” (Yechezkel 23:20), diria que está bem e é permitido, pois a sua carne não seria considerada nudez; ensina-nos que não.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “eima shapir dami”
אימא שפיר דמי - דכבהמה בעלמא הוא:

“Diria que está bem” — pois é como um mero animal, e a sua nudez não seria nudez.

Nota

Rav Yehuda menciona o gentio não para excluir o israelita, mas porque seria o caso menos evidente: o versículo de Yechezkel compara a sua carne à de animais, e poder-se-ia pensar que a sua nudez não conta.

1623“E a nudez do seu pai não viram”
Anônimo
אֵימָא הָכִי נָמֵי?! אָמַר קְרָא: ״וְעֶרְוַת אֲבִיהֶם לֹא רָאוּ״.

Pergunta-se: e por que não dizer que é de fato assim, que a carne do gentio não é considerada nudez? Responde-se: disse o versículo a respeito de Noach: “e a nudez do seu pai não viram” (Bereshit 9:23), chamando nudez à de Noach, que não era israelita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve'ervat avihem”
וערות אביהם - אלמא ערוה היא בבן נח:

“E a nudez do seu pai” — daqui conclui-se que é nudez num filho de Noach, isto é, num gentio.

Nota

A Torá chama de nudez a de Noach, que não era israelita; logo, também a nudez do gentio é nudez para todos os efeitos.

Os negócios do Céu são permitidos · חֶפְצֵי שָׁמַיִם מוּתָּרִין

1624Contas de mitzvá, tzedaká e assuntos públicos no Shabat
Rav Chisda, Rav Hamnuna, Rabi Elazar, Rabi Yaakov bar Idi e Rabi Yochanan
וְדִיבּוּר מִי אֲסִיר? וְהָא רַב חִסְדָּא וְרַב הַמְנוּנָא דְאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁל מִצְוָה — מוּתָּר לְחַשְּׁבָן בְּשַׁבָּת. וְאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: פּוֹסְקִים צְדָקָה לַעֲנִיִּים בְּשַׁבָּת. וְאָמַר רַבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידֵּי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מְפַקְּחִין פִּיקּוּחַ נֶפֶשׁ וּפִיקּוּחַ רַבִּים בְּשַׁבָּת, וְהוֹלְכִין לְבָתֵּי כְנֵסִיּוֹת לְפַקֵּחַ עַל עִסְקֵי רַבִּים בְּשַׁבָּת.

A guemará volta à razão de Rabi Yehoshua ben Korcha: e falar de assuntos profanos é proibido no Shabat? Mas Rav Chisda e Rav Hamnuna disseram ambos: contas de mitzvá é permitido calculá-las no Shabat. E disse Rabi Elazar: fixam-se as quantias de tzedaká para os pobres no Shabat. E disse Rabi Yaakov bar Idi, disse Rabi Yochanan: cuida-se da salvação de vida e dos assuntos do público no Shabat, e vai-se às sinagogas para cuidar dos assuntos do público no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vedibur mi asur vehaamar Rav Chisda”, “pikuach nefesh” e “ufikuach derabim”
ודבור מי אסור והא אמר רב חסדא כו' - וכל הני דבור הוא: פקוח נפש - בדבר שיש בו סכנה פקוח דיקומבימונ"ט: ופקוח דרבים - כגון לרשות:

“E falar é proibido? Mas disse Rav Chisda etc.” — e todos estes casos são fala, e no entanto são permitidos.

“Salvação de vida” — isto é, em coisa em que há perigo; pikuach, em francês antigo, dikumbimont, isto é, remoção de escombros.

“E dos assuntos do público” — como, por exemplo, tratar junto ao governo em favor da comunidade.

Nota

A guemará volta à proibição de falar dos próprios negócios: se toda fala sobre assuntos de trabalho fosse proibida, como se permitiriam as contas de mitzvá, a fixação da tzedaká e as reuniões sobre questões públicas, que são todas fala?

1625Teatros, noivados e o ofício da criança: “os negócios do Céu”
Rabi Shmuel bar Nachmani, Rabi Yochanan e a escola de Menashe
וְאָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הוֹלְכִין לְטֵרַטְיָאוֹת וּלְקִרְקְסָאוֹת וּלְבָסִילְקָאוֹת לְפַקֵּחַ עַל עִסְקֵי רַבִּים בְּשַׁבָּת. וְתָנָא דְבֵי מְנַשֶּׁה: מְשַׁדְּכִין עַל הַתִּינוֹקוֹת לֵיאָרֵס בְּשַׁבָּת, וְעַל הַתִּינוֹק לְלַמְּדוֹ סֵפֶר וּלְלַמְּדוֹ אוּמָּנוּת?! אָמַר קְרָא: ״מִמְּצוֹא חֶפְצְךָ וְדַבֵּר דָּבָר״ — חֲפָצֶיךָ אֲסוּרִים, חֶפְצֵי שָׁמַיִם מוּתָּרִין.

E disse Rabi Shmuel bar Nachmani, disse Rabi Yochanan: vai-se aos teatros, aos circos e às basílicas para cuidar dos assuntos do público no Shabat. E ensinou-se na escola de Menashe: fazem-se arranjos para as crianças, para que sejam desposadas no Shabat, e para a criança, para ensinar-lhe o livro, isto é, a ler, e para ensinar-lhe um ofício?! Se falar de tais assuntos é proibido no Shabat, como são permitidas todas estas coisas? Responde-se: disse o versículo: “de buscar o teu negócio e de falar palavra” (Yeshayahu 58:13): os teus negócios são proibidos de falar no Shabat; os negócios do Céu, assuntos de mitzvá, são permitidos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tarteiot vekirkesaot uvasilkaot” e “lelamdo umanut”
טרטייאות וקרקסאות ובסילקאות - מיני פלטין הן ששם נאספו לבית הוועד: ללמדו אומנות - דהא נמי מצוה היא דכל שאינו מלמדו אומנות מלמדו לסטות ומצוה ילפינן מקרא בקדושין בהאשה ניקנית (ד' ל:):

“Teatros, circos e basílicas” — são espécies de palácios, pois ali se reuniam as pessoas da cidade, como numa casa de assembleia.

“Ensinar-lhe um ofício” — é permitido, pois também isto é mitzvá, já que todo aquele que não ensina ao filho um ofício é como se lhe ensinasse o banditismo; e a mitzvá de ensinar-lhe um ofício aprendemos de um versículo em Kidushin, no capítulo Haishá Nikneit (Kidushin 30b).

Nota

Todos esses casos são permitidos porque o versículo proíbe apenas “o teu negócio”, os interesses pessoais; o que é assunto do Céu, como o bem público, o casamento e a educação da criança, pode ser tratado em palavras no Shabat.

As contas de “malach” e de “ma bechach” · מוּתָּר לְחַשְּׁבָן בְּשַׁבָּת

1626Contas sem importância e contas passadas e futuras
Rav Yehuda e Shmuel
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁל [מַלָּךְ] וְשֶׁל מַה בְּכָךְ — מוּתָּר לְחַשְּׁבָן בְּשַׁבָּת. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: חֶשְׁבּוֹנוֹת שֶׁעָבְרוּ וְשֶׁעֲתִידִין לִהְיוֹת — אָסוּר לְחַשְּׁבָן. שֶׁל מַלָּךְ

Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: contas de malach (o que te importa), que não dizem respeito a quem as faz, e de ma bechach (que importância tem isso), que não têm consequência prática, é permitido calculá-las no Shabat. Foi ensinado também assim numa baraita: contas que já passaram e que hão de vir é proibido calculá-las no Shabat. Já as contas de malach… a baraita continua em 150b.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shel malach”
של מלך - של עצה שאינו שלו ואין צריך בכך כגון הרוצה לבנות בית כך וכך צריך להוציא בו ול"נ כמו מה לך מה לך ולחשבונות הללו הרי אין צורך בהן לא לך ולא לאחר כגון ההיא דפרישית:

“De malach” — de conselho, isto é, contas de um assunto que não é seu, e ele não precisa disso; como, por exemplo, quem aconselha alguém que quer construir uma casa: tanto e tanto precisa gastar nela. E a mim parece-me que é como “mah lach” (o que te importa): o que te importam estas contas? Eis que não há necessidade delas, nem para ti nem para outro, como aquela que expliquei primeiro.

Nota

Contas que não dizem respeito a quem as faz, ou que não têm consequência prática, podem ser feitas no Shabat. A baraita citada em apoio proíbe as contas de negócios passados e futuros e começa a permitir as de “malach”; a frase prossegue em 150b.

O daf termina aqui, no meio da baraita sobre as contas permitidas no Shabat, ao começar a tratar das contas de “malach”. O Perek Vinte e Três (Sho'el, Shabbat 148a:5-153a:10) prossegue em Shabbat 150b.