O daf continua diretamente de 149a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), concluindo a fala de Rav Yehuda em nome de Shmuel: os companheiros exigentes transgridem também, segundo Beit Hillel, a proibição de usura. Com os filhos e os da casa permite-se o sorteio, como Rav permite emprestar-lhes com usura para lhes fazer provar o seu gosto, e a guemará relê a mishná: com eles vale até a porção grande contra a pequena, que com outros é proibida mesmo no dia comum, como jogo de dados. Rabi Yaakov, filho da filha de Yaakov, explica que não se sorteiam em Yom Tov as porções de um dia comum, ainda que os sacerdotes sejam “como os que contendem com o sacerdote”, e ensina que quem faz o companheiro ser punido não entra no recinto do Santo, bendito seja Ele; a guemará rejeita as provas do espírito de Navot e de Tzidkiyahu e o prova por “também punir não é bom para o justo”. O termo “chalashin” é explicado pelo “cholesh al goyim” de Yeshayahu, dito sobre Nevuchadnetzar, que sorteava os reis cativos, seguido de ensinamentos de Rabi Yochanan e de Rav sobre aquele perverso: nenhum riso nos seus dias, os demônios na sua casa, o milagre que salvou Tzidkiyahu e a sua descida ao Guehinom. O daf termina no início da explicação de “madhevá”, no meio da fala de Rav Yehuda em nome de Rav, que prossegue em Shabbat 150a.
E, conforme as palavras de Beit Hillel, também por causa de usura.
“E conforme as palavras de Hillel” — que se preocupa que o trigo encareça, no empréstimo de pães: também por causa de usura.
Conclui-se a fala de Rav Yehuda em nome de Shmuel iniciada em 149a: os companheiros exigentes transgridem também a proibição de usura, segundo a opinião que teme que o pão emprestado seja devolvido quando o trigo estiver mais caro. No texto de Rashi, a palavra “Beit” vem entre parênteses, como a eliminar, remetendo à opinião de Hillel vista em 148b.
Se é assim, também com os seus filhos e com os da sua casa! Quanto aos seus filhos e aos da sua casa, esta é a razão: conforme Rav Yehuda, em nome de Rav. Pois disse Rav Yehuda, disse Rav: é permitido emprestar com usura aos seus filhos e aos da sua casa, para lhes fazer provar o gosto da usura.
“Também com os seus filhos e com os da sua casa” — preocupemo-nos com a usura e com todas essas proibições.
“Os seus filhos e os da sua casa” — os que se sustentam à sua mesa; pois, uma vez que tudo é seu, não há aqui usura.
“Emprestar” — do que é seu.
“Para lhes fazer provar o gosto da usura” — para que saibam quão dura ela é. Conclui-se que, já que é do que é seu, não há aqui proibição de usura; e, portanto, também quanto a medida, peso e número não há exigência, mas apenas o desejo de igualá-los sem inveja.
Se o sorteio entre exigentes envolve tantas proibições, por que seria permitido com os filhos? Porque tudo pertence ao pai: assim como ele pode emprestar-lhes com usura apenas para que aprendam quão pesada ela é, também o sorteio à mesa serve só para reparti-lo sem ciúme, e não há exigência verdadeira.
Se é assim, também uma porção grande contra uma porção pequena!
“Se é assim, também uma porção grande contra uma porção pequena” — cuja razão estabelecemos adiante como sendo por causa do jogo de dados, e é proibido mesmo no dia comum; e, já que tudo é seu, por que é proibido? É apenas para lhes fazer provar o gosto do jogo de dados.
Se o fundamento é que tudo é do pai e o sorteio apenas educa, também o sorteio desigual, de porção grande contra pequena, deveria ser permitido entre os filhos, pois não haveria ali verdadeiro jogo de azar.
Sim, é de fato assim, e falta algo na mishná, e assim ensina: uma pessoa tira a sorte com os seus filhos e com os da sua casa à mesa, mesmo uma porção grande contra uma porção pequena. Qual é a razão? Conforme Rav Yehuda, em nome de Rav. Com os seus filhos e com os da sua casa, sim; com outros, não. Qual é a razão? Conforme Rav Yehuda, em nome de Shmuel. Uma porção grande contra uma porção pequena, mesmo no dia comum, com outros é proibido. Qual é a razão? Por causa de kubia (jogo de dados).
“Qual é a razão de ser permitido” — e de não se preocupar com o jogo de dados?
“Conforme Rav Yehuda, em nome de Rav” — que é apenas para lhes fazer provar o gosto.
“Com outro, não: conforme Rav Yehuda, em nome de Shmuel” — pois, já que são exigentes, transgridem por causa de medida, de peso e de número.
“Por causa do jogo de dados” — que é roubo, pois a asmachta (compromisso feito na confiança de ganhar) não adquire; e esta é uma asmachta, já que confia na sorte: se a sorte cair sobre a porção grande, eu a ganharei; e por isso se sujeitou também à sorte da pequena, em dúvida; mas, se soubesse desde o início que assim seria, não teria consentido.
A guemará aceita a objeção e relê a mishná: com os filhos permite-se até o sorteio desigual, pois é só para educar; com outros, o sorteio igual é proibido no Shabat pela regra dos exigentes, e o desigual é proibido mesmo no dia comum, como jogo de dados, que é roubo, porque quem perde só aceitou na esperança de ganhar.
“Lançam-se sortes sobre etc.” O que significa “mas não sobre as porções”? Disse Rabi Yaakov, filho da filha de Yaakov: mas não sobre as porções do dia comum, em Yom Tov. É óbvio! Poderias dizer: já que está escrito “e o teu povo é como os que contendem com o sacerdote” (Hoshea 4:4), mesmo as porções do dia comum também seriam permitidas. Ensina-nos que não.
“Do dia comum” — de coisas sagradas de ontem.
“Como os que contendem com o sacerdote” — como estes sacerdotes, que são dados a contendas.
“Mesmo as do dia comum também” — que lhes seja permitido tirar a sorte em Yom Tov, para que não briguem.
A mishná permite aos sacerdotes sortear em Yom Tov as coisas sagradas, mas não as porções. Rabi Yaakov explica: as porções de sacrifícios de um dia comum anterior. Poderia parecer que, sendo os sacerdotes briguentos, até isso se permitiria para evitar contendas; a mishná ensina que não.
E disse Rabi Yaakov, filho da filha de Yaakov: todo aquele por cuja causa o seu companheiro é punido não é admitido no recinto do Santo, bendito seja Ele. De onde o sabemos? Se dissermos que é porque está escrito: “E disse o Eterno: Quem enganará Achav, para que suba e caia em Ramot Guilad? E um disse assim, e outro dizia assim. E saiu o espírito, e pôs-se diante do Eterno, e disse: Eu o enganarei etc. E disse: Sairei e serei espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E disse: Tu o enganarás, e também prevalecerás; sai e faze assim” (Melachim I 22:20-22),
“Este, assim” — eu o enganarei assim.
Rabi Yaakov ensina que quem causa a punição de outro, ainda que com razão, fica fora do recinto divino. A guemará busca a fonte e começa pela visão do profeta Michayahu, em que um espírito se oferece para enganar o rei Achav por meio dos seus falsos profetas.
e dissemos: o que é “o espírito”? Disse Rabi Yochanan: este é o espírito de Navot. E o que é “sai”? Disse Rav: sai do Meu recinto. Mas talvez ali a razão seja esta, pois está escrito: “quem fala mentiras não se estabelecerá” (Tehilim 101:7)?!
O espírito seria o de Navot, morto por causa de Achav, e “sai” significaria a sua expulsão do recinto divino por ter causado a punição de Achav. A prova é rejeitada: talvez tenha sido expulso por ter falado mentira, e não por ter causado a punição.
Antes, daqui: “Fartaste-te de vergonha em vez de honra; bebe também tu, e mostra o prepúcio etc.” (Chavakuk 2:16). “Fartaste-te de vergonha em vez de honra”: este é Nevuchadnetzar. “Bebe também tu, e mostra o prepúcio”: este é Tzidkiyahu. Uma objeção: que todo o versículo está escrito sobre Nevuchadnetzar. E mais: Tzidkiyahu, o justo, o que poderia ter-lhe feito? Pois disse Rabi Yehuda, disse Rav: no momento em que aquele perverso quis fazer àquele justo tal coisa etc.
“Fartaste-te de vergonha” — fala de Nevuchadnetzar, que impunha relação masculina aos reis; e, quando chegou o dia de Tzidkiyahu, o seu prepúcio estendeu-se trezentos côvados; e isso é “fartaste-te de vergonha”.
“Uma: que todo o versículo está escrito sobre Nevuchadnetzar” — bem podes aplicá-lo todo a Nevuchadnetzar, e assim diz: bebe também tu, como aqueles que tu envergonhavas; e “mostra o prepúcio”: torna-te incircunciso e cobre-te de desonra.
“No momento em que lhe fez etc.” — está adiante; já que diz “àquele justo”, aprende-se daí que ele foi forçado.
Segunda tentativa de prova: Tzidkiyahu teria sido humilhado por ter causado a vergonha de Nevuchadnetzar. É rejeitada duas vezes: o versículo inteiro pode referir-se a Nevuchadnetzar, e Tzidkiyahu, chamado justo, nada fez, pois foi vítima forçada, como Rav ensina adiante.
Antes, daqui: “Também punir não é bom para o justo” (Mishlei 17:26); “não é bom” não é senão mau. E está escrito: “Pois não és um Deus que deseja a perversidade; o mal não habitará contigo” (Tehilim 5:5): justo és Tu, Eterno, e o mal não habitará na Tua morada.
“Punir não é bom para o justo” — o justo que pune não é bom; e, já que não é bom, eis que é mau.
“E está escrito: o mal não habitará contigo” — conclui-se que ele não entra no Seu recinto.
A prova aceita combina dois versículos: o justo que causa punição é chamado “não bom”, isto é, mau; e o mal não habita na morada divina. Logo, quem faz o companheiro ser punido não entra no recinto do Santo, bendito seja Ele.
De onde se depreende que este “chalashim” é termo para sorte? Pois está escrito: “Como caíste dos céus, astro brilhante, filho da alva! Foste cortado por terra, tu que lanças sortes sobre as nações etc.” (Yeshayahu 14:12). Disse Rabba bar Rav Huna: ensina que ele lançava sorte sobre os grandes do reino, para saber qual deles tinha o seu dia de relação masculina. E está escrito: “Todos os reis das nações, todos eles etc.” (Yeshayahu 14:18). Disse Rabi Yochanan: que descansaram da relação masculina.
“Que lança sortes sobre as nações” — está escrito sobre Nevuchadnetzar.
A palavra “chalashin” da mishná é explicada pelo verbo “cholesh” em Yeshayahu, dito sobre o rei da Babilônia: ele sorteava os reis cativos para humilhá-los. O versículo seguinte, sobre os reis que jazem em paz, é lido como o descanso dessa humilhação após a sua morte.
E disse Rabi Yochanan: em todos os dias daquele perverso não se encontrou riso na boca de criatura alguma, como foi dito: “Descansou, aquietou-se toda a terra; irromperam em cântico” (Yeshayahu 14:7). Daí se deduz que até agora não houve cântico.
Rabi Yochanan deduz do versículo que o cântico só irrompeu com a queda do rei da Babilônia, de modo que, durante todo o seu reinado, não houve alegria no mundo.
E disse Rabi Yitzchak, disse Rabi Yochanan: é proibido permanecer na casa daquele perverso, como foi dito: “e os se'irim (demônios) ali dançarão” (Yeshayahu 13:21).
“E os se'irim ali dançarão” — e não pessoas; e, por causa das criaturas, os demônios se retiram, e resulta que ele anula o decreto do Rei.
A profecia decretou que as ruínas do palácio de Nevuchadnetzar seriam habitadas por demônios. Quem ali se detém faz com que os demônios se afastem e, segundo Rashi, anula assim o decreto divino.
E disse Rav Yehuda, disse Rav: no momento em que aquele perverso quis fazer àquele justo tal coisa, o seu prepúcio estendeu-se trezentos côvados e rodeava todo o banquete, como foi dito: “Fartaste-te de vergonha em vez de honra; bebe também tu, e mostra o prepúcio” (Chavakuk 2:16). “Arel”, em guematria, é trezentos.
“O banquete” — reis que estavam reclinados e sentados diante dele.
Este é o ensinamento aludido acima, no bloco 1606: Tzidkiyahu foi salvo da humilhação por um milagre, que envergonhou Nevuchadnetzar diante dos reis reunidos. A palavra “arel”, incircunciso, soma trezentos: ayin 70, resh 200, lamed 30.
E disse Rav Yehuda, disse Rav: no momento em que aquele perverso desceu ao Guehinom, estremeceram todos os que desceram ao Guehinom. Disseram: será que vem para governar sobre eles, ou vem para se enfraquecer como eles? Como foi dito: “Também tu te enfraqueceste como nós; a nós te igualaste” (Yeshayahu 14:10). Saiu uma bat kol (voz celestial) e disse: “A quem superas em formosura? Desce e deita-te com os incircuncisos” (Yechezkel 32:19).
“Também tu te enfraqueceste como nós; a nós etc.” — está escrito sobre os que desceram ao Guehinom, pois está escrito pouco antes: “O Sheol, embaixo, agitou-se por ti, ao encontro da tua vinda etc.” (Yeshayahu 14:9).
“Enfraqueceste-te como nós; a nós te igualaste” — expressão de governo.
“Superas em formosura” — pensas estar em mais deleite que os outros.
O verbo “nimshalta” admite dois sentidos: “tornaste-te semelhante” e “governaste”, daí a dúvida dos mortos sobre se o rei vinha dominá-los. A voz celestial resolve: ele desce e jaz com os incircuncisos, igual a eles.
“Como cessou o opressor, cessou a madhevá (exatora de ouro)!” (Yeshayahu 14:4). Disse Rabi Yehuda, disse Rav: cessou esta nação que dizia
Começa a explicação da palavra rara “madhevá”, dita sobre o rei da Babilônia, pela boca da própria nação. A frase de Rav prossegue em 150a.