O daf continua diretamente de 148b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), com a guemará da mishná sobre contar os convidados e tirar a sorte à mesa. Rav Bivai explica que não se lê a lista escrita dos convidados por decreto, para que não apague, e Abaie, para que não leia documentos de pessoas comuns. A guemará procura a diferença prática entre eles: a escrita na parede, elevada ou embaixo, e a escrita gravada numa tábua ou num pinkas, confrontando cada proposta com a lamparina de Rabba e com uma baraita sobre contar os convidados a partir da parede. Conclui-se que a posição de Rabba é objeto de disputa entre tanaítas, como Rabi Acha, que permite ler o escrito na parede, e como Rabi Meir, que permite olhar no espelho fixo na parede, explicado como espelho de metal segundo Rav Nachman em nome de Rabba bar Avuh. Uma baraita proíbe ler no Shabat o escrito sob as figuras e os retratos, e contemplar o próprio retrato idolátrico mesmo no dia comum, por “não vos volteis para os ídolos”, lido por Rabi Chanin como “não afasteis Deus da vossa mente”. O daf termina no início da guemará sobre tirar a sorte com os filhos, no meio da fala de Rav Yehuda em nome de Shmuel sobre os companheiros exigentes uns com os outros, que prossegue em Shabbat 149b.
Guemará: qual é a razão? Rav Bivai disse: é um decreto, para que não apague. Abaie disse: é um decreto, para que não leia documentos de pessoas comuns.
“Guemará. Qual é a razão?” — de “mas não a partir do escrito”.
“Para que não apague” — dos convidados, quando vir que não lhes preparou tudo o que precisam, e se arrepender de ter convidado mais do que o devido, e apagar do escrito, para que o servente não os chame. Todas essas vezes em que se diz “para que não leia”, fala de documentos de pessoas comuns, de compra e venda.
A mishná proíbe contar os convidados a partir de uma lista escrita. Rav Bivai teme que o anfitrião, ao ver que preparou pouco, apague nomes da lista; Abaie teme que, habituado a ler listas no Shabat, venha a ler documentos de negócios, como contratos de compra e venda.
Qual é a diferença entre eles? Há entre eles o caso em que está escrito sobre a parede e elevado: para quem diz “para que não apague”, não nos preocupamos; e para quem diz “para que não leia”, preocupamo-nos.
“Que está escrito” — o número, sobre a parede, com tinta.
“E elevado” — que não alcança ali para apagar. Uma glosa acrescenta: mesmo alto, que não alcança ali para apagar.
Primeira proposta de diferença prática: uma lista escrita no alto da parede, fora do alcance da mão. Quem teme que se apague não vê problema; quem teme a leitura de documentos comuns continua a proibir.
E, para quem diz “para que não apague”, preocupemo-nos para que não leia! E mais: com “para que não apague” não nos preocupamos? Mas foi ensinado: não leia à luz da lamparina; e disse Rabba: mesmo que esteja alta duas estaturas, mesmo alta duas aguilhadas, mesmo dez casas uma sobre a outra, não leia.
“Mesmo alto” — que não alcança ali para inclinar a lamparina, é proibido; pois, já que baixo é proibido, alto também é proibido, para que não se faça distinção.
Duas objeções: por que Rav Bivai não se preocupa também com a leitura de documentos comuns? E, quanto à altura, Rabba proíbe ler à luz da lamparina mesmo quando ela está fora de alcance, para que não se faça distinção, de modo que também a lista no alto da parede deveria ser proibida.
Antes: há entre eles o caso em que está escrito sobre a parede e embaixo: para quem diz “para que não apague”, preocupamo-nos; para quem diz “para que não leia”, não nos preocupamos: uma parede não se confunde com um documento.
“E embaixo” — que está baixo, e pode alcançar ali e apagar.
“Guda” — parede.
Segunda proposta: a lista escrita na parede ao alcance da mão. Quem teme que se apague proíbe; quem teme a leitura de documentos comuns permite, pois ninguém confunde uma parede com um contrato.
E, para quem diz “para que não leia”, preocupemo-nos para que não apague! Antes: há entre eles o caso em que está gravado sobre uma tábua e um pinkas (tabuinha de escrever): para quem diz “para que não apague”, não nos preocupamos; para quem diz “para que não leia”, preocupamo-nos.
“E, para quem diz ‘para que não leia’” — onde não há que se preocupar com “para que não leia”, preocupe-se com “para que não apague”.
“Que está gravado” — com faca, dentro da madeira, na tábua, que não é fácil de apagar, e nesse meio-tempo se lembra, e não há que se preocupar com apagar.
Também Abaie deveria temer que se apague. Terceira proposta: uma lista gravada a faca numa tábua de madeira, que não se apaga com facilidade. Quem teme que se apague permite; quem teme a leitura de documentos comuns proíbe.
E, para quem diz “para que não apague”, preocupemo-nos para que não leia! E, se disseres: tábua e pinkas não se confundem com um documento, mas foi ensinado: uma pessoa conta quantos ficarão dentro, e quantos fora, e quantas porções há de pôr diante deles, a partir de um escrito que está sobre a parede, mas não a partir de um escrito que está sobre uma tábua e um pinkas!
“Pinkas” — semelhante às tábuas dos mercadores.
“Quantos dentro e quantos fora” — a quem e a quem farei sentar dentro, no lugar de honra, e a quem e a quem farei sentar fora, que não é tão honrado.
“Mas não a partir de um escrito que está sobre uma tábua e um pinkas” — pois uma parede não se confunde com um documento, mas uma tábua e um pinkas se confundem.
Rav Bivai também deveria temer a leitura de documentos comuns, e não se pode dizer que a tábua e o pinkas não se confundem com um documento: uma baraita permite ler a lista dos lugares e das porções escrita na parede, mas a proíbe na tábua e no pinkas, que, segundo Rashi, se assemelham às tábuas dos mercadores.
Como é o caso? Se dizes que está escrito como escrita de tinta, qual é a diferença aqui e qual é a diferença ali? Antes, não é que está gravado? E ensina: a partir de um escrito que está sobre a parede, mas não a partir de um escrito que está sobre uma tábua e um pinkas!
“Que está escrito como escrita” — escrita de tinta.
Se a baraita tratasse de escrita a tinta, a parede e a tábua seriam iguais quanto ao risco de apagar. Logo, trata de escrita gravada, que não se apaga, e ainda assim proíbe a tábua e o pinkas: a preocupação é a leitura de documentos comuns, o que contradiz Rav Bivai.
Antes: na verdade, está escrito sobre a parede e elevado; e o que te é difícil, de Rabba: a de Rabba é disputa de tanaítas. Pois foi ensinado: uma pessoa conta os seus convidados e as suas iguarias de boca, mas não a partir do escrito. Rabi Acha permite a partir de um escrito que está sobre a parede.
“Antes, na verdade, está escrito sobre a parede e elevado” — que não pode apagar; e com “para que não leia” não nos preocupamos, pois uma parede não se confunde com um documento. E o que te é difícil: que, embora esteja elevado, seja proibido, conforme Rabba, que disse a respeito da lamparina: mesmo dez casas.
“A de Rabba é disputa de tanaítas” — pois há quem se preocupe com “para que não se faça distinção” na proibição rabínica do Shabat, e há quem distinga.
A guemará volta à primeira proposta, a lista no alto da parede. A objeção da lamparina de Rabba não é decisiva, pois o princípio de não fazer distinção nas proibições rabínicas é objeto de disputa entre tanaítas: o primeiro tanaíta proíbe toda lista escrita, e Rabi Acha permite a escrita na parede.
Como é o caso? Se dizes que está escrito e embaixo, preocupemo-nos para que não apague! Antes, não é que está escrito e elevado? E conclui-se disto que a de Rabba é disputa de tanaítas. Conclui-se disto.
“Preocupemo-nos para que não apague” — pois Rabi Acha mencionou especificamente a parede; e, se está embaixo, que diferença há para mim entre parede e carta?
Rabi Acha só pode tratar da escrita no alto da parede, pois, se estivesse ao alcance da mão, não haveria diferença entre a parede e uma carta quanto ao risco de apagar. Assim, ele não aplica o princípio de Rabba, e a disputa tanaítica fica demonstrada.
E estes tanaítas são como aqueles tanaítas. Pois foi ensinado: não se olha num espelho no Shabat. Rabi Meir permite num espelho fixo na parede.
“Não se olha num espelho” — mireor, em língua estrangeira; pois quem olha num espelho não precisa disso senão para arrumar os cabelos da cabeça e da barba; por isso nos preocupamos que veja fios pendentes, que não são iguais ao resto do cabelo, e os raspe.
A mesma disputa aparece a respeito do espelho: os Sábios proíbem olhar no espelho no Shabat, por receio de que se arranquem ou raspem fios soltos, e Rabi Meir permite quando o espelho está fixo na parede.
Qual é a diferença do espelho fixo na parede? Que, nesse meio-tempo, se lembra; o que não é fixo também: nesse meio-tempo, se lembra!
“Que nesse meio-tempo” — em que vai trazer navalha ou tesoura.
“Se lembra” — de que é Shabat.
Se a razão de Rabi Meir fosse que, enquanto se vai buscar a navalha ou a tesoura, a pessoa se lembra de que é Shabat, o mesmo valeria para o espelho portátil, e não haveria motivo para distinguir.
Aqui tratamos de um espelho de metal, e conforme Rav Nachman, em nome de Rabba bar Avuh. Pois disse Rav Nachman, disse Rabba bar Avuh: por que disseram que o espelho de metal é proibido? Porque uma pessoa costuma remover com ele os fios pendentes.
“De metal” — que não precisa trazer tesoura, pois ele mesmo raspa o cabelo.
Trata-se de um espelho de metal, cujo próprio gume serve para cortar os fios. Quando está fixo na parede, não pode ser usado assim, e por isso Rabi Meir o permite; os Sábios, como Rabba, proíbem sem distinguir.
Ensinaram os Sábios: um escrito que passa sob a figura e sob os retratos é proibido lê-lo no Shabat. E o próprio retrato, mesmo no dia comum, é proibido contemplá-lo, por causa do que foi dito: “não vos volteis para os ídolos” (Vayikra 19:4). Qual é o aprendizado? Disse Rabi Chanin: não afasteis Deus da vossa mente.
“Um escrito que passa sob a figura e sob os retratos” — como pessoas que pintam na parede animais estranhos ou retratos de pessoas, de feitos, como a guerra de David e Golias, e escrevem embaixo: esta é a figura de tal animal, e este é o retrato de fulano e fulana.
“É proibido lê-lo no Shabat” — para que não leia documentos de pessoas comuns.
“Deus, da vossa mente” — o deus que fazeis da mente do vosso coração, e que é um vazio vosso. “Elilim” é expressão de vazios.
As legendas sob pinturas e retratos não se leem no Shabat, para que não se chegue a ler documentos comuns. O retrato idolátrico em si não se contempla em dia algum. Rabi Chanin lê “al tifnu el” como “não esvazieis de Deus”, isto é, não afasteis Deus da mente; Rashi associa “elilim” à palavra para vazio.
“Uma pessoa tira a sorte com os seus filhos etc.” Com os seus filhos e com os da sua casa, sim; e com outro, não. Qual é a razão? Conforme Rav Yehuda, em nome de Shmuel. Pois disse Rav Yehuda, disse Shmuel: membros de um grupo que são exigentes uns com os outros transgridem por causa de medida, e por causa de peso, e por causa de número, e por causa de tomar emprestado e pagar em Yom Tov,
“Com os seus filhos e com os da sua casa, sim; com outro, não” — já que não ensinou “e tira a sorte sobre as porções”.
“Por causa de tomar emprestado e pagar” — que os Sábios decretaram sobre eles, para que não escreva.
“Que são exigentes” — que não perdoam nem cedem um ao outro.
A mishná permite o sorteio apenas com os filhos e os da casa. A razão é a regra de Shmuel: companheiros de refeição que fazem questão de que ninguém receba mais transgridem as proibições de medir, pesar e contar no Shabat e em Yom Tov, e a de emprestar e pagar em Yom Tov, decretada para que não se escreva. A fala prossegue em 149b.