O daf continua diretamente de 148a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Três, Sho'el (Shabbat 148a:5-153a:10, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Abaie conclui que as mulheres que enchem os cântaros em Yom Tov não podem mudar o seu modo, pois o pano e a tampa trariam outros riscos. Rava bar Rav Chanan aponta que o povo bate palmas e dança em Yom Tov sem ser repreendido, e Abaie responde com o princípio: deixa Israel, é melhor que sejam inadvertidos do que intencionais, o que vale também para as proibições da Torá, como o acréscimo de Yom Kipur. A guemará concilia a mishná dos pães com a proibição de Hillel, distinguindo o lugar onde o preço é fixo. Rav Yosef e Rabba discutem se o empréstimo de Yom Tov pode ser cobrado no tribunal, com a garantia do manto, a objeção de Rav Idi bar Avin a partir da vaca repartida em Rosh Hashaná, a declaração “eu cancelo” do sétimo ano e as práticas de Rav Avya e Rabba bar Ulla. Rabi Yochanan permite consagrar o Pessach no Shabat e a oferta festiva em Yom Tov, e a guemará discute a inscrição no cordeiro, o pastor habitual de Rabi Hoshaya e a mishná anônima, distinguindo as obrigações com tempo fixo. O daf termina com uma nova mishná, sobre contar os convidados de boca e não do escrito, tirar a sorte à mesa e lançar sortes sobre as coisas sagradas, cuja guemará prossegue em Shabbat 149a.
Que estendamos um pano sobre o cântaro: chega-se a espremer. Que o cubramos com uma tampa: às vezes ela se solta, e chega-se a atá-la. Portanto, não é possível.
“E chega-se a espremer” — e o que se diz no tratado Beitzá, “estende-se um pano sobre ele” etc., lá se trata de uma coisa seca.
“Com uma tampa” — cobertura.
“Às vezes ela se solta etc.” — já que lhe exiges uma tampa, ela a ata ao cântaro, e às vezes se solta, e chega a atá-la, e é um nó permanente, que é proibido pela Torá.
Abaie conclui a resposta começada no fim de 148a: as alternativas para mudar o modo de tirar água também trariam risco de transgressão. Um pano estendido sobre o cântaro poderia ser espremido, e uma tampa, que segundo Rashi seria atada ao cântaro, poderia soltar-se e levar a um novo nó permanente, proibido pela Torá. Por isso não se exige mudança das mulheres que enchem os cântaros em Yom Tov.
E disse Rava bar Rav Chanan a Abaie: aprendemos: não se batem palmas, nem se bate com a mão, nem se dança em Yom Tov (Beitzá 36b); e vemos que o fazem, e não lhes dizemos coisa alguma! Disse-lhe Abaie: e, segundo o teu raciocínio, aquilo que disse Rava: que uma pessoa não se sente à boca da haste do beco, para que não lhe role um objeto e chegue a trazê-lo; e eis que vemos mulheres que trazem cântaros e se sentam à boca do beco, e não lhes dizemos coisa alguma! Antes: deixa Israel; é melhor que sejam inadvertidos e não sejam intencionais.
“Não se batem palmas” — mão contra mão, em sinal de luto.
“Bate-se” — sobre o coração.
“Dança-se” — por alegria; e a razão se explica no tratado Beitzá: para que não conserte um instrumento musical.
“À boca da haste” — porque não se reconhece tanto a diferença entre o beco e o domínio público.
“E chegue a trazê-lo” — o objeto que rola, dentro de quatro côvados. “E rola-lhes o cântaro e o trazem” não lemos.
Rava bar Rav Chanan aponta que o povo bate palmas e dança em Yom Tov, contra a mishná de Beitzá, sem que ninguém o impeça. Abaie responde com outro exemplo, a proibição de Rava de sentar-se no Shabat junto à haste que delimita o beco, que as mulheres também não observam, e enuncia o princípio: quando não se vai ser ouvido, é melhor deixar que transgridam por inadvertência do que torná-los transgressores intencionais.
Entenderam disso: estas palavras valem para as proibições rabínicas, mas para as da Torá, não. E não é assim: não há diferença entre as rabínicas e as da Torá. Pois o acréscimo de Yom Kipur é da Torá, e vemo-los que comem e bebem até que escureça, e não lhes dizemos coisa alguma.
Alguns quiseram limitar o princípio de “deixa Israel” às proibições rabínicas. A guemará rejeita essa restrição: também o acréscimo ao jejum de Yom Kipur, que é da Torá, é ignorado por quem come e bebe até o anoitecer, e não se repreende essas pessoas.
“E assim a mulher, à sua companheira, pães.” No Shabat é que é proibido, mas no dia comum está bem? Digamos que a nossa mishná não é conforme Hillel, pois aprendemos (Bava Metzia 75a): e assim dizia Hillel: que uma mulher não empreste um pão à sua companheira até que o converta em dinheiro, para que não encareça o trigo e venham a cair em juros!
“No Shabat é que é proibido” — dizer “faz-me um empréstimo”, por causa da escrita.
“Mas no dia comum é permitido” — e não nos preocupamos com juros, embora lhe fale em linguagem de empréstimo.
A mishná só proíbe no Shabat pedir pães com a expressão de empréstimo, o que sugere que no dia comum é permitido. Mas Hillel, na mishná de Bava Metzia, proíbe emprestar um pão sem fixar o seu valor em dinheiro, pois, se o trigo encarecer, a devolução de um pão igual equivaleria a juros.
Podes dizer mesmo que é Hillel: esta, num lugar onde o seu preço é fixo; aquela, num lugar onde o seu preço não é fixo.
“Num lugar onde o seu preço é fixo” — com os pães não se chega a juros, pois, se encarecerem, dará o seu valor.
A mishná pode seguir Hillel: ela trata de um lugar onde o preço do pão é fixo, e então, se encarecer, a devedora paga o valor, sem risco de juros; Hillel trata de um lugar onde o preço não é fixo.
“E, se não confia nele.” Foi dito: o empréstimo de Yom Tov, Rav Yosef disse: não foi dado para ser cobrado; e Rabba disse: foi dado para ser cobrado. Rav Yosef disse que não foi dado para ser cobrado: pois, se disseres que foi dado para ser cobrado, chega-se a escrever. Rabba disse que foi dado para ser cobrado: pois, se disseres que não foi dado, não lhe dará, e chegará a privar-se da alegria de Yom Tov.
“Não foi dado para ser cobrado” — no tribunal, pois o tribunal nunca se ocupa dele.
Rav Yosef e Rabba discutem se o empréstimo feito em Yom Tov pode ser reclamado no tribunal. Para Rav Yosef, não, pois, se pudesse, o credor anotaria a dívida no próprio dia de festa; para Rabba, sim, pois, do contrário, ninguém emprestaria, e quem precisa ficaria sem a alegria da festa.
Aprendemos: se não confia nele, deixa o seu manto com ele. Está bem se disseres que não foi dado para ser cobrado: por isso deixa o seu manto com ele e faz as contas com ele depois do Shabat. Mas, se disseres que foi dado para ser cobrado, por que deixa o seu manto com ele? Que lhe dê e o cobre! Diz: não quero comparecer a julgamento e a juiz.
“A julgamento e a juiz” — não quer vir a julgamento, nem escolher juiz, nem incomodar-se.
A garantia do manto parece mostrar que o empréstimo de Yom Tov não pode ser cobrado no tribunal. A guemará responde que, mesmo podendo cobrá-lo, o credor prefere ter a garantia nas mãos a ter de processar o devedor.
Rav Idi bar Avin objetou: quem abate a vaca e a reparte em Rosh Hashaná, se o mês foi acrescido de um dia, o sétimo ano cancela; e, se não, não cancela (Shevi'it 10:2).
“Quem abate a vaca e a reparte em Rosh Hashaná” — do ano que sucede ao sétimo, aos compradores, e a crédito; e estabelecemos que o sétimo ano cancela no seu fim, como está escrito: “ao fim” (Devarim 15:1).
“Se o mês foi” — se Elul foi acrescido de um dia, e fizeram Rosh Hashaná dois dias, cancela, pois o primeiro dia de Yom Tov era do fim do sétimo ano, e resulta que este é um empréstimo do sétimo ano; e, se não, é um empréstimo do ano que sucede ao sétimo, e não cancela.
Rav Idi bar Avin cita a mishná de Shevi'it sobre quem vende carne a crédito no primeiro dia de Rosh Hashaná. Se Elul teve trinta dias, esse dia ainda pertencia ao fim do sétimo ano, que cancela as dívidas; se não, já era o ano seguinte, e a dívida não se cancela. Daqui ele pretende refutar Rav Yosef.
E, se não foi dado para ser cobrado, o que é “cancela”? Lá é diferente, porque se revelou a coisa: que era dia comum.
“Está bem se disseres etc.” não lemos; assim lemos: “E, se não foi dado para ser cobrado, o que é ‘cancela’?” — visto que o tribunal não se ocupa de obrigá-lo, já está cancelado.
“Que era dia comum” — pois o mês foi acrescido, e não era Yom Tov até o dia seguinte; por isso, se não fosse pelo sétimo ano, teria cobrado.
Se o empréstimo de Yom Tov não pudesse ser cobrado, não haveria sentido em dizer que o sétimo ano o cancela. A resposta: quando Elul teve trinta dias, revelou-se que aquele dia era, na verdade, um dia comum, e o empréstimo seria cobrável, não fosse o sétimo ano.
Vem e ouve da cláusula final: “e, se não, não cancela”. Está bem se disseres que foi dado para ser cobrado: é isso o que ensina, “não cancela”. Mas, se disseres que não foi dado para ser cobrado, por que não cancela? Significa que, se lhe der, toma.
“Se não, não cancela” — portanto, foi dado para ser cobrado; e responde: o que é “não cancela”? Que, se lhe der, toma.
A cláusula final da mishná, em que o dia era de fato Rosh Hashaná, diz que a dívida não se cancela, o que parece supor que o empréstimo de Yom Tov é cobrável. A guemará responde que “não cancela” significa apenas que o credor pode aceitar o pagamento, se o devedor o fizer.
Por inferência, na cláusula inicial, se lhe der, não toma?! Na cláusula inicial, precisa dizer-lhe “eu cancelo”; na cláusula final, não precisa dizer-lhe “eu cancelo”. Como aprendemos (Shevi'it 10:8): quem devolve uma dívida no sétimo ano, o credor diga-lhe: “eu cancelo”.
“Por inferência, na cláusula inicial, se lhe der, não toma” — em tom de espanto.
“Na cláusula inicial” — que é empréstimo do sétimo ano, mesmo se o devedor lhe der, o credor precisa dizer-lhe: “eu cancelo”.
Também a dívida cancelada pode ser aceita se o devedor a pagar; a diferença é que, na cláusula inicial, o credor deve antes declarar “eu cancelo”, enquanto na final, em que a dívida não foi cancelada, essa declaração é desnecessária.
E, se lhe disse: “mesmo assim”, aceite dele, porque foi dito: “e esta é a palavra do cancelamento” (Devarim 15:2).
“E, se disse” — o devedor: “mesmo assim, não desejo que cancelem”, aceite dele.
“A palavra do cancelamento” — mesmo quando recebe a sua dívida, mencione-lhe o cancelamento na sua fala.
A mishná de Shevi'it lê o versículo “e esta é a palavra do cancelamento” como exigência de uma palavra: basta que o credor declare o cancelamento; se o devedor insistir em pagar, o credor pode aceitar.
Rav Avya tomava penhor. Rabba bar Ulla usava um artifício.
“Tomava penhor” — na hora do empréstimo, de um empréstimo de Yom Tov.
“Usava um artifício” — depois de Yom Tov, tomava dele algum objeto e o retinha.
Diante da dúvida sobre a cobrança dos empréstimos de Yom Tov, Rav Avya tomava uma garantia já no momento do empréstimo; Rabba bar Ulla, segundo Rashi, esperava o fim da festa e então retinha algum objeto do devedor até ser pago.
“E assim a véspera de Pessach.” Disse Rabi Yochanan: uma pessoa consagra o seu cordeiro de Pessach no Shabat, e a sua oferta festiva em Yom Tov. Digamos que a mishná o apoia: “e assim, na véspera de Pessach em Jerusalém que cai no Shabat, deixa o seu manto com ele, toma o seu cordeiro de Pessach e faz as contas com ele depois do Yom Tov”.
“O seu Pessach no Shabat” — se o dia catorze cai no Shabat.
“E a sua oferta festiva em Yom Tov” — no dia em que é oferecida, é permitido consagrar; e, embora tenhamos aprendido: “estas são por causa de descanso rabínico: não se consagra” (Beitzá 36b), estas, já que a sua oferenda suplanta o Shabat ou o Yom Tov, a sua consagração também suplanta.
Rabi Yochanan permite consagrar o cordeiro de Pessach no Shabat e a oferta festiva no Yom Tov, pois, segundo Rashi, o que pode ser oferecido no dia também pode ser consagrado nele. A guemará pensa encontrar apoio na mishná, que permite tomar o cordeiro no Shabat, véspera de Pessach.
Aqui, de que tratamos? De quem inscreve outros com ele no seu cordeiro de Pessach, que desde o início está consagrado.
“Quem inscreve outros com ele” — como está escrito: “segundo o número das almas” (Shemot 12:4).
“No seu Pessach” — que já estava consagrado desde ontem.
A guemará rejeita a prova: a mishná pode tratar de um cordeiro consagrado antes do Shabat, no qual o dono apenas inscreve outros participantes, como prevê o versículo sobre o número das pessoas.
Mas nós aprendemos (Beitzá 27b): não se inscreve sobre um animal, de início, em Yom Tov! Aqui é diferente: já que é habitual junto a ele, é como quem se inscreveu nele desde o início.
A mishná de Beitzá proíbe inscrever-se num animal pela primeira vez em Yom Tov. A guemará responde que quem costuma participar do cordeiro daquele dono é tratado como inscrito desde antes.
Mas ensinou Rabi Hoshaya: uma pessoa vai ao pastor habitual junto a ele, e este lhe dá um cordeiro para o seu Pessach, e ele o consagra e cumpre com ele a obrigação! Lá também, já que é habitual junto a ele, consagra-o desde o início. Mas ensina “consagra”? É consagração de enaltecimento, de ordem rabínica.
“Consagra-o” — o pastor o consagra desde a véspera do Shabat, pois sabe que este conta com ele.
“Enaltecimento” — mera elevação: que os donos o consagrem.
A baraita de Rabi Hoshaya parece permitir consagrar o cordeiro no próprio dia. A guemará responde que o pastor, sabendo que o cliente habitual contaria com ele, já o consagrara antes do Shabat; a consagração feita pelo dono é apenas um acréscimo de honra, de ordem rabínica.
E Rabi Yochanan disse assim? Mas Rabi Yochanan disse: a halachá é conforme a mishná anônima; e aprendemos (Beitzá 36b): não se consagra, não se faz avaliação, não se declara cherem e não se separam terumot e dízimos; tudo isso disseram em Yom Tov; com mais razão no Shabat! Não é difícil: aqui, em obrigações que têm tempo fixo; ali, em obrigações que não têm tempo fixo.
“Esta” — o que ensina “não se consagra” refere-se a obrigações que não têm tempo fixo, cuja oferenda não suplanta o Shabat.
A permissão de Rabi Yochanan parece contradizer a sua própria regra de seguir a mishná anônima, que proíbe consagrar em Yom Tov e, com mais razão, no Shabat. A guemará distingue: a proibição vale para oferendas sem tempo fixo, que podem esperar; Rabi Yochanan permite consagrar as que têm tempo fixo, como o Pessach e a oferta festiva, cuja oferenda suplanta o Shabat.
MISHNÁ. Uma pessoa conta os seus convidados e as suas iguarias de boca, mas não a partir do escrito. Uma pessoa tira a sorte com os seus filhos e com os da sua casa à mesa, contanto que não tenha a intenção de fazer uma porção grande contra uma porção pequena. E lançam-se sortes sobre as coisas sagradas em Yom Tov, mas não sobre as porções.
“MISHNÁ. As suas iguarias” — espécies de guloseimas.
“Mas não a partir do escrito” — se escreveu desde a véspera do Shabat: tantos e tantos convidados, fulano e fulano convidei, para que não os esqueça, não leia nesse escrito no Shabat; e na guemará explica-se a razão.
“Tira a sorte” — da expressão “payis”: lança a sorte para repartir a quem cabe cada porção.
“Contanto que não tenha a intenção de fazer etc.” — que as porções sejam iguais, e não haja uma grande e uma pequena, para que fique com a grande quem ganha pela sorte, e quem é condenado pela sorte à pequena a tome; e na guemará explica-se a razão.
“Chalashin” — sortes.
“Sobre as coisas sagradas” — entre os sacerdotes.
“Mas não sobre as porções” — na guemará se explica.
Ainda no Perek Vinte e Três, abre-se uma nova mishná. Pode-se contar de memória os convidados e os pratos da refeição, mas não ler a lista escrita no Shabat. Pode-se sortear as porções entre os familiares, desde que sejam iguais, sem que a sorte decida entre uma grande e uma pequena. E, em Yom Tov, os sacerdotes podem sortear entre si as carnes sagradas, mas não as porções; as razões serão explicadas na guemará, em 149a.