O daf continua diretamente de 147a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria), sem abertura de nova mishná. A guemará conclui a inferência começada em 147a: enxaguar todo o corpo é permitido mesmo de início, e a mishná segue Rabi Shimon, contra Rabi Meir e Rabi Yehuda. Explica as duas novidades da mishná das toalhas, traz a baraita da toalha deixada na janela e não entregue aos atendentes, e Rav Yosef responde a Abaie que Rabi Shimon, Rabi, Shmuel e Rabi Yochanan permitem levá-la para casa; a regra de Rabi Yochanan sobre a mishná anônima se resolve atribuindo a cláusula a ben Chachinai. Seguem-se os lençóis de banho das mulheres, o sichnita atado abaixo dos ombros e a instrução de Rava aos habitantes de Mechoza. Sobre a unção e a massagem, Rabi Chama bar Chanina e Rabi Yochanan explicam como mudar o modo do dia comum; sobre o exercício, proíbe-se ficar no fundo de Deyomset, cujos vinte e um dias de cura incluem Atzeret, e Rabi Chelbo ensina que o vinho de Prugita e a água de Deyomset fizeram perder as dez tribos, como aconteceu com Rabi Elazar ben Arach, que esqueceu o seu estudo, episódio ligado ao dito de Rabi Nehorai. A guemará explica ainda o raspador, o Kordima, os vomitórios e a proibição de modelar o pequeno; o daf termina no início de um ensinamento de Rabi Chana de Bagdá em nome de Shmuel sobre a fratura, que prossegue em Shabbat 148a.
…que enxaguar todo o seu corpo, mesmo de início, está bem. De quem é a mishná? É de Rabi Shimon. Pois foi ensinado numa baraita: não se enxágue uma pessoa, nem com água quente nem com fria; palavras de Rabi Meir. Rabi Shimon permite. Rabi Yehuda diz: com quente, é proibido; com fria, é permitido.
“Guemará. Que enxaguar” — derrama-as, as águas, sobre o seu corpo; pois não é modo de banho, é permitido de início, mesmo com água quente.
A guemará conclui a inferência começada no fim de 147a: se a mishná fala de “quem se banha” apenas depois do fato, implica que enxaguar o corpo, derramando água sobre ele, o que não é modo de banho, é permitido mesmo de início. Essa é a posição de Rabi Shimon, contra Rabi Meir, que proíbe tanto com água quente quanto com fria, e contra Rabi Yehuda, que proíbe só com quente.
“E se enxugou, mesmo com dez toalhas.” A primeira parte nos ensina uma novidade, e a parte final nos ensina uma novidade. A primeira parte nos ensina uma novidade: que mesmo estas, nas quais não há muita água, já que é um só, chega a espremer. E a parte final nos ensina uma novidade: mesmo estas, nas quais há muita água, já que são muitos, lembram uns aos outros.
“A parte final” — “Mas dez pessoas” etc.
Cada parte da mishná traz uma novidade. Quem se enxugou sozinho não pode levar as toalhas, embora cada uma esteja pouco molhada, pois, estando só, pode esquecer-se e espremê-las. Dez pessoas podem levar a única toalha que usaram, embora esteja encharcada, pois uma lembra a outra.
Os Sábios ensinaram: uma pessoa se enxuga com uma toalha e a deixa na janela; e não a entregue aos olyarin, porque são suspeitos quanto a essa coisa. Rabi Shimon diz: enxuga-se com uma só toalha e a traz na sua mão para dentro da sua casa.
“E a deixa na janela” — a que está junto à parede da casa de banho.
“Aos olyarin” — atendentes do banho.
“Quanto a essa coisa” — espremer.
Segundo o primeiro tana, a toalha usada fica na janela da casa de banho, e não é entregue aos atendentes, de quem se suspeita que a espremam. Rabi Shimon permite levá-la para casa na mão.
Disse Abaie a Rav Yosef: a halachá, o que é? Disse-lhe: eis Rabi Shimon, eis Rabi, eis Shmuel, eis Rabi Yochanan.
“Eis Rabi e eis Rabi Shimon etc.” — eis que todos estes são os que permitem.
Rav Yosef responde enumerando quatro autoridades que permitem levar a toalha para casa, indicando que a halachá segue a posição permissiva.
Rabi Shimon: isto que dissemos. Rabi: pois foi ensinado numa baraita: disse Rabi: quando estudávamos Torá junto a Rabi Shimon em Tekoa, levávamos óleo e toalha do pátio para o telhado, e do telhado para o recinto cercado, até chegarmos junto a uma fonte em que nos banhávamos. Shmuel: pois disse Rav Yehuda, disse Shmuel: uma pessoa se enxuga com uma toalha e a traz na sua mão para dentro da sua casa. Rabi Yochanan: pois disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: a halachá é que uma pessoa se enxuga com uma toalha e a traz na sua mão para dentro da sua casa.
“Do pátio para o telhado etc.” — Rabi Shimon segue o seu raciocínio, pois disse em Eruvin (Eruvin 74a): tanto telhados, quanto pátios, quanto recintos cercados, todos são um só domínio para transportar de um para outro, mesmo de muitos donos.
“Até chegarmos etc.” — e presumivelmente não a deixavam sobre a fonte, num lugar sem dono.
A guemará documenta cada uma das quatro autoridades. Rabi conta que, com Rabi Shimon, levavam o óleo e a toalha por pátios, telhados e recintos cercados, que para Rabi Shimon são um só domínio, até a fonte; e, como não deixariam a toalha num lugar sem dono, deduz-se que a traziam de volta. Shmuel e Rabi Yochanan o dizem explicitamente.
E Rabi Yochanan disse assim? Mas não disse Rabi Yochanan: a halachá é conforme a mishná anônima? E aprendemos: “e se enxugou, mesmo com dez toalhas, não as traga na mão”! Aquela, ele a ensina conforme ben Chachinai.
“Ensina-a conforme ben Chachinai” — conclui-a com as palavras de ben Chachinai, e não é anônima.
A regra de Rabi Yochanan, de que a halachá segue a mishná anônima, parece contradizer a sua permissão de levar a toalha. A resposta é que, na versão de Rabi Yochanan, essa cláusula da mishná não é anônima, mas é atribuída a ben Chachinai, uma opinião individual.
Disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: os olyarin trazem os balarei das mulheres à casa de banho, contanto que se cubram com eles a cabeça e a maior parte do corpo. O sichnita, é preciso atar as suas duas pontas embaixo. Disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: abaixo dos ombros. Disse Rava aos habitantes de Mechoza: quando levardes roupas para os soldados, estendei-as abaixo dos ombros.
“Os olyarin” — atendentes do banho.
“Trazem os balarei das mulheres” — lençóis com que as mulheres se enxugam; é permitido trazê-los à casa de banho a modo de vestimenta.
“Sichnita” — um lenço grande que lhe pende entre os ombros, e a sua cabeça está envolta nele.
“É preciso atar as suas duas pontas” — uma à outra, para que não caia da sua cabeça.
“Quando levardes roupas para os soldados” — quando trouxerdes as roupas dos idólatras, os soldados que vos foram impostos para servi-los, e vós lhas trazeis no Shabat pelo domínio público.
“Estendei-as abaixo dos ombros” — que as suas bordas não estejam postas sobre os seus ombros, mas puxadas para baixo, para que pareça vestimenta.
Os atendentes podem levar à casa de banho os lençóis das mulheres desde que os vistam, cobrindo a cabeça e a maior parte do corpo. O lenço grande sobre a cabeça e os ombros deve ter as pontas atadas abaixo dos ombros, para que não caia. Rava instrui os habitantes de Mechoza, obrigados a levar roupas aos soldados, a vesti-las caídas abaixo dos ombros, para que sejam vestimenta e não carga.
“Unta-se e massageia-se.” Os Sábios ensinaram: unta-se e massageia-se sobre os intestinos no Shabat, contanto que não o faça do modo como faz no dia comum. Como faz? Rabi Chama bar Chanina disse: unta e depois massageia. Rabi Yochanan disse: unta e massageia de uma só vez.
“Unta e depois massageia” — pois pensa que no dia comum massageia e depois unta.
A unção e a massagem sobre o ventre são permitidas no Shabat se feitas de modo diferente do habitual, para que não pareçam tratamento médico. Rabi Chama bar Chanina inverte a ordem; Rabi Yochanan faz as duas coisas ao mesmo tempo.
“Mas não se exercita.” Disse Rabi Chiya bar Abba, disse Rabi Yochanan: é proibido ficar de pé no fundo de Deyomset, porque aquece e cura. Disse Rav Yehuda, disse Rav: todos os dias de Deyomset são vinte e um dias, e Atzeret está incluída na contagem. Foi-lhes perguntado: Atzeret está no início, deste lado, ou do outro lado? Vem e ouve, pois disse Shmuel: todas as bebidas, de Dibcha (Pessach) até Atzeret, são benéficas! Talvez lá seja porque, quanto mais frio o mundo, mais benéfico; mas aqui é por causa do calor; já que o mundo está quente, é mais benéfico.
“Deyomset” — nome de um rio cujas águas são salgadas.
“Porque aquece” — esquenta.
“E cura” — pois a lama é salgada.
“Todos os seus dias” — os dias da sua cura.
“Deste lado etc.” — no início dos dias ou no fim.
“Bebidas” — bebidas para cura.
“De Dibcha até Atzeret” — vê-se que Atzeret está no fim.
As águas salgadas de Deyomset aquecem e curam mesmo quem apenas fica de pé no seu fundo, e por isso isso é proibido no Shabat. O seu período de cura dura vinte e um dias, incluindo Atzeret, isto é, Shavuot. A guemará pergunta se Shavuot abre ou fecha esse período; a prova das bebidas medicinais, eficazes até Atzeret, é rejeitada, pois estas agem melhor no frio, enquanto o banho age pelo calor.
Disse Rabi Chelbo: o vinho de Prugita e a água de Deyomset arrancaram as dez tribos de Israel.
“O vinho de Prugita” — nome de uma província cujo vinho é excelente.
“Arrancaram as dez tribos” — pois eram amantes do prazer e ocupados com isso, e não se ocupavam da Torá, e saíram para o mau caminho.
A propósito de Deyomset, Rabi Chelbo ensina que os prazeres do vinho e do banho afastaram as dez tribos do estudo da Torá e as fizeram perder-se para o povo de Israel.
Rabi Elazar ben Arach chegou lá; deixou-se arrastar atrás deles, e o seu estudo foi arrancado. Quando voltou, levantou-se para ler no livro da Torá; queria ler “Este mês será para vós” (Shemot 12:2), e disse: “Surdo estava o coração deles”. Os Sábios pediram misericórdia por ele, e o seu estudo voltou.
“Lá” — a Prugita e Deyomset.
“Deixou-se arrastar atrás deles” — atrás do vinho e do banho.
“O seu estudo foi arrancado” — o seu estudo foi arrancado, e ele o esqueceu.
“Surdo” — estava o coração deles.
Rabi Elazar ben Arach, atraído pelo vinho e pelos banhos, esqueceu tanto o que sabia que, ao ler o versículo do mês de Nisan, trocou letras semelhantes e leu “hacheresh haya libam”, surdo estava o coração deles, em vez de “hachodesh hazeh lachem”. Pela prece dos Sábios, o seu estudo lhe foi restituído.
E isso é o que aprendemos: Rabi Nehorai diz: exila-te para um lugar de Torá, e não digas que ela virá atrás de ti, pois os teus companheiros a firmarão na tua mão; e não te apoies no teu entendimento (Avot 4:14; Mishlei 3:5). Foi ensinado: Rabi Nehorai não era o seu nome, mas Rabi Nechemya era o seu nome; e há quem diga: Rabi Elazar ben Arach era o seu nome. E por que foi chamado o seu nome Rabi Nehorai? Porque iluminava os olhos dos Sábios na halachá.
“Exila-te para um lugar de Torá” — se és um talmid chacham, não te estabeleças senão no lugar de um talmid chacham, teu companheiro; e não digas: são discípulos, virão a mim, e isso me basta; por que eu me exilaria?
“Pois os teus companheiros a firmarão na tua mão” — que estejas habituado junto a eles; e, quando estudares um tratado e eles outro, tu o ouvirás, e ele estará ordenado na tua boca e não será esquecido de ti.
“E não te apoies no teu entendimento” — dizendo: sou grande sábio e de boa memória, e, quando eu repassar este capítulo ou este tratado, o outro não me será esquecido.
O episódio ilustra o ensinamento de Rabi Nehorai em Pirkei Avot, que termina com as palavras de Mishlei: a Torá se conserva junto aos companheiros, e não se deve confiar só na própria memória. Uma tradição identifica Rabi Nehorai com o próprio Rabi Elazar ben Arach, e o nome Nehorai viria de iluminar, “manhir”, os olhos dos Sábios.
“Mas não se raspa.” Os Sábios ensinaram: não se raspa com um raspador no Shabat. Rabban Shimon ben Gamliel diz: se os seus pés estavam sujos de lama e de excremento, raspa do seu modo habitual e não se preocupa. Para Rav Shmuel bar Yehuda, a sua mãe fez um raspador de prata.
“Raspador” — estrille, e a pessoa se raspa com ele.
“Raspador de prata” — para o Shabat.
O raspador usado no banho é proibido no Shabat por ser ação de dia comum, mas Rabban Shimon ben Gamliel o permite para limpar pés sujos. A mãe de Rav Shmuel bar Yehuda lhe fez um raspador de prata, para que o do Shabat fosse diferente do de todos os dias.
“Não se desce ao Kordima etc.” Qual é a razão? Por causa da lama.
“Por causa da lama” — a lama daquele rio é escorregadia, e as roupas da pessoa ficam encharcadas na água quando cai, e chega a espremer.
Quem entra no rio lamacento pode escorregar e cair, molhando as roupas, e acabar por espremê-las no Shabat.
“E não se fazem vomitórios no Shabat.” Disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: não ensinaram isso senão com uma droga; mas com a mão, é permitido. Foi ensinado numa baraita: Rabi Nechemya diz: mesmo no dia comum é proibido, por causa do desperdício de alimentos.
“Senão com uma droga” — pois se assemelha a remédio, e é decreto por causa da moagem de ervas.
“Mas com a mão” — introduzir a mão na garganta até vomitar, é permitido.
“Por causa do desperdício de alimentos” — que estão nos seus intestinos; e, por causa disso, ele fica faminto e volta a comer.
Provocar o vômito com uma droga é proibido no Shabat, por semelhança com remédio; com a mão, é permitido. Rabi Nechemya proíbe mesmo nos dias comuns, por desperdiçar o alimento já ingerido.
“E não se modela o pequeno.” Disse Rabba bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: enfaixar o bebê no Shabat está bem. Mas nós não aprendemos: “não se modela”? Lá, nas vértebras da coluna, pois parece construir.
“Enfaixar” — onmalotie, em língua estrangeira; como fazem ao pequeno, para que os seus membros se assentem e não fique torto.
“Nas vértebras da coluna” — vértebras da coluna, uma das quais se deslocou; e trata de depois de algum tempo, pois, se for no dia do nascimento, dizemos acima (Shabat 129b): tudo o que é dito na seção de repreensão de Yechezkel (Yechezkel 16:4) se faz à parturiente no Shabat.
Enfaixar o recém-nascido é permitido. A proibição da mishná trata de recolocar vértebras deslocadas da coluna, o que parece o trabalho de construir; Rashi precisa que isso vale depois de algum tempo, pois no dia do nascimento tudo o que o profeta Yechezkel menciona, como lavar, salgar e enfaixar, se faz mesmo no Shabat.
“E não se recoloca a fratura.” Disse Rabi Chana de Bagdá, disse Shmuel:…
A guemará começa a citar um ensinamento de Rabi Chana de Bagdá em nome de Shmuel sobre a fratura, que prossegue em Shabbat 148a.