O daf continua diretamente de 146b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Rav Huna, cujo ensinamento começou no fim de 146b, ensina que quem sacode o manto no Shabat é obrigado a uma oferenda pelo pecado, e a guemará restringe isso às roupas novas e pretas, quando se importa com elas; Ulla estranha os rabinos de Pumbedita que sacudiam os mantos, e Rav Yehuda e Rav Yosef respondem que não se importam. Quem sai com o manto dobrado sobre o ombro, como os mercadores de roupa, ou com moedas atadas no lençol, como o lojista, é culpado, mas os lenços sobre os ombros, como os dos ratanin, são permitidos, mesmo sem o fio que Horkenos, filho de Rabi Eliezer, enrolava no dedo. Rabi Ilai proíbe fazer uma calha nas roupas, os bolsos babilônicos, e Rav Pappa estabelece a regra: dobrar para recolher é proibido, para embelezar-se é permitido; Rav Dimi, Ravin e Rav Shmuel bar Rav Yehuda transmitem versões do episódio de Rabi com os lados do manto sobre o ombro. Abre-se então uma nova mishná, ainda no mesmo capítulo: quem se banha em águas de caverna ou de Tiberíades não leva na mão as toalhas com que se enxugou, mas dez pessoas que usam uma só toalha podem levá-la; unta-se e massageia-se, mas não se exercita nem se raspa, e não se fazem tratamentos como vomitórios, modelar o recém-nascido ou recolocar uma fratura. A guemará começa a explicar que as águas de caverna são quentes e que a mishná só trata do banho depois do fato; o daf termina no meio de uma inferência, que prossegue em Shabbat 147b.
…quem sacode o seu manto no Shabat é obrigado a uma oferenda pelo pecado. E não dissemos isso senão das novas; mas das velhas, não temos problema com isso. E não dissemos senão das pretas; mas das brancas e das vermelhas, não temos problema com isso. E isso, quando se importa com elas.
“Quem sacode o seu manto” — da poeira.
“É obrigado a uma oferenda pelo pecado” — pois isso é o seu alvejamento.
“Senão das pretas” — pois a poeira estraga a sua aparência, e ele se importa com ela.
“E isso, quando se importa com elas” — de vesti-las só depois de sacudi-las.
Rav Huna, cujo ensinamento começou no fim de 146b, considera que sacudir a poeira de um manto equivale a lavá-lo, trabalho proibido no Shabat. A guemará limita a proibição às roupas novas e pretas, nas quais a poeira estraga a aparência, e a quem de fato se importa em não vesti-las empoeiradas.
Ulla chegou a Pumbedita e viu os rabinos que sacudiam os seus mantos. Disse: os rabinos profanam o Shabat! Disse-lhes Rav Yehuda: sacudi-os diante dele; nós não nos importamos com nada.
“Profanam o Shabat” — e eram mantos pretos.
“Não nos importamos” — não nos importa se há poeira sobre ele; por isso, não é alvejamento.
Ulla considerou proibido o gesto dos rabinos de Pumbedita, pois os mantos eram pretos. Rav Yehuda responde que a proibição depende de a pessoa se importar com a poeira, e eles não se importavam; por isso, podiam continuar a sacudi-los até diante de Ulla.
Abaie estava de pé diante de Rav Yosef. Disse-lhe: dá-me o meu chapéu. Viu que havia orvalho sobre ele, e hesitava em dá-lo a ele. Disse-lhe: sacode e joga; nós não nos importamos com nada.
“O meu chapéu” — o meu barrete.
“Hesitava” — da expressão “Não amordaçarás” (Devarim 25:4).
“Em dá-lo a ele” — pois era preciso sacudir o orvalho de cima dele.
Abaie hesitou em entregar o chapéu molhado de orvalho, pois teria de sacudi-lo, o que poderia equivaler a lavá-lo. Rav Yosef aplica o mesmo princípio de Rav Yehuda: quem não se importa com a limpeza da peça pode sacudi-la. Rashi explica o verbo usado para a hesitação a partir da proibição de amordaçar o boi.
Disse Rav Yitzchak bar Yosef, disse Rabi Yochanan: quem sai com um manto dobrado, posto sobre o seu ombro, no Shabat, é obrigado a uma oferenda pelo pecado. Também foi ensinado assim numa baraita: os mercadores de roupa que saem com mantos dobrados e postos sobre os seus ombros no Shabat são obrigados a uma oferenda pelo pecado. E não disseram isso somente dos mercadores de roupa, mas de toda pessoa; só que é o costume dos vendedores sair assim.
“Com um manto dobrado” — depois de pô-lo sobre a cabeça, levantou as suas bordas sobre os ombros.
“É obrigado a uma oferenda pelo pecado” — pois esse não é o modo de vestir.
O manto dobrado e levantado sobre os ombros não é usado como vestimenta, mas carregado; quem sai assim ao domínio público no Shabat transgride a proibição de transportar. A baraita fala dos mercadores de roupa apenas porque é deles o costume de andar assim.
E o lojista que sai com moedas atadas no seu lençol é obrigado a uma oferenda pelo pecado; e não disseram isso somente do lojista, mas de toda pessoa; só que é o costume do lojista sair assim. E os ratanin saem com lenços sobre os seus ombros; e não disseram isso somente dos ratanin, mas de toda pessoa; só que é o costume dos ratanin sair assim.
“E os ratanin” — pelo nome de um lugar.
A baraita prossegue: as moedas atadas na roupa são carga, e quem sai com elas é culpado. Já os lenços pousados sobre os ombros, à maneira dos ratanin, são uma forma de vestir, e qualquer pessoa pode sair com eles. Rashi explica que esse nome lhes vem de um lugar; costuma-se entendê-los como mensageiros a pé.
Disse Rabi Yehuda: houve um fato com Horkenos, filho de Rabi Eliezer ben Horkenos, que saiu com um lenço sobre o seu ombro no Shabat, só que um fio dele estava enrolado no seu dedo. E, quando o assunto chegou diante dos Sábios, disseram: mesmo que não haja fio enrolado no seu dedo. Rav Nachman bar Rav Chisda expôs em nome de Rav Chisda: a halachá é assim, mesmo que não haja fio enrolado nos seus dedos.
“Um fio enrolado no seu dedo” — para que não caia dos seus ombros.
Horkenos prendeu ao dedo um fio do lenço, para que não caísse e ele acabasse por carregá-lo. Os Sábios disseram que isso não é necessário: o lenço sobre os ombros é vestimenta, mesmo sem o fio; e Rav Chisda fixou a halachá nesse sentido.
Ulla chegou à casa de Asi bar Hini. Perguntaram-lhe: o que é fazer uma calha no Shabat? Disse-lhes: assim disse Rabi Ilai: é proibido fazer uma calha no Shabat. O que é calha? Disse Rabi Zeira: bolsos babilônicos.
“Bar Hini.”
“Calha” — explica-se adiante.
“Bolsos babilônicos” — que levantam as suas roupas do chão, quando são compridas, e as dobram para cima, fronces, em língua estrangeira: dobras; e as seguram por meio de fios; e isso é como uma espécie de bolsa, e como uma calha.
A “calha” é uma dobra feita na barra de uma roupa comprida, levantada e presa com fios, formando uma espécie de bolso. Fazê-la no Shabat é proibido, como se explicará: é como consertar um utensílio.
Rabi Yirmeya estava sentado diante de Rabi Zeira. Disse-lhe: assim, o que é? Disse-lhe: proibido. E assim, o que é? Disse-lhe: proibido. Disse Rav Pappa: toma esta regra na tua mão: tudo o que é com a intenção de recolher é proibido; tudo o que é para embelezar-se é permitido; como isto de Rav Shisha, filho de Rav Idi, que se embelezava com o seu lençol.
“É proibido” — por causa de consertar um utensílio.
“Assim, o que é?” — recolhe a sua túnica diante dele de um modo, e lhe pergunta: este é calha ou não? E volta a recolhê-la de outro modo, e lhe pergunta.
“Recolher” — que esteja sempre arrumado, para manter a sua dobra para sempre.
“Para embelezar-se” — por algum tempo.
“Embelezava-se com o seu lençol” — depois de se envolver, arrumava-o sobre o seu corpo e o ajeitava; e fala do dia comum, isto é: vê-se que o costume é assim, e o mesmo vale para o Shabat.
Rabi Yirmeya mostrou a Rabi Zeira diversas maneiras de dobrar a túnica, e todas foram proibidas. Rav Pappa formula a regra: a dobra feita para recolher a roupa de modo permanente é como consertar um utensílio e é proibida; a dobra feita apenas para ajeitar a roupa no corpo, por algum tempo, é permitida, como fazia Rav Shisha, filho de Rav Idi.
Quando veio Rav Dimi, disse: certa vez Rabi saiu ao campo, e os dois lados do seu manto estavam postos sobre o seu ombro. Disse diante dele Yehoshua ben Zeiruz, filho do sogro de Rabi Meir: com isto, Rabi Meir não obrigou a uma oferenda pelo pecado? Disse-lhe: Rabi Meir foi minucioso até aqui? Rabi baixou o seu manto.
“Os dois lados do seu manto” — o que está à sua direita e à sua esquerda, do lado do chão.
“Ben Zeiruz: com isto Rabi Meir não obrigou a uma oferenda pelo pecado?” — com espanto, pois esse não é o modo de vestir, mas o modo de carga.
“Rabi Meir foi minucioso até aqui?” — com espanto: obrigar a uma oferenda pelo pecado por algo que parece ser permitido, como este, que não está dobrado, e a sua parte de trás cai abaixo dos seus ombros, só que os seus lados estavam postos sobre o seu ombro.
“Baixou” — desceu-o para baixo, pois aceitou as suas palavras.
Rabi Yehuda HaNasi andava no campo com as pontas laterais do manto levantadas sobre o ombro. Yehoshua ben Zeiruz lembrou que Rabi Meir considerava isso carga, e não vestimenta. Rabi se surpreendeu com tamanho rigor, mas aceitou a observação e baixou o manto.
Quando veio Ravin, disse: não era Yehoshua ben Zeiruz, mas era Yehoshua ben Kefusai, genro de Rabi Akiva; disse: com isto, Rabi Akiva não obrigou a uma oferenda pelo pecado? Disse-lhe: Rabi Akiva foi minucioso até aqui? Rabi baixou o seu manto. Quando veio Rav Shmuel bar Rav Yehuda, disse: foi dito “foi perguntado”.
“Foi dito ‘foi perguntado’” — este fato não aconteceu com Rabi, mas perguntaram diante dele qual é a lei quanto a sair com ele, e ele quis permitir, até que lhe disseram em nome de Rabi Meir: é obrigado a uma oferenda pelo pecado. Pois ele pensava, já que não está dobrado, pois a sua parte de trás caía abaixo dos seus ombros, só que os seus lados estavam postos sobre os seus ombros, que era modo de vestir.
Ravin transmite outra versão: o interlocutor de Rabi foi Yehoshua ben Kefusai, e a opinião citada foi a de Rabi Akiva. Rav Shmuel bar Rav Yehuda corrige o próprio relato: Rabi não saiu assim; apenas lhe perguntaram se era permitido, e ele quis permitir até ouvir a opinião rigorosa.
MISHNÁ. Quem se banha em águas de caverna ou nas águas de Tiberíades e se enxugou, mesmo com dez toalhas, não as traga na mão. Mas dez pessoas se enxugam com uma só toalha, os seus rostos, as suas mãos e os seus pés, e a trazem nas suas mãos.
“Mishná. Águas de caverna” — águas de um mikvê coberto, que é quente, e o seu calor não sai; e tomou justamente águas quentes, e por isso ensina “quem se banha”, depois do fato.
“E se enxugou” — e se secou.
“Mesmo com dez toalhas” — lençóis com que se secam, e se enxugou com eles um após o outro; e é uma novidade, pois não há muita água em cada um; mesmo assim, não as traga na mão dentro da sua casa, mesmo por meio de eruv, para que não esqueça e as esprema ao chegar.
“Mas dez pessoas” — já que são muitos, lembram uns aos outros.
“Enxugam-se com uma só toalha” — e isso também é uma novidade, pois numa só toalha para dez há muita água; mesmo assim, trazem-na nas mãos.
“Os seus rostos, as suas mãos e os seus pés” — tomou o modo habitual da coisa, e o mesmo vale para todo o corpo.
Abre-se aqui uma nova mishná no meio do Perek Vinte e Dois, Chavit, sem abertura de capítulo: a estrutura de capítulos do Sefaria mantém o perek de 143b:1 a 148a:4. Quem se banhou em águas quentes e se enxugou não pode levar as toalhas na mão, mesmo que cada uma esteja pouco molhada, pois poderia esquecer-se e espremê-las. Dez pessoas que usam uma só toalha, embora ela fique encharcada, podem levá-la, porque uma lembra a outra.
Unta-se e massageia-se, mas não se exercita, e não se raspa. Não se desce ao Kordima, e não se fazem vomitórios, e não se modela o pequeno, e não se recoloca a fratura. Aquele cuja mão ou pé se deslocou não os agite em água fria, mas banha-se do seu modo habitual; e, se se curou, curou-se.
“Unta-se” — com óleo, no Shabat.
“E massageia-se” — com a mão sobre todo o corpo, por prazer.
“Mas não se exercita” — esfregar com força.
“E não se raspa” — lemos: com um raspador, que chamam estrille, pois é uma ação de dia comum.
“Ao Kordima” — nome do rio; e na guemará explica a razão.
“Vomitórios” — para vomitar.
“E não se modela o pequeno” — da expressão “As tuas mãos me modelaram” (Iyov 10:8): que consertam e ajeitam os seus ossos e as vértebras da sua coluna conforme a medida da sua forma; e na guemará diz a razão.
“E não se recoloca a fratura” — um osso que se quebrou. Todo remédio é proibido por causa da moagem de ervas.
“Se deslocou” — aloisier, em língua estrangeira: que o osso saiu da sua articulação.
“Não os agite” — da expressão “ovos batidos numa tigela” (Chulin 64a).
A propósito das águas de Tiberíades, a mishná trata do banho e dos tratamentos no Shabat. Untar-se e passar a mão pelo corpo é permitido; o exercício vigoroso e o uso do raspador não. Tratamentos médicos, como provocar o vômito, modelar o corpo do recém-nascido ou recolocar um osso, são proibidos por um decreto dos Sábios contra a moagem de ervas medicinais. O membro deslocado não pode ser tratado agitando-o em água fria, mas pode ser lavado normalmente, e, se com isso se curar, não há problema.
GUEMARÁ. Ensina as águas de caverna semelhantes às águas de Tiberíades: assim como as águas de Tiberíades são quentes, também as águas de caverna são quentes. “Quem se banha”: depois do fato, sim; de início, não. Por inferência…
A guemará deduz que as águas de caverna da mishná são quentes como as de Tiberíades, e que a mishná, ao dizer “quem se banha”, trata do que já foi feito, não o permitindo de início. O daf termina no meio da inferência, que prossegue em 147b.