Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Dois (Chavit)
נוֹתְנִין תַּבְשִׁיל לְתוֹךְ הַבּוֹר

O galinheiro e o furo velho; o canudo, o azeite, a folha de murta e os panos de feltro; nova mishná: o cozido no poço e as roupas caídas na água

Shabbat 146b · Perek Vinte e Dois (Chavit, Shabbat 143b:1-148a:4) · a guemará prossegue em 147a

O daf continua diretamente de 146a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Rabba conclui que ninguém alarga o furo de um galinheiro por causa dos répteis, e a opinião de “há quem diga”, que proíbe alargar, é aceita como halachá por Rav Nachman em nome de Rabi Yochanan. Shmuel restringe a permissão de reabrir um furo velho ao furo tapado para guardar o aroma do vinho, e Rav Chisda e Rava divergem sobre o que é tapar para reforçar; Abaie apoia Rava com a baraita da casa tapada e dos batentes derrubados. Rav e Shmuel divergem sobre o canudo cortado e ainda não ajustado ao furo, divergência que corresponde à de Rabi Yoshiya e do primeiro tana, e a halachá segue Rabi Yoshiya; divergem também sobre o azeite espalhado sobre o furo e sobre os panos de feltro, e a posição de Rav sobre o feltro se revela inferida de um gesto de respeito a Rav Kahana e Rav Asi; Rav Yeimar e Rav Ashi explicam a proibição da folha de murta. Abre-se então uma nova mishná, ainda no mesmo capítulo: põe-se o cozido num poço, esfria-se a água boa na ruim, aquece-se a fria ao sol, e quem teve as roupas caídas na água no caminho anda com elas e as estende ao sol, mas não diante do povo. A guemará explica por que não se decreta por causa dos buracos do poço nem das cinzas quentes, e confronta a mishná com o princípio de Rav sobre a aparência aos olhos, como disputa de tanaim; o daf termina no início de um ensinamento de Rav Huna, que prossegue em Shabbat 147a.

Fim da explicação de Rabba: o galinheiro e a halachá; o furo velho para guardar e para reforçar · נֶקֶב יָשָׁן

1514Por causa dos répteis; “há quem diga”: às vezes não o preparou desde o início; a halachá segundo “há quem diga”
Rabba; Rav Nachman em nome de Rabi Yochanan
מִשּׁוּם רִיחְשָׁא. וְיֵשׁ אוֹמְרִים אֵין מוֹסִיפִים — זִימְנִין דְּלָא תַּקְּנֵיהּ מֵעִיקָּרָא, וְאָתֵי לְאַרְווֹחֵי בֵּיהּ. דָּרֵשׁ רַב נַחְמָן מִשּׁוּם רַבִּי יוֹחָנָן הֲלָכָה כְּיֵשׁ אוֹמְרִים.

…por causa dos répteis. E “há quem diga: não se acrescenta”: às vezes não o preparou direito desde o início, e vem a alargá-lo. Rav Nachman expôs em nome de Rabi Yochanan: a halachá é como “há quem diga”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishum richsha” e “zimnin dela takneih me’ikara”
משום ריחשא - שלא יכנס בו שרץ כגון נמייה וחולדה שממיתים את התרנגולים: זימנין דלא תקניה מעיקרא - שיהא כדי להוציא הבל ולהכניס את האויר:

“Por causa dos répteis” — para que não entre por ele um animal rastejante, como o mangusto e a doninha, que matam as galinhas.

“Às vezes não o preparou desde o início” — de modo que seja suficiente para fazer sair o bafo e entrar o ar.

Nota

Rabba conclui a explicação iniciada no fim de 146a: ninguém alarga o furo de um galinheiro, pois teme que entrem por ele animais que matam as galinhas; por isso os Sábios não estenderam o decreto a quem alarga um furo existente. Para a opinião de “há quem diga”, porém, às vezes o furo do galinheiro não foi feito do tamanho suficiente desde o início, e então se chega a alargá-lo; por isso também alargar seria proibido. Rav Nachman, em nome de Rabi Yochanan, decide a halachá conforme essa opinião mais rigorosa.

1515Shmuel: o furo velho só é permitido onde a obstrução é para guardar; acima do vinho, abaixo do vinho e abaixo da borra
Rav Yehuda em nome de Shmuel; Rav Chisda; Rava
וְשָׁוִין שֶׁנּוֹקְבִין נֶקֶב יָשָׁן לְכַתְּחִלָּה. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא בִּמְקוֹם הֶעָשׂוּי לְשַׁמֵּר, אֲבָל לְחַזֵּק — אָסוּר. הֵיכִי דָּמֵי לְשַׁמֵּר, הֵיכִי דָּמֵי לְחַזֵּק? אָמַר רַב חִסְדָּא: לְמַעְלָה מִן הַיַּיִן — זֶהוּ לְשַׁמֵּר, לְמַטָּה מִן הַיַּיִן — זֶהוּ לְחַזֵּק. רָבָא אָמַר: לְמַטָּה מִן הַיַּיִן נָמֵי זֶהוּ לְשַׁמֵּר. וְהֵיכִי דָּמֵי לְחַזֵּק — כְּגוֹן שֶׁנִּיקְּבָה לְמַטָּה מִן הַשְּׁמָרִים.

A baraita ensinou: “E concordam que se perfura um furo velho de início.” Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: não ensinaram senão num lugar em que a obstrução é feita para guardar; mas, para reforçar, é proibido. Como é para guardar, e como é para reforçar? Disse Rav Chisda: acima do vinho, isso é para guardar; abaixo do vinho, isso é para reforçar. Rava disse: abaixo do vinho também, isso é para guardar; e como é para reforçar? Por exemplo, quando foi perfurado abaixo da borra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo shanu”, “ela bimkom”, “lechazek”, “lemata min hayayin nami leshamer” e “lemata min hashemarim”
לא שנו - דנוקבין: אלא במקום - דסתימה זו לא נעשית אלא לשמור ריח היין שלא יצא ויתקלקל וכיון דלאו סתימה מעליותא עבדי לה לאו כלום הוא: לחזק - שיחזק הכלי שלא יצא יינו הואיל וסתימה מעלייתא היא כי הדר נקיב לה הוי כפותח לכתחלה: למטה מן היין נמי לשמר הוא - כיון דלאו כובד היין נשען עליו סגי ליה בסתימה כל דהו: למטה מן השמרים - אצל שוליו שכל כובד היין נשען שם:

“Não ensinaram” — que se perfura.

“Senão num lugar” — em que esta obstrução não foi feita senão para guardar o aroma do vinho, para que não saia e o vinho se estrague; e, já que não a fazem como obstrução de verdade, não é nada.

“Para reforçar” — que reforce o recipiente, para que o seu vinho não saia; já que é uma obstrução de verdade, quando volta a perfurá-la, é como quem abre de início.

“Abaixo do vinho também é para guardar” — já que o peso do vinho não se apoia sobre ele, basta-lhe uma obstrução qualquer.

“Abaixo da borra” — junto ao seu fundo, onde se apoia todo o peso do vinho.

Nota

Reabrir um furo velho só é permitido quando ele foi tapado de modo provisório, apenas para conservar o aroma do vinho; se a obstrução foi feita para vedar de fato o recipiente, reabri-la equivale a abrir um furo novo. Para Rav Chisda, um furo abaixo do nível do vinho já foi tapado para reforçar; para Rava, só o furo junto ao fundo, abaixo da borra, onde pesa todo o vinho, recebe uma obstrução de verdade.

1516Abaie apoia Rava: a casa tapada e os batentes derrubados; os quatro côvados e a impureza
Abaie e Rava; Baraita
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרָבָא, תַּנְיָא דִּמְסַיַּיע לָךְ: בַּיִת סָתוּם — יֵשׁ לוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת, פָּרַץ אֶת פַּצִּימָיו — אֵין לוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת. בַּיִת סָתוּם — אֵינוֹ מְטַמֵּא כׇּל סְבִיבָיו, פָּרַץ אֶת פַּצִּימָיו — מְטַמֵּא כׇּל סְבִיבָיו.

Disse-lhe Abaie a Rava: foi ensinado numa baraita o que te apoia: uma casa tapada tem quatro côvados; se derrubou os seus batentes, não tem quatro côvados. Uma casa tapada não torna impuro todo o seu redor; se derrubou os seus batentes, torna impuro todo o seu redor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tanya demesaye’a lach”, “bayit satum yesh lo arba amot”, “bayit satum” e “paratz patzimav”
תניא דמסייע לך - דלא פקע שם פתח מיניה אלא בסתימה מעלייתא: בית סתום יש לו ד"א - קיי"ל בבבא בתרא חצר מתחלקת לפי פתחיה לפי פתח הבתים הפתוחין לה אם באו לחלק את החצר בין שנים שהיה לזה בית שפתוחין לו לחצר שני פתחים ולזה בית שפתוחין לו לחצר ד' פתחים נוטל לכל פתח ארבע אמות בחצר נגד פתחו למדת רוחב פתחו והשאר חולקין בשוה ואם נסתם אחד מהם קודם חלוקת החצר ולא פירץ את פצימיו אלא סתם בין שני הפצימין אינו מפסיד [דין] פתחו בכך פירץ את פצימיו ואח"כ סתמו פקע שם פתח מיניה: בית סתום - והמת בתוכו אינו מטמא סביביו: פרץ פצימיו - וסתמו נעשה קבר ומטמא סביביו ד"א כדאמר בסוטה (ד' מד.) מת תופס ד"א לטומאה וגזרה דרבנן שמא יאהיל ולא יבין:

“Foi ensinado o que te apoia” — que o nome de abertura não se retira dele senão com uma obstrução de verdade.

“Uma casa tapada tem quatro côvados” — estabelecemos em Bava Batra: o pátio se divide conforme as suas aberturas, conforme as aberturas das casas abertas para ele. Se vieram dividir o pátio entre dois, em que este tinha uma casa com duas aberturas para o pátio, e aquele uma casa com quatro aberturas para o pátio, toma-se, para cada abertura, quatro côvados no pátio diante da sua abertura, na medida da largura da sua abertura, e o restante dividem igualmente. E, se uma delas foi tapada antes da divisão do pátio, e não derrubou os seus batentes, mas tapou entre os dois batentes, não perde com isso o direito da sua abertura; se derrubou os seus batentes e depois a tapou, o nome de abertura se retira dela.

“Uma casa tapada” — e o morto está dentro dela: não torna impuro o seu redor.

“Derrubou os seus batentes” — e a tapou: tornou-se um túmulo e torna impuro o seu redor por quatro côvados, como se diz em Sotá (44a): um morto ocupa quatro côvados para a impureza; e é decreto dos Sábios, para que não faça sombra sobre ele sem perceber.

Nota

Abaie traz uma baraita que confirma a posição de Rava: uma abertura só perde o seu nome quando é eliminada de verdade. A casa cuja porta foi tapada continua a ter direito aos quatro côvados do pátio diante da porta, e, se há um morto dentro, a impureza não se espalha ao redor; só quando se derrubam os batentes a porta deixa de existir, e então a casa perde esse direito e passa a ser tratada como túmulo.

O canudo no furo do barril; Rav, Shmuel e Rabi Yoshiya · גּוּבְתָּא

1517O canudo: Rav proíbe e Shmuel permite; cortar, recolocar e o caso do cortado e não ajustado
Rav e Shmuel
גּוּבְתָּא, רַב אָסַר וּשְׁמוּאֵל שָׁרֵי. מְחַתֵּךְ לְכַתְּחִלָּה — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דַּאֲסִיר. אַהְדּוֹרֵי — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּשְׁרֵי. כִּי פְּלִיגִי דַּחֲתִיכָה וְלָא מְתַקְּנָא: מַאן דְּאָסַר גָּזְרִינַן דִּילְמָא אָתֵי לְמִיחְתַּךְ לְכַתְּחִלָּה, וּמַאן דְּשָׁרֵי לָא גָּזְרִינַן.

Quanto a um canudo, Rav proibiu e Shmuel permitiu. Cortar de início, ninguém diverge de que é proibido; recolocar, ninguém diverge de que é permitido. Quando divergem, é no caso em que foi cortado e não ajustado: quem proíbe sustenta que decretamos, talvez venha a cortar de início; e quem permite sustenta que não decretamos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “guvta”, “mechatech”, “ahdurei” e “vela metakna”
גובתא - לתקוע קנה חלול בנקב החבית שיצא היין דרך הקנה: מחתך - רונגיי"ר לתקנה למדת הנקב: אהדורי - אם נפלה: ולא מתקנא - לא ניתנה בנקב לידע אם למדתו היא:

“Canudo” — fincar um caniço oco no furo do barril, para que o vinho saia pelo caniço.

“Cortar” — rongier, em língua estrangeira: ajustá-lo à medida do furo.

“Recolocar” — se caiu.

“E não ajustado” — não foi posto no furo, para saber se está na sua medida.

Nota

Inserir um caniço oco no furo do barril para tirar o vinho envolve cortá-lo na medida do furo, o que equivale a fazer um utensílio e é proibido por todos; recolocar um caniço já usado que caiu é permitido por todos. Rav e Shmuel divergem quanto ao caniço já cortado, mas ainda não experimentado no furo: Rav teme que se venha a cortá-lo no Shabat, e Shmuel não decreta.

1518Como os tanaim: o tubo no Yom Tov e no Shabat; Rabi Yoshiya é leniente
Baraita; Rabi Yoshiya
כְּתַנָּאֵי: אֵין חוֹתְכִין שְׁפוֹפֶרֶת בְּיוֹם טוֹב, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר בְּשַׁבָּת. נָפְלָה — (אֵין) מַחֲזִירִין אוֹתָהּ בְּשַׁבָּת, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר בְּיוֹם טוֹב. וְרַבִּי יֹאשִׁיָּה מֵיקֵל.

Como os tanaim: não se corta um tubo no Yom Tov, e não é preciso dizer no Shabat. Se caiu, recoloca-se no Shabat, e não é preciso dizer no Yom Tov. E Rabi Yoshiya é leniente.

Nota

A divergência de Rav e Shmuel corresponde a uma divergência de tanaim. O texto impresso traz entre parênteses a palavra “não” antes de “recoloca-se”, marcada para ser apagada; a sequência mostra que recolocar o tubo caído é permitido, pois a guemará a seguir diz que o primeiro tana também o permite.

1519Sobre o que Rabi Yoshiya é leniente? O cortado e não ajustado; a halachá segundo Rabi Yoshiya
Rav Shisha, filho de Rav Idi, em nome de Rabi Yochanan
רַבִּי יֹאשִׁיָּה אַהֵיָיא? אִילֵּימָא אַרֵישָׁא — הָא קָמְתַקֵּן מָנָא? אֶלָּא אַסֵּיפָא — תַּנָּא קַמָּא נָמֵי מִישְׁרֵא קָשָׁרֵי? אֶלָּא דַּחֲתִיכָה וְלָא מְתַקְּנָא אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ, מָר סָבַר: גָּזְרִינַן. וּמָר סָבַר: לָא גָּזְרִינַן. דָּרַשׁ רַב שִׁישָׁא בְּרֵיהּ דְּרַב אִידֵּי מִשְּׁמֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כְּרַבִּי יֹאשִׁיָּה.

Rabi Yoshiya, sobre qual parte? Se dizes que sobre o início, eis que prepara um utensílio? Antes, sobre o final: o primeiro tana também certamente permite? Antes, o caso em que foi cortado e não ajustado há entre eles: um mestre sustenta: decretamos; e um mestre sustenta: não decretamos. Rav Shisha, filho de Rav Idi, expôs em nome de Rabi Yochanan: a halachá é como Rabi Yoshiya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “i lema areisha”
אי לימא ארישא - לחותכה ולשפותה:

“Se dizes que sobre o início” — cortá-lo e aplainá-lo.

Nota

A leniência de Rabi Yoshiya não pode referir-se a cortar o tubo, que é fazer um utensílio, nem a recolocá-lo, que o primeiro tana já permite; refere-se, portanto, ao tubo já cortado e ainda não ajustado ao furo, o mesmo caso em que divergem Rav e Shmuel. Rabi Yochanan decide conforme Rabi Yoshiya, a opinião permissiva.

O azeite sobre o furo, a folha de murta e os panos de feltro · מִישְׁחָא

1520O azeite sobre o furo: Rav proíbe e Shmuel permite; Rav Shmuel bar bar Chana cita Rav explicitamente
Rav e Shmuel; Rav Shmuel bar bar Chana e Rav Yosef
וְאִם הָיְתָה נְקוּבָה וְכוּ׳. מִישְׁחָא — רַב אָסַר, וּשְׁמוּאֵל שָׁרֵי. מַאן דְּאָסַר — גָּזְרִינַן מִשּׁוּם שַׁעֲוָה. וּמַאן דְּשָׁרֵי — לָא גָּזְרִינַן. אֲמַר לֵיהּ רַב שְׁמוּאֵל בַּר בַּר חָנָה לְרַב יוֹסֵף: בְּפֵירוּשׁ אֲמַרְתְּ לַן מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב — מִישְׁחָא שְׁרֵי!

A mishná ensinou: “E, se estava perfurada” etc. Azeite: Rav proibiu e Shmuel permitiu. Quem proíbe sustenta: decretamos por causa da cera; e quem permite sustenta: não decretamos. Disse Rav Shmuel bar bar Chana a Rav Yosef: explicitamente nos disseste em nome de Rav: azeite é permitido!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mishcha” e “asur”
משחא - שמן עב: אסור - למרחו:

“Azeite” — óleo espesso.

“É proibido” — espalhá-lo.

Nota

A mishná proíbe tapar com cera um furo do barril, por ser alisamento. Rav e Shmuel divergem quanto a espalhar sobre o furo um óleo espesso, que não se alisa como a cera: quem proíbe teme que se chegue a usar cera. Rav Shmuel bar bar Chana lembra a Rav Yosef que ele próprio lhes havia transmitido, explicitamente em nome de Rav, que o azeite é permitido.

1521A folha de murta no furo do barril: decreto por causa da calha ou para que não corte
Tavut, o caçador, em nome de Shmuel; Rav Yeimar de Difti; Rav Ashi
אָמַר טָבוּת רִישְׁבָּא אָמַר שְׁמוּאֵל: הַאי טִרְפָא דְאַסָּא — אָסוּר. מַאי טַעְמָא? רַב יֵימַר מִדִּפְתִּי אָמַר: גְּזֵירָה מִשּׁוּם מַרְזֵב. רַב אָשֵׁי אָמַר: גְּזֵירָה שֶׁמָּא יִקְטוֹם. מַאי בֵּינַיְיהוּ? אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ דִּקְטִים וּמַנַּח.

Disse Tavut, o caçador, disse Shmuel: esta folha de murta é proibida. Qual é a razão? Rav Yeimar de Difti disse: decreto por causa da calha. Rav Ashi disse: decreto, para que não corte. O que há entre eles? Há entre eles o caso em que estava cortada e posta.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tarpa de’asa”, “gezeira mishum marzev” e “shema yiktom”
טרפא דאסא - לתת עלה של הדס בנקב החבית שהעלה עשוי כמרזב והיין זב דרך שם: גזירה משום מרזב - שמא יכין מרזב: שמא יקטום - העלה מן הענף וכיון דקטמיה הוה ליה כמתקן כלי כדתניא במסכת ביצה (דף לג:) לחצות בו שיניו לא יקטמנו ואם קטמו חייב חטאת:

“Folha de murta” — pôr uma folha de murta no furo do barril, pois a folha é feita como uma calha, e o vinho escorre por ali.

“Decreto por causa da calha” — para que não prepare uma calha.

“Para que não corte” — a folha do ramo; e, já que a cortou, é como quem prepara um utensílio, como foi ensinado no tratado Beitzá (33b): para palitar com ele os dentes, não o corte; e, se o cortou, é obrigado a uma oferenda pelo pecado.

Nota

Pôr uma folha de murta no furo do barril, para que o vinho escorra por ela como por uma calha, é proibido. Para Rav Yeimar, o receio é que se venha a fazer uma calha de verdade; para Rav Ashi, que se venha a destacar a folha do ramo, o que equivale a preparar um utensílio. A diferença prática é a folha já destacada e posta de lado antes do Shabat: Rav Ashi a permite, Rav Yeimar não.

1522Os panos de feltro: macios, duros e intermediários; parece uma carga?
Rav e Shmuel
בֵּי סַדְיָא, רַב אָסַר וּשְׁמוּאֵל שָׁרֵי. בְּרַכִּין — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּשְׁרֵי. בְּקָשִׁין — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דַּאֲסִיר. כִּי פְּלִיגִי — בְּמִיצְעֵי: מַאן דְּאָסַר — מִיחְזֵי כְּמַשּׂוֹי, וּמַאן דְּשָׁרֵי לָא מִיחְזֵי כְּמַשּׂוֹי.

Panos de feltro: Rav proibiu e Shmuel permitiu. Nos macios, ninguém diverge de que é permitido; nos duros, ninguém diverge de que é proibido. Quando divergem, é nos intermediários: quem proíbe sustenta que parece uma carga; e quem permite, que não parece uma carga.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bei sadya”, “Rav asar”, “berakin” e “dishrei”
בי סדיא - לבדין שקורין פלטר"ש ועשויין לקפלן תחתיו במקום הכר או הכסת: רב אסר - להביאו דרך מלבוש דרך רשות הרבים כשהוא מעוטף בו: ברכין - שדרכן להתחמם בהן: דשרו - דמלבוש הן:

“Panos de feltro” — feltros, que chamam feltres, e são feitos para dobrá-los debaixo de si em lugar da almofada ou do travesseiro.

“Rav proibiu” — trazê-lo à maneira de vestimenta através do domínio público, envolto nele.

“Nos macios” — com os quais se costuma aquecer-se.

“Que é permitido” — pois são vestimenta.

Nota

Os panos de feltro servem de assento, mas também podem ser vestidos. Levá-los pelo domínio público envolto neles é permitido quando são macios, pois são vestimenta, e proibido quando são duros. Nos de dureza intermediária, Rav entende que quem os veste parece carregar uma carga, e Shmuel entende que não.

1523A posição de Rav foi inferida de um fato: por respeito a Rav Kahana e Rav Asi
Rav; Rav Kahana e Rav Asi
וְהָא דְּרַב, לָאו בְּפֵירוּשׁ אִיתְּמַר אֶלָּא מִכְּלָלָא אִיתְּמַר. דְּרַב אִיקְּלַע לְהָהוּא אַתְרָא דְּלָא הֲוָה לֵיהּ רַוְוחָא, נְפַק יְתֵיב בְּכַרְמְלִית. אַיְיתוֹ לֵיהּ בֵּי סַדְיָא, לָא יְתֵיב. מַאן דַּחֲזָא סָבַר מִשּׁוּם דְּבֵי סַדְיָא אֲסִיר, וְלָא הִיא, דְּרַב אַכְרוֹזֵי מַכְרִיז: בֵּי סַדְיָא שְׁרֵי, וּמִשּׁוּם כְּבוֹד רַבּוֹתֵינוּ לֹא יָשַׁב עָלָיו. וּמַאן נִינְהוּ — רַב כָּהֲנָא וְרַב אַסִּי.

E isto de Rav não foi dito explicitamente, mas foi dito por inferência. Pois Rav chegou a certo lugar em que não tinha espaço; saiu e sentou-se numa karmelit. Trouxeram-lhe panos de feltro, e não se sentou. Quem viu pensou que era porque os panos de feltro são proibidos; e não é assim, pois Rav proclamava: panos de feltro são permitidos; e por respeito aos nossos mestres não se sentou sobre ele. E quem são eles? Rav Kahana e Rav Asi.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vela hava leih revcha”, “umishum kevod raboteinu” e “Rav Kahana veRav Asi”
ולא הוה ליה רווחא - בבית למקום מושבם של תלמידים: ומשום כבוד רבותינו - שלא היה להן דבר לישב עליו ויושבין על גבי קרקע: רב כהנא ורב אסי - תלמידי חברים היו לו:

“E não tinha espaço” — na casa, para o lugar de assento dos discípulos.

“E por respeito aos nossos mestres” — que não tinham algo sobre o que sentar, e sentavam-se no chão.

“Rav Kahana e Rav Asi” — eram para ele discípulos-colegas.

Nota

A proibição atribuída a Rav não foi dita por ele, mas deduzida de um episódio: Rav recusou sentar-se nos panos de feltro que lhe trouxeram numa karmelit, e quem viu concluiu que ele os considerava proibidos. Na verdade, Rav proclamava publicamente que são permitidos; recusou apenas para não se sentar mais alto que Rav Kahana e Rav Asi, que estavam sentados no chão.

Nova Mishná: o cozido no poço, a água ao sol e as roupas caídas na água · נוֹתְנִין תַּבְשִׁיל

1524Mishná: o cozido no poço; a água boa na ruim; a fria ao sol; as roupas caídas na água e o pátio exterior
Mishná
מַתְנִי׳ נוֹתְנִין תַּבְשִׁיל לְתוֹךְ הַבּוֹר בִּשְׁבִיל שֶׁיְּהֵא שָׁמוּר, וְאֶת הַמַּיִם הַיָּפִים בָּרָעִים, בִּשְׁבִיל שֶׁיִּצָּנוּ. וְאֶת הַצּוֹנֵן בַּחַמָּה בִּשְׁבִיל שֶׁיֵּחַמּוּ. מִי שֶׁנָּשְׁרוּ כֵּלָיו בַּדֶּרֶךְ בַּמַּיִם — מְהַלֵּךְ בָּהֶן וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ. הִגִּיעַ לֶחָצֵר הַחִיצוֹנָה — שׁוֹטְחָן בַּחַמָּה, אֲבָל לֹא כְּנֶגֶד הָעָם.

MISHNÁ. Põe-se um cozido dentro do poço, para que seja guardado; e a água boa na ruim, para que esfrie; e a fria ao sol, para que se aqueça. Aquele cujas roupas caíram na água, no caminho, anda com elas e não se preocupa. Chegou ao pátio exterior, estende-as ao sol, mas não diante do povo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin letoch habor”, “sheyehe shamur”, “ve’et hamayim hayafim bara’im”, “mi shenashru”, “lechatzer hachitzona”, “shotchan bachama” e “aval lo keneged ha’am”
מתני' לתוך הבור - שאין בו מים: שיהא שמור - שלא יסריח מחמת החום: ואת המים היפים ברעים - כלי מלא מים יפים לתוך מקוה מים רעים להשתמר שיצונו ולא יחמו: מי שנשרו - שנפלו למים בשבת: לחצר החיצונה - הסמוכה למבוא העיר בתוך העיר שהוא מקום משתמר: שוטחן בחמה - ליבשן: אבל לא כנגד העם - שיחשדוהו שכבסן:

“Mishná. Dentro do poço” — que não tem água.

“Para que seja guardado” — para que não se estrague por causa do calor.

“E a água boa na ruim” — um recipiente cheio de água boa dentro de um reservatório de água ruim, para que se conserve, para que esfrie e não se aqueça.

“Aquele cujas roupas caíram” — que caíram na água no Shabat.

“Ao pátio exterior” — o que é próximo à entrada da cidade, dentro da cidade, que é um lugar guardado.

“Estende-as ao sol” — para secá-las.

“Mas não diante do povo” — pois suspeitariam dele que as lavou.

Nota

Abre-se aqui uma nova mishná no meio do Perek Vinte e Dois, Chavit, sem abertura de capítulo: a estrutura de capítulos do Sefaria mantém o perek de 143b:1 a 148a:4. A mishná permite proteger um cozido do calor num poço seco, esfriar água boa mergulhando o recipiente em água ruim e aquecer água fria ao sol. Quem teve as roupas molhadas no caminho pode continuar vestido com elas, sem receio de torcê-las ou lavá-las; ao chegar a um lugar guardado, pode estendê-las ao sol, mas não à vista do público, que suspeitaria que as lavou no Shabat.

Guemará: nivelar buracos, as cinzas quentes e a aparência aos olhos · מַרְאִית הָעַיִן

1525É óbvio! Não se decreta por causa de nivelar buracos
Guemará
גְּמָ׳ פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְתֵימָא: נִיגְזַר מִשּׁוּם אַשְׁווֹיֵי גוּמּוֹת, קָא מַשְׁמַע לַן.

GUEMARÁ. É óbvio! Poderias dizer: decretemos por causa de nivelar buracos; ensina-nos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gemara peshita” e “gumot”
גמ' פשיטא - דנותנין תבשיל לתוך הבור: גומות - שבקרקע הבור שיהו שוין להושיב הקדרה:

“Guemará. É óbvio” — que se põe um cozido dentro do poço.

“Buracos” — que estão no chão do poço, para que fiquem nivelados para assentar a panela.

Nota

Pôr o cozido no poço parece obviamente permitido. A mishná precisou ensiná-lo porque se poderia temer que, ao assentar a panela, se nivelassem os buracos do chão do poço, o que é trabalho proibido; ela ensina que não há decreto por isso.

1526A água boa na ruim e a fria ao sol: não se decreta por causa das cinzas quentes
Guemará
וְאֶת הַמַּיִם הַיָּפִים בָּרָעִים. פְּשִׁיטָא! סֵיפָא אִיצְטְרִיכָא לֵיהּ. וְאֶת הַצּוֹנֵן בַּחַמָּה, הָא נָמֵי פְּשִׁיטָא! מַהוּ דְתֵימָא: נִיגְזוֹר דִּילְמָא אָתֵי לְאַטְמוֹנֵי בְּרֶמֶץ, קָא מַשְׁמַע לַן.

A mishná ensinou: “E a água boa na ruim.” É óbvio! A cláusula final lhe foi necessária. “E a fria ao sol”: isto também é óbvio! Poderias dizer: decretemos, talvez venha a enterrá-la em cinzas quentes; ensina-nos.

Nota

Esfriar a água boa na ruim é evidente, e foi mencionado apenas por causa da cláusula seguinte. Também aquecer água ao sol poderia parecer óbvio, mas era preciso ensiná-lo, pois se poderia decretar que, por semelhança, alguém viesse a enterrá-la em cinzas quentes.

1527Rav: o que se proibiu pela aparência é proibido até nos aposentos mais recônditos; disputa de tanaim
Rav Yehuda em nome de Rav; Baraita
מִי שֶׁנָּשְׁרוּ וְכוּ׳. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: מִכׇּל מָקוֹם שֶׁאָסְרוּ חֲכָמִים מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן — אֲפִילּוּ בְּחַדְרֵי חֲדָרִים אָסוּר. תְּנַן: שׁוֹטְחָן בַּחַמָּה אֲבָל לֹא כְּנֶגֶד הָעָם! תַּנָּאֵי הִיא, דְּתַנְיָא: שׁוֹטְחָן בַּחַמָּה אֲבָל לֹא כְּנֶגֶד הָעָם. רַבִּי אֶלְעָזָר וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסְרִין.

A mishná ensinou: “Aquele cujas roupas caíram” etc. Disse Rav Yehuda, disse Rav: em todo lugar em que os Sábios proibiram por causa da aparência aos olhos, mesmo nos aposentos mais recônditos é proibido. Aprendemos: “Estende-as ao sol, mas não diante do povo”! É disputa de tanaim, pois foi ensinado numa baraita: estende-as ao sol, mas não diante do povo; Rabi Elazar e Rabi Shimon proíbem.

Nota

Para Rav, o que os Sábios proibiram por causa da aparência de transgressão continua proibido mesmo onde ninguém vê. A mishná, que permite estender as roupas longe do povo, parece contradizê-lo; a guemará responde que o tema é uma disputa de tanaim, e Rav segue Rabi Elazar e Rabi Shimon, que proíbem estendê-las mesmo assim.

1528Disse Rav Huna…
Rav Huna
אָמַר רַב הוּנָא:

Disse Rav Huna…

Nota

A guemará começa a citar um ensinamento de Rav Huna, que prossegue em Shabbat 147a.

O daf termina aqui, no início de um ensinamento de Rav Huna: “Disse Rav Huna…”. A discussão prossegue em Shabbat 147a.