O daf continua diretamente de 146a, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Rabba conclui que ninguém alarga o furo de um galinheiro por causa dos répteis, e a opinião de “há quem diga”, que proíbe alargar, é aceita como halachá por Rav Nachman em nome de Rabi Yochanan. Shmuel restringe a permissão de reabrir um furo velho ao furo tapado para guardar o aroma do vinho, e Rav Chisda e Rava divergem sobre o que é tapar para reforçar; Abaie apoia Rava com a baraita da casa tapada e dos batentes derrubados. Rav e Shmuel divergem sobre o canudo cortado e ainda não ajustado ao furo, divergência que corresponde à de Rabi Yoshiya e do primeiro tana, e a halachá segue Rabi Yoshiya; divergem também sobre o azeite espalhado sobre o furo e sobre os panos de feltro, e a posição de Rav sobre o feltro se revela inferida de um gesto de respeito a Rav Kahana e Rav Asi; Rav Yeimar e Rav Ashi explicam a proibição da folha de murta. Abre-se então uma nova mishná, ainda no mesmo capítulo: põe-se o cozido num poço, esfria-se a água boa na ruim, aquece-se a fria ao sol, e quem teve as roupas caídas na água no caminho anda com elas e as estende ao sol, mas não diante do povo. A guemará explica por que não se decreta por causa dos buracos do poço nem das cinzas quentes, e confronta a mishná com o princípio de Rav sobre a aparência aos olhos, como disputa de tanaim; o daf termina no início de um ensinamento de Rav Huna, que prossegue em Shabbat 147a.
…por causa dos répteis. E “há quem diga: não se acrescenta”: às vezes não o preparou direito desde o início, e vem a alargá-lo. Rav Nachman expôs em nome de Rabi Yochanan: a halachá é como “há quem diga”.
“Por causa dos répteis” — para que não entre por ele um animal rastejante, como o mangusto e a doninha, que matam as galinhas.
“Às vezes não o preparou desde o início” — de modo que seja suficiente para fazer sair o bafo e entrar o ar.
Rabba conclui a explicação iniciada no fim de 146a: ninguém alarga o furo de um galinheiro, pois teme que entrem por ele animais que matam as galinhas; por isso os Sábios não estenderam o decreto a quem alarga um furo existente. Para a opinião de “há quem diga”, porém, às vezes o furo do galinheiro não foi feito do tamanho suficiente desde o início, e então se chega a alargá-lo; por isso também alargar seria proibido. Rav Nachman, em nome de Rabi Yochanan, decide a halachá conforme essa opinião mais rigorosa.
A baraita ensinou: “E concordam que se perfura um furo velho de início.” Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: não ensinaram senão num lugar em que a obstrução é feita para guardar; mas, para reforçar, é proibido. Como é para guardar, e como é para reforçar? Disse Rav Chisda: acima do vinho, isso é para guardar; abaixo do vinho, isso é para reforçar. Rava disse: abaixo do vinho também, isso é para guardar; e como é para reforçar? Por exemplo, quando foi perfurado abaixo da borra.
“Não ensinaram” — que se perfura.
“Senão num lugar” — em que esta obstrução não foi feita senão para guardar o aroma do vinho, para que não saia e o vinho se estrague; e, já que não a fazem como obstrução de verdade, não é nada.
“Para reforçar” — que reforce o recipiente, para que o seu vinho não saia; já que é uma obstrução de verdade, quando volta a perfurá-la, é como quem abre de início.
“Abaixo do vinho também é para guardar” — já que o peso do vinho não se apoia sobre ele, basta-lhe uma obstrução qualquer.
“Abaixo da borra” — junto ao seu fundo, onde se apoia todo o peso do vinho.
Reabrir um furo velho só é permitido quando ele foi tapado de modo provisório, apenas para conservar o aroma do vinho; se a obstrução foi feita para vedar de fato o recipiente, reabri-la equivale a abrir um furo novo. Para Rav Chisda, um furo abaixo do nível do vinho já foi tapado para reforçar; para Rava, só o furo junto ao fundo, abaixo da borra, onde pesa todo o vinho, recebe uma obstrução de verdade.
Disse-lhe Abaie a Rava: foi ensinado numa baraita o que te apoia: uma casa tapada tem quatro côvados; se derrubou os seus batentes, não tem quatro côvados. Uma casa tapada não torna impuro todo o seu redor; se derrubou os seus batentes, torna impuro todo o seu redor.
“Foi ensinado o que te apoia” — que o nome de abertura não se retira dele senão com uma obstrução de verdade.
“Uma casa tapada tem quatro côvados” — estabelecemos em Bava Batra: o pátio se divide conforme as suas aberturas, conforme as aberturas das casas abertas para ele. Se vieram dividir o pátio entre dois, em que este tinha uma casa com duas aberturas para o pátio, e aquele uma casa com quatro aberturas para o pátio, toma-se, para cada abertura, quatro côvados no pátio diante da sua abertura, na medida da largura da sua abertura, e o restante dividem igualmente. E, se uma delas foi tapada antes da divisão do pátio, e não derrubou os seus batentes, mas tapou entre os dois batentes, não perde com isso o direito da sua abertura; se derrubou os seus batentes e depois a tapou, o nome de abertura se retira dela.
“Uma casa tapada” — e o morto está dentro dela: não torna impuro o seu redor.
“Derrubou os seus batentes” — e a tapou: tornou-se um túmulo e torna impuro o seu redor por quatro côvados, como se diz em Sotá (44a): um morto ocupa quatro côvados para a impureza; e é decreto dos Sábios, para que não faça sombra sobre ele sem perceber.
Abaie traz uma baraita que confirma a posição de Rava: uma abertura só perde o seu nome quando é eliminada de verdade. A casa cuja porta foi tapada continua a ter direito aos quatro côvados do pátio diante da porta, e, se há um morto dentro, a impureza não se espalha ao redor; só quando se derrubam os batentes a porta deixa de existir, e então a casa perde esse direito e passa a ser tratada como túmulo.
Quanto a um canudo, Rav proibiu e Shmuel permitiu. Cortar de início, ninguém diverge de que é proibido; recolocar, ninguém diverge de que é permitido. Quando divergem, é no caso em que foi cortado e não ajustado: quem proíbe sustenta que decretamos, talvez venha a cortar de início; e quem permite sustenta que não decretamos.
“Canudo” — fincar um caniço oco no furo do barril, para que o vinho saia pelo caniço.
“Cortar” — rongier, em língua estrangeira: ajustá-lo à medida do furo.
“Recolocar” — se caiu.
“E não ajustado” — não foi posto no furo, para saber se está na sua medida.
Inserir um caniço oco no furo do barril para tirar o vinho envolve cortá-lo na medida do furo, o que equivale a fazer um utensílio e é proibido por todos; recolocar um caniço já usado que caiu é permitido por todos. Rav e Shmuel divergem quanto ao caniço já cortado, mas ainda não experimentado no furo: Rav teme que se venha a cortá-lo no Shabat, e Shmuel não decreta.
Como os tanaim: não se corta um tubo no Yom Tov, e não é preciso dizer no Shabat. Se caiu, recoloca-se no Shabat, e não é preciso dizer no Yom Tov. E Rabi Yoshiya é leniente.
A divergência de Rav e Shmuel corresponde a uma divergência de tanaim. O texto impresso traz entre parênteses a palavra “não” antes de “recoloca-se”, marcada para ser apagada; a sequência mostra que recolocar o tubo caído é permitido, pois a guemará a seguir diz que o primeiro tana também o permite.
Rabi Yoshiya, sobre qual parte? Se dizes que sobre o início, eis que prepara um utensílio? Antes, sobre o final: o primeiro tana também certamente permite? Antes, o caso em que foi cortado e não ajustado há entre eles: um mestre sustenta: decretamos; e um mestre sustenta: não decretamos. Rav Shisha, filho de Rav Idi, expôs em nome de Rabi Yochanan: a halachá é como Rabi Yoshiya.
“Se dizes que sobre o início” — cortá-lo e aplainá-lo.
A leniência de Rabi Yoshiya não pode referir-se a cortar o tubo, que é fazer um utensílio, nem a recolocá-lo, que o primeiro tana já permite; refere-se, portanto, ao tubo já cortado e ainda não ajustado ao furo, o mesmo caso em que divergem Rav e Shmuel. Rabi Yochanan decide conforme Rabi Yoshiya, a opinião permissiva.
A mishná ensinou: “E, se estava perfurada” etc. Azeite: Rav proibiu e Shmuel permitiu. Quem proíbe sustenta: decretamos por causa da cera; e quem permite sustenta: não decretamos. Disse Rav Shmuel bar bar Chana a Rav Yosef: explicitamente nos disseste em nome de Rav: azeite é permitido!
“Azeite” — óleo espesso.
“É proibido” — espalhá-lo.
A mishná proíbe tapar com cera um furo do barril, por ser alisamento. Rav e Shmuel divergem quanto a espalhar sobre o furo um óleo espesso, que não se alisa como a cera: quem proíbe teme que se chegue a usar cera. Rav Shmuel bar bar Chana lembra a Rav Yosef que ele próprio lhes havia transmitido, explicitamente em nome de Rav, que o azeite é permitido.
Disse Tavut, o caçador, disse Shmuel: esta folha de murta é proibida. Qual é a razão? Rav Yeimar de Difti disse: decreto por causa da calha. Rav Ashi disse: decreto, para que não corte. O que há entre eles? Há entre eles o caso em que estava cortada e posta.
“Folha de murta” — pôr uma folha de murta no furo do barril, pois a folha é feita como uma calha, e o vinho escorre por ali.
“Decreto por causa da calha” — para que não prepare uma calha.
“Para que não corte” — a folha do ramo; e, já que a cortou, é como quem prepara um utensílio, como foi ensinado no tratado Beitzá (33b): para palitar com ele os dentes, não o corte; e, se o cortou, é obrigado a uma oferenda pelo pecado.
Pôr uma folha de murta no furo do barril, para que o vinho escorra por ela como por uma calha, é proibido. Para Rav Yeimar, o receio é que se venha a fazer uma calha de verdade; para Rav Ashi, que se venha a destacar a folha do ramo, o que equivale a preparar um utensílio. A diferença prática é a folha já destacada e posta de lado antes do Shabat: Rav Ashi a permite, Rav Yeimar não.
Panos de feltro: Rav proibiu e Shmuel permitiu. Nos macios, ninguém diverge de que é permitido; nos duros, ninguém diverge de que é proibido. Quando divergem, é nos intermediários: quem proíbe sustenta que parece uma carga; e quem permite, que não parece uma carga.
“Panos de feltro” — feltros, que chamam feltres, e são feitos para dobrá-los debaixo de si em lugar da almofada ou do travesseiro.
“Rav proibiu” — trazê-lo à maneira de vestimenta através do domínio público, envolto nele.
“Nos macios” — com os quais se costuma aquecer-se.
“Que é permitido” — pois são vestimenta.
Os panos de feltro servem de assento, mas também podem ser vestidos. Levá-los pelo domínio público envolto neles é permitido quando são macios, pois são vestimenta, e proibido quando são duros. Nos de dureza intermediária, Rav entende que quem os veste parece carregar uma carga, e Shmuel entende que não.
E isto de Rav não foi dito explicitamente, mas foi dito por inferência. Pois Rav chegou a certo lugar em que não tinha espaço; saiu e sentou-se numa karmelit. Trouxeram-lhe panos de feltro, e não se sentou. Quem viu pensou que era porque os panos de feltro são proibidos; e não é assim, pois Rav proclamava: panos de feltro são permitidos; e por respeito aos nossos mestres não se sentou sobre ele. E quem são eles? Rav Kahana e Rav Asi.
“E não tinha espaço” — na casa, para o lugar de assento dos discípulos.
“E por respeito aos nossos mestres” — que não tinham algo sobre o que sentar, e sentavam-se no chão.
“Rav Kahana e Rav Asi” — eram para ele discípulos-colegas.
A proibição atribuída a Rav não foi dita por ele, mas deduzida de um episódio: Rav recusou sentar-se nos panos de feltro que lhe trouxeram numa karmelit, e quem viu concluiu que ele os considerava proibidos. Na verdade, Rav proclamava publicamente que são permitidos; recusou apenas para não se sentar mais alto que Rav Kahana e Rav Asi, que estavam sentados no chão.
MISHNÁ. Põe-se um cozido dentro do poço, para que seja guardado; e a água boa na ruim, para que esfrie; e a fria ao sol, para que se aqueça. Aquele cujas roupas caíram na água, no caminho, anda com elas e não se preocupa. Chegou ao pátio exterior, estende-as ao sol, mas não diante do povo.
“Mishná. Dentro do poço” — que não tem água.
“Para que seja guardado” — para que não se estrague por causa do calor.
“E a água boa na ruim” — um recipiente cheio de água boa dentro de um reservatório de água ruim, para que se conserve, para que esfrie e não se aqueça.
“Aquele cujas roupas caíram” — que caíram na água no Shabat.
“Ao pátio exterior” — o que é próximo à entrada da cidade, dentro da cidade, que é um lugar guardado.
“Estende-as ao sol” — para secá-las.
“Mas não diante do povo” — pois suspeitariam dele que as lavou.
Abre-se aqui uma nova mishná no meio do Perek Vinte e Dois, Chavit, sem abertura de capítulo: a estrutura de capítulos do Sefaria mantém o perek de 143b:1 a 148a:4. A mishná permite proteger um cozido do calor num poço seco, esfriar água boa mergulhando o recipiente em água ruim e aquecer água fria ao sol. Quem teve as roupas molhadas no caminho pode continuar vestido com elas, sem receio de torcê-las ou lavá-las; ao chegar a um lugar guardado, pode estendê-las ao sol, mas não à vista do público, que suspeitaria que as lavou no Shabat.
GUEMARÁ. É óbvio! Poderias dizer: decretemos por causa de nivelar buracos; ensina-nos.
“Guemará. É óbvio” — que se põe um cozido dentro do poço.
“Buracos” — que estão no chão do poço, para que fiquem nivelados para assentar a panela.
Pôr o cozido no poço parece obviamente permitido. A mishná precisou ensiná-lo porque se poderia temer que, ao assentar a panela, se nivelassem os buracos do chão do poço, o que é trabalho proibido; ela ensina que não há decreto por isso.
A mishná ensinou: “E a água boa na ruim.” É óbvio! A cláusula final lhe foi necessária. “E a fria ao sol”: isto também é óbvio! Poderias dizer: decretemos, talvez venha a enterrá-la em cinzas quentes; ensina-nos.
Esfriar a água boa na ruim é evidente, e foi mencionado apenas por causa da cláusula seguinte. Também aquecer água ao sol poderia parecer óbvio, mas era preciso ensiná-lo, pois se poderia decretar que, por semelhança, alguém viesse a enterrá-la em cinzas quentes.
A mishná ensinou: “Aquele cujas roupas caíram” etc. Disse Rav Yehuda, disse Rav: em todo lugar em que os Sábios proibiram por causa da aparência aos olhos, mesmo nos aposentos mais recônditos é proibido. Aprendemos: “Estende-as ao sol, mas não diante do povo”! É disputa de tanaim, pois foi ensinado numa baraita: estende-as ao sol, mas não diante do povo; Rabi Elazar e Rabi Shimon proíbem.
Para Rav, o que os Sábios proibiram por causa da aparência de transgressão continua proibido mesmo onde ninguém vê. A mishná, que permite estender as roupas longe do povo, parece contradizê-lo; a guemará responde que o tema é uma disputa de tanaim, e Rav segue Rabi Elazar e Rabi Shimon, que proíbem estendê-las mesmo assim.
Disse Rav Huna…
A guemará começa a citar um ensinamento de Rav Huna, que prossegue em Shabbat 147a.