Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Vinte e Dois (Chavit)
שׁוֹבֵר אָדָם אֶת הֶחָבִית

A contaminação da serpente e o monte Sinai; nova mishná: quebrar o barril para comer figos secos; a rolha perfurada, o furo novo e o galinheiro

Shabbat 146a · Perek Vinte e Dois (Chavit, Shabbat 143b:1-148a:4) · a guemará prossegue em 146b

O daf continua diretamente de 145b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Rabi Yochanan conclui sua resposta: quando a serpente veio sobre Chavá, lançou nela uma contaminação, que cessou para Israel no monte Sinai, mas não para os gentios; Rav Ashi explica que os convertidos também foram purificados, pois os seus mazalot estavam presentes no Sinai, e a guemará observa que isso diverge de Rabi Abba bar Kahana, para quem a contaminação cessou já na terceira geração dos patriarcas. Abre-se então uma nova mishná, ainda no mesmo capítulo: pode-se quebrar um barril para comer dele figos secos, contanto que não se tencione fazer um utensílio; Rabi Yehuda e os Sábios divergem sobre perfurar a rolha, e não se põe cera sobre um furo, por causa do alisamento. A guemará traz a restrição de Rabi Oshaya aos figos prensados, segundo Rabi Nechemya, as baraitot sobre os cestos de figos e tâmaras, a pergunta a Rav Sheshet sobre perfurar um barril com uma lança, a divergência de Rav Huna e Rav Chisda sobre perfurar a rolha por cima ou pelo lado, e a baraita sobre o furo novo e o furo velho, que Rabba explica pelo decreto do galinheiro; a explicação prossegue em Shabbat 146b.

Fim da resposta de Rabi Yochanan: a contaminação da serpente e o monte Sinai · זוּהֲמָא

1502A serpente lançou contaminação em Chavá; em Israel ela cessou no Sinai; os convertidos e os seus mazalot
Rabi Yochanan; Rav Acha, filho de Rava; Rav Ashi
שֶׁבָּא נָחָשׁ עַל חַוָּה הֵטִיל בָּהּ זוּהֲמָא, יִשְׂרָאֵל שֶׁעָמְדוּ עַל הַר סִינַי — פָּסְקָה זוּהֲמָתָן, גּוֹיִם שֶׁלֹּא עָמְדוּ עַל הַר סִינַי — לֹא פָּסְקָה זוּהֲמָתָן. אֲמַר לֵיהּ רַב אַחָא בְּרֵיהּ דְּרָבָא לְרַב אָשֵׁי: גֵּרִים מַאי? אֲמַר לֵיהּ: אַף עַל גַּב דְּאִינְהוּ לָא הֲווֹ, מַזָּלַיְיהוּ הֲווֹ. דִּכְתִיב: ״אֶת אֲשֶׁר יֶשְׁנוֹ פֹּה עִמָּנוּ עוֹמֵד הַיּוֹם לִפְנֵי ה׳ אֱלֹהֵינוּ וְאֵת אֲשֶׁר אֵינֶנּוּ פֹּה וְגוֹ׳״.

…em que a serpente veio sobre Chavá, lançou nela uma contaminação. Israel, que esteve no monte Sinai, a sua contaminação cessou; os gentios, que não estiveram no monte Sinai, a sua contaminação não cessou. Disse Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: e os convertidos, qual é a lei? Disse-lhe: embora eles mesmos não estivessem lá, os seus mazalot (anjos da guarda) estavam, como está escrito: “Com aquele que está aqui conosco, de pé hoje diante do Senhor, nosso Deus, e com aquele que não está aqui etc.” (Devarim 29:14).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keshe’ba nachash al Chava”, “gerim mai” e “mazlaihu havu”
כשבא נחש על חוה - כשנתן לה עצה לאכול מן העץ בא עליה דכתיב (בראשית ג׳:י״ג) הנחש השיאני לשון נשואין: גרים מאי - שלא היו על הר סיני מהיכן פסקה זוהמא: מזלייהו הוו - בסיני וכל שעמדו על הר סיני נתקדשו ונטהרו ונתרפאו מכל מום ואף עורים ופסחים שהיו בישראל כדתניא בספרי:

“Quando a serpente veio sobre Chavá” — quando lhe deu o conselho de comer da árvore, veio sobre ela, como está escrito: “A serpente hishiani (me enganou)” (Bereshit 3:13), linguagem de nissuin (casamento).

“E os convertidos, qual é a lei” — que não estiveram no monte Sinai: de onde cessou a sua contaminação?

“Os seus mazalot estavam” — no Sinai; e todos os que estiveram no monte Sinai foram santificados, purificados e curados de todo defeito, e até os cegos e os coxos que havia em Israel, como foi ensinado no Sifrei.

Nota

Rabi Yochanan conclui a resposta iniciada no fim de 145b: a serpente, ao seduzir Chavá, lançou na humanidade uma contaminação moral, que cessou para Israel com a revelação no monte Sinai. Rav Ashi explica que os convertidos, embora não estivessem ali fisicamente, foram incluídos por meio de seus mazalot, conforme o versículo que inclui na aliança também quem não estava presente. Rashi acrescenta que todos os que estiveram no Sinai foram curados de todo defeito.

1503Rabi Abba bar Kahana: a contaminação cessou na terceira geração dos patriarcas
Rabi Abba bar Kahana
וּפְלִיגָא דְּרַבִּי אַבָּא בַּר כָּהֲנָא. דַּאֲמַר רַבִּי אַבָּא בַּר כָּהֲנָא: עַד שְׁלֹשָׁה דּוֹרוֹת לֹא פָּסְקָה זוּהֲמָא מֵאֲבוֹתֵינוּ: אַבְרָהָם הוֹלִיד אֶת יִשְׁמָעֵאל, יִצְחָק הוֹלִיד אֶת עֵשָׂו, יַעֲקֹב הוֹלִיד שְׁנֵים עָשָׂר שְׁבָטִים שֶׁלֹּא הָיָה בָּהֶן שׁוּם דּוֹפִי.

E isto diverge de Rabi Abba bar Kahana, pois disse Rabi Abba bar Kahana: até três gerações, a contaminação não cessou de nossos patriarcas: Avraham gerou Yishmael, Yitzchak gerou Esav; Yaakov gerou doze tribos, nas quais não havia defeito algum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ufliga”
ופליגא - הא דאמרן דלא פסקה זוהמא עד סיני:

“E diverge” — isto que dissemos, que a contaminação não cessou até o Sinai.

Nota

Para Rabi Abba bar Kahana, a contaminação já havia cessado na linhagem dos patriarcas antes do Sinai: Avraham ainda gerou Yishmael e Yitzchak gerou Esav, mas todos os filhos de Yaakov eram íntegros. Isso contradiz a afirmação de que ela só cessou no monte Sinai.

Nova Mishná: quebrar o barril para comer figos secos; a rolha e a cera · שׁוֹבֵר אָדָם אֶת הֶחָבִית

1504Mishná: quebra-se o barril para comer figos secos; a rolha perfurada; a cera; o caso diante de Rabban Yochanan ben Zakai
Mishná
מַתְנִי׳ שׁוֹבֵר אָדָם אֶת הֶחָבִית לֶאֱכוֹל הֵימֶנָּה גְּרוֹגְרוֹת וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹת כְּלִי. וְאֵין נוֹקְבִין מְגוּפָה שֶׁל חָבִית, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וַחֲכָמִים מַתִּירִין, וְלֹא יִקְּבֶנָּה מִצִּדָּהּ. וְאִם הָיְתָה נְקוּבָה, לֹא יִתֵּן עָלֶיהָ שַׁעֲוָה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְמָרֵחַ. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: מַעֲשֶׂה בָּא לִפְנֵי רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי בַּעֲרָב, וְאָמַר: חוֹשְׁשַׁנִי לוֹ מֵחַטָּאת.

MISHNÁ. Uma pessoa quebra o barril para comer dele figos secos, contanto que não tencione fazer um utensílio. E não se perfura a rolha de um barril, palavras de Rabi Yehuda; e os Sábios permitem. E não a perfure pelo seu lado. E, se estava perfurada, não ponha cera sobre ela, porque ele espalha. Disse Rabi Yehuda: um caso veio diante de Rabban Yochanan ben Zakai em Arav, e ele disse: temo por ele quanto a uma oferenda pelo pecado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin shover adam et hechavit”, “uvilvad shelo yitkaven la’asot keli”, “ein nokvin megufa”, “vachachamim matirin”, “velo yikvena mitzidah”, “mipnei shehu memare’ach”, “be’Arav” e “mechatat”
מתני'. שובר אדם חבית - מליאה גרוגרות בסכין או בסייף לאכול ממנה גרוגרות דאין במקלקל שום איסור בשבת: ובלבד שלא יתכוין לעשות כלי - לנוקבה יפה בפתח נאה: אין נוקבין מגופה - הדבוקה בפה החבית לעשות נקב אלא נוטל את כולה אבל כי נקיב לה מתקן פתחא: וחכמים מתירין - דאין דרך פתח לחבית בכך: ולא יקבנה מצידה - בגמרא מפרש לה: שהוא ממרח - ויש כאן משום ממחק: בערב - מדינה: מחטאת - שמא מירח השעוה לדובקה בדופני הכלי סביב הנקב:

“Mishná. Uma pessoa quebra o barril” — cheio de figos secos, com uma faca ou com uma espada, para comer dele figos secos; pois em quem estraga não há proibição alguma no Shabat.

“Contanto que não tencione fazer um utensílio” — perfurá-lo bem, com uma abertura bonita.

“E não se perfura a rolha” — que está colada à boca do barril, para fazer um furo; mas toma-a inteira; pois, quando a perfura, prepara uma abertura.

“E os Sábios permitem” — pois não é assim o modo de fazer abertura para um barril.

“E não a perfure pelo seu lado” — na guemará se explica.

“Porque ele espalha” — e há aqui a proibição de memachek (alisar).

“Em Arav” — nome de uma cidade.

“Quanto a uma oferenda pelo pecado” — pois talvez tenha espalhado a cera para colá-la nas paredes do recipiente ao redor do furo.

Nota

Abre-se aqui uma nova mishná no meio do Perek Vinte e Dois, Chavit, sem abertura de capítulo: a estrutura de capítulos do Sefaria mantém o perek de 143b:1 a 148a:4. A mishná permite quebrar um barril para chegar aos figos secos, pois quem apenas estraga não transgride; o que se proíbe é fazer uma abertura bem-feita, que constituiria a criação de um utensílio. Rabi Yehuda proíbe perfurar a rolha, pois isso prepara uma abertura; os Sábios permitem, pois não é esse o modo de abrir um barril. Espalhar cera para tapar um furo é proibido, por ser alisamento.

Guemará: figos prensados e figos soltos; Rabi Nechemya · דְּרוּסוֹת וּמְפוֹרָדוֹת

1505Rabi Oshaya: só se ensinou para figos prensados
Rabi Oshaya
גְּמָ׳ אָמַר רַבִּי אוֹשַׁעְיָא: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא דְּרוּסוֹת, אֲבָל מְפוֹרָדוֹת — לֹא. וּמְפוֹרָדוֹת לֹא?

GUEMARÁ. Disse Rabi Oshaya: não ensinaram senão figos prensados; mas soltos, não. E soltos, não?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “gemara lo shanu”, “ela bidrusot” e “aval meforadot”
גמ' לא שנו - דשובר החבית ומטלטל הסייף לכך: אלא בדרוסות - שהגרוגרות דרוסות בעיגול וחותכין ממנו בקורדום או בסייף ואיידי דמטלטל סייף לחתוך גרוגרות תבר ביה נמי לחבית: אבל מפורדות - שא"צ לחתכן לא יטלטל סייף לשבור החבית דמתני' ר' נחמיה דאמר אין כלי ניטל אלא לתשמיש המיוחד לו כדמוקי לקמן:

“Guemará. Não ensinaram” — que se quebra o barril e se move a espada para isso.

“Senão prensados” — que os figos secos estão prensados num bolo, e corta-se dele com um machado ou com uma espada; e, já que move a espada para cortar os figos secos, quebra com ela também o barril.

“Mas soltos” — que não é necessário cortá-los: não mova a espada para quebrar o barril; pois a nossa mishná é segundo Rabi Nechemya, que disse: um utensílio não é tomado senão para o uso específico para ele, como se estabelece adiante.

Nota

Rabi Oshaya restringe a mishná: a espada só pode ser movida para quebrar o barril quando os figos estão prensados num bolo, pois então já se precisa dela para cortá-los. Se os figos estão soltos, a espada não seria necessária para o alimento, e movê-la apenas para abrir o barril é proibido segundo Rabi Nechemya.

1506A objeção de Rabban Shimon ben Gamliel: corta-se a cabeça do barril com uma espada
Rabban Shimon ben Gamliel (baraita)
מֵיתִיבִי, רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: מֵבִיא אָדָם אֶת הֶחָבִית שֶׁל יַיִן וּמַתִּיז רֹאשָׁהּ בְּסַיִיף, וּמַנִּיחָהּ לִפְנֵי הָאוֹרְחִים בְּשַׁבָּת וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ! הַהִיא רַבָּנַן, מַתְנִיתִין רַבִּי נְחֶמְיָה הִיא.

Objetaram: Rabban Shimon ben Gamliel diz: uma pessoa traz o barril de vinho, corta-lhe a cabeça com uma espada e o põe diante dos convidados no Shabat, e não se preocupa! Aquela é segundo os Sábios; a nossa mishná é segundo Rabi Nechemya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’eino choshesh” e “Rabanan hi”
ואינו חושש - ואע"ג דיין לאו למחתכיה קאי: רבנן היא - דפליגי אדר' נחמיה ואמרי כל הכלים ניטלין לצורך ושלא לצורך:

“E não se preocupa” — e ainda que o vinho não esteja ali para ser cortado.

“É segundo os Sábios” — que divergem de Rabi Nechemya e dizem: todos os utensílios são tomados para uma necessidade e sem necessidade.

Nota

A baraita permite usar a espada para abrir um barril de vinho, embora o vinho não precise ser cortado. A guemará responde que ela segue os Sábios, que permitem mover utensílios para qualquer fim, enquanto a mishná, conforme Rabi Oshaya, segue Rabi Nechemya.

1507Por que não estabelecer a mishná em figos soltos e segundo os Sábios? Rava: por que “figos secos”?
Rava
וּמַאי דּוּחְקֵיהּ דְּרַבִּי אוֹשַׁעְיָא לְאוֹקוֹמֵי מַתְנִיתִין כְּרַבִּי נְחֶמְיָה וּבִדְרוּסוֹת, לוֹקְמַהּ בִּמְפוֹרָדוֹת וְרַבָּנַן! אָמַר רָבָא, מַתְנִיתִין קְשִׁיתֵיהּ: מַאי אִירְיָא דְּתָנֵי ״גְּרוֹגְרוֹת״? לִיתְנֵי ״פֵּירוֹת״! אֶלָּא שְׁמַע מִינַּהּ בִּדְרוּסוֹת.

E o que pressionou Rabi Oshaya a estabelecer a nossa mishná segundo Rabi Nechemya e em figos prensados? Que a estabeleça em figos soltos e segundo os Sábios! Disse Rava: a mishná lhe era difícil: por que, especificamente, ensina “figos secos”? Que ensine “frutas”! Antes, conclui-se disso: em prensados.

Nota

Rabi Oshaya poderia ter atribuído a mishná à maioria dos Sábios. Rava explica que a escolha da palavra figos secos indica que se trata de figos prensados, que exigem um instrumento para serem separados; se a mishná falasse de qualquer fruta, teria dito simplesmente frutas.

Os cestos de figos e tâmaras e o barril perfurado com uma lança · חוֹתָלוֹת · בּוּרְטְיָא

1508Desata-se, desfaz-se e corta-se? As duas baraitot e Rabi Nechemya
Baraitot; Rabi Nechemya
תַּנְיָא חֲדָא: חוֹתָלוֹת שֶׁל גְּרוֹגְרוֹת וְשֶׁל תְּמָרִים — מַתִּיר וּמַפְקִיעַ וְחוֹתֵךְ. וְתַנְיָא אִידַּךְ: מַתִּיר אֲבָל לֹא מַפְקִיעַ וְלֹא חוֹתֵךְ! לָא קַשְׁיָא, הָא — רַבָּנַן, הָא — רַבִּי נְחֶמְיָה. דְּתַנְיָא, רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר: אֲפִילּוּ תַּרְווֹד וַאֲפִילּוּ טַלִּית וַאֲפִילּוּ סַכִּין — אֵין נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ תַּשְׁמִישָׁן.

Foi ensinado numa baraita: cestos de figos secos e de tâmaras, desata-se, desfaz-se e corta-se. E foi ensinado em outra: desata-se, mas não se desfaz nem se corta! Não é difícil: esta é segundo os Sábios; esta, segundo Rabi Nechemya. Pois foi ensinado numa baraita: Rabi Nechemya diz: mesmo uma concha, mesmo um manto e mesmo uma faca não são tomados senão para a necessidade do seu uso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chotalot”, “matir”, “aval lo mafkia” e “velo chotech”
חותלות - כלי של כפות תמרים ועושין כמין סלים ונותנים לתוכן תמרים רעים להתבשל: מתיר - אם הכסוי קשור בחבל: אבל לא מפקיע - סותר שרשרות החבל בכלי: ולא חותך - דאין כלי ניטל אלא לצורך תשמישו וסכין אינו עשוי לכך:

“Cestos” — um recipiente de folhas de palmeira: fazem uma espécie de cestas e põem dentro delas tâmaras ruins para amadurecer.

“Desata-se” — se a cobertura está amarrada com uma corda.

“Mas não se desfaz” — desfazer as tranças da corda no recipiente.

“Nem se corta” — pois um utensílio não é tomado senão para a necessidade do seu uso, e a faca não é feita para isso.

Nota

As duas baraitot divergem sobre abrir os cestos trançados em que se guardavam figos e tâmaras. A que permite desfazer a trança e cortar segue os Sábios; a que só permite desatar o nó segue Rabi Nechemya, para quem até uma faca só pode ser movida para o seu uso próprio, que não é cortar cestos.

1509Perfurar um barril com uma lança no Shabat: Rav Sheshet proíbe
Rav Sheshet
בְּעוֹ מִינֵּיהּ מֵרַב שֵׁשֶׁת: מַהוּ לְמִיבְרַז חָבִיתָא בְּבוּרְטְיָא בְּשַׁבְּתָא? לְפִיתְחָא קָמִיכַּוֵּין, וַאֲסִיר, אוֹ דִילְמָא: לְעַיִן יָפָה קָמִיכַּוֵּין, וּשְׁרֵי? אֲמַר לֵיהּ: לְפִיתְחָא קָא מְכַוֵּין, וַאֲסִיר.

Perguntaram a Rav Sheshet: qual é a lei quanto a perfurar um barril com uma lança no Shabat? Tenciona fazer uma abertura, e é proibido; ou talvez tencione dar um olho bom, e é permitido? Disse-lhes: tenciona fazer uma abertura, e é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lemivraz” e “beburtiya”
למיברז - לתחוב פויינדור"א בלע"ז: בבורטיא - ברומח לתוחבו בדופניה לנקבו:

“Perfurar” — espetar; poindor, em língua estrangeira.

“Com uma lança” — com uma lança, para enfiá-la nas suas paredes para perfurá-lo.

Nota

Os alunos perguntam se quem espeta uma lança num barril pretende criar uma abertura, o que é proibido, ou apenas fazer o vinho jorrar generosamente para os convidados, o que seria permitido. Rav Sheshet entende que se trata de fazer uma abertura.

1510A objeção da espada: ali, certamente um olho bom; aqui, que abra pela rolha
Rav Sheshet; Rabban Shimon ben Gamliel (baraita)
מֵיתִיבִי, רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: מֵבִיא אָדָם חָבִית שֶׁל יַיִן וּמַתִּיז רֹאשָׁהּ בְּסַיִיף? הָתָם — וַדַּאי לְעַיִן יָפָה קָמִיכַּוֵּין, הָכָא — אִם אִיתָא דִּלְעַיִן יָפָה קָמִיכַּוֵּין — לִפְתְּחֵיהּ מִיפְתָּח.

Objetaram: Rabban Shimon ben Gamliel diz: uma pessoa traz um barril de vinho e corta-lhe a cabeça com uma espada? Ali, certamente tenciona dar um olho bom; aqui, se fosse verdade que tenciona dar um olho bom, que o abra propriamente!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “le’ayin yafa”, “hatam vadai le’ayin yafa kamichaven” e “liftechei mifetach”
לעין יפה - להרחיב מוצא היין בנקב גדול מדלא נקיב ליה כדרך הנוקבין נקב עגול ויפה: התם ודאי לעין יפה קמיכוין - שמרחיב פיה למטה ממגופתה כדקתני מתיז את ראשה שפת פיה: לפתוחי מיפתח - יטול מגופתה:

“Um olho bom” — alargar a saída do vinho com um furo grande, já que não o perfura ao modo dos que perfuram um furo redondo e bonito.

“Ali, certamente tenciona dar um olho bom” — pois alarga a sua boca abaixo da sua rolha, como ensina: “corta-lhe a cabeça”, isto é, a borda da sua boca.

“Que o abra propriamente” — que retire a sua rolha.

Nota

Rav Sheshet distingue: quem corta a parte de cima do barril com uma espada evidentemente quer servir o vinho com fartura, pois destrói a boca do barril; quem faz um furo com uma lança, se quisesse fartura, simplesmente retiraria a rolha, e por isso se presume que pretende fazer uma abertura.

A rolha perfurada por cima ou pelo lado: Rav Huna e Rav Chisda · לֹא יִקְּבֶנָּה מִצִּדָּהּ

1511Rav Huna: a divergência é em cima; Rav Chisda: a divergência é pelo lado
Rav Huna; Rav Chisda
אֵין נוֹקְבִין מְגוּפָה וְכוּ׳. אָמַר רַב הוּנָא: מַחֲלוֹקֶת לְמַעְלָה, אֲבָל מִן הַצַּד — דִּבְרֵי הַכֹּל אָסוּר. וְהַיְינוּ דְּקָתָנֵי: ״לֹא יִקְּבֶנָּה מִצִּדָּהּ״. וְרַב חִסְדָּא אָמַר: מַחֲלוֹקֶת מִן הַצַּד, אֲבָל עַל גַּבָּהּ — דִּבְרֵי הַכֹּל מוּתָּר. וְהָא דְּקָתָנֵי ״לֹא יִקְּבֶנָּה מִצִּדָּהּ״ — הָתָם בְּגוּפָהּ דְּחָבִית.

A mishná ensinou: “E não se perfura a rolha” etc. Disse Rav Huna: a divergência é em cima; mas pelo lado, segundo as palavras de todos, é proibido; e é isso que ensina: “E não a perfure pelo seu lado”. E Rav Chisda disse: a divergência é pelo lado; mas sobre ela, segundo as palavras de todos, é permitido; e isto que ensina: “E não a perfure pelo seu lado”, ali trata-se do corpo do barril.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lema’la”, “aval mitzidah”, “haynu dekatani velo yikvena mitzidah” e “machloket min hatzad”
למעלה - בראש המגופה התם הוא דשרו רבנן דלאו אורחא למיעבד פתחא התם אלא נוטל כל המגופה: אבל מצדה - זמנין דעבדי לה משום פתחא ואינו רוצה לפותחה למעלה שלא יפול עפר או פסולת ביין: היינו דקתני ולא יקבנה מצדה - ואמגופה קאי ודברי הכל: מחלוקת מן הצד - התם הוא דקאסר רבי יהודה משום דאיכא דעבדי ליה פתחא:

“Em cima” — no topo da rolha; ali é que os Sábios permitiram, pois não é costume fazer ali uma abertura, mas toma-se a rolha inteira.

“Mas pelo lado” — às vezes fazem-na como abertura, quando não se quer abri-lo em cima, para que não caia poeira ou detrito no vinho.

“É isso que ensina: E não a perfure pelo seu lado” — e refere-se à rolha, e é segundo as palavras de todos.

“A divergência é pelo lado” — ali é que Rabi Yehuda proíbe, porque há quem faça dela uma abertura.

Nota

Para Rav Huna, Rabi Yehuda e os Sábios divergem quanto a perfurar a rolha por cima, e todos proíbem perfurá-la pelo lado, pois às vezes se faz ali uma abertura permanente; a frase da mishná sobre o lado é a opinião de todos. Para Rav Chisda, a divergência é justamente sobre perfurar a rolha pelo lado, e por cima todos permitem; a frase da mishná sobre o lado refere-se ao próprio barril.

O furo novo, o furo velho e o galinheiro · נֶקֶב חָדָשׁ וְנֶקֶב יָשָׁן

1512Não se perfura um furo novo; acrescentar a um furo; o furo velho
Baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: אֵין נוֹקְבִין נֶקֶב חָדָשׁ בְּשַׁבָּת, וְאִם בָּא לְהוֹסִיף — מוֹסִיף. וְיֵשׁ אוֹמְרִים: אֵין מוֹסִיפִין. וְשָׁוִין, שֶׁנּוֹקְבִין נֶקֶב יָשָׁן לְכַתְּחִילָּה. וְתַנָּא קַמָּא: מַאי שְׁנָא מִנֶּקֶב חָדָשׁ דְּלָא — דְּקָא מְתַקֵּן פִּיתְחָא, אוֹסוֹפֵי נָמֵי — קָא מְתַקֵּן פִּיתְחָא!

Os Sábios ensinaram: não se perfura um furo novo no Shabat; e, se vem acrescentar, acrescenta. E há quem diga: não se acrescenta. E concordam que se perfura um furo velho de início. E o primeiro tana: em que difere de um furo novo, que não é permitido, porque prepara uma abertura? Acrescentar também prepara uma abertura!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ein nokvin nekev chadash”, “nekev yashan” e “osufei nami katakein pitcha”
אין נוקבין נקב חדש - בכלי: נקב ישן - שנסתם דכי חוזר ופותח לאו כעושה פתח הוא שהרי עשוי ועומד וסתימתו לאו כלום: אוסופי נמי קמתקן פתחא - שמרחיבו ויש כאן משום גמר מלאכה:

“Não se perfura um furo novo” — num recipiente.

“Um furo velho” — que foi tapado; pois, quando volta a abri-lo, não é como quem faz uma abertura, já que está feita e pronta, e a sua obstrução não é nada.

“Acrescentar também prepara uma abertura” — pois o alarga, e há aqui a proibição de conclusão do trabalho.

Nota

A baraita proíbe abrir um furo novo num recipiente no Shabat, mas permite reabrir um furo antigo que foi tapado, pois a abertura já existia. O primeiro tana permite também alargar um furo existente, e a guemará pergunta por que, se alargá-lo também é preparar uma abertura.

1513Rabba: pela Torá, a abertura só para retirar não é abertura; o decreto do galinheiro
Rabba
אָמַר רַבָּה: דְּבַר תּוֹרָה — כׇּל פֶּתַח שֶׁאֵינוֹ עָשׂוּי לְהַכְנִיס וּלְהוֹצִיא — אֵינוֹ פֶּתַח, וְרַבָּנַן הוּא דִּגְזוּר מִשּׁוּם לוּל שֶׁל תַּרְנְגוֹלִין, דְּעָבֵיד לְעַיּוֹלֵי אַוֵּירָא וּלְאַפּוֹקֵי הַבְלָא. וְאִם בָּא לְהוֹסִיף — מוֹסִיף, אוֹסוֹפֵי וַדַּאי בְּלוּל שֶׁל תַּרְנְגוֹלִים — לָא אָתֵי לְאוֹסוֹפֵי

Disse Rabba: pela palavra da Torá, toda abertura que não é feita para introduzir e para retirar não é abertura; e foram os Sábios que decretaram por causa do galinheiro, que é feito para introduzir ar e para retirar o bafo. E, se vem acrescentar, acrescenta: acrescentar, certamente, num galinheiro, não se chega a acrescentar…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “havla” e “ve’im ba lehosif mosif”
הבלא - סרחון שלא ימותו התרנגולין: ואם בא להוסיף מוסיף - ולא גזרינן דילמא אתי לאוסופי בלול של תרנגולין דלא מוסיף איניש עליה:

“O bafo” — o mau cheiro, para que as galinhas não morram.

“E, se vem acrescentar, acrescenta” — e não decretamos que talvez venha a acrescentar no galinheiro, pois ninguém acrescenta nele.

Nota

Rabba explica que, pela Torá, só é abertura proibida a que serve para entrar e sair, como a do galinheiro, que deixa entrar o ar e sair o mau cheiro; o furo do barril, que só serve para retirar o vinho, foi proibido apenas por decreto rabínico, por semelhança com o galinheiro. Por isso se permite alargar um furo existente: ninguém costuma alargar o furo de um galinheiro. A explicação prossegue em Shabbat 146b.

O daf termina aqui, no meio da explicação de Rabba sobre por que se pode alargar um furo já existente: “…num galinheiro, não se chega a acrescentar…”. A discussão prossegue em Shabbat 146b.