O daf continua diretamente de 145b, sem qualquer pausa e ainda dentro do Perek Vinte e Dois, Chavit (Shabbat 143b:1-148a:4, conforme a estrutura de capítulos do Sefaria). Rabi Yochanan conclui sua resposta: quando a serpente veio sobre Chavá, lançou nela uma contaminação, que cessou para Israel no monte Sinai, mas não para os gentios; Rav Ashi explica que os convertidos também foram purificados, pois os seus mazalot estavam presentes no Sinai, e a guemará observa que isso diverge de Rabi Abba bar Kahana, para quem a contaminação cessou já na terceira geração dos patriarcas. Abre-se então uma nova mishná, ainda no mesmo capítulo: pode-se quebrar um barril para comer dele figos secos, contanto que não se tencione fazer um utensílio; Rabi Yehuda e os Sábios divergem sobre perfurar a rolha, e não se põe cera sobre um furo, por causa do alisamento. A guemará traz a restrição de Rabi Oshaya aos figos prensados, segundo Rabi Nechemya, as baraitot sobre os cestos de figos e tâmaras, a pergunta a Rav Sheshet sobre perfurar um barril com uma lança, a divergência de Rav Huna e Rav Chisda sobre perfurar a rolha por cima ou pelo lado, e a baraita sobre o furo novo e o furo velho, que Rabba explica pelo decreto do galinheiro; a explicação prossegue em Shabbat 146b.
…em que a serpente veio sobre Chavá, lançou nela uma contaminação. Israel, que esteve no monte Sinai, a sua contaminação cessou; os gentios, que não estiveram no monte Sinai, a sua contaminação não cessou. Disse Rav Acha, filho de Rava, a Rav Ashi: e os convertidos, qual é a lei? Disse-lhe: embora eles mesmos não estivessem lá, os seus mazalot (anjos da guarda) estavam, como está escrito: “Com aquele que está aqui conosco, de pé hoje diante do Senhor, nosso Deus, e com aquele que não está aqui etc.” (Devarim 29:14).
“Quando a serpente veio sobre Chavá” — quando lhe deu o conselho de comer da árvore, veio sobre ela, como está escrito: “A serpente hishiani (me enganou)” (Bereshit 3:13), linguagem de nissuin (casamento).
“E os convertidos, qual é a lei” — que não estiveram no monte Sinai: de onde cessou a sua contaminação?
“Os seus mazalot estavam” — no Sinai; e todos os que estiveram no monte Sinai foram santificados, purificados e curados de todo defeito, e até os cegos e os coxos que havia em Israel, como foi ensinado no Sifrei.
Rabi Yochanan conclui a resposta iniciada no fim de 145b: a serpente, ao seduzir Chavá, lançou na humanidade uma contaminação moral, que cessou para Israel com a revelação no monte Sinai. Rav Ashi explica que os convertidos, embora não estivessem ali fisicamente, foram incluídos por meio de seus mazalot, conforme o versículo que inclui na aliança também quem não estava presente. Rashi acrescenta que todos os que estiveram no Sinai foram curados de todo defeito.
E isto diverge de Rabi Abba bar Kahana, pois disse Rabi Abba bar Kahana: até três gerações, a contaminação não cessou de nossos patriarcas: Avraham gerou Yishmael, Yitzchak gerou Esav; Yaakov gerou doze tribos, nas quais não havia defeito algum.
“E diverge” — isto que dissemos, que a contaminação não cessou até o Sinai.
Para Rabi Abba bar Kahana, a contaminação já havia cessado na linhagem dos patriarcas antes do Sinai: Avraham ainda gerou Yishmael e Yitzchak gerou Esav, mas todos os filhos de Yaakov eram íntegros. Isso contradiz a afirmação de que ela só cessou no monte Sinai.
MISHNÁ. Uma pessoa quebra o barril para comer dele figos secos, contanto que não tencione fazer um utensílio. E não se perfura a rolha de um barril, palavras de Rabi Yehuda; e os Sábios permitem. E não a perfure pelo seu lado. E, se estava perfurada, não ponha cera sobre ela, porque ele espalha. Disse Rabi Yehuda: um caso veio diante de Rabban Yochanan ben Zakai em Arav, e ele disse: temo por ele quanto a uma oferenda pelo pecado.
“Mishná. Uma pessoa quebra o barril” — cheio de figos secos, com uma faca ou com uma espada, para comer dele figos secos; pois em quem estraga não há proibição alguma no Shabat.
“Contanto que não tencione fazer um utensílio” — perfurá-lo bem, com uma abertura bonita.
“E não se perfura a rolha” — que está colada à boca do barril, para fazer um furo; mas toma-a inteira; pois, quando a perfura, prepara uma abertura.
“E os Sábios permitem” — pois não é assim o modo de fazer abertura para um barril.
“E não a perfure pelo seu lado” — na guemará se explica.
“Porque ele espalha” — e há aqui a proibição de memachek (alisar).
“Em Arav” — nome de uma cidade.
“Quanto a uma oferenda pelo pecado” — pois talvez tenha espalhado a cera para colá-la nas paredes do recipiente ao redor do furo.
Abre-se aqui uma nova mishná no meio do Perek Vinte e Dois, Chavit, sem abertura de capítulo: a estrutura de capítulos do Sefaria mantém o perek de 143b:1 a 148a:4. A mishná permite quebrar um barril para chegar aos figos secos, pois quem apenas estraga não transgride; o que se proíbe é fazer uma abertura bem-feita, que constituiria a criação de um utensílio. Rabi Yehuda proíbe perfurar a rolha, pois isso prepara uma abertura; os Sábios permitem, pois não é esse o modo de abrir um barril. Espalhar cera para tapar um furo é proibido, por ser alisamento.
GUEMARÁ. Disse Rabi Oshaya: não ensinaram senão figos prensados; mas soltos, não. E soltos, não?
“Guemará. Não ensinaram” — que se quebra o barril e se move a espada para isso.
“Senão prensados” — que os figos secos estão prensados num bolo, e corta-se dele com um machado ou com uma espada; e, já que move a espada para cortar os figos secos, quebra com ela também o barril.
“Mas soltos” — que não é necessário cortá-los: não mova a espada para quebrar o barril; pois a nossa mishná é segundo Rabi Nechemya, que disse: um utensílio não é tomado senão para o uso específico para ele, como se estabelece adiante.
Rabi Oshaya restringe a mishná: a espada só pode ser movida para quebrar o barril quando os figos estão prensados num bolo, pois então já se precisa dela para cortá-los. Se os figos estão soltos, a espada não seria necessária para o alimento, e movê-la apenas para abrir o barril é proibido segundo Rabi Nechemya.
Objetaram: Rabban Shimon ben Gamliel diz: uma pessoa traz o barril de vinho, corta-lhe a cabeça com uma espada e o põe diante dos convidados no Shabat, e não se preocupa! Aquela é segundo os Sábios; a nossa mishná é segundo Rabi Nechemya.
“E não se preocupa” — e ainda que o vinho não esteja ali para ser cortado.
“É segundo os Sábios” — que divergem de Rabi Nechemya e dizem: todos os utensílios são tomados para uma necessidade e sem necessidade.
A baraita permite usar a espada para abrir um barril de vinho, embora o vinho não precise ser cortado. A guemará responde que ela segue os Sábios, que permitem mover utensílios para qualquer fim, enquanto a mishná, conforme Rabi Oshaya, segue Rabi Nechemya.
E o que pressionou Rabi Oshaya a estabelecer a nossa mishná segundo Rabi Nechemya e em figos prensados? Que a estabeleça em figos soltos e segundo os Sábios! Disse Rava: a mishná lhe era difícil: por que, especificamente, ensina “figos secos”? Que ensine “frutas”! Antes, conclui-se disso: em prensados.
Rabi Oshaya poderia ter atribuído a mishná à maioria dos Sábios. Rava explica que a escolha da palavra figos secos indica que se trata de figos prensados, que exigem um instrumento para serem separados; se a mishná falasse de qualquer fruta, teria dito simplesmente frutas.
Foi ensinado numa baraita: cestos de figos secos e de tâmaras, desata-se, desfaz-se e corta-se. E foi ensinado em outra: desata-se, mas não se desfaz nem se corta! Não é difícil: esta é segundo os Sábios; esta, segundo Rabi Nechemya. Pois foi ensinado numa baraita: Rabi Nechemya diz: mesmo uma concha, mesmo um manto e mesmo uma faca não são tomados senão para a necessidade do seu uso.
“Cestos” — um recipiente de folhas de palmeira: fazem uma espécie de cestas e põem dentro delas tâmaras ruins para amadurecer.
“Desata-se” — se a cobertura está amarrada com uma corda.
“Mas não se desfaz” — desfazer as tranças da corda no recipiente.
“Nem se corta” — pois um utensílio não é tomado senão para a necessidade do seu uso, e a faca não é feita para isso.
As duas baraitot divergem sobre abrir os cestos trançados em que se guardavam figos e tâmaras. A que permite desfazer a trança e cortar segue os Sábios; a que só permite desatar o nó segue Rabi Nechemya, para quem até uma faca só pode ser movida para o seu uso próprio, que não é cortar cestos.
Perguntaram a Rav Sheshet: qual é a lei quanto a perfurar um barril com uma lança no Shabat? Tenciona fazer uma abertura, e é proibido; ou talvez tencione dar um olho bom, e é permitido? Disse-lhes: tenciona fazer uma abertura, e é proibido.
“Perfurar” — espetar; poindor, em língua estrangeira.
“Com uma lança” — com uma lança, para enfiá-la nas suas paredes para perfurá-lo.
Os alunos perguntam se quem espeta uma lança num barril pretende criar uma abertura, o que é proibido, ou apenas fazer o vinho jorrar generosamente para os convidados, o que seria permitido. Rav Sheshet entende que se trata de fazer uma abertura.
Objetaram: Rabban Shimon ben Gamliel diz: uma pessoa traz um barril de vinho e corta-lhe a cabeça com uma espada? Ali, certamente tenciona dar um olho bom; aqui, se fosse verdade que tenciona dar um olho bom, que o abra propriamente!
“Um olho bom” — alargar a saída do vinho com um furo grande, já que não o perfura ao modo dos que perfuram um furo redondo e bonito.
“Ali, certamente tenciona dar um olho bom” — pois alarga a sua boca abaixo da sua rolha, como ensina: “corta-lhe a cabeça”, isto é, a borda da sua boca.
“Que o abra propriamente” — que retire a sua rolha.
Rav Sheshet distingue: quem corta a parte de cima do barril com uma espada evidentemente quer servir o vinho com fartura, pois destrói a boca do barril; quem faz um furo com uma lança, se quisesse fartura, simplesmente retiraria a rolha, e por isso se presume que pretende fazer uma abertura.
A mishná ensinou: “E não se perfura a rolha” etc. Disse Rav Huna: a divergência é em cima; mas pelo lado, segundo as palavras de todos, é proibido; e é isso que ensina: “E não a perfure pelo seu lado”. E Rav Chisda disse: a divergência é pelo lado; mas sobre ela, segundo as palavras de todos, é permitido; e isto que ensina: “E não a perfure pelo seu lado”, ali trata-se do corpo do barril.
“Em cima” — no topo da rolha; ali é que os Sábios permitiram, pois não é costume fazer ali uma abertura, mas toma-se a rolha inteira.
“Mas pelo lado” — às vezes fazem-na como abertura, quando não se quer abri-lo em cima, para que não caia poeira ou detrito no vinho.
“É isso que ensina: E não a perfure pelo seu lado” — e refere-se à rolha, e é segundo as palavras de todos.
“A divergência é pelo lado” — ali é que Rabi Yehuda proíbe, porque há quem faça dela uma abertura.
Para Rav Huna, Rabi Yehuda e os Sábios divergem quanto a perfurar a rolha por cima, e todos proíbem perfurá-la pelo lado, pois às vezes se faz ali uma abertura permanente; a frase da mishná sobre o lado é a opinião de todos. Para Rav Chisda, a divergência é justamente sobre perfurar a rolha pelo lado, e por cima todos permitem; a frase da mishná sobre o lado refere-se ao próprio barril.
Os Sábios ensinaram: não se perfura um furo novo no Shabat; e, se vem acrescentar, acrescenta. E há quem diga: não se acrescenta. E concordam que se perfura um furo velho de início. E o primeiro tana: em que difere de um furo novo, que não é permitido, porque prepara uma abertura? Acrescentar também prepara uma abertura!
“Não se perfura um furo novo” — num recipiente.
“Um furo velho” — que foi tapado; pois, quando volta a abri-lo, não é como quem faz uma abertura, já que está feita e pronta, e a sua obstrução não é nada.
“Acrescentar também prepara uma abertura” — pois o alarga, e há aqui a proibição de conclusão do trabalho.
A baraita proíbe abrir um furo novo num recipiente no Shabat, mas permite reabrir um furo antigo que foi tapado, pois a abertura já existia. O primeiro tana permite também alargar um furo existente, e a guemará pergunta por que, se alargá-lo também é preparar uma abertura.
Disse Rabba: pela palavra da Torá, toda abertura que não é feita para introduzir e para retirar não é abertura; e foram os Sábios que decretaram por causa do galinheiro, que é feito para introduzir ar e para retirar o bafo. E, se vem acrescentar, acrescenta: acrescentar, certamente, num galinheiro, não se chega a acrescentar…
“O bafo” — o mau cheiro, para que as galinhas não morram.
“E, se vem acrescentar, acrescenta” — e não decretamos que talvez venha a acrescentar no galinheiro, pois ninguém acrescenta nele.
Rabba explica que, pela Torá, só é abertura proibida a que serve para entrar e sair, como a do galinheiro, que deixa entrar o ar e sair o mau cheiro; o furo do barril, que só serve para retirar o vinho, foi proibido apenas por decreto rabínico, por semelhança com o galinheiro. Por isso se permite alargar um furo existente: ninguém costuma alargar o furo de um galinheiro. A explicação prossegue em Shabbat 146b.