Shabbat 142b abre resolvendo, sem qualquer pausa, a pergunta deixada suspensa ao final de 142a: Rabi Yehuda de fato sustenta a opinião de Rabi Shimon ben Elazar, de que basta "pôr os olhos" numa porção do medumá para poder comer do restante? Uma baraita parece mostrar o contrário, citando as duas opiniões lado a lado como posições distintas: Rabi Yehuda permite elevar o medumá fisicamente, na proporção de um para cem; Rabi Shimon ben Elazar basta pôr os olhos, sem separação física. A guemará responde que, no fundo, as duas opiniões partilham o mesmo princípio, mas a de Rabi Yehuda vai além: precisamente porque pôr os olhos já basta para tornar lícito o restante, a separação física posterior nunca pode contar como consertar — e por isso Rabi Yehuda a permite ativamente. Encerrada essa questão, segue-se uma nova mishná, ainda dentro do mesmo capítulo: a pedra que está sobre a boca de um barril de vinho — inclina-se o barril sobre seu lado, e ela cai; se o barril estava entre outros barris, primeiro se levanta, afastando-o, e só então se inclina. Quanto a moedas sobre uma almofada: sacode-se a almofada, e elas caem; havendo sujeira de ave sobre ela, limpa-se com um trapo, se de tecido, ou com água, se de couro. A guemará restringe de imediato essa permissão: só vale quando a pedra ou as moedas foram esquecidas ali antes do Shabat, nunca quando colocadas de propósito — caso em que o barril ou a almofada se tornariam, eles mesmos, base para um objeto proibido. Busca-se a fonte dessa exigência de mover o permitido (o barril) em vez do proibido (a pedra) em Rabán Shimon ben Gamliel, através de uma mishná sobre selecionar legumes misturados com resíduo em Yom Tov; e, embora o barril pareça maior e mais fácil de manejar que a pedra, a guemará explica que a impossibilidade de extrair o vinho do fundo sem primeiro remover a pedra equivale, na prática, a um caso de resíduo mais abundante que o alimento — em que todos concordam em preservar o esforço apenas sobre o permitido. Rabi Yosei acrescenta dois casos especiais: o barril guardado num depósito cheio de outros barris, ou com utensílios de vidro colocados embaixo dele. A mesma distinção entre esquecer e colocar de propósito se repete quanto às moedas; e Rabá bar bar Chana, em nome de Rabi Yochanan, junto com uma baraita de Chiya bar Rav de Difti, ensina que, quando se precisa apenas do lugar da almofada, move-se-a inteira, com as moedas ainda sobre ela. Seguem-se os relatos paralelos de Rabi Oshaya, Rav Yitzchak, e Rabi Yehuda bar Sheila em nome de Rabi Asi, sobre uma bolsa, um tijolo e um alforje cheio de moedas esquecidos, movidos com o truque de colocar sobre eles um pão ou um bebê; Mar Zutra e Rav Ashi restringem essa permissão a quando o objeto foi de fato esquecido, e Rav Ashi limita o próprio truque do pão ou do bebê ao caso, ainda mais grave, de um cadáver. Por fim, o daf narra dois pequenos relatos pessoais: Abaie costumava colocar uma colher sobre feixes de cereal para poder movê-los, e Rava colocava uma faca sobre um pombo recém-abatido; diante da zombaria de Rav Yossef — "como são afiados os ensinamentos dos jovens!" —, cada um explica que, não fosse por ser pessoa importante, cuidadosa em não dar más impressões, nem precisaria do artifício, pois os feixes já servem para reclinar-se sobre eles, e o pombo já é próprio para se comer cru. A guemará então questiona se essa resposta de Rava — que o pombo cru serve de alimento humano — implica que ele sustenta a opinião de Rabi Yehuda, contrária à de Rabi Shimon, sobre mover algo que deixou de servir ao seu propósito original. O daf termina em meio a essa nova objeção, com um relato sobre Rava e seu servo em torno de um ganso assado — cuja resposta segue em Shabbat 143a, ainda não publicado.
(continuando de 142a:) A guemará objeta: mas Rabi Yehuda de fato discorda dele , de Rabi Shimon ben Elazar? Pois foi ensinado: Rabi Yehuda diz: eleva-se o medumá na proporção de um se'ah de teruma para cem se'ah de chulin. Rabi Shimon ben Elazar diz: a pessoa põe os olhos deste lado do medumá, e come do outro lado.
"Mas ele de fato discorda dele" — e disse Rabi Yehuda: já que é possível fazer o prazer do Shabat (oneg Shabat) desse modo, pondo os olhos deste lado e comendo do outro lado, não se eleva fisicamente a teruma.
Uma baraita traz as duas opiniões lado a lado, como se fossem posições distintas e concorrentes: Rabi Yehuda permite elevar fisicamente o medumá, separando dele a proporção equivalente à teruma; Rabi Shimon ben Elazar dispensa qualquer separação física, bastando "pôr os olhos" numa porção mental. Se são apresentadas como opiniões diferentes, parece que Rabi Yehuda de fato rejeita o método de Rabi Shimon ben Elazar — o que contradiz a última tentativa da guemará, ao final de 142a, de filiar a permissão de Rabi Yehuda precisamente a essa opinião.
Responde-se: a opinião de Rabi Yehuda vai além da opinião de Rabi Shimon ben Elazar.
"A opinião de Rabi Yehuda vai além" — é um pouco mais lenient que a de Rabi Shimon ben Elazar, e diz: já que a pessoa pode pôr os olhos deste lado e comer deste mesmo lado, não há consertar em sua elevação posterior, e por isso também se eleva fisicamente.
A resposta reconcilia as duas opiniões, mostrando que compartilham a mesma raiz: para ambas, o "pôr os olhos" mental já basta, por si só, para tornar lícito comer do restante, sem qualquer separação física. Mas Rabi Yehuda tira dessa premissa uma conclusão mais ousada: se a permissão de comer já existe antes de qualquer ato físico, então a separação física realizada depois nunca pode contar como consertar algo que já era permitido — e por isso, em vez de meramente dispensá-la, como faz Rabi Shimon ben Elazar, Rabi Yehuda a autoriza ativamente. Fecha-se assim, de modo satisfatório, a longa cadeia de tentativas iniciada ao final de 142a para filiar a posição de Rabi Yehuda a uma fonte tannaítica sólida.
Mishná: a pedra que está sobre a boca do barril de vinho — inclina-se o barril sobre seu lado, e ela cai. Se o barril estava entre outros barris — levanta-se o barril inteiro, afastando-o dali, e inclina-se sobre seu lado, e ela cai.
"Mishná: inclina-se sobre seu lado" — inclina-se o barril sobre seu lado, se a pessoa precisa tirar algo do vinho, e a pedra cai, e não a toma diretamente com as mãos.
"Se estava entre os barris" — e teme que a pedra, ao cair, atinja os outros barris e os quebre.
"Levanta-se" — o barril inteiro, e o remove de entre os outros barris, e ali o inclina sobre seu lado.
Encerrada a discussão sobre o filho, a pedra em sua mão e o cesto, uma nova mishná trata de um caso diferente de pedra muktzeh: uma pedra colocada sobre a boca de um barril de vinho, servindo talvez de tampa improvisada ou de peso. Como a pedra não pode ser tocada diretamente com as mãos, a solução é inclinar o barril inteiro até que ela caia por si mesma. Se o barril estiver entre outros barris, e houver risco de a pedra, ao cair, atingir e quebrar um deles, primeiro se levanta o barril inteiro, afastando-o para um espaço livre, e só então se inclina.
Moedas que estão sobre uma almofada — sacode-se a almofada, e elas caem. Se havia sobre ela sujeira de ave — limpa-se com um trapo. Se a almofada era de couro — coloca-se água sobre ela até que a sujeira se acabe.
"Sujeira" — alguma coisa nojenta, como saliva ou excremento de ave.
"Limpa-se com um trapo" — e não coloca água sobre ela, pois uma almofada comum é de tecido, e, para tecido, embebê-lo em água já é seu ato de lavar.
"Se a sujeira estava" sobre uma almofada de couro — que não está sujeita à proibição de lavar.
"Coloca-se água sobre ela até que se acabe" — mas não uma lavagem propriamente dita; e, como almofadas e mantas comuns são macias, cabe falar em "lavar" também quanto a couros macios; mas embebê-los não é, propriamente, seu ato de lavar — e assim está explicitado em Massechet Zevachim, no capítulo "Dam Chatat".
Segunda cláusula da mesma mishná: moedas espalhadas sobre uma almofada — também muktzeh — são removidas sacudindo a almofada, sem tocá-las diretamente; esta é exatamente a cláusula que Rava, ao final de 142a, usara como prova da leitura de Rav Chisda sobre necessidade do próprio objeto. A mishná acrescenta o caso de sujeira de ave deixada sobre a almofada: se ela é de tecido comum, limpa-se apenas com um trapo seco, pois molhá-la equivaleria ao ato proibido de lavar; se é de couro, que não está sujeito a essa proibição, pode-se despejar água até que a sujeira se dissolva e desapareça.
Guemará. Disse Rav Huna, disse Rav: não se ensinou essa permissão de inclinar o barril senão quando a pessoa esqueceu a pedra ali, antes de o Shabat entrar; mas, quando a colocou ali de propósito, o barril se torna base para um objeto proibido , ficando ele mesmo proibido de mover por completo.
"Guemará: não se ensinou" — a permissão de inclinar o barril sobre seu lado.
"Senão quando esqueceu" — que esqueceu a pedra sobre ele no crepúsculo (bein hashemashot), e não de propósito.
"O barril se torna base para um objeto proibido" — e é proibido inclinar o barril, pois também ele fica proibido, como muktzeh.
A guemará abre a discussão da nova mishná restringindo drasticamente seu alcance: a permissão de inclinar o barril até que a pedra caia só vale quando ela foi esquecida ali antes de o Shabat começar, sem intenção prévia. Se, ao contrário, alguém a colocou ali de propósito — sabendo que ficaria durante o Shabat —, o barril inteiro se torna, ele mesmo, "base para um objeto proibido", categoria que, como no caso do cesto discutido em 142a, torna todo o utensílio proibido de mover, mesmo inclinando-o com cuidado.
A Mishná ensinou: "se estava entre os barris etc." A guemará pergunta: quem é o tanna que sustenta essa mishná, segundo o qual, em todo lugar onde há um objeto proibido e um permitido, esforçamo-nos fisicamente pelo permitido, mas não nos esforçamos pelo proibido?
"Quem é o tanna" — da mishná, que ensina "levanta-se, e inclina-se sobre seu lado", segundo o qual, quando a pessoa se esforça, esforça-se com o barril, que é permitido, e não toma a pedra propriamente, que é proibida — embora, mesmo assim, a pedra acabe sendo movida junto com o barril.
A mishná exige levantar o barril inteiro — esforço consideravelmente maior — em vez de simplesmente tomar a pedra diretamente com a mão, o que seria muito mais fácil, mas proibido, pois a pedra é muktzeh. A guemará busca identificar a quem pertence essa posição, segundo a qual se prefere qualquer esforço, por maior que seja, com um objeto permitido, a um esforço mínimo com um objeto proibido.
Disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: é a opinião de Rabán Shimon ben Gamliel. Pois ensinamos numa Mishná: quem seleciona grãos e legumes misturados com resíduo em Yom Tov — Bet Shamai diz: seleciona apenas o alimento, e come. E Bet Hilel diz: seleciona como faz habitualmente, seja em seu colo, seja numa travessa.
"Rabán Shimon" — fala conforme Bet Hilel.
"Seleciona apenas o alimento, e come" — toma o alimento, e o resíduo permanece no recipiente.
"Seleciona como faz habitualmente" — toma o resíduo e deixa o alimento, se quiser.
Rabi Yochanan identifica a posição da mishná com Rabán Shimon ben Gamliel, apoiando-se numa mishná diferente, sobre selecionar grãos e legumes misturados com resíduo em Yom Tov. Bet Shamai restringe a atividade permitida: só se pode tomar diretamente o alimento, deixando o resíduo no lugar; Bet Hilel é mais flexível, permitindo selecionar do modo habitual — inclusive tomando o resíduo e deixando o alimento, se essa for a maneira mais conveniente naquele momento.
E foi ensinado: disse Rabán Shimon ben Gamliel: quando isso , a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel, se disse — foi quando o alimento é mais abundante que o resíduo. Mas, quando o resíduo é mais abundante que o alimento — segundo todos , inclusive Bet Hilel, seleciona-se apenas o alimento.
"Quando o alimento é mais abundante que o resíduo" — pois, se toma o alimento em vez do resíduo, aumenta seu esforço.
"Segundo todos, seleciona-se apenas o alimento" — pois a pessoa se esforça com o permitido, e não com o proibido; e objetamos: mas aqui, na mishná do barril, o alimento (o barril) é mais abundante que o resíduo (a pedra), e, quando se levanta a pedra junto com o barril, esforça-se mais — e deveria, então, tomar o resíduo diretamente, conforme a lógica de Rabi Shimon ben Gamliel, no caso em que o alimento é mais abundante.
Rabán Shimon ben Gamliel qualifica a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel: ela vale apenas quando o alimento é mais abundante que o resíduo, caso em que Bet Hilel permite maior flexibilidade. Mas, quando o resíduo é mais abundante que o alimento, todos concordam — inclusive Bet Hilel — que se deve selecionar apenas o alimento, deixando o resíduo para trás, precisamente para não desperdiçar esforço com o que será descartado.
A guemará objeta: mas isto aqui , o caso do barril, é semelhante a quando o alimento é mais abundante que o resíduo — pois o barril, que é permitido, é maior e mais pesado que a pedra, e é mais fácil mover apenas a pedra; e, nesse caso, mesmo Bet Hilel permitiria selecionar como de costume, inclusive tomando o resíduo diretamente!
A guemará levanta a dificuldade: no caso do barril, o objeto permitido (o barril) é claramente maior, mais pesado e mais difícil de mover do que o objeto proibido (a pedra); a situação deveria, então, corresponder a "alimento mais abundante que o resíduo" — caso em que Bet Hilel permitiria a maneira mais fácil, isto é, tomar a pedra diretamente. Mas a mishná exige, ao contrário, levantar o barril inteiro — o que parece contradizer a identificação com Rabán Shimon ben Gamliel proposta por Rabi Yochanan.
Responde-se: aqui também, já que, se a pessoa quer tomar o vinho, não consegue tomá-lo até que remova a pedra — é semelhante a um caso em que o resíduo é mais abundante que o alimento , pois, de um modo ou de outro, ela precisará afinal levantar o barril inteiro.
"Já que, se quer tomar" — todo o vinho do barril, não consegue tomar o vinho que está em seu fundo até que remova a pedra e levante o barril; é semelhante a resíduo mais abundante, pois, se no início não levanta o barril, no final das contas precisará levantá-lo de qualquer modo; por isso, adiar isso resultaria em mais esforço ao todo.
Esta é a versão correta: "não consegue tomá-lo até que o remova"; e não se lê "até que remova a pedra".
A guemará resolve a dificuldade mostrando que o que importa não é o volume relativo entre barril e pedra, mas o fato prático de que não se consegue, de modo algum, extrair o vinho do fundo do barril sem primeiro remover a pedra e levantar o barril inteiro. Como esse esforço maior é inevitável de qualquer forma, a situação equivale, na prática, a "resíduo mais abundante que o alimento" — caso em que até Bet Hilel concorda em preservar o esforço apenas sobre o permitido, movendo o barril inteiro em vez de tomar a pedra diretamente.
A Mishná ensinou: "se estava entre os barris — levanta-se o barril". Foi ensinado: Rabi Yosei diz: se o barril estava colocado num depósito , entre muitos outros barris amontoados, ou havia utensílios de vidro colocados sob ele — levanta-se o barril para outro lugar, e inclina-se sobre seu lado, e ela , a pedra, cai, e toma-se dele o que a pessoa precisa, e devolve-se o barril a seu lugar.
"O barril estava colocado num depósito" — isto é, num lugar reunido, onde se armazenam ali muitos barris, e a pessoa teme que, ao inclinar, a pedra caia sobre o barril vizinho.
Rabi Yosei acrescenta dois casos em que, mesmo sem o barril estar literalmente "entre" outros barris, ainda assim é preciso primeiro levantá-lo e afastá-lo antes de inclinar: quando está guardado num depósito cheio de outros barris amontoados, ou quando há vasilhas de vidro frágeis colocadas embaixo dele — em ambos os casos, a pedra, ao cair, poderia atingir e quebrar algo próximo. Depois de mover o barril para um lugar seguro, inclina-se, deixa-se a pedra cair, toma-se o vinho necessário, e devolve-se o barril a seu lugar original.
A Mishná ensinou: "moedas que estão sobre uma almofada etc." Disse Rav Chiya bar Ashi, disse Rav: não se ensinou essa permissão de sacudir senão quando a pessoa esqueceu as moedas ali; mas, quando as colocou ali de propósito, a almofada se torna base para um objeto proibido , ficando ela mesma proibida de mover por completo.
A mesma regra do barril se repete quanto às moedas: a permissão de sacudir a almofada para que elas caiam só se aplica quando foram esquecidas ali antes do Shabat; se foram colocadas de propósito, a almofada inteira se torna base para um objeto proibido, ficando proibida de mover mesmo sem tocar diretamente nas moedas.
Disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: não se ensinou que apenas se sacode a almofada senão quando se precisa dela por necessidade do próprio objeto , para usá-la; mas, quando se precisa dela por necessidade de seu lugar — move-se-a diretamente, ainda com as moedas sobre ela. E, do mesmo modo, ensinou Chiya bar Rav de Difti: não se ensinou senão quando se precisa por necessidade do próprio objeto; mas, quando se precisa por necessidade de seu lugar — move-se-a, ainda com as moedas sobre ela.
Esta é a mesma distinção — necessidade do próprio objeto versus necessidade de seu lugar — que Rav Chisda aplicara, em 142a, à teruma impura movida junto com a pura, e que Rava confirmara precisamente por esta cláusula da mishná sobre as moedas na almofada. Aqui a guemará traz a fonte explícita: quando se precisa da própria almofada, para deitar-se sobre ela ali mesmo, basta sacudi-la em seu lugar; mas, quando se precisa apenas liberar o lugar onde ela está, move-se o conjunto todo, moedas incluídas, sem necessidade de separá-las primeiro.
A Mishná ensinou: "moedas que estão sobre uma almofada — sacode-se etc." Disse Rabi Oshaya: alguém que esqueceu uma bolsa de moedas no pátio — coloca sobre ela um pão ou um bebê, e a move. Disse Rav Yitzchak: alguém que esqueceu um tijolo (com dinheiro escondido dentro) no pátio — coloca sobre ele um pão ou um bebê, e o move. Disse Rabi Yehuda bar Sheila, disse Rabi Asi: certa vez esqueceram um alforje cheio de moedas numa via pública, e vieram e perguntaram a Rabi Yochanan, e ele lhes disse: coloquem sobre ele um pão ou um bebê, e o movam.
Três relatos paralelos ilustram o mesmo recurso: quando dinheiro ou um objeto muktzeh valioso foi esquecido, sem intenção, num lugar exposto durante o Shabat, é permitido colocar sobre ele um objeto plenamente permitido — um pão, ou até mesmo um bebê — e mover o conjunto todo, servindo o objeto muktzeh de mera "base" para o permitido colocado por cima. O terceiro caso, envolvendo um alforje esquecido numa via pública, foi trazido como pergunta prática a Rabi Yochanan, que confirmou a mesma solução.
Disse Mar Zutra: a halachá segue todos esses ensinamentos (os relatos de Rabi Oshaya, Rav Yitzchak e Rabi Asi) apenas quando o objeto foi esquecido. Rav Ashi disse: mesmo quando esquecido também não se permite esse recurso — e não disseram o truque do pão ou do bebê senão para um cadáver apenas.
Mar Zutra fixa a halachá conforme os três relatos anteriores, mas limita-a estritamente ao caso de esquecimento genuíno — nunca quando o dinheiro foi deixado ali de propósito, na véspera do Shabat, contando em usar o artifício no dia seguinte. Rav Ashi vai ainda mais longe, restringindo o próprio recurso do pão ou do bebê a um único caso, ainda mais grave: mover um cadáver, permitido por respeito à dignidade humana, mesmo quando exposto ao sol — mas não a dinheiro esquecido, por mais valioso que seja.
Abaie costumava colocar uma colher sobre feixes de cereal, para poder movê-los. Rava costumava colocar uma faca sobre um pombo recém-abatido, e movê-lo. Disse Rav Yossef , zombando: como são afiados os ensinamentos dos jovens! Diga-se que os sábios disseram esse recurso apenas quando o objeto foi esquecido; disseram-no também de antemão , como prática deliberada?!
"Abaie coloca colher sobre feixes" — coloca uma colher sobre os feixes de cereal colhidos, para movê-los em virtude da colher.
"Pombo" — vivo , abatido mas ainda sem sal , ou seja, cru.
"Como são afiados os ensinamentos dos jovens" — Rav Yossef zomba, pensando que eles (Abaie e Rava) se julgam afiados.
"Diga-se que os sábios disseram" — esse recurso quanto à bolsa e ao alforje, colocando sobre eles um pão ou um bebê, apenas em caso de esquecimento, e num lugar exposto, e por causa da perda de dinheiro.
A guemará traz dois hábitos pessoais: Abaie colocava uma colher sobre feixes de cereal recém-colhidos para poder movê-los, valendo-se do princípio de "base"; Rava fazia o mesmo com uma faca sobre um pombo recém-abatido. Rav Yossef zomba da prática, comparando-os a jovens estudantes que se acham espertos: os sábios permitiram esse artifício apenas para casos de esquecimento genuíno de um objeto valioso e exposto ao risco de perda — nunca como prática deliberada e recorrente, planejada de antemão.
Disse Abaie: se eu não fosse pessoa importante, para que precisaria colocar a colher sobre os feixes? Ora, eles já servem para reclinar-se sobre eles , e por isso já seriam permitidos de mover sem qualquer artifício!
"Disse Abaie" — eu, de fato, moveria bem os feixes mesmo sem colher.
"Se eu não fosse pessoa importante" — e eu não fosse rigoroso comigo mesmo, para que não aprendam de mim a ser leniente quanto às proibições.
"Para que precisaria colocar a colher sobre os feixes" — mesmo sem a colher, também seria permitido movê-los, pois eles já servem para reclinar-se sobre eles.
Abaie responde que a colher não era, de fato, necessária do ponto de vista estritamente legal: os próprios feixes já são permitidos de mover, pois servem para uma pessoa sentar-se ou reclinar-se sobre eles — uso que já os torna um objeto útil por si mesmo, não muktzeh. Ele colocava a colher apenas por escrúpulo pessoal, sendo pessoa de destaque cujo exemplo poderia ser seguido sem o discernimento devido, levando outros a mover objetos genuinamente proibidos.
Disse Rava: eu, se não fosse pessoa importante — para que precisaria colocar a faca sobre o pombo? Ora, ele já é próprio para mim comer como carne crua!
"Como carne crua" — para comê-lo cru no Shabat, pois há pessoas de bom paladar que comem carne crua, e a chamam de "umtza".
Rava dá a mesma resposta, quanto ao pombo recém-abatido: por si mesmo, ele já é apto ao consumo humano imediato, como carne crua — alimento que algumas pessoas de paladar refinado de fato apreciam. Sendo assim, o pombo nunca deixou de ter utilidade direta para uma pessoa, e por isso já seria permitido movê-lo sem qualquer artifício; a faca era apenas um cuidado adicional de sua parte, por ser figura pública e temer más impressões.
A guemará observa: a razão de ser permitido mover o pombo é que ele é próprio para comer como carne crua; mas, se não fosse próprio para carne crua — não seria permitido movê-lo. A guemará pergunta: isso quer dizer que Rava sustenta a opinião de Rabi Yehuda , segundo o qual algo que deixou de servir a seu propósito original para o homem torna-se muktzeh e proibido de mover, mesmo servindo agora apenas a um animal?
"Mas, se não fosse próprio para carne crua — não" — mesmo que fosse próprio para o gato, pois dizemos que aquilo que está preparado (muchan) para o homem não está automaticamente preparado para os cães e outros animais.
"Conforme Rabi Yehuda" — como se ensina em Massechet Beitzá (folha 6b).
A guemará observa que a própria justificativa de Rava — o pombo é permitido porque serve de carne crua para o homem — implica que, se não servisse a esse propósito humano (mesmo servindo ainda a um animal, como um gato), ele seria proibido de mover. Mas essa é precisamente a posição de Rabi Yehuda, discutida em Massechet Beitzá: um objeto que deixou de ter utilidade para o homem se torna muktzeh, mesmo que ainda sirva de alimento a um animal — pois "o que está preparado para o homem não está preparado para os animais". Essa posição é disputada por Rabi Shimon, que permite mover o objeto contanto que sirva a algum propósito, mesmo animal. A pergunta, então, é se Rava realmente adota essa posição mais restritiva de Rabi Yehuda.
A guemará objeta: mas não disse Rava a seu servo , num Yom Tov: assa para mim um ganso, e joga suas vísceras ao gato ? — permitindo mover as vísceras não porque servissem ao homem, mas apenas porque serviam ao gato, contrariando a posição de Rabi Yehuda...
"Assa para mim um ganso" — num Yom Tov.
"E joga suas vísceras ao gato" — eis que Rava as move por causa do gato, embora agora as vísceras não sejam próprias ao homem, pois não é costume comê-las num Yom Tov; mas, na véspera, elas estavam destinadas ao homem.
O daf 142b termina exatamente aqui, com uma objeção ainda sem resposta: o próprio Rava, em outra ocasião, mandou seu servo jogar as vísceras de um ganso ao gato — movendo-as por causa de sua utilidade para o animal, não para o homem, o que pareceria contradizer a posição restritiva de Rabi Yehuda que a pergunta anterior lhe atribuíra. Como ocorreu ao final de 141b e de 142a, a divisão tradicional das folhas do Talmud não coincide com o fim desta unidade de pensamento — a resposta segue no início de Shabbat 143a, ainda não publicado neste site, onde também se encontra, em 143a:15, o encerramento do Perek Vinte e Um (Notel Adam et Beno) e a abertura do capítulo seguinte.