Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah)
אִם אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל

A resposta de Ravina sobre a mãe desposada em dúvida; a versão divergente de Rav Sherevya; e, retomando a Mishná, por que o androginus não é avaliado nos votos de arachin

Shabbat 136b · continuação direta de 136a, ainda no Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah); sem nova Mishná

Shabbat 136b abre exatamente onde 136a foi interrompido, completando a frase cortada — "disse Ravina, em nome de Rava" — com o conteúdo de sua resposta ao caso da mãe viúva desposada por outro homem antes de se resolver a dúvida sobre seu filho, morto dentro de trinta dias. Ravina distingue: se ela desposou um israelita, realiza chalitzá por causa da dúvida — pois talvez a criança fosse um nefel, e ela ainda estivesse sujeita ao levirato —, e depois pode permanecer com o novo marido; mas, se desposou um cohen, não realiza chalitzá, pois isso a tornaria proibida a ele, e os sábios apoiam-se na opinião dos rabanan para tratá-la como tendo tido um filho viável, isentando-a do levirato sem necessidade de chalitzá. Rav Sherevya, também em nome de Rava, transmite uma versão diferente da tradição: em ambos os casos, tanto a esposa do israelita quanto a do cohen, ela realiza chalitzá, pois a proibição de permanecer casada sem se libertar do vínculo do levirato é rigorosa, e não se afrouxa por causa do status sacerdotal do novo marido. Ravina explica a discrepância entre as duas versões dizendo que Rava, de fato, dissera à noite o que Rav Sherevya relata, mas pela manhã seguinte retratou-se, chegando à distinção que Ravina havia transmitido. Rav Sherevya não aceita essa explicação, e repreende Ravina ironicamente: já que permitiste a esposa do cohen permanecer casada sem chalitzá, transgredindo contra a opinião de Raban Shimon ben Gamliel (que trata a criança como nefel em caso de dúvida), que seja da vontade de Deus que também permitas comer gordura proibida. A guemará então volta à Mishná deste mesmo perek — que registrou, em 135a, que Rabi Yehuda permite circuncidar o androginus em Shabat, tratando-o como macho — e Rav Sheizvi, em nome de Rav Chisda, esclarece que essa opinião de Rabi Yehuda vale apenas quanto à milá, e não para todos os efeitos: se o androginus fosse considerado macho em tudo, ele também seria avaliado segundo a tabela de avaliação masculina nos votos de arachin (avaliação de pessoas consagradas ao Templo). A prova de que o androginus não é avaliado nem como homem, nem como mulher, vem de uma baraita do Sifra sobre os versículos de Vayikrá 27:3–4: o texto especifica "o macho" e "se for fêmea", indicando apenas o macho certo e a fêmea certa — excluindo o tumtum e o androginus, que não se encaixam em nenhuma das duas categorias. O daf, breve, se encerra ao final dessa prova do Sifra, retomada em Shabbat 137a, onde a guemará identifica o autor anônimo dessa baraita como sendo o próprio Rabi Yehuda.

A resposta de Ravina, em nome de Rava · אִם אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל הִיא

1202Ravina, em nome de Rava: esposa de israelita realiza chalitzá; esposa de cohen não realiza
Ravina, em nome de Rava
אִם אֵשֶׁת יִשְׂרָאֵל הִיא — חוֹלֶצֶת. אִם אֵשֶׁת כֹּהֵן הִיא — אֵינָהּ חוֹלֶצֶת.

(Completando a frase cortada ao final de 136a — "disse Ravina, em nome de Rava":) se ela (a mãe viúva, desposada por outro homem antes de se resolver a dúvida sobre seu filho, morto dentro de trinta dias) é esposa de um israelita (isto é, se o homem que a desposou não é cohen) — ela realiza chalitzá (por causa da dúvida, e depois permanece com o novo marido). Se ela é esposa de um cohen — ela não realiza chalitzá (pois, se a realizasse, ficaria proibida a ele).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "im eshet Israel hi" e "cholletzet"
אם אשת ישראל היא - אם אינו כהן זה שנתקדשה לו ומותר בחלוצה: חולצת - מן הספק ואח"כ תנשא ואם כהן הוא שאם תחלוץ תהא אסורה לו סמכינן אדרבנן ואמרינן לאו נפל הוא ואינה חולצת:

"Se ela é esposa de um israelita" — se aquele a quem ela se desposou não é cohen, e é permitido a ele desposar uma mulher que passou por chalitzá.

"Realiza chalitzá" — por causa da dúvida, e depois se casa (com o novo marido). E se o novo marido é cohen — pois, se ela realizasse chalitzá, ficaria proibida a ele —, apoiamo-nos nos rabanan (que discordam de Raban Shimon ben Gamliel) e dizemos que a criança não é nefel, e ela não realiza chalitzá.

Nota — continuação direta de 136a

Este daf abre completando a frase interrompida ao final de 136a, que introduzia a resposta de Ravina, em nome de Rava, ao caso de uma mãe viúva cujo filho recém-nascido morreu dentro de trinta dias — deixando em aberto se ela estava isenta do levirato — e que, antes de essa dúvida se resolver, se deixou desposar por outro homem. Ravina distingue conforme o status do novo marido: se israelita, ela realiza chalitzá para dissipar a dúvida remanescente, mas depois permanece legitimamente com ele; se cohen, para quem a chalitzá seria fatal ao casamento, os sábios preferem apoiar-se na opinião que trata a criança como plenamente viável, dispensando-a da chalitzá.

1203Rav Sherevya, em nome de Rava: em ambos os casos, ela realiza chalitzá
Rav Sherevya, em nome de Rava
וְרַב שֵׁרֵבְיָא מִשְּׁמֵיהּ דְּרָבָא אָמַר: אַחַת זוֹ וְאַחַת זוֹ — חוֹלֶצֶת.

E Rav Sherevya, em nome de Rava, disse uma versão diferente: tanto esta (a esposa do israelita) quanto aquela (a esposa do cohen)em ambos os casos, ela realiza chalitzá.

Nota

A guemará registra uma segunda tradição, também atribuída a Rava, mas transmitida por Rav Sherevya: nela, não há distinção conforme o status do novo marido — em ambos os casos, a mãe deve realizar chalitzá, pois a proibição de permanecer casada sem se libertar formalmente do vínculo do levirato prevalece, mesmo ao custo de proibi-la a um marido cohen.

1204Ravina: Rava retratou-se pela manhã; Rav Sherevya, sem aceitar, repreende-o ironicamente
Ravina; Rav Sherevya
אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא לְרַב שֵׁרֵבְיָא: בְּאוּרְתָּא אֲמַר רָבָא הָכִי, לְצַפְרָא הֲדַר בֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ שְׁרִיתוּהָ? יְהֵא רַעֲוָא דְּתִשְׁרוֹ תַּרְבָּא.

Disse-lhe Ravina a Rav Sherevya: à noite, Rava de fato disse assim (como tu dizes, que em ambos os casos ela realiza chalitzá); pela manhã, ele retratou-se (e chegou à distinção que eu transmiti, entre esposa de israelita e esposa de cohen). Disse-lhe Rav Sherevya, sem aceitar a explicação: liberaste-a (a esposa do cohen, sem chalitzá)? Que seja da vontade de Deus que libereis também a gordura proibida para comer!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "le'urta amar Rava hachi", "ultzafra hadar beih" e "sheritucha"
לאורתא אמר רבא הכי - כדקאמרת דאחת זו ואחת זו חולצת: ולצפרא הדר ביה - ואמר אשת כהן אינה חולצת: אמר ליה - רב שרביא לרבינא: שריתוה - בלא חליצה ועבריתו אדרבן שמעון יהא רעוא דתשרון חלב באכילה:

"À noite, Rava disse assim" — conforme dizes, que tanto esta quanto aquela realiza chalitzá.

"E pela manhã ele retratou-se" — e disse que a esposa de um cohen não realiza chalitzá.

"Disse-lhe" — Rav Sherevya a Ravina.

"Liberaste-a" — sem chalitzá, e transgredistes contra Raban Shimon ben Gamliel; que seja da vontade de Deus que libereis também a gordura proibida para comer (uma repreensão irônica, sugerindo que, se se permitem afrouxar uma proibição séria, logo se permitirão afrouxar qualquer outra).

Nota

Ravina tenta harmonizar as duas tradições explicando que Rava mudou de posição entre a noite e a manhã seguinte, chegando finalmente à distinção que Ravina transmitiu em seu nome. Rav Sherevya não aceita a explicação, e responde com uma repreensão irônica: ao permitir que a esposa do cohen permaneça casada sem chalitzá — indo contra a opinião mais rigorosa de Raban Shimon ben Gamliel, que trataria a criança como possível nefel —, Ravina estaria, na visão de Sherevya, abrindo um precedente perigoso de leniência, como se em seguida fosse também permitir o consumo de gordura proibida.

Retomando a Mishná: por que o androginus não é avaliado nos votos de arachin · רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר

1205Rav Sheizvi, em nome de Rav Chisda: Rabi Yehuda considera o androginus macho apenas quanto à milá — senão, seria avaliado nos votos de arachin
Rav Sheizvi, em nome de Rav Chisda
רַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר וְכוּ׳. אָמַר רַב שֵׁיזְבִי אָמַר רַב חִסְדָּא: לֹא לַכֹּל אָמַר רַבִּי יְהוּדָה אַנְדְּרוֹגִינוֹס זָכָר הוּא, שֶׁאִם אַתָּה אוֹמֵר כֵּן, בַּעֲרָכִין יֵעָרֵךְ!

Aprendemos na Mishná, em 135a: "Rabi Yehuda permite circuncidar o androginus em Shabat", etc. Disse Rav Sheizvi, em nome de Rav Chisda: não a respeito de tudo disse Rabi Yehuda que o androginus é macho — pois, se dissesses que sim a respeito de tudo, ele também seria avaliado nos votos de avaliação (arachin — pois, segundo Vayikrá 27, aquele que faz um voto de avaliação sobre um homem paga uma quantia fixa segundo sua idade)!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lo lakol amar Rabi Yehuda", "she'im ata omer" e "ba'arachin ye'arech"
לא לכל אמר ר"י - לא לכל דבר אמר ר"י דאנדרוגינוס זכר הוא אלא לענין מילה בלבד דיליף ליה מריבויא דקרא כדלקמן: שאם אתה אומר - זכר הוא לכל דבר: בערכין יערך - האומר ערכו עלי יעריכהו:

"Não a respeito de tudo disse Rabi Yehuda" — não a respeito de toda questão disse Rabi Yehuda que o androginus é macho, mas apenas quanto à milá, pois essa regra ele deriva de uma inclusão do versículo, como se explicará mais adiante.

"Pois, se dissesses" — que o androginus é macho a respeito de tudo.

"Seria avaliado nos votos de avaliação" — aquele que diz "seu valor está sobre mim" a respeito do androginus o avaliaria segundo a tabela de avaliação masculina.

Nota

A guemará retoma aqui a Mishná deste mesmo perek (já citada em 135a), que registra a opinião de Rabi Yehuda de que o androginus (nascido com características de ambos os sexos) tem status de macho, e por isso sua circuncisão afasta o Shabat. Rav Sheizvi, em nome de Rav Chisda, esclarece que essa classificação vale apenas para a questão da milá, derivada de uma leitura específica do verso, e não se estende a todas as áreas da halachá — pois, se o androginus fosse tratado como macho em tudo, ele também deveria ser avaliado segundo a tabela fixa de avaliação masculina nos votos de arachin (consagração do valor de uma pessoa ao Templo, segundo Vayikrá 27:1-8), o que a guemará mostrará não ser o caso.

1206Prova do Sifra: "o macho" e "se for fêmea" excluem o tumtum e o androginus, que não são macho certo nem fêmea certa
Anônimo da guemará (baraita do Sifra)
וּמְנָלַן דְּלָא מִיעֲרַךְ? דְּתַנְיָא: ״הַזָּכָר״ — וְלֹא טוּמְטוּם וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס. יָכוֹל לֹא יְהֵא בְּעֵרֶךְ אִישׁ אֲבָל יְהֵא בְּעֵרֶךְ אִשָּׁה — תַּלְמוּד לוֹמַר: ״הַזָּכָר״, ״וְאִם נְקֵבָה הִיא״. זָכָר וַדַּאי, נְקֵבָה וַדָּאִית — וְלֹא טוּמְטוּם וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס.

E de onde sabemos que o androginus não é avaliado nos votos de arachin? Pois foi ensinado numa baraita, no Sifra: "o macho" (Vayikrá 27:3) — e não o tumtum (cujo sexo é indeterminado por estar encoberto) e o androginus. Poderias pensar que ele não estaria na avaliação de homem, mas estaria na avaliação de mulher — o texto ensina: "o macho", "e se ela for fêmea" (ibid. 27:4) — macho certo, fêmea certa — e não o tumtum e o androginus.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hazachar"
הזכר - ה' יתירא קדריש וגבי נקבה דריש ואם יתירא ולא טומטום ואנדרוגינוס:

"O macho" — interpreta-se o artigo "hê" excedente (no hebraico, "ha-zachar" em vez de simplesmente "zachar"); e, quanto à fêmea, interpreta-se o "e se" excedente — e ambos excluem o tumtum e o androginus.

Nota

A guemará traz a prova textual: uma baraita do Sifra (a midrash halachica de Vayikrá) interpreta as palavras excedentes dos versículos sobre os votos de arachin — "o macho" e "e se ela for fêmea" — como restringindo a avaliação fixa apenas ao macho certo e à fêmea certa, excluindo tanto o tumtum quanto o androginus, cujo sexo não se enquadra com certeza em nenhuma das duas categorias. O daf se encerra ao final dessa prova; a guemará prosseguirá em 137a identificando o autor anônimo dessa baraita do Sifra como o próprio Rabi Yehuda.

O daf termina aqui, ao final da prova trazida do Sifra sobre a exclusão do tumtum e do androginus dos votos de avaliação. Diferentemente do corte abrupto ao final de 135b e de 136a, este é o fim natural da unidade argumentativa — mas a guemará prossegue diretamente em Shabbat 137a, identificando o autor anônimo dessa baraita do Sifra como o próprio Rabi Yehuda, antes de passar a três novas Mishnayot ainda dentro deste mesmo perek.