Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah)
מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן

Nova Mishná: lavar o bebê antes e depois da milá, borrifando com a mão; a guemará sobre o estilo "como", a opinião de Rava e seu episódio de doença; halachá como Rabi Elazar ben Azarya; água quente sobre a ferida; retomada da Mishná sobre dúvida e andrógino

Shabbat 134b · segue diretamente 134a, ainda no Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah); abre-se aqui uma nova Mishná

Shabbat 134b abre com uma nova Mishná, ainda dentro do Perek Yud-Tet: é permitido lavar o bebê tanto antes quanto depois da milá, mas borrifar água quente sobre ele só se faz com a mão, nunca com um recipiente; Rabi Elazar ben Azarya acrescenta que, no terceiro dia após a milá — dia de maior risco, como se depreende do episódio bíblico dos homens de Shechem, feridos pela dor no terceiro dia —, permite-se até mesmo lavá-lo normalmente, ainda que esse dia caia em Shabat. A Mishná ensina ainda que, em caso de dúvida sobre a obrigação da milá, e no caso de um andrógino, não se profana o Shabat, exceto, segundo Rabi Yehuda, para circuncidar o andrógino. A guemará questiona de imediato a Mishná: se a primeira cláusula já permite "lavar", por que a segunda restringe a "borrifar com a mão"? Rav Yehuda e Rabá bar Avuh explicam que a Mishná é ensinada no estilo "como", em que a segunda cláusula apenas esclarece a primeira — ou seja, "lavar" sempre significou "borrifar com a mão". Rava discorda, propondo que a Mishná descreve duas situações distintas: lavagem normal no primeiro dia, e apenas borrifar no terceiro dia (se este cair em Shabat) — leitura sustentada por uma beraita, que acrescenta que o borrifar nunca se faz com copo, tigela ou qualquer recipiente. Questiona-se por que a beraita chama o versículo de Shechem de mera "alusão", e não prova plena, respondendo-se que a carne do adulto não sara tão rápido quanto a do bebê. Narra-se então que Rava, tendo decidido um caso segundo sua própria opinião mais permissiva, adoeceu e temeu ter sido punido por discordar dos anciãos Rav Yehuda e Rabá bar Avuh; embora os Sábios o consolem citando a beraita a seu favor, Rava responde que a própria Mishná, lida com precisão — a partir da formulação exata da resposta de Rabi Elazar ben Azarya —, sustenta a opinião dos anciãos, e não a sua. Rav Dimi traz de Eretz Israel que a halachá segue Rabi Elazar ben Azarya; discute-se no Ocidente se isso vale para lavar todo o corpo do bebê ou apenas o local da milá, e Rabi Ya'akov argumenta pelo corpo todo, comparando com a permissão de colocar água quente sobre qualquer ferida em Shabat. Uma sequência de objeções sobre água aquecida em Shabat versus na véspera é resolvida por Rav Yosef com o argumento do perigo ao bebê, e a halachá é finalmente estabelecida, por tradição de Ravin, como Rabi Elazar ben Azarya, em toda combinação possível. Discute-se então o tema em si — colocar água quente e azeite sobre uma ferida —, com a disputa entre Rav (permite diretamente) e Shmuel (exige colocar fora da ferida, deixando escorrer); e uma beraita que distingue chumaço e esponja secos (permitidos) de junco e trapos secos (proibidos), contradição resolvida pela distinção entre trapos novos, que efetivamente curam a ferida e por isso são proibidos por decreto contra tratamentos medicinais, e trapos velhos, que não curam e por isso são permitidos. O daf se encerra retomando a Mishná sobre dúvida e andrógino, com o início de uma beraita que interpreta a palavra "sua orla" (Vayikrá 12:3) como restringindo a permissão de circuncidar em Shabat ao caso certo, excluindo o caso de dúvida — derasha que prossegue em Shabbat 135a, ainda não publicado.

Nova Mishná: lavar o bebê antes e depois da milá; dúvida e andrógino · מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן

1143Mishná: lava-se o bebê antes e depois da milá, borrifando com a mão; Rabi Elazar ben Azarya permite lavá-lo no terceiro dia em Shabat; dúvida e andrógino não afastam o Shabat, exceto, para Rabi Yehuda, o andrógino
Mishná
מַתְנִי׳ מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בֵּין לִפְנֵי הַמִּילָה וּבֵין לְאַחַר הַמִּילָה, וּמְזַלְּפִין עָלָיו בַּיָּד, אֲבָל לֹא בִּכְלִי. רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיוֹתָם כּוֹאֲבִים״. סָפֵק וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס — אֵין מְחַלְּלִין עָלָיו אֶת הַשַּׁבָּת. וְרַבִּי יְהוּדָה מַתִּיר בְּאַנְדְּרוֹגִינוֹס.

MISHNÁ. Lava-se o pequeno (o bebê), tanto antes da milá quanto depois da milá, e borrifa-se água quente sobre ele com a mão, mas não com um recipiente. Disse Rabi Elazar ben Azarya: lava-se o pequeno no terceiro dia (após a milá) que calhar de cair em Shabat, pois se declara: "e sucedeu que, no terceiro dia, estando eles doloridos" (Bereshit 34:25, sobre os homens de Shechem, que se circuncidaram).

Em caso de dúvida (sobre se o bebê deve ser circuncidado), e também no caso de um andrógino (que possui órgãos genitais de ambos os sexos), não se profana por causa disso o Shabat. Mas Rabi Yehuda permite circuncidar o andrógino em Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "umezalfin alav", "safek" e "R' Yehuda matir be'androginus"
מתני' ומזלפין עליו - את החמין: ביד - אבל לא בכלי ובגמ' פריך הא אמרת רישא מרחיצין דמשמע כדרכו והדר תני אפילו לזלף עליו בכלי אסור: ספק - כגון ספק בן ח' חדשים דהוא כאבן בעלמא ואין מילתו דוחה שבת: ר' יהודה מתיר באנדרוגינוס - דאיתרבי מקראי כדמפרש בגמ' לקמן:

"MISHNÁ: 'e borrifa-se sobre ele'" — a água quente.

"Com a mão" — mas não com um recipiente; e na guemará se objeta: não disseste, na primeira cláusula, "lava-se", o que indica lavá-lo em seu modo costumeiro? E então se ensina logo em seguida que até borrifar sobre ele com um recipiente é proibido?

"Dúvida" — como, por exemplo, a dúvida de um bebê nascido no oitavo mês (cuja gestação incompleta o deixa como algo sem vitalidade certa), que é como uma pedra qualquer, e sua milá não afasta o Shabat.

"Rabi Yehuda permite circuncidar o andrógino" — pois essa permissão se deriva dos versos, como se explicará adiante na guemará.

Nota — nova Mishná, ainda no Perek Yud-Tet

Confirmado via Sefaria: abre-se aqui uma nova Mishná, sem transição de perek (o Perek Yud-Tet, Rabi Eliezer DeMilah, vai de 130a:1 a 137b:10). Esta Mishná trata do banho do recém-nascido em Shabat: é permitido lavá-lo tanto antes quanto depois da milá, mas borrifar água quente sobre ele só pode ser feito com a mão, nunca com um recipiente. Rabi Elazar ben Azarya acrescenta que, no terceiro dia após a milá — considerado o de maior risco, pois é quando a dor é mais intensa, como se vê no episódio bíblico dos homens de Shechem —, permite-se lavar o bebê normalmente mesmo que esse dia caia em Shabat. A Mishná ainda ensina que, em caso de dúvida sobre a obrigação da milá, ou no caso de um andrógino, não se profana o Shabat para realizá-la — exceto, segundo Rabi Yehuda, no caso do andrógino, que ele permite circuncidar mesmo em Shabat, com base numa derivação bíblica que a guemará trará mais adiante.

A guemará sobre a Mishná: o estilo "como", a opinião de Rava e seu episódio de doença · כֵּיצַד תָּנֵי

1144Guemará: mas não se disse "lava-se" na primeira cláusula? Rav Yehuda e Rabá bar Avuh: a Mishná se ensina no estilo "como" — ambas as cláusulas descrevem a mesma prática de borrifar
Guemará; Rav Yehuda e Rabá bar Avuh
וְהָא אָמְרַתְּ רֵישָׁא מַרְחִיצִין! רַב יְהוּדָה וְרַבָּה בַּר אֲבוּהּ דְאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ ״כֵּיצַד״ תָּנֵי: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בֵּין לִפְנֵי מִילָה בֵּין לְאַחַר מִילָה. כֵּיצַד? — מְזַלְּפִין עָלָיו בַּיָּד אֲבָל לֹא בִּכְלִי.

GUEMARÁ. Mas não disseste, na primeira cláusula, "lava-se"! Rav Yehuda e Rabá bar Avuh, que ambos disseram que a Mishná se ensina no estilo "como": lava-se o pequeno, tanto antes da milá quanto depois da milá. Como? Borrifa-se sobre ele com a mão, mas não com um recipiente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veha amrat reisha marchitzin" e "keitzad tanei"
גמ' והא אמרת רישא מרחיצין - ואפילו כדרכו: כיצד קתני - מרחיצין דרישא לאו כדרכו הוא דתנא סיפא לפרושי כיצד מרחיצין כגון לזלף ביד ואפילו ביום ראשון:

"Mas não disseste, na primeira cláusula: lava-se" — e isso indicaria lavá-lo até mesmo em seu modo costumeiro.

"Ensina-se no estilo 'como'" — ou seja, "lava-se", na primeira cláusula, não significa lavá-lo em seu modo costumeiro, pois a segunda cláusula vem esclarecer como se lava — a saber, borrifando com a mão, e isso mesmo no primeiro dia.

Nota

A guemará abre questionando a própria Mishná: se sua primeira cláusula já permite "lavar" o bebê, o que sugere a lavagem completa e costumeira, por que a segunda cláusula restringe a apenas "borrifar com a mão"? Rav Yehuda e Rabá bar Avuh resolvem a dificuldade explicando que a Mishná emprega o estilo didático "como", em que a segunda cláusula não acrescenta uma nova permissão, mas esclarece como exatamente se realiza a permissão da primeira: "lavar" sempre significou, aqui, apenas borrifar água com a mão — nunca a lavagem completa e costumeira, nem mesmo no primeiro dia.

1145Rava objeta: mas se ensina "lava-se"! Sua própria leitura: no primeiro dia, lava-se normalmente; no terceiro dia em Shabat, apenas borrifa-se; Rabi Elazar ben Azarya permite lavar também no terceiro dia
Rava
אָמַר רָבָא: וְהָא ״מַרְחִיצִין״ קָתָנֵי! אֶלָּא אָמַר רָבָא, הָכִי קָתָנֵי: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בֵּין מִלִּפְנֵי מִילָה בֵּין לְאַחַר הַמִּילָה, בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן — כְּדַרְכּוֹ, וּבַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת — מְזַלְּפִין עָלָיו בַּיָּד, אֲבָל לֹא בִּכְלִי. רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיוֹתָם כּוֹאֲבִים״.

Disse Rava: mas se ensina "lava-se"!? Mas assim disse Rava, assim se ensina: lava-se o pequeno, tanto antes da milá quanto depois da milá; no primeiro dia, em seu modo costumeiro; e no terceiro dia, que calhar de cair em Shabat, borrifa-se sobre ele com a mão, mas não com um recipiente. Disse Rabi Elazar ben Azarya: lava-se o pequeno no terceiro dia que calhar de cair em Shabat, pois se declara: "e sucedeu que, no terceiro dia, estando eles doloridos".

Nota

Rava rejeita a explicação anterior — a própria Mishná diz "lava-se", não "borrifa-se" — e propõe sua própria leitura, na qual as duas cláusulas descrevem dois dias diferentes: no primeiro dia após a milá, permite-se lavar o bebê normalmente; apenas no terceiro dia, se este cair em Shabat, restringe-se a apenas borrifar água com a mão. Nesta leitura, Rabi Elazar ben Azarya não discorda quanto ao primeiro dia, mas acrescenta que, mesmo no terceiro dia — o de maior perigo —, permite-se lavar o bebê normalmente, com base no versículo sobre os homens de Shechem.

1146Beraita apoia Rava; esclarece-se que o borrifar nunca é com copo, tigela ou recipiente, só com a mão — retorna-se à opinião do primeiro tana; por que "não há prova, mas há alusão"? Porque a carne do adulto não sara tão rápido quanto a do pequeno
Beraita; Anônimo da guemará
תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרָבָא: מַרְחִיצִין הַקָּטָן בֵּין לִפְנֵי מִילָה בֵּין לְאַחַר מִילָה, בְּיוֹם הָרִאשׁוֹן — כְּדַרְכּוֹ, וּבַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת — מְזַלְּפִין עָלָיו בַּיָּד. רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת. וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר זֵכֶר לַדָּבָר, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְהִי בַיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי בִּהְיוֹתָם כּוֹאֲבִים״. וּכְשֶׁהֵן מְזַלְּפִין — אֵין מְזַלְּפִין לֹא בְּכוֹס וְלֹא בִּקְעָרָה וְלֹא בִּכְלִי, אֶלָּא בַּיָּד. אֲתָאן לְתַנָּא קַמָּא. מַאי ״אַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר זֵכֶר לַדָּבָר״? מִשּׁוּם דְּגָדוֹל לָא סָלֵיק בִּישְׂרֵיהּ הַיָּיא, קָטָן סָלֵיק בִּישְׂרֵיהּ הַיָּיא.

Ensina-se numa beraita de acordo com a opinião de Rava: lava-se o pequeno, tanto antes da milá quanto depois da milá; no primeiro dia, em seu modo costumeiro; e no terceiro dia, que calhar de cair em Shabat, borrifa-se sobre ele com a mão. Disse Rabi Elazar ben Azarya: lava-se o pequeno no terceiro dia que calhar de cair em Shabat. E, ainda que não haja prova para o assunto, há ao menos uma alusão ao assunto, pois se declara: "e sucedeu que, no terceiro dia, estando eles doloridos". E, quando borrifam, não borrifam nem com copo, nem com tigela, nem com qualquer outro recipiente, senão com a mão. Comenta a guemará: chegamos de volta à opinião do primeiro tana (pois este esclarecimento não pertence à opinião de Rabi Elazar ben Azarya, mas à do primeiro tana). O que significa "ainda que não haja prova para o assunto, há uma alusão ao assunto"? Porque a carne do adulto não se recompõe rapidamente, mas a carne do pequeno se recompõe rapidamente — por isso não é prova absoluta de que o terceiro dia seja igualmente perigoso para um bebê.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "atan letana kama" e "mishum degadol lo salik bisreih haya"
תניא כוותיה דרבא כו' ה"ג ביום השלישי מזלפין עליו ביד ולא גרסינן אבל לא בכלי: אתאן לת"ק - הך סיפא תנא קמא אמרה דאילו ר"א אפילו הרחצה כדרכו שרי: משום דגדול לא סליק בישרא הייא - היינו טעמא דמעשה שכם לאו ראיה גמורה היא משום דגדול אין מכה שבבשרו מעלה ארוכה מהר אבל קטן נתרפא מידי סכנתו מהר:

"Ensina-se numa beraita de acordo com a opinião de Rava, etc." — assim é a versão correta: "no terceiro dia, borrifa-se sobre ele com a mão", e não lemos "mas não com um recipiente" (pois essa parte pertence apenas ao esclarecimento seguinte, do primeiro tana).

"Chegamos de volta à opinião do primeiro tana" — esta última cláusula, foi o primeiro tana quem a disse, ao passo que Rabi Elazar ben Azarya permite até mesmo lavar em seu modo costumeiro no terceiro dia.

"Porque a carne do adulto não se recompõe rapidamente" — este é o motivo pelo qual o episódio de Shechem não é prova completa: porque, no adulto, a ferida em sua carne não sara rápido, mas o pequeno se cura de seu perigo rapidamente.

Nota

Uma beraita confirma a leitura de Rava, e acrescenta um detalhe: quando se borrifa água sobre o bebê, isso nunca se faz com copo, tigela ou qualquer outro recipiente, apenas com a mão — esclarecimento que, observa a guemará, pertence à opinião do primeiro tana, não à de Rabi Elazar ben Azarya, que permite a lavagem completa mesmo no terceiro dia. Por fim, questiona-se por que a beraita chama o versículo sobre os homens de Shechem de mera "alusão", e não prova plena: porque a carne de um adulto ferido não se recompõe com a mesma rapidez que a de um bebê, de modo que o perigo do terceiro dia, comprovado para adultos, não se aplica necessariamente, com igual certeza, a um recém-nascido.

1147Episódio: alguém veio perguntar a Rava, que decidiu conforme sua própria opinião; Rava adoeceu e temeu ter discordado dos anciãos; os Sábios o consolam com a beraita, mas ele responde que a Mishná é precisa segundo a opinião deles — prova pela formulação de Rabi Elazar ben Azarya
Anônimo da guemará; Rava; os Rabanan
הָהוּא דַּאֲתָא לְקַמֵּיהּ דְּרָבָא, אוֹרִי לֵיהּ כִּשְׁמַעְתֵּיהּ. אִיחֲלַשׁ רָבָא, אָמַר: אֲנָא בַּהֲדֵי תַּרְגּוּמָא דְסָבֵי לְמָה לִי. אֲמַרוּ לֵיהּ רַבָּנַן לְרָבָא: וְהָתַנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּמָר? אֲמַר לְהוּ: מַתְנִיתִין כְּווֹתַיְיהוּ דַּיְקָא. מִמַּאי — מִדְּקָאָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר: מַרְחִיצִין אֶת הַקָּטָן בְּיוֹם הַשְּׁלִישִׁי שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא תַּנָּא קַמָּא ״מְזַלְּפִין״ קָאָמַר — הַיְינוּ דְּקָאֲמַר לֵיהּ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה ״מַרְחִיצִין״. אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ תַּנָּא קַמָּא מַרְחִיצִין בְּיוֹם הָרִאשׁוֹן קָאָמַר, וּמְזַלְּפִין בְּיוֹם הַשְּׁלִישִׁי, הַאי רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר מַרְחִיצִין — ״אַף מַרְחִיצִין״ מִיבְּעֵי לֵיהּ?

Certa vez, alguém veio diante de Rava perguntar sobre lavar o bebê, e Rava decidiu para ele conforme sua própria opinião. Rava adoeceu. Disse: para que precisei discordar da explicação dos sábios anciãos? Disseram-lhe os rabanan a Rava: mas não se ensina numa beraita de acordo com a opinião do mestre? Disse-lhes: a Mishná é precisa de acordo com a opinião deles (dos anciãos, e não com a minha). De onde se sabe isso? Do fato de que Rabi Elazar ben Azarya diz: lava-se o pequeno no terceiro dia que calhar de cair em Shabat. Se dissesses, com razão, que o primeiro tana disse apenas "borrifa-se" (sem nunca permitir a lavagem completa, nem no primeiro dia) — isto explicaria o que lhe disse Rabi Elazar ben Azarya: "lava-se". Mas se dissesses que o primeiro tana disse "lava-se" no primeiro dia, e "borrifa-se" no terceiro dia, então isto que Rabi Elazar ben Azarya diz, "lava-se" — deveria dizer "também se lava"!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "orí leih kishma'teih", "iichalash" e "af marchitzin mib'ei leih"
אורי ליה כשמעתיה - התיר לו הרחיצה כדרכו ביום ראשון שחל להיות בשבת: איחלש - נעשה חולה והיה דואג שמא על כך נענש: אמר בהדי תרגימא דסבי למה לי - מה היה לי לחלוק כנגד זקנים הללו רב יהודה ורבה בר אבוה שפירשו שאסור להרחיץ: אי אמרת בשלמא ת"ק מזלפין - ביום ראשון קאמר ולא איירי בהרחצה כלל אלא בזילוף היינו דאתא ר"א בן עזריה ופליג ואמר מרחיצין: אלא אי אמרת - תנא קמא נמי מרחיצין אמר בשני הימים ולא פליג ר"א אלא איום שלישי דקאמר ת"ק מזלפין אף מרחיצין ביום השלישי מיבעי ליה:

"Decidiu para ele conforme sua opinião" — permitiu-lhe a lavagem em seu modo costumeiro, no primeiro dia que calhasse de cair em Shabat.

"Adoeceu" — ficou doente, e temia que fosse por isso punido.

"Disse: para que precisei discordar da explicação dos anciãos" — o que me levou a discordar destes anciãos, Rav Yehuda e Rabá bar Avuh, que explicaram que é proibido lavar normalmente, mesmo no primeiro dia?

"Se dissesses, com razão, que o primeiro tana disse apenas 'borrifa-se'" — no primeiro dia, e a Mishná não trata em nada de lavagem completa, mas apenas de borrifar — isto explicaria por que veio Rabi Elazar ben Azarya discordar e dizer "lava-se".

"Mas se dissesses" — que o primeiro tana também disse "lava-se" normalmente em ambos os dias, e Rabi Elazar ben Azarya só discorda quanto ao terceiro dia, pois, nesse dia, o primeiro tana disse apenas "borrifa-se" — deveria Rabi Elazar ben Azarya ter dito "também se lava" no terceiro dia!

Nota

A guemará narra um episódio pessoal de Rava: certa vez, decidiu um caso prático conforme sua própria opinião mais permissiva (lavagem normal no primeiro dia), e logo depois adoeceu — temendo que a doença fosse castigo por ter discordado dos anciãos Rav Yehuda e Rabá bar Avuh. Os Sábios tentam consolá-lo lembrando que uma beraita apoia sua própria opinião; Rava, porém, responde que, examinada com precisão, é a própria Mishná — não a beraita — que sustenta a opinião dos anciãos. A prova está na formulação exata da resposta de Rabi Elazar ben Azarya: se o primeiro tana permitisse apenas borrifar (nunca lavar), faz sentido que Rabi Elazar ben Azarya viesse acrescentar "lava-se"; mas, se o primeiro tana já permitisse lavar no primeiro dia e discordasse apenas quanto ao terceiro, Rabi Elazar ben Azarya deveria ter dito "também se lava" no terceiro dia — e não simplesmente "lava-se", como se estivesse apresentando uma novidade total.

Halachá como Rabi Elazar ben Azarya, em toda combinação, por causa do perigo · הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה

1148Rav Dimi: halachá como Rabi Elazar ben Azarya; dúvida no Ocidente: lavar o corpo todo ou só o local da milá? Rabi Ya'akov: o corpo todo, por comparação com água quente sobre uma ferida
Rav Dimi; Sábios do Ocidente; Rabi Ya'akov
כִּי אֲתָא רַב דִּימִי אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה. הֲווֹ בַּהּ בְּמַעְרְבָא: הַרְחָצַת כׇּל גּוּפוֹ אוֹ הַרְחָצַת מִילָה? אֲמַר לְהוּ הַהוּא מֵרַבָּנַן, וְרַבִּי יַעֲקֹב שְׁמֵיהּ: מִסְתַּבְּרָא הַרְחָצַת כׇּל גּוּפוֹ, דְּאִי סָלְקָא דַּעְתָּךְ הַרְחָצַת מִילָה, מִי גָּרַע מֵחַמִּין עַל גַּבֵּי מַכָּה, דְּאָמַר רַב: אֵין מוֹנְעִין חַמִּין וָשֶׁמֶן מֵעַל גַּבֵּי מַכָּה בְּשַׁבָּת!

Quando veio Rav Dimi da Terra de Israel para a Babilônia, disse: disse Rabi Elazar: a halachá é como Rabi Elazar ben Azarya. Discutiram isso no Ocidente (na Terra de Israel): trata-se de lavar todo o corpo dele, ou apenas lavar o local da milá? Disse-lhes um certo sábio dos rabanan, e Rabi Ya'akov era seu nome: é razoável que se trate de lavar todo o corpo, pois, se te ocorresse pensar que se trata de lavar o local da milá, em que isso seria pior que colocar água quente sobre uma ferida? Pois disse Rav: não se impede água quente e azeite sobre uma ferida em Shabat!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "havu bah" e "mi garea mechamin"
הוו בה - דייקי בה: דאי ס"ד הרחצת מילה מי גרע מחמין על גבי מכה - דשרי והכא אסרי רבנן בשלישי (לגמרי):

"Discutiram isso" — analisaram cuidadosamente a questão.

"Pois, se te ocorresse pensar que se trata de lavar o local da milá, em que isso seria pior que água quente sobre uma ferida" — que é permitida; e aqui os rabanan proibiriam totalmente no terceiro dia — o que não faria sentido.

Nota

Rav Dimi traz de Eretz Israel o veredicto: a halachá segue Rabi Elazar ben Azarya. Os sábios do Ocidente discutem então o alcance exato dessa permissão: refere-se a lavar todo o corpo do bebê, ou apenas o local específico da milá? Rabi Ya'akov argumenta que se trata do corpo todo, pois, se a permissão se restringisse apenas ao local da milá, ela não acrescentaria nada de novo — já que colocar água quente sobre qualquer ferida em Shabat já é permitido, por regra geral estabelecida por Rav.

1149Rav Yosef objeta: há diferença entre água aquecida em Shabat e na véspera? Rav Dimi objeta a Rav Yosef; Abaye: Rav Yosef já havia respondido — é por causa do perigo ao bebê
Rav Yosef; Rav Dimi; Abaye
מַתְקֵיף לַהּ רַב יוֹסֵף: וְלָא שָׁנֵי לָךְ בֵּין חַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ בְּשַׁבָּת לְחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ מֵעֶרֶב שַׁבָּת? מַתְקֵיף לַהּ רַב דִּימִי: וּמִמַּאי דְּהָכָא בְּחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ בְּשַׁבָּת פְּלִיגִי? דִילְמָא בְּחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ בְּעֶרֶב שַׁבָּת פְּלִיגִי?! אָמַר אַבָּיֵי: אֲנָא בְּעַאי דֶּאֱישַׁנֵּי לֵיהּ, וּקְדַם וְשַׁנִּי לֵיהּ רַב יוֹסֵף: מִפְּנֵי שֶׁסַּכָּנָה הוּא לוֹ.

Objetou a isso Rav Yosef: e não há diferença, para ti, entre água quente aquecida em Shabat e água quente aquecida na véspera de Shabat? Pois aquecer água em Shabat viola uma proibição da Torá, ao passo que usar, sobre a ferida, água já aquecida antes de Shabat viola apenas o decreto rabínico contra curar. Objetou a isso Rav Dimi: e de onde se sabe que aqui os sábios discordam a respeito de água aquecida em Shabat? Talvez discordem a respeito de água aquecida na véspera de Shabat! Disse Abaye: eu mesmo queria responder-lhe a isso, mas Rav Yosef se adiantou e lhe respondeu: discordam mesmo a respeito de água aquecida em Shabat, porque deixar de lavar é um perigo para ele (o bebê).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velo shanei lach" e "kedam Rav Yosef veshanya leih"
ולא שני כו' - והכא גבי מילה בהוחמו בשבת עסקינן הלכך בשלישי דליכא סכנתא לא: אמר אביי אנא בעאי דאישני ליה - אני הייתי רוצה לתרץ אתקפתא זו כדשני ליה רב יוסף מפני שסכנה היא לו: וקדם רב יוסף ושנייא ליה - דודאי מתניתין חמין שהוחמו בשבת נמי שרי בימים הראשונים ולר"א אף בשלישי מפני שמניעת חמין סכנה היא לו:

"E não há diferença, etc." — e aqui, quanto à milá, trata-se de água aquecida em Shabat mesmo; por isso, no terceiro dia, quando não há mais perigo, não se permite.

"Disse Abaye: eu queria responder-lhe" — eu mesmo queria resolver esta objeção como Rav Yosef a resolveu, dizendo que é por causa do perigo para ele.

"Mas Rav Yosef se adiantou e lhe respondeu" — que, certamente, a Mishná permite também água quente aquecida em Shabat, nos primeiros dias; e, segundo Rabi Elazar ben Azarya, até no terceiro dia, porque impedir a água quente é um perigo para ele.

Nota

Rav Yosef objeta que há uma diferença essencial entre aquecer água em Shabat (proibição da Torá) e usar água já aquecida na véspera (apenas decreto rabínico contra tratamentos médicos); talvez a permissão só valha para o segundo caso. Rav Dimi contesta essa suposição: de onde se sabe que a discussão original tratava justamente de água aquecida em Shabat? Abaye conta que ele mesmo pretendia responder a essa objeção, mas Rav Yosef o antecipou: sim, a permissão vale mesmo para água aquecida em Shabat, porque privar o bebê da lavagem representa um perigo real para ele.

1150Confirma-se: halachá como Rabi Elazar ben Azarya, tanto para água aquecida em Shabat quanto na véspera, tanto para lavar o corpo todo quanto só a milá, por causa do perigo
Ravin em nome de Rabi Abahu, em nome de Rabi Elazar (ou Rabi Yochanan)
אִיתְּמַר נָמֵי, כִּי אֲתָא רָבִין אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר, וְאָמְרִי לַהּ אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כְּרַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה בֵּין בְּחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ בְּשַׁבָּת, בֵּין בְּחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ מֵעֶרֶב שַׁבָּת, בֵּין הַרְחָצַת כׇּל גּוּפוֹ, בֵּין הַרְחָצַת מִילָה, מִפְּנֵי שֶׁסַּכָּנָה הִיא לוֹ.

Foi dito também: quando veio Ravin da Terra de Israel para a Babilônia, disse: disse Rabi Abahu, disse Rabi Elazar; e alguns dizem: disse Rabi Abahu, disse Rabi Yochanan: a halachá é como Rabi Elazar ben Azarya, tanto quanto água quente aquecida em Shabat, quanto quanto água quente aquecida na véspera de Shabat; tanto quanto lavar todo o corpo, quanto quanto lavar o local da milá, porque é um perigo para ele.

Nota

Uma segunda tradição, trazida por Ravin em nome de Rabi Abahu, confirma e amplia a conclusão: a halachá segue Rabi Elazar ben Azarya em toda combinação possível — tanto para água aquecida no próprio Shabat quanto na véspera, tanto para lavar o corpo inteiro do bebê quanto apenas o local da milá —, sempre pelo mesmo fundamento: o perigo real que a privação do banho representa para um recém-nascido.

Água quente e azeite sobre a ferida; chumaço, esponja e trapos secos · אֵין מוֹנְעִין חַמִּין וָשֶׁמֶן

1151Ao próprio assunto: Rav permite colocar água quente e azeite diretamente sobre a ferida em Shabat; Shmuel exige colocar fora da ferida, deixando escorrer
Rav; Shmuel
גּוּפָא. אָמַר רַב: אֵין מוֹנְעִין חַמִּין וָשֶׁמֶן מֵעַל גַּבֵּי מַכָּה בְּשַׁבָּת. וּשְׁמוּאֵל אָמַר: נוֹתֵן חוּץ לַמַּכָּה, וְשׁוֹתֵת וְיוֹרֵד לַמַּכָּה.

Ao próprio assunto (citado acima): disse Rav: não se impede água quente e azeite sobre uma ferida em Shabat. E Shmuel disse: coloca-se fora da ferida, e o líquido escorre e desce até a ferida.

Nota

A guemará retoma, para discuti-lo em si, o princípio citado de passagem por Rabi Ya'akov: colocar água quente e azeite sobre uma ferida em Shabat. Rav permite colocá-los diretamente sobre a ferida; Shmuel é mais cauteloso, permitindo apenas que se coloquem fora da área ferida, deixando o líquido escorrer naturalmente até ela, sem que o ato pareça um tratamento medicinal direto.

1152Duas objeções sobre colocar os líquidos num chumaço, respondidas pela preocupação com espremer; beraita explícita como Shmuel
Anônimo da guemará; Beraita
מֵיתִיבִי: אֵין נוֹתְנִין שֶׁמֶן וְחַמִּין עַל גַּבֵּי מוֹךְ לִיתֵּן עַל גַּבֵּי מַכָּה בַּשַּׁבָּת! הָתָם מִשּׁוּם סְחִיטָה. תָּא שְׁמַע: אֵין נוֹתְנִין חַמִּין וָשֶׁמֶן עַל גַּבֵּי מוֹךְ, שֶׁעַל גַּבֵּי מַכָּה בַּשַּׁבָּת. הָתָם נָמֵי מִשּׁוּם סְחִיטָה. תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דִּשְׁמוּאֵל: אֵין נוֹתְנִין חַמִּין וָשֶׁמֶן עַל גַּבֵּי מַכָּה בַּשַּׁבָּת, אֲבָל נוֹתְנִין חוּץ לַמַּכָּה וְשׁוֹתֵת וְיוֹרֵד לַמַּכָּה.

Objeta-se: não se coloca azeite e água quente sobre um chumaço para então colocá-lo sobre uma ferida em Shabat! Isso, à primeira vista, contradiz a opinião de Rav. Responde-se: ali, a proibição é por causa de espremer. Venha e ouça outra objeção semelhante: não se coloca água quente e azeite sobre um chumaço que já esteja sobre uma ferida, em Shabat. Responde-se: ali também, a proibição é por causa de espremer. Ensina-se numa beraita explicitamente de acordo com a opinião de Shmuel: não se coloca água quente e azeite sobre uma ferida em Shabat, mas coloca-se fora da ferida, e o líquido escorre e desce até a ferida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ein notnin shemen vechamin"
אין נותנין כו' - קס"ד גזרה משום שחיקת סמנין כשמואל דטעמיה משום הכי הוא והיינו דקאמר אבל נותן חוץ למכה דלא מוכחא מילתא דלרפואה:

"Não se coloca etc." — o texto supõe tratar-se de um decreto por causa de quem venha a triturar substâncias medicinais, como entende Shmuel, cujo motivo é este mesmo; e é por isso que se diz "mas coloca-se fora da ferida", pois ali a coisa não se evidencia como tratamento medicinal.

Nota

Duas objeções, trazidas de beraitot que proíbem colocar azeite e água quente sobre um chumaço destinado a uma ferida, parecem contradizer a permissão de Rav de aplicá-los diretamente. A guemará responde, em ambos os casos, que a proibição ali não decorre do tratamento medicinal em si, mas da preocupação de que, ao manusear o chumaço encharcado, alguém acabe espremendo-o — um trabalho proibido à parte. Por fim, cita-se uma beraita que ensina explicitamente a posição mais cautelosa de Shmuel: nunca colocar os líquidos diretamente sobre a ferida, mas sempre fora dela, deixando-os escorrer.

1153Beraita: chumaço e esponja secos podem ser colocados sobre a ferida, mas não junco nem trapos secos; contradição entre trapos e trapos, resolvida: trapos novos curam e são proibidos; trapos velhos não curam e são permitidos
Beraita; Abaye
תָּנוּ רַבָּנַן: נוֹתְנִין עַל גַּבֵּי הַמַּכָּה מוֹךְ יָבֵשׁ וּסְפוֹג יָבֵשׁ, אֲבָל לֹא גֶּמִי יָבֵשׁ וְלֹא כְּתִיתִין יְבֵשִׁין. קַשְׁיָא כְּתִיתִין אַכְּתִיתִין! לָא קַשְׁיָא: הָא בְּחַדְתֵי, הָא בְּעַתִּיקֵי. אָמַר אַבָּיֵי: שְׁמַע מִינַּהּ הָנֵי כְּתִיתִין מַסּוּ.

Ensinaram os Sábios: coloca-se sobre a ferida chumaço seco e esponja seca, mas não junco seco, nem trapos secos. Objeta-se: há uma dificuldade entre trapos e trapos! Pois o chumaço é, ele mesmo, um tipo de trapo, e ora se permite, ora se proíbe. Não é difícil: esta (que proíbe) trata de trapos novos; esta (que permite, sob o nome de "chumaço") trata de trapos velhos. Disse Abaye: aprenda-se disso que estes trapos novos curam — e é por isso, precisamente por serem eficazes, que os Sábios os proibiram por decreto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "much yavesh vesafog yavesh", "chadetei" e "shema mina hanei ketitin masu"
מוך יבש וספוג יבש - דלאו לרפואה היא אלא שלא ישרטו בגדיו הקשים מכתו: אבל לא כתיתין יבישים וגמי יבש - חתיכות בגדים דקות משום דמסו וגזרו משום שחיקת סמנין: קשיא כתיתין אכתיתין - רישא שרי מוך יבש דהיינו כתיתין וסיפא אסר כתיתין: חדתי - חדשים שלא היו על גבי מכה מעולם מסו עתיקי לא מסו: ה"ג שמע מינה הני כתיתין מסו:

"Chumaço seco e esponja seca" — pois isso não é para tratamento medicinal, mas para que suas roupas ásperas não arranhem sua ferida.

"Mas não trapos secos, nem junco seco" — pedaços finos de tecido, porque eles curam, e os Sábios decretaram contra eles por causa de quem venha a triturar substâncias medicinais.

"Há uma dificuldade entre trapos e trapos" — a primeira cláusula permite chumaço seco, que é o mesmo que trapos, e a segunda cláusula proíbe trapos.

"Novos" — trapos novos, que nunca estiveram sobre uma ferida, curam; os velhos não curam.

"Assim é a versão correta: aprenda-se disso que estes trapos curam" — referindo-se aos novos.

Nota

Uma nova beraita distingue o que se pode colocar sobre uma ferida em Shabat: chumaço seco e esponja seca são permitidos, pois servem apenas para proteger a ferida do atrito das roupas, sem função medicinal; já junco seco e trapos secos são proibidos. Aponta-se uma dificuldade, já que o próprio "chumaço" da primeira cláusula é, essencialmente, um tipo de trapo — resolvida pela distinção entre trapos novos, que nunca tocaram uma ferida e por isso realmente curam (sendo proibidos por decreto, como qualquer tratamento medicinal eficaz), e trapos velhos, já gastos, que não têm mais esse poder curativo e por isso são permitidos. Abaye extrai da própria formulação da beraita uma informação prática: trapos novos de fato curam feridas.

Retomada da Mishná: dúvida e andrógino; a beraita sobre "sua orla" · עׇרְלָתוֹ

1154Retoma-se a Mishná sobre dúvida e andrógino; beraita: "sua orla" — apenas sua orla certa afasta o Shabat, excluindo o caso de dúvida
Mishná retomada; Beraita
סָפֵק וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס כּוּ׳. תָּנוּ רַבָּנַן: ״עׇרְלָתוֹ״ — עׇרְלָתוֹ וַדַּאי דּוֹחֶה אֶת הַשַּׁבָּת,

"Em caso de dúvida, e também no caso de um andrógino, etc." (citação da Mishná). Ensinaram os Sábios (sobre o verso "e no oitavo dia se circuncidará a carne de sua orla" — Vayikrá 12:3): "sua orla" — apenas sua orla certa (inequívoca) afasta o Shabat,

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "orlato vadai docheh et haShabbat"
ערלתו ודאי דוחה השבת - דבהאי קרא וביום השמיני דילפינן מיניה אפילו בשבת כתיב בסיפיה ערלתו דמשמע מיעוטא ערלתו של זה ולא אחר ולמעוטי ספק אתא:

"Sua orla, certa, afasta o Shabat" — pois neste mesmo verso, "e no oitavo dia" (Vayikrá 12:3), do qual derivamos que a milá se faz até mesmo em Shabat, está escrito ao final "sua orla", o que indica uma restrição: a orla deste bebê especificamente, e não de outro — vindo o verso excluir o caso de dúvida.

Nota

O daf se encerra retomando a Mishná com que ele mesmo começou: em caso de dúvida sobre a obrigação da milá, e no caso de um andrógino, não se profana o Shabat. A guemará abre, então, a fonte bíblica dessa restrição: uma beraita interpreta a palavra "sua orla", no verso que ordena a circuncisão ao oitavo dia mesmo em Shabat (Vayikrá 12:3), como uma restrição — apenas a orla certa e inequívoca de um bebê específico afasta o Shabat, excluindo o caso de dúvida, em que não se sabe ao certo se a milá é sequer obrigatória. A derasha prossegue diretamente em Shabbat 135a, ainda não publicado, onde presumivelmente se completa a distinção entre o caso de dúvida e o do andrógino, e se explica a base bíblica da permissão de Rabi Yehuda para este último.