Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah)
עוֹשִׂין כׇּל צׇרְכֵי מִילָה

Completa-se a frase cortada em 132b: a disputa entre Rava e Rav Safra é, na verdade, uma disputa de Tannaim; busca-se a fonte de que a festividade só é afastada pela milá em seu tempo próprio, e o daf abre nova Mishná sobre as necessidades da milá em Shabat

Shabbat 133a · segue o Perek Yud-Tet (Rabi Eliezer DeMilah), continuando diretamente de 132b

Shabbat 133a abre completando exatamente a frase cortada ao final de 132b: "e esta disputa, de Rava e Rav Safra" — "é uma disputa de Tannaim", pois se ensina numa beraita que Rabi Yoshiá exige o versículo "a carne" mesmo para que a milá em seu tempo próprio corte uma mancha leprosa, enquanto Rabi Yonatan diz que não precisa de versículo algum, derivando isso por kal vachomer direto do Shabat — posições que espelham exatamente a de Rav Safra e a de Rava, respectivamente. A guemará então questiona por que seria necessário algum versículo, já que cortar a mancha ao circuncidar seria apenas uma "ação não intencional" (o objetivo é a milá, não ferir a mancha) — e uma ação não intencional é, em princípio, permitida. Abaye responde que o versículo é necessário segundo Rabi Yehuda, que proíbe toda ação não intencional; Rava responde que mesmo segundo Rabi Shimon, que as permite, há de se admitir que ele concorda no caso de "pesik reisheih" — quando o resultado proibido é certo e inevitável, ainda que não desejado. O mesmo debate se ensina também ligado a outro versículo, "guarda-te da praga da tzaraat". Discute-se então a quem essa permissão se aplica quando a intenção de cortar a mancha é expressa: ao adulto, que ele mesmo declara essa intenção (Rav Amram), e ao menino, cujo pai declara a intenção por ele (Rav Mesharshiá) — objetando-se que, havendo outro mohel disponível sem tal intenção, que seja ele a realizar a milá, o que se resolve pela regra de Reish Lakish sobre quando efetivamente um preceito positivo vem e afasta um negativo. A guemará volta então à regra de que a festividade só é afastada pela milá em seu tempo próprio, buscando sua fonte em quatro respostas sucessivas: Chizkiyá deriva do versículo sobre a segunda manhã de queima do Pêssach; Abaye, do versículo "a oferenda do Shabat em seu Shabat"; Rava, do versículo "só ele será feito para vós"; e Rav Ashi, do termo "descanso", que torna a festividade um preceito positivo e negativo combinados, que a milá sozinha não pode afastar. Repete-se então uma regra paralela de Rabi Akiva sobre o sacrifício pascal, com a mesma conclusão haláquica de Rav Yehuda em nome de Rav — e explica-se por que ambos os ensinos, o da milá e o do Pêssach, são necessários um ao outro, cada um trazendo algo que o outro não poderia ensinar sozinho. O daf termina com a abertura de uma nova Mishná — a segunda do Perek Yud-Tet: tudo o que a milá necessita se faz em Shabat — circuncidar, descobrir a membrana, sugar o sangue, e colocar curativo e cominho; se o cominho não foi moído nem o vinho e o óleo misturados na véspera, faz-se então da forma disponível; não se prepara de antemão uma bolsa especial para o membro, mas se pode envolvê-lo num pano, trazido mesmo de outro pátio, a continuar em Shabbat 133b.

Completa-se a frase de 132b: a disputa de Rava e Rav Safra é uma disputa de Tannaim · תַּנָּאֵי הִיא

1096Beraita: Rabi Yoshiá exige o versículo "a carne" mesmo para a milá em seu tempo próprio; Rabi Yonatan diz que não precisa, pois vem por kal vachomer do Shabat
Beraita (Rabi Yoshiá; Rabi Yonatan)
תַּנָּאֵי הִיא, דְּתַנְיָא: ״בָּשָׂר״ וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ שָׁם בַּהֶרֶת — ״יִמּוֹל״, דִּבְרֵי רַבִּי יֹאשִׁיָּה. רַבִּי יוֹנָתָן אוֹמֵר: אֵינוֹ צָרִיךְ, שַׁבָּת חֲמוּרָה — דּוֹחָה, צָרַעַת — לֹא כׇּל שֶׁכֵּן.

É uma disputa de Tannaim, pois se ensina: "a carne" (Vayikra 12:3), e ainda que haja ali mancha — "que circuncide", palavras de Rabi Yoshiá. Rabi Yonatan diz: não precisa de versículo; o Shabat, que é rigoroso, é afastado pela milá, a tzaraat, não seria com muito mais razão?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "tanaei hi"
תנאי היא - דאיכא דנפקא ליה מילה בזמנה מק"ו כרבא וכי אתא קרא לשלא בזמנה ואיכא דלא נפקא ליה בק"ו ואיצטריך למילה בזמנה כרב ספרא ושלא בזמנה אתיא מביניא:

"É uma disputa de Tannaim" — pois há quem derive a milá em seu tempo próprio por kal vachomer, como Rava, e o versículo viria então apenas para a milá fora de seu tempo próprio; e há quem não a derive por kal vachomer, como Rav Safra, e para este o versículo é necessário para a milá em seu tempo próprio, e a milá fora de seu tempo próprio vem por argumento combinado (dos casos do adulto e do menino).

Nota

Estas são as palavras exatas com que 133a completa a frase cortada ao final de 132b: "e esta disputa, de Rava e Rav Safra" — "é uma disputa de Tannaim". A guemará revela, então, que o debate entre os dois amoraítas sobre se o Shabat ou a tzaraat é mais rigoroso já havia sido travado, séculos antes, entre dois Tannaim numa beraita: Rabi Yoshiá sustenta que mesmo a milá em seu tempo próprio precisa do versículo "a carne" para afastar a tzaraat — posição que corresponde à de Rav Safra, que hesitava em derivar isso por puro kal vachomer; e Rabi Yonatan sustenta que nenhum versículo é necessário, bastando o kal vachomer direto do Shabat — posição que corresponde exatamente à de Rava. Assim, o que parecia uma disputa nova entre dois amoraítas da Babilônia revela-se, na verdade, o eco de uma disputa tannaítica muito mais antiga.

Por que é necessário o versículo, se cortar a mancha é ação não intencional? · דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין

1097Questiona-se: cortar a mancha ao circuncidar é ação não intencional, e por isso permitida — para que então o versículo? Abaye: segundo Rabi Yehuda, que a proíbe; Rava: mesmo segundo Rabi Shimon, no caso de "pesik reisheih"
Anônimo da guemará; Abaye; Rava
אָמַר מָר: ״בָּשָׂר״, אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ שָׁם בַּהֶרֶת — ״יִמּוֹל״, דִּבְרֵי רַבִּי יֹאשִׁיָּה. הָא לְמָה לִי קְרָא, דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין הוּא, וְדָבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — מוּתָּר! אָמַר אַבָּיֵי: לָא נִצְרְכָא אֶלָּא לְרַבִּי יְהוּדָה, דְּאָמַר דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — אָסוּר. רָבָא אָמַר: אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבִּי שִׁמְעוֹן, מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יְמוּת״. וְאַבָּיֵי לֵית לֵיהּ הַאי סְבָרָא? וְהָא אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יְמוּת״! בָּתַר דְּשַׁמְעַהּ מֵרָבָא סַבְרַהּ.

Disse o Mestre: "a carne", ainda que haja ali mancha — "que circuncide", palavras de Rabi Yoshiá. Isso, para que preciso do versículo? É uma coisa não intencional, e uma coisa não intencional é permitida! Disse Abaye: não precisa do versículo senão segundo Rabi Yehuda, que diz que uma coisa não intencional é proibida. Rava disse: ainda que digas que é segundo Rabi Shimon, Rabi Shimon concorda em caso de "corte-se a cabeça e não morra" (um resultado certo e inevitável, ainda que indesejado). Mas Abaye não tem esse raciocínio? E não é que Abaye e Rava, ambos disseram: Rabi Shimon concorda em "corte-se a cabeça e não morra"! Depois que Abaye o ouviu de Rava, ele o aceitou.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "leRabi Yehuda", "modeh Rabi Shimon" e "savrah"
לרבי יהודה - רבי יאשיה דמצריך קרא להכי כרבי יהודה סבירא ליה: מודה ר' שמעון בפסיק כו' - הילכך אי לא רבי קרא לא עבדי: סברה - נתן בה דעתיה וקבל ממנו:

"Segundo Rabi Yehuda" — Rabi Yoshiá, que exige o versículo para isso, opina como Rabi Yehuda.

"Rabi Shimon concorda em caso de pesik reisheih etc." — por isso, se o texto não o tivesse incluído, não se faria o corte.

"Ele o aceitou" — voltou sua atenção para isso e o recebeu de Rava.

Nota

A guemará questiona a própria necessidade do versículo "a carne" apontado por Rabi Yoshiá: ao circuncidar, o mohel pretende apenas remover a orla, não ferir a mancha leprosa que porventura esteja ali — trata-se, portanto, de uma "ação não intencional", que em princípio é permitida mesmo em Shabat. Por que então seria necessário um versículo para permiti-la? Abaye responde que essa necessidade só existe segundo Rabi Yehuda, que proíbe toda ação não intencional, temendo que se torne intencional. Rava oferece uma resposta mais afiada: mesmo segundo Rabi Shimon, que permite ações não intencionais, há um caso em que ele reconhece a proibição — quando o resultado indesejado é absolutamente certo e inevitável (a imagem clássica é "cortar a cabeça de um animal e não querer que morra"): cortar a orla no exato lugar da mancha certamente vai cortá-la também, então mesmo Rabi Shimon concordaria que é preciso um versículo para permitir. A guemará então nota que Abaye também sustenta, em outro contexto, essa mesma regra de "pesik reisheih" — perguntando por que não a aplicou aqui de imediato; responde-se que ele só a aceitou depois de ouvi-la de Rava.

1098O mesmo debate se ensina ligado a outro versículo, "guarda-te da praga da tzaraat": não se pode cortar deliberadamente, mas ações incidentais, como a fibra da sandália, são permitidas
Beraita; Abaye; Rava
אִיכָּא דְּמַתְנֵי לְהָא דְּאַבָּיֵי וְרָבָא אַהָא: ״הִשָּׁמֶר בְּנֶגַע הַצָּרַעַת לִשְׁמֹר מְאֹד וְלַעֲשׂוֹת״, לַעֲשׂוֹת אִי אַתָּה עוֹשֶׂה, אֲבָל עוֹשֶׂה אַתָּה בְּסִיב שֶׁעַל גַּבֵּי רַגְלוֹ, וּבְמוֹט שֶׁעַל גַּבֵּי כְּתֵיפוֹ, וְאִם עָבְרָה — עָבְרָה. וְהָא לְמָה לִי קְרָא, דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין הוּא, וְדָבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — מוּתָּר! אָמַר אַבָּיֵי: לֹא נִצְרְכָה אֶלָּא לְרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר: דָּבָר שֶׁאֵין מִתְכַּוֵּין — אָסוּר. וְרָבָא אָמַר אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבִּי שִׁמְעוֹן, מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יְמוּת״. וְאַבָּיֵי לֵית לֵיהּ הַאי סְבָרָא? וְהָא אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ: מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יְמוּת״! לְבָתַר דְּשַׁמְעֵיהּ מֵרָבָא סַבְרַהּ.

Há quem ensine esta disputa de Abaye e Rava sobre isto: "guarda-te da praga da tzaraat, para observar muito e para fazer" (Devarim 24:8) — "para fazer" tu não farás deliberadamente, mas farás coisas incidentais, como com a fibra que está sobre seu pé, e com a vara que está sobre seu ombro; e se a mancha passou, passou. E isso, para que preciso do versículo? É uma coisa não intencional, e uma coisa não intencional é permitida! Disse Abaye: não precisa senão segundo Rabi Yehuda, que diz que uma coisa não intencional é proibida. E Rava disse: ainda que digas que é segundo Rabi Shimon, Rabi Shimon concorda em caso de "corte-se a cabeça e não morra". Mas Abaye não tem esse raciocínio? E não é que Abaye e Rava, ambos disseram: Rabi Shimon concorda em "corte-se a cabeça e não morra"! Depois que o ouviu de Rava, ele o aceitou.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lassot osseh atah besiv" e "im avrah"
ה"ג לעשות עושה אתה בסיב שעל רגלו ובמוט שעל גבי כתיפו - ואינו צריך להזהר מלדחות סיב שקושר מנעלו ברגלו ומלישא משאוי על כתיפו: ואם עברה - הבהרת בכך עברה ואינו חושש לה להכי כתיב לעשות שמותר לעשות מלאכתו:

Assim lemos: "para fazer, farás coisas incidentais com a fibra que está sobre seu pé e com a vara que está sobre seu ombro" — e não precisa se cuidar para evitar a fibra com que amarra sua sandália ao pé, nem carregar um fardo sobre o ombro.

"E se passou" — a mancha, com isso, passou, e não precisa se preocupar com ela; por isso está escrito "para fazer" — que lhe é permitido fazer seu trabalho.

Nota

O mesmo debate entre Abaye e Rava se ensina, alternativamente, ligado a um versículo diferente: "guarda-te da praga da tzaraat, para observar muito e para fazer conforme tudo o que os sacerdotes vos ensinarem" — o termo "para fazer" é entendido como uma proibição de agir deliberadamente contra a mancha (por exemplo, cortando-a de propósito), mas permite ações incidentais do cotidiano, como amarrar a sandália com uma fibra que roça a mancha, ou carregar uma vara sobre o ombro no mesmo lugar — e se, por acaso, a mancha se apagar com isso, não há problema. A mesma questão se repete: por que seria necessário um versículo para isso, se já é "ação não intencional"? E as mesmas respostas de Abaye e Rava se aplicam.

A quem se aplica quando há intenção expressa: o adulto e o pai do menino · בְּאוֹמֵר לָקוֹץ בַּהַרְתּוֹ

1099Segundo Rabi Shimon, para que serve então a palavra "a carne"? Rav Amram: para quando o próprio adulto declara sua intenção de cortar a mancha
Anônimo da guemará; Rav Amram
וְאַבָּיֵי אַלִּיבָּא דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן, הַאי ״בְּשַׂר״ מַאי עָבֵיד לֵיהּ? אָמַר רַב עַמְרָם: בְּאוֹמֵר לָקוֹץ בַּהַרְתּוֹ הוּא מִתְכַּוֵּין.

E Abaye, segundo a opinião de Rabi Shimon, esta palavra "a carne", o que faz com ela? Disse Rav Amram: trata-se de quando o próprio adulto diz que tem a intenção de cortar sua mancha.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'Abaye aliba deRabi Shimon" e "be'omer lakotz"
ואביי אליבא דר' שמעון - מעיקרא מקמי דסברה האי בשר מאי עביד ליה: באומר לקוץ - גדול שהוא בר עונשין ואומר למוהל לקוץ בהרתו בכוונה ליטהר:

"E Abaye, segundo Rabi Shimon" — antes de aceitar o raciocínio de Rava: esta palavra "a carne", o que faz com ela?

"Ao dizer que quer cortar" — trata-se de um adulto, sujeito a punições, que diz ao mohel que quer cortar sua mancha, com a intenção de se purificar.

Nota

A guemará retoma um ponto pendente: segundo Rabi Shimon, que permite ações não intencionais mesmo quando o resultado é certo (fora do caso extremo de "pesik reisheih"), a palavra "a carne" perderia sua função — pois cortar a mancha ao circuncidar seria, de todo modo, permitido sem ela. Rav Amram explica que essa palavra ainda tem uso: quando o próprio adulto que será circuncidado declara explicitamente a um mohel que deseja que ele corte sua mancha para se purificar — nesse caso, a ação deixa de ser "não intencional" e passa a ser deliberada, precisando então do versículo para ser permitida.

1100Isso resolve o adulto; e o menino, que não sabe ter intenção? Rav Mesharshiá: quando o próprio pai declara a intenção de cortar a mancha de seu filho
Anônimo da guemará; Rav Mesharshiá
תִּינַח גָּדוֹל, קָטָן מַאי אִיכָּא לְמֵימַר? אָמַר רַב מְשַׁרְשְׁיָא: בְּאוֹמֵר אֲבִי הַבֵּן לָקוֹץ בַּהֶרֶת דִּבְנוֹ הוּא קָא מִתְכַּוֵּין.

Isso resolve bem quanto ao adulto; quanto ao menino, o que há para dizer? Ele não sabe ter intenção. Disse Rav Mesharshiá: trata-se de quando o pai do filho diz que tem a intenção de cortar a mancha de seu filho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "katan" e "be'omer avi haben"
קטן - דלא ידע לכווני מאי איכא למימר ועל כרחיך בתרוייהו כתיב בשר כדאמרי' לעיל ובשר דכתיב גבי קטן ביום השמיני ל"ל: באומר אבי הבן לקוץ - דמתכוין לטהרו והוא מוזהר דלא ליעבד בידים ובמתכוין:

"Quanto ao menino" — que não sabe ter intenção, o que há para dizer? E por força, em ambos (adulto e menino) está escrito "a carne", como dissemos acima; e "a carne", escrito a respeito do menino no oitavo dia, para que serve então?

"Ao dizer que o pai do filho quer cortar" — isto é, que tem a intenção de purificá-lo, e ele (o pai) é o advertido a não fazer essa proibição de propósito e com as próprias mãos.

Nota

A resposta de Rav Amram resolve o caso do adulto, mas não o do menino recém-nascido, que evidentemente não pode declarar intenção alguma. Rav Mesharshiá completa: nesse caso, é o pai do menino quem declara ao mohel que deseja que a mancha do filho seja cortada — é o pai quem está advertido pela Torá a não cortar sinais de tzaraat deliberadamente, e é por essa mesma advertência que a intenção dele conta, tornando o ato "intencional" e exigindo o versículo para permiti-lo.

1101Objeção: se há outro mohel disponível sem essa intenção, que ele faça a milá! Resolve-se pela regra de Reish Lakish: só quando não há outro, o preceito positivo afasta o negativo
Anônimo da guemará; Reish Lakish
וְאִי אִיכָּא אַחֵר, לֶיעְבֵּיד אַחֵר! דְּאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ: כׇּל מָקוֹם שֶׁאַתָּה מוֹצֵא עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה — אִם אַתָּה יָכוֹל לְקַיֵּים שְׁנֵיהֶם מוּטָב, וְאִם לָאו — יָבֹא עֲשֵׂה וְיִדְחֶה לֹא תַעֲשֶׂה. דְּלֵיכָּא אַחֵר.

E se há outro mohel presente, sem essa intenção, que faça outro a milá, sem violar nada! Pois disse Rabi Shimon ben Lakish: em todo lugar em que encontras um preceito positivo e um negativo em conflito — se podes cumprir ambos, melhor; e se não, venha o positivo e afaste o negativo. Aqui, trata-se de quando não há outro mohel disponível.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'i ika acher"
ואי איכא אחר - שאינו חושש לטהרו ליעבד אחר ולא ליקו אב להתם ואע"ג דרבייה קרא שהרי אתה יכול לקיים עשה בלא עקירת לאו לר' שמעון דהא אחר לא מיכוין ולא עבר ואמר ריש לקיש כו' ורבויא למאי אתא:

"E se há outro" — que não se importa em purificá-lo o menino, que faça outro a milá, e que o pai não se levante ali para cortar a mancha com essa intenção; e ainda que o texto o tenha incluído, pois podes cumprir o positivo sem anular o negativo, segundo Rabi Shimon — já que o outro mohel não tem essa intenção e não transgride; e disse Reish Lakish a regra geral; e a inclusão do versículo, para que veio então?

Nota

A guemará objeta: se há outro mohel disponível, que não tem interesse algum em purificar o menino cortando deliberadamente sua mancha, que seja ele — e não o pai — a realizar a circuncisão; assim cumpre-se o preceito positivo da milá sem violar, intencionalmente, o negativo de cortar a tzaraat. A resposta é a regra geral de Reish Lakish, já conhecida de outros contextos: sempre que um preceito positivo e um negativo podem, em princípio, entrar em conflito, a preferência é cumprir ambos sem violação, se isso for possível; só quando de fato não é possível — como quando não há outro mohel presente — é que o preceito positivo (a milá, que deve ser feita no oitavo dia) vem e afasta o negativo (a proibição de cortar a mancha).

De onde se sabe que a festividade só é afastada em seu tempo próprio? Quatro fontes · יוֹם טוֹב אֵינָהּ דּוֹחָה אֶלָּא בִּזְמַנָּהּ

1102De onde se sabe que a festividade só é afastada pela milá em seu tempo próprio? Chizkiyá: do versículo sobre a segunda manhã de queima do Pêssach
Anônimo da guemará; Chizkiyá
אָמַר מָר: יוֹם טוֹב אֵינָהּ דּוֹחָה אֶלָּא בִּזְמַנָּהּ בִּלְבַד. מְנָא הָנֵי מִילֵּי? אָמַר חִזְקִיָּה, וְכֵן תָּנָא דְּבֵי חִזְקִיָּה, אָמַר קְרָא: ״לֹא תוֹתִירוּ מִמֶּנּוּ עַד בֹּקֶר״, שֶׁאֵין תַּלְמוּד לוֹמַר ״עַד בֹּקֶר״, מַה תַּלְמוּד לוֹמַר ״עַד בֹּקֶר״ — בָּא הַכָּתוּב לִיתֵּן לוֹ בֹּקֶר שֵׁנִי לִשְׂרֵיפָתוֹ.

Disse o Mestre: a festividade não é afastada pela milá, senão apenas quando cumprida em seu tempo próprio. De onde se sabem estas palavras essa regra? Disse Chizkiyá, e assim ensinou a escola de Chizkiyá: disse o texto: "não deixareis dele até a manhã" (Shemot 12:10, sobre o cordeiro pascal), pois não era necessário dizer "até a manhã" de novo; para que então ensina o texto "até a manhã"? Veio o texto para lhe dar uma segunda manhã para sua queima.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'ein talmud lomar ad boker"
שאין תלמוד לומר עד בקר - תניינא והנותר ממנו עד בקר דמצי למכתב והנותר באש תשרפו אלא אשריפה קאי והכי קאמר והנותר ממנו בזמן שאסרתי לך דהיינו בקר ראשון כשיבא בקר שני שהוא חולו של מועד תשרפו אבל בי"ט לא אלמא מידי דחול לא עבדינן בי"ט ופסח קרבן י"ד בניסן הוא שהוא חול ומילה שלא בזמנה נמי מידי דחול הוא דבשבת זו לא היה זמנה:

"Pois não era necessário dizer 'até a manhã'" — é a segunda vez, pois "e o que sobejar dele até a manhã" poderia ter escrito apenas "e o que sobejar, ao fogo o queimareis"; mas o versículo se refere à queima, e é isto o que diz: "o que sobejar dele", no tempo em que eu o proibi a ti — isto é, na primeira manhã — quando chegar a segunda manhã, que é dia comum do meio da festividade (chol hamoed), o queimareis; mas na festividade propriamente, não; logo, coisa de dia comum não se faz na festividade. E o cordeiro do Pêssach é um sacrifício do dia catorze de Nissan, que é dia comum; e a milá fora de seu tempo próprio também é coisa de dia comum, pois neste particular Shabat não era seu tempo.

Nota

A guemará retorna ao princípio estabelecido antes da longa digressão: a festividade (Yom Tov) só é afastada pela milá quando esta é cumprida em seu tempo próprio, no oitavo dia — mas não quando adiada. De onde se deriva essa regra? Chizkiyá a deriva do versículo sobre o sacrifício pascal: a Torá repete a expressão "até a manhã" para as sobras do cordeiro, indicando uma segunda manhã reservada à sua queima — o dia seguinte, que é dia comum dentro da festividade (chol hamoed), e não a própria festividade. Disso se aprende que uma "coisa de dia comum" — como queimar as sobras, ou como a milá fora de seu tempo — não se pratica na festividade propriamente dita, ainda que se pratique em seu meio (chol hamoed) ou em Shabat.

1103Abaye: do versículo "a oferenda do Shabat em seu Shabat" — nem oferenda de dia comum em Shabat, nem em festividade
Abaye
אַבָּיֵי אָמַר, אָמַר קְרָא: ״עוֹלַת שַׁבָּת בְּשַׁבַּתּוֹ״, וְלֹא עוֹלַת חוֹל בְּשַׁבָּת, וְלֹא עוֹלַת חוֹל בְּיוֹם טוֹב.

Abaye disse: disse o texto: "a oferenda do Shabat em seu Shabat" (Bamidbar 28:10) — e não a oferenda de dia comum em Shabat, e não a oferenda de dia comum em festividade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "velo olat chol beYom Tov"
ולא עולת חול בי"ט - אברי תמיד של עי"ט אין קרבין בי"ט ומילה שלא בזמנה נמי כעולת חול בי"ט דמי:

"E não a oferenda de dia comum em festividade" — os membros do sacrifício contínuo da véspera da festividade não se oferecem na festividade; e a milá fora de seu tempo próprio também é semelhante à oferenda de dia comum em festividade.

Nota

Abaye propõe uma segunda fonte: o versículo que ordena oferecer "a oferenda do Shabat em seu Shabat" ensina, por sua formulação restritiva, que uma oferenda de dia comum (por exemplo, os membros do sacrifício contínuo da véspera, deixados para depois) não pode ser oferecida nem em Shabat nem em festividade. A milá fora de seu tempo próprio é comparada a essa "oferenda de dia comum": assim como esta não é oferecida na festividade, também a milá adiada não é praticada nela.

1104Rava: do versículo "só ele será feito para vós" — "ele" exclui os preparativos, "só ele" exclui a milá fora de seu tempo próprio, que já vem por kal vachomer
Rava
רָבָא אָמַר, אָמַר קְרָא: ״הוּא לְבַדּוֹ יֵעָשֶׂה לָכֶם״, ״הוּא״ — וְלֹא מַכְשִׁירִין. ״לְבַדּוֹ״ — וְלֹא מִילָה שֶׁלֹּא בִּזְמַנָּהּ, דְּאָתְיָא מִקַּל וָחוֹמֶר.

Rava disse: disse o texto: "só ele será feito para vós" (Shemot 12:16) — "ele" — e não os preparativos. "Só ele" — e não a milá fora de seu tempo próprio, que vem por kal vachomer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "de'atya mikal vachomer"
דאתיא בק"ו - שתדחה ומה צרעת שדוחה עבודה מילה שלא בזמנה דוחה אותה כדאמרינן לעיל שבת שנדחית מפני עבודה אינו דין שמילה שלא בזמנה דוחה אותה להכי איצטריך לבדו:

"Que vem por kal vachomer" — que a milá fora de seu tempo próprio deveria afastar o Shabat: assim como a tzaraat, que afasta o serviço, a milá fora de seu tempo próprio a afasta, como dissemos acima (em 132b) — o Shabat, que é afastado por causa do serviço, não é lógico que a milá fora de seu tempo próprio o afaste também? Por isso foi necessário o termo "só ele".

Nota

Rava deriva a mesma regra de um terceiro versículo, sobre a festividade de Pêssach: "só ele será feito para vós" — a palavra "ele" exclui os preparativos de comida (que devem ser feitos antes da festividade); e a palavra adicional "só ele" exclui especificamente a milá fora de seu tempo próprio, que por si só teria, por kal vachomer, força suficiente para afastar até o Shabat — mas o versículo vem justamente para negar isso quanto à festividade.

1105Rav Ashi: o termo "descanso" torna a festividade um preceito positivo e negativo combinados, que um preceito positivo isolado não pode afastar
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר: ״שַׁבָּתוֹן״ — עֲשֵׂה הוּא, וְהָוֵה לֵיהּ יוֹם טוֹב עֲשֵׂה וְלֹא תַעֲשֶׂה, וְאֵין עֲשֵׂה דּוֹחֶה אֶת לֹא תַעֲשֶׂה וַעֲשֵׂה.

Rav Ashi disse: "descanso" (shabaton — Vayikra 23:24, sobre a festividade) é ele mesmo um preceito positivo, e assim a festividade se torna um positivo e um negativo juntos, e um preceito positivo não afasta um negativo combinado com um positivo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'ein aseh"
ואין עשה - דמילה דוחה לא תעשה ועשה אבל בזמנה איתרבי מביום אפילו בשבת:

"E um preceito positivo não afasta" — pois a milá fora de seu tempo deveria afastar um negativo e um positivo juntos; mas a milá em seu tempo próprio foi incluída por o versículo "no dia" — mesmo em Shabat.

Nota

Rav Ashi oferece uma quarta explicação, de natureza mais conceitual: a festividade não é apenas um preceito negativo (a proibição de trabalhar), mas também um preceito positivo, derivado do termo "descanso" — de modo que ela é, na verdade, um positivo e um negativo combinados. Ora, a regra é que um preceito positivo isolado (como a milá) pode afastar um negativo isolado, mas não pode afastar um negativo que vem acompanhado de um positivo — por isso a milá fora de seu tempo próprio não afasta a festividade. Já em Shabat, que é apenas um preceito negativo puro, a milá em seu tempo próprio consegue afastá-lo, por força do versículo "no dia", estudado em 132b.

A lei é como Rabi Akiva; os dois ensinos, sobre a milá e sobre o Pêssach, são necessários um ao outro · הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

1106A lei é como Rabi Akiva; ensina-se regra semelhante a respeito do Pêssach, com a mesma conclusão haláquica
Rav Yehuda em nome de Rav
כְּלָל אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא וְכוּ׳. אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא. וּתְנַן נָמֵי גַּבֵּי פֶסַח כִּי הַאי גַוְונָא: כְּלָל אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא: כׇּל מְלָאכָה שֶׁאֶפְשָׁר לָהּ לַעֲשׂוֹתָהּ מֵעֶרֶב שַׁבָּת — אֵינָהּ דּוֹחָה אֶת הַשַּׁבָּת. שְׁחִיטָה שֶׁאִי אֶפְשָׁר לַעֲשׂוֹתָהּ מֵעֶרֶב שַׁבָּת — דּוֹחָה אֶת הַשַּׁבָּת. וְאָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

"Uma regra geral disse Rabi Akiva" etc. (Mishnah). Disse Rav Yehuda, disse Rav: a lei é como Rabi Akiva. E ensinamos também, a respeito do Pêssach, algo semelhante a isto: "uma regra geral disse Rabi Akiva: toda obra que é possível fazer na véspera do Shabat não afasta o Shabat; o abate do cordeiro pascal, que não é possível fazer na véspera do Shabat, afasta o Shabat." E disse Rav Yehuda, disse Rav: a lei é como Rabi Akiva.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "gabei Pesach"
גבי פסח - כל מלאכה שאפשר לה לעשות מע"ש כגון הבאתו מחוץ לתחום וחתיכת יבלתו:

"A respeito do Pêssach" — toda obra que é possível fazer na véspera do Shabat, como trazê-lo o cordeiro de fora do limite de Shabat, e cortar sua verruga.

Nota

A guemará retoma a regra geral de Rabi Akiva, já conhecida da Mishná deste perek: os preparativos da milá que podem ser feitos na véspera do Shabat não afastam o Shabat, e Rav Yehuda ratifica, em nome de Rav, que a lei segue Rabi Akiva. Ensina-se uma regra paralela quanto ao sacrifício pascal: toda obra que poderia ter sido feita antes do Shabat (como trazer o cordeiro de fora dos limites permitidos, ou remover sua verruga) não afasta o Shabat; apenas o abate em si, que não pode ser antecipado, o afasta. E também aqui a lei segue Rabi Akiva.

1107Por que ambos os ensinos são necessários: cada um traria uma conclusão errada sem o outro, por causa do karet e das treze alianças
Anônimo da guemará
וּצְרִיכָא, דְּאִי אַשְׁמְעִינַן גַּבֵּי מִילָה: הָתָם הוּא דְּמַכְשִׁירִין אֶפְשָׁר לַעֲשׂוֹת מֵאֶתְמוֹל לָא דָּחוּ שַׁבָּת דְּלֵיכָּא כָּרֵת, אֲבָל פֶּסַח דְּאִיכָּא כָּרֵת — אֵימָא לִידְחוֹ שַׁבָּת. וְאִי אַשְׁמְעִינַן גַּבֵּי פֶסַח, מִשּׁוּם דְּלֹא נִכְרְתוּ עָלֶיהָ שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה בְּרִיתוֹת. אֲבָל מִילָה דְּנִכְרְתוּ עָלֶיהָ שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה בְּרִיתוֹת — אֵימָא לִידְחוֹ שַׁבָּת, צְרִיכָא.

E ambos os ensinos são necessários: pois se nos tivesse ensinado apenas a respeito da milá, dir-se-ia: ali é que, sendo os preparativos possíveis de se fazer desde ontem, não afastam o Shabat, pois não há pena de karet por perdê-los; mas quanto ao Pêssach, em que há karet, dir-se-ia que esses preparativos afastariam o Shabat. E se nos tivesse ensinado apenas a respeito do Pêssach, dir-se-ia que é porque não se fizeram, por causa dele, treze pactos; mas a milá, por causa da qual se fizeram treze pactos, dir-se-ia que seus preparativos afastariam o Shabat — por isso ambos são necessários.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "utzricha" e "milah bizmanah leika karet"
וצריכא - למימר בתרוייהו הלכה כר"ע דמכשירין לא דחו: מילה בזמנה ליכא כרת - דקטן לאו בר עונשין הוא ואבוה לא מיחייב עליה כרת:

"E ambos são necessários" — dizer, em ambos, que a lei é como Rabi Akiva, de modo que os preparativos não afastam o Shabat.

"Quanto à milá em seu tempo próprio, não há karet" — pois o menino não está sujeito a punições, e seu pai não é passível de karet por causa dela.

Nota

A guemará explica por que era preciso ensinar a regra de Rabi Akiva duas vezes, uma para a milá e outra para o Pêssach, quando ambas dizem essencialmente a mesma coisa. Se apenas se tivesse ensinado quanto à milá, poder-se-ia pensar que os preparativos não a afastam o Shabat justamente porque, se ela for adiada, ninguém é punido com karet (o menino não é responsável, e o pai não é punido por atrasar a milá do filho) — mas quanto ao Pêssach, cujo descumprimento acarreta karet, talvez os preparativos devessem afastar o Shabat, para evitar essa pena grave. Por outro lado, se apenas se tivesse ensinado quanto ao Pêssach, poder-se-ia pensar que a razão de seus preparativos não afastarem o Shabat é que, ao contrário da milá, não se fizeram treze alianças especiais por causa dele — mas quanto à milá, por cujo mérito se fizeram treze alianças (conforme a contagem em Bereshit 17), talvez seus preparativos devessem afastar o Shabat. Por isso, os dois ensinos são necessários, cada um afastando um raciocínio que só o outro caso poderia sugerir.

Nova Mishná: tudo o que a milá necessita se faz em Shabat · עוֹשִׂין כׇּל צׇרְכֵי מִילָה

1108Mishná: fazem-se em Shabat todas as necessidades da milá — circuncidar, descobrir a membrana, sugar o sangue, e colocar curativo e cominho
Mishná
עוֹשִׂין כׇּל צׇרְכֵי מִילָה [בְּשַׁבָּת]: מוֹהֲלִין וּפוֹרְעִין וּמוֹצְצִין וְנוֹתְנִין עָלֶיהָ אִיסְפְּלָנִית וְכַמּוֹן.

Fazem-se todas as necessidades da milá em Shabat: circuncida-se, descobre-se a membrana, suga-se o sangue, e coloca-se sobre ela um curativo e cominho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mohalin", "por'in" e "motzetzin"
מתני' מוהלין - חותך את הערלה: ופורעין - את העור המכסה ראש הגיד: ומוצצין - את הדם ואף על גב דהיא עשיית חבורה שאין הדם ניתק מחיבורו אלא על ידי המציצה: איספלנית - תחבושת:

Mishná. "Circuncida-se" — corta-se a orla.

"Descobre-se" — a pele que cobre a cabeça do membro.

"Suga-se" — o sangue; e ainda que isso seja causar uma ferida, o sangue não se solta de sua ligação senão por meio da sucção.

"Curativo" — bandagem.

Nota

Encerrada a longa discussão sobre a fonte e o alcance da regra "a milá afasta a tzaraat" e sobre quando a festividade é afastada, a guemará introduz uma nova Mishná — a segunda do Perek Yud-Tet — que trata dos detalhes práticos: quais atos, exatamente, compõem "a milá" e podem ser feitos em Shabat. São quatro: cortar a orla propriamente; descobrir, isto é, rasgar e dobrar para trás a fina membrana que ainda cobre a cabeça do membro após o corte; sugar o sangue do ferimento, o que tecnicamente causaria outra ferida, mas é necessário, pois o sangue preso não se solta sozinho; e, por fim, colocar sobre o ferimento um curativo (isplanit) e pó de cominho, usado como cicatrizante e anti-hemorrágico.

1109Se o cominho não foi moído, nem o vinho e o óleo misturados, na véspera do Shabat, faz-se então da forma disponível
Mishná
אִם לֹא שָׁחַק מֵעֶרֶב שַׁבָּת — לוֹעֵס בְּשִׁינָּיו וְנוֹתֵן. אִם לֹא טָרַף יַיִן וָשֶׁמֶן מֵעֶרֶב שַׁבָּת — נוֹתֵן זֶה בְּעַצְמוֹ וְזֶה בְּעַצְמוֹ.

Se não moeu o cominho na véspera do Shabat, mastiga-o com os dentes e o coloca. Se não misturou vinho e óleo na véspera do Shabat, coloca-se este o vinho por si só e este o óleo por si só.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lo'es beshinav" e "lo taraf yayin vashemen"
לועס בשיניו - כמה דאפשר לשנויי משנינן: לא טרף יין ושמן - כך היו רגילין והיא רפואה שמערבין וטורפין בקערה יין ושמן יחד כדרך שטורפין ביצים בקערה:

"Mastiga-o com os dentes" — sempre que é possível modificar o modo usual, modificamos.

"Não misturou vinho e óleo" — assim era o costume, e é um remédio: misturam e batem numa tigela vinho e óleo juntos, do mesmo modo que se batem ovos numa tigela.

Nota

A Mishná trata do caso em que os preparativos não foram feitos a tempo, na véspera do Shabat: se o cominho não foi moído previamente, o próprio mohel o mastiga com os dentes ali mesmo — modificando o modo usual de preparo, o que basta para que a ação não pareça uma violação direta do Shabat; e se o vinho e o óleo, usados como remédio e costumeiramente batidos juntos numa tigela como se batem ovos, não foram misturados de antemão, coloca-se cada um separadamente sobre o ferimento, evitando assim a mistura em Shabat.

1110Não se prepara de antemão uma bolsa especial para o membro, mas se pode envolvê-lo num pano — trazido, se necessário, mesmo de outro pátio
Mishná
וְאֵין עוֹשִׂין לָהּ חָלוּק לְכַתְּחִילָּה, אֲבָל כּוֹרֵךְ עָלֶיהָ סְמַרְטוּט. אִם לֹא הִתְקִין מֵעֶרֶב שַׁבָּת — כּוֹרֵךְ עַל אֶצְבָּעוֹ וּמֵבִיא, וַאֲפִילּוּ מֵחָצֵר אַחֶרֶת.

E não se faz para ela a milá, de antemão, uma bolsa especial, mas se pode envolver nela um pano. Se não o preparou na véspera do Shabat, envolve-o no dedo e o traz, mesmo de outro pátio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chaluk", "lo hitkin" e "korech al ido"
חלוק - כעין כיס דחוק היו עושין ומלבישים את ראש הגיד עד העטרה וקושרים שם כדי שלא יחזור העור לכסות את הגיד: לא התקין - לא הזמין: כורך על ידו - דרך מלבוש לשנותו מדרך הוצאה בחול:

"Bolsa" — faziam algo como uma bolsa apertada, e vestiam a cabeça do membro até a coroa, e amarravam ali, para que a pele não voltasse a cobrir o membro.

"Não preparou" — não o providenciou de antemão.

"Envolve-o em seu dedo" — como forma de o vestir, para diferenciá-lo do modo comum de carregar em dia de semana.

Nota

A Mishná encerra com dois pontos: não se deve fazer, de antemão, uma bolsa especial e apertada — que se vestia sobre a cabeça do membro até a coroa, e se amarrava ali, para impedir que a pele voltasse a cobri-lo — pois preparar tal peça seria um trabalho próprio de dia de semana; mas é permitido simplesmente envolver o local com um pano comum. E se nem o pano foi preparado antes do Shabat, pode-se envolvê-lo no dedo do próprio mohel — um modo de carregá-lo "como vestimenta", diferente do modo comum de transporte em dia de semana — e trazê-lo até o menino, mesmo que seja preciso atravessar de um pátio a outro para isso.