Shabbat 132a abre completando a objeção interrompida ao final de 131b: o que há de peculiar em lulav, sucá, matzá e shofar — cuja fonte coletiva Rabi Eliezer usara para a milá — é que, se passa seu tempo próprio, a obrigação simplesmente se anula, ao passo que a milá, se não cumprida no oitavo dia, permanece obrigatória para sempre. Por isso a guemará abandona essa fonte coletiva e revela a razão verdadeira de Rabi Eliezer: o próprio versículo "e no oitavo dia se circuncidará a carne de sua orla", que inclui até o Shabat. Pergunta-se então por que não bastaria escrever a regra somente quanto à milá, deixando que as demais mitzvot dela aprendessem — e responde-se que a milá tem a peculiaridade de terem sido cortados a seu respeito treze pactos, tantos quantos se contam na parashá de Bereshit 17. Encerrada essa cadeia, a guemará observa que, até aqui, os sábios discordavam de Rabi Eliezer somente quanto aos preparativos da milá; mas que a milá em si, o próprio ato de circuncidar, afasta o Shabat é consenso de todos — e pergunta-se de onde se sabe isso. Ulá, e também Rabi Yitzchak, respondem: é halachá, lei transmitida a Moshé no Sinai, sem apoio direto num versículo. Levanta-se então uma objeção de uma beraita, em que Rabi Elazar ben Azarya ensina, por kal vachomer a partir da milá, que salvar uma vida afasta o Shabat — mas como se poderia derivar um kal vachomer a partir de uma halachá sem base escriturística? Cita-se outra beraita em que o próprio Rabi Elazar ben Azarya distingue, perante Rabi Akiva, entre o osso do tamanho de um grão de cevada, que é halachá, e o quarto de log de sangue, que vem por kal vachomer — pois não se deriva kal vachomer de halachá. A guemará busca então uma fonte escriturística. Rabi Elazar, o amora, propõe uma guezerá shavá da palavra "sinal", comum a Shabat e à milá; refuta-se com o tefilin, que também tem "sinal" escrito a seu respeito. Propõe-se então "pacto"; refuta-se com o adulto que se circuncida fora de seu tempo, sobre quem também se escreve "pacto". Propõe-se "gerações"; refuta-se com o tzitzit, sobre o qual também se escreve "gerações". Rav Nachman bar Yitzchak resolve, por fim, combinando os três termos: deriva-se "sinal", "pacto" e "gerações" reunidos, escritos juntos tanto a respeito de Shabat quanto de milá, de "sinal", "pacto" e "gerações" reunidos — excluindo o tefilin, o adulto e o tzitzit, em que apenas um dos três termos, isoladamente, está escrito. Rabi Yochanan propõe uma via inteiramente diferente: o versículo "no dia" já basta, incluindo até o Shabat. Reish Lakish objeta com os que faltam expiação — sobre os quais também se escreve "no dia" —, e a guemará explica em cadeia, indo e voltando, por que aquele versículo ali serve apenas para excluir a noite; de onde, então, a milá aprende essa mesma exclusão da noite; e por que, ainda assim, o versículo dos que faltam expiação seria necessário, por causa da oferenda reduzida permitida ao pobre. Ravina objeta ainda quanto a um leigo ou um enlutado serem válidos nessa oferenda; responde-se que o versículo já os excluiu de volta. Rav Acha bar Yaakov propõe outra fonte, a palavra "oitavo"; refuta-se e explica-se, em nova cadeia, por que seriam ainda necessários dois versículos — um para excluir o sétimo dia, outro o nono —, concluindo-se que a explicação de Rabi Yochanan é a mais clara. Ensina-se uma beraita de acordo com Rabi Yochanan e não com Rav Acha bar Yaakov; Rava questiona a lógica interna dessa beraita, que parece primeiro concordar e depois discordar da mesma dedução; e explica-se seu sentido verdadeiro: a milá afasta o Shabat, e a razão é um kal vachomer que parte da tzaraat, a qual afasta o serviço do Templo. O daf termina interrompido bem no início desse kal vachomer, sem revelar seu desenvolvimento completo, a continuar em Shabbat 132b, ainda não publicado.
...pois se passa seu tempo, a obrigação se anula (o que não vale para a milá, que permanece obrigatória mesmo depois do oitavo dia). Antes, esta é a verdadeira razão de Rabi Eliezer: que disse o versículo: "e no oitavo dia se circuncidará a carne de sua orla" (Vayikra 12:3), mesmo em Shabat.
"Pois se passa seu tempo, a obrigação se anula" — por isso seus preparativos afastam o Shabat.
"E no oitavo dia se circuncidará... mesmo em Shabat" — e quanto à milá em si, que afasta o Shabat, diremos adiante que é halachá transmitida a Moshé no Sinai; por isso sobrou-lhe o versículo "no dia" para seus preparativos.
Completa-se aqui a objeção cortada ao final de 131b: perguntava-se o que haveria de peculiar em lulav, sucá, matzá e shofar — as mitzvot de cuja fonte coletiva Rabi Eliezer teria derivado a milá — que impediria a generalização. A resposta é que, em todas elas, se passa seu tempo próprio a obrigação simplesmente se anula: não há mais lulav depois de Sucot, nem matzá além da primeira noite, nem o shofar de Rosh Hashaná fora de seu dia. A milá, porém, não é assim: se não cumprida no oitavo dia, continua obrigatória por toda a vida do menino, e mesmo depois de adulto. Por isso a guemará abandona de vez a tentativa de derivar a milá por analogia com as demais mitzvot, e revela a razão verdadeira de Rabi Eliezer: o próprio versículo que ordena circuncidar "no oitavo dia", entendido como incluindo até o Shabat — pois, segundo Rashi, a circuncisão em si já se sabe por halachá transmitida a Moshé no Sinai que afasta o Shabat, de modo que esse versículo sobra precisamente para ensinar que também os preparativos da milá o afastam.
Mas então, que o Misericordioso escrevesse a regra apenas quanto à milá, e viessem estas outras mitzvot e dela aprendessem! Não se faz assim porque há como refutar: o que há de peculiar na milá? Que a seu respeito foram cortados treze pactos.
"Treze pactos" — foram ditos a Avraham na parashá da milá (Bereshit 17).
No mesmo padrão das perguntas anteriores, indaga-se por que não bastaria escrever a regra apenas quanto à milá, deixando que as demais mitzvot dela derivassem. Responde-se que a analogia seria refutável: a milá tem a peculiaridade única de que, na passagem em que foi ordenada a Avraham, a palavra "pacto" (brit) se repete treze vezes — um peso e uma centralidade que nenhuma outra mitzvá compartilha, e que por isso impede que se generalize a partir dela sozinha para todas as demais.
Até aqui os sábios não discordam de Rabi Eliezer senão quanto aos preparativos da milá; mas que a milá em si (o próprio ato) afasta o Shabat é palavra de todos (consenso) — de onde o sabemos? Disse Ulá: é halachá. E assim disse Rabi Yitzchak: é halachá.
A guemará muda de assunto: até aqui, toda a discussão era sobre os preparativos da milá (como afiar ou trazer o instrumento), quanto aos quais os sábios discordam de Rabi Eliezer. Mas que o próprio ato de circuncidar afasta o Shabat — isto é, que se circuncida um menino no oitavo dia mesmo que caia em Shabat — é aceito por todos, sábios e Rabi Eliezer igualmente. Pergunta-se então de onde vem essa regra unânime, e Ulá, seguido por Rabi Yitzchak, respondem que se trata de uma halachá — uma lei recebida por tradição oral desde Moshé no Sinai, sem necessidade de apoio direto num versículo da Torá escrita.
Objetaram: de onde se sabe que salvar uma vida afasta o Shabat? Rabi Elazar ben Azarya diz: assim como a milá, que afeta um só dos membros do homem, afasta o Shabat — quanto mais, por kal vachomer, salvar uma vida, que envolve o homem inteiro, afasta o Shabat.
Traz-se uma objeção contra a explicação de Ulá e Rabi Yitzchak: numa beraita, Rabi Elazar ben Azarya deriva, por um argumento a fortiori (kal vachomer), que salvar uma vida humana afasta o Shabat — pois se a milá, que afeta apenas um único membro do corpo, já afasta o Shabat, com muito mais razão salvar uma vida inteira deveria afastá-lo. Mas essa derivação pressupõe que a regra da milá tem uma base lógica ou escriturística capaz de sustentar um kal vachomer — o que parece incompatível com dizer que ela é simplesmente uma halachá recebida, sem fundamento explicável.
E se te vem à mente que a regra da milá é apenas halachá — viria então um kal vachomer de uma halachá? Mas não se ensinou numa beraita que Rabi Elazar ben Azarya lhe disse (a Rabi Akiva): Akiva, que o osso do tamanho de um grão de cevada (impureza) é halachá, mas o quarto de log de sangue (vem por) kal vachomer — e não se deriva kal vachomer de halachá?
"Mas não se ensinou numa beraita" — no tratado Nazir.
"Akiva, que o osso do tamanho de um grão de cevada é halachá" — pois Rabi Akiva argumentava por kal vachomer de onde se saberia que um quarto de log de sangue de um morto faz o nazireu raspar a cabeça sobre sua tenda: assim como o osso do tamanho de um grão de cevada, que não impurifica sob uma tenda, ainda assim faz o nazireu raspar por seu toque e carregamento, o quarto de log de sangue, que impurifica sob uma tenda — como está escrito "e sobre toda alma morta não virá" — não seria justo que o nazireu raspasse por causa dele? E Rabi Elazar lhe respondeu: Akiva, que o osso do tamanho de um grão de cevada é halachá transmitida a Moshé no Sinai, ordenando que o nazireu raspe por causa dele, e o quarto de log de sangue tu vens aprender dele por kal vachomer — mas não se deriva kal vachomer de halachá, pois a tradição oral não foi dada para ser interpretada pelas treze midot.
A guemará reforça a objeção: se a regra de que a milá afasta o Shabat fosse apenas uma halachá recebida, sem base num versículo, não se poderia derivar dela nenhum kal vachomer — pois se prova, numa beraita do tratado Nazir, que o próprio Rabi Elazar ben Azarya ensinou a Rabi Akiva essa mesma restrição: a lei de que o osso do tamanho de um grão de cevada impurifica é halachá transmitida a Moshé no Sinai, ao passo que a lei do quarto de log de sangue vem por kal vachomer a partir dela — e mesmo assim, ensina-se ali que não se deriva um kal vachomer de uma halachá, pois a tradição oral, ao contrário da Torá escrita, não foi dada para ser interpretada pelas treze regras hermenêuticas. Isso mostra que a regra da milá deve ter, afinal, alguma base escriturística — pois dela se deriva validamente o kal vachomer de Rabi Elazar ben Azarya para pikuach nefesh.
Antes, disse Rabi Elazar: vem a regra por guezerá shavá de "sinal" e "sinal". Mas então, o tefilin, a cujo respeito também se escreve "sinal", que afaste o Shabat!
"Vem a regra por guezerá shavá de 'sinal' e 'sinal'" — a respeito de Shabat está escrito (Shemot 31:13) "que sinal ele é", e a respeito da milá está escrito (Bereshit 17:11) "e será por sinal do pacto"; assim como ali (quanto a Shabat, a palavra "sinal" indica que ele mesmo cede), também aqui (a milá cede o Shabat).
"Mas então" — se esta guezerá shavá de "sinal", dita a respeito de Shabat, foi transmitida no Sinai para ensinar que essa palavra serve a essa interpretação, dela se aprenderia também para o tefilin.
Buscando a fonte escriturística para a halachá de que a milá afasta o Shabat, Rabi Elazar (o amora, distinto de Rabi Elazar ben Azarya) propõe uma guezerá shavá: a palavra "sinal" (ot) aparece tanto a respeito de Shabat — "que sinal ele é entre mim e vós" — quanto a respeito da milá — "e será por sinal do pacto". Assim como a menção de "sinal" a respeito de Shabat indica algo especial, o mesmo se aplicaria à milá, que ele afastaria o Shabat. Mas de imediato se objeta: se essa ligação verbal por si só bastasse, o tefilin — sobre o qual também se escreve "sinal" (Shemot 13:9) — deveria igualmente afastar o Shabat, o que ninguém sustenta.
Antes, vem a regra por guezerá shavá de "pacto" e "pacto". Mas então, o adulto (que se circuncida fora de seu tempo próprio), a cujo respeito também se escreve "pacto", que afaste o Shabat! Antes, vem a regra por guezerá shavá de "gerações" e "gerações". Mas então, o tzitzit, a cujo respeito também se escreve "gerações", que afaste o Shabat!
"Antes, vem por guezerá shavá de 'pacto' e 'pacto'" — aquela guezerá shavá de "sinal" e "sinal" não foi transmitida no Sinai, e ninguém deriva uma guezerá shavá por conta própria; mas esta, de "pacto" e "pacto", foi transmitida no Sinai, e a respeito de Shabat está escrito (Shemot 31:16) "pacto" — "por suas gerações, pacto eterno".
"O adulto" — trata-se de um menino de treze anos, que se circuncidasse agora seria milá fora de seu tempo próprio.
"A cujo respeito também se escreve 'pacto'" — "e o incircunciso, o macho que não se circuncidar... anulou meu pacto" (Bereshit 17:14); e este versículo é dito a respeito do adulto, visto que a Torá o obriga a karet caso seu pai não o tenha circuncidado, de modo que ele mesmo é obrigado a se circuncidar — e assim, poder-se-ia pensar que isso afastasse o Shabat também; mas diremos adiante que nem mesmo a festividade afasta essa milá tardia, senão quando cumprida em seu tempo próprio.
"'Gerações' e 'gerações'" — a respeito de Shabat está escrito "por suas gerações, pacto eterno", e a respeito da milá de um menino está escrito (Bereshit 17:12) "e de oito dias se circuncidará a vós todo macho, por suas gerações".
Explica-se primeiro por que a guezerá shavá de "sinal" foi rejeitada, mas a de "pacto" merece consideração: a primeira não teria sido transmitida por tradição no Sinai, e ninguém pode inventar uma guezerá shavá por conta própria; já a segunda foi de fato recebida por tradição. Ainda assim, refuta-se também esta: o mesmo termo "pacto" aparece a respeito de um adulto que não foi circuncidado quando criança — cuja obrigação, segundo Rashi, decorre da pena de karet imposta sobre ele — e ninguém sustenta que essa milá tardia afaste o Shabat, pois ela nem sequer afasta um dia de festividade, valendo apenas quando cumprida em seu tempo próprio, o oitavo dia. Propõe-se então "gerações", comum a Shabat e à milá do menino; mas refuta-se de igual modo com o tzitzit, sobre o qual a Torá também usa a palavra "gerações" (Bemidbar 15:38), sem que ninguém sustente que ele afaste o Shabat.
Antes, disse Rav Nachman bar Yitzchak: deriva-se "sinal", "pacto" e "gerações" reunidos, ditos a respeito da milá, de "sinal", "pacto" e "gerações" reunidos, ditos a respeito de Shabat — para excluir aquelas outras mitzvot, a cujo respeito só um desses termos, isoladamente, está escrito.
Rav Nachman bar Yitzchak resolve toda a cadeia de refutações combinando os três termos: a respeito de Shabat, a Torá reúne, num único conjunto de versículos, as palavras "sinal", "pacto" e "gerações"; e a respeito da milá do menino, a Torá reúne igualmente as três mesmas palavras. É essa combinação tríplice, e não qualquer termo isolado, que serve de base à guezerá shavá — o que exclui automaticamente o tefilin, o adulto incircunciso e o tzitzit, pois a cada um deles a Torá aplica apenas um único desses três termos, nunca os três reunidos como faz com Shabat e com a milá do menino.
E Rabi Yochanan disse: disse o versículo "no dia" (Vayikra 12:3). "No dia" — mesmo em Shabat. Disse-lhe Reish Lakish a Rabi Yochanan: mas então, os que faltam expiação (purificados que ainda devem trazer oferenda), a cujo respeito também se escreve "no dia" — dirias também que sua oferenda afasta o Shabat?! Respondeu Rabi Yochanan: aquele versículo é necessário para ensinar apenas que se traz de dia e não de noite.
"'No dia' — mesmo em Shabat" — visto que não está escrito "no oitavo se circuncidará"; e para Rabi Eliezer, que destinou esse versículo aos preparativos, a milá em si é halachá, e o pikuach nefesh não lhe vem por kal vachomer da milá, mas de outros versículos, como dissemos no último capítulo de Yomá.
"Os que faltam expiação" — todos os impuros que precisam trazer oferenda: o zav, a zavá, a parturiente e o metzorá, a cujo respeito se diz "e no oitavo dia".
Rabi Yochanan propõe uma via inteiramente diferente das guezerot shavot anteriores: basta o próprio versículo "no dia" (Vayikra 12:3), sem necessidade de ligá-lo a nenhum outro termo, para incluir até o Shabat. Reish Lakish objeta: se bastasse a simples palavra "no dia" para incluir Shabat, então os que ainda faltam trazer sua oferenda de purificação — o zav, a zavá, a parturiente e o metzorá, a cujo respeito a Torá também usa "e no oitavo dia" — deveriam poder trazer sua oferenda em Shabat, o que ninguém sustenta. Rabi Yochanan responde que, naquele caso, o versículo "no dia" não serve para incluir o Shabat, mas apenas para restringir a oferenda ao dia, excluindo a noite.
Objetou-se: este também, o "no dia" da milá, seria necessário apenas para ensinar de dia e não de noite! Respondeu-se: aquela exclusão da noite quanto à milá já sai de "filho de oito dias" (Vayikra 12:3, no mesmo versículo). Objetou-se de volta: este também, o "no dia" dos que faltam expiação, sai de "no dia de seu mandar" (Vayikra 7:38)! Respondeu-se: ainda que a exclusão da noite saia já de "no dia de seu mandar", o outro versículo era necessário: pois poderias pensar: já que o Misericordioso teve compaixão dele para lhe permitir trazer oferenda conforme sua pobreza (reduzida), que a trouxesse também de noite — por isso o versículo nos ensina o contrário.
"No dia de seu mandar" — diz o versículo: "aos filhos de Israel, para trazerem suas oferendas" (Vayikra 7:38) — de dia e não de noite.
A guemará prossegue em cadeia de perguntas e respostas, no estilo já familiar. Primeiro se objeta: talvez o "no dia" da própria milá sirva apenas para excluir a noite, e não para incluir o Shabat — mas responde-se que essa exclusão da noite já se aprende de outra parte do mesmo versículo, "filho de oito dias". Depois, quanto ao versículo dos que faltam expiação, objeta-se de volta que sua exclusão da noite também já poderia vir de outro versículo, "no dia de seu mandar" (Vayikra 7:38); mas responde-se que, mesmo assim, o versículo "no dia" ali era necessário, pois sem ele se poderia pensar que, já que a Torá teve compaixão do pobre ao lhe permitir trazer uma oferenda reduzida conforme seus meios, também lhe permitiria trazê-la de noite — e o versículo vem excluir essa possibilidade.
Objetou Ravina: mas então, que um leigo (não sacerdote) fosse válido para oferecê-las, e que um enlutado (no dia da morte de seu parente) fosse válido para oferecê-las! Respondeu-se: mas o versículo já as restituiu às regras comuns de toda oferenda.
"Que um leigo e um enlutado fossem válidos para oferecê-las" — o enlutado, antes de enterrar seu morto, é inválido para o serviço do Templo, pois está escrito (Vayikra 21:11), a respeito do sumo sacerdote: "por seu pai e por sua mãe não se contaminará, e do Santuário não sairá nem o profanará" — ensinando que, mesmo no dia em que morreu seu pai ou sua mãe, não precisa sair do Santuário, mas oferece a oferenda mesmo enlutado, "e não o profanará"; ou seja, seu serviço não se torna profanado por isso — mas se ele saísse, então sim o profanaria.
"Mas o versículo já as restituiu" — para invalidá-las de noite, pois se escreve a seu respeito "e no dia", como dissemos; e já que, quanto à noite, a lei de toda oferenda comum se aplica a elas, também quanto a leigo e enlutado a lei de toda oferenda se aplica a elas.
Ravina levanta uma nova dificuldade: se o versículo "no dia" a respeito das oferendas dos que faltam expiação serve para lhes conceder uma permissão especial — a de trazer uma oferenda reduzida por pobreza —, por que não se estenderia essa mesma leniência a ponto de permitir que um leigo (não sacerdote) ou um enlutado no próprio dia da morte de seu parente as oferecessem, quando normalmente ambos são inválidos para o serviço do Templo? Responde-se que não há tal extensão: o mesmo versículo que restringe essas oferendas ao dia, excluindo a noite, já as devolve às regras gerais válidas para toda oferenda comum — inclusive quanto à invalidade de leigos e enlutados.
Rav Acha bar Yaakov disse: disse o versículo "oitavo". "Oitavo" — mesmo em Shabat. Objetou-se: este "oitavo" seria necessário apenas para excluir o sétimo! Respondeu-se: o sétimo já sai de "filho de oito dias". Objetou-se de volta: e ainda seria necessário: um versículo para excluir o sétimo, e um versículo para excluir o nono. Pois se viesse de um só, eu diria: é o sétimo que ainda não chegou seu tempo, mas do oitavo em diante é seu tempo (e valeria até o nono)! Concluiu-se: antes, é clara a explicação segundo Rabi Yochanan.
Rav Acha bar Yaakov propõe ainda outra fonte, diferente da de Rabi Yochanan: a própria palavra "oitavo" (sem o "no dia"), entendida como incluindo até o Shabat. Objeta-se que essa palavra seria necessária apenas para excluir o sétimo dia — mas responde-se que essa exclusão já vem de outra expressão do mesmo versículo. Objeta-se de volta que, mesmo assim, seriam necessários dois versículos distintos, um para excluir o sétimo dia (cedo demais) e outro para excluir o nono (tarde demais), pois de um só se poderia pensar que a partir do oitavo dia em diante qualquer dia serviria. Diante dessa dificuldade adicional na proposta de Rav Acha bar Yaakov, a guemará conclui que a explicação de Rabi Yochanan — fundada simplesmente no "no dia" — é a mais clara e a que prevalece.
Ensina-se numa beraita de acordo com Rabi Yochanan, e não de acordo com Rav Acha bar Yaakov: "no oitavo se circuncidará" — mesmo em Shabat; e como sustento então "seus profanadores (de Shabat) certamente morrerão" (Shemot 31:14)? Quanto aos demais trabalhos, exceto a milá. Ou diria eu que não é assim, senão que essa pena vale até para a milá, e como sustento então "no oitavo se circuncidará"? Quanto a exceto o Shabat — por isso o texto diz: "no dia" — mesmo em Shabat. Disse Rava: este Tanna, no início, o que lhe pareceu bem, e no final, o que lhe pareceu difícil? Isto é o que ele quer dizer: "no oitavo se circuncidará" — mesmo em Shabat. E como sustento "seus profanadores certamente morrerão"? Quanto aos demais trabalhos, exceto a milá — mas a milá a afasta (o Shabat). Qual a razão? É um kal vachomer: assim como a tzaraat, que afasta o serviço do Templo...
"Ensina-se numa beraita de acordo com Rabi Yochanan" — que o deriva de "no dia".
"No início, o que lhe pareceu bem" — ao dizer que ele quis estabelecer "oitavo" como sendo dia específico, e mesmo em Shabat, e que essa milá afasta a pena de "seus profanadores certamente morrerão" quanto aos demais trabalhos — por qual razão isso lhe pareceu correto assim?
"E no final" — quando o Tanna inverteu suas palavras e disse "ou não é senão que até a milá está incluída em 'seus profanadores certamente morrerão'", sendo essa pena específica para todo trabalho, e que então "no oitavo se circuncidará" afastaria apenas os demais dias (excluindo o Shabat).
"O que lhe pareceu difícil" — na primeira razão que dera.
"Mas a milá a afasta" — ao Shabat, por kal vachomer, e disso se aprenderia que ela afasta "seus profanadores certamente morrerão" quanto aos demais trabalhos, e que "no oitavo se circuncidará" quer dizer especificamente "no oitavo", mesmo que caia em Shabat.
"Assim como a tzaraat, que afasta o serviço do Templo" — refere-se à advertência que a Torá fez quanto à tzaraat, de não cortar sua mancha, como se ensina (Makot 22a): "guarda-te da praga da tzaraat" (Devarim 24:8) — este versículo fala da advertência contra quem corta sua mancha; e a Torá foi rigorosa quanto a essa advertência a ponto de ela afastar o serviço do Templo, como estabelecemos em Pessachim (67a): que a impureza de um morto é afastada pela oferenda pública, mas não a impureza de zavim e metzoraim, que ficam impedidos de fazer o sacrifício pascal — e não dizemos que cortem sua mancha e comam o sacrifício de Pessach, ou que o próprio sacerdote corte sua mancha e sirva, caso os sacerdotes estejam impuros por tzaraat e a congregação esteja pura.
Ensina-se uma beraita que segue a explicação de Rabi Yochanan, e não a de Rav Acha bar Yaakov, derivando a inclusão do Shabat do versículo "no dia". Mas essa beraita, ao expor seu raciocínio, parece primeiro aceitar uma leitura e depois invertê-la — Rava pergunta como entender essa aparente contradição interna: o que, afinal, o Tanna considerou correto no início, e o que lhe pareceu difícil ao final, levando-o a mudar de posição? A resposta, segundo Rava, é que a beraita quer dizer, desde o início, uma única coisa coerente: que a milá afasta a pena de morte por profanar o Shabat, e que a razão para isso é um kal vachomer — um argumento a fortiori que começa a partir da tzaraat, cuja advertência a Torá tratou com tal rigor que ela chega a afastar o próprio serviço do Templo, mesmo quando isso significa deixar de oferecer o sacrifício pascal em nome da congregação. O daf termina exatamente aqui, no meio desse kal vachomer, sem revelar como ele se completa nem como conclui a favor da milá.