Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Chet (Mefanin)
הָנֵי נָמֵי בְּהָנֵי שָׁיְיכִי

Resolve-se a objeção do final de 127a; três casos de julgar o próximo para o lado do mérito; a mishná sobre o que se remove por causa dos hóspedes, examinada frase a frase

Shabbat 127b · continua diretamente de 127a · Perek Yud-Chet (Mefanin)

Shabbat 127b abre respondendo à objeção com que terminou 127a: a lista de seis coisas de Rabi Yochanan e a lista de seis coisas da mishná de Peá não se contradizem, pois estas também se relacionam a estas — receber hóspedes e visitar doentes são atos de bondade; concentração na oração também se inclui em atos de bondade; levantar cedo para a casa de estudo e criar os filhos para o estudo da Torá são, no fundo, estudo da Torá; e julgar o próximo para o lado do mérito se inclui em trazer paz. Uma baraita ensina, a propósito da última cláusula: quem julga o próximo para o lado do mérito é julgado pelo Céu para o lado do mérito — e traz três casos. No primeiro, um homem que desceu da Galileia Superior e se contratou por três anos junto a um dono de casa no sul pede seu pagamento na véspera de Yom Kipur, e o dono de casa alega não ter dinheiro, nem produtos, nem terra, nem animal, nem roupas de cama, de modo que o trabalhador vai embora aflito; após a festa, o dono de casa traz o pagamento com três jumentos carregados de comida, bebida e frutas, e, depois de comerem e beberem, paga-lhe, explicando cada suspeita que o trabalhador poderia ter tido a cada recusa, e revelando que havia feito votos sobre todos os seus bens por causa de seu filho Hurcanos, que não se ocupava da Torá, e que os sábios do sul o liberaram desses votos; o trabalhador responde que, assim como foi julgado para o lado do mérito, que o Onipresente também julgue o dono de casa para o lado do mérito. No segundo caso, um chassid resgatou uma jovem cativa, filha de Israel, e a deitou aos seus próprios pés na hospedaria; no dia seguinte, desceu e imergiu antes de repetir o ensino a seus discípulos, explicando as suspeitas que eles poderiam ter tido — quanto a deitá-la a seus pés, e quanto a imergir-se. No terceiro caso, precisando-se de algo junto a uma matrona cujo palácio frequentavam todos os grandes de Roma, Rabi Yehoshua se ofereceu para ir; ao chegar à porta, tirou os tefilin a quatro cúbitos de distância, entrou, e trancou a porta diante dos discípulos; ao sair, desceu e imergiu antes de ensinar-lhes, explicando cada suspeita — sobre tirar os tefilin, sobre trancar a porta, e sobre imergir-se, revelando que temia que saliva tivesse respingado de sua boca sobre suas vestes. A guemará então retoma a mishná sobre o que se remove por causa dos hóspedes e examina, frase a frase, cada cláusula: teruma pura, ainda que na mão de um israelita, pois serve a um cohen; demai, pois quem o possui pode tornar-se pobre e ele próprio vir a consumi-lo, trazendo-se a disputa entre Bet Shamai, que proíbe alimentar pobres e hóspedes com demai, e Bet Hilel, que permite; maasser rishon do qual já se tirou sua teruma, no caso em que foi antecipado ainda nas espigas, com a baraita de Rabi Abahu em nome de Reish Lakish sobre a isenção da teruma gedolá nesse caso, a pergunta de Rav Papa a Abaie sobre estender essa isenção também ao grão já amontoado na eira, e a resposta de que o grão amontoado já se tornou dagan, enquanto o grão ainda nas espigas não; maasser sheni do qual se deu o capital mas não o quinto adicional; e o tormus seco, mas não o úmido, por ser amargo demais para que o animal o coma. O daf termina em pleno fluxo, sem qualquer hadran — o Perek Yud-Chet (Mefanin) continua em andamento —, prosseguindo diretamente em Shabbat 128a (ainda não publicado), que abre com a cláusula da mesma mishná sobre o tevel.

Resolve-se a objeção · הָנֵי נָמֵי בְּהָנֵי שָׁיְיכִי

919"Estas também se relacionam a estas" — as seis de Rabi Yochanan não contradizem as seis da mishná de Peá
Anônimo (Guemará)
הָנֵי נָמֵי, (בִּגְמִילוּת חֲסָדִים שָׁיְיכִי. לִישָּׁנָא אַחֲרִינָא: הָנֵי) בְּהָנֵי שָׁיְיכִי.

(Resposta à objeção com que terminou Shabbat 127a:) Estas também (as seis de Rabi Yochanan) se relacionam a atos de bondade. Outra versão desta resposta: estas (as seis de Rabi Yochanan) se relacionam a estas (as três da mishná de Peá).

Nota

O texto impresso traz, entre parênteses, duas versões conflatadas da mesma resposta. Segundo Rashi, a versão correta (sua girsá) é a segunda: "estas se relacionam a estas" — ou seja, as seis coisas de Rabi Yochanan não são uma lista independente e exaustiva, mas se reduzem, no fundo, às três categorias da mishná de Peá: receber hóspedes e visitar doentes são, no fundo, atos de bondade (gemilut chassadim); concentração na oração também se inclui em atos de bondade, pois está escrito "quem é bondoso com sua própria alma é um homem de bondade" (Provérbios 11:17); levantar cedo para a casa de estudo e criar os filhos para o estudo da Torá são, no fundo, estudo da Torá; e julgar o próximo para o lado do mérito se inclui em trazer paz, pois, ao inclinar o julgamento para o mérito e dizer "ele não pecou contra mim — foi forçado, ou teve boa intenção", restabelece-se a paz entre as partes. Assim, a mishná de Peá também engloba, dentro de suas três categorias, as seis de Rabi Yochanan, além de incluir a honra a pai e mãe — sem que Rabi Yochanan discorde dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hagirsá: הני נמי בהני שייכי"
ה"ג הני נמי בהני שייכי - הכנסת אורחים וביקור חולים היינו גמילות חסדים ועיון תפלה היינו בכלל גמילות חסדים דכתיב גומל נפשו איש חסד השכמת בית המדרש וגידול בנים לתלמוד תורה היינו תלמוד תורה דן את חבירו לכף זכות בכלל הבאת שלום דמתוך שהוא מכריעו לזכות ואמר לא חטא לי בזאת אנוס היה או לטובה נתכוון יש שלום ביניהן ורבי יוחנן לפרש לך אתא דבכלל ג' דמתניתין איתנהו להנך ו' ואיכא נמי לכבוד אב ואם ורבי יוחנן לא פליג עליה.

A correta versão é: "estas também se relacionam a estas" — receber hóspedes e visitar doentes são, isto é, atos de bondade; e concentração na oração também se inclui em atos de bondade, pois está escrito "quem é bondoso com sua própria alma é um homem de bondade" (Provérbios 11:17); levantar cedo para a casa de estudo e criar os filhos para o estudo da Torá são, isto é, estudo da Torá; julgar o próximo para o lado do mérito se inclui em trazer paz, pois, ao inclinar o julgamento a favor dele e dizer "não pecou contra mim, foi forçado, ou teve boa intenção", há paz entre eles. E Rabi Yochanan veio apenas explicar-te que, dentro das três categorias da nossa mishná de Peá, estão incluídas essas seis; e há também a categoria de honra a pai e mãe; e Rabi Yochanan não discorda dela.

Julgar o próximo para o lado do mérito · הַדָּן חֲבֵירוֹ לְכַף זְכוּת

920Baraita: quem julga o próximo para o lado do mérito é julgado para o lado do mérito; o trabalhador contratado que pede seu pagamento na véspera de Yom Kipur e vai embora aflito
Baraita (Sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: הַדָּן חֲבֵירוֹ לְכַף זְכוּת — דָּנִין אוֹתוֹ לִזְכוּת. וּמַעֲשֶׂה בְּאָדָם אֶחָד שֶׁיָּרַד מִגָּלִיל הָעֶלְיוֹן וְנִשְׂכַּר אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת אֶחָד בַּדָּרוֹם שָׁלֹשׁ שָׁנִים. עֶרֶב יוֹם הַכִּפּוּרִים אָמַר לוֹ: תֵּן לִי שְׂכָרִי, וְאֵלֵךְ וְאָזוּן אֶת אִשְׁתִּי וּבָנַי. אָמַר לוֹ: אֵין לִי מָעוֹת. אָמַר לוֹ: תֵּן לִי פֵּירוֹת. אָמַר לוֹ: אֵין לִי. תֵּן לִי קַרְקַע — אֵין לִי. תֵּן לִי בְּהֵמָה — אֵין לִי. תֵּן לִי כָּרִים וּכְסָתוֹת — אֵין לִי. הִפְשִׁיל כֵּלָיו לַאֲחוֹרָיו, וְהָלַךְ לְבֵיתוֹ בְּפַחֵי נֶפֶשׁ.

Ensinaram os sábios: quem julga o próximo para o lado do mérito — é julgado pelo Céu para o mérito. E aconteceu com um homem que desceu da Galileia Superior e se contratou junto a um dono de casa no sul por três anos. Na véspera de Yom Kipur, disse-lhe: dá-me meu pagamento, e irei sustentar minha mulher e meus filhos. Disse-lhe: não tenho dinheiro. Disse-lhe: dá-me produtos. Disse-lhe: não tenho. Dá-me terra — não tenho. Dá-me um animal — não tenho. Dá-me almofadas e cobertores — não tenho. O trabalhador jogou seus utensílios para trás, sobre os ombros, e foi para casa aflito.

Nota

A baraita ilustra o princípio de julgar o próximo para o lado do mérito com um caso concreto: um trabalhador contratado por três anos pede seu pagamento na véspera de Yom Kipur, para poder sustentar sua família nesse dia solene, e o dono de casa nega ter qualquer forma de pagamento disponível — dinheiro, produtos, terra, animal, ou roupas de cama —, levando o trabalhador a partir triste e sem recursos, sem que a narrativa ainda revele o motivo real dessas recusas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "befachei nefesh"
בפחי נפש - בדאבון נפש.

"Aflito" — em angústia de alma.

921Depois da festa, o dono de casa traz o pagamento com três jumentos carregados de comida, bebida e frutas
Anônimo (Guemará)
לְאַחַר הָרֶגֶל נָטַל בַּעַל הַבַּיִת שְׂכָרוֹ בְּיָדוֹ, וְעִמּוֹ מַשּׂוֹי שְׁלֹשָׁה חֲמוֹרִים, אֶחָד שֶׁל מַאֲכָל, וְאֶחָד שֶׁל מִשְׁתֶּה, וְאֶחָד שֶׁל מִינֵי מְגָדִים, וְהָלַךְ לוֹ לְבֵיתוֹ. אַחַר שֶׁאָכְלוּ וְשָׁתוּ נָתַן לוֹ שְׂכָרוֹ.

Depois da festa (Sucot), o dono de casa tomou o pagamento do trabalhador em sua mão, e com ele uma carga de três jumentos, um de comida, um de bebida, e um de tipos de frutas finas, e foi até a casa do trabalhador. Depois que comeram e beberam, deu-lhe seu pagamento.

Nota

Após a festa (identificada por Rashi, adiante, como referindo-se ao período dos dias de festa que se seguem a Yom Kipur), o dono de casa vai até a casa do trabalhador, trazendo consigo não apenas o pagamento devido, mas também fartas provisões de comida, bebida e frutas finas em três jumentos — e só depois de comerem e beberem juntos é que lhe entrega o pagamento.

922O dono de casa explica cada suspeita: temia que o trabalhador o suspeitasse de riqueza escondida, mas a verdade era um voto sobre seus bens
Dono de casa
אָמַר לוֹ: בְּשָׁעָה שֶׁאָמַרְתָּ לִי ״תֵּן לִי שְׂכָרִי״ וְאָמַרְתִּי ״אֵין לִי מָעוֹת״, בַּמֶּה חֲשַׁדְתַּנִי? אָמַרְתִּי: שֶׁמָּא פְּרַקְמַטְיָא בְּזוֹל נִזְדַּמְּנָה לְךָ, וְלָקַחְתָּ בָּהֶן. וּבְשָׁעָה שֶׁאָמַרְתָּ לִי ״תֵּן לִי בְּהֵמָה״, וְאָמַרְתִּי ״אֵין לִי בְּהֵמָה״, בַּמֶּה חֲשַׁדְתַּנִי? אָמַרְתִּי: שֶׁמָּא מוּשְׂכֶּרֶת בְּיַד אֲחֵרִים. בְּשָׁעָה שֶׁאָמַרְתָּ לִי ״תֵּן לִי קַרְקַע״, וְאָמַרְתִּי לְךָ ״אֵין לִי קַרְקַע״, בַּמֶּה חֲשַׁדְתַּנִי? אָמַרְתִּי: שֶׁמָּא מוּחְכֶּרֶת בְּיַד אֲחֵרִים הִיא. וּבְשָׁעָה שֶׁאָמַרְתִּי לְךָ ״אֵין לִי פֵּירוֹת״ בַּמֶּה חֲשַׁדְתַּנִי? אָמַרְתִּי: שֶׁמָּא אֵינָן מְעוּשָּׂרוֹת. וּבְשָׁעָה שֶׁאָמַרְתִּי לְךָ ״אֵין לִי כָּרִים וּכְסָתוֹת״ בַּמֶּה חֲשַׁדְתַּנִי? אָמַרְתִּי: שֶׁמָּא הִקְדִּישׁ כָּל נְכָסָיו לַשָּׁמַיִם.

Disse-lhe: no momento em que me disseste "dá-me meu pagamento", e eu disse "não tenho dinheiro" — de que me suspeitaste? Respondeu: pensei: talvez uma mercadoria tenha aparecido barata para ti, e a compraste com o dinheiro. E no momento em que me disseste "dá-me um animal", e eu disse "não tenho animal", de que me suspeitaste? Pensei: talvez esteja alugado na mão de outros. No momento em que me disseste "dá-me terra", e eu te disse "não tenho terra", de que me suspeitaste? Pensei: talvez esteja arrendada na mão de outros. E no momento em que te disse "não tenho produtos", de que me suspeitaste? Pensei: talvez não estejam dizimados. E no momento em que te disse "não tenho almofadas e cobertores", de que me suspeitaste? Pensei: talvez tenha consagrado todos os seus bens ao Céu.

Nota

O dono de casa revela agora, ele mesmo, o que se passou: para cada recusa, o trabalhador não o suspeitou de mentira ou avareza, mas encontrou, para cada uma, uma explicação plausível e favorável — dinheiro investido em boa mercadoria, animal alugado a terceiros, terra arrendada, produtos ainda não dizimados, ou bens consagrados ao Templo — julgando-o, em cada caso, para o lado do mérito.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "muchcheret"
מוחכרת - שנותנה לחברו בכך וכך כורין לשנה.

"Arrendada" — que a dá a seu companheiro por tantos e tantos cor de grão por ano.

923"Pela Avodá! Assim foi": o voto por causa do filho Hurcanos, e a liberação pelos sábios do sul; "assim como me julgaste para o mérito, o Onipresente te julgue para o mérito"
Dono de casa; Trabalhador
אָמַר לוֹ: הָעֲבוֹדָה! כָּךְ הָיָה. הִדַּרְתִּי כׇּל נְכָסַי בִּשְׁבִיל הוּרְקָנוֹס בְּנִי שֶׁלֹּא עָסַק בַּתּוֹרָה. וּכְשֶׁבָּאתִי אֵצֶל חֲבֵירַי בַּדָּרוֹם הִתִּירוּ לִי כָּל נְדָרַי. וְאַתָּה, כְּשֵׁם שֶׁדַּנְתַּנִי לִזְכוּת, הַמָּקוֹם יָדִין אוֹתְךָ לִזְכוּת.

Disse-lhe: pela Avodá (pelo serviço do Templo — juramento)! Assim foi: fiz voto que proibisse todos os meus bens por causa de Hurcanos, meu filho, que não se ocupava da Torá. E, quando vim junto aos meus colegas no sul, anularam-me todos os meus votos. E tu, assim como me julgaste para o mérito, que o Onipresente te julgue para o mérito.

Nota

O dono de casa confirma, sob juramento, que a verdade correspondia exatamente às suposições favoráveis do trabalhador: ele havia feito um voto proibindo-se todos os seus bens, por castigo ao filho Hurcanos que não se dedicava ao estudo da Torá, e só depois de Yom Kipur conseguiu chegar aos sábios do sul, que anularam seus votos, liberando-lhe os bens. Encerra-se a narrativa com a bênção recíproca: assim como o trabalhador o julgou para o mérito, que o próprio Onipresente julgue o trabalhador para o mérito.

924Segundo caso: o chassid que resgatou uma jovem cativa e a deitou a seus próprios pés na hospedaria
Baraita (Sábios)
תָּנוּ רַבָּנַן: מַעֲשֶׂה בְּחָסִיד אֶחָד שֶׁפָּדָה רִיבָה אַחַת בַּת יִשְׂרָאֵל, וְלַמָּלוֹן הִשְׁכִּיבָהּ תַּחַת מַרְגְּלוֹתָיו. לְמָחָר יָרַד וְטָבַל וְשָׁנָה לְתַלְמִידָיו.

Ensinaram os sábios: aconteceu com um chassid (homem piedoso) que resgatou uma jovem, filha de Israel (que havia sido cativada), e, na hospedaria, deitou-a sob seus próprios pés. No dia seguinte, desceu e imergiu, e repetiu o ensino a seus discípulos.

Nota

Um segundo caso ilustra o mesmo princípio: um chassid resgatou uma jovem judia que havia sido levada cativa, e, para protegê-la durante a noite na hospedaria, deitou-a sob seus próprios pés — postura que, à primeira vista, poderia levantar suspeitas de impropriedade. No dia seguinte, antes de retomar o ensino com seus discípulos, ele mesmo desceu e imergiu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre o "chassid" anônimo e "ribah"
כל היכא דאמרינן מעשה בחסיד אחד או רבי יהודה בן בבא או רבי יהודה ברבי אלעאי: ריבה - נערה.

Em todo lugar em que dizemos "aconteceu com um certo chassid" — trata-se de Rabi Yehudá ben Bavá, ou de Rabi Yehudá filho de Rabi Ilai. "Jovem" — moça.

925O chassid explica aos discípulos as suspeitas que poderiam ter tido, e ambas se confirmam corretas
Chassid; Discípulos
וְאָמַר לָהֶן: בְּשָׁעָה שֶׁהִשְׁכַּבְתִּיהָ תַּחַת מַרְגְּלוֹתַי, בַּמֶּה חֲשַׁדְתּוּנִי? אָמַרְנוּ: שֶׁמָּא יֵשׁ בָּנוּ תַּלְמִיד שֶׁאֵינוֹ בָּדוּק לְרַבִּי. בְּשָׁעָה שֶׁיָּרַדְתִּי וְטָבַלְתִּי, בַּמֶּה חֲשַׁדְתּוּנִי? אָמַרְנוּ: שֶׁמָּא מִפְּנֵי טוֹרַח הַדֶּרֶךְ אֵירַע קֶרִי לְרַבִּי. אָמַר לָהֶם: הָעֲבוֹדָה! כָּךְ הָיָה. וְאַתֶּם, כְּשֵׁם שֶׁדַּנְתּוּנִי לְכַף זְכוּת, הַמָּקוֹם יָדִין אֶתְכֶם לְכַף זְכוּת.

E disse-lhes: no momento em que a deitei sob meus pés, de que me suspeitastes? Responderam: pensamos: talvez haja entre nós um discípulo que não seja suficientemente conhecido para confiar a ele o rabi (isto é, para que ficasse a sós com ela). No momento em que desci e imergi, de que me suspeitastes? Pensamos: talvez, por causa do cansaço do caminho, tenha acontecido uma emissão seminal ao rabi. Disse-lhes: pela Avodá! Assim foi. E vós, assim como me julgastes para o lado do mérito, que o Onipresente vos julgue para o lado do mérito.

Nota

O chassid confirma que ambas as suposições favoráveis de seus discípulos estavam corretas: ele mesmo se deitou junto aos pés da jovem, ao invés de confiá-la a algum discípulo cujo caráter não conhecesse com certeza suficiente; e a imersão na manhã seguinte se devia, de fato, a uma emissão seminal natural causada pelo cansaço da viagem — e não a qualquer impropriedade. Encerra-se, de novo, com a bênção recíproca.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'eino baduk lerabi"
שאינו בדוק לרבי - שאינו מכיר במדותיו לסמוך עליו ולהניחה אצלנו.

"Que não é conhecido para o rabi" — que o rabi não conhece bem suas qualidades para confiar nele e deixá-la conosco.

926Terceiro caso: precisava-se de algo junto a uma matrona romana, e Rabi Yehoshua se ofereceu para ir sozinho
Sábios; Rabi Yehoshua
תָּנוּ רַבָּנַן: פַּעַם אַחַת הוּצְרַךְ דָּבָר אֶחָד לְתַלְמִידֵי חֲכָמִים אֵצֶל מַטְרוֹנִיתָא אַחַת שֶׁכׇּל גְּדוֹלֵי רוֹמִי מְצוּיִין אֶצְלָהּ. אָמְרוּ: מִי יֵלֵךְ? אָמַר לָהֶם רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ: אֲנִי אֵלֵךְ.

Ensinaram os sábios: certa vez, precisou-se de algo, junto aos discípulos dos sábios, de uma certa matrona romana, junto à qual se reuniam todos os grandes de Roma. Disseram: quem irá? Disse-lhes Rabi Yehoshua: eu irei.

Nota

Um terceiro caso envolve Rabi Yehoshua, que se voluntaria para ir sozinho à casa de uma influente matrona romana — presumivelmente para obter dela alguma intervenção junto às autoridades, em benefício da comunidade judaica —, apesar do risco de suspeita que uma visita a sós a tal lugar poderia gerar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "matronita"
מטרוניתא - נכרית.

"Matrona" — gentia.

927Rabi Yehoshua tira os tefilin a quatro cúbitos da porta, entra e tranca a porta diante dos discípulos; ao sair, imerge e ensina
Anônimo (Guemará)
הָלַךְ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ וְתַלְמִידָיו. כֵּיוָן שֶׁהִגִּיעַ לְפֶתַח בֵּיתָהּ, חָלַץ תְּפִילָּיו בְּרִחוּק אַרְבַּע אַמּוֹת, וְנִכְנַס וְנָעַל הַדֶּלֶת בִּפְנֵיהֶן. אַחַר שֶׁיָּצָא, יָרַד וְטָבַל וְשָׁנָה לְתַלְמִידָיו.

Foi Rabi Yehoshua com seus discípulos. Assim que chegou à porta da casa dela, tirou seus tefilin a uma distância de quatro cúbitos, e entrou, e trancou a porta diante dos discípulos. Depois que saiu, desceu e imergiu, e repetiu o ensino a seus discípulos.

Nota

Rabi Yehoshua toma três medidas que, isoladamente, poderiam parecer suspeitas aos seus próprios discípulos: remove os tefilin antes de entrar, entra sozinho, e tranca a porta atrás de si — e, ao sair, imerge antes de retomar o estudo com eles, sem oferecer, de imediato, qualquer explicação.

928Sobre tirar os tefilin: os discípulos pensaram que palavras de santidade não deveriam entrar em lugar de impureza
Rabi Yehoshua; Discípulos
וְאָמַר לָהֶן: בְּשָׁעָה שֶׁחָלַצְתִּי תְּפִילִּין, בַּמֶּה חֲשַׁדְתּוּנִי? אָמַרְנוּ: כְּסָבוּר רַבִּי, לֹא יִכָּנְסוּ דִּבְרֵי קְדוּשָּׁה בִּמְקוֹם טוּמְאָה.

E disse-lhes: no momento em que tirei os tefilin, de que me suspeitastes? Responderam: pensamos que o rabi considerou: não devem entrar palavras de santidade em lugar de impureza.

Nota

Interrogados sobre a primeira ação, os discípulos revelam a explicação favorável que deram: Rabi Yehoshua teria removido os tefilin, que contêm passagens sagradas da Torá, por considerar impróprio levá-los a um ambiente de impureza como a casa da matrona.

929Sobre trancar a porta: talvez houvesse entre ele e ela um assunto de governo
Rabi Yehoshua; Discípulos
בְּשָׁעָה שֶׁנָּעַלְתִּי, בַּמֶּה חֲשַׁדְתּוּנִי? אָמַרְנוּ: שֶׁמָּא דְּבַר מַלְכוּת יֵשׁ בֵּינוֹ לְבֵינָהּ.

No momento em que tranquei a porta, de que me suspeitastes? Responderam: pensamos: talvez haja algum assunto de governo entre ele e ela.

Nota

Quanto a trancar a porta, os discípulos supuseram que se tratava de um assunto sigiloso de estado — dado o acesso da matrona aos grandes de Roma —, que precisaria ser tratado a portas fechadas e ocultado até de seus próprios discípulos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "devar malchut"
דבר מלכות - וצריך להעלימו.

"Assunto de governo" — que é preciso ocultá-lo.

930Sobre imergir: talvez tivesse respingado saliva da boca dela sobre suas vestes; "pela Avodá! Assim foi"
Rabi Yehoshua; Discípulos
בְּשָׁעָה שֶׁיָּרַדְתִּי וְטָבַלְתִּי בַּמֶּה חֲשַׁדְתּוּנִי, אָמַרְנוּ: שֶׁמָּא נִיתְּזָה צִינּוֹרָא מִפִּיהָ עַל בְּגָדָיו שֶׁל רַבִּי. אָמַר לָהֶם: הָעֲבוֹדָה! כָּךְ הָיָה. וְאַתֶּם, כְּשֵׁם שֶׁדַּנְתּוּנִי לִזְכוּת, הַמָּקוֹם יָדִין אֶתְכֶם לִזְכוּת.

No momento em que desci e imergi, de que me suspeitastes? Responderam: pensamos: talvez tenha respingado saliva da boca dela sobre as vestes do rabi. Disse-lhes: pela Avodá! Assim foi. E vós, assim como me julgastes para o mérito, que o Onipresente vos julgue para o mérito.

Nota

Quanto à imersão, os discípulos supuseram que a saliva de uma gentia — considerada, pelos sábios, fonte de impureza equivalente à de um zav — teria respingado sobre as vestes de Rabi Yehoshua durante a conversa, exigindo a imersão. Ele confirma, sob juramento, que todas as três suposições eram exatamente corretas, encerrando com a mesma bênção recíproca dos casos anteriores.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "tzinura"
צינורא - רוק וגזרו על הנכרים שיהיו כזבים לכל דבריהם.

"Tzinura" — saliva; e decretaram sobre os gentios que fossem considerados como zavim para todos os efeitos.

A mishná: o que se remove por causa dos hóspedes · מְפַנִּין תְּרוּמָה טְהוֹרָה

931"Removem-se teruma pura etc." — óbvio?! Necessário para o caso em que está na mão de um israelita, que não pode comê-la, mas serve a um cohen
Mishná; Anônimo (Guemará)
מְפַנִּין תְּרוּמָה טְהוֹרָה וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא, דְּמַנְּחָה בְּיַד יִשְׂרָאֵל. מַהוּ דְּתֵימָא: כֵּיוָן דְּלָא חַזְיָא לֵיהּ — אָסוּר, קָא מַשְׁמַע לַן כֵּיוָן דְּחַזְיָא לְכֹהֵן — שַׁפִּיר דָּמֵי.

A mishná ensina: "removem-se teruma pura" etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso em que a teruma está depositada na mão de um israelita (não cohen). Para que não penses: uma vez que a teruma não serve a ele (pois o israelita não pode comê-la), é proibido removê-la; por isso nos ensina a mishná: uma vez que serve a um cohen, é perfeitamente permitido.

Nota

A guemará retoma a mishná citada mais acima (que enumera o que se pode remover por causa dos hóspedes ou da perda de tempo da casa de estudo) e a examina frase a frase. A primeira cláusula, sobre teruma pura, pareceria óbvia — pois, sendo comida, não há razão para não removê-la. A guemará explica que ela é necessária justamente para o caso em que a teruma se encontra na posse de um israelita comum, que não tem permissão para comê-la: poder-se-ia pensar que, por não servir a ele, ela seria muktzê e proibida de ser removida; a mishná ensina que, como ainda serve a um cohen, ela não é considerada muktzê e pode ser removida normalmente.

932"E demai etc." — o dono pode tornar-se pobre e comê-lo; a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre alimentar pobres e hóspedes com demai
Mishná; Anônimo (Guemará); Rav Huna
וּדְמַאי וְכוּ׳. דְּמַאי, הָא לָא חֲזֵי לֵיהּ! כֵּיוָן דְּאִי בָּעֵי מַפְקַר לֵיהּ לְנִכְסֵיהּ וְהָוֵה עָנִי, וַחֲזֵי לֵיהּ, הַשְׁתָּא נָמֵי חֲזֵי לֵיהּ. דִּתְנַן: מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי וְאֶת הָאַכְסַנְיָא דְּמַאי. וְאָמַר רַב הוּנָא: תָּנָא, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: אֵין מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי וְאֶת הָאַכְסַנְיָא דְּמַאי. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי וְאֶת הָאַכְסַנְיָא דְּמַאי.

"E demai" etc. Demai — mas seu dono não pode comê-lo! Resposta: uma vez que, se quiser, pode renunciar à posse de seus bens e tornar-se pobre, e então serve-lhe, também agora serve-lhe. Pois aprendemos numa mishná: alimentam-se os pobres com demai, e os hóspedes (soldados aquartelados) com demai. E disse Rav Huna: ensinou um tanna: Bet Shamai dizem: não se alimentam os pobres com demai, nem os hóspedes com demai. E Bet Hilel dizem: alimentam-se os pobres com demai, e os hóspedes com demai.

Nota

Demai é o produto adquirido de um am ha'aretz (pessoa não confiável quanto aos dízimos), sobre o qual há dúvida se foi corretamente dizimado; por isso, seu proprietário não pode comê-lo em seu estado atual. A guemará resolve a dificuldade: como o dono sempre pode, a qualquer momento, renunciar à posse de todos os seus bens e tornar-se legalmente pobre — e os pobres têm permissão de comer demai, como traz a mishná citada —, o produto já serve a ele potencialmente, e por isso não é considerado muktzê. Traz-se então a disputa subjacente entre Bet Shamai, que proíbe alimentar pobres e hóspedes com demai, e Bet Hilel, que permite.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "maachilin la'aniyim demai" e "achsanya"
מאכילין לעניים דמאי - לא אסרוהו עליהם מפני שצריכים לחזר על פתח ע"ה וסמכו על שרוב עמי הארץ מעשרין: אכסניא - חיל של מלך ישראל ומטילו על בני העיר לפרנסן.

"Alimentam-se os pobres com demai" — não o proibiram sobre eles, porque os pobres precisam bater às portas de um am ha'aretz para mendigar, e apoiaram-se em que a maioria dos amei ha'aretz dizima. "Hóspedes" — tropa do rei de Israel, que ele impõe aos habitantes da cidade para sustentá-la.

933"E maasser rishon do qual se tirou sua teruma etc." — óbvio?! Necessário para o caso em que foi antecipado nas espigas
Mishná; Anônimo (Guemará)
וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁנִּיטְּלָה תְּרוּמָתוֹ וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא שֶׁהִקְדִּימוֹ בְּשִׁבּוֹלִים, וְנִטְּלָה הֵימֶנּוּ תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר, וְלֹא נִטְּלָה הֵימֶנּוּ תְּרוּמָה גְּדוֹלָה.

"E maasser rishon (primeiro dízimo) do qual já se tirou sua teruma" etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso em que o maasser foi antecipado ainda nas espigas, e já se tirou dele a teruma do maasser (a parte que o levita dá ao cohen), mas ainda não se tirou dele a teruma gedolá (grande, devida pelo israelita).

Nota

A cláusula sobre o maasser rishon (dízimo dado ao levita) do qual já foi separada sua teruma também pareceria óbvia; a guemará explica que ela trata do caso incomum em que o maasser foi separado precocemente, enquanto o grão ainda estava nas espigas (antes da debulha), de modo que a teruma do maasser já foi tirada, mas a teruma gedolá, que normalmente precede tudo, ainda não.

934Rabi Abahu, em nome de Reish Lakish: maasser rishon antecipado nas espigas é isento da teruma gedolá, a partir do versículo
Rabi Abahu em nome de Reish Lakish
וְכִי הָא דְּאָמַר רַבִּי אֲבָהוּ אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁהִקְדִּימוֹ בְּשִׁבּוֹלִין — פָּטוּר מִתְּרוּמָה גְּדוֹלָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַהֲרֵמוֹתֶם מִמֶּנּוּ תְּרוּמַת ה׳ מַעֲשֵׂר מִן הַמַּעֲשֵׂר״. מַעֲשֵׂר מִן הַמַּעֲשֵׂר אָמַרְתִּי לְךָ, וְלֹא תְּרוּמָה גְּדוֹלָה וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר מִן הַמַּעֲשֵׂר.

E é como disse Rabi Abahu, disse Reish Lakish: maasser rishon que foi antecipado nas espigas é isento da teruma gedolá, pois está dito: "e separareis dele uma oferta para o Eterno, o dízimo do dízimo" (Números 18:26). Apenas dízimo do dízimo (a teruma do maasser) te disse a Torá que se exige neste caso, e não teruma gedolá nem teruma do maasser calculada a partir do que seria dízimo já separado da teruma gedolá.

Nota

A fonte para a isenção é o versículo dirigido aos levitas sobre a teruma que eles próprios devem separar de seu dízimo (terumat ma'aser) para o cohen: a Torá fala apenas de "dízimo do dízimo", o que Reish Lakish lê como limitando a obrigação, no caso em que o maasser foi antecipado nas espigas, apenas a essa teruma do maasser — sem exigir que se calcule, previamente, a teruma gedolá que o israelita normalmente deveria ter separado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "sheniteldá terumato", "shehikdimo bishvolin" e "vaharemotem mimenu"
שניטלה תרומתו - קס"ד תרומת מעשר שהלוי נותן לכהן וכ"ש תרומה גדולה שיש על ישראל להפריש והפרישו קודם שנתן המעשר ללוי: שהקדימו בשבולין - לתרומה ישראל היה לו להפריש תרומה גדולה תחילה דכתיב מלאתך ודמעך לא תאחר מלאתך אלו בכורים מכאן שהמקדים תרומה לבכורים לוקה ודמעך זו תרומה שאם הקדים מעשר לתרומה לוקה והני מילי משנתמרח בכרי לוקה אם הקדים מעשר לתרומה אבל הקדים למעשר קודם לתרומה בשבלים אינו לוקה: והרמותם ממנו - בלוים כתיב גבי תרומת מעשר.

"Do qual se tirou sua teruma" — a princípio, pensou-se que se tratasse da teruma do maasser, que o levita dá ao cohen, e tanto mais a teruma gedolá, que cabe ao israelita separar, e que a separou antes de dar o maasser ao levita. "Foi antecipado nas espigas" — quanto à teruma, o israelita deveria ter separado primeiro a teruma gedolá, pois está escrito: "tua fartura e teu sumo não atrasarás" (Êxodo 22:28) — "tua fartura", isto são os bicurim; daqui se aprende que quem antecipa a teruma gedolá aos bicurim leva açoites; e "teu sumo", isto é a teruma, ensinando que, se antecipou o maasser à teruma, leva açoites — e isso vale quando o grão já foi amontoado na eira, que então leva açoites se antecipou o maasser à teruma; mas se antecipou o maasser à teruma ainda nas espigas, não leva açoites. "E separareis dele" — este versículo está escrito a respeito dos levitas, sobre a teruma do maasser.

935Rav Papa pergunta a Abaie: então, mesmo antecipado no monte já debulhado, deveria também ser isento! Não — a Torá disse "de todos os vossos dons"
Rav Papa; Abaie
אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְאַבָּיֵי: אִי הָכִי, אֲפִילּוּ הִקְדִּימוֹ בִּכְרִי נָמֵי לִיפְּטַר! אֲמַר לֵיהּ: עָלֶיךָ אָמַר קְרָא: ״מִכֹּל מַתְּנוֹתֵיכֶם תָּרִימוּ וְגוֹ׳״.

Disse-lhe Rav Papa a Abaie: se assim é, mesmo que se antecipou o maasser no monte já debulhado, também deveria ser isento da teruma gedolá! Disse-lhe: sobre ti disse o versículo: "de todos os vossos dons separareis" etc. (Números 18:29 — ensinando que a teruma se separa de todo tipo de acúmulo, incluindo o já debulhado).

Nota

Rav Papa questiona por que a isenção não se estenderia também ao caso em que o maasser foi antecipado à teruma depois de o grão já ter sido amontoado e debulhado (bichri) — situação em que, segundo Rashi na nota anterior, o transgressor leva açoites. Abaie responde com outro versículo, que exige explicitamente a separação da teruma "de todos os vossos dons", incluindo o grão já debulhado, distinguindo esse caso do grão ainda nas espigas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mikol matnoteichem"
מכל מתנותיכם וגו' - נמי בלוים כתיב גבי תרומת מעשר וקאמר את כל תרומת ה' כל משמע כל צד תרומה שבו.

"De todos os vossos dons" etc. — também este versículo está escrito a respeito dos levitas, sobre a teruma do maasser; e diz "toda a teruma do Eterno" — "toda" significa todo aspecto de teruma que há nele.

936"E que viste para distinguir?" — este já se tornou dagan, e este ainda não se tornou dagan
Anônimo (Guemará)
וּמָה רָאִיתָ? הַאי אִידְּגַן, וְהַאי לָא אִידְּגַן.

E que viste para distinguir os dois casos? Este (o grão amontoado e debulhado) já se tornou dagan (sujeito à obrigação de teruma), e este (o grão ainda nas espigas) ainda não se tornou dagan.

Nota

A guemará justifica a distinção entre os dois casos: apenas o grão que já passou pelo processo de debulha e amontoamento (dagan) se torna plenamente sujeito à obrigação de teruma gedolá desde o início, conforme o versículo "o começo de teu grão" (Deuteronômio 18:4); o grão ainda nas espigas, por não ter atingido esse status, permite que o maasser seja separado antes, sem violar a ordem exigida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hai" e "idgan"
האי - דנתמרח: אידגן - וחלה עליו חובת תרומה כדכתיב ראשית דגנך הלכך כי שקלה לוי בעי אהדורי לכהן תרי ממאה שבו ברישא והדר אחד מעשרה.

"Este" — que já foi amontoado. "Tornou-se dagan" — e recaiu sobre ele a obrigação de teruma, conforme está escrito "o começo de teu grão" (Deuteronômio 18:4); por isso, quando o levita a tomou, precisa devolver ao cohen dois por cem do que continha, primeiro, e depois um por dez.

937"E maasser sheni etc." — óbvio?! Necessário para o caso em que se deu o capital mas não o quinto adicional
Mishná; Anônimo (Guemará)
וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְכוּ׳. פְּשִׁיטָא! לָא צְרִיכָא שֶׁנָּתַן אֶת הַקֶּרֶן וְלֹא נָתַן אֶת הַחוֹמֶשׁ. הָא קָא מַשְׁמַע לַן דְּאֵין חוֹמֶשׁ מְעַכֵּב.

"E maasser sheni (segundo dízimo)" etc. Isso é óbvio! Não é necessário dizê-lo, exceto para o caso em que o dono deu o capital (o valor de resgate), mas não deu o quinto (a quinta parte adicional, exigida de quem resgata seu próprio maasser sheni). Isto vem ensinar-nos que o quinto não retém a permissão de removê-lo.

Nota

A última cláusula sobre alimentos examinada trata do maasser sheni já redimido: quando o dono do produto o resgata para si mesmo, a lei exige que pague, além do valor do produto (o capital), também um quinto adicional. A guemará ensina que, mesmo que ainda não tenha pago esse quinto, o produto já perdeu sua santidade de maasser sheni e pode ser removido livremente, pois o quinto não impede a validade do resgate.

938"E o tormus seco etc." — especificamente seco, mas não o úmido, por ser amargo demais para o animal comer
Mishná; Anônimo (Guemará)
וְהַתּוֹרְמוֹס הַיָּבֵשׁ כּוּ׳. דַּוְוקָא יָבֵשׁ, אֲבָל לַח — לָא. מַאי טַעְמָא? כֵּיוָן דְּמָרִיר לָא אָכְלָה.

"E o tormus (tremoço) seco" etc. Especificamente seco, mas úmido — não. Qual a razão? Uma vez que é amargo, o animal não o come.

Nota

A mishná permite remover o tormus (tremoço) seco, já preparado para consumo humano depois de cozido e demolhado repetidas vezes até perder o amargor; a guemará esclarece que isso vale apenas para o tormus seco, e não para o úmido, ainda cru, colhido do campo — pois, sendo amargo demais, nem sequer o animal o consome, de modo que ele não é considerado alimento e permanece muktzê.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "marir"
דמריר - שהוא מר.

"Amargo" — que é amargo.

O daf termina aqui, ao final da cláusula sobre o tormus seco. Não há qualquer hadran nesta página — o Perek Yud-Chet (Mefanin) continua em andamento. A discussão da mesma mishná prossegue diretamente em Shabbat 128a (ainda não publicado), que abre com sua próxima cláusula, "אֲבָל לֹא אֶת הַטֶּבֶל" ("mas não o tevel").