Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim)
גְּלוֹסְטְרָא וּמְדוֹכָה

Completa-se a explicação dos bastões da oferta pascal; a glustra e o pilão; a nova Mishná de "com necessidade e sem necessidade" — termina em pleno fluxo na resposta de Rav Papa sobre Bet Shamai e Bet Hilel

Shabbat 124a · continua diretamente de 123b · Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim)

Shabbat 124a abre completando a frase interrompida ao final de 123b: a mão de um sacerdote sobre o ombro de seu companheiro, e a mão do companheiro sobre seu ombro, servindo de suporte para pendurar e esfolar a oferta pascal — pois, como explica Rashi, não se manuseiam os bastões em Shabat. Segue-se a explicação da glustra: a Mishná já citada por Rabi Elazar, sobre o ferrolho com uma glustra em sua ponta, que Rabi Yehoshua permite remover de uma porta e pendurar em outra, e que Rabi Tarfon considera um utensílio comum, manuseável no pátio; Rabi Yanai explica que ambos tratam de um pátio sem eiruv, discordando se o interior da porta se assemelha ao interior das casas ou ao próprio pátio. Rabah então desafia a afirmação de Rabi Elazar de que canas, bastões, glustra e pilão foram todos ensinados antes da liberação final dos utensílios: talvez a restrição das canas se deva simplesmente ao receio de mofo, e a dos bastões seja apenas a alternativa que o próprio Rabi Elazar descreve, sem provar nada sobre a época em que essas mishnayot foram ensinadas; quanto ao pilão, conclui-se que é a opinião de Rabi Nechemya, mais restritiva. A Guemará passa então a uma nova Mishná: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, com necessidade e sem necessidade; mas Rabi Nechemya diz que só podem ser manuseados com necessidade. Pergunta-se o que significam esses termos: Rabah distingue entre a necessidade do próprio corpo do utensílio (permitida mesmo para objetos de função proibida) e a necessidade de seu lugar (permitida apenas para objetos de função permitida); Rava propõe que "com necessidade" abrange tanto o corpo quanto o lugar do utensílio de função permitida, e reserva "sem necessidade" para o mero cuidado de protegê-lo do sol — em ambos os casos, Rabi Nechemya restringe ainda mais, permitindo apenas o uso específico do utensílio. Rav Safra, Rav Acha bar Huna e Rav Huna bar Chanina questionam como, segundo Rabah e Rabi Nechemya, é possível manusear as tigelas depois da refeição; Rav Safra responde comparando-as à pá usada para o excremento. Abaie repete as duas objeções já conhecidas do pilão de alho e da faca usada para cortar carne, ambas respondidas com "do sol para a sombra". Discute-se então a mishná segundo a qual não se apoia a panela com um pedaço de lenha, nem a porta — mostrando que, mesmo um objeto de função permitida, é proibido em Yom Tov, por decreto contra Shabat; e estabelece-se que a permissão de manusear objetos de função proibida exige que sobre eles recaia a categoria de utensílio. Levanta-se então a mishná que permite deixar cair frutas pela clarabóia em Yom Tov, mas não em Shabat, e questiona-se a consistência desse decreto com a mishná de que "não há diferença entre Yom Tov e Shabat senão quanto à comida"; Rav Yossef resolve atribuindo cada mishná a um tanná diferente — Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua —, com base na baraita sobre um animal e sua cria que caíram num poço em Yom Tov; duas tentativas de refutar essa resolução são levantadas e respondidas. O daf termina em pleno fluxo na resposta final de Rav Papa, que distingue Bet Shamai de Bet Hilel, citando a mishná "Bet Shamai diz:" — interrompida bem no início, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 124b (ainda não publicado).

Completa-se a explicação de Rabi Elazar; a glustra e o pilão antes da liberação · גְּלוֹסְטְרָא וּמְדוֹכָה

808Completa-se a frase: a mão de um sacerdote sobre o ombro do outro, em vez dos bastões
Rabi Elazar
יָדוֹ עַל כֶּתֶף חֲבֵירוֹ וְיַד חֲבֵירוֹ עַל כְּתֵיפוֹ, וְתוֹלֶה וּמַפְשִׁיט.

Sua mão sobre o ombro do companheiro, e a mão do companheiro sobre seu ombro, e assim pendura e esfola a oferta pascal.

Nota

Completa-se aqui a frase de Rabi Elazar interrompida ao final de 123b: quando o catorze de Nissan cai em Shabat, em vez de apoiar as ofertas pascais sobre os bastões finos e lisos — cujo manuseio seria proibido nesse dia —, um sacerdote coloca sua mão sobre o ombro de seu companheiro, e o companheiro coloca a mão sobre o ombro do primeiro, formando com os próprios corpos o suporte necessário para pendurar e esfolar o cordeiro pascal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yado al ketef chaveiro"
ידו על כתף חברו - דלא מטלטלי מקלות:

"Sua mão sobre o ombro do companheiro" — porque não se manuseiam os bastões.

809A glustra: a Mishná do ferrolho — Rabi Yehoshua permite remover e pendurar em outra porta; Rabi Tarfon considera utensílio comum
Anônimo (Mishná)
גְּלוֹסְטְרָא — דִּתְנַן: נֶגֶר שֶׁיֵּשׁ בְּרֹאשׁוֹ גְּלוֹסְטְרָא, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: שׁוֹמְטָהּ מִן פֶּתַח זֶה וְתוֹלָהּ בַּחֲבֵירוֹ בְּשַׁבָּת. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר: הֲרֵי הוּא כְּכׇל הַכֵּלִים וּמִיטַּלְטֵל בֶּחָצֵר.

A glustra — pois ensinamos: um ferrolho que tem em sua ponta uma glustra, Rabi Yehoshua diz: remove-o desta porta e pendura-o em outra, em Shabat. Rabi Tarfon diz: eis que é como todos os utensílios, e pode ser manuseado no pátio.

Nota

A Guemará explica agora a segunda mishná citada por Rabi Elazar: a glustra, uma espécie de bulbo na ponta de um ferrolho de porta, espesso o bastante para servir também de pilão. Rabi Yehoshua permite apenas removê-lo desta porta, arrastando-o, para pendurá-lo e trancar com ele outra porta; Rabi Tarfon é mais permissivo, considerando-o um utensílio comum, que pode ser manuseado livremente dentro do pátio.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "glostra" e "shomtah mipetach zeh vetolah bachaveiro"
גלוסטרא - דתנן רבי יהושע אמר נגר שיש בראשו גלוסטרא שראשה עב וראוי לדוך בו שום ונועלין בו דלת: שומטה מפתח זה ותולה בחברו - ואע"ג דצריך לגופו לתלותו בחברו ולנועלה בו שומטו ע"י גרירה אבל טלטול גמור לא ואע"פ שמלאכתו להיתר לא שרי ליה לצורך גופו:

"Glustra" — pois ensinamos, Rabi Yehoshua disse: um ferrolho que tem em sua ponta uma glustra, cuja ponta é grossa e apta para socar alho com ela, e com ele se tranca a porta. "Remove-o desta porta e pendura-o em outra" — e ainda que precise dele mesmo, para pendurá-lo em outra e trancá-la com ele, remove-o por meio de arrastar; mas um manuseio completo, não; e, ainda que sua função seja permitida, não lhe é permitido para sua própria necessidade.

810Rabah desafia: talvez essas mishnayot tenham sido ensinadas depois da liberação — as canas por causa de mofo, os bastões conforme o próprio Rabi Elazar
Rabah
מְדוֹכָה — הָא דַּאֲמַרַן. אָמַר רַבָּה: מִמַּאי, דִּילְמָא לְעוֹלָם אֵימָא לְךָ לְאַחַר הַתָּרַת כֵּלִים נִשְׁנוּ: קָנִים טַעְמָא מַאי — מִשּׁוּם אִיעַפּוֹשֵׁי, בְּהַאי פּוּרְתָּא לָא מִיעַפַּשׁ. מַקְלוֹת, אֶפְשָׁר כְּרַבִּי אֶלְעָזָר.

O pilão — este de que já falamos. Disse Rabah: de onde se prova isso? Talvez, na verdade, eu te diga que essas mishnayot foram ensinadas depois da liberação dos utensílios: quanto às canas, qual é a razão de restringir seu manuseio? Por causa do mofo; e, em Shabat, nesse pouco tempo, não mofa. Quanto aos bastões, é possível explicar conforme Rabi Elazar.

Nota

Rabah contesta a afirmação de Rabi Elazar de que canas, bastões, glustra e pilão foram todos ensinados antes da liberação final dos utensílios. Quanto às canas do arranjo dos pães da proposição: talvez sua restrição nada tenha a ver com a hierarquia de "necessidade do corpo" e "necessidade do lugar", mas simplesmente com o receio de que o pão mofasse sem elas — receio que não se aplica ao curto período de um único Shabat, e por isso, mesmo depois da liberação geral, continuaria proibido movê-las ou retirá-las nesse dia. Quanto aos bastões: a própria explicação de Rabi Elazar, de que se usa a mão sobre o ombro do companheiro em vez deles, mostra apenas que existe uma alternativa aos bastões — o que não prova que a mishná restritiva original date de antes da liberação.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ha da'amaran", "kanim ta'ama mai", "mishum ia'aposhei" e "kederabi elazar"
מדוכה הא דאמרן - לעיל אע"ג דשנייה רבא לעיל מחמה לצל ואביי שנייה לצורך מקומו שינויי דחיקי נינהו אלא קודם התרת כלים נשנו: קנים טעמא מאי - מסדרין אותם במערכה: משום איעפושי - דלא סמכינן אניסא ומשום ההוא פורתא שהישנה מתעכבת בלא קנים מלילי שבת לשבת והחדשה משבת למוצ"ש לא מיעפשי: כדר"א - מניח ידו על כתף חבירו:

"O pilão — este de que já falamos" — acima; e ainda que Rava tenha resolvido acima que se trata do sol para a sombra, e Abaie tenha resolvido que se trata da necessidade de seu lugar, essas são resoluções forçadas; antes, a verdade é que foram ensinados antes da liberação dos utensílios. "Quanto às canas, qual é a razão" — de restringir seu manuseio? Explica-se que servem para arrumá-las na disposição dos pães. "Por causa do mofo" — pois não confiamos em milagre; e por causa desse pouco tempo em que a disposição antiga fica sem canas, da noite de Shabat até o Shabat, e a nova, do Shabat até a saída do Shabat, não mofam. "Conforme Rabi Elazar" — coloca sua mão sobre o ombro do companheiro.

811A glustra, conforme Rabi Yanai: um pátio sem eiruv, e a disputa sobre o interior da porta
Rabi Yanai
גְּלוֹסְטְרָא — כִּדְרַבִּי יַנַּאי, דַּאֲמַר רַבִּי יַנַּאי: בְּחָצֵר שֶׁאֵינָהּ מְעוֹרֶבֶת עָסְקִינַן, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ סָבַר: תּוֹךְ הַפֶּתַח כְּלִפְנִים דָּמֵי וְקָמְטַלְטֵל מָנָא דְבָתִּים בְּחָצֵר. וְרַבִּי טַרְפוֹן סָבַר: תּוֹךְ הַפֶּתַח כְּלַחוּץ דָּמֵי, וּמָנָא דְחָצֵר בְּחָצֵר קָא מְטַלְטֵל.

Quanto à glustra — conforme ensinou Rabi Yanai, pois disse Rabi Yanai: tratamos de um pátio que não está unido por eiruv; Rabi Yehoshua entende: o interior da porta é como o interior das casas, e ao removê-la, ele estaria manuseando um utensílio das casas no pátio (por isso só permite arrastá-la). E Rabi Tarfon entende: o interior da porta é como o exterior, e é apenas um utensílio do pátio que se manuseia no pátio.

Nota

A Guemará explica a razão da disputa entre Rabi Yehoshua e Rabi Tarfon segundo Rabi Yanai: trata-se de um pátio com várias casas que não fizeram eiruv entre si, de modo que utensílios que passaram o Shabat dentro das casas não podem ser levados ao pátio, ao passo que os que passaram o Shabat no próprio pátio podem ser livremente manuseados nele. Rabi Yehoshua considera o espaço interno da porta — de onde se tira o ferrolho — equivalente ao interior da casa, e por isso só permite a remoção por arrasto, um manuseio indireto, não completo; Rabi Tarfon considera esse mesmo espaço equivalente ao próprio pátio, e por isso permite o manuseio pleno.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'einah me'oravet", "toch hapetach" e "uka metaltel mana devait bechatzer"
שאינה מעורבת - שהרבה בתים פתוחים לה ולא עירבו דכלים ששבתו בבתים אסור להוציאן לחצר וששבתו בחצר מותר לטלטלן בחצר שהחצר כולו רשות לעצמו הוא והבתים מיוחדים לכל איש ביתו: תוך הפתח - שנטל הנגר משם: וקא מטלטל מנא דבית בחצר - הלכך שומטה אין דטלטול מן הצד היא אבל טלטול גמור לא:

"Que não está unida por eiruv" — que muitas casas se abrem para ele e não fizeram eiruv; pois utensílios que passaram o Shabat nas casas é proibido tirá-los para o pátio, e os que passaram o Shabat no pátio é permitido manuseá-los no pátio, pois o pátio inteiro é um domínio à parte, e as casas são reservadas, cada uma, a seu morador. "O interior da porta" — de onde se tirou o ferrolho. "E estaria manuseando um utensílio da casa no pátio" — por isso, removê-lo por arrasto, sim, pois é um manuseio indireto; mas um manuseio completo, não.

812O pilão é a opinião de Rabi Nechemya
Anônimo (Guemará)
מְדוֹכָה — רַבִּי נְחֶמְיָה הִיא.

Quanto ao pilão — é a opinião de Rabi Nechemya.

Nota

Por fim, a Guemará identifica que a mishná do pilão de alho, já discutida em 123a — permitido apenas quando há alho nele, restrito quando não — reflete a opinião mais restritiva de Rabi Nechemya, para quem um utensílio só pode ser manuseado para o uso que lhe é especificamente próprio, não bastando que sua função seja permitida em geral.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "rabi nechemya hi"
מדוכה רבי נחמיה היא - דאמר ובעירובין (דף לה.) אפילו טלית ואפי' תרווד אין ניטלין אלא לצורך תשמיש המיוחד:

"O pilão é a opinião de Rabi Nechemya" — pois ele disse, e também ensinamos em Eiruvin (35a): mesmo um manto e mesmo uma colher não podem ser manuseados senão para o uso que lhes é próprio.

Nova Mishná: utensílios com necessidade e sem necessidade · לְצוֹרֶךְ וְשֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ

813Mishná: todos os utensílios podem ser manuseados com necessidade e sem necessidade; Rabi Nechemya restringe a apenas com necessidade
Mishná
כׇּל הַכֵּלִים נִיטָּלִין לְצוֹרֶךְ וְשֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ. רַבִּי נְחֶמְיָה אוֹמֵר: אֵין נִיטָּלִין אֶלָּא לְצוֹרֶךְ.

Todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, com necessidade e sem necessidade. Rabi Nechemya diz: não podem ser manuseados senão com necessidade.

Nota

Uma nova Mishná encerra o desenvolvimento do capítulo: o primeiro tanná permite o manuseio de qualquer utensílio em Shabat, mesmo sem qualquer necessidade real, apenas por conveniência; Rabi Nechemya discorda e restringe o manuseio apenas aos casos em que há efetivamente uma necessidade. A Guemará passará a explicar exatamente o que cada termo significa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre a versão da Mishná
מתני' ה"ג במתניתין כל הכלים ניטלין לצורך כו':

Mishná: assim é a versão correta na Mishná: "todos os utensílios podem ser manuseados com necessidade" etc.

814Guemará: o que significa "com necessidade" e "sem necessidade"?
Anônimo (Guemará)
מַאי ״לְצוֹרֶךְ״ וּמַאי ״שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ״?

O que significa "com necessidade", e o que significa "sem necessidade"?

Nota

A Guemará pergunta o que exatamente esses dois termos da Mishná significam, o que dará origem a duas explicações distintas, de Rabah e de Rava — cada uma seguida da posição ainda mais restritiva de Rabi Nechemya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mai letzorech umai shelo letzorech"
גמ' מאי לצורך ומאי שלא לצורך אמר רבה כו' - לצורך דשרי תנא קמא היינו דבר שמלאכתו להיתר ומטלטלו לצורך גופו:

Guemará: "o que significa 'com necessidade', e o que significa 'sem necessidade'? Disse Rabah" etc — "com necessidade", que o primeiro tanná permite, é um objeto cuja função é permitida, e o manuseia para sua própria necessidade.

815Rabah: "com necessidade" é para o corpo, "sem necessidade" é para o lugar; Rabi Nechemya restringe até para objetos de função permitida; Rava objeta
Rabah; Rabi Nechemya; Rava
אָמַר רַבָּה: ״לְצוֹרֶךְ״ — דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ. ״שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ״ — דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ, וְדָבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר, לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ — אִין, לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ — לָא. וַאֲתָא רַבִּי נְחֶמְיָה לְמֵימַר וַאֲפִילּוּ דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר, לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ — אִין, לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ — לָא. אֲמַר לֵיהּ רָבָא: לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ, ״שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ״ קָרֵית לֵיהּ?!

Disse Rabah: "com necessidade" — um objeto cuja função é permitida, para sua própria necessidade. "Sem necessidade" — um objeto cuja função é permitida, para a necessidade de seu lugar; e um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não. E veio Rabi Nechemya dizer: e mesmo um objeto cuja função é permitida — para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não. Disse-lhe Rava: "a necessidade de seu lugar" tu chamas de "sem necessidade"?!

Nota

Rabah propõe: "com necessidade" refere-se ao manuseio de um objeto de função permitida para a necessidade de seu próprio corpo; "sem necessidade" abrange tanto o mesmo objeto quando manuseado apenas para a necessidade de seu lugar quanto um objeto de função proibida, que é permitido para sua própria necessidade mas não para a de seu lugar. Rabi Nechemya, mais restritivo, permite mesmo um objeto de função permitida apenas para a necessidade de seu próprio corpo, nunca para a de seu lugar. Rava, porém, objeta à própria terminologia de Rabah: como se pode chamar de "sem necessidade" o manuseio para a necessidade do lugar do utensílio, se isso é, ainda assim, uma necessidade real?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shelo letzorech davar shemelachto leheiter" e "vedavar shemelachto le'isur letzorech gufo"
שלא לצורך דבר שמלאכתו להיתר - ומטלטלו שלא לצורך גופו אבל צריך למקומו: ודבר שמלאכתו לאיסור לצורך גופו - הוא דאישתראי אם צריך לו למלאכת היתר אבל שלא לצורך גופו ואע"ג דצריך למקומו לא ורבה לטעמיה דאמר לעיל (שבת דף קכב:) גבי קורנס של נפחים נמי מותר לצורך גופו:

"Sem necessidade, um objeto cuja função é permitida" — e o manuseia sem necessidade de seu corpo, mas precisa de seu lugar. "E um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade" — é isso que foi permitido, se precisa dele para uma tarefa permitida; mas sem a necessidade de seu corpo, ainda que precise de seu lugar, não; e Rabah segue seu próprio raciocínio, pois disse acima (Shabat 122b) a respeito do martelo dos ferreiros que também é permitido para sua própria necessidade.

816Rava propõe outra definição: "com necessidade" abrange corpo e lugar; "sem necessidade" é o sol para a sombra; Rabi Nechemya restringe também aqui
Rava; Rabi Nechemya
אֶלָּא אָמַר רָבָא: ״לְצוֹרֶךְ״ — דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר, בֵּין לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ בֵּין לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ. ״שֶׁלֹּא לְצוֹרֶךְ״ — וַאֲפִילּוּ מֵחַמָּה לַצֵּל. וְדָבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר, לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ — אִין, מֵחַמָּה לַצֵּל — לָא. וַאֲתָא רַבִּי נְחֶמְיָה לְמֵימַר: וַאֲפִילּוּ דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר, לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ — אִין, מֵחַמָּה לַצֵּל — לָא.

Antes, disse Rava: "com necessidade" — um objeto cuja função é permitida, tanto para sua própria necessidade quanto para a necessidade de seu lugar. "Sem necessidade" — e até mesmo do sol para a sombra. E um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade e para a de seu lugar, sim; do sol para a sombra, não. E veio Rabi Nechemya dizer: e mesmo um objeto cuja função é permitida — para sua própria necessidade e para a de seu lugar, sim; do sol para a sombra, não.

Nota

Rava propõe uma definição mais ampla: "com necessidade" inclui tanto a necessidade do corpo quanto a do lugar de um objeto de função permitida, já que ambas são igualmente necessidades reais; "sem necessidade" restringe-se ao caso em que não há necessidade alguma — mover o objeto apenas do sol para a sombra, por mero cuidado. Um objeto de função proibida é permitido tanto para a necessidade do corpo quanto para a do lugar, mas não do sol para a sombra. Rabi Nechemya, novamente mais restritivo, permite um objeto de função permitida para o corpo e o lugar, mas ainda proíbe movê-lo apenas do sol para a sombra.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "amar leih rava... ela amar rava"
א"ל רבא כו' אלא אמר כו' - ולרבא דמוקי אליבא דרבי נחמיה דלצורך גופו ולצורך מקומו מותר ע"כ האי לצורך גופו כגון שזה התשמיש מיוחד לו דתניא לקמן בפרק חבית (שבת דף קמו.) רבי נחמיה אומר אפילו תרווד ואפילו טלית אין ניטלין אלא לצורך תשמישן וצורך מקומו נמי לרבא כצורך גופו ותשמישו דמי ולרבה צורך גופו הוא דשרי רבי נחמיה ודוקא לתשמיש המיוחד לו ובין לרבה ובין לרבא דוקא דבר שמלאכתו להיתר אבל דבר שמלאכתו לאיסור אפילו לצורך גופו לא שרי רבי נחמיה דהאי צורך גופו לאו תשמיש המיוחד לו הוא דהא מיוחד למלאכת איסור:

"Disse-lhe Rava" etc, "antes, disse" etc — e, para Rava, que estabelece, segundo Rabi Nechemya, que para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar é permitido, forçosamente esta "própria necessidade" é como quando este uso lhe é específico, pois foi ensinado mais adiante, no capítulo HaChavit (Shabat 146a): Rabi Nechemya diz que mesmo uma colher e mesmo um manto não podem ser manuseados senão para o uso que lhes é próprio; e a necessidade de seu lugar, também para Rava, assemelha-se à necessidade de seu próprio corpo e a seu uso. E, para Rabah, é para a necessidade de seu próprio corpo que Rabi Nechemya permite, e especificamente para o uso que lhe é próprio; e tanto para Rabah quanto para Rava, especificamente um objeto cuja função é permitida; mas um objeto cuja função é proibida, mesmo para sua própria necessidade, Rabi Nechemya não permite, pois esta "própria necessidade" não é o uso que lhe é específico, já que o objeto é reservado para uma tarefa proibida.

817Rav Safra, Rav Acha bar Huna e Rav Huna bar Chanina: como se manuseiam as tigelas segundo Rabah? Como a pá do excremento
Rav Safra; Rav Acha bar Huna; Rav Huna bar Chanina
יָתֵיב רַב סָפְרָא וְרַב אַחָא בַּר הוּנָא וְרַב הוּנָא בַּר חֲנִינָא, וְיָתְבִי וְקָאָמְרִי: לְרַבָּה אַלִּיבָּא דְּרַבִּי נְחֶמְיָה הָנֵי קְעָרוֹת הֵיכִי מְטַלְטְלִינַן? אֲמַר לְהוּ רַב סָפְרָא: מִידֵּי דְּהָוֵה אַגְּרָף שֶׁל רְעִי.

Sentaram-se Rav Safra, Rav Acha bar Huna e Rav Huna bar Chanina, e, sentados, diziam: segundo Rabah, conforme a opinião de Rabi Nechemya, como manuseamos estas tigelas depois da refeição? Disse-lhes Rav Safra: assim como se permite manusear a pá do excremento.

Nota

Os sábios questionam: segundo Rabah, Rabi Nechemya permite um objeto de função permitida apenas para a necessidade de seu próprio corpo, não para a de seu lugar; como então se permite retirar as tigelas da mesa depois da refeição, quando não se precisa mais delas, mas apenas de liberar o lugar onde estavam? Rav Safra responde com um precedente já estabelecido: assim como se permite manusear a pá usada para recolher o excremento — cuja função é claramente proibida, mas cujo manuseio se justifica pela necessidade de limpar o lugar —, também as tigelas podem ser manuseadas por uma necessidade equivalente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "lerabah aliba derabi nechemya" e "hanei ke'arot"
לרבה אליבא דרבי נחמיה - דאמר דבר שמלאכתו להיתר לצורך מקומו לא: הני קערות - לאחר אכילה היכי מטלטל להו לסלקן מלפנינו:

"Segundo Rabah, conforme a opinião de Rabi Nechemya" — que diz que um objeto cuja função é permitida, para a necessidade de seu lugar, não é permitido. "Estas tigelas" — depois da refeição, como se manuseiam para retirá-las de diante de nós?

818Abaie repete a pergunta a Rabah, que remete à resposta já dada por Rav Safra
Abaie; Rabah
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַבָּה, לְמָר אַלִּיבָּא דְּרַבִּי נְחֶמְיָה, הָנֵי קְעָרוֹת הֵיכִי מְטַלְטְלִינַן לְהוּ? אֲמַר לֵיהּ: רַב סָפְרָא חַבְרִין תַּרְגְּמַהּ: מִידֵּי דְּהָוֵה אַגְּרָף שֶׁל רְעִי.

Disse-lhe Abaie a Rabah: para o mestre, conforme a opinião de Rabi Nechemya, como manuseamos estas tigelas? Disse-lhe: Rav Safra, nosso colega, já a explicou: assim como se permite manusear a pá do excremento.

Nota

Abaie traz a mesma pergunta diretamente a Rabah, e Rabah simplesmente confirma a resposta que Rav Safra já havia dado.

819Abaie objeta com o pilão de alho e a faca de cortar carne; respondido: do sol para a sombra
Abaie; Anônimo (Guemará)
אֵיתִיבֵיהּ אַבָּיֵי: מְדוֹכָה, אִם יֵשׁ בָּהּ שׁוּם — מְטַלְטְלִין אוֹתָהּ, וְאִם לָאו — אֵין מְטַלְטְלִין אוֹתָהּ. הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — מֵחַמָּה לַצֵּל. אֵיתִיבֵיהּ: וְשָׁוִין שֶׁאִם קִצֵּב עָלָיו בָּשָׂר שֶׁאָסוּר לְטַלְטְלוֹ! הָכָא נָמֵי מֵחַמָּה לַצֵּל.

Objetou-lhe Abaie: não ensinamos que um pilão — se há nele alho, pode-se manuseá-lo; e se não, não se pode manuseá-lo? Se um objeto de função proibida é permitido para sua própria necessidade, por que proibi-lo quando não há mais alho? Aqui, do que tratamos? Do sol para a sombra. Objetou-lhe ainda: e ambos (Bet Shamai e Bet Hilel) concordam que, se se cortou com ele carne, é proibido manuseá-lo depois! Aqui também, do sol para a sombra.

Nota

Abaie traz de volta as duas mesmas objeções já discutidas em 123a e 123b — a respeito do pilão de alho e do pilão-de-mão usado para cortar carne — agora contra Rabah: se um objeto de função proibida é permitido para sua própria necessidade, por que essas fontes proíbem seu manuseio uma vez esgotada sua função original? Responde-se, em ambos os casos, que essas fontes tratam apenas da situação "do sol para a sombra" — quando não há mais necessidade real, apenas o cuidado de proteger o objeto —, o que nem mesmo Rabah permite nessa hipótese.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ve'im lav ein metaltelin otah"
ואם לאו אין מטלטלין אותה - בשלמא לרבה כגון דאין צריך לגופה [אלא למקומה] אלא לדידך אמאי:

"E se não, não se pode manuseá-lo" — está bem para Rabah, tratando-se de quando não se precisa de seu próprio corpo, mas apenas de seu lugar; mas para ti (Abaie, que permite até para a necessidade do lugar), por que seria proibido?

820A lenha que não apoia a panela nem a porta: em Yom Tov, mesmo objeto de função permitida é proibido, por decreto contra Shabat
Anônimo (Guemará)
וְהָא דִּתְנַן: אֵין סוֹמְכִין אֶת הַקְּדֵירָה בִּבְקַעַת וְכֵן בַּדֶּלֶת. וְהָא בְּקַעַת דִּבְיוֹם טוֹב דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר הוּא, אַלְמָא דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְהֶיתֵּר בֵּין לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ בֵּין לְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ — אָסוּר! הָתָם מַאי טַעְמָא — כֵּיוָן דִּבְשַׁבָּת דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר הוּא, גְּזֵירָה יוֹם טוֹב אַטּוּ שַׁבָּת.

E quanto a isto que ensinamos: não se apoia a panela com um pedaço de lenha, e o mesmo vale para a porta. Mas o pedaço de lenha, em Yom Tov, é um objeto cuja função é permitida! Isso mostra que um objeto cuja função é permitida, tanto para sua própria necessidade quanto para a necessidade de seu lugar, é proibido! Ali, qual é a razão? Já que, em Shabat, a mesma lenha é um objeto cuja função é proibida, decretou-se Yom Tov por causa de Shabat.

Nota

A Guemará levanta uma dificuldade contra Rava (para quem um objeto de função permitida é sempre permitido, tanto para o corpo quanto para o lugar): uma mishná ensina que não se apoia a panela — nem a porta — com um pedaço de lenha, mesmo em Yom Tov, quando a lenha serve para acender fogo, uma função permitida. Responde-se: essa proibição não decorre da hierarquia de corpo e lugar, mas de um decreto específico — já que, em Shabat, acender fogo é proibido, tornando a lenha um objeto de função proibida nesse dia, os sábios decretaram a mesma proibição também em Yom Tov, por causa de Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "vechen badelet" e "veha bek'at beyom tov"
וכן בדלת - אוקימנא במסכת ביצה וכן הדלת אין סומכין בבקעת וביו"ט קיימי: והא בקעת ביו"ט מלאכתה להיתר היא - דלהסקה חזי וקיימא וקאסר לטלטלה לצורך גופו למלאכה אחרת וכל שכן לצורך מקומה: ומשני התם טעמא כיון דבשבת אסור דהא בקעת בשבת מלאכתה לאיסור היא ביום טוב נמי אסור גזירה יו"ט אטו שבת:

"E o mesmo vale para a porta" — estabelecemos isso no tratado Beitzá: e também a porta, não se apoia com um pedaço de lenha; e essa mishná trata de Yom Tov. "Mas o pedaço de lenha, em Yom Tov, sua função é permitida" — pois serve e está pronta para acender fogo, e a mishná proíbe manuseá-la para sua própria necessidade, para outra tarefa, e mais ainda para a necessidade de seu lugar. Respondeu-se: ali a razão é que, já que o mesmo pedaço de lenha, em Shabat, sua função é proibida, também em Yom Tov foi proibido, como decreto de Yom Tov por causa de Shabat.

821A permissão do próprio Shabat exige que sobre o objeto recaia a categoria de utensílio
Anônimo (Guemará)
וְכִי תֵּימָא: שַׁבָּת גּוּפֵיהּ תִּישְׁתְּרֵי, דְּהָא דָּבָר שֶׁמְּלַאכְתּוֹ לְאִיסּוּר, לְצוֹרֶךְ גּוּפוֹ וּלְצוֹרֶךְ מְקוֹמוֹ שְׁרֵי — הָנֵי מִילֵּי הֵיכָא דְּאִיכָּא תּוֹרַת כְּלִי עָלָיו, הֵיכָא דְּלֵיכָּא תּוֹרַת כְּלִי עָלָיו — לָא.

E se disseres: o próprio Shabat deveria então ser permitido, pois um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar, é permitido — isso vale apenas onde recai sobre o objeto a categoria de utensílio; onde não recai sobre ele a categoria de utensílio, não.

Nota

Antecipando uma objeção — se em Shabat mesmo um objeto de função proibida é permitido para sua necessidade própria e a de seu lugar, por que não permitir a lenha diretamente em Shabat, dispensando o decreto contra Yom Tov? —, a Guemará esclarece: essa permissão vale apenas para objetos que já têm sobre si a categoria de utensílio; um pedaço de lenha, porém, é matéria-prima bruta, sem qualquer forma de utensílio, e por isso permanece proibido mesmo em Shabat.

822Objeção: mas não decretamos assim, pois se permite deixar cair frutas pela clarabóia em Yom Tov, mas não em Shabat
Anônimo (Guemará)
וּמִי גָּזְרִינַן? וְהָתְנַן: מַשִּׁילִין פֵּירוֹת דֶּרֶךְ אֲרוּבָּה בְּיוֹם טוֹב, אֲבָל לֹא בְּשַׁבָּת!

Mas decretamos assim (Yom Tov por causa de Shabat)? E não ensinamos: deixam-se cair frutas secando no telhado pela clarabóia em Yom Tov, mas não em Shabat!

Nota

A Guemará objeta contra o próprio princípio de "decreto de Yom Tov por causa de Shabat" usado para explicar a lenha: uma mishná ensina que, quando ameaça chover, permite-se deixar cair ao chão, pela clarabóia do telhado, frutas que secavam ali, em Yom Tov — mas não em Shabat. Se em Yom Tov se distingue de Shabat, permitindo algo ali proibido, isso mostra que nem sempre se decreta Yom Tov por causa de Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mashilin peirot derech arubah beyom tov"
משילין פירות דרך ארובה ביום טוב - בהדיא תנן אבל לא בשבת פירות השטוחים על הגג לייבשן וראה גשמים ממשמשים ובאין משילן לארץ דרך ארובת הגג דלא טריחא מילתא דנופלין מאליהן אלמא דלא גזרינן ופרכינן ומי לא גזרינן והתנן אין בין כו':

"Deixam-se cair frutas pela clarabóia em Yom Tov" — explicitamente ensinamos: "mas não em Shabat" — frutas espalhadas no telhado para secarem, e o dono vê a chuva se aproximando, deixa-as cair ao chão pela clarabóia do telhado, pois não é um esforço, já que caem por si mesmas; isso mostra que não decretamos Yom Tov por causa de Shabat neste caso. E objetamos: mas também não decretamos? E não ensinamos: "não há diferença" etc?

823Contraobjeção: mas também não decretamos, pois não há diferença entre Yom Tov e Shabat senão quanto à comida
Anônimo (Guemará)
וּמִי לָא גָּזְרִינַן? וְהָתְנַן: אֵין בֵּין יוֹם טוֹב לַשַּׁבָּת אֶלָּא אוֹכֶל נֶפֶשׁ בִּלְבָד!

Mas também não decretamos? E não ensinamos: não há diferença alguma entre Yom Tov e Shabat, senão quanto ao preparo de comida para a pessoa!

Nota

A Guemará traz agora a objeção oposta: outra mishná ensina que a única diferença entre Yom Tov e Shabat é o preparo de comida — o que sugere que, fora essa exceção, tudo o que é proibido em Shabat é igualmente proibido em Yom Tov, contradizendo a mishná anterior sobre as frutas.

824Rav Yossef resolve: uma mishná é de Rabi Eliezer, a outra de Rabi Yehoshua, com base na baraita do boi e seu filho que caíram no poço
Rav Yossef
אָמַר רַב יוֹסֵף, לָא קַשְׁיָא: הָא — רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, הָא — רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ. דְּתַנְיָא: ״אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ״ שֶׁנָּפְלוּ לְבוֹר, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: מַעֲלֶה אֶת הָרִאשׁוֹן עַל מְנָת לְשׁוֹחְטוֹ, וְשׁוֹחֲטוֹ. וְהַשֵּׁנִי — עוֹשֶׂה לוֹ פַּרְנָסָה בִּמְקוֹמוֹ בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יָמוּת. רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ אוֹמֵר: מַעֲלֶה אֶת הָרִאשׁוֹן עַל מְנָת לְשׁוֹחְטוֹ, וְאֵינוֹ שׁוֹחֲטוֹ, וּמַעֲרִים וּמַעֲלֶה אֶת הַשֵּׁנִי, רָצָה — זֶה שׁוֹחֵט, רָצָה — זֶה שׁוֹחֵט.

Disse Rav Yossef: não há dificuldade: esta mishná (que permite as frutas) é segundo Rabi Eliezer, aquela (que iguala Yom Tov a Shabat) é segundo Rabi Yehoshua. Pois foi ensinado: quanto a "ele e seu filho" (um animal e sua cria) que caíram num poço em Yom Tov, Rabi Eliezer diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, e de fato abate-o; e ao segundo, providencia-se sustento em seu lugar, para que não morra. Rabi Yehoshua diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, mas não o abate; e usa de artifício e tira também o segundo; se quiser, abate este; se quiser, abate aquele.

Nota

Rav Yossef resolve a contradição atribuindo cada mishná a um tanná diferente: a mishná que permite deixar cair as frutas — um esforço em Yom Tov que não seria permitido em Shabat, por causa de eventual perda de dinheiro — segue Rabi Yehoshua, mais permissivo quanto a esforço em Yom Tov, como se vê na baraita citada: quando um animal e sua cria caem num poço em Yom Tov (proibido abater ambos no mesmo dia), Rabi Yehoshua permite tirar ambos por meio de um artifício, sem realmente pretender abater o segundo. Já a mishná que iguala Yom Tov a Shabat, exceto quanto à comida, segue Rabi Eliezer, que nesse caso não permite tirar o segundo animal do poço, apenas lhe dá sustento no próprio lugar — mostrando que ele não permite esforços em Yom Tov além do estritamente necessário para a comida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "la kashya ha" e "veha"
לא קשיא הא - דתנן משילין דשרי טירחא ביו"ט משום איבוד ממון רבי יהושע היא שהתיר להעלות בהמה בהערמה מן הבור: והא - דתנן אין בין כו' ר"א היא:

"Não há dificuldade, esta" — a mishná que ensina "deixam-se cair frutas", que permite esforço em Yom Tov por causa de perda de dinheiro, é segundo Rabi Yehoshua, que permitiu tirar o animal do poço por meio de artifício. "E aquela" — a mishná que ensina "não há diferença" etc, é segundo Rabi Eliezer.

825Primeira tentativa de refutar: talvez Rabi Eliezer só proíba onde é possível sustentar o segundo animal em seu lugar
Anônimo (Guemará)
מִמַּאי? דִּילְמָא עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר הָתָם אֶלָּא דְּאֶפְשָׁר בְּפַרְנָסָה, אֲבָל הֵיכָא דְּלָא אֶפְשָׁר בְּפַרְנָסָה לָא.

De onde se prova isso? Talvez Rabi Eliezer não tenha dito ali que se proíbe esforço senão onde é possível resolver com sustento; mas onde não é possível resolver com sustento, não diria o mesmo.

Nota

A Guemará questiona a solução de Rav Yossef: talvez a posição restritiva de Rabi Eliezer, na baraita do poço, se aplique apenas porque ali era possível sustentar o segundo animal em seu próprio lugar, sem precisar de esforço algum; mas no caso das frutas, onde não há alternativa de "sustento" — e a única opção é o esforço de deixá-las cair ou perdê-las —, mesmo Rabi Eliezer poderia concordar em permitir.

826Segunda tentativa de refutar: talvez Rabi Yehoshua só permita onde é possível o artifício
Anônimo (Guemará)
אִי נָמֵי, עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הָתָם דְּאֶפְשָׁר בְּהַעֲרָמָה, אֲבָל הֵיכָא דְּלָא אֶפְשָׁר בְּהַעֲרָמָה — לָא!

Ou, então, talvez Rabi Yehoshua não tenha dito ali que se permite senão onde é possível resolver por meio de artifício; mas onde não é possível resolver por meio de artifício, não permitiria!

Nota

A Guemará levanta a dificuldade simétrica contra a metade permissiva da solução: talvez Rabi Yehoshua só permita tirar o segundo animal do poço porque há ali um artifício disponível — fingir que se pretende abatê-lo —, o que faz parecer que se age apenas para a necessidade permitida de Yom Tov; mas no caso das frutas, onde não há artifício equivalente para disfarçar o esforço, mesmo Rabi Yehoshua poderia concordar em proibir.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "de'efshar beha'aramah"
דאפשר בהערמה - דמיחזי כמאן דעביד לצורך יו"ט אבל גבי משילין דליכא הערמה לדמויי להתירא לא:

"Onde é possível resolver por meio de artifício" — pois assim parece que se faz para a necessidade de Yom Tov; mas quanto a "deixam-se cair frutas", onde não há artifício equivalente para comparar à permissão, não haveria razão para permitir por essa via.

827Rav Pappa resolve, por fim: uma mishná é de Bet Shamai, a outra de Bet Hilel
Rav Pappa
אֶלָּא אָמַר רַב פָּפָּא: לָא קַשְׁיָא, הָא — בֵּית שַׁמַּאי, הָא — בֵּית הִלֵּל. דִּתְנַן, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים:

Antes, disse Rav Pappa: não há dificuldade: esta mishná é segundo Bet Shamai, aquela mishná é segundo Bet Hilel. Pois ensinamos, Bet Shamai diz:

Nota

Diante das duas tentativas frustradas de refutar a solução de Rav Yossef pela via de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua, Rav Pappa propõe uma resolução alternativa e definitiva: as duas mishnayot não dependem da disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre o esforço em Yom Tov, mas da disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel — uma escola mais restritiva, outra mais permissiva. Rav Pappa começa a citar a mishná de Bet Shamai para fundamentar sua resolução, mas o daf termina exatamente no início dessa citação.

O daf termina aqui, em pleno fluxo da resposta de Rav Papa, no início da citação da mishná — "דִּתְנַן, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים:" ("pois ensinamos, Bet Shamai diz:") —, sem qualquer hadran, pois o Perek Yod-Zayin (Kol HaKelim) continua em curso. A discussão prossegue diretamente em Shabbat 124b (ainda não publicado), que completa a citação com a mishná sobre não se tirar uma criança, um lulav ou um rolo da Torá para o domínio público, mishná essa que Bet Hilel permite.