Shabbat 124a abre completando a frase interrompida ao final de 123b: a mão de um sacerdote sobre o ombro de seu companheiro, e a mão do companheiro sobre seu ombro, servindo de suporte para pendurar e esfolar a oferta pascal — pois, como explica Rashi, não se manuseiam os bastões em Shabat. Segue-se a explicação da glustra: a Mishná já citada por Rabi Elazar, sobre o ferrolho com uma glustra em sua ponta, que Rabi Yehoshua permite remover de uma porta e pendurar em outra, e que Rabi Tarfon considera um utensílio comum, manuseável no pátio; Rabi Yanai explica que ambos tratam de um pátio sem eiruv, discordando se o interior da porta se assemelha ao interior das casas ou ao próprio pátio. Rabah então desafia a afirmação de Rabi Elazar de que canas, bastões, glustra e pilão foram todos ensinados antes da liberação final dos utensílios: talvez a restrição das canas se deva simplesmente ao receio de mofo, e a dos bastões seja apenas a alternativa que o próprio Rabi Elazar descreve, sem provar nada sobre a época em que essas mishnayot foram ensinadas; quanto ao pilão, conclui-se que é a opinião de Rabi Nechemya, mais restritiva. A Guemará passa então a uma nova Mishná: todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, com necessidade e sem necessidade; mas Rabi Nechemya diz que só podem ser manuseados com necessidade. Pergunta-se o que significam esses termos: Rabah distingue entre a necessidade do próprio corpo do utensílio (permitida mesmo para objetos de função proibida) e a necessidade de seu lugar (permitida apenas para objetos de função permitida); Rava propõe que "com necessidade" abrange tanto o corpo quanto o lugar do utensílio de função permitida, e reserva "sem necessidade" para o mero cuidado de protegê-lo do sol — em ambos os casos, Rabi Nechemya restringe ainda mais, permitindo apenas o uso específico do utensílio. Rav Safra, Rav Acha bar Huna e Rav Huna bar Chanina questionam como, segundo Rabah e Rabi Nechemya, é possível manusear as tigelas depois da refeição; Rav Safra responde comparando-as à pá usada para o excremento. Abaie repete as duas objeções já conhecidas do pilão de alho e da faca usada para cortar carne, ambas respondidas com "do sol para a sombra". Discute-se então a mishná segundo a qual não se apoia a panela com um pedaço de lenha, nem a porta — mostrando que, mesmo um objeto de função permitida, é proibido em Yom Tov, por decreto contra Shabat; e estabelece-se que a permissão de manusear objetos de função proibida exige que sobre eles recaia a categoria de utensílio. Levanta-se então a mishná que permite deixar cair frutas pela clarabóia em Yom Tov, mas não em Shabat, e questiona-se a consistência desse decreto com a mishná de que "não há diferença entre Yom Tov e Shabat senão quanto à comida"; Rav Yossef resolve atribuindo cada mishná a um tanná diferente — Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua —, com base na baraita sobre um animal e sua cria que caíram num poço em Yom Tov; duas tentativas de refutar essa resolução são levantadas e respondidas. O daf termina em pleno fluxo na resposta final de Rav Papa, que distingue Bet Shamai de Bet Hilel, citando a mishná "Bet Shamai diz:" — interrompida bem no início, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 124b (ainda não publicado).
Sua mão sobre o ombro do companheiro, e a mão do companheiro sobre seu ombro, e assim pendura e esfola a oferta pascal.
Completa-se aqui a frase de Rabi Elazar interrompida ao final de 123b: quando o catorze de Nissan cai em Shabat, em vez de apoiar as ofertas pascais sobre os bastões finos e lisos — cujo manuseio seria proibido nesse dia —, um sacerdote coloca sua mão sobre o ombro de seu companheiro, e o companheiro coloca a mão sobre o ombro do primeiro, formando com os próprios corpos o suporte necessário para pendurar e esfolar o cordeiro pascal.
"Sua mão sobre o ombro do companheiro" — porque não se manuseiam os bastões.
A glustra — pois ensinamos: um ferrolho que tem em sua ponta uma glustra, Rabi Yehoshua diz: remove-o desta porta e pendura-o em outra, em Shabat. Rabi Tarfon diz: eis que é como todos os utensílios, e pode ser manuseado no pátio.
A Guemará explica agora a segunda mishná citada por Rabi Elazar: a glustra, uma espécie de bulbo na ponta de um ferrolho de porta, espesso o bastante para servir também de pilão. Rabi Yehoshua permite apenas removê-lo desta porta, arrastando-o, para pendurá-lo e trancar com ele outra porta; Rabi Tarfon é mais permissivo, considerando-o um utensílio comum, que pode ser manuseado livremente dentro do pátio.
"Glustra" — pois ensinamos, Rabi Yehoshua disse: um ferrolho que tem em sua ponta uma glustra, cuja ponta é grossa e apta para socar alho com ela, e com ele se tranca a porta. "Remove-o desta porta e pendura-o em outra" — e ainda que precise dele mesmo, para pendurá-lo em outra e trancá-la com ele, remove-o por meio de arrastar; mas um manuseio completo, não; e, ainda que sua função seja permitida, não lhe é permitido para sua própria necessidade.
O pilão — este de que já falamos. Disse Rabah: de onde se prova isso? Talvez, na verdade, eu te diga que essas mishnayot foram ensinadas depois da liberação dos utensílios: quanto às canas, qual é a razão de restringir seu manuseio? Por causa do mofo; e, em Shabat, nesse pouco tempo, não mofa. Quanto aos bastões, é possível explicar conforme Rabi Elazar.
Rabah contesta a afirmação de Rabi Elazar de que canas, bastões, glustra e pilão foram todos ensinados antes da liberação final dos utensílios. Quanto às canas do arranjo dos pães da proposição: talvez sua restrição nada tenha a ver com a hierarquia de "necessidade do corpo" e "necessidade do lugar", mas simplesmente com o receio de que o pão mofasse sem elas — receio que não se aplica ao curto período de um único Shabat, e por isso, mesmo depois da liberação geral, continuaria proibido movê-las ou retirá-las nesse dia. Quanto aos bastões: a própria explicação de Rabi Elazar, de que se usa a mão sobre o ombro do companheiro em vez deles, mostra apenas que existe uma alternativa aos bastões — o que não prova que a mishná restritiva original date de antes da liberação.
"O pilão — este de que já falamos" — acima; e ainda que Rava tenha resolvido acima que se trata do sol para a sombra, e Abaie tenha resolvido que se trata da necessidade de seu lugar, essas são resoluções forçadas; antes, a verdade é que foram ensinados antes da liberação dos utensílios. "Quanto às canas, qual é a razão" — de restringir seu manuseio? Explica-se que servem para arrumá-las na disposição dos pães. "Por causa do mofo" — pois não confiamos em milagre; e por causa desse pouco tempo em que a disposição antiga fica sem canas, da noite de Shabat até o Shabat, e a nova, do Shabat até a saída do Shabat, não mofam. "Conforme Rabi Elazar" — coloca sua mão sobre o ombro do companheiro.
Quanto à glustra — conforme ensinou Rabi Yanai, pois disse Rabi Yanai: tratamos de um pátio que não está unido por eiruv; Rabi Yehoshua entende: o interior da porta é como o interior das casas, e ao removê-la, ele estaria manuseando um utensílio das casas no pátio (por isso só permite arrastá-la). E Rabi Tarfon entende: o interior da porta é como o exterior, e é apenas um utensílio do pátio que se manuseia no pátio.
A Guemará explica a razão da disputa entre Rabi Yehoshua e Rabi Tarfon segundo Rabi Yanai: trata-se de um pátio com várias casas que não fizeram eiruv entre si, de modo que utensílios que passaram o Shabat dentro das casas não podem ser levados ao pátio, ao passo que os que passaram o Shabat no próprio pátio podem ser livremente manuseados nele. Rabi Yehoshua considera o espaço interno da porta — de onde se tira o ferrolho — equivalente ao interior da casa, e por isso só permite a remoção por arrasto, um manuseio indireto, não completo; Rabi Tarfon considera esse mesmo espaço equivalente ao próprio pátio, e por isso permite o manuseio pleno.
"Que não está unida por eiruv" — que muitas casas se abrem para ele e não fizeram eiruv; pois utensílios que passaram o Shabat nas casas é proibido tirá-los para o pátio, e os que passaram o Shabat no pátio é permitido manuseá-los no pátio, pois o pátio inteiro é um domínio à parte, e as casas são reservadas, cada uma, a seu morador. "O interior da porta" — de onde se tirou o ferrolho. "E estaria manuseando um utensílio da casa no pátio" — por isso, removê-lo por arrasto, sim, pois é um manuseio indireto; mas um manuseio completo, não.
Quanto ao pilão — é a opinião de Rabi Nechemya.
Por fim, a Guemará identifica que a mishná do pilão de alho, já discutida em 123a — permitido apenas quando há alho nele, restrito quando não — reflete a opinião mais restritiva de Rabi Nechemya, para quem um utensílio só pode ser manuseado para o uso que lhe é especificamente próprio, não bastando que sua função seja permitida em geral.
"O pilão é a opinião de Rabi Nechemya" — pois ele disse, e também ensinamos em Eiruvin (35a): mesmo um manto e mesmo uma colher não podem ser manuseados senão para o uso que lhes é próprio.
Todos os utensílios podem ser manuseados em Shabat, com necessidade e sem necessidade. Rabi Nechemya diz: não podem ser manuseados senão com necessidade.
Uma nova Mishná encerra o desenvolvimento do capítulo: o primeiro tanná permite o manuseio de qualquer utensílio em Shabat, mesmo sem qualquer necessidade real, apenas por conveniência; Rabi Nechemya discorda e restringe o manuseio apenas aos casos em que há efetivamente uma necessidade. A Guemará passará a explicar exatamente o que cada termo significa.
Mishná: assim é a versão correta na Mishná: "todos os utensílios podem ser manuseados com necessidade" etc.
O que significa "com necessidade", e o que significa "sem necessidade"?
A Guemará pergunta o que exatamente esses dois termos da Mishná significam, o que dará origem a duas explicações distintas, de Rabah e de Rava — cada uma seguida da posição ainda mais restritiva de Rabi Nechemya.
Guemará: "o que significa 'com necessidade', e o que significa 'sem necessidade'? Disse Rabah" etc — "com necessidade", que o primeiro tanná permite, é um objeto cuja função é permitida, e o manuseia para sua própria necessidade.
Disse Rabah: "com necessidade" — um objeto cuja função é permitida, para sua própria necessidade. "Sem necessidade" — um objeto cuja função é permitida, para a necessidade de seu lugar; e um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não. E veio Rabi Nechemya dizer: e mesmo um objeto cuja função é permitida — para sua própria necessidade, sim; para a necessidade de seu lugar, não. Disse-lhe Rava: "a necessidade de seu lugar" tu chamas de "sem necessidade"?!
Rabah propõe: "com necessidade" refere-se ao manuseio de um objeto de função permitida para a necessidade de seu próprio corpo; "sem necessidade" abrange tanto o mesmo objeto quando manuseado apenas para a necessidade de seu lugar quanto um objeto de função proibida, que é permitido para sua própria necessidade mas não para a de seu lugar. Rabi Nechemya, mais restritivo, permite mesmo um objeto de função permitida apenas para a necessidade de seu próprio corpo, nunca para a de seu lugar. Rava, porém, objeta à própria terminologia de Rabah: como se pode chamar de "sem necessidade" o manuseio para a necessidade do lugar do utensílio, se isso é, ainda assim, uma necessidade real?
"Sem necessidade, um objeto cuja função é permitida" — e o manuseia sem necessidade de seu corpo, mas precisa de seu lugar. "E um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade" — é isso que foi permitido, se precisa dele para uma tarefa permitida; mas sem a necessidade de seu corpo, ainda que precise de seu lugar, não; e Rabah segue seu próprio raciocínio, pois disse acima (Shabat 122b) a respeito do martelo dos ferreiros que também é permitido para sua própria necessidade.
Antes, disse Rava: "com necessidade" — um objeto cuja função é permitida, tanto para sua própria necessidade quanto para a necessidade de seu lugar. "Sem necessidade" — e até mesmo do sol para a sombra. E um objeto cuja função é proibida — para sua própria necessidade e para a de seu lugar, sim; do sol para a sombra, não. E veio Rabi Nechemya dizer: e mesmo um objeto cuja função é permitida — para sua própria necessidade e para a de seu lugar, sim; do sol para a sombra, não.
Rava propõe uma definição mais ampla: "com necessidade" inclui tanto a necessidade do corpo quanto a do lugar de um objeto de função permitida, já que ambas são igualmente necessidades reais; "sem necessidade" restringe-se ao caso em que não há necessidade alguma — mover o objeto apenas do sol para a sombra, por mero cuidado. Um objeto de função proibida é permitido tanto para a necessidade do corpo quanto para a do lugar, mas não do sol para a sombra. Rabi Nechemya, novamente mais restritivo, permite um objeto de função permitida para o corpo e o lugar, mas ainda proíbe movê-lo apenas do sol para a sombra.
"Disse-lhe Rava" etc, "antes, disse" etc — e, para Rava, que estabelece, segundo Rabi Nechemya, que para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar é permitido, forçosamente esta "própria necessidade" é como quando este uso lhe é específico, pois foi ensinado mais adiante, no capítulo HaChavit (Shabat 146a): Rabi Nechemya diz que mesmo uma colher e mesmo um manto não podem ser manuseados senão para o uso que lhes é próprio; e a necessidade de seu lugar, também para Rava, assemelha-se à necessidade de seu próprio corpo e a seu uso. E, para Rabah, é para a necessidade de seu próprio corpo que Rabi Nechemya permite, e especificamente para o uso que lhe é próprio; e tanto para Rabah quanto para Rava, especificamente um objeto cuja função é permitida; mas um objeto cuja função é proibida, mesmo para sua própria necessidade, Rabi Nechemya não permite, pois esta "própria necessidade" não é o uso que lhe é específico, já que o objeto é reservado para uma tarefa proibida.
Sentaram-se Rav Safra, Rav Acha bar Huna e Rav Huna bar Chanina, e, sentados, diziam: segundo Rabah, conforme a opinião de Rabi Nechemya, como manuseamos estas tigelas depois da refeição? Disse-lhes Rav Safra: assim como se permite manusear a pá do excremento.
Os sábios questionam: segundo Rabah, Rabi Nechemya permite um objeto de função permitida apenas para a necessidade de seu próprio corpo, não para a de seu lugar; como então se permite retirar as tigelas da mesa depois da refeição, quando não se precisa mais delas, mas apenas de liberar o lugar onde estavam? Rav Safra responde com um precedente já estabelecido: assim como se permite manusear a pá usada para recolher o excremento — cuja função é claramente proibida, mas cujo manuseio se justifica pela necessidade de limpar o lugar —, também as tigelas podem ser manuseadas por uma necessidade equivalente.
"Segundo Rabah, conforme a opinião de Rabi Nechemya" — que diz que um objeto cuja função é permitida, para a necessidade de seu lugar, não é permitido. "Estas tigelas" — depois da refeição, como se manuseiam para retirá-las de diante de nós?
Disse-lhe Abaie a Rabah: para o mestre, conforme a opinião de Rabi Nechemya, como manuseamos estas tigelas? Disse-lhe: Rav Safra, nosso colega, já a explicou: assim como se permite manusear a pá do excremento.
Abaie traz a mesma pergunta diretamente a Rabah, e Rabah simplesmente confirma a resposta que Rav Safra já havia dado.
Objetou-lhe Abaie: não ensinamos que um pilão — se há nele alho, pode-se manuseá-lo; e se não, não se pode manuseá-lo? Se um objeto de função proibida é permitido para sua própria necessidade, por que proibi-lo quando não há mais alho? Aqui, do que tratamos? Do sol para a sombra. Objetou-lhe ainda: e ambos (Bet Shamai e Bet Hilel) concordam que, se se cortou com ele carne, é proibido manuseá-lo depois! Aqui também, do sol para a sombra.
Abaie traz de volta as duas mesmas objeções já discutidas em 123a e 123b — a respeito do pilão de alho e do pilão-de-mão usado para cortar carne — agora contra Rabah: se um objeto de função proibida é permitido para sua própria necessidade, por que essas fontes proíbem seu manuseio uma vez esgotada sua função original? Responde-se, em ambos os casos, que essas fontes tratam apenas da situação "do sol para a sombra" — quando não há mais necessidade real, apenas o cuidado de proteger o objeto —, o que nem mesmo Rabah permite nessa hipótese.
"E se não, não se pode manuseá-lo" — está bem para Rabah, tratando-se de quando não se precisa de seu próprio corpo, mas apenas de seu lugar; mas para ti (Abaie, que permite até para a necessidade do lugar), por que seria proibido?
E quanto a isto que ensinamos: não se apoia a panela com um pedaço de lenha, e o mesmo vale para a porta. Mas o pedaço de lenha, em Yom Tov, é um objeto cuja função é permitida! Isso mostra que um objeto cuja função é permitida, tanto para sua própria necessidade quanto para a necessidade de seu lugar, é proibido! Ali, qual é a razão? Já que, em Shabat, a mesma lenha é um objeto cuja função é proibida, decretou-se Yom Tov por causa de Shabat.
A Guemará levanta uma dificuldade contra Rava (para quem um objeto de função permitida é sempre permitido, tanto para o corpo quanto para o lugar): uma mishná ensina que não se apoia a panela — nem a porta — com um pedaço de lenha, mesmo em Yom Tov, quando a lenha serve para acender fogo, uma função permitida. Responde-se: essa proibição não decorre da hierarquia de corpo e lugar, mas de um decreto específico — já que, em Shabat, acender fogo é proibido, tornando a lenha um objeto de função proibida nesse dia, os sábios decretaram a mesma proibição também em Yom Tov, por causa de Shabat.
"E o mesmo vale para a porta" — estabelecemos isso no tratado Beitzá: e também a porta, não se apoia com um pedaço de lenha; e essa mishná trata de Yom Tov. "Mas o pedaço de lenha, em Yom Tov, sua função é permitida" — pois serve e está pronta para acender fogo, e a mishná proíbe manuseá-la para sua própria necessidade, para outra tarefa, e mais ainda para a necessidade de seu lugar. Respondeu-se: ali a razão é que, já que o mesmo pedaço de lenha, em Shabat, sua função é proibida, também em Yom Tov foi proibido, como decreto de Yom Tov por causa de Shabat.
E se disseres: o próprio Shabat deveria então ser permitido, pois um objeto cuja função é proibida, para sua própria necessidade e para a necessidade de seu lugar, é permitido — isso vale apenas onde recai sobre o objeto a categoria de utensílio; onde não recai sobre ele a categoria de utensílio, não.
Antecipando uma objeção — se em Shabat mesmo um objeto de função proibida é permitido para sua necessidade própria e a de seu lugar, por que não permitir a lenha diretamente em Shabat, dispensando o decreto contra Yom Tov? —, a Guemará esclarece: essa permissão vale apenas para objetos que já têm sobre si a categoria de utensílio; um pedaço de lenha, porém, é matéria-prima bruta, sem qualquer forma de utensílio, e por isso permanece proibido mesmo em Shabat.
Mas decretamos assim (Yom Tov por causa de Shabat)? E não ensinamos: deixam-se cair frutas secando no telhado pela clarabóia em Yom Tov, mas não em Shabat!
A Guemará objeta contra o próprio princípio de "decreto de Yom Tov por causa de Shabat" usado para explicar a lenha: uma mishná ensina que, quando ameaça chover, permite-se deixar cair ao chão, pela clarabóia do telhado, frutas que secavam ali, em Yom Tov — mas não em Shabat. Se em Yom Tov se distingue de Shabat, permitindo algo ali proibido, isso mostra que nem sempre se decreta Yom Tov por causa de Shabat.
"Deixam-se cair frutas pela clarabóia em Yom Tov" — explicitamente ensinamos: "mas não em Shabat" — frutas espalhadas no telhado para secarem, e o dono vê a chuva se aproximando, deixa-as cair ao chão pela clarabóia do telhado, pois não é um esforço, já que caem por si mesmas; isso mostra que não decretamos Yom Tov por causa de Shabat neste caso. E objetamos: mas também não decretamos? E não ensinamos: "não há diferença" etc?
Mas também não decretamos? E não ensinamos: não há diferença alguma entre Yom Tov e Shabat, senão quanto ao preparo de comida para a pessoa!
A Guemará traz agora a objeção oposta: outra mishná ensina que a única diferença entre Yom Tov e Shabat é o preparo de comida — o que sugere que, fora essa exceção, tudo o que é proibido em Shabat é igualmente proibido em Yom Tov, contradizendo a mishná anterior sobre as frutas.
Disse Rav Yossef: não há dificuldade: esta mishná (que permite as frutas) é segundo Rabi Eliezer, aquela (que iguala Yom Tov a Shabat) é segundo Rabi Yehoshua. Pois foi ensinado: quanto a "ele e seu filho" (um animal e sua cria) que caíram num poço em Yom Tov, Rabi Eliezer diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, e de fato abate-o; e ao segundo, providencia-se sustento em seu lugar, para que não morra. Rabi Yehoshua diz: tira-se o primeiro com a intenção de abatê-lo, mas não o abate; e usa de artifício e tira também o segundo; se quiser, abate este; se quiser, abate aquele.
Rav Yossef resolve a contradição atribuindo cada mishná a um tanná diferente: a mishná que permite deixar cair as frutas — um esforço em Yom Tov que não seria permitido em Shabat, por causa de eventual perda de dinheiro — segue Rabi Yehoshua, mais permissivo quanto a esforço em Yom Tov, como se vê na baraita citada: quando um animal e sua cria caem num poço em Yom Tov (proibido abater ambos no mesmo dia), Rabi Yehoshua permite tirar ambos por meio de um artifício, sem realmente pretender abater o segundo. Já a mishná que iguala Yom Tov a Shabat, exceto quanto à comida, segue Rabi Eliezer, que nesse caso não permite tirar o segundo animal do poço, apenas lhe dá sustento no próprio lugar — mostrando que ele não permite esforços em Yom Tov além do estritamente necessário para a comida.
"Não há dificuldade, esta" — a mishná que ensina "deixam-se cair frutas", que permite esforço em Yom Tov por causa de perda de dinheiro, é segundo Rabi Yehoshua, que permitiu tirar o animal do poço por meio de artifício. "E aquela" — a mishná que ensina "não há diferença" etc, é segundo Rabi Eliezer.
De onde se prova isso? Talvez Rabi Eliezer não tenha dito ali que se proíbe esforço senão onde é possível resolver com sustento; mas onde não é possível resolver com sustento, não diria o mesmo.
A Guemará questiona a solução de Rav Yossef: talvez a posição restritiva de Rabi Eliezer, na baraita do poço, se aplique apenas porque ali era possível sustentar o segundo animal em seu próprio lugar, sem precisar de esforço algum; mas no caso das frutas, onde não há alternativa de "sustento" — e a única opção é o esforço de deixá-las cair ou perdê-las —, mesmo Rabi Eliezer poderia concordar em permitir.
Ou, então, talvez Rabi Yehoshua não tenha dito ali que se permite senão onde é possível resolver por meio de artifício; mas onde não é possível resolver por meio de artifício, não permitiria!
A Guemará levanta a dificuldade simétrica contra a metade permissiva da solução: talvez Rabi Yehoshua só permita tirar o segundo animal do poço porque há ali um artifício disponível — fingir que se pretende abatê-lo —, o que faz parecer que se age apenas para a necessidade permitida de Yom Tov; mas no caso das frutas, onde não há artifício equivalente para disfarçar o esforço, mesmo Rabi Yehoshua poderia concordar em proibir.
"Onde é possível resolver por meio de artifício" — pois assim parece que se faz para a necessidade de Yom Tov; mas quanto a "deixam-se cair frutas", onde não há artifício equivalente para comparar à permissão, não haveria razão para permitir por essa via.
Antes, disse Rav Pappa: não há dificuldade: esta mishná é segundo Bet Shamai, aquela mishná é segundo Bet Hilel. Pois ensinamos, Bet Shamai diz:
Diante das duas tentativas frustradas de refutar a solução de Rav Yossef pela via de Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua, Rav Pappa propõe uma resolução alternativa e definitiva: as duas mishnayot não dependem da disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre o esforço em Yom Tov, mas da disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel — uma escola mais restritiva, outra mais permissiva. Rav Pappa começa a citar a mishná de Bet Shamai para fundamentar sua resolução, mas o daf termina exatamente no início dessa citação.