Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם

Rabi Zeira conclui seu dito; recitar Vaychulu na véspera de Shabat e sua recompensa; arrumar a mesa em honra de Shabat; a recompensa de responder Amém com toda a força; a longa série de razões pelas quais Jerusalém foi destruída

Shabbat 119b · continua diretamente de 119a · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 119b abre completando a frase interrompida no fim de 119a: Rabi Zeira buscava pares de sábios que conversavam sobre Torá e lhes dizia: rogo-vos, não profaneis Shabat anulando seu deleite. Disse Rava, e há quem diga que foi Rabi Yehoshua ben Levi: até mesmo o indivíduo que reza sozinho na véspera de Shabat precisa dizer "Vaychulu" (e os céus e a terra foram acabados), pois disse Rav Hamnuna: todo aquele que reza na véspera de Shabat e diz "Vaychulu", a Escritura lhe conta o mérito como se tivesse se tornado sócio do Santo, bendito seja, na obra da criação — pois "vaychulu" não se lê "vaychulu", mas "vaychalu" (e eles acabaram). Disse Rabi Elazar: de onde se aprende que a fala é como o feito? Pois se diz: "pela palavra do Eterno os céus foram feitos". Disse Rav Chisda em nome de Mar Ukva: todo aquele que recita Vaychulu recebe de dois anjos ministradores, que colocam as mãos sobre sua cabeça, a bênção: "e tua iniquidade se afastou, e teu pecado será expiado". Foi ensinado: Rabi Yosei bar Yehuda diz que dois anjos, um bom e um mau, acompanham a pessoa da sinagoga a sua casa na véspera de Shabat; se a encontram preparada, o anjo bom abençoa que assim seja no próximo Shabat, e o mau responde amém contra sua vontade — e se não, o inverso. Disse Rabi Elazar: sempre deve a pessoa arrumar sua mesa na véspera de Shabat, ainda que não precise senão de uma azeitona; e Rabi Chanina, o mesmo na saída de Shabat, sendo água quente e pão quente como remédio — segue-se a história de Rabi Avahu, para quem preparavam um bezerro na saída de Shabat, do qual comia apenas um rim, até que seu filho Avimi considerou o gasto excessivo e reduziu o preparo a só o rim, e um leão veio e o comeu. Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todo aquele que responde "amém, seja Seu grande nome bendito" com toda sua força tem seu decreto de julgamento rasgado; Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan: mesmo com um resquício de idolatria, é perdoado; disse Reish Lakish: abrem-se-lhe os portões do Jardim do Éden — pois "shomer emunim" se lê "she'omrim amen". Segue-se então a longa série de ditos amoraicos sobre por que Jerusalém foi destruída: Rav Yehuda em nome de Rav, sobre o incêndio que só ocorre onde há profanação de Shabat, e Abaie, sobre a própria profanação do Shabat; Rabi Avahu, sobre o abandono da leitura do Shemá pela manhã e à tarde; Rav Hamnuna, sobre a interrupção do estudo das crianças da escola, Ulla, sobre a falta de vergonha mútua, e Rabi Yitzchak, sobre a igualdade imposta entre pequeno e grande; Rav Amram em nome de Rabi Chanina, sobre a falta de reproche mútuo — comparada aos cervos que pastam de costas uns para os outros — e Rabi Yehuda, sobre o desprezo aos sábios da Torá; Rav Yehuda em nome de Rav, sobre "não toqueis em Meus ungidos", referido às crianças da escola e aos sábios, seguido da extensa discussão de Reish Lakish com Rabi Yehuda Nessiá sobre a prioridade absoluta do estudo infantil — mesmo sobre a construção do Templo — e sobre a cidade sem escola, que se destrói ou, segundo Ravina, se proscreve por completo; e por fim Rava, sobre o fim dos homens de fé em Jerusalém, com a objeção de que mesmo na hora da queda ainda havia homens de fé, citando Rav Ketina — o daf termina interrompido em pleno meio da citação do versículo de Yeshaiáhu 3:6, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 120a, ainda não publicado.

Rabi Zeira conclui seu dito · לָא תְּחַלְּלוּנֵיהּ

702Rabi Zeira buscava pares de sábios que conversavam sobre Torá e lhes dizia: rogo-vos, não profaneis Shabat
Rabi Zeira
מְהַדַּר אַזּוּזֵי זוּזֵי דְּרַבָּנַן, אֲמַר לְהוּ: בְּמָטוּתָא מִינַּיְיכוּ לָא תְּחַלְּלוּנֵיהּ.

...buscava, de par em par, os sábios que conversavam sobre Torá, e lhes dizia: rogo-vos, não a profaneis.

Nota

O daf abre completando a frase deixada interrompida no fim de 119a: "Disse Rabi Zeira..." Rashi explica que, quando Rabi Zeira via sábios reunidos, dois a dois, absortos em conversas de Torá — algo louvável em si — ele ia atrás deles e lhes pedia que fossem antes desfrutar do deleite (oneg) de Shabat, pois deixar de lado os prazeres do dia em favor do estudo contínuo seria, paradoxalmente, uma forma de profaná-lo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mehadar azuzei zuzei derabanan"
מהדר אזוזי זוזי דרבנן - כשהיה רואה אותן זוגות זוגות ומדברין בתורה מחזר אחריהם ואומר להם במטותא מנכון לכו והתעסקו בעונג שבת ולא תחללוניה לבטל תענוגים:

"Buscava, de par em par, os sábios" — quando via aqueles sábios, de dois em dois, conversando sobre Torá, ia atrás deles e lhes dizia: rogo-vos, ide e ocupai-vos do deleite de Shabat, e não o profaneis anulando os prazeres do dia.

Recitar Vaychulu na véspera de Shabat · וַיְכֻלּוּ

703Rava, ou Rabi Yehoshua ben Levi: até o indivíduo que reza sozinho deve recitar Vaychulu; quem o recita torna-se sócio de D'us na criação; Rabi Elazar: a fala é como o feito
Rava; Rabi Yehoshua ben Levi; Rav Hamnuna; Rabi Elazar
אָמַר רָבָא, וְאִיתֵּימָא רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: אֲפִילּוּ יָחִיד הַמִּתְפַּלֵּל בְּעֶרֶב שַׁבָּת צָרִיךְ לוֹמַר ״וַיְכוּלּוּ״, דְּאָמַר רַב הַמְנוּנָא: כׇּל הַמִּתְפַּלֵּל בְּעֶרֶב שַׁבָּת וְאוֹמֵר ״וַיְכוּלּוּ״, מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִילּוּ נַעֲשָׂה שׁוּתָּף לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיְכוּלּוּ״ — אַל תִּקְרֵי ״וַיְכוּלּוּ״ אֶלָּא ״וַיְכַלּוּ״. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: מִנַּיִין שֶׁהַדִּיבּוּר כְּמַעֲשֶׂה — שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּדְבַר ה׳ שָׁמַיִם נַעֲשׂוּ״.

Disse Rava, e há quem diga que foi Rabi Yehoshua ben Levi: até mesmo o indivíduo que reza na véspera de Shabat precisa dizer "Vaychulu" (e os céus e a terra foram acabados), pois disse Rav Hamnuna: todo aquele que reza na véspera de Shabat e diz "Vaychulu", a Escritura lhe conta o mérito como se tivesse se tornado sócio do Santo, bendito seja, na obra da criação, pois se diz: "vaychulu" — não leias "vaychulu" (e foram acabados), mas sim "vaychalu" (e eles acabaram). Disse Rabi Elazar: de onde se aprende que a fala é como o feito? Pois se diz: "pela palavra do Eterno os céus foram feitos" (Tehilim 33:6).

Nota

Estabelece-se a obrigação de recitar o parágrafo de "Vaychulu" (Bereshit 2:1–3, sobre a conclusão da criação e o repouso de Shabat) na oração da véspera de Shabat, obrigação que recai mesmo sobre quem reza sozinho, sem minyan. A recompensa é descrita por meio de um jogo de leitura: o verbo "vaychulu" (foram acabados, na voz passiva) é lido como "vaychalu" (eles acabaram, na voz ativa), como se a própria pessoa que recita o versículo estivesse, com sua fala, participando ativamente da conclusão da obra da criação — tornando-se, assim, "sócio" de D'us. Rabi Elazar sustenta essa mesma lógica com outro versículo: a fala tem o poder e o peso de uma ação concreta, pois foi por meio da palavra divina que os céus foram feitos.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "vaychulu"
ויכלו - הקב"ה וזה שמספר בשבחו של מקום ובשבח של שבת:

"Vaychulu" — tornam-se sócios, por assim dizer, o Santo, bendito seja, e este que o relata, no louvor do Onipresente e no louvor de Shabat.

704Rav Chisda em nome de Mar Ukva: os dois anjos ministradores abençoam quem recita Vaychulu; a baraita de Rabi Yosei bar Yehuda sobre o anjo bom e o anjo mau que acompanham a pessoa até sua casa
Rav Chisda; Mar Ukva; Rabi Yosei bar Yehuda
אָמַר רַב חִסְדָּא אָמַר מָר עוּקְבָא: כׇּל הַמִּתְפַּלֵּל בְּעֶרֶב שַׁבָּת וְאוֹמֵר ״וַיְכוּלּוּ״, שְׁנֵי מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת הַמְלַוִּין לוֹ לָאָדָם מַנִּיחִין יְדֵיהֶן עַל רֹאשׁוֹ וְאוֹמְרִים לוֹ ״וְסָר עֲוֹנֶךָ וְחַטָּאתְךָ תְּכֻפָּר״. תַּנְיָא, רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר: שְׁנֵי מַלְאֲכֵי הַשָּׁרֵת מְלַוִּין לוֹ לְאָדָם בְּעֶרֶב שַׁבָּת מִבֵּית הַכְּנֶסֶת לְבֵיתוֹ, אֶחָד טוֹב וְאֶחָד רָע. וּכְשֶׁבָּא לְבֵיתוֹ וּמֹצֵא נֵר דָּלוּק וְשֻׁלְחָן עָרוּךְ וּמִטָּתוֹ מוּצַּעַת, מַלְאָךְ טוֹב אוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן שֶׁתְּהֵא לְשַׁבָּת אַחֶרֶת כָּךְ״, וּמַלְאָךְ רַע עוֹנֶה ״אָמֵן״ בְּעַל כׇּרְחוֹ. וְאִם לָאו, מַלְאָךְ רַע אוֹמֵר: ״יְהִי רָצוֹן שֶׁתְּהֵא לְשַׁבָּת אַחֶרֶת כָּךְ״, וּמַלְאָךְ טוֹב עוֹנֶה ״אָמֵן״ בְּעַל כׇּרְחוֹ.

Disse Rav Chisda, disse Mar Ukva: todo aquele que reza na véspera de Shabat e diz "Vaychulu", dois anjos ministradores que acompanham a pessoa colocam as mãos sobre sua cabeça e lhe dizem: "e tua iniquidade se afastou, e teu pecado será expiado" (Yeshaiáhu 6:7). Foi ensinado numa braita: Rabi Yosei bar Yehuda diz: dois anjos ministradores acompanham a pessoa na véspera de Shabat, da sinagoga até sua casa, um bom e um mau. E quando a pessoa chega à sua casa e encontra a lâmpada acesa, a mesa posta e sua cama arrumada, o anjo bom diz: "seja Tua vontade que assim seja também no próximo Shabat", e o anjo mau responde "amém" contra sua vontade. E se não for assim, o anjo mau diz: "seja Tua vontade que assim seja também no próximo Shabat", e o anjo bom responde "amém" contra sua vontade.

Nota

À recompensa de recitar Vaychulu soma-se a bênção dos dois anjos ministradores que acompanham cada pessoa, colocando as mãos sobre sua cabeça e anunciando o perdão de sua iniquidade — verso extraído da visão de Yeshaiáhu, em que um serafim toca a boca do profeta e lhe anuncia o mesmo perdão. A braita de Rabi Yosei bar Yehuda amplia a imagem: todo homem é acompanhado, na véspera de Shabat, do momento em que sai da sinagoga até chegar à sua casa, por dois anjos — um bom e um mau. O que acontece ao chegar em casa determina qual dos dois "vence": se a casa está pronta para Shabat (lâmpada acesa, mesa posta, cama feita), o anjo bom abençoa que se repita assim, e o anjo mau é forçado a responder amém contra sua própria vontade; se a casa não está pronta, dá-se o inverso, e é o anjo bom que responde amém contra sua vontade, num sinal de lamento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre esta passagem, ver o comentário integrado à nota acima; Rashi não acrescenta glossário próprio a este trecho na edição de Vilna.

Arrumar a mesa em honra de Shabat · יְסַדֵּר אָדָם שֻׁלְחָנוֹ

705Rabi Elazar e Rabi Chanina: sempre arrumar a mesa, na véspera e na saída de Shabat, ainda que só por uma azeitona; a história do bezerro de Rabi Avahu, reduzido por seu filho Avimi e devorado por um leão
Rabi Elazar; Rabi Chanina; Rabi Avahu; Avimi
אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: לְעוֹלָם יְסַדֵּר אָדָם שֻׁלְחָנוֹ בְּעֶרֶב שַׁבָּת, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ אֶלָּא לִכְזַיִת. וְאָמַר רַבִּי חֲנִינָא: לְעוֹלָם יְסַדֵּר אָדָם שֻׁלְחָנוֹ בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ אֶלָּא לִכְזַיִת. חַמִּין בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת — מְלוּגְמָא, פַּת חַמָּה בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת — מְלוּגְמָא. רַבִּי אֲבָהוּ הֲוָה עָבְדִין לֵיהּ בְּאַפּוֹקֵי שַׁבְּתָא עִיגְלָא תִּילְתָּא, הֲוָה אָכֵיל מִינֵּיהּ כּוּלְיְיתָא. כִּי גְדַל אֲבִימִי בְּרֵיהּ, אֲמַר לֵיהּ: לְמָה לָךְ לְאַפְסוֹדֵי כּוּלֵּי הַאי, נִשְׁבּוֹק כּוּלְיְיתָא מִמַּעֲלֵי שַׁבְּתָא. שַׁבְקוּה וַאֲתָא אַרְיָא אַכְלֵיהּ.

Disse Rabi Elazar: sempre deve a pessoa arrumar sua mesa na véspera de Shabat, ainda que não precise senão de o volume de uma azeitona. E disse Rabi Chanina: sempre deve a pessoa arrumar sua mesa na saída de Shabat, ainda que não precise senão de o volume de uma azeitona. Água quente na saída de Shabat é como remédio; pão quente na saída de Shabat é como remédio. Preparavam para Rabi Avahu, na saída de Shabat, um bezerro de terceiro parto, e ele comia dele um rim. Quando cresceu Avimi, seu filho, disse-lhe: por que gastar tudo isto? Deixemos apenas o rim já desde a véspera de Shabat. Deixaram-no preparado apenas assim, e veio um leão e o comeu.

Nota

Rabi Elazar e Rabi Chanina ensinam, em termos paralelos, que se deve sempre arrumar a mesa com honra tanto na véspera quanto na saída de Shabat — mesmo que a pessoa não vá comer mais do que uma azeitona, o gesto de preparar a mesa já é, em si, honra ao dia. Segue-se que água quente e pão quente, à saída de Shabat, funcionam como um "remédio" (melugma) para o corpo, depois do jejum relativo do dia. A história de Rabi Avahu ilustra o mesmo princípio pelo avesso: ele mandava preparar todo um bezerro na saída de Shabat, embora comesse dele apenas um rim — extravagância que seu filho Avimi, já crescido, considerou desnecessária, sugerindo que se preparasse desde a véspera apenas o rim que de fato seria consumido. Ao aceitarem essa economia, porém, o resultado foi irônico: um leão veio e devorou o próprio bezerro reduzido, deixando implícita a lição de que a fartura preparada em honra de Shabat não deve ser vista como desperdício.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "yesader adam shulchano be'erev Shabat", "bemotzaei Shabat", "chamin", "melugma" e "achlei arya"
יסדר אדם שלחנו בע"ש - ללילי שבת: במוצ"ש - נמי כבוד שבת ללוות ביציאתו דרך כבוד כאדם המלוה את המלך בצאתו מן העיר: חמין - לשתות ולרחוץ: מלוגמא - רפואה: אכליה אריא - לעגל הראוי לשחוט:

"Arrume a pessoa sua mesa na véspera de Shabat" — para a noite de Shabat. "Na saída de Shabat" — também é honra a Shabat, para acompanhá-lo em sua saída com honra, como alguém que acompanha o rei quando sai da cidade. "Água quente" — para beber e para banhar-se. "Melugma" — remédio. "O leão o comeu" — refere-se ao bezerro já pronto para o abate.

A recompensa de responder Amém com toda a força · אָמֵן יְהֵא שְׁמֵיהּ רַבָּא

706Rabi Yehoshua ben Levi: rasgam o decreto de quem responde "amém, seja Seu grande nome bendito" com toda a força; Rabi Yochanan: mesmo com resquício de idolatria é perdoado; Reish Lakish: abrem-se-lhe os portões do Jardim do Éden
Rabi Yehoshua ben Levi; Rabi Chiya bar Abba; Rabi Yochanan; Reish Lakish; Rabi Chanina
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: כׇּל הָעוֹנֶה ״אָמֵן יְהֵא שְׁמֵיהּ רַבָּא מְבָרַךְ״ בְּכׇל כֹּחוֹ, קוֹרְעִין לוֹ גְּזַר דִּינוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״בִּפְרוֹעַ פְּרָעוֹת בְּיִשְׂרָאֵל בְּהִתְנַדֵּב עָם בָּרְכוּ ה׳״. מַאי טַעְמָא ״בִּפְרוֹעַ פְּרָעוֹת״ — מִשּׁוּם דְּ״בָרְכוּ ה׳״. רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֲפִילּוּ יֵשׁ בּוֹ שֶׁמֶץ שֶׁל עֲבוֹדָה זָרָה — מוֹחֲלִין לוֹ. כְּתִיב הָכָא: ״בִּפְרוֹעַ פְּרָעוֹת״, וּכְתִיב הָתָם: ״כִּי פָרוּעַ הוּא״. אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ: כָּל הָעוֹנֶה ״אָמֵן״ בְּכׇל כֹּחוֹ פּוֹתְחִין לוֹ שַׁעֲרֵי גַן עֵדֶן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״פִּתְחוּ שְׁעָרִים וְיָבֹא גוֹי צַדִּיק שׁוֹמֵר אֱמוּנִים״, אַל תִּיקְרֵי ״שׁוֹמֵר אֱמוּנִים״ אֶלָּא: ״שֶׁאוֹמְרִים אָמֵן״. מַאי ״אָמֵן״? אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: ״אֵל מֶלֶךְ נֶאֱמָן״.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: todo aquele que responde "amém, seja Seu grande nome bendito" com toda a sua força, rasgam-lhe seu decreto de julgamento, pois se diz: "ao se desatarem desatamentos em Israel, quando o povo se oferece voluntariamente, bendizei o Eterno" (Shoftim 5:2). Qual é a razão de "ao se desatarem desatamentos"? Por causa de "bendizei o Eterno". Rabi Chiya bar Abba disse, em nome de Rabi Yochanan: mesmo que haja nele um resquício de idolatria, perdoam-lhe. Está escrito aqui "befaroa" (ao se desatarem), e está escrito ali: "pois desatado (paruá) estava" (Shemot 32:25). Disse Reish Lakish: todo aquele que responde "amém" com toda a sua força, abrem-se para ele os portões do Jardim do Éden, pois se diz: "abri os portões, e entre a nação justa que guarda a fidelidade" (Yeshaiáhu 26:2); não leias "shomer emunim" (que guarda a fidelidade), mas sim "she'omrim amen" (que dizem amém). O que significa "amém"? Disse Rabi Chanina: é a sigla de "Deus, Rei fiel".

Nota

Encerrada a série sobre honrar Shabat, a Guemará passa, por associação, à recompensa de responder "amém" com plena intenção. Rabi Yehoshua ben Levi ensina que essa resposta, dita com toda a força, é capaz de rasgar um decreto severo já selado — apoiando-se num versículo do Cântico de Devorá lido como jogo de palavras entre "peraot" (desatamentos, calamidades) e a bênção voluntária do povo. Rabi Yochanan estende o alcance dessa recompensa: mesmo alguém com um resquício de idolatria é perdoado, por uma analogia verbal com o bezerro de ouro, cujo povo Aharon viu "desatado" (paruá). Por fim, Reish Lakish afirma que essa mesma resposta abre os portões do Jardim do Éden, apoiando-se numa leitura homilética do versículo de Yeshaiáhu que troca "shomer emunim" (que guarda a fidelidade) por "she'omrim amen" (que dizem amém) — e Rabi Chanina explica que a própria palavra "amém" é um acróstico de "Deus, Rei fiel".

Por que Jerusalém foi destruída · לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם

707Rav Yehuda em nome de Rav: o incêndio só ocorre onde há profanação de Shabat; Abaie: Jerusalém não foi destruída senão porque nela profanaram Shabat
Rav Yehuda; Rav; Rav Nachman bar Yitzchak; Abaie
אָמַר רַב יְהוּדָה בְּרֵיהּ דְּרַב שְׁמוּאֵל מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב: אֵין הַדְּלֵיקָה מְצוּיָה אֶלָּא בִּמְקוֹם שֶׁיֵּשׁ חִילּוּל שַׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְאִם לֹא תִשְׁמְעוּ אֵלַי לְקַדֵּשׁ אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת וּלְבִלְתִּי שְׂאֵת מַשָּׂא וְגוֹ׳ וְהִצַּתִּי אֵשׁ בִּשְׁעָרֶיהָ וְאָכְלָה אַרְמְנוֹת יְרוּשָׁלִַים וְלֹא תִכְבֶּה״. מַאי ״וְלֹא תִכְבֶּה״? אָמַר רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק: בְּשָׁעָה שֶׁאֵין בְּנֵי אָדָם מְצוּיִין לְכַבּוֹתָהּ. אָמַר אַבָּיֵי: לָא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁחִלְּלוּ בָּהּ אֶת הַשַּׁבָּת, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמִשַׁבְּתוֹתַי הֶעְלִימוּ עֵינֵיהֶם וָאֵחַל בְּתוֹכָם״.

Disse Rav Yehuda, filho de Rav Shmuel, em nome de Rav: não há incêndio frequente senão em lugar onde há profanação de Shabat, pois se diz: "e se não Me ouvirdes para santificar o dia de Shabat, e para não carregardes fardo etc., e acenderei fogo em seus portões, e consumirá os palácios de Jerusalém, e não se apagará" (Yirmiáhu 17:27). O que significa "e não se apagará"? Disse Rav Nachman bar Yitzchak: no momento em que as pessoas não se encontram disponíveis para apagá-lo. Disse Abaie: Jerusalém não foi destruída senão porque profanaram nela o Shabat, pois se diz: "e de Meus Shabatot desviaram seus olhos, e fui profanado entre eles" (Yechezkel 22:26).

Nota

Inicia-se aqui uma longa cadeia de ditos amoraicos, todos na fórmula "não foi destruída Jerusalém senão porque...", cada um apontando uma causa moral ou religiosa distinta para a destruição do Templo e da cidade. Rav Yehuda, em nome de Rav, relaciona incêndios frequentes à profanação de Shabat, com base no aviso de Yirmiáhu de que o fogo consumiria os palácios de Jerusalém "e não se apagaria" — o que Rav Nachman bar Yitzchak entende como uma referência ao momento em que ninguém está disponível para apagá-lo, precisamente por ser Shabat. Abaie generaliza o próprio tema da destruição da cidade a essa mesma causa, citando o versículo de Yechezkel sobre o desprezo aos Shabatot de D'us.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'ein bnei adam metzuyin lechabota"
שאין בני אדם מצויין לכבותה - בשבת:

"Que as pessoas não se encontram disponíveis para apagá-lo" — em Shabat.

708Rabi Avahu: Jerusalém não foi destruída senão porque anularam a leitura do Shemá pela manhã e à tarde
Rabi Avahu
אָמַר רַבִּי אֲבָהוּ: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁבִּיטְּלוּ קְרִיאַת שְׁמַע שַׁחֲרִית וְעַרְבִית, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹי מַשְׁכִּימֵי בַבֹּקֶר שֵׁכָר יִרְדֹּפוּ וְגוֹ׳״, וּכְתִיב: ״וְהָיָה כִנּוֹר וָנֶבֶל תּוֹף וְחָלִיל וָיַיִן מִשְׁתֵּיהֶם וְאֵת פּוֹעַל ה׳ לֹא יַבִּיטוּ״, וּכְתִיב: ״לָכֵן גָּלָה עַמִּי מִבְּלִי דָעַת״.

Disse Rabi Avahu: Jerusalém não foi destruída senão porque anularam nela a leitura do Shemá pela manhã e à tarde, pois se diz: "ai dos que se levantam cedo pela manhã, correndo atrás da bebida forte etc." (Yeshaiáhu 5:11); e está escrito: "e há lira e harpa, tamborim e flauta, e vinho em seus banquetes, mas à obra do Eterno não olham" (Yeshaiáhu 5:12); e está escrito: "por isso meu povo foi exilado por falta de conhecimento" (Yeshaiáhu 5:13).

Nota

Rabi Avahu aponta uma segunda causa: o abandono da recitação do Shemá nos horários da manhã e da tarde, apoiando-se em três versículos consecutivos de Yeshaiáhu que descrevem um povo entregue à bebida e à música desde cedo, sem qualquer atenção à obra de D'us — precisamente os horários em que deveriam estar recitando o Shemá — culminando no exílio "por falta de conhecimento".

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "baboker" e "vehaya kinor vanevel"
בבקר - בזמן ק"ש וכן מאחרי בנשף: והיה כנור ונבל - בסיפיה דקרא ואת פועל ה' לא יביטו לא שמו לב ליחד שמו על בריותיו:

"Pela manhã" — no horário da leitura do Shemá; e o mesmo à noite, no crepúsculo. "E há lira e harpa" — no final desse versículo, "mas à obra do Eterno não olham": não puseram atenção em unificar Seu Nome sobre Suas criaturas.

709Rav Hamnuna: por interromperem as crianças da escola; Ulla: por falta de vergonha mútua; Rabi Yitzchak: por igualarem pequeno e grande
Rav Hamnuna; Ulla; Rabi Yitzchak
אָמַר רַב הַמְנוּנָא: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁבִּיטְּלוּ בָּהּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׁפוֹךְ עַל עוֹלָל בַּחוּץ וְגוֹ׳״. מַה טַּעַם ״שְׁפוֹךְ״ — מִשּׁוּם דְּ״עוֹלָל בַּחוּץ״. אָמַר עוּלָּא: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁלֹּא הָיָה לָהֶם בּוֹשֶׁת פָּנִים זֶה מִזֶּה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הוֹבִישׁוּ כִּי תוֹעֵבָה עָשׂוּ גַּם בּוֹשׁ לֹא יֵבוֹשׁוּ וְגוֹ׳״. אָמַר רַבִּי יִצְחָק: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁהוּשְׁווּ קָטָן וְגָדוֹל, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וְהָיָה כָעָם כַּכֹּהֵן״, וּכְתִיב בָּתְרֵיהּ: ״הִבּוֹק תִּבּוֹק הָאָרֶץ״.

Disse Rav Hamnuna: Jerusalém não foi destruída senão porque anularam nela as crianças da escola, pois se diz: "derrama a ira sobre a criança na rua etc." (Yirmiáhu 6:11). Qual a razão de "derrama"? Por causa de "a criança na rua". Disse Ula: Jerusalém não foi destruída senão porque não havia entre eles vergonha uns dos outros, pois se diz: "envergonharam-se? Pois abominação fizeram; também envergonhar não se envergonharam etc." (Yirmiáhu 6:15). Disse Rabi Yitzchak: Jerusalém não foi destruída senão porque igualaram o pequeno e o grande, pois se diz: "e será como o povo, como o sacerdote" (Yeshaiáhu 24:2), e está escrito depois dele: "esvaziando se esvaziará a terra" (Yeshaiáhu 24:3).

Nota

Três causas mais se somam à série: Rav Hamnuna atribui a destruição à interrupção do estudo das crianças na escola (tinokot shel beit raban), lendo o versículo de Yirmiáhu sobre "derramar a ira sobre a criança na rua" como indicando que a ira se derrama precisamente porque a criança está na rua, e não estudando. Ulla atribui a causa à falta de vergonha mútua entre o povo, incapazes até de se envergonhar de seus próprios atos abomináveis. Rabi Yitzchak atribui-a à perda de distinções sociais e religiosas — quando pequeno e grande, ou povo e sacerdote, se tornam indistintos —, associando esse nivelamento ao esvaziamento total da terra profetizado por Yeshaiáhu.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shefoch al olal" e "hovishu ki toeva asu"
שפוך על עולל - רישא דקרא ואת חמת ה' נלאיתי הכיל שפוך וגו' שפוך החמה בנקמה בשביל שעולל לחוץ ובטלין מבית רבן: הובישו כי תועבה עשו וגו' - סיפיה דקרא גם בוש לא יבושו וגם הכלם לא כו':

"Derrama sobre a criança" — no início desse versículo: "e do furor do Eterno estou cansado de conter, derrama etc." — derrama o furor em vingança, porque a criança está na rua, anulada do estudo da escola. "Envergonharam-se? Pois abominação fizeram etc." — no final desse versículo: "também envergonhar não se envergonharam, e também humilhar não souberam etc."

710Rav Amram em nome de Rabi Chanina: por não se reprocharem mutuamente, como os cervos que pastam de costas uns para os outros; Rabi Yehuda: por desprezarem os sábios da Torá
Rav Amram; Rabi Shimon bar Abba; Rabi Chanina; Rabi Yehuda
אָמַר רַב עַמְרָם בְּרֵיהּ דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בַּר אַבָּא, אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בַּר אַבָּא, אָמַר רַבִּי חֲנִינָא: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא הוֹכִיחוּ זֶה אֶת זֶה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״הָיוּ שָׂרֶיהָ כְּאַיָּלִים לֹא מָצְאוּ מִרְעֶה״. מָה אַיִל זֶה, רֹאשׁוֹ שֶׁל זֶה בְּצַד זְנָבוֹ שֶׁל זֶה, אַף יִשְׂרָאֵל שֶׁבְּאוֹתוֹ הַדּוֹר כָּבְשׁוּ פְּנֵיהֶם בַּקַּרְקַע וְלֹא הוֹכִיחוּ זֶה אֶת זֶה. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁבִּיזּוּ בָּהּ תַּלְמִידֵי חֲכָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וַיִּהְיוּ מַלְעִיבִים בְּמַלְאֲכֵי הָאֱלֹהִים וּבוֹזִים דְּבָרָיו וּמִתַּעְתְּעִים בִּנְבִיאָיו עַד עֲלוֹת חֲמַת ה׳ בְּעַמּוֹ עַד [לְ]אֵין מַרְפֵּא״. מַאי ״עַד לְאֵין מַרְפֵּא״? אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: כׇּל הַמְבַזֶּה תַּלְמִידֵי חֲכָמִים אֵין לוֹ רְפוּאָה לְמַכָּתוֹ.

Disse Rav Amram, filho de Rabi Shimon bar Abba, disse Rabi Shimon bar Abba, disse Rabi Chanina: Jerusalém não foi destruída senão porque não se repreendiam uns aos outros, pois se diz: "seus príncipes eram como cervos, que não encontraram pasto" (Eichá 1:6). Assim como este cervo, a cabeça de um ao lado da cauda do outro, também Israel, naquela geração, abaixavam seus rostos ao chão e não se repreendiam uns aos outros. Disse Rabi Yehuda: Jerusalém não foi destruída senão porque desprezaram nela os sábios da Torá, pois se diz: "e escarneciam dos mensageiros de D'us, e desprezavam Suas palavras, e zombavam de Seus profetas, até que subiu o furor do Eterno contra Seu povo, até que não houve remédio" (Divrei HaYamim II 36:16). O que significa "até que não houve remédio"? Disse Rav Yehuda, disse Rav: todo aquele que despreza os sábios da Torá não tem remédio para sua ferida.

Nota

Rav Amram, na cadeia de transmissão que remonta a Rabi Chanina, atribui a destruição à falta de reproche mútuo entre o povo, ilustrada por uma imagem pastoral: assim como os cervos, ao pastarem, colocam a cabeça de um junto à cauda do outro — voltados para direções opostas, sem se encararem —, também aquela geração "abaixava o rosto ao chão", evitando o contato visual que levaria à repreensão mútua. Rabi Yehuda atribui a causa ao desprezo pelos sábios da Torá, citando o versículo de Divrei HaYamim sobre o escárnio aos mensageiros, palavras e profetas de D'us "até que não houve remédio" — que Rav Yehuda, em nome de Rav, interpreta como uma sentença quase literal: quem despreza os sábios da Torá não encontra cura para o próprio mal.

711Rav Yehuda em nome de Rav: "não toqueis em Meus ungidos" são as crianças da escola; Reish Lakish em nome de Rabi Yehuda Nessiá: o mundo só se sustenta pelo sopro dessas crianças, mesmo perante a construção do Templo; a cidade sem escola se destrói ou, segundo Ravina, se proscreve por completo
Rav Yehuda; Rav; Reish Lakish; Rabi Yehuda Nessiá; Rav Papa; Abaie; Ravina
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר רַב: מַאי דִּכְתִיב ״אַל תִּגְּעוּ בִּמְשִׁיחָי וּבִנְבִיאַי אַל תָּרֵעוּ״, ״אַל תִּגְעוּ בִּמְשִׁיחָי״ — אֵלּוּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן, ״וּבִנְבִיאַי אַל תָּרֵעוּ״ — אֵלּוּ תַּלְמִידֵי חֲכָמִים. אָמַר רֵישׁ לָקִישׁ מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה נְשִׂיאָה: אֵין הָעוֹלָם מִתְקַיֵּים אֶלָּא בִּשְׁבִיל הֶבֶל תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן. אֲמַר לֵיהּ רַב פָּפָּא לְאַבָּיֵי: דִּידִי וְדִידָךְ מַאי? אֲמַר לֵיהּ: אֵינוֹ דּוֹמֶה הֶבֶל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ חֵטְא לְהֶבֶל שֶׁאֵין בּוֹ חֵטְא. וְאָמַר רֵישׁ לָקִישׁ מִשּׁוּם רַבִּי יְהוּדָה נְשִׂיאָה: אֵין מְבַטְּלִין תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן אֲפִילּוּ לְבִנְיַן בֵּית הַמִּקְדָּשׁ. וְאָמַר רֵישׁ לָקִישׁ לְרַבִּי יְהוּדָה נְשִׂיאָה: כָּךְ מְקּוּבְּלַנִי מֵאֲבוֹתַי, וְאָמְרִי לַהּ מֵאֲבוֹתֶיךָ: כׇּל עִיר שֶׁאֵין בָּהּ תִּינוֹקוֹת שֶׁל בֵּית רַבָּן מַחֲרִיבִין אוֹתָהּ, רָבִינָא אָמַר: מַחְרִימִין אוֹתָהּ.

Disse Rav Yehuda, disse Rav: o que significa o que está escrito, "não toqueis em Meus ungidos, e a Meus profetas não façais mal" (Divrei HaYamim I 16:22)? "Não toqueis em Meus ungidos" — estas são as crianças da escola; "e a Meus profetas não façais mal" — estes são os sábios da Torá. Disse Reish Lakish, em nome de Rabi Yehuda Nessiá: o mundo não se sustenta senão por causa do sopro das crianças da escola. Disse Rav Papa a Abaie: o sopro meu e o teu, o que é? Disse-lhe: não se compara o sopro em que há pecado ao sopro em que não há pecado. E disse Reish Lakish, em nome de Rabi Yehuda Nessiá: não se anulam os estudos das crianças da escola nem mesmo para a construção do Templo Sagrado. E disse Reish Lakish a Rabi Yehuda Nessiá: assim recebi de meus pais — e há quem diga: de teus pais — toda cidade em que não há crianças da escola, destroem-na. Ravina disse: proscrevem-na por completo.

Nota

A série culmina numa longa e enfática defesa da prioridade absoluta do estudo infantil. Rav Yehuda, em nome de Rav, lê o versículo de Divrei HaYamim como referindo-se, respectivamente, às crianças da escola ("Meus ungidos") e aos sábios da Torá ("Meus profetas"). Reish Lakish, transmitindo em nome do príncipe Rabi Yehuda Nessiá, afirma que o mundo inteiro só se sustenta pelo "sopro" (הבל, associado à recitação e ao estudo) das crianças; ao ser questionado por Rav Papa sobre o valor do próprio estudo adulto, Abaie explica que o sopro isento de pecado (o das crianças) não se compara ao sopro em que já há pecado (o dos adultos). Reish Lakish acrescenta que o estudo das crianças não pode ser interrompido nem mesmo pela construção do Templo — a mais sagrada das obras —, e transmite por fim uma tradição recebida de seus antepassados: toda cidade sem crianças estudando é destruída. A diferença entre "machrivin" (destroem, mas resta algo) e "machrimin" (proscrevem por completo, sem resquício), segundo Ravina, é esclarecida por Rashi.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bimshichai" e "uvinvi'ai", e sobre "machrivin"/"machrimin"
במשיחי אלו תינוקות של בית רבן - שדרך תינוקות למושחן בשמן: ובנביאי אלו תלמידי חכמים - שנאמר ונביא לבב חכמה (תהילים צ׳:י״ב): מחריבין - איכא שיור: מחרימין - ליכא שיור:

"Meus ungidos" — estas são as crianças da escola, pois é costume ungir as crianças com óleo. "E Meus profetas" — estes são os sábios da Torá, pois se diz: "e faz vir ao coração sabedoria" (Tehilim 90:12). "Destroem-na" — há ainda um resquício que permanece. "Proscrevem-na por completo" — não há resquício algum.

712Rava: Jerusalém não foi destruída senão porque nela cessaram os homens de fé; a objeção de Rav Ketina — termina aberto em pleno meio da citação de Yeshaiáhu 3:6
Rava; Rav Ketina
וְאָמַר רָבָא: לֹא חָרְבָה יְרוּשָׁלַיִם אֶלָּא בִּשְׁבִיל שֶׁפָּסְקוּ מִמֶּנָּה אַנְשֵׁי אֲמָנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שׁוֹטְטוּ בְּחוּצוֹת יְרוּשָׁלִַים וּרְאוּ נָא [וּדְעוּ וּבַקְשׁוּ בִרְחוֹבוֹתֶיהָ אִם תִּמְצְאוּ אִישׁ] (אִם יֵשׁ אִישׁ) עוֹשֶׂה מִשְׁפָּט מְבַקֵּשׁ אֱמוּנָה וְאֶסְלַח לָהּ״. אִינִי?! וְהָאָמַר רַב קַטִּינָא: אֲפִילּוּ בִּשְׁעַת כִּשְׁלוֹנָהּ שֶׁל יְרוּשָׁלָיִם לֹא פָּסְקוּ מִמֶּנָּה אַנְשֵׁי אֲמָנָה, שֶׁנֶּאֱמַר: ״כִּי יִתְפֹּשׂ אִישׁ בְּאָחִיו בֵּית אָבִיו לֵאמֹר שִׂמְלָה לְכָה קָצִין תִּהְיֶה לָּנוּ״, דְּבָרִים שֶׁבְּנֵי אָדָם מִתְכַּסִּין בָּהֶן כְּשִׂמְלָה יֶשְׁנָן בְּיָדֶיךָ. ״וְהַמַּכְשֵׁלָה הַזֹּאת תַּחַת יָדֶךָ״,

E disse Rava: Jerusalém não foi destruída senão porque cessaram nela os homens de fé, pois se diz: "percorrei as ruas de Jerusalém, e vede agora, e sabei, e buscai em suas praças, se encontrardes um homem que faça justiça, que busque a fé, e Eu a perdoarei" (Yirmiáhu 5:1). Perguntam: é assim?! Mas não disse Rav Ketina: mesmo na hora da queda de Jerusalém não cessaram nela os homens de fé, pois se diz: "quando um homem tomar a seu irmão, da casa de seu pai, dizendo: tens veste, sê nosso líder" (Yeshaiáhu 3:6) — coisas com que as pessoas se cobrem como com uma veste (segredos), estão em tuas mãos (tu és versado nelas). "E esta ruína está sob tua mão"...

Nota

Última causa da série: Rava atribui a destruição de Jerusalém ao desaparecimento dos "homens de fé" (anshei emuná), citando o desafio de Yirmiáhu de que D'us perdoaria a cidade se ao menos um homem justo e fiel fosse encontrado em suas ruas. A Guemará, porém, levanta uma objeção a partir de outro dito de Rav Ketina, segundo o qual, mesmo no momento exato da queda da cidade, ainda havia homens de fé — provado por um versículo de Yeshaiáhu em que alguém, em meio ao colapso social, é chamado a liderar precisamente por ainda conhecer os "segredos" (as leis e tradições que as pessoas escondem como quem se cobre com uma veste). O daf termina exatamente aqui, em pleno meio da citação bíblica de Yeshaiáhu 3:6 — "e esta ruína está sob tua mão" —, sem qualquer resolução da objeção e sem qualquer marca de hadran ou de encerramento de perek. A discussão prossegue diretamente em Shabbat 120a, ainda não publicado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mitkasin bahen kesimla" e "yeshnan beyadecha"
מתכסין בהן כשמלה - כששואלין אותן טעמי תורה הללו עושין עצמן כמעלימין את דבריהם מפני שאינן יודעים להשיב: ישנן בידך - אתה בקי לפיכך קצין תהיה לנו ותלמדנו חכמה:

"Com que se cobrem como com uma veste" — quando lhes perguntam as razões da Torá, estes fingem ocultar suas palavras, porque não sabem responder. "Estão em tuas mãos" — tu és versado nelas; por isso, sê nosso líder e ensina-nos sabedoria.

O daf termina aqui, em pleno meio da citação do versículo de Yeshaiáhu 3:6 — "e esta ruína está sob tua mão" —, sem qualquer marca de hadran ou de encerramento de perek. A discussão prossegue diretamente, sem interrupção de tema, em Shabbat 120a, ainda não publicado.