Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
לִקְרַאת שַׁבָּת הַמַּלְכָּה

Abaie termina seu dito; os costumes de receber Shabat com alegria; os Amoraim que preparavam a comida com as próprias mãos; a história de Yossef que honrava os Shabatot; por que méritos são ricos os de Eretz Israel, da Babilônia e das demais terras; César e o aroma da comida de Shabat; o Exilarca e Rav Hamnuna

Shabbat 119a · continua diretamente de 118b · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 119a abre em pleno meio da frase interrompida no fim de 118b: Abaie completa seu dito, dizendo que faço um dia festivo para os sábios quando vejo um jovem sábio que completou seu tratado. Na mesma fórmula, diz Rava: que isto me seja contado como mérito, que quando vem perante mim um jovem sábio para julgamento, não deito minha cabeça sobre a almofada enquanto não revirar o caso a seu favor. Diz Mar bar Rav Ashi: eu me desqualifico de julgar um jovem sábio — por quê? Porque ele me é querido como meu próprio corpo, e ninguém vê culpa em si mesmo. Seguem-se então os costumes de receber Shabat com alegria: Rabi Chanina se envolvia em suas vestes e ficava de pé ao entardecer da véspera de Shabat, dizendo: "vinde, e saiamos ao encontro de Shabat, a rainha"; Rabi Yanai vestia roupas finas e se cobria, e dizia: "vem, noiva; vem, noiva"; Rabá bar Rav Huna chegou à casa de Rabá bar Rav Nachman, que lhe trouxe três se'ah de bolos; à pergunta se sabiam que ele viria, responderam: "acaso és mais precioso para nós do que ela (Shabat)?" — isto sempre preparamos em sua honra. Segue-se uma série de Amoraim que preparavam pessoalmente, com as próprias mãos, a comida e os preparativos de Shabat: Rabi Abba comprava carne de treze açougueiros por treze moedas istera pashuta, pagando-lhes na maçaneta da porta e dizendo-lhes "apressai-vos, apressai-vos"; Rabi Avahu sentava-se em cadeira de marfim e assoprava o fogo; Rav Anan vestia um avental escuro, conforme o que se ensinou na escola de Rabi Yishmael: as vestes com que se cozinhou uma panela para seu mestre, não se sirva com elas uma taça a seu mestre. Rav Safra chamuscava a cabeça do animal; Rava salgava o peixe shibuta; Rav Huna acendia lâmpadas; Rav Papa trançava pavios; Rav Chisda cortava acelgas; Rabá e Rav Yosef rachavam lenha; Rabi Zeira acendia gravetos; Rav Nachman bar Yitzchak carregava fardos nos ombros, entrando e saindo, dizendo: se Rabi Ami e Rabi Asi viessem visitar-me, acaso não carregaria fardos diante deles? E há os que dizem o oposto: que Rabi Ami e Rabi Asi é que carregavam fardos, entrando e saindo, dizendo: se Rabi Yochanan nos visitasse, acaso não carregaríamos fardos diante dele? Segue-se a história de Yossef, o que honra os Shabatot: havia um vizinho gentio, cujos bens eram muitíssimo abundantes; disseram-lhe os caldeus (astrólogos): todos os teus bens, Yossef, o que honra os Shabatot, os comerá (herdará). Foi e vendeu todos os seus bens, e com eles comprou uma pérola, que colocou em seu chapéu. Enquanto atravessava uma balsa, o vento a fez voar, lançou-a nas águas, e um peixe a engoliu. Pescaram o peixe, trouxeram-no ao entardecer da véspera de Shabat; disseram: quem compra a esta hora? Disseram-lhes: ide, levai-o a Yossef, o que honra os Shabatot, que costuma comprar. Levaram-no a ele, comprou-o, abriu-o, encontrou nele a pérola. Vendeu-a por treze sótãos cheios de dinares de ouro. Encontrou-o certo ancião, e disse: quem toma emprestado por causa de Shabat, Shabat lhe paga de volta. Pediu Rabi (Yehuda HaNassi) a Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei: os ricos de Eretz Israel, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque separam os dízimos, pois se diz "separarás o dízimo" — separa o dízimo para que enriqueças. E os ricos da Babilônia, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque honram a Torá. E os ricos das demais terras, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque honram Shabat — do que contou Rabi Chiya bar Abba: certa vez fui hospedado na casa de um anfitrião em Lodkia, e trouxeram diante dele uma mesa de ouro, carregada por dezesseis homens, com dezesseis correntes de prata fixadas nela, e tigelas, copos, jarros e travessas fixados nela, e sobre ela toda espécie de comida, de iguarias e de especiarias; e ao colocá-la diziam: "ao Eterno pertence a terra e tudo o que a preenche..." (Tehilim 24:1), e ao retirá-la diziam: "os céus são céus para o Eterno, mas a terra Ele deu aos filhos do homem" (Tehilim 115:16). Perguntei-lhe: meu filho, por que mereceste isto? Disse-me: eu era açougueiro, e de todo animal que era formoso, eu dizia: este será para Shabat. Eu lhe disse: feliz és tu, que assim mereceste, e bendito o Onipresente que te fez merecer isto. Disse César a Rabi Yehoshua ben Chananya: por que o cozido de Shabat tem aroma tão difuso? Disse-lhe: temos um tempero, e Shabat é seu nome, que colocamos nele, e seu aroma se difunde. Disse-lhe: dá-nos dele. Disse-lhe: todo aquele que guarda Shabat, o tempero lhe aproveita; e quem não guarda Shabat, não lhe aproveita. Disse o Exilarca a Rav Hamnuna: o que significa o que está escrito, "e ao santo do Eterno, honrado" (Isaías 58:13)? Disse-lhe: isto é Yom Kipur, em que não há comida nem bebida, por isso disse a Torá: honra-o com vestes limpas. Quanto a "e o honrarás" (referindo-se a Shabat), Rav disse: adiantá-lo; e Shmuel disse: atrasá-lo. Disseram os filhos de Rav Papa bar Abba a Rav Papa: pessoas como nós, que temos carne e vinho todos os dias, com que o distinguiremos? Disse-lhes: se costumais adiantar a refeição, atrasai-a em Shabat; se costumais atrasá-la, adiantai-a. Rav Sheshet, no verão, sentava os sábios onde chegava o sol; no inverno, sentava os sábios onde chegava a sombra, para que se levantassem depressa. Diz Rabi Zeira... — o daf termina interrompido em pleno meio dessa frase, sem qualquer hadran, a continuar diretamente em Shabbat 119b, ainda não publicado.

Abaie termina seu dito; Rava e Mar bar Rav Ashi sobre julgar um jovem sábio · עֲבֵידְנָא יוֹמָא טָבָא

693Abaie: faço um dia festivo para os sábios; Rava: não deito minha cabeça sobre a almofada até revirar o caso do jovem sábio a seu favor; Mar bar Rav Ashi: desqualifico-me de julgar um jovem sábio, pois ninguém vê culpa em si mesmo
Abaie; Rava; Mar bar Rav Ashi
עָבֵידְנָא יוֹמָא טָבָא לְרַבָּנַן. אָמַר רָבָא תֵּיתֵי לִי, דְּכִי אֲתָא צוּרְבָּא מֵרַבָּנַן לְקַמַּאי לְדִינָא, לָא מָזֵיגְנָא רֵישִׁי אַבֵּי סַדְיָא כַּמָּה דְּלָא מְהַפֵּיכְנָא בְּזָכוּתֵיהּ. אָמַר מָר בַּר רַב אָשֵׁי: פְּסִילְנָא לֵיהּ לְצוּרְבָּא מֵרַבָּנַן לְדִינָא. מַאי טַעְמָא? — דְּחַבִּיב עֲלַי כְּגוּפַאי, וְאֵין אָדָם רוֹאֶה חוֹבָה לְעַצְמוֹ.

...faço um dia festivo para os sábios. Disse Rava: que isto me seja contado como mérito, que quando vem perante mim um jovem sábio para julgamento, não deito minha cabeça sobre a almofada enquanto não revirar o caso a seu favor. Disse Mar bar Rav Ashi: eu me desqualifico de julgar um jovem sábio. Qual é a razão? Porque ele me é querido como meu próprio corpo, e ninguém vê culpa em si mesmo.

Nota

O daf abre completando exatamente a frase deixada interrompida no fim de 118b: Abaie dizia que isto lhe seja contado como mérito, que quando vê um jovem sábio que completou seu tratado, ele faz um dia festivo para os sábios — celebrando a conclusão de estudos como uma ocasião de honra coletiva. Na mesma fórmula "teitei li", Rava acrescenta seu próprio mérito: quando um jovem sábio da Torá vem perante ele como litigante num julgamento, Rava não descansa (não "molha" — expressão para deitar — a cabeça sobre a almofada) até examinar todo o caso em busca de um modo de julgá-lo a seu favor, por amor à Torá que ele representa. Mar bar Rav Ashi, porém, declara uma prática oposta: ele se desqualifica completamente de julgar qualquer caso envolvendo um jovem sábio, precisamente porque o afeto que sente por ele — comparável ao amor pelo próprio corpo — tornaria impossível um julgamento imparcial, já que ninguém consegue enxergar a culpa naquilo que ama como a si mesmo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "avidna yoma tava", "teitei li", "dechi atei tzurba" e "dela mazigna risha"
עבידנא יומא טבא לרבנן - לתלמידים ראש ישיבה היה: תיתי לי - ישולם שכרי: דכי אתי צורבא מרבנן כו' - שחיבת תלמידי חכמים עלי: דלא מזיגנא רישא אבי סדיא - איני מניח ראשי על הכר: כמה דלא מהפיכנא ליה בזכותיה - עד שאראה אם יש בדבריו לזכותו:

"Faço um dia festivo para os sábios" — Abaie era chefe de academia para os alunos. "Que isto me seja contado" — que seja pago meu galardão. "Que quando vem perante mim um jovem sábio etc." — pois o carinho pelos sábios da Torá está sobre mim. "Que não deito minha cabeça sobre a almofada" — não deixo minha cabeça sobre o travesseiro. "Enquanto não revirar o caso a seu favor" — até que veja se há em suas palavras fundamento para absolvê-lo.

Os costumes de receber Shabat com alegria · בּוֹאִי כַלָּה

694Rabi Chanina: vinde, saiamos ao encontro de Shabat a rainha; Rabi Yanai: vem, noiva; Rabá bar Rav Huna na casa de Rabá bar Rav Nachman — "acaso és mais precioso para nós do que ela?"
Rabi Chanina; Rabi Yanai; Rabá bar Rav Huna
רַבִּי חֲנִינָא מִיעֲטֵף וְקָאֵי אַפַּנְיָא דְמַעֲלֵי שַׁבְּתָא, אָמַר: ״בּוֹאוּ וְנֵצֵא לִקְרַאת שַׁבָּת הַמַּלְכָּה״. רַבִּי יַנַּאי לָבֵישׁ מָאנֵי מְעַלְּיֵי (שַׁבָּת) [וּמִיכַּסֵּי], וְאָמַר: ״בּוֹאִי כַלָּה, בּוֹאִי כַלָּה״. רַבָּה בַּר רַב הוּנָא אִיקְּלַע לְבֵי רַבָּה בַּר רַב נַחְמָן. קָרִיבוּ לֵיהּ תְּלָת סָאוֵי טַחְיֵי. אֲמַר לְהוּ: מִי הֲוָה יָדְעִיתוּן דְּאָתֵינָא? אֲמַרוּ לֵיהּ: מִי עֲדִיפַתְּ לַן מִינַּהּ?

Rabi Chanina se envolvia em suas vestes e ficava de pé ao entardecer da véspera de Shabat, e dizia: "vinde, e saiamos ao encontro de Shabat, a rainha". Rabi Yanai vestia roupas finas e se cobria, e dizia: "vem, noiva; vem, noiva". Rabá bar Rav Huna chegou à casa de Rabá bar Rav Nachman. Trouxeram-lhe três se'ah de bolos. Disse-lhes: sabíeis que eu viria? Disseram-lhe: acaso és mais precioso para nós do que ela (Shabat)?

Nota

Segue-se uma pequena coleção de costumes de sábios para receber Shabat com alegria, como se recebe realeza ou um casamento. Rabi Chanina se envolvia em suas roupas — segundo Rashi, vestes elegantes — e ficava de pé no crepúsculo da sexta-feira, convocando: "vinde, e saiamos ao encontro de Shabat, a rainha", pois assim, por afeto, chamava a santidade de Shabat. Rabi Yanai vestia roupas finas e se cobria com elas, dizendo: "vem, noiva; vem, noiva" — tratando Shabat como uma noiva a ser recebida. Por fim, um episódio ilustra o mesmo espírito por outro caminho: quando Rabá bar Rav Huna chegou de surpresa à casa de Rabá bar Rav Nachman, receberam-no com três se'ah de bolos já prontos; ao perguntar se sabiam de antemão que ele viria, responderam que não — aquilo já era o que sempre preparavam em honra de Shabat, de modo que nenhum hóspede, por mais estimado, seria mais precioso para eles do que a própria Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mit'atef", "boi kalah", "tachyei" e "mi adifat lan mina"
מתעטף - בבגדים נאים: בואי כלה - הכי קרי ליה לשביתת שבת מתוך חביבות: טחיי - רקיקין טחין פניהן בשומן אליה או בשמן: מי עדיפת לן מינה - כלום אתה חשוב לנו מן השבת לכבוד שבת הכננום ולא היינו יודעים שתבא:

"Se envolvia" — em roupas finas. "Vem, noiva" — assim chamava o repouso de Shabat, por afeto. "Bolos (tachyei)" — panquecas finas, untadas em sua face com gordura de cauda ou com azeite. "Acaso és mais precioso para nós do que ela" — acaso és mais importante para nós do que Shabat, para que só por tua causa os tivéssemos preparado? Em honra de Shabat os preparamos, e não sabíamos que virias.

Os preparativos de Rabi Abba, Rabi Avahu e Rav Anan · אַשּׁוּר הַיָּיא

695Rabi Abba comprava carne de treze açougueiros, pagando na maçaneta e dizendo "apressai-vos"; Rabi Avahu sentava-se em cadeira de marfim e assoprava o fogo; Rav Anan vestia avental escuro, conforme a escola de Rabi Yishmael
Rabi Abba; Rabi Avahu; Rav Anan
רַבִּי אַבָּא זָבֵן בִּתְלֵיסַר אִסְתִּירֵי פְּשִׁיטֵי בִּישְׂרָא מִתְּלֵיסַר טַבָּחֵי, וּמְשַׁלֵּים לְהוּ אַצִּינּוֹרָא דְּדַשָּׁא, וַאֲמַר לְהוּ: ״אַשּׁוּר הַיָּיא, אַשּׁוּר הַיָּיא״. רַבִּי אֲבָהוּ הֲוָה יָתֵיב אַתַּכְתָּקָא דְשִׁינָּא וּמוֹשֵׁיף נוּרָא. רַב עָנָן לָבֵישׁ גּוּנְדָּא, דְּתָנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: בְּגָדִים שֶׁבִּישֵּׁל בָּהֶן קְדֵירָה לְרַבּוֹ — אַל יִמְזוֹג בָּהֶן כּוֹס לְרַבּוֹ.

Rabi Abba comprava carne por treze moedas istera pashuta, de treze açougueiros, e pagava-lhes na maçaneta da porta, e dizia-lhes: "apressai-vos, apressai-vos". Rabi Avahu sentava-se em cadeira de marfim e assoprava o fogo. Rav Anan vestia um avental escuro, pois se ensinou na escola de Rabi Yishmael: as vestes com que se cozinhou uma panela para seu mestre, não se sirva com elas uma taça a seu mestre.

Nota

Segue-se uma série de sábios que preparavam pessoalmente, com as próprias mãos, os preparativos de Shabat. Rabi Abba comprava carne de treze açougueiros distintos, por treze moedas istera pashuta (segundo Rashi, uma sela provincial, um oitavo da sela tíria, equivalente a meio dinar) — para provar da melhor carne em Shabat — e, segundo uma explicação de Rashi, pagava-lhes adiantado na maçaneta da porta, dizendo-lhes para se apressarem a preparar a carne enquanto ele ia buscar a próxima porção. Rabi Avahu, sentado numa cadeira valiosa de marfim, ele mesmo assoprava o fogo para os preparativos. E Rav Anan vestia um avental escuro para cozinhar, a fim de não sujar suas roupas de honra — aplicando o ensino da escola de Rabi Yishmael de que as vestes usadas para cozinhar não devem ser as mesmas usadas para servir com honra, pois o cozimento suja as roupas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mitleisar tabachei", "isterei", "umeshalim lehu atzinora dedasha", "atchatka deshina", "umoshif nura", "levish gunda" e "detana devei Rabi Yishmael"
מתליסר טבחי - לטעום בשבת מן המובחר: איסתירי - סלעים איסתירי פשיטי סלעים מדינ' והן א' מח' בסלע צורי והיינו חצי דינר: ומשלים להו אצינורא דדשא - לפני בואם להביא לו הבשר היה מזמן להן מעותיהן על פתחן ואומר להן אשור הייא התאשרו והתחזקו מהר באומנותיכם למהר ולחזור ולמכור ולהתעסק בצרכי שבת ולי נראה ומשלים להו אצינורא דדשא כשהיה מביא ראשונה היה נותנה לשמשין המכינים סעודתו על פתח ביתו ולא היה נכנס אלא ממהר לחזור ולהביא אחרת ואמר להן לשמשין אשור הייא התאשרו מהר להכין את זו בעוד שאלך להביא את זו: אתכתקא דשינא - פשטדו"ל של שן שחשוב היה ועשיר: ומושיף נורא - נופח משם נורא לכבוד השבת ורבינו לוי גרס אתכתקא דשאגא תדהר: לביש גונדא - כלי שחור להודיע שהיום אינו כדי להתנהג בחשיבות מלהתעסק בתבשילי שבת ולא יטנף בגדיו בבישול קדירות: דתנא דבי רבי ישמעאל כו' - דבישול קדירה מטנף בגדים:

"De treze açougueiros" — para provar em Shabat da carne mais escolhida. "Istera (moedas)" — selas; "istera pashuta" são selas provinciais, um oitavo da sela tíria, o que equivale a meio dinar. "E pagava-lhes na maçaneta da porta" — antes de virem trazer-lhe a carne, adiantava-lhes o dinheiro à sua porta, e dizia-lhes: "asur haya, asur haya" — sede firmes e fortalecei-vos depressa em vosso ofício, para vos apressardes a voltar a vender e a cuidar das necessidades de Shabat; e a mim parece que "e pagava-lhes na maçaneta da porta" significa: quando trazia a primeira porção, entregava-a aos serventes que preparavam sua refeição, à porta de sua casa, e não entrava, mas se apressava a voltar para trazer outra, dizendo aos serventes "asur haya" — apressai-vos a preparar esta enquanto vou buscar aquela. "Cadeira de marfim" — cadeira de valor, de marfim, pois Rabi Avahu era importante e rico. "E assoprava o fogo" — soprava dali o fogo, em honra de Shabat; e Rabeinu Levi tem a versão "cadeira de cedro (tadhar)". "Vestia avental escuro" — vestimenta preta, para mostrar que naquele dia de preparativos não era hora de se comportar com ares de importância ao cuidar dos cozidos de Shabat, e para não sujar suas roupas ao cozinhar as panelas. "Pois se ensinou na escola de Rabi Yishmael etc." — pois o cozimento de uma panela suja as roupas.

Os Amoraim que preparavam a comida com as próprias mãos · מְכַתֵּף וְעָיֵיל

696Rav Safra, Rava, Rav Huna, Rav Papa, Rav Chisda, Rabá e Rav Yosef, Rabi Zeira preparavam pessoalmente a comida; Rav Nachman bar Yitzchak carregava fardos nos ombros por honra a Rabi Ami e Rabi Asi — ou, segundo outros, o oposto
Rav Safra; Rava; Rav Huna; Rav Papa; Rav Chisda; Rabá; Rav Yosef; Rabi Zeira; Rav Nachman bar Yitzchak
רַב סָפְרָא מְחָרֵיךְ רֵישָׁא. רָבָא מָלַח שִׁיבּוּטָא. רַב הוּנָא מַדְלֵיק שְׁרָגֵי. רַב פָּפָּא גָּדֵיל פְּתִילָתָא. רַב חִסְדָּא פָּרֵים סִילְקָא. רַבָּה וְרַב יוֹסֵף מְצַלְּחִי צִיבֵי. רַבִּי זֵירָא מְצַתֵּת צַתּוֹתֵי. רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק מְכַתֵּף וְעָיֵיל, מְכַתֵּף וְנָפֵיק. אָמַר: אִילּוּ מִקַּלְעִין לִי רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי, מִי לָא מְכַתֵּיפְנָא קַמַּיְיהוּ? וְאִיכָּא דְאָמְרִי: רַבִּי אַמֵּי וְרַבִּי אַסִּי מְכַתְּפִי וְעָיְילִי, מְכַתְּפִי וְנָפְקִי, אָמְרִי: אִילּוּ אִיקְּלַע לַן רַבִּי יוֹחָנָן, מִי לָא מְכַתְּפִינַן קַמֵּיהּ?!

Rav Safra chamuscava a cabeça do animal. Rava salgava o peixe shibuta. Rav Huna acendia lâmpadas. Rav Papa trançava pavios. Rav Chisda cortava acelgas. Rabá e Rav Yosef rachavam lenha. Rabi Zeira acendia gravetos. Rav Nachman bar Yitzchak carregava fardos nos ombros, entrando, e carregava fardos nos ombros, saindo. Disse: se Rabi Ami e Rabi Asi viessem visitar-me, acaso não carregaria fardos nos ombros diante deles? E há os que dizem: Rabi Ami e Rabi Asi é que carregavam fardos nos ombros, entrando, e carregavam fardos nos ombros, saindo, dizendo: se Rabi Yochanan nos visitasse, acaso não carregaríamos fardos nos ombros diante dele?!

Nota

A série continua com mais sábios que cuidavam pessoalmente dos preparativos de Shabat, cada qual numa tarefa específica: Rav Safra chamuscava a cabeça do animal; Rava salgava o peixe shibuta; Rav Huna acendia as lâmpadas; Rav Papa trançava os pavios; Rav Chisda cortava as acelgas; Rabá e Rav Yosef rachavam lenha; Rabi Zeira acendia gravetos finos. Por fim, Rav Nachman bar Yitzchak carregava ele mesmo, sobre os ombros, os fardos necessários para Shabat, tanto ao entrar quanto ao sair de casa, explicando: se Rabi Ami e Rabi Asi viessem me visitar, eu certamente carregaria fardos sobre os ombros diante deles, para lhes mostrar honra; então também devo fazê-lo por honra de Shabat. E há uma versão alternativa da mesma tradição, atribuindo o costume e a explicação a Rabi Ami e Rabi Asi, que diziam o mesmo a respeito de Rabi Yochanan.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mechariach risha", "parim", "metzatet tzatotei" e "mechatef ve'ayil mechatef venafik"
מחריך רישא - אם היה שם ראש בהמה לחרוך מחרכו הוא בעצמו: פרים - לשון פרומים מחתך: מצתת צתותי - מצית האור בעצים דקים: מכתף ועייל מכתף ונפיק - בע"ש יוצא ונכנס להביא תמיד משואות כלי תשמיש ובגדי חופש ומגדים כאדם שמקבל את רבו בביתו ומראה לו שהוא חשוב עליו וחרד לכבודו לטרוח ולהרבות בשבילו:

"Chamuscava a cabeça" — se havia ali uma cabeça de animal para chamuscar, ele mesmo a chamuscava. "Cortava (parim)" — expressão de "cortes", isto é, picava. "Acendia gravetos" — acendia o fogo com pedaços finos de madeira. "Carregava fardos nos ombros, entrando, e carregava fardos nos ombros, saindo" — na véspera de Shabat, saía e entrava para trazer sempre fardos, utensílios, roupas de festa e iguarias, como alguém que recebe seu mestre em sua casa e lhe mostra que ele é importante para ele, e se esmera em sua honra, esforçando-se e multiplicando preparativos por causa dele.

A história de Yossef, o que honra os Shabatot · יוֹסֵף מוֹקַר שַׁבֵּי

697O gentio rico avisado pelos caldeus de que Yossef herdaria seus bens; vende tudo, compra uma pérola, perde-a no mar; um peixe a engole; o peixe é vendido a Yossef na véspera de Shabat; a pérola encontrada e vendida por treze sótãos de dinares de ouro; "quem toma emprestado por causa de Shabat, Shabat lhe paga de volta"
Yossef, o que honra os Shabatot
יוֹסֵף מוֹקַר שַׁבֵּי, הֲוָה הָהוּא גּוֹי בְּשִׁבָבוּתֵיהּ דַּהֲוָה נְפִישִׁי נִכְסֵיהּ טוּבָא. אָמְרִי לֵיהּ כַּלְדָּאֵי: כּוּלְּהוּ נִכְסֵי — יוֹסֵף מוֹקַר שַׁבֵּי אָכֵיל לְהוּ. אֲזַל זַבְּנִינְהוּ לְכוּלְּהוּ נִיכְסֵי, זְבַן בְּהוּ מַרְגָּנִיתָא, אוֹתְבַהּ בִּסְיָינֵיהּ. בַּהֲדֵי דְּקָא עָבַר מַבָּרָא — אַפְרְחֵיהּ זִיקָא, שַׁדְיֵיהּ בְּמַיָּא, בַּלְעֵיהּ כַּוְורָא. אַסְּקוּהּ, אַיְיתוּהּ אַפַּנְיָא דְּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא. אָמְרִי: מַאן זָבֵין כִּי הַשְׁתָּא? אָמְרִי לְהוּ: זִילוּ אַמְטְיוּהּ לְגַבֵּי יוֹסֵף מוֹקַר שַׁבֵּי דִּרְגִיל דְּזָבֵין. אַמְטְיוּהּ נִיהֲלֵיהּ, זַבְנֵיהּ, קַרְעֵיהּ אַשְׁכַּח בֵּיהּ מַרְגָּנִיתָא. זַבְּנַיהּ בִּתְלֵיסַר עִילִּיָּתָא דְּדִינָרֵי דְּדַהֲבָא. פְּגַע בֵּיהּ הָהוּא סָבָא אֲמַר: מַאן דְּיָזֵיף שַׁבְּתָא — פַּרְעֵיהּ שַׁבְּתָא.

Yossef, o que honra os Shabatot: havia um vizinho gentio, cujos bens eram muitíssimo abundantes. Disseram-lhe os caldeus (astrólogos): todos os teus bens, Yossef, o que honra os Shabatot, os comerá. Foi e vendeu todos os seus bens, e com eles comprou uma pérola, que colocou em seu chapéu. Enquanto atravessava uma balsa, o vento a fez voar, lançou-a nas águas, e um peixe a engoliu. Pescaram-no, trouxeram-no ao entardecer da véspera de Shabat. Disseram: quem compra a esta hora? Disseram-lhes: ide, levai-o a Yossef, o que honra os Shabatot, que costuma comprar. Levaram-no a ele, comprou-o, abriu-o, encontrou nele a pérola. Vendeu-a por treze sótãos de dinares de ouro. Encontrou-o certo ancião, e disse: quem toma emprestado por causa de Shabat, Shabat lhe paga de volta.

Nota

A Guemará conta a história de Yossef, o que honra os Shabatot: um vizinho gentio possuía riqueza muito abundante, e astrólogos caldeus lhe disseram que toda essa riqueza acabaria por vir às mãos de Yossef, o que honra os Shabatot. Para escapar dessa previsão, o gentio vendeu todos os seus bens e comprou uma única pérola, que guardou junto de si em seu chapéu, pensando assim protegê-la de qualquer perda. Mas, ao atravessar uma balsa, o vento a arrancou e a lançou nas águas, onde um peixe a engoliu. O mesmo peixe foi pescado e trazido ao mercado exatamente ao entardecer da véspera de Shabat, quando ninguém mais queria comprar pois já era tarde demais para preparar; indicaram-no a Yossef, conhecido por comprar sempre, mesmo àquela hora, em honra de Shabat. Yossef o comprou, e ao abri-lo para prepará-lo encontrou a pérola dentro, que vendeu por uma fortuna — treze sótãos cheios de dinares de ouro. Um ancião que o encontrou resumiu o episódio numa sentença: quem toma emprestado (isto é, quem gasta e se esforça) por causa de Shabat, Shabat lhe paga de volta — a própria riqueza que o gentio tentara ocultar da previsão terminou por vir, por caminhos providenciais, exatamente às mãos daquele que honrava Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mokar shabei", "kaldaei", "achil lehu", "otvah bisyaneih" e "treisar iliyata dedinarei"
מוקר שבי - מכבד שבתות: אמרי ליה כלדאי - להאי נכרי: כלדאי - חוזים בכוכבים: אכיל להו - סופך ליפול בידו: אותבה בסייניה - עשה לו כובע של לבד ושבצו במשבצות של זהב וקבע בו מרגליות וקבע את זו עמהם: סייניה - כובע ורבינו הלוי גרס בסדיניה בסודרו וראשון הגון לי והוא לשון ר' יצחק ב"ר יהודה: תריסר עיליתי דדינרי - עליות מלאות דינרי זהב וגוזמא בעלמא הוא כלומר הון עתק מאד כך פירש רבינו הלוי וכן בכל מקום כגון תליסר גמלי ספיקי טריפתא (חולין דף צה:) וכן תליסר טבחי דלעיל:

"O que honra os Shabatot" — que honra os Shabatot. "Disseram-lhe os caldeus" — a este gentio. "Caldeus" — os que veem o futuro pelas estrelas. "Os comerá" — no final, toda essa riqueza cairá em suas mãos. "Colocou-a em seu chapéu" — fez para si um chapéu de feltro, engastou-o com engastes de ouro, e nele fixou pérolas, e fixou esta junto com elas. "Seu chapéu" — outra versão traz: "em seu lenço"; e este me parece mais adequado, e é a explicação de Rabi Yitzchak filho de Rabi Yehuda. "Treze sótãos de dinares" — sótãos cheios de dinares de ouro; e isto é mera hipérbole, isto é, uma fortuna imensa — assim explicou Rabeinu Levi; e o mesmo em todos os lugares onde aparece esse número, como "treze camelos carregados de matérias proibidas" (Chulin 95b), e como "treze açougueiros" acima.

Por que méritos são ricos os de Eretz Israel, da Babilônia e das demais terras · בַּמָּה הֵן זוֹכִין

698Rabi pergunta a Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei: os ricos de Eretz Israel, por que mérito? Porque separam os dízimos; os da Babilônia? Porque honram a Torá
Rabi; Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei
בְּעָא מִינֵּיהּ רַבִּי מֵרַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּרַבִּי יוֹסֵי: עֲשִׁירִים שֶׁבְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל בַּמָּה הֵן זוֹכִין? אֲמַר לֵיהּ: בִּשְׁבִיל שֶׁמְּעַשְּׂרִין, שֶׁנֶּאֱמַר: ״עַשֵּׂר תְּעַשֵּׂר״ — עַשֵּׂר בִּשְׁבִיל שֶׁתִּתְעַשֵּׁר. שֶׁבְּבָבֶל בַּמָּה הֵן זוֹכִין? אֲמַר לֵיהּ: בִּשְׁבִיל שֶׁמְּכַבְּדִין אֶת הַתּוֹרָה.

Pediu Rabi (Yehuda HaNassi) a Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei: os ricos de Eretz Israel, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque separam os dízimos, pois se diz: "separarás o dízimo" (Devarim 14:22) — separa o dízimo para que enriqueças. Os ricos da Babilônia, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque honram a Torá.

Nota

Rabi (Yehuda HaNassi) pergunta a Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei a razão da riqueza observada em diferentes lugares. Sobre os ricos de Eretz Israel, a resposta é que eles se destacam em separar os dízimos de sua produção agrícola; a própria repetição da raiz "אשר" no versículo "assêr ta'assêr" ("separarás o dízimo") é lida como um jogo de palavras com "enriquecer" (תתעשר), sugerindo que dizimar é a própria causa de enriquecer. Sobre os ricos da Babilônia, a resposta é que eles se destacam em honrar a Torá e seus estudiosos.

699Os ricos das demais terras? Porque honram Shabat — a história de Rabi Chiya bar Abba, hospedado em Lodkia por um anfitrião com mesa de ouro carregada por dezesseis homens, que fora açougueiro e separava para Shabat todo animal formoso
Rabi Yishmael filho de Rabi Yosei; Rabi Chiya bar Abba
וְשֶׁבִּשְׁאָר אֲרָצוֹת בַּמָּה הֵן זוֹכִין? אֲמַר לֵיהּ: בִּשְׁבִיל שֶׁמְּכַבְּדִין אֶת הַשַּׁבָּת. דְּאָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא: פַּעַם אַחַת נִתְאָרַחְתִּי אֵצֶל בַּעַל הַבַּיִת בְּלוּדְקִיָּא, וְהֵבִיאוּ לְפָנָיו שֻׁלְחָן שֶׁל זָהָב מַשּׂוֹי שִׁשָּׁה עָשָׂר בְּנֵי אָדָם, וְשֵׁשׁ עֶשְׂרֵה שַׁלְשְׁלָאוֹת שֶׁל כֶּסֶף קְבוּעוֹת בּוֹ, וּקְעָרוֹת וְכוֹסוֹת וְקִיתוֹנִיּוֹת וּצְלוֹחִיּוֹת קְבוּעוֹת בּוֹ, וְעָלָיו כׇּל מִינֵי מַאֲכָל וְכׇל מִינֵי מְגָדִים וּבְשָׂמִים. וּכְשֶׁמַּנִּיחִים אוֹתוֹ אוֹמְרִים: ״לַה׳ הָאָרֶץ וּמְלוֹאָהּ וְגוֹ׳״. וּכְשֶׁמְּסַלְּקִין אוֹתוֹ אוֹמְרִים: ״הַשָּׁמַיִם שָׁמַיִם לַה׳ וְהָאָרֶץ נָתַן לִבְנֵי אָדָם״. אָמַרְתִּי לוֹ: בְּנִי בַּמֶּה זָכִיתָ לְכָךְ? אָמַר לִי: קַצָּב הָיִיתִי, וּמִכׇּל בְּהֵמָה שֶׁהָיְתָה נָאָה, אָמַרְתִּי: זוֹ תְּהֵא לַשַּׁבָּת. אָמַרְתִּי לוֹ: [אַשְׁרֶיךָ שֶׁזָּכִיתָ], וּבָרוּךְ הַמָּקוֹם שֶׁזִּיכְּךָ לְכָךְ.

E os ricos das demais terras, por que mérito são assim? Disse-lhe: porque honram Shabat, pois disse Rabi Chiya bar Abba: certa vez fui hospedado na casa de um anfitrião em Lodkia, e trouxeram diante dele uma mesa de ouro, carga de dezesseis homens, com dezesseis correntes de prata fixadas nela, e tigelas, copos, jarros e travessas fixados nela, e sobre ela toda espécie de comida, e toda espécie de iguarias e especiarias. E ao colocá-la, diziam: "ao Eterno pertence a terra e tudo o que a preenche..." (Tehilim 24:1). E ao retirá-la, diziam: "os céus são céus para o Eterno, mas a terra Ele deu aos filhos do homem" (Tehilim 115:16). Eu lhe disse: meu filho, por que mereceste isto? Disse-me: eu era açougueiro, e de todo animal que era formoso, eu dizia: este será para Shabat. Eu lhe disse: feliz és tu, que assim mereceste, e bendito o Onipresente que te fez merecer isto.

Nota

Sobre os ricos das demais terras (fora de Eretz Israel e da Babilônia), a resposta é que eles se destacam em honrar Shabat — ilustrado por um relato pessoal de Rabi Chiya bar Abba, que certa vez foi hospedado por um anfitrião em Lodkia (Laodiceia) de riqueza extraordinária: uma mesa de ouro tão pesada que exigia dezesseis homens para carregá-la, com correntes de prata, tigelas, copos, jarros e travessas todos fixados nela, coberta de todo tipo de alimento e iguaria. Ao colocar a mesa recitavam o versículo do Salmo 24:1 ("ao Eterno pertence a terra e tudo o que a preenche"), reconhecendo que tudo pertence a D'us; e ao retirá-la recitavam o versículo do Salmo 115:16 ("os céus são céus para o Eterno, mas a terra Ele deu aos filhos do homem"), reconhecendo que o desfrute da fartura terrena foi entregue à humanidade por dádiva divina. Ao ser perguntado sobre o mérito de tal riqueza, o anfitrião revelou ter sido açougueiro, e o segredo de sua fortuna: sempre que via um animal especialmente formoso, reservava-o para Shabat, em vez de vendê-lo no mercado comum — um pequeno gesto de honra a Shabat que, com o tempo, resultou em bênção abundante. O texto de Sefaria assinala entre colchetes a frase "feliz és tu, que assim mereceste", como acréscimo textual à resposta de Rabi Chiya bar Abba.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bameh hen zochin", "laShem ha'aretz" e "veha'aretz natan livnei adam"
במה הן זוכין - לעושר גדול כזה: לה' הארץ - דאין אנו רשאין ליהנות עד שנברך שמו בברכת הלחם: והארץ נתן לבני אדם - ע"י מתנתו נהנינו הטובה הזאת:

"Por que mérito são assim" — que mereceram uma riqueza tão grande como esta. "Ao Eterno pertence a terra" — pois não nos é permitido desfrutar dela até bendizermos Seu nome na bênção do pão. "Mas a terra Ele deu aos filhos do homem" — por meio de Sua dádiva desfrutamos deste bem.

César pergunta a Rabi Yehoshua ben Chananya sobre o aroma da comida de Shabat · תַּבְלִין אֶחָד

700César: por que o cozido de Shabat tem aroma tão difuso? Rabi Yehoshua ben Chananya: temos um tempero chamado Shabat, que só aproveita a quem guarda Shabat
César; Rabi Yehoshua ben Chananya
אָמַר לוֹ קֵיסָר לְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָא: מִפְּנֵי מָה תַּבְשִׁיל שֶׁל שַׁבָּת רֵיחוֹ נוֹדֵף? אָמַר לוֹ: תַּבְלִין אֶחָד יֵשׁ לָנוּ וְשַׁבָּת שְׁמוֹ, שֶׁאָנוּ מְטִילִין לְתוֹכוֹ וְרֵיחוֹ נוֹדֵף. אָמַר לוֹ: תֵּן לָנוּ הֵימֶנּוּ. אָמַר לוֹ: כׇּל הַמְשַׁמֵּר אֶת הַשַּׁבָּת — מוֹעִיל לוֹ, וְשֶׁאֵינוֹ מְשַׁמֵּר אֶת הַשַּׁבָּת — אֵינוֹ מוֹעִיל לוֹ.

Disse César a Rabi Yehoshua ben Chananya: por que o cozido de Shabat tem seu aroma tão difuso? Disse-lhe: temos um tempero, e Shabat é seu nome, que colocamos nele, e seu aroma se difunde. Disse-lhe: dá-nos dele. Disse-lhe: todo aquele que guarda Shabat, o tempero lhe aproveita; e quem não guarda Shabat, não lhe aproveita.

Nota

O imperador romano (Kaisar) pergunta a Rabi Yehoshua ben Chananya por que a comida preparada para Shabat tem um aroma tão notável. Rabi Yehoshua responde, num tom entre o literal e o poético, que existe um "tempero" especial chamado Shabat, que é colocado na comida e lhe confere esse aroma difuso. Quando César pede que lhe deem desse tempero, Rabi Yehoshua responde que o tempero só funciona para quem realmente guarda Shabat — negando, com humor e firmeza, que o segredo possa ser transmitido a quem não vive a santidade do dia.

O Exilarca pergunta a Rav Hamnuna sobre honrar Shabat · וְלִקְדוֹשׁ ה׳ מְכוּבָּד

701"E ao santo do Eterno, honrado" é Yom Kipur; adiantar (Rav) ou atrasar (Shmuel) a refeição de Shabat; os filhos de Rav Papa bar Abba; Rav Sheshet e o sol e a sombra — termina aberto no meio do dito de Rabi Zeira
O Exilarca; Rav Hamnuna; Rav; Shmuel; filhos de Rav Papa bar Abba; Rav Papa; Rav Sheshet; Rabi Zeira
אֲמַר לֵיהּ רֵישׁ גָּלוּתָא לְרַב הַמְנוּנָא: מַאי דִּכְתִיב ״וְלִקְדוֹשׁ ה׳ מְכוּבָּד״? אֲמַר לֵיהּ: זֶה יוֹם הַכִּפּוּרִים, שֶׁאֵין בּוֹ לֹא אֲכִילָה וְלֹא שְׁתִיָּה, אָמְרָה תּוֹרָה: כַּבְּדֵהוּ בִּכְסוּת נְקִיָּה. ״וְכִבַּדְתּוֹ״, רַב אָמַר: לְהַקְדִּים, וּשְׁמוּאֵל אָמַר: לְאַחֵר. אֲמַרוּ לֵיהּ בְּנֵי רַב פָּפָּא בַּר אַבָּא לְרַב פָּפָּא: כְּגוֹן אֲנַן, דִּשְׁכִיחַ לַן בִּישְׂרָא וְחַמְרָא כׇּל יוֹמָא, בְּמַאי נִישַׁנְּיֵיהּ? אֲמַר לְהוּ: אִי רְגִילִיתוּ לְאַקְדּוֹמֵי — אַחֲרוּהּ, אִי רְגִילִיתוּ לְאַחוֹרֵיהּ — אַקְדְּמוּהּ. רַב שֵׁשֶׁת בְּקַיְטָא מוֹתֵיב לְהוּ לְרַבָּנַן הֵיכָא דְּמָטְיָא שִׁימְשָׁא. בְּסִיתְוָא מוֹתֵיב לְהוּ לְרַבָּנַן הֵיכָא דְּמָטְיָא טוּלָּא, כִּי הֵיכִי דְּלֵיקוּמוּ הַיָּיא. רַבִּי זֵירָא...

Disse o Exilarca a Rav Hamnuna: o que significa o que está escrito, "e ao santo do Eterno, honrado" (Isaías 58:13)? Disse-lhe: isto é Yom Kipur, em que não há comida nem bebida; por isso disse a Torá: honra-o com vestes limpas. Quanto a "e o honrarás" (sobre Shabat), Rav disse: adiantá-lo; e Shmuel disse: atrasá-lo. Disseram os filhos de Rav Papa bar Abba a Rav Papa: pessoas como nós, que temos carne e vinho todos os dias, com que o distinguiremos? Disse-lhes: se costumais adiantar a refeição, atrasai-a em Shabat; se costumais atrasá-la, adiantai-a. Rav Sheshet, no verão, sentava os sábios onde chegava o sol; no inverno, sentava os sábios onde chegava a sombra, para que se levantassem depressa. Disse Rabi Zeira...

Nota

O Exilarca pergunta a Rav Hamnuna o sentido do versículo de Isaías 58:13, "e ao santo do Eterno, honrado" — que, segundo Rashi, por não se referir a Shabat (já mencionado antes no mesmo versículo como "onegue") deve referir-se a outro dia santo. Rav Hamnuna identifica-o com Yom Kipur, dia em que não há comida nem bebida, de modo que a única forma de "honrá-lo" é com vestes limpas. Já quanto à expressão "e o honrarás", que no versículo se refere a Shabat, há debate: Rav ensina que se deve honrar Shabat adiantando a refeição, para mostrar ansiedade em desfrutar dela; Shmuel ensina que se deve atrasá-la, para que o apetite acumulado torne a refeição mais prazerosa. Diante disso, os filhos de Rav Papa bar Abba perguntam como aplicar essa distinção no caso deles, que já comem carne e vinho todos os dias da semana — não haveria diferença perceptível em adiantar ou atrasar. Rav Papa responde com uma regra prática: inverta-se o próprio hábito — quem come cedo durante a semana deve atrasar a refeição em Shabat, e quem come tarde deve adiantá-la, de modo que a mudança em si marque a distinção do dia. Por fim, relata-se que Rav Sheshet, cego, tomava uma providência para não alongar demais suas explanações aos alunos: no verão, sentava-os ao sol; no inverno, à sombra — em ambos os casos, o desconforto os levaria a se levantar rapidamente ao final da lição, e não em decorrência do próprio conteúdo do ensino. O daf termina aqui mesmo, interrompido no início de um novo dito de Rabi Zeira, cujo conteúdo não se revela nesta página.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mai dichtiv velikdosh Hashem mechubad", "vechibadeto", "lehakdim", "le'acher", "bemai nishanyeih" e "rav sheshet"
מאי דכתיב ולקדוש ה' מכובד - מדכתיב וקראת לשבת עונג מכלל דלקדוש ה' לאו אשבת קאי: וכבדתו - אשבת מהדר דאי ביוה"כ כתיב ביה מכובד: להקדים - זמן סעודת שבת לזמן סעודת חול וזהו כבודו: לאחר - וזהו כבודו שהוא מתאוה לאכול: במאי נשנייה - במאי נשניוהו משאר ימים: אי רגיליתו לאקדומי - סעודתכם בבקר אחרוה: רב ששת סגי נהור היה ואינו רואה עת האכילה וכשהיה דורש בשבת מושיב התלמידים במקום שתגיע שם החמה לעת האוכל כדי שיצטערו וימהרו לקום: דמטי טולא - שיצטננו: הייא - מהר:

"O que significa o que está escrito, 'e ao santo do Eterno, honrado'" — visto que está escrito "e chamarás ao Shabat deleite", o que implica que "ao santo do Eterno" não se refere a Shabat. "E o honrarás" — sobre Shabat é que se volta o versículo, pois quanto a Yom Kipur já está escrito nele "honrado". "Adiantá-lo" — o horário da refeição de Shabat, em relação ao horário da refeição dos dias comuns, e nisto está sua honra. "Atrasá-lo" — e nisto está sua honra, que a pessoa deseja comer. "Com que o distinguiremos" — com que o distinguiremos dos demais dias. "Se costumais adiantar" — vossa refeição, pela manhã, atrasai-a. Explicação: Rav Sheshet era cego e não via a hora da refeição; e quando lecionava em Shabat, sentava os alunos no lugar onde o sol chegaria na hora da refeição, para que se afligissem e se apressassem a levantar. "Onde chegava a sombra" — para que sentissem frio. "Depressa (haya)" — rapidamente.

O daf termina aqui, em pleno meio do dito de Rabi Zeira — a frase é interrompida antes de se revelar seu conteúdo, sem qualquer marca de hadran ou de encerramento de perek. A discussão prossegue diretamente, sem interrupção de tema, em Shabbat 119b, ainda não publicado.