Shabbat 118a abre em pleno debate deixado interrompido no fim de 117b: acabara de se citar a baraita da disputa entre os Sábios (três refeições obrigatórias em Shabat) e Rabi Chidka (quatro), ambos derivando do mesmo versículo sobre o maná, e retomara-se a citação da própria Mishná deste perek ("caiu um incêndio na noite de Shabat..."). A Guemará agora tenta encaixar essa Mishná, cláusula por cláusula, na opinião de Rabi Chidka: se caiu um incêndio à noite e se salvam três refeições, não seria porque ainda não se comeu nenhuma — o que daria só três ao todo, conforme os Sábios? Não: é porque já se comeu uma refeição, restando três, conforme Rabi Chidka. Se caiu pela manhã e se salvam duas, não seria porque ainda não se comeu a refeição da manhã? Não: é porque já se comeu. Se caiu à tarde e se salva uma, o mesmo raciocínio se repete. Mas a Guemará objeta a partir do próprio final da Mishná: já que se ensina ali que Rabi Yosei diz "sempre se salvam mantimentos de três refeições", por inferência o Tana Kama também entende três — logo, está claro que a Mishná não segue Rabi Chidka. Rashi explica que a disputa de Rabi Yosei não é sobre o número (ambos concordam em três), mas sobre se pode salvar o mantimento de uma refeição cujo horário já passou. A Guemará tenta então harmonizar, com essa mesma disputa dos Sábios e Rabi Chidka, duas outras mishnayot: a de que quem tem mantimentos de duas refeições não toma do tamchui (a tigela de caridade diária), nem quem tem de quatorze refeições toma da kupah (o fundo semanal) — se fosse conforme os Sábios, seriam quinze refeições por semana; se conforme Rabi Chidka, dezesseis; a Guemará resolve que é conforme os Sábios, com a ressalva de que o que se quer comer à saída de Shabat deve ser comido ainda durante Shabat. E a do pobre que viaja de um lugar a outro, a quem se dá pernoite e, se passar o Shabat ali, mantimento de três refeições — a Guemará propõe que seja conforme Rabi Chidka, quando ele já traz consigo uma refeição, e explica o que é "sustento para pernoite" (cama e travesseiros, segundo Rav Papa). Segue-se uma baraita sobre lavar as tigelas de uma refeição para reutilizá-las na seguinte, ao longo do próprio dia de Shabat, mas não mais depois de minchá — exceto copos, canecas e jarros, que não têm horário fixo para beber. Diz Rabi Shimon ben Pazi, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi, em nome de Bar Kapara: todo aquele que cumpre três refeições em Shabat é salvo de três punições — as dores do messias, o julgamento da Gehinom, e a guerra de Gog e Magog —, cada uma derivada por analogia verbal da palavra "dia", comum ao versículo do maná e a versículos de Malaquias, Sofonias e Ezequiel. Por fim, diz Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: todo aquele que se deleita em Shabat recebe uma herança sem fronteiras, a partir do versículo de Isaías sobre o deleite em Shabat — "então te deleitarás no Eterno, e Eu te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te farei comer a herança de Yaacov, teu pai". O daf termina interrompido em pleno meio dessa citação bíblica, sem qualquer sinal de encerramento de perek, a continuar diretamente em Shabbat 118b, ainda não publicado, onde se explicará que essa herança é como a de Yaacov — não limitada como a de Avraham ou a de Yitzchak.
"Salvam-se mantimentos de três refeições" — não é isto que ainda não comeu nenhuma? Não, é que já comeu uma. "Pela manhã, salvam-se mantimentos de duas refeições" — não é isto que ainda não comeu? Não, é que já comeu. "À tarde (minchá), salvam-se mantimentos de uma refeição" — não é isto que ainda não comeu? Não, é que já comeu!
Retomando a baraita recém-citada no fim de 117b (a disputa entre os Sábios, que exigem três refeições em Shabat, e Rabi Chidka, que exige quatro), a Guemará examina se a própria Mishná deste perek — que gradua a quantidade salva do incêndio conforme o horário (três à noite, duas pela manhã, uma à tarde) — decide a favor de uma das duas opiniões. À primeira vista, se caiu um incêndio na noite de Shabat, antes de qualquer refeição, e se salvam três, isso sugeriria que a obrigação total é de três (conforme os Sábios), pois nada ainda foi consumido. Mas a Guemará propõe reler a cláusula: na verdade, refere-se a um caso em que já se comeu uma refeição (a da própria noite, antes do incêndio), restando ainda três — o que exigiria um total de quatro refeições, conforme Rabi Chidka. Do mesmo modo, se o incêndio caiu pela manhã e se salvam duas, à primeira vista pareceria que ainda não se comeu a refeição da manhã, restando duas do total de três (uma à noite, duas de dia, conforme os Sábios); mas a Guemará propõe reler: refere-se a quando já se comeu também essa refeição da manhã. E o mesmo se repete para o incêndio à tarde, quando se salva o mantimento de uma só refeição.
Mas não é assim que se deve entender, pois se ensina no final da Mishná: Rabi Yosei diz: sempre se salvam mantimentos de três refeições — por inferência, também o Tana Kama entende que a obrigação é de três! Mas então está claro que a Mishná não é conforme Rabi Chidka.
A Guemará rejeita a tentativa de encaixar a Mishná na opinião de Rabi Chidka, a partir da própria cláusula final da Mishná: Rabi Yosei ali diz "sempre se salvam mantimentos de três refeições", discordando apenas da gradação (três, duas, uma, conforme o horário) e sustentando que se salva sempre três, não importa a hora do incêndio. Ora, se Rabi Yosei discorda do Tana Kama apenas quanto a essa gradação, e não quanto ao número total de refeições, isso mostra que o próprio Tana Kama também entende que a obrigação total é de três — do contrário, Rabi Yosei estaria discordando também nesse ponto, e a Mishná o teria registrado de outra forma. Conclui-se, portanto, que a Mishná segue a opinião dos Sábios (três refeições), não a de Rabi Chidka (quatro), encerrando definitivamente a tentativa de reinterpretação anterior.
"Sempre se salvam mantimentos de três refeições" — como Rabi Yosei não disse quatro, não segue Rabi Chidka. "Por inferência, o Tana Kama entende que a obrigação é de três refeições" — pois nisto ambos não discordam; mas o Tana Kama entende que o mantimento de uma refeição cujo horário já passou, não se salva mais, e Rabi Yosei entende que se salva.
E esta outra Mishná que ensinamos: quem tem mantimentos de duas refeições não toma do tamchui; quem tem mantimentos de quatorze refeições não toma da kupah. De quem é isto? Nem dos Sábios, nem de Rabi Chidka. Se fosse dos Sábios, seriam quinze refeições numa semana. Se fosse de Rabi Chidka, seriam dezesseis! Mas na verdade é dos Sábios, pois lhe dizemos: o que quiseres comer à saída de Shabat, coma-o já em Shabat.
A Guemará traz outra Mishná (de Massechet Peá): quem já possui mantimentos suficientes para duas refeições não pode tomar comida do tamchui (a tigela distribuída diariamente aos pobres, com duas refeições por dia); e quem já possui mantimentos para quatorze refeições não pode tomar dinheiro da kupah (o fundo distribuído semanalmente). A Guemará pergunta de que opinião essa Mishná depende: se conforme os Sábios (três refeições em Shabat, duas nos demais seis dias), o total semanal seria de quinze refeições (2×6 + 3), não quatorze; se conforme Rabi Chidka (quatro em Shabat), seria dezesseis (2×6 + 4) — mas a Mishná fala em quatorze, que não corresponde a nenhuma das duas. A Guemará resolve que, na verdade, é conforme os Sábios (quinze refeições), mas descontando uma: a refeição que a pessoa queira comer já na saída de Shabat, no sábado à noite, deve comê-la ainda durante o próprio Shabat, de modo que a kupah não precisa fornecer mais do que quatorze — a décima quinta fica por conta do que já se recebeu em Shabat.
Digamos então que esta Mishná é só dos Sábios, não de Rabi Chidka. A Guemará responde: mesmo que digas que é de Rabi Chidka, também se resolve, pois lhe dizemos: o que quiseres comer na véspera de Shabat, coma-o à noite de Shabat, como a quarta refeição. Mas então faríamos a pessoa sentar-se em jejum todo o dia da véspera de Shabat?! Mas isto — de quem é? É de Rabi Akiva, que diz: faze teu Shabat como dia comum, e não precises das criaturas.
A Guemará questiona: por que não simplesmente concluir que a Mishná do tamchui e da kupah segue apenas os Sábios, e não Rabi Chidka? A Guemará responde que, na verdade, mesmo segundo Rabi Chidka (dezesseis refeições semanais) a conta poderia fechar em quatorze, descontando duas: também a refeição que se comeria na própria véspera de Shabat poderia ser transferida para a noite de Shabat, como a quarta refeição de Rabi Chidka. Mas a Guemará objeta: isso obrigaria a pessoa a ficar em jejum o dia inteiro da véspera de Shabat, o que não é razoável exigir de um pobre. Por isso, a Guemará conclui que essa Mishná específica (quatorze refeições) não segue nem os Sábios nem Rabi Chidka enquanto tais, mas sim Rabi Akiva, que ensina, em outro contexto, que a pessoa deve preferir viver seu Shabat com menos fartura — "como dia comum" — a depender da caridade alheia; assim, o número quatorze reflete apenas o mínimo que a pessoa deveria providenciar por si mesma antes de recorrer à kupah.
"Tamchui" — é uma tigela grande, na qual os cobradores recolhem comida dos donos de casa e a distribuem aos pobres, duas refeições por dia, de dia em dia. "Não toma" — já que já tem, seria roubar dos outros pobres. "Kupah" — são moedas para sustentar pobres de família honrada, que se envergonhariam do tamchui, distribuídas de véspera de Shabat a véspera de Shabat. "Quatorze refeições não toma da kupah" — pois pode esperar até a próxima véspera de Shabat; mas se tem mantimento de doze, toma, pois não se distribuirá mais até chegar a véspera de Shabat, e para os sete dias da semana precisam-se quatorze refeições. "Faríamos a pessoa sentar-se em jejum" — é dito em tom de espanto. "Mas isto — de quem é? É de Rabi Akiva" — quanto à refeição de Shabat, para quem tem condições, pode-se dizer que é conforme os Sábios, e pode-se dizer que é conforme Rabi Chidka; mas o pobre que precisa das criaturas, que faça seu Shabat como dia comum, e não lance sobre outros a honra dos seus próprios Shabatot.
E esta outra Mishná que ensinamos: não se dá menos ao pobre que viaja de um lugar a outro que um pão comprado por um pundeyon, quando o preço do trigo é de quatro se'á por sela. Se pernoita, dá-se-lhe sustento de pernoite; e se passa o Shabat ali, dá-se-lhe mantimento de três refeições. Digamos então que isto é dos Sábios, e não de Rabi Chidka? A Guemará responde: na verdade é de Rabi Chidka — trata-se de um caso em que já há uma refeição com ele, e lhe dizemos: esta refeição que já tens contigo, come-a como a quarta. Mas, afinal, ele vai embora vazio, sem nada para o caminho?! Não: acompanhamo-lo com uma refeição para a viagem. O que é "sustento de pernoite"? Disse Rav Papa: uma cama e travesseiros.
A Guemará traz mais uma Mishná (também de Peá): ao pobre que passa de cidade em cidade, não se dá menos que um pão comprado por um pundeyon (um quarenta e oitavo de sela), calculado para render duas refeições, no padrão em que o preço do trigo é de quatro se'á por sela. Se ele pernoita ali, dá-se-lhe também sustento para a noite; e se passa o Shabat naquele lugar, dá-se-lhe mantimento de três refeições. A Guemará pergunta se essa Mishná (três refeições, sem menção a uma quarta) seguiria apenas os Sábios, e não Rabi Chidka; responde que, na verdade, ela é perfeitamente compatível com Rabi Chidka também, tratando-se de um caso em que o próprio pobre já viajava com uma refeição extra em mãos — dizemos a ele que consuma essa refeição que já possui como a quarta, completando a exigência de Rabi Chidka sem que a comunidade precise fornecer mais que três. A Guemará então pergunta: mas, nesse caso, quando ele for embora dali, não partirá sem nenhuma provisão para o caminho? Responde que a comunidade sempre o acompanha com uma refeição adicional para a viagem, à parte das três dadas para o Shabat em si. Por fim, esclarece-se o que é o "sustento de pernoite" mencionado na Mishná: segundo Rav Papa, uma cama e travesseiros (ou lençóis), não mantimento.
"Não se dá menos ao pobre que viaja de um lugar a outro" — refere-se a quem não pernoita ali com eles. "Um pão" — comprado por um pundeyon, quando o preço é de quatro se'á por sela, sendo o pundeyon um doze avos de um dinar, isto é, um quarenta e oito avos de sela; e os Sábios calcularam esse pão para duas refeições, do dia e da noite. "Se pernoita, dá-se-lhe sustento de pernoite" — mais adiante se explica o que é isso, pois a refeição da noite já está incluída no pão, calculado (em Eruvin 82b) para mantimento de duas refeições, no padrão dos eiruvei techumin. "E se passa o Shabat" — com eles, em Shabat. "O que é sustento de pernoite?" — pois o pão já cobria a refeição da noite. "Travesseiros" — panos macios, para colocar debaixo da cabeça.
Ensinaram os Sábios: tigelas em que se comeu à noite — lavam-se para comer nelas de manhã. As em que se comeu de manhã — lavam-se para comer nelas ao meio-dia. As em que se comeu ao meio-dia — lavam-se para comer nelas à tarde (minchá). De minchá em diante, não se lava mais. Mas copos, canecas e jarros lava-se e continua lavando o dia todo inteiro, pois não há horário fixo para beber.
Esta baraita trata da permissão de lavar louça em Shabat, quando destinada a uma refeição ainda por vir naquele mesmo dia: as tigelas usadas na refeição da noite podem ser lavadas para servir na refeição da manhã, e assim sucessivamente, de refeição a refeição, ao longo do próprio dia de Shabat — pois lavar em vista de uma necessidade futura dentro do mesmo Shabat é permitido. Mas, uma vez passada a hora de minchá (quando não resta mais nenhuma refeição obrigatória de Shabat por vir), não se lava mais as tigelas, pois isso já seria preparo para o dia seguinte, proibido em Shabat. Já os utensílios de bebida — copos, canecas e jarros — podem ser lavados a qualquer hora do dia, mesmo depois de minchá, porque não há um número fixo de vezes em que se bebe em Shabat; a qualquer momento pode surgir a necessidade de beber novamente naquele mesmo dia.
"Não se lava mais" — pois essa lavagem a partir de então já seria para o dia comum seguinte.
Disse Rabi Shimon ben Pazi, disse Rabi Yehoshua ben Levi, em nome de Bar Kapara: todo aquele que cumpre três refeições em Shabat é salvo de três punições: das dores do messias, do julgamento da Gehinom, e da guerra de Gog e Magog. Das dores do messias — está escrito aqui "dia" (no versículo do maná), e está escrito ali: "eis que envio a vós Eliyahu, o profeta, antes que venha o dia..." (Malaquias 3:23). Do julgamento da Gehinom — está escrito aqui "dia", e está escrito ali: "dia de ira será aquele dia" (Sofonias 1:15). Da guerra de Gog e Magog — está escrito aqui "dia", e está escrito ali: "no dia em que vier Gog" (Ezequiel 38:18).
Deixando as questões técnicas sobre o número de refeições, a Guemará traz um ensinamento sobre o valor de cumprir a mitzvá das três refeições em Shabat. Rabi Shimon ben Pazi transmite, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi e, mais originalmente, de Bar Kapara: quem cumpre as três refeições de Shabat é protegido de três sofrimentos futuros — as dores que precedem a vinda do messias, o julgamento da Gehinom, e a guerra de Gog e Magog (no final dos tempos, segundo Ezequiel 38). Cada uma dessas três proteções é derivada por uma analogia verbal (guezerá shavá) com a palavra "dia", que aparece no versículo sobre o maná citado anteriormente ("comei-o hoje, pois hoje é Shabat para o Eterno" — Êxodo 16:25) e também nos três versículos proféticos citados: a vinda de Eliyahu antes do "dia" do Eterno (Malaquias), o "dia de ira" da Gehinom (Sofonias), e o "dia" em que Gog virá (Ezequiel).
"As dores do messias" — como se diz em Ketubot (112b): a geração em que vem o filho de David, há acusação contra os sábios da Torá, pois se diz "e ainda haverá nela um décimo..." — "dores" (chevalim), no sentido de dores de parto (Hoshea 13).
Disse Rabi Yochanan em nome de Rabi Yosei: todo aquele que se deleita em Shabat, dão-lhe uma herança sem fronteiras, pois se diz: "então te deleitarás no Eterno, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te farei comer a herança de Yaacov, teu pai..." (Isaías 58:14)
A Guemará encerra este trecho com outro ensinamento sobre a recompensa de honrar Shabat, agora sobre o deleite (oneg) em Shabat, não apenas as três refeições em si. Rabi Yochanan, em nome de Rabi Yosei, ensina que todo aquele que se deleita em Shabat recebe, em recompensa, uma herança "sem fronteiras" — isto é, ilimitada —, a partir do versículo de Isaías 58:14, que promete, a quem chama Shabat de deleite, cavalgar sobre as alturas da terra e comer a herança de Yaacov. O daf termina interrompido em pleno meio dessa citação bíblica — sem qualquer sinal de hadran ou de encerramento de perek —, a continuar diretamente em Shabbat 118b, ainda não publicado, onde a Guemará explicará por que essa herança é comparada especificamente à de Yaacov, e não à de Avraham ou à de Yitzchak.