Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
מִי דָּמֵי

Continua-se o debate sobre transporte e trabalho na esfola do cordeiro pascal; Rav Chisda e Rabá definem o beco aberto e o beco fechado para salvar o estojo do rolo

Shabbat 117a · continua diretamente de 116b · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 117a abre em pleno debate deixado interrompido no fim de 116b: Rav Ashi refinara o argumento dos colegas de Rabi Yishmael, filho de Rabi Yochanan ben Beroka, distinguindo dois pontos de discordância — o transporte da pele e o trabalho de esfolar. A Guemará objeta: comparar o estojo do rolo (que se torna base tanto para o rolo, permitido, quanto para o dinheiro, proibido) com a pele do cordeiro (que se tornaria base inteiramente para algo proibido — a carne, ainda não apta para comer antes de ser assada à noite) não é comparação exata. Reformula-se então o argumento: trata-se de um estojo trazido de outro lugar, que já continha apenas dinheiro — portanto, também inteiramente base para o proibido —, e que mesmo assim se usa para salvar um rolo nele colocado; do mesmo modo, a pele, base para a carne proibida, pode ser movida por causa dela. A Guemará pergunta então de onde se sabe essa regra em si, propõe e rejeita uma derivação a partir do caso em que o incêndio já caiu, e Mar bar Rav Ashi conclui que, na verdade, a disputa original entre Rabi Yishmael e os Sábios era só sobre o trabalho de esfolar — resolvendo a dificuldade anterior (ali transporte, aqui trabalho) pelo caso em que quem esfola não tem necessidade pessoal da pele, de modo que continuar a esfola além do peito é mera extensão do transporte da carne, não um novo ato de trabalho proibido. Abaie e Rava objetam a partir de seu próprio ensinamento conjunto — que Rabi Shimon concorda, no caso de "cortar-lhe a cabeça, acaso não morrerá?!" (pesik reisheih, um resultado certo e inevitável), que o ato se considera intencional — pois quem continua a esfola, ainda que sem querer a pele, necessariamente a corta e a completa. A dificuldade fica sem resposta nesta parte do daf. A Guemará então retoma a cláusula da Mishná (já citada em 116b): "e para onde se salvam o estojo do rolo e o dos tefilin? — para um beco que não é passante (mavoi she'eino mefulash)". Rav Chisda define: três paredes e duas travessas (lechayin) fazem um beco não passante; três paredes e uma travessa fazem um beco passante — ambas as definições segundo Rabi Eliezer, que exige duas travessas para o uso comum de um beco. Rabá objeta: um beco com três paredes e uma travessa não deveria, de modo algum, chamar-se "passante"; e, além disso, se fosse mesmo apenas "não totalmente fechado", os Sábios (que permitem ali salvar o estojo do rolo) deveriam permitir ali também salvar comida e bebida, como num quintal unido por eiruv — o que a Mishná não diz. Rabá reformula: duas paredes e duas travessas fazem um beco não passante; duas paredes e uma travessa fazem um beco passante — seguindo agora Rabi Yehuda, numa baraita sobre quem tem duas casas nos dois lados de um domínio público e tenta uni-las por travessas ou vigas, o que os Sábios rejeitam. O daf termina interrompido, com Abaie repetindo contra Rabá a mesma objeção que fizera antes contra Rav Chisda: se, segundo ele, também as duas formulações seguem a posição lenient de Rabi Yehuda, então, segundo os Sábios, dever-se-ia salvar ali também comida e bebida — pergunta que fica sem resposta até Shabbat 117b, ainda não publicado, onde Rav Ashi proporá uma terceira formulação.

Continua o debate: base para o permitido e base para o proibido · נַעֲשָׂה בָּסִיס

653É comparável?! O estojo é base para o permitido e o proibido; a pele é base inteiramente para o proibido; reformula-se: um estojo trazido de outro lugar, já com dinheiro dentro, usado para salvar o rolo
A Guemará
מִי דָּמֵי?! הָתָם — נַעֲשָׂה בָּסִיס לְדָבָר הַמּוּתָּר, הָכָא — נַעֲשָׂה בָּסִיס לְדָבָר הָאָסוּר! אֶלָּא הָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ: אִם מַצִּילִין תִּיק שֶׁל סֵפֶר עִם הַסֵּפֶר, וְאַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכוֹ מָעוֹת, לֹא נְטַלְטֵל עוֹר אַגַּב בָּשָׂר?! מִי דָּמֵי? הָתָם נַעֲשָׂה בָּסִיס לְדָבָר הָאָסוּר וּלְדָבָר הַמּוּתָּר, הָכָא — כּוּלּוֹ נַעֲשָׂה בָּסִיס לְדָבָר הָאָסוּר. אֶלָּא הָכִי קָאָמְרִי לֵיהּ: אִם מְבִיאִין תִּיק שֶׁיֵּשׁ בְּתוֹכוֹ מָעוֹת מֵעָלְמָא לְהַצִּיל בּוֹ סֵפֶר תּוֹרָה, לֹא נְטַלְטֵל עוֹר אַגַּב בָּשָׂר?!

É comparável?! Ali — o estojo se torna base para algo permitido, aqui — a pele se torna base para algo proibido! Mas assim lhe disseram: se salvam o estojo do rolo junto com o rolo, ainda que haja dinheiro dentro dele, não moveremos a pele por causa da carne? É comparável? Ali o estojo se torna base para algo proibido e para algo permitido, aqui — a pele se torna toda ela base para algo proibido. Mas assim lhe disseram: se trazem de outro lugar um estojo que já tem dinheiro dentro dele para nele salvar um rolo da Torá, não moveremos a pele por causa da carne?!

Nota

O debate continua diretamente de onde 116b o deixara: Rav Ashi refinara o argumento dos colegas de Rabi Yishmael, comparando o transporte do estojo do rolo ao transporte da pele do cordeiro por causa da carne. A Guemará objeta duas vezes seguidas. Primeiro: o estojo se torna base tanto para o rolo (algo permitido, apto ao transporte por si só) quanto para o dinheiro (algo proibido), enquanto a pele se tornaria base inteiramente para algo proibido — a carne, que antes de ser assada à noite ainda não está apta para o consumo. Uma base mista (para permitido e proibido) é tratada com mais leniência que uma base inteiramente para o proibido, de modo que a comparação falha; reformula-se então o argumento para falar apenas do dinheiro (sem o rolo) que já estava no estojo antes de nele se colocar o rolo. Mas ainda resta a objeção: nesse caso o estojo, antes de receber o rolo, era ele mesmo inteiramente base para o proibido (o dinheiro) — exatamente como a pele em relação à carne. A comparação final, portanto, é entre trazer de outro lugar um estojo que já continha só dinheiro, especificamente para nele salvar um rolo, e mover a pele, que já é base para a carne proibida, por causa dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mi dami" (primeira e segunda vez) e "im mevi'in tik shebetocho ma'ot"
מי דמי - תיק הספר נעשה בסיס לדבר המותר לטלטלו בלא שום דליקה דספר בר טלטול הוא ולדבר האסור כגון מעות: הכא - האי עור נעשה בסיס לדבר שכולו אסור בטילטול שהבשר אסור לטלטלו דלא חזי לאכילה עד אורתא דפסח אינו נאכל אלא בלילה וצלי ורבי ישמעאל לית ליה כבוד שמים בנאכל להדיוט ואפילו הוי עור תורת כלי עליו מיתסר משום דהוי בסיס לאיסור וכ"ש דהוא גופיה לאו בר טלטול הוא: אם מביאין תיק שבתוכו מעות - דהוי בסיס לדבר שכולו אסור ומניח בו ספר להצילו ואינו צריך להשליך המעות כדמפרש ואזיל לא נטלטל עור אגב הבשר:

"É comparável" — o estojo do rolo se torna base para algo permitido, para transportá-lo mesmo sem qualquer incêndio, pois o rolo é apto ao transporte por si só, e para algo proibido, como o dinheiro. "Aqui" — essa pele se torna base para algo inteiramente proibido ao transporte, pois a carne é proibida ao transporte, já que não está apta para comer até a noite — o cordeiro pascal só se come de noite, assado —, e Rabi Yishmael não considera a honra do Céu presente em algo que se come por um homem comum; e mesmo que a pele tivesse, sobre si, categoria de utensílio, seria proibida por ser base para o proibido, e tanto mais que ela mesma não é apta ao transporte. "Se trazem um estojo que tem dinheiro dentro dele" — pois é base para algo inteiramente proibido, e nele se coloca um rolo para salvá-lo, sem necessidade de jogar fora o dinheiro, como se explica adiante: não moveremos a pele por causa da carne?

654De onde se sabe essa própria regra? Objeção a partir do incêndio já caído; Mar bar Rav Ashi: na verdade é como se disse no início — o caso em que não se tem necessidade da pele
A Guemará; Mar bar Rav Ashi
וְהִיא גוּפָהּ מְנָלַן? אִילֵּימָא דְּמִדְּהֵיכָא דְּאִית בֵּיהּ לָא שָׁדֵי לְהוּ, אֵיתוֹיֵי נָמֵי מַיְיתִינַן — מִי דָּמֵי?! הָתָם — אַדְּהָכִי וְהָכִי נָפְלָה דְּלֵיקָה, הָכָא — אַדְּהָכָא וְהָכִי לִישְׁדִּינְהוּ. אֶלָּא אָמַר מָר בַּר רַב אָשֵׁי: לְעוֹלָם כִּדְאָמְרִינַן מֵעִיקָּרָא. וּדְקָא קַשְׁיָא לָךְ: הָכָא טִלְטוּל וְהָכָא מְלָאכָה — כְּגוֹן דְּלָא קָבָעֵי לֵיהּ לְעוֹר.

E isso mesmo, de onde o sabemos? Se dissermos: já que, de onde dinheiro, não o jogam fora, também trazemos de outro lugar — é comparável?! Ali — enquanto isso e aquilo, já caiu o incêndio; aqui — enquanto isso e aquilo, que os jogue fora! Mas disse Mar bar Rav Ashi: na verdade, é como dissemos no início. E aquilo que te era difícil — aqui é transporte e aqui é trabalho — é quando se trata de um caso em que ele não tem necessidade da pele.

Nota

A Guemará agora questiona a própria base da regra recém-formulada: de onde se sabe que se pode trazer, de outro lugar, um estojo que já continha só dinheiro, especificamente para nele salvar um rolo? Propõe-se derivar isso do fato de que, onde o estojo já está com dinheiro dentro quando cai o incêndio, não se exige jogar fora o dinheiro antes de usá-lo para salvar o rolo — talvez essa leniência valha também para trazê-lo de outro lugar. Mas a comparação falha: no primeiro caso, o incêndio já caiu quando o dinheiro estava lá — um fato consumado que não se desfaz —; no segundo, antes de usar o estojo, ainda há tempo de jogar fora o dinheiro primeiro. Mar bar Rav Ashi então abandona essa linha de argumentação e volta à posição original (anterior ao refinamento "em dois pontos" de Rav Ashi, em 116b): a disputa entre Rabi Yishmael e os Sábios era apenas sobre o trabalho de esfolar, não sobre o transporte. A antiga dificuldade — "ali é transporte, aqui é trabalho" — resolve-se pelo caso em que quem esfola não tem necessidade pessoal da pele: continuar a esfola além do peito, nesse caso, é apenas para poder mover e tratar a carne, não um ato independente do trabalho proibido de esfolar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ilheima", "mi dami", "kedamerinan me'ikara" e "delo kav'i lei le'or"
אי נימא דמדהיכא דאית ביה - מעות עם הספר לא שדי להו לא מצריך ליה תנא דידן למשדינהו כדקתני ואע"פ שיש בתוכו מעות: איתויי נמי מייתינן - מעלמא מאחת זוית הבית תיק ובתוכו מעות להניח בתוכו ספר ולהציל: מי דמי - היכא דהספר מונח עם המעות להיכא דהוא בא עכשיו להביאו עם המעות ולתת בו ספר: התם - דספר ומעות בתוכו להכי לא מצרכינן ליה למישדינהו: דילמא אדהכי והכי נפלה דליקה - על הספר: הכא - אדמייתי ליה נישדינהו דרך ביאתו: כדאמרינן מעיקרא - דלא פליגי אלא בהפשטה ומייתי רבנן ראיה מתיק הספר דמתני' דמצילין מעות אגב ספר צרכי הדיוט אגב צרכי גבוה הואיל וליכא שהות למשדינהו וה"נ אגב צרכי גבוה דכל פעל ה' למענהו יפשיט: ודקשיא לך כו' דלא בעי ליה לעור - אינו צריך לו לעור ואינו מתכוין להפשיט משום עור ולא דמי להפשט אילים ותחשים דמשכן:

"Se dissermos que, já que de onde há dinheiro" — junto com o rolo, não o jogam fora — nossa Mishná não exige jogá-lo fora, como ensina: "ainda que haja dinheiro dentro dele". "Também trazemos de outro lugar" — de um canto da casa, um estojo com dinheiro dentro, para nele colocar um rolo e salvá-lo. "É comparável" — o caso em que o rolo já está posto junto com o dinheiro ao caso em que ele o traz agora, junto com o dinheiro, para nele colocar um rolo. "Ali" — onde já havia rolo e dinheiro dentro, por isso não o obrigamos a jogá-lo fora. "Talvez enquanto isso e aquilo tenha caído o incêndio" — sobre o rolo. "Aqui" — antes de trazê-lo, que o jogue fora o dinheiro, no caminho de trazê-lo. "Como dissemos no início" — que Rabi Yishmael e os Sábios discordam apenas sobre a esfola, e os Sábios trazem prova do estojo do rolo, na Mishná, de que se salva o dinheiro por causa do rolo — necessidade comum por causa da necessidade do Alto, já que não há tempo de jogá-lo fora —, e assim também, por causa da necessidade do Alto, já que "tudo o que o Eterno fez, fez para Si mesmo", que esfole. "E aquilo que te era difícil etc., que ele não tem necessidade da pele" — não precisa dela, e não tem intenção de esfolar por causa da pele; e isso não se compara à esfola dos carneiros e dos tachashim do Mishkan.

655Abaie e Rava: Rabi Shimon concorda em "pesik reisheih, e não morrerá?!" — pois ele a retira em tiras
Abaie; Rava
וְהָא אַבָּיֵי וְרָבָא דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: מוֹדֶה רַבִּי שִׁמְעוֹן בִּ״פְסִיק רֵישֵׁיהּ וְלָא יָמוּת״ — דְּשָׁקֵיל לֵיהּ בְּבַרְזֵי.

Mas Abaie e Rava, que ambos disseram: Rabi Shimon concorda no caso de "cortar-lhe a cabeça, acaso não morrerá?!" — pois quem continua a esfola a retira em tiras.

Nota

Abaie e Rava objetam mesmo à resolução de Mar bar Rav Ashi, trazendo seu próprio ensinamento conjunto, conhecido de outros lugares: ainda que Rabi Shimon normalmente permita um ato não intencional de resultado certo quando a pessoa não tem interesse nesse resultado proibido (davar she'eino mitkaven), ele próprio concorda que, quando o resultado é absolutamente inevitável — como "cortar-lhe a cabeça, acaso não morrerá?!" (pesik reisheih) —, o ato se considera intencional, ainda que a pessoa diga não querer aquele resultado. Como Rashi explica, continuar a esfola além do peito, mesmo sem necessidade da pele, necessariamente a corta e a completa em tiras — um resultado certo do ato de esfolar, que por definição constitui o trabalho proibido, independentemente da indiferença de quem o faz quanto à pele em si. A defesa de Mar bar Rav Ashi ("ele não tem necessidade da pele") não bastaria, portanto, para evitar a categoria de trabalho proibido. A Guemará deixa essa dificuldade sem resposta nesta parte do daf.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veha Abbaye veRava" e "deshakil leih beVarzei"
והא ר"ש מודה בפסיק רישיה ולא ימות - והכא אע"ג דלא מיכוין מיפשיט הוא: דשקיל ליה בברזי - בחתיכות דקות מפשיט וחותך דאין דרך הפשטה בכך ולאו מלאכה הוא אלא שבות:

"Mas Rabi Shimon concorda no caso de 'cortar-lhe a cabeça, acaso não morrerá?!'" — e aqui, ainda que não haja intenção, é esfola. "Pois ele a retira em tiras" — em pedaços finos ele esfola e corta, pois não é esse o modo costumeiro de esfolar, e por isso, neste caso específico, não é trabalho proibido em si, mas apenas uma proibição de shevut.

O beco fechado e o beco aberto para salvar o estojo do rolo · מָבוֹי הַמְּפוּלָּשׁ

656Como é o beco aberto, como é o não aberto? Rav Chisda: três paredes e duas travessas — não aberto; três paredes e uma travessa — aberto; ambos segundo Rabi Eliezer
A Guemará; Rav Chisda
וּלְהֵיכָן מַצִּילִין אוֹתָן וְכוּ׳. הֵיכִי דָּמֵי מְפוּלָּשׁ, הֵיכִי דָּמֵי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ? אָמַר רַב חִסְדָּא: שָׁלֹשׁ מְחִיצּוֹת וּשְׁנֵי לְחָיַיִן — זֶהוּ מָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. שָׁלֹשׁ מְחִיצּוֹת וְלֶחִי אֶחָד — זֶהוּ מָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ. וְתַרְוַיְיהוּ אַלִּיבָּא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, דִּתְנַן: הֶכְשֵׁר מָבוֹי — בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים: לֶחִי וְקוֹרָה, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים: אוֹ לֶחִי אוֹ קוֹרָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר: שְׁנֵי לְחָיַיִם.

"E para onde se salvam" etc. Como é o beco aberto (mefulash), como é o não aberto? Disse Rav Chisda: três paredes e duas travessas (lechayin) — isto é um beco não aberto. Três paredes e uma travessa — isto é um beco aberto. E ambos seguem a opinião de Rabi Eliezer, pois ensinamos: o requisito para habilitar um beco — Beit Shamai dizem: uma travessa e uma viga; e Beit Hilel dizem: ou uma travessa ou uma viga. Rabi Eliezer diz: duas travessas.

Nota

A Guemará retorna à cláusula da Mishná citada em 116b: "e para onde se salvam o estojo do rolo e o dos tefilin? — para um beco que não é passante"; Ben Beteira permite também um beco passante. Agora se define exatamente o que caracteriza cada um. Rav Chisda: um beco fechado por três paredes e munido, na extremidade aberta, de duas travessas (lechayin) — funciona, em todos os aspectos, como um domínio privado, permitindo até unir-se por eiruv chatzeirot; um beco com três paredes e apenas uma travessa é "aberto" — passante nas duas pontas, exigindo mais do que uma simples travessa para se permitir carregar nele. Rashi observa que ambas as definições seguem Rabi Eliezer, na Mishná de Eruvin sobre o requisito de um beco: Beit Shamai exigem uma travessa e uma viga, Beit Hilel exigem apenas uma das duas, mas Rabi Eliezer exige duas travessas — e por isso Ben Beteira, permitindo salvar o estojo do rolo mesmo no beco "aberto" (com três paredes e uma travessa), segue Rabi Eliezer.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "shnei lechayim", "zehu mavoi she'eino mefulash" e "vetarvayhu"
שני לחיים - לפתח שאין לו מחיצה: זהו מבוי שאינו מפולש - כלומר מבוי הניתר בכל הלכותיו בין בעירוב בין בשאר דברים וכל היתר שאר מבואות יש לו כגון שיתופי מבואות: ותרוייהו - רבנן ובן בתירא סבירא להו כר"א דאמר אין מבוי ואפילו סתום ניתר בלחי א' ואשמעינן בן בתירא דבהצלת כתבי הקדש לא בעינן לחיים כרבי אליעזר:

"Duas travessas" — para a abertura que não tem parede. "Isto é um beco não aberto" — ou seja, um beco habilitado em todas as suas leis, seja pelo eiruv, seja quanto aos demais assuntos, e tem todo o direito que têm os demais becos, como os sitúfei mavo'ot (uniões de beco). "E ambos" — os Sábios e Ben Beteira entendem como Rabi Eliezer, que diz que nenhum beco, mesmo fechado, se habilita com uma só travessa; e Ben Beteira nos ensina que, para salvar os escritos sagrados, não se exigem duas travessas como exige Rabi Eliezer.

657Rabá objeta: três paredes e uma travessa não se chama "aberto"; e os Sábios permitiriam ali também comida e bebida; reformula: duas paredes e duas travessas — não aberto; duas paredes e uma travessa — aberto
Rabá
אֲמַר לֵיהּ רַבָּה: שָׁלֹשׁ מְחִיצּוֹת וְלֶחִי אֶחָד ״מְפוּלָּשׁ״ קָרֵית לֵיהּ? וְעוֹד, לְרַבָּנַן נַצִּיל לְתוֹכוֹ אוֹכָלִין וּמַשְׁקִין! אֶלָּא אָמַר רַבָּה: שְׁתֵּי מְחִיצּוֹת וּשְׁנֵי לְחָיַיִן — זֶהוּ מָבוֹי שֶׁאֵינוֹ מְפוּלָּשׁ. שְׁתֵּי מְחִיצּוֹת וְלֶחִי אֶחָד — זֶהוּ מָבוֹי הַמְפוּלָּשׁ.

Disse-lhe Rabá: três paredes e uma travessa, chamas isso de "aberto"? E mais: segundo os Sábios, salvaríamos nele também alimentos e bebidas! Mas disse Rabá: duas paredes e duas travessas — isto é um beco não aberto. Duas paredes e uma travessa — isto é um beco aberto.

Nota

Rabá objeta à definição de Rav Chisda em dois pontos. Primeiro: um beco fechado em três dos seus lados, com apenas uma travessa na quarta abertura, não deveria de modo algum chamar-se "aberto" (mefulash) — termo que sugere passagem livre nas duas pontas. Segundo: se esse beco fosse realmente apenas "não totalmente fechado" (e não um beco passante de fato), então, segundo os Sábios (que ali permitem salvar o estojo do rolo), dever-se-ia também permitir salvar ali comida e bebida, como se permite num quintal unido por eiruv — mas a própria Mishná, adiante, distingue o caso do estojo do rolo (permitido no beco não passante) do caso da comida e bebida (permitido apenas num quintal unido por eiruv). Rabá então reformula por completo: um beco com apenas duas paredes, mas munido de duas travessas nas duas aberturas restantes, é "não aberto"; com apenas uma travessa, é "aberto" — uma definição mais exigente que a de Rav Chisda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "mefulash karit leih", "ve'od lerabanan" e "shtei mechitzot", "shnei lechayin"
מפולש קרית ליה - נהי נמי דבעי ר' אליעזר לחיים מיהו מפולש לא מיקרי: ועוד לרבנן - דאמרי לשאינו מפולש וקאמרת דהיינו מבוי הניתר בכל הלכותיו נציל לתוכן אף אוכלין ומשקין - כמו לחצר המעורבת ואמאי פלגינהו מהדדי דגבי ספר קתני למבוי שאינו מפולש וגבי אוכלין קתני להיכן מצילין אותן לחצר המעורבת דמשמע אבל למבוי לא: שתי מחיצות - מכאן ומכאן: שני לחיין - לחי לכל פתח ופתח:

"Chamas isso de 'aberto'" — ainda que Rabi Eliezer exija duas travessas, mesmo assim não se chama "aberto". "E mais, segundo os Sábios" — que dizem "para o não aberto", e tu afirmas que é isso o beco habilitado em todas as suas leis — "salvaríamos nele também alimentos e bebidas" — como num quintal unido por eiruv; e por que os distinguem entre si, ensinando, quanto ao rolo, "para o beco não aberto", e, quanto aos alimentos, "para onde se salvam? para o quintal unido por eiruv" — o que sugere que não se salvam no beco? "Duas paredes" — de um lado e de outro. "Duas travessas" — uma travessa para cada abertura.

658Ambos seguem Rabi Yehuda: quem tem duas casas nos lados opostos de um domínio público faz travessas ou vigas dos dois lados e carrega no meio; os Sábios rejeitam
A Guemará; Rabi Yehuda (baraita); os Sábios
וְתַרְוַיְיהוּ אַלִּיבָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה. דְּתַנְיָא, יָתֵר עַל כֵּן אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים בִּשְׁנֵי צִדֵּי רְשׁוּת הָרַבִּים — עוֹשֶׂה לֶחִי מִיכָּן וְלֶחִי מִיכָּן, אוֹ קוֹרָה מִיכָּן וְקוֹרָה מִיכָּן, וְנוֹשֵׂא וְנוֹתֵן בָּאֶמְצַע. אָמְרוּ לוֹ: אֵין מְעָרְבִין רְשׁוּת הָרַבִּים בְּכָךְ.

E ambos seguem a opinião de Rabi Yehuda. Como se ensina: mais ainda disse Rabi Yehuda: aquele que tem duas casas nos dois lados de um domínio público — faz uma travessa deste lado e uma travessa daquele lado, ou uma viga deste lado e uma viga daquele lado, e carrega e traz no meio. Disseram-lhe: não se une por eiruv um domínio público dessa forma.

Nota

Ambas as formulações de Rabá, explica a Guemará, seguem a posição lenient de Rabi Yehuda numa baraita: quem possui duas casas em lados opostos de um domínio público pode, segundo Rabi Yehuda, instalar uma travessa (ou uma viga) em cada lado do espaço entre elas e assim carregar objetos através do próprio domínio público — bastando, para tanto, apenas as duas paredes das casas mais as duas travessas ou vigas, sem exigir mais nada. Os Sábios rejeitam essa posição: um domínio público verdadeiro não se transforma em domínio privado por meio de simples travessas ou vigas, por mais que se pareça, nesse caso, com um beco de apenas duas paredes.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "alibba deRabi Yehuda"
אליבא דרבי יהודה - דאמר בשתי מחיצות סגי ושני לחיים ואתא בן בתירא למימר דלגבי ספר מודה ר' יהודה דסגי בחד דג' מחיצות הוו:

"Segundo a opinião de Rabi Yehuda" — que diz que bastam duas paredes e duas travessas; e Ben Beteira veio dizer que, quanto ao rolo, Rabi Yehuda concorda que basta uma travessa, pois ali, com a parede do próprio estojo, há três paredes.

659Abaie repete contra Rabá a mesma objeção: também segundo ele, segundo os Sábios, salvar-se-iam ali comida e bebida?
Abaie
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: לְדִידָךְ נָמֵי, לְרַבָּנַן נַצִּיל לְתוֹכוֹ אוֹכָלִין וּמַשְׁקִין?

Disse-lhe Abaie: também segundo ti, segundo os Sábios, salvaríamos nele alimentos e bebidas?

Nota

Abaie devolve contra a própria reformulação de Rabá a mesma objeção que este fizera antes contra Rav Chisda: se, segundo Rabá, ambas as formulações (duas paredes com duas travessas, ou com uma travessa) seguem a posição de Rabi Yehuda — que exige apenas duas paredes e duas travessas —, então, segundo os Sábios, que permitem ali salvar o estojo do rolo, dever-se-ia igualmente permitir salvar ali comida e bebida, como se permite num quintal unido por eiruv; mas a Mishná, mais adiante, volta a distinguir os dois casos. O daf termina aqui, em plena pergunta de Abaie, sem resposta registrada nesta parte — a Guemará prossegue diretamente, sem qualquer marca de encerramento de perek, em Shabbat 117b, ainda não publicado, onde Rav Ashi proporá uma terceira formulação (três paredes com uma travessa é não aberto; três paredes sem travessa alguma é aberto) que resolve definitivamente a dificuldade de Abaie.

O daf termina aqui, em plena pergunta de Abaie a Rabá sobre se, segundo a reformulação deste, também se deveria salvar comida e bebida no mesmo beco — a discussão prossegue diretamente, sem qualquer marca de encerramento de perek, em Shabbat 117b, ainda não publicado, onde Rav Ashi responde com uma terceira formulação do que caracteriza o beco aberto e o não aberto.