Shabbat 116a abre concluindo a explicação que 115b deixara interrompida: por que o próprio Santo, Bendito Seja, colocou sinais acima e abaixo da parashá de "Vayehi Binsoa HaAron". Rabi Yehuda HaNassi ensina que não é por causa do Nome (não é para marcar menções do Nome de D'us), mas porque essa parashá é considerada um livro à parte. A Guemará liga isso ao ensinamento de Rabi Shmuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan sobre o versículo "ela talhou suas sete colunas" (Provérbios 9:1) — referindo-se aos sete livros da Torá —, que segue a opinião de Rabi. Pergunta-se então quem é o tanna que discorda de Rabi: é Rabban Shimon ben Gamliel, que ensina, numa baraita, que essa parashá, no futuro, será removida daqui e escrita em seu lugar próprio; e por que foi escrita aqui? Para separar entre a primeira punição e a segunda — a segunda sendo "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1), a primeira sendo "partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), que Rabi Chama bar Rabi Chanina explica como "desviaram-se de após o Eterno". E onde seria seu lugar próprio? Rav Ashi diz: na parashá dos estandartes. Levanta-se então uma nova dúvida: as margens em branco (gilyonin) de um rolo da Torá salvam-se do incêndio? A Guemará traz quatro tentativas sucessivas de resolver essa dúvida — a partir da baraita sobre o rolo desgastado, da baraita sobre o rolo apagado, da mishná sobre a impureza ritual das mãos, e por fim de uma baraita sobre gilyonin e livros de hereges — que fecha a questão ao reinterpretar essa última baraita como referindo-se apenas às margens dos livros hereges, não às do rolo da Torá. Segue-se essa baraita por completo, em sua própria formulação: as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio, mas se queimam em seu lugar; Rabi Yosei diz que, em dia de semana, recortam-se e guardam-se as menções do Nome ali contidas, queimando-se o resto; Rabi Tarfon jura que, se esses livros chegassem às suas mãos, ele os queimaria com as próprias menções do Nome inclusas, pois prefere entrar numa casa de idolatria a entrar nas casas dos hereges — que conhecem a D'us e O negam, ao contrário dos idólatras, que não O conhecem —, aplicando-se a eles o versículo "atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" (Isaías 57:8). Rabi Yishmael acrescenta um kal vachomer: se, para fazer paz entre marido e mulher, a Torá manda que o Nome, escrito em santidade, seja apagado nas águas (da sota), quanto mais quanto aos que lançam ciúme, ódio e discórdia entre Israel e seu Pai nos Céus — citando o versículo de Davi (Salmos 139:21–22) — e, assim como não se salvam do incêndio, tampouco se salvam de desmoronamento, de água ou de qualquer coisa que os destrua. Segue-se a dúvida de Yossef bar Chanin a Rabi Abahu sobre os livros da casa de Avidan — resposta incerta de Rabi Abahu —, com as práticas distintas de Rav (que evitava tais casas), Shmuel (que ia à casa de Avidan mas não à casa de Nitzrefei, o templo do fogo persa), Rava (que se evadiu com um pretexto) e Mar bar Yosef (que dizia não temê-los, mas uma vez quase foi posto em perigo), e os apelidos que Rabi Meir ("Aven Gilyon") e Rabi Yochanan ("Avon Gilyon") davam a esses textos. O daf termina no início de um novo relato: Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer e irmã de Rabban Gamliel, e um certo filósofo que morava em sua vizinhança — interrompido logo no início, sem qualquer desenvolvimento, a continuar diretamente em Shabbat 116b.
Que este não é seu lugar. Rabi diz: não é por causa do Nome (que se colocaram estes sinais), mas sim porque essa parashá é considerada um livro à parte. Segundo quem se orienta aquilo que disse Rabi Shmuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan: "ela talhou suas sete colunas" (Provérbios 9:1) — estes são os sete livros da Torá? — Segundo Rabi.
115b terminara interrompido bem no meio da baraita sobre os sinais que cercam "Vayehi Binsoa HaAron" — "para dizer" —, sem que a razão fosse dada. Aqui 116a completa a frase: "que este não é seu lugar" — a parashá, tal como está posicionada, não pertence ao contexto imediato, pois a passagem anterior não trata das viagens do povo pelo deserto. Rabi Yehuda HaNassi esclarece então o propósito dos sinais: não servem para assinalar as letras do Nome de D'us ali contidas, mas para indicar que essa pequena parashá é considerada, por si só, um livro independente. A Guemará conecta isso a um ensinamento já conhecido: o versículo "ela talhou suas sete colunas" (referindo-se à Torá) é entendido como falando dos sete livros da Torá — o que exige contar "Vayehi Binsoa HaAron" como um livro à parte, dividindo assim o livro de Números em três partes (antes da parashá, a própria parashá, e depois dela) e chegando a sete no total com Gênesis, Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Esse cômputo de sete livros só faz sentido segundo a opinião de Rabi.
"Que este não é seu lugar" — pois não é adequado aqui, já que a passagem anterior não trata do andamento das viagens, mas sim (deveria constar) na parashá dos estandartes, onde seria adequado escrevê-la, na parashá de Bemidbar Sinai. "Não é por causa do Nome" — não é este o Nome, quanto ao propósito dos sinais, pois seu lugar (próprio) é no início da viagem em que partiram do Monte Sinai, como está escrito antes disso: "e foi, no segundo mês do segundo ano, aos vinte dias do mês, que a nuvem se levantou etc." "Sete livros da Torá" — pois essa parashá é um livro à parte; segue-se que a que está acima dela é um livro à parte, [e a que está abaixo dela é um livro à parte]; já que este é seu lugar (verdadeiro, e não onde está escrita), resulta que o livro de "Vaydaber" (Números) se divide em três livros.
Quem é o tanna que discorda de Rabi? É Rabban Shimon ben Gamliel. Como se ensina: Rabban Shimon ben Gamliel diz: no futuro, essa parashá será removida daqui e escrita em seu lugar (próprio). E por que a escreveram aqui? Para separar entre a primeira punição e a segunda punição. Qual é a segunda punição? — "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1). A primeira punição? — "e partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), e disse Rabi Chama bar Rabi Chanina: que se desviaram de após o Eterno. E onde é seu lugar? Disse Rav Ashi: na (parashá) dos estandartes.
Se, segundo Rabi, essa parashá é um livro à parte (e por isso está onde está), quem discorda — e sustentaria que ela deveria estar noutro lugar — é Rabban Shimon ben Gamliel, numa baraita: ele ensina que, no futuro (era messiânica), essa parashá será removida de onde está e escrita em seu verdadeiro lugar cronológico. Por que, então, foi escrita aqui, fora de ordem? Para servir de intervalo entre duas punições consecutivas do povo no deserto: a "primeira punição" — o versículo "partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), que Rabi Chama bar Rabi Chanina interpreta, por trocadilho ("mehar Hashem" / "me'acharei Hashem"), como "desviaram-se de após o Eterno" (afastando-se precipitadamente do Sinai, como quem foge da obrigação) — e a "segunda punição", o versículo seguinte, "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1), início do episódio dos que se queixaram e foram consumidos pelo fogo. Colocando "Vayehi Binsoa HaAron" entre as duas, evita-se a justaposição direta de duas punições. A Guemará pergunta então qual seria o lugar cronológico próprio dessa parashá, e Rav Ashi responde: na parashá dos estandartes (Números 2), onde se descreve a ordem de marcha do povo pelo deserto.
"No futuro, essa parashá" — no futuro, quando todas as punições estiverem anuladas, e (o povo) não se preocupará mais com punição, e o Instinto do Mal estará anulado. "De após o Eterno" — dentro de três dias de sua viagem, a ralé desejou um desejo de se queixar sobre a carne, a fim de se rebelar contra o Santo, Bendito Seja.
Perguntaram-se: as margens em branco de um rolo da Torá, salvam-nas do incêndio, ou não as salvam do incêndio? Venha e ouça: um rolo da Torá que se desgastou — se há nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — salva-se, e se não — não se salva. Mas por quê? Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco! Rolo desgastado é diferente.
Uma nova dúvida se levanta: as folhas ou margens em branco de um rolo da Torá — os espaços de pergaminho sem escrita — têm, por si mesmas, santidade suficiente para serem salvas do incêndio em Shabat, independentemente do texto escrito? A Guemará tenta primeiro resolver isso a partir da baraita já conhecida (de 115b) sobre o rolo desgastado que não alcança as oitenta e cinco letras: se as margens em branco tivessem santidade própria, bastaria salvá-lo por causa delas, sem depender da contagem de letras — mas a baraita implica que, sem as oitenta e cinco letras, não se salva. A Guemará rejeita essa prova: um rolo desgastado é um caso diferente, pois, uma vez desgastado, também suas margens perdem a santidade que tinham.
"As margens em branco" — pergaminhos vazios; e se pensa agora que a dúvida abrange todos os tipos de espaços vazios, como o vazio acima e abaixo (do texto), e aquele que se apagou e ficou vazio. "Rolo desgastado é diferente" — pois, uma vez desgastado, também a margem em branco se anula; a dúvida só existe quando as margens em branco permanecem intactas, mas apenas a escrita se foi.
Venha e ouça: um rolo da Torá que se apagou — se há nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — salva-se, e se não — não se salva. Mas por quê? Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco! O lugar da escrita (apagada) não é dúvida para mim, pois, quando é sagrado, é por causa da escrita que é sagrado; foi-se a escrita — foi-se sua santidade. Quando é dúvida para mim é quanto às (margens) de cima e de baixo, as que estão entre uma parashá e outra, as que estão entre uma página e outra, as que estão no início do rolo, as que estão no fim do rolo. E que se derive (que se salva) por causa daquilo! (A margem foi) cortada e jogada fora.
A Guemará tenta então uma segunda prova, a partir de uma baraita semelhante, mas sobre um rolo apagado (não desgastado pelo tempo, mas cujo texto foi apagado de propósito ou por acidente): mesmo aqui, a regra depende da contagem de oitenta e cinco letras, sem menção às margens. Por que não se deriva que se salva por causa da margem em branco? A Guemará esclarece que a própria pergunta original não se referia ao lugar onde a escrita foi apagada — pois ali é óbvio que, uma vez que a escrita (fonte da santidade) desapareceu, a santidade também desaparece —, mas sim às margens genuinamente em branco desde sempre: acima e abaixo do texto, entre uma parashá e outra, entre uma página e outra, no início e no fim do rolo. Mesmo assim, a baraita sobre o rolo apagado não ajuda a resolver essa dúvida, pois ali essas margens verdadeiras foram cortadas e descartadas, restando apenas o espaço onde estivera a escrita.
"Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco" — ou seja, todo o rolo da Torá. "O lugar da escrita" — que se apagou. "Não é dúvida para mim" — pois certamente diminuiu (a santidade), já que, quando foi santificado desde o início, não foi santificado como margem vazia, mas sim tendo em vista a escrita; e, uma vez que a escrita se foi, sua santidade se dissipou. "De cima e de baixo" — pois desde o início foram santificadas como (margem) vazia, e agora, quando a escrita do rolo se apaga, também aquele (lugar) se torna vazio (na mesma condição). "As que estão no início do rolo e no fim do rolo" — pois todos (os rolos) eram escritos como um pergaminho, como um rolo da Torá, e dizemos em Bava Batra, no primeiro capítulo (13b): seu início deve ter o suficiente para enrolar em torno de um bastão, seu fim o suficiente para enrolar de modo a cobrir todo o volume. Assim se lê: "e que se derive por causa daquilo que foi cortado e jogado fora" — e o sentido é este: que se derive que, ainda que não haja nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, deveria ter-se ensinado na baraita que se salva por causa daquele espaço de cima e de baixo; mas, ao contrário, infere-se dali que não se salva — e responde-se que (aquele espaço) foi cortado e jogado fora, restando apenas o lugar da escrita.
Venha e ouça: as margens em branco de cima e de baixo, as que estão entre uma parashá e outra, as que estão entre uma página e outra, as que estão no início do rolo, as que estão no fim do rolo — tornam impuras as mãos! Talvez, por estarem ligadas ao rolo da Torá (íntegro), seja diferente.
A terceira tentativa recorre a uma mishná (Yadayim 3:4-5) segundo a qual essas mesmas margens em branco tornam impuras as mãos que as tocam — decreto rabínico que se aplica normalmente apenas a textos sagrados —, o que sugeriria que elas têm santidade própria mesmo isoladas, e portanto se salvariam do incêndio. A Guemará rejeita também essa prova: talvez a impureza das mãos só se aplique quando essas margens ainda estão ligadas a um rolo da Torá íntegro e em uso — sendo, nesse caso, a santidade emprestada do rolo como um todo —, mas isso não prova que teriam santidade suficiente para serem salvas por si mesmas, isoladas.
"Torna impuras as mãos" — se (alguém) as tocou e depois tocou em teruma, invalida-a, pois é uma das dezoito decisões (dos Sábios) (Shabat 14a, acima). "Talvez, por estar ligado ao rolo da Torá, seja diferente" — quando a escrita do rolo não se apagou, mas está toda íntegra, e a pessoa tocou nas margens; enquanto nossa dúvida é sobre o rolo apagado, onde não há aqui santidade senão por causa da margem que o serviu enquanto estava íntegro.
Venha e ouça: as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio, mas sim se queimam em seu lugar, eles e suas menções (do Nome). Não se trataria, acaso, das margens em branco de um rolo da Torá? Não — das margens em branco dos livros dos hereges. Ora, os próprios livros dos hereges não se salvam — as margens em branco precisariam de menção? Isto é o que diz: e os livros dos hereges são como margens em branco.
A quarta tentativa parece, à primeira vista, resolver a dúvida diretamente: uma baraita que declara que "as margens em branco e os livros dos hereges" não se salvam do incêndio — implicando que se trata das margens em branco de um rolo da Torá comum, que não se salvariam. Mas a Guemará rejeita essa leitura: a baraita não fala das margens do rolo da Torá, mas das margens em branco dos próprios livros hereges — e então pergunta-se por que seria necessário mencionar isso separadamente, já que é óbvio que, se os próprios livros hereges não se salvam, muito menos suas margens vazias. A resposta final esclarece o sentido da baraita: ela não está listando dois itens (margens e livros), mas fazendo uma comparação — "os livros dos hereges são como margens em branco", isto é, não têm mais santidade do que um pergaminho vazio, precisamente porque contêm o Nome de D'us empregado para fins de heresia. A dúvida original sobre as margens do rolo da Torá permanece, assim, sem solução explícita nesta sugya.
"Livros dos hereges" — servidores da idolatria que escreveram para si Torá, Profetas e Ketuvim, em escrita assíria e na língua sagrada. "Os próprios livros dos hereges se salvam?" — em tom de espanto. "Os livros dos hereges são como margens em branco" — como pergaminhos vazios em que nunca se escreveu nada.
A própria (baraita): as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio. Rabi Yosei diz: em dia de semana, recorta-se as menções (do Nome) que há neles e guardam-se (numa gueniza), e o resto — queima-se. Disse Rabi Tarfon: que eu enterre meus filhos, se, quando eles vierem às minhas mãos, eu não os queimar, a eles e às menções (do Nome) que há neles. Pois mesmo que um homem o esteja perseguindo para matá-lo, e uma serpente correndo para picá-lo, entra-se numa casa de idolatria, e não se entra nas casas destes (hereges) — pois estes (idólatras) conhecem (a D'us) e O negam, enquanto aqueles (hereges) conhecem e negam. E sobre eles diz o versículo: "atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" (Isaías 57:8).
A Guemará retoma agora a baraita citada acima em sua formulação completa. Confirma-se que as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio em Shabat. Rabi Yosei acrescenta uma medida intermediária, aplicável em dia de semana (quando não há a restrição do Shabat): recortar as porções que contêm o Nome de D'us e guardá-las numa gueniza (depósito de textos sagrados desgastados), queimando apenas o restante. Rabi Tarfon, porém, jura de modo enfático que ele mesmo queimaria tais livros por inteiro, incluindo as menções do Nome ali contidas — indo além da posição de Rabi Yosei —, justificando-se com uma comparação surpreendente: prefere, em caso de perigo de vida, refugiar-se numa casa de idolatria a entrar nas casas destes hereges, pois os idólatras, ao menos, não conhecem a D'us e por isso O negam por ignorância, enquanto os hereges conhecem a verdade sobre D'us e mesmo assim a negam deliberadamente — uma traição mais grave. Aplica-se a eles o versículo de Isaías 57:8, que fala de aqueles que colocam a lembrança de D'us "atrás da porta e da mezuzá" — tratando-A com desprezo, como algo relegado e esquecido, apesar de ainda a recordarem.
"Recorta-se" — corta-se pedaços do pergaminho no lugar do Nome. "Pois mesmo que um homem o esteja perseguindo para matá-lo" — fala de si mesmo. "Pois estes (idólatras)" — os gentios que praticam idolatria não conhecem (a D'us), pois assim cresceram e assim seus pais os ensinaram. "Atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" — a lembrança está em tuas mãos, e não é esquecimento para ti, mas sim que me lançaste atrás da porta.
Disse Rabi Yishmael, um kal vachomer: e se, para fazer paz entre um homem e sua esposa, a Torá disse: Meu Nome, que foi escrito em santidade, que se apague nas águas — estes que lançam ciúme, e ódio, e rivalidade entre Israel e seu Pai que está nos Céus — quanto mais e mais (deve seu Nome ser apagado)! E sobre eles disse Davi: "Acaso não odiarei, ó Eterno, os que Te odeiam, e não brigarei com os que se levantam contra Ti? Com ódio extremo os odeio; tornaram-se para mim inimigos" (Salmos 139:21–22). E, assim como não se salvam do incêndio, tampouco se salvam de desmoronamento, nem de água, nem de qualquer coisa que os destrua.
Rabi Yishmael fortalece a posição de Rabi Tarfon com um raciocínio a fortiori (kal vachomer): no ritual da sota (mulher suspeita de adultério, Números 5), a própria Torá ordena que o Nome de D'us, escrito com santidade num pergaminho, seja apagado nas águas amargas — e isso apenas para restaurar a paz entre um homem e sua esposa. Se assim é permitido apagar o Nome por essa finalidade relativamente modesta, quanto mais se deve fazê-lo com os livros dos hereges, que ativamente semeiam ciúme, ódio e discórdia entre o povo de Israel e seu Pai nos Céus — uma ruptura muito mais grave do que uma briga conjugal. Cita-se o versículo de Davi (Salmos 139:21-22), que expressa ódio extremo por aqueles que odeiam a D'us. A baraita conclui, generalizando a regra: assim como esses livros não se salvam do incêndio em Shabat, tampouco se resgatam de um desmoronamento, de afogamento na água, ou de qualquer outra forma de destruição — em qualquer dia, não apenas em Shabat.
Perguntou Yossef bar Chanin a Rabi Abahu: estes livros da casa de Avidan — salvam-nos do incêndio, ou não os salvam? Sim, e não, e (a questão) ficou incerta em suas mãos. Rav não ia à casa de Avidan, e muito menos à casa de Nitzrefei. Shmuel, à casa de Nitzrefei não ia, mas à casa de Avidan ia. Disseram a Rava: por que motivo não vens à casa de Avidan? Disse-lhes: há uma certa tamareira no caminho, e ela me é difícil (de passar). (Disseram:) arranquemo-la! (Respondeu:) seu lugar (o buraco que restaria) me é difícil. Mar bar Yosef disse: eu sou dentre eles, e não temo a eles. Uma vez foi, e buscaram pô-lo em perigo. Rabi Meir costumava chamá-lo "Aven Gilyon" (margem da iniquidade). Rabi Yochanan costumava chamá-lo "Avon Gilyon" (margem da culpa).
Yossef bar Chanin traz uma dúvida adicional a Rabi Abahu sobre os livros da "casa de Avidan" — um local onde se debatiam questões de fé com hereges ou sectários, possivelmente usando textos sagrados judaicos nesses debates —: salvam-se do incêndio como os demais escritos sagrados, ou têm o status inferior dos livros hereges? Rabi Abahu não dá resposta definitiva, deixando a questão em aberto. A Guemará ilustra então, com anedotas, as diferentes atitudes dos Sábios diante desses locais de debate: Rav evitava totalmente tanto a "casa de Avidan" quanto a "casa de Nitzrefei" (um templo de fogo persa); Shmuel evitava apenas o templo de fogo, mas frequentava a casa de Avidan; Rava evitava a casa de Avidan mas se desculpava com um pretexto trivial (uma tamareira incômoda no caminho) em vez de admitir o motivo verdadeiro; Mar bar Yosef, mais confiante, dizia não temer os frequentadores desse lugar por ser "um deles" (talvez por familiaridade ou proximidade social) — mas uma vez que foi, quase correu perigo de vida, mostrando que a cautela dos outros Sábios era justificada. Por fim, registra-se como Rabi Meir e Rabi Yochanan se referiam de modo depreciativo, com trocadilhos, a esses textos ou a esse tipo de literatura sectária: "Aven Gilyon" e "Avon Gilyon" — ambos jogos de palavras pejorativos sobre a palavra "gilyon" (margem, folha), sugerindo iniquidade e culpa.
"Casa de Avidan" — livros que os hereges escreveram para si a fim de debater com Israel, e o lugar onde debatiam era chamado "bei Avidan". "Sim e não" — às vezes lhe dizia sim, às vezes lhe dizia não. "À casa de Nitzrefei" — (casa de) idolatria, e assim se chamava. "E me é difícil" — pois suas raízes formaram um monte, e afastar-se dele com esforço se torna difícil. "Disseram-lhe: arranquemo-la! Difícil me é seu lugar" — que ali restaria um buraco; ou, segundo outra versão, experimentou-o e seu cheiro lhe era difícil. E tudo isso porque Rav e Rava temiam ir à casa de Avidan, temendo que, ao debaterem, se levantassem contra eles e os matassem. "Sou dentre eles" — são meus conhecidos.
Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer, era irmã de Rabban Gamliel. Havia um certo filósofo em sua vizinhança —
Concluída a discussão sobre os livros de hereges e locais de debate religioso, a Guemará inicia um novo relato, introduzindo suas personagens: Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer (ben Hurcanus) e irmã de Rabban Gamliel (líder do Sinédrio), e um filósofo — presumivelmente um juiz ou sábio identificado com uma seita minoritária — que morava em sua vizinhança. O daf termina exatamente aqui, no início da apresentação dessas personagens, sem que o enredo do relato se desenvolva.
"Filósofo" — um herege (min).