Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
שֶׁאֵין זֶה מְקוֹמָהּ

Conclui-se a explicação dos sinais de Vayehi Binsoa HaAron; a dúvida sobre as margens em branco; gilyonin e livros de hereges; o kal vachomer de Rabi Yishmael; os livros da casa de Avidan; o início do relato de Ima Shalom e o filósofo

Shabbat 116a · continua diretamente de 115b · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 116a abre concluindo a explicação que 115b deixara interrompida: por que o próprio Santo, Bendito Seja, colocou sinais acima e abaixo da parashá de "Vayehi Binsoa HaAron". Rabi Yehuda HaNassi ensina que não é por causa do Nome (não é para marcar menções do Nome de D'us), mas porque essa parashá é considerada um livro à parte. A Guemará liga isso ao ensinamento de Rabi Shmuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan sobre o versículo "ela talhou suas sete colunas" (Provérbios 9:1) — referindo-se aos sete livros da Torá —, que segue a opinião de Rabi. Pergunta-se então quem é o tanna que discorda de Rabi: é Rabban Shimon ben Gamliel, que ensina, numa baraita, que essa parashá, no futuro, será removida daqui e escrita em seu lugar próprio; e por que foi escrita aqui? Para separar entre a primeira punição e a segunda — a segunda sendo "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1), a primeira sendo "partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), que Rabi Chama bar Rabi Chanina explica como "desviaram-se de após o Eterno". E onde seria seu lugar próprio? Rav Ashi diz: na parashá dos estandartes. Levanta-se então uma nova dúvida: as margens em branco (gilyonin) de um rolo da Torá salvam-se do incêndio? A Guemará traz quatro tentativas sucessivas de resolver essa dúvida — a partir da baraita sobre o rolo desgastado, da baraita sobre o rolo apagado, da mishná sobre a impureza ritual das mãos, e por fim de uma baraita sobre gilyonin e livros de hereges — que fecha a questão ao reinterpretar essa última baraita como referindo-se apenas às margens dos livros hereges, não às do rolo da Torá. Segue-se essa baraita por completo, em sua própria formulação: as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio, mas se queimam em seu lugar; Rabi Yosei diz que, em dia de semana, recortam-se e guardam-se as menções do Nome ali contidas, queimando-se o resto; Rabi Tarfon jura que, se esses livros chegassem às suas mãos, ele os queimaria com as próprias menções do Nome inclusas, pois prefere entrar numa casa de idolatria a entrar nas casas dos hereges — que conhecem a D'us e O negam, ao contrário dos idólatras, que não O conhecem —, aplicando-se a eles o versículo "atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" (Isaías 57:8). Rabi Yishmael acrescenta um kal vachomer: se, para fazer paz entre marido e mulher, a Torá manda que o Nome, escrito em santidade, seja apagado nas águas (da sota), quanto mais quanto aos que lançam ciúme, ódio e discórdia entre Israel e seu Pai nos Céus — citando o versículo de Davi (Salmos 139:21–22) — e, assim como não se salvam do incêndio, tampouco se salvam de desmoronamento, de água ou de qualquer coisa que os destrua. Segue-se a dúvida de Yossef bar Chanin a Rabi Abahu sobre os livros da casa de Avidan — resposta incerta de Rabi Abahu —, com as práticas distintas de Rav (que evitava tais casas), Shmuel (que ia à casa de Avidan mas não à casa de Nitzrefei, o templo do fogo persa), Rava (que se evadiu com um pretexto) e Mar bar Yosef (que dizia não temê-los, mas uma vez quase foi posto em perigo), e os apelidos que Rabi Meir ("Aven Gilyon") e Rabi Yochanan ("Avon Gilyon") davam a esses textos. O daf termina no início de um novo relato: Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer e irmã de Rabban Gamliel, e um certo filósofo que morava em sua vizinhança — interrompido logo no início, sem qualquer desenvolvimento, a continuar diretamente em Shabbat 116b.

Conclui-se: por que a parashá tem sinais — "não é este seu lugar" · לֹא מִן הַשֵּׁם הוּא זֶה

635Rabi: os sinais não são por causa do Nome, mas porque a parashá é um livro à parte; segundo Rabi, isso concorda com "sete colunas" — sete livros da Torá
Rabi Yehuda HaNassi; a Guemará
שֶׁאֵין זֶה מְקוֹמָהּ. רַבִּי אוֹמֵר: לֹא מִן הַשֵּׁם הוּא זֶה, אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁסֵּפֶר חָשׁוּב הוּא בִּפְנֵי עַצְמוֹ. כְּמַאן אָזְלָא הָא דְּאָמַר רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָן אָמַר רַבִּי יוֹנָתָן: ״חָצְבָה עַמּוּדֶיהָ שִׁבְעָה״, אֵלּוּ שִׁבְעָה סִפְרֵי תוֹרָה? — כְּמַאן כְּרַבִּי.

Que este não é seu lugar. Rabi diz: não é por causa do Nome (que se colocaram estes sinais), mas sim porque essa parashá é considerada um livro à parte. Segundo quem se orienta aquilo que disse Rabi Shmuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan: "ela talhou suas sete colunas" (Provérbios 9:1) — estes são os sete livros da Torá? — Segundo Rabi.

Nota

115b terminara interrompido bem no meio da baraita sobre os sinais que cercam "Vayehi Binsoa HaAron" — "para dizer" —, sem que a razão fosse dada. Aqui 116a completa a frase: "que este não é seu lugar" — a parashá, tal como está posicionada, não pertence ao contexto imediato, pois a passagem anterior não trata das viagens do povo pelo deserto. Rabi Yehuda HaNassi esclarece então o propósito dos sinais: não servem para assinalar as letras do Nome de D'us ali contidas, mas para indicar que essa pequena parashá é considerada, por si só, um livro independente. A Guemará conecta isso a um ensinamento já conhecido: o versículo "ela talhou suas sete colunas" (referindo-se à Torá) é entendido como falando dos sete livros da Torá — o que exige contar "Vayehi Binsoa HaAron" como um livro à parte, dividindo assim o livro de Números em três partes (antes da parashá, a própria parashá, e depois dela) e chegando a sete no total com Gênesis, Êxodo, Levítico e Deuteronômio. Esse cômputo de sete livros só faz sentido segundo a opinião de Rabi.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "she'ein zeh mekomah", "lo min hashem hu zeh" e "sheva sifrei Torah"
שאין זה מקומה - שאינה ראויה לכאן דלאו בהליכות מסעות משתעי לעיל מינה אלא בדגלים היתה ראויה ליכתב בפרשת במדבר סיני: לא מן השם הוא זה - לא זה השם של טעמי הסימניות דמקומה הוא דפרשה זו בתחלת מסע שנסעו מהר סיני איירי כדכתיב לעיל מיניה ויהי בחדש השני בשנה השנית בעשרים לחדש נעלה הענן וגו': ז' ספרי תורה - דפרשה זו ספר לעצמו נמצא שלמעלה ספר לעצמו [ושלמטה ספר לעצמו] הואיל וזה מקומה נמצא ספר וידבר נחלק לג' ספרים:

"Que este não é seu lugar" — pois não é adequado aqui, já que a passagem anterior não trata do andamento das viagens, mas sim (deveria constar) na parashá dos estandartes, onde seria adequado escrevê-la, na parashá de Bemidbar Sinai. "Não é por causa do Nome" — não é este o Nome, quanto ao propósito dos sinais, pois seu lugar (próprio) é no início da viagem em que partiram do Monte Sinai, como está escrito antes disso: "e foi, no segundo mês do segundo ano, aos vinte dias do mês, que a nuvem se levantou etc." "Sete livros da Torá" — pois essa parashá é um livro à parte; segue-se que a que está acima dela é um livro à parte, [e a que está abaixo dela é um livro à parte]; já que este é seu lugar (verdadeiro, e não onde está escrita), resulta que o livro de "Vaydaber" (Números) se divide em três livros.

636Quem discorda de Rabi é Rabban Shimon ben Gamliel: a parashá será removida e escrita em seu lugar próprio — para separar a primeira punição da segunda; Rav Ashi: seu lugar é na parashá dos estandartes
Rabban Shimon ben Gamliel; Rabi Chama bar Rabi Chanina; Rav Ashi
מַאן תַּנָּא דִּפְלִיג עֲלֵיהּ דְּרַבִּי — רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל הוּא. דְּתַנְיָא: רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: עֲתִידָה פָּרָשָׁה זוֹ שֶׁתֵּיעָקֵר מִכָּאן וְתִכָּתֵב בִּמְקוֹמָהּ. וְלָמָּה כְּתָבָהּ כָּאן — כְּדֵי לְהַפְסִיק בֵּין פּוּרְעָנוּת רִאשׁוֹנָה לְפוּרְעָנוּת שְׁנִיָּיה. פּוּרְעָנוּת שְׁנִיָּיה מַאי הִיא — ״וַיְהִי הָעָם כְּמִתְאוֹנְנִים״. פּוּרְעָנוּת רִאשׁוֹנָה — ״וַיִּסְעוּ מֵהַר ה׳״, וְאָמַר רַבִּי חָמָא בְּרַבִּי חֲנִינָא: שֶׁסָּרוּ מֵאַחֲרֵי ה׳. וְהֵיכָן מְקוֹמָהּ? אָמַר רַב אָשֵׁי: בַּדְּגָלִים.

Quem é o tanna que discorda de Rabi? É Rabban Shimon ben Gamliel. Como se ensina: Rabban Shimon ben Gamliel diz: no futuro, essa parashá será removida daqui e escrita em seu lugar (próprio). E por que a escreveram aqui? Para separar entre a primeira punição e a segunda punição. Qual é a segunda punição? — "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1). A primeira punição? — "e partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), e disse Rabi Chama bar Rabi Chanina: que se desviaram de após o Eterno. E onde é seu lugar? Disse Rav Ashi: na (parashá) dos estandartes.

Nota

Se, segundo Rabi, essa parashá é um livro à parte (e por isso está onde está), quem discorda — e sustentaria que ela deveria estar noutro lugar — é Rabban Shimon ben Gamliel, numa baraita: ele ensina que, no futuro (era messiânica), essa parashá será removida de onde está e escrita em seu verdadeiro lugar cronológico. Por que, então, foi escrita aqui, fora de ordem? Para servir de intervalo entre duas punições consecutivas do povo no deserto: a "primeira punição" — o versículo "partiram do monte do Eterno" (Números 10:33), que Rabi Chama bar Rabi Chanina interpreta, por trocadilho ("mehar Hashem" / "me'acharei Hashem"), como "desviaram-se de após o Eterno" (afastando-se precipitadamente do Sinai, como quem foge da obrigação) — e a "segunda punição", o versículo seguinte, "e o povo era como que a queixar-se" (Números 11:1), início do episódio dos que se queixaram e foram consumidos pelo fogo. Colocando "Vayehi Binsoa HaAron" entre as duas, evita-se a justaposição direta de duas punições. A Guemará pergunta então qual seria o lugar cronológico próprio dessa parashá, e Rav Ashi responde: na parashá dos estandartes (Números 2), onde se descreve a ordem de marcha do povo pelo deserto.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "atidah parashah zo" e "me'acharei Hashem"
עתידה פרשה זו - לעתיד שיהו כל הפורעניות בטלין ולא ידאגו לפורענות ויצר הרע בטל: מאחרי ה' - בתוך ג' ימים למסעם התאוו האספסוף תאוה להתרעם על הבשר כדי למרוד בהקב"ה:

"No futuro, essa parashá" — no futuro, quando todas as punições estiverem anuladas, e (o povo) não se preocupará mais com punição, e o Instinto do Mal estará anulado. "De após o Eterno" — dentro de três dias de sua viagem, a ralé desejou um desejo de se queixar sobre a carne, a fim de se rebelar contra o Santo, Bendito Seja.

A dúvida sobre as margens em branco do rolo da Torá · הַגִּלְיוֹנִין

637Dúvida: salvam-se as margens em branco do rolo? Primeira tentativa — a baraita do rolo desgastado; resposta: rolo desgastado é diferente
A Guemará
אִיבַּעְיָא לְהוּ: הַגִּלְיוֹנִין שֶׁל סֵפֶר תּוֹרָה, מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה אוֹ אֵין מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה? תָּא שְׁמַע: סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁבָּלָה, אִם יֵשׁ בּוֹ לְלַקֵּט שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּגוֹן פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן״ — מַצִּילִין, וְאִם לָאו אֵין מַצִּילִין. וְאַמַּאי, תִּיפּוֹק לֵיהּ מִשּׁוּם גִּילָּיוֹן דִּידֵיהּ! בָּלָה שָׁאנֵי.

Perguntaram-se: as margens em branco de um rolo da Torá, salvam-nas do incêndio, ou não as salvam do incêndio? Venha e ouça: um rolo da Torá que se desgastou — se há nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — salva-se, e se não — não se salva. Mas por quê? Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco! Rolo desgastado é diferente.

Nota

Uma nova dúvida se levanta: as folhas ou margens em branco de um rolo da Torá — os espaços de pergaminho sem escrita — têm, por si mesmas, santidade suficiente para serem salvas do incêndio em Shabat, independentemente do texto escrito? A Guemará tenta primeiro resolver isso a partir da baraita já conhecida (de 115b) sobre o rolo desgastado que não alcança as oitenta e cinco letras: se as margens em branco tivessem santidade própria, bastaria salvá-lo por causa delas, sem depender da contagem de letras — mas a baraita implica que, sem as oitenta e cinco letras, não se salva. A Guemará rejeita essa prova: um rolo desgastado é um caso diferente, pois, uma vez desgastado, também suas margens perdem a santidade que tinham.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hagilyonin" e "balah shani"
הגליונין - קלפים חלקים וקס"ד השתא דבכל צדדין שיהו חלקים קמיבעיא ליה כגון חלק שלמעלה ושלמטה ושנמחק כתבו ונעשה חלק: בלה שאני - דכיון שבלה אף הגליון בטל וכי מיבעיא ליה שהגליונין קיימים אלא שהכתב הלך:

"As margens em branco" — pergaminhos vazios; e se pensa agora que a dúvida abrange todos os tipos de espaços vazios, como o vazio acima e abaixo (do texto), e aquele que se apagou e ficou vazio. "Rolo desgastado é diferente" — pois, uma vez desgastado, também a margem em branco se anula; a dúvida só existe quando as margens em branco permanecem intactas, mas apenas a escrita se foi.

638Segunda tentativa — a baraita do rolo apagado; distinção entre o lugar da escrita e as margens acima/abaixo, entre parashiot e páginas
A Guemará
תָּא שְׁמַע: סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁנִּמְחַק, אִם יֵשׁ בּוֹ לְלַקֵּט שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּגוֹן פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן״ — מַצִּילִין, וְאִם לָאו — אֵין מַצִּילִין, וְאַמַּאי? תִּיפּוֹק לֵיהּ מִשּׁוּם גִּילָּיוֹן דִּידֵיהּ! מְקוֹם הַכְּתָב לָא קָמִיבַּעְיָא לִי, דְּכִי קָדוֹשׁ — אַגַּב כְּתָב הוּא דְּקָדוֹשׁ, אֲזַל כְּתָב — אֲזַלָא לַהּ קְדוּשְׁתֵּיהּ. כִּי קָמִיבַּעְיָא לִי שֶׁל מַעְלָה וְשֶׁל מַטָּה, שֶׁבֵּין פָּרָשָׁה לְפָרָשָׁה, שֶׁבֵּין דַּף לְדַף, שֶׁבִּתְחִלַּת הַסֵּפֶר, שֶׁבְּסוֹף הַסֵּפֶר. וְתִיפּוֹק לֵיהּ מִשּׁוּם הַהוּא! דְּגִיז וּשְׁדֵי.

Venha e ouça: um rolo da Torá que se apagou — se há nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — salva-se, e se não — não se salva. Mas por quê? Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco! O lugar da escrita (apagada) não é dúvida para mim, pois, quando é sagrado, é por causa da escrita que é sagrado; foi-se a escrita — foi-se sua santidade. Quando é dúvida para mim é quanto às (margens) de cima e de baixo, as que estão entre uma parashá e outra, as que estão entre uma página e outra, as que estão no início do rolo, as que estão no fim do rolo. E que se derive (que se salva) por causa daquilo! (A margem foi) cortada e jogada fora.

Nota

A Guemará tenta então uma segunda prova, a partir de uma baraita semelhante, mas sobre um rolo apagado (não desgastado pelo tempo, mas cujo texto foi apagado de propósito ou por acidente): mesmo aqui, a regra depende da contagem de oitenta e cinco letras, sem menção às margens. Por que não se deriva que se salva por causa da margem em branco? A Guemará esclarece que a própria pergunta original não se referia ao lugar onde a escrita foi apagada — pois ali é óbvio que, uma vez que a escrita (fonte da santidade) desapareceu, a santidade também desaparece —, mas sim às margens genuinamente em branco desde sempre: acima e abaixo do texto, entre uma parashá e outra, entre uma página e outra, no início e no fim do rolo. Mesmo assim, a baraita sobre o rolo apagado não ajuda a resolver essa dúvida, pois ali essas margens verdadeiras foram cortadas e descartadas, restando apenas o espaço onde estivera a escrita.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "tifok leih mishum gilayon didei", "makom hakhtav", "lo mibaya li", "shel ma'alah umatah", "shebitchilat hasefer usof hasefer" e "vetifok leih mishum hahu"
ותיפוק ליה משום גליון דידיה - דהיינו כל הספר תורה: מקום הכתב - שנמחק: לא מבעיא לי - דודאי מיגרע גרע דכי קדיש מעיקרא לאו לשם גליון חלק קדיש אלא אדעתא דכתב וכיון דאזל ליה כתב פקע מקדושתיה: של מעלה ומטה - דמתחלה לשם חלק קדיש והשתא כשנמחק כתב הספר נמי חלק הוא: שבתחלת הספר ושבסוף הספר - שכולן היו כתובין כמגילה כס"ת ואמרי' בב"ב בפ"ק (דף יג:) ראשו כדי לגול עמוד סופו כדי לגול היקף להקיף כל הכרך: ה"ג ותיפוק ליה משום ההוא דגייז ושדי - והכי פירושא ותיפוק לי' דאע"ג דאין בו כדי ללקט פ"ה אותיות הוה ליה למיתני בברייתא מצילין משום ההוא ריוח של מעלה ומטה אלא לאו פשוט מיניה דאין מצילין ומשני דגייז ושדי שנחתכו הגליונים ולא נשתייר בו אלא מקום הכתב:

"Que se derive (que se salva) por causa de sua própria margem em branco" — ou seja, todo o rolo da Torá. "O lugar da escrita" — que se apagou. "Não é dúvida para mim" — pois certamente diminuiu (a santidade), já que, quando foi santificado desde o início, não foi santificado como margem vazia, mas sim tendo em vista a escrita; e, uma vez que a escrita se foi, sua santidade se dissipou. "De cima e de baixo" — pois desde o início foram santificadas como (margem) vazia, e agora, quando a escrita do rolo se apaga, também aquele (lugar) se torna vazio (na mesma condição). "As que estão no início do rolo e no fim do rolo" — pois todos (os rolos) eram escritos como um pergaminho, como um rolo da Torá, e dizemos em Bava Batra, no primeiro capítulo (13b): seu início deve ter o suficiente para enrolar em torno de um bastão, seu fim o suficiente para enrolar de modo a cobrir todo o volume. Assim se lê: "e que se derive por causa daquilo que foi cortado e jogado fora" — e o sentido é este: que se derive que, ainda que não haja nele o suficiente para reunir oitenta e cinco letras, deveria ter-se ensinado na baraita que se salva por causa daquele espaço de cima e de baixo; mas, ao contrário, infere-se dali que não se salva — e responde-se que (aquele espaço) foi cortado e jogado fora, restando apenas o lugar da escrita.

639Terceira tentativa — a mishná sobre a impureza das mãos; resposta: pode ser diferente quando ligado ao rolo íntegro
A Guemará
תָּא שְׁמַע: הַגִּלְיוֹנִין שֶׁל מַעְלָה וְשֶׁל מַטָּה, שֶׁבֵּין פָּרָשָׁה לְפָרָשָׁה, שֶׁבֵּין דַּף לְדַף, שֶׁבִּתְחִלַּת הַסֵּפֶר, שֶׁבְּסוֹף הַסֵּפֶר — מְטַמְּאִין אֶת הַיָּדַיִם! דִילְמָא אַגַּב סֵפֶר תּוֹרָה שָׁאנֵי.

Venha e ouça: as margens em branco de cima e de baixo, as que estão entre uma parashá e outra, as que estão entre uma página e outra, as que estão no início do rolo, as que estão no fim do rolo — tornam impuras as mãos! Talvez, por estarem ligadas ao rolo da Torá (íntegro), seja diferente.

Nota

A terceira tentativa recorre a uma mishná (Yadayim 3:4-5) segundo a qual essas mesmas margens em branco tornam impuras as mãos que as tocam — decreto rabínico que se aplica normalmente apenas a textos sagrados —, o que sugeriria que elas têm santidade própria mesmo isoladas, e portanto se salvariam do incêndio. A Guemará rejeita também essa prova: talvez a impureza das mãos só se aplique quando essas margens ainda estão ligadas a um rolo da Torá íntegro e em uso — sendo, nesse caso, a santidade emprestada do rolo como um todo —, mas isso não prova que teriam santidade suficiente para serem salvas por si mesmas, isoladas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "metamé et hayadayim" e "dilma agav Sefer Torah shani"
מטמא את הידים - אם נגע בו ונגע בתרומה פוסלה דמגזירת י"ח דבר היא (לעיל שבת דף יד.): דילמא אגב ס"ת - שלא נמחק כתב הספר אלא כולו קיים וזה נגע בגליונים וכי מבעיא לן בנמחק הספר ואין כאן קדושה אלא משום גליון ששמשו בעודו קיים:

"Torna impuras as mãos" — se (alguém) as tocou e depois tocou em teruma, invalida-a, pois é uma das dezoito decisões (dos Sábios) (Shabat 14a, acima). "Talvez, por estar ligado ao rolo da Torá, seja diferente" — quando a escrita do rolo não se apagou, mas está toda íntegra, e a pessoa tocou nas margens; enquanto nossa dúvida é sobre o rolo apagado, onde não há aqui santidade senão por causa da margem que o serviu enquanto estava íntegro.

640Quarta tentativa, resolutiva — a baraita sobre gilyonin e livros de hereges; resposta final: refere-se apenas às margens dos livros hereges
A Guemará
תָּא שְׁמַע: הַגִּילְיוֹנִין וְסִפְרֵי מִינִין אֵין מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, אֶלָּא נִשְׂרָפִין בִּמְקוֹמָן הֵן וְאַזְכָּרוֹתֵיהֶן. מַאי לָאו, גִּלְיוֹנִין דְּסֵפֶר תּוֹרָה? לָא, גִּלְיוֹנִין דְּסִפְרֵי מִינִין. הַשְׁתָּא סִפְרֵי מִינִין גּוּפַיְיהוּ אֵין מַצִּילִין, גִּלְיוֹנִין מִבַּעְיָא? הָכִי קָאָמַר: וְסִפְרֵי מִינִין הֲרֵי הֵן כְּגִלְיוֹנִים.

Venha e ouça: as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio, mas sim se queimam em seu lugar, eles e suas menções (do Nome). Não se trataria, acaso, das margens em branco de um rolo da Torá? Não — das margens em branco dos livros dos hereges. Ora, os próprios livros dos hereges não se salvam — as margens em branco precisariam de menção? Isto é o que diz: e os livros dos hereges são como margens em branco.

Nota

A quarta tentativa parece, à primeira vista, resolver a dúvida diretamente: uma baraita que declara que "as margens em branco e os livros dos hereges" não se salvam do incêndio — implicando que se trata das margens em branco de um rolo da Torá comum, que não se salvariam. Mas a Guemará rejeita essa leitura: a baraita não fala das margens do rolo da Torá, mas das margens em branco dos próprios livros hereges — e então pergunta-se por que seria necessário mencionar isso separadamente, já que é óbvio que, se os próprios livros hereges não se salvam, muito menos suas margens vazias. A resposta final esclarece o sentido da baraita: ela não está listando dois itens (margens e livros), mas fazendo uma comparação — "os livros dos hereges são como margens em branco", isto é, não têm mais santidade do que um pergaminho vazio, precisamente porque contêm o Nome de D'us empregado para fins de heresia. A dúvida original sobre as margens do rolo da Torá permanece, assim, sem solução explícita nesta sugya.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "sifrei minin" e "usifrei haminin harei hen keglyonim"
ספרי מינין - משרתים לע"ז וכתבו להן תורה נביאים כתובים כתב אשורית ולשון הקודש: וספרי המינין גופייהו מצילין - בתמיה: ספרי המינין הרי הן כגליונים - כקלפים חלקים שלא נכתב בהם מעולם:

"Livros dos hereges" — servidores da idolatria que escreveram para si Torá, Profetas e Ketuvim, em escrita assíria e na língua sagrada. "Os próprios livros dos hereges se salvam?" — em tom de espanto. "Os livros dos hereges são como margens em branco" — como pergaminhos vazios em que nunca se escreveu nada.

A baraita completa: gilyonin e livros de hereges; Rabi Yosei; o juramento de Rabi Tarfon · אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי

641A baraita por completo: não se salvam; Rabi Yosei recorta e guarda as menções do Nome; o juramento de Rabi Tarfon; melhor entrar em casa de idolatria; o versículo de Isaías
Baraita; Rabi Yosei; Rabi Tarfon
גּוּפַהּ: הַגִּלְיוֹנִים וְסִפְרֵי מִינִין אֵין מַצִּילִין אוֹתָם מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: בַּחוֹל קוֹדֵר אֶת הָאַזְכָּרוֹת שֶׁבָּהֶן וְגוֹנְזָן, וְהַשְּׁאָר — שׂוֹרְפָן. אָמַר רַבִּי טַרְפוֹן: אֲקַפֵּחַ אֶת בָּנַי, שֶׁאִם יָבֹאוּ לְיָדִי שֶׁאֲנִי אֶשְׂרוֹף אוֹתָם וְאֶת הָאַזְכָּרוֹת שֶׁבָּהֶן. שֶׁאֲפִילּוּ אָדָם רוֹדֵף אַחֲרָיו לְהוֹרְגוֹ, וְנָחָשׁ רָץ לְהַכִּישׁוֹ, נִכְנָס לְבֵית עֲבוֹדָה זָרָה וְאֵין נִכְנָס לְבָתֵּיהֶן שֶׁל אֵלּוּ, שֶׁהַלָּלוּ מַכִּירִין וְכוֹפְרִין, וְהַלָּלוּ אֵין מַכִּירִין וְכוֹפְרִין. וַעֲלֵיהֶן הַכָּתוּב אוֹמֵר: ״אַחַר הַדֶּלֶת וְהַמְּזוּזָה שַׂמְתְּ זִכְרוֹנֵךְ״.

A própria (baraita): as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio. Rabi Yosei diz: em dia de semana, recorta-se as menções (do Nome) que há neles e guardam-se (numa gueniza), e o resto — queima-se. Disse Rabi Tarfon: que eu enterre meus filhos, se, quando eles vierem às minhas mãos, eu não os queimar, a eles e às menções (do Nome) que há neles. Pois mesmo que um homem o esteja perseguindo para matá-lo, e uma serpente correndo para picá-lo, entra-se numa casa de idolatria, e não se entra nas casas destes (hereges) — pois estes (idólatras) conhecem (a D'us) e O negam, enquanto aqueles (hereges) conhecem e negam. E sobre eles diz o versículo: "atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" (Isaías 57:8).

Nota

A Guemará retoma agora a baraita citada acima em sua formulação completa. Confirma-se que as margens em branco e os livros dos hereges não se salvam do incêndio em Shabat. Rabi Yosei acrescenta uma medida intermediária, aplicável em dia de semana (quando não há a restrição do Shabat): recortar as porções que contêm o Nome de D'us e guardá-las numa gueniza (depósito de textos sagrados desgastados), queimando apenas o restante. Rabi Tarfon, porém, jura de modo enfático que ele mesmo queimaria tais livros por inteiro, incluindo as menções do Nome ali contidas — indo além da posição de Rabi Yosei —, justificando-se com uma comparação surpreendente: prefere, em caso de perigo de vida, refugiar-se numa casa de idolatria a entrar nas casas destes hereges, pois os idólatras, ao menos, não conhecem a D'us e por isso O negam por ignorância, enquanto os hereges conhecem a verdade sobre D'us e mesmo assim a negam deliberadamente — uma traição mais grave. Aplica-se a eles o versículo de Isaías 57:8, que fala de aqueles que colocam a lembrança de D'us "atrás da porta e da mezuzá" — tratando-A com desprezo, como algo relegado e esquecido, apesar de ainda a recordarem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "koder", "she'afilu adam rodef acharav lehorgo", "shehalalu" e "ve'achar hadelet vehamezuzah samt zikhronech"
קודר - חותך חתיכות הקלף מקום השם: שאפי' רודף אדם להורגו - על עצמו קאמר: שהללו - נכרים העובדים ע"ז אינן מכירין שהרי בכך גדלו וכך למדום אבותם: ואחר הדלת והמזוזה שמת זכרונך - זכרון הוא בידך ואינה שכחה לך אלא שהשלכת אותי אחרי הדלת:

"Recorta-se" — corta-se pedaços do pergaminho no lugar do Nome. "Pois mesmo que um homem o esteja perseguindo para matá-lo" — fala de si mesmo. "Pois estes (idólatras)" — os gentios que praticam idolatria não conhecem (a D'us), pois assim cresceram e assim seus pais os ensinaram. "Atrás da porta e da mezuzá puseste tua memória" — a lembrança está em tuas mãos, e não é esquecimento para ti, mas sim que me lançaste atrás da porta.

O kal vachomer de Rabi Yishmael · קַל וָחוֹמֶר

642Rabi Yishmael: se o Nome se apaga nas águas da sota para fazer paz entre marido e mulher, quanto mais quanto aos que semeiam ódio entre Israel e seu Pai — e não se salvam de nada que os destrua
Rabi Yishmael
אָמַר רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, קַל וָחוֹמֶר: וּמָה לַעֲשׂוֹת שָׁלוֹם בֵּין אִישׁ לְאִשְׁתּוֹ אָמְרָה תּוֹרָה: שְׁמִי שֶׁנִּכְתַּב בִּקְדוּשָּׁה יִמָּחֶה עַל הַמַּיִם, הַלָּלוּ שֶׁמְּטִילִין קִנְאָה וְאֵיבָה וְתַחֲרוּת בֵּין יִשְׂרָאֵל לַאֲבִיהֶן שֶׁבַּשָּׁמַיִם — עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה. וַעֲלֵיהֶם אָמַר דָּוִד: ״הֲלֹא מְשַׂנְאֶיךָ ה׳ אֶשְׂנָא וּבִתְקוֹמְמֶיךָ אֶתְקוֹטָט תַּכְלִית שִׂנְאָה שְׂנֵאתִים לְאוֹיְבִים הָיוּ לִי״. וּכְשֵׁם שֶׁאֵין מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, כָּךְ אֵין מַצִּילִין אוֹתָן לֹא מִן הַמַּפּוֹלֶת וְלֹא מִן הַמַּיִם וְלֹא מִדָּבָר הַמְאַבְּדָן.

Disse Rabi Yishmael, um kal vachomer: e se, para fazer paz entre um homem e sua esposa, a Torá disse: Meu Nome, que foi escrito em santidade, que se apague nas águas — estes que lançam ciúme, e ódio, e rivalidade entre Israel e seu Pai que está nos Céus — quanto mais e mais (deve seu Nome ser apagado)! E sobre eles disse Davi: "Acaso não odiarei, ó Eterno, os que Te odeiam, e não brigarei com os que se levantam contra Ti? Com ódio extremo os odeio; tornaram-se para mim inimigos" (Salmos 139:21–22). E, assim como não se salvam do incêndio, tampouco se salvam de desmoronamento, nem de água, nem de qualquer coisa que os destrua.

Nota

Rabi Yishmael fortalece a posição de Rabi Tarfon com um raciocínio a fortiori (kal vachomer): no ritual da sota (mulher suspeita de adultério, Números 5), a própria Torá ordena que o Nome de D'us, escrito com santidade num pergaminho, seja apagado nas águas amargas — e isso apenas para restaurar a paz entre um homem e sua esposa. Se assim é permitido apagar o Nome por essa finalidade relativamente modesta, quanto mais se deve fazê-lo com os livros dos hereges, que ativamente semeiam ciúme, ódio e discórdia entre o povo de Israel e seu Pai nos Céus — uma ruptura muito mais grave do que uma briga conjugal. Cita-se o versículo de Davi (Salmos 139:21-22), que expressa ódio extremo por aqueles que odeiam a D'us. A baraita conclui, generalizando a regra: assim como esses livros não se salvam do incêndio em Shabat, tampouco se resgatam de um desmoronamento, de afogamento na água, ou de qualquer outra forma de destruição — em qualquer dia, não apenas em Shabat.

Os livros da casa de Avidan · סִפְרֵי דְבֵי אֲבִידָן

643Dúvida de Yossef bar Chanin a Rabi Abahu, sem resposta clara; as práticas distintas de Rav, Shmuel, Rava e Mar bar Yosef; os apelidos de Rabi Meir e Rabi Yochanan
Yossef bar Chanin; Rabi Abahu; Rav; Shmuel; Rava; Mar bar Yosef
בָּעֵי מִינֵּיהּ יוֹסֵף בַּר חָנִין מֵרַבִּי אֲבָהוּ: הָנֵי סִפְרֵי דְבֵי אֲבִידָן, מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה אוֹ אֵין מַצִּילִין? אִין וְלָאו וְרַפְיָא בִּידֵיהּ. רַב לָא אָזֵיל לְבֵי אֲבִידָן, וְכׇל שֶׁכֵּן לְבֵי נִצְרְפֵי. שְׁמוּאֵל לְבֵי נִצְרְפֵי לָא אָזֵיל, לְבֵי אֲבִידָן אָזֵיל. אֲמַרוּ לֵיהּ לְרָבָא: מַאי טַעְמָא לָא אָתֵית לְבֵי אֲבִידָן? אֲמַר לְהוּ: דִּיקְלָא פְּלָנְיָא אִיכָּא בְּאוֹרְחָא, וְקָשֵׁי לִי. נִיעְקְרֵיהּ. דּוּכְתֵּיהּ קָשֵׁי לִי. מָר בַּר יוֹסֵף אָמַר: אֲנָא מִינַּיְיהוּ אֲנָא, וְלָא מִסְתְּפֵינָא מִינַּיְיהוּ. זִימְנָא חֲדָא אֲזַל, בְּעוֹ לְסַכּוֹנֵיהּ. רַבִּי מֵאִיר הֲוָה קָרֵי לֵיהּ ״אָוֶון גִּלְיוֹן״. רַבִּי יוֹחָנָן הֲוָה קָרֵי לֵיהּ ״עֲווֹן גִּלְיוֹן״.

Perguntou Yossef bar Chanin a Rabi Abahu: estes livros da casa de Avidan — salvam-nos do incêndio, ou não os salvam? Sim, e não, e (a questão) ficou incerta em suas mãos. Rav não ia à casa de Avidan, e muito menos à casa de Nitzrefei. Shmuel, à casa de Nitzrefei não ia, mas à casa de Avidan ia. Disseram a Rava: por que motivo não vens à casa de Avidan? Disse-lhes: há uma certa tamareira no caminho, e ela me é difícil (de passar). (Disseram:) arranquemo-la! (Respondeu:) seu lugar (o buraco que restaria) me é difícil. Mar bar Yosef disse: eu sou dentre eles, e não temo a eles. Uma vez foi, e buscaram pô-lo em perigo. Rabi Meir costumava chamá-lo "Aven Gilyon" (margem da iniquidade). Rabi Yochanan costumava chamá-lo "Avon Gilyon" (margem da culpa).

Nota

Yossef bar Chanin traz uma dúvida adicional a Rabi Abahu sobre os livros da "casa de Avidan" — um local onde se debatiam questões de fé com hereges ou sectários, possivelmente usando textos sagrados judaicos nesses debates —: salvam-se do incêndio como os demais escritos sagrados, ou têm o status inferior dos livros hereges? Rabi Abahu não dá resposta definitiva, deixando a questão em aberto. A Guemará ilustra então, com anedotas, as diferentes atitudes dos Sábios diante desses locais de debate: Rav evitava totalmente tanto a "casa de Avidan" quanto a "casa de Nitzrefei" (um templo de fogo persa); Shmuel evitava apenas o templo de fogo, mas frequentava a casa de Avidan; Rava evitava a casa de Avidan mas se desculpava com um pretexto trivial (uma tamareira incômoda no caminho) em vez de admitir o motivo verdadeiro; Mar bar Yosef, mais confiante, dizia não temer os frequentadores desse lugar por ser "um deles" (talvez por familiaridade ou proximidade social) — mas uma vez que foi, quase correu perigo de vida, mostrando que a cautela dos outros Sábios era justificada. Por fim, registra-se como Rabi Meir e Rabi Yochanan se referiam de modo depreciativo, com trocadilhos, a esses textos ou a esse tipo de literatura sectária: "Aven Gilyon" e "Avon Gilyon" — ambos jogos de palavras pejorativos sobre a palavra "gilyon" (margem, folha), sugerindo iniquidade e culpa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bei Avidan", "ein velav", "lebei Nitzrefei" e "vekashei li"
דבי אבידן - ספרים שכתבו להם המינין להתווכח עם ישראל ומקום שמתווכחים שם קרי ליה בי אבידן: אין ולא - זימנין אמר ליה אין זימנין א"ל לא: לבי נצרפי - ע"ז וכך שמה: וקשה לי - ששורשן נעשו גבשושית ולדחותם בקש בא: אמרי ליה ניעקריה קשה לי דוכתיה - שתהא שם גומא אי נמי נסיתיו וקשה לי ריחו וכל זה שהיו מתייראין רב ורבא מלכת לבי אבידן שמא מתוך שיתווכחו יעמדו עליהם ויהרגום: מינייהו אנא - מכירי הם:

"Casa de Avidan" — livros que os hereges escreveram para si a fim de debater com Israel, e o lugar onde debatiam era chamado "bei Avidan". "Sim e não" — às vezes lhe dizia sim, às vezes lhe dizia não. "À casa de Nitzrefei" — (casa de) idolatria, e assim se chamava. "E me é difícil" — pois suas raízes formaram um monte, e afastar-se dele com esforço se torna difícil. "Disseram-lhe: arranquemo-la! Difícil me é seu lugar" — que ali restaria um buraco; ou, segundo outra versão, experimentou-o e seu cheiro lhe era difícil. E tudo isso porque Rav e Rava temiam ir à casa de Avidan, temendo que, ao debaterem, se levantassem contra eles e os matassem. "Sou dentre eles" — são meus conhecidos.

Início do relato: Ima Shalom e o filósofo · אִימָּא שָׁלוֹם

644Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer e irmã de Rabban Gamliel; um filósofo em sua vizinhança — início do relato, sem conclusão
A Guemará
אִימָּא שָׁלוֹם, דְּבֵיתְהוּ דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, אֲחָתֵיהּ דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל הֲוַאי. הֲוָה הָהוּא פִילוֹסְפָא בְּשִׁבָבוּתֵיהּ

Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer, era irmã de Rabban Gamliel. Havia um certo filósofo em sua vizinhança —

Nota

Concluída a discussão sobre os livros de hereges e locais de debate religioso, a Guemará inicia um novo relato, introduzindo suas personagens: Ima Shalom, esposa de Rabi Eliezer (ben Hurcanus) e irmã de Rabban Gamliel (líder do Sinédrio), e um filósofo — presumivelmente um juiz ou sábio identificado com uma seita minoritária — que morava em sua vizinhança. O daf termina exatamente aqui, no início da apresentação dessas personagens, sem que o enredo do relato se desenvolva.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "pilosofa"
פילוסופא - מין:

"Filósofo" — um herege (min).

O daf termina aqui, no início do relato de Ima Shalom e do filósofo que morava em sua vizinhança — "הֲוָה הָהוּא פִילוֹסְפָא בְּשִׁבָבוּתֵיהּ" (havia um certo filósofo em sua vizinhança —), sem qualquer desenvolvimento do enredo. A continuação — sobre a reputação desse filósofo de não aceitar suborno, e o estratagema com que Ima Shalom e Rabi Eliezer o testam — é o ponto de partida de Shabbat 116b.