Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin (Kol Kitvei HaKodesh), continuação
כׇּל כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ

Resolve-se "quem são os tannaim"; bênçãos e amuletos não se salvam; o escriba de Sidon; tintas que não perduram; um rolo sem oitenta e cinco letras; letras justapostas ou dispersas; os sinais de Vayehi Binsoa HaAron

Shabbat 115b · continua diretamente de 115a · Perek Tet-Zayin, Kol Kitvei HaKodesh

Shabbat 115b abre resolvendo exatamente a pergunta que 115a deixara interrompida — "quem são os tannaim" que disputam, numa baraita, a posição de Rav Huna sobre escritos sagrados em língua estrangeira. A Guemará rejeita a primeira hipótese (o primeiro tanna contra Rabi Yosei, pois talvez discordem por outro motivo, sem relação com a disputa de Rav Huna e Rav Chisda) e conclui que se trata de Rabi Yosei contra o tanna que fala de escritos em cóptico. Segue-se uma nova baraita: as bênçãos (fórmulas litúrgicas) e os amuletos, ainda que contenham letras do Nome de D'us e muitos assuntos da Torá, não se salvam do incêndio em Shabat, mas se queimam em seu próprio lugar, junto com suas menções do Nome — daí se disse que quem escreve bênçãos é como quem queima a Torá. Ilustra-se isso com o caso de um escriba que trabalhava em Tsaidan (Sidon): ao saberem disso, foram informar Rabi Yishmael, que foi verificar; ao senti-lo subindo pela escada, o escriba submergiu às pressas um volume de bênçãos numa bacia de água, e Rabi Yishmael lhe disse que a punição por esse último ato era maior que a da escrita original. A Guemará traz então a dúvida do Resh Galuta (Exilarca) a Rabá bar Rav Huna sobre escritos sagrados feitos com tintas que não perduram — sam, sicra, goma, sulfato de ferro —, mesmo na língua sagrada; a resposta inicial, "não se salvam", é contestada por uma baraita de Rav Hamnuna que diz o contrário, e Rav Ashi esclarece a questão a partir da diferença, ensinada numa baraita, entre os livros bíblicos (que podem ser escritos em qualquer língua) e a Meguilá de Ester (que exige escrita assíria, pergaminho e tinta). Rav Huna bar Chaluv pergunta então a Rav Nachman sobre um rolo da Torá do qual não se possa reunir oitenta e cinco letras completas — como as da parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" —, recebendo a resposta de que não se salva; uma objeção baseada numa baraita sobre targum escrito como texto, texto escrito como targum, e escrita hebraica antiga — incluindo o versículo aramaico "Yegar Sahadutá" (Gênesis 31:47), que por si só não teria oitenta e cinco letras — é resolvida como um caso de completar a contagem. Levanta-se então uma nova dúvida: essas oitenta e cinco letras devem estar justapostas, ou podem estar dispersas? Rav Huna diz que devem estar juntas; Rav Chisda, que mesmo dispersas bastam; uma objeção de uma baraita sobre rolo desgastado é resolvida por Rav Chisda com a noção de que a "reunião" se dá por palavras inteiras, não por letras isoladas. O daf termina interrompido no meio de uma baraita final, que relaciona os sinais que o próprio Santo, Bendito Seja, colocou acima e abaixo da parashá de "Vayehi Binsoa HaAron", a continuar diretamente em Shabbat 116a.

Guemará: resolve-se "quem são os tannaim" — Rabi Yosei e o tanna do cóptico · אִילֵּימָא תַּנָּא קַמָּא

628Rejeita-se a hipótese do primeiro tanna contra Rabi Yosei; conclui-se que a disputa é entre Rabi Yosei e o tanna do cóptico
A Guemará
אִילֵּימָא תַּנָּא קַמָּא דְּרַבִּי יוֹסֵי — וְדִילְמָא בְּהָא קָמִיפַּלְגִי, מָר סָבַר: נִיתְּנוּ לִקְרוֹת בָּהֶן, וּמָר סָבַר: לֹא נִיתְּנוּ לִקְרוֹת בָּהֶן. אֶלָּא רַבִּי יוֹסֵי וְתַנָּא דְּגִיפְטִית.

Se dirás que é o primeiro tanna, em disputa com Rabi Yosei — mas talvez discordem quanto a isto: este Mestre entende que foi permitido lê-los (nessas línguas), e aquele Mestre entende que não foi permitido lê-los — e sua disputa nada teria a ver com a de Rav Huna e Rav Chisda. Mas sim, é (a disputa entre) Rabi Yosei e o tanna que fala do cóptico.

Nota

115a terminara exatamente no início da pergunta "quem são os tannaim" — quais tannaim, entre os mencionados na baraita anterior, sustentam a posição de Rav Chisda (salvam-se) e quais sustentam a de Rav Huna (não se salvam). A Guemará propõe primeiro que se trate do primeiro tanna (que não distingue entre línguas) contra Rabi Yosei (que proíbe salvar em língua estrangeira), mas rejeita essa hipótese: é possível que os dois discordem por um motivo totalmente diferente — se é permitido, em princípio, ler tais escritos —, uma disputa que nada tem a ver com a de Rav Huna e Rav Chisda (que só se aplica segundo quem proíbe a leitura). Conclui-se, portanto, que a disputa relevante é entre Rabi Yosei e o tanna da segunda baraita, que trata de escritos em cóptico e outras línguas específicas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "eilema tana kama" e "dilma"
אילימא ת"ק - כרב חסדא ור' יוסי כרב הונא: דילמא - טעמא דת"ק משום דקסבר ניתנו לקרות בהן ונהי דר' יוסי קאי כרב הונא מיהו כרב חסדא לא קאי ולא חד דהא רב חסדא אפי' למ"ד לא ניתנו קאמר מצילין:

"Se dirás que é o primeiro tanna" — (sustentaria) como Rav Chisda, e Rabi Yosei, como Rav Huna. "Mas talvez" — o motivo do primeiro tanna seja que ele entende que foi permitido lê-los; e, embora Rabi Yosei esteja de acordo com Rav Huna, ainda assim não está de acordo com nenhum dos dois quanto a Rav Chisda, pois Rav Chisda diz que, mesmo segundo quem sustenta que não foi permitido lê-los, salvam-se.

Bênçãos e amuletos não se salvam do incêndio; o caso do escriba de Sidon · הַבְּרָכוֹת וְהַקְּמֵיעִין

629Baraita: bênçãos e amuletos não se salvam, mas se queimam em seu lugar; quem os escreve é como quem queima a Torá; o escriba de Sidon e Rabi Yishmael
Baraita; Rabi Yishmael
תָּנוּ רַבָּנַן: הַבְּרָכוֹת וְהַקְּמֵיעִין, אַף עַל פִּי שֶׁיֵּשׁ בָּהֶן אוֹתִיּוֹת שֶׁל שֵׁם וּמֵעִנְיָינוֹת הַרְבֵּה שֶׁבַּתּוֹרָה — אֵין מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, אֶלָּא נִשְׂרָפִים בִּמְקוֹמָן [הֵן וְאַזְכָּרוֹתֵיהֶן]. מִכָּאן אָמְרוּ: כּוֹתְבֵי בְרָכוֹת כְּשׂוֹרְפֵי תוֹרָה. מַעֲשֶׂה בְּאֶחָד שֶׁהָיָה כּוֹתֵב בְּצַיְדָּן, בָּאוּ וְהוֹדִיעוּ אֶת רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, וְהָלַךְ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל לְבוֹדְקוֹ. כְּשֶׁהָיָה עוֹלֶה בַּסּוּלָּם הִרְגִּישׁ בּוֹ, נָטַל טוֹמוֹס שֶׁל בְּרָכוֹת וְשִׁקְּעָן בְּסֵפֶל שֶׁל מַיִם. וּבַלָּשׁוֹן הַזֶּה אָמַר לוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: גָּדוֹל עוֹנֶשׁ הָאַחֲרוֹן מִן הָרִאשׁוֹן.

Ensinaram os Sábios: as bênçãos e os amuletos, ainda que neles haja letras do Nome (de D'us) e muitos assuntos que estão na Torá — não se salvam do incêndio, mas sim se queimam em seu lugar [eles e suas menções do Nome]. Daqui disseram: os que escrevem bênçãos são como os que queimam a Torá. Houve um caso com alguém que escrevia (bênçãos) em Tsaidan (Sidon); vieram e informaram a Rabi Yishmael, e Rabi Yishmael foi examiná-lo. Quando (Rabi Yishmael) estava subindo pela escada, (o escriba) percebeu-o, tomou um volume de bênçãos e o submergiu numa bacia de água. E com estas palavras disse-lhe Rabi Yishmael: maior é a punição do último (ato) do que a do primeiro.

Nota

Esta baraita traz uma exceção importante à regra da Mishná: bênçãos litúrgicas (como as fórmulas cunhadas pelos Sábios) e amuletos, mesmo contendo letras do Nome de D'us e trechos inteiros da Torá, não podem ser salvos de um incêndio em Shabat — ao contrário dos escritos sagrados propriamente ditos —, mas devem queimar-se em seu próprio lugar, junto com as menções do Nome ali contidas. Daí a máxima: quem escreve tais bênçãos é equiparado a quem queima a Torá, pois sabe de antemão que, se pegarem fogo em Shabat, não poderá salvá-las. A Guemará ilustra com um caso real: um escriba trabalhava em Tsaidan (Sidon) produzindo tais textos; ao saber disso, Rabi Yishmael foi pessoalmente verificar a denúncia. Percebendo a aproximação de Rabi Yishmael enquanto este subia a escada, o escriba tentou ocultar as provas submergindo às pressas um volume de bênçãos numa bacia de água — um ato de destruição ativa do Nome de D'us, ainda mais grave do que a escrita indevida original, como lhe disse Rabi Yishmael.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ume'inyanot harbe", "haberachot", "nisrafin bimkoman", "kesorfei Torah", "livodko" e "tomos"
ומעניינות הרבה - מפרשיות שהיו כותבין בקמיעין פסוקים ללחש כגון כל המחלה וכגון לא תירא מפחד לילה: הברכות - מטבע ברכות שטבעו חכמים כגון י"ח ושאר ברכות: נשרפין במקומן - אם נפלה דליקה בשבת: כשורפי תורה - שהרי לא יצילם בשבת: לבודקו - אם אמת היה הדבר: טומוס - קבוצות קונטריסים:

"E muitos assuntos" — das passagens que se costumava escrever nos amuletos, versículos para encantamento, como "toda a doença" (Êxodo 15:26) e como "não temerás o pavor da noite" (Salmos 91:5). "As bênçãos" — a fórmula das bênçãos que os Sábios cunharam, como as Dezoito (bênçãos da Amidá) e as demais bênçãos. "Queimam-se em seu lugar" — se caiu um incêndio em Shabat. "Como os que queimam a Torá" — pois não os salvará em Shabat. "Para examiná-lo" — se a coisa era verdadeira. "Volume (tomos)" — conjuntos de cadernos.

Dúvida do Resh Galuta a Rabá bar Rav Huna: tintas que não perduram · הָיוּ כְּתוּבִין בְּסַם

630Dúvida sobre escritos com tintas que não perduram; resposta "não se salvam"; contestação de Rav Hamnuna; Rav Ashi esclarece com a baraita sobre livros e Meguilá
Resh Galuta; Rabá bar Rav Huna; Rav Hamnuna; Rav Ashi
בְּעָא מִינֵּיהּ רֵישׁ גָּלוּתָא מֵרַבָּה בַּר רַב הוּנָא: הָיוּ כְּתוּבִין בְּסַם וּבְסִיקְרָא בְּקוֹמוֹס וּבְקַנְקַנְתּוֹם, בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ, מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה אוֹ אֵין מַצִּילִין? תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר מַצִּילִין, תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר אֵין מַצִּילִין. תִּיבְּעֵי לְמַאן דְּאָמַר אֵין מַצִּילִין — הָנֵי מִילֵּי הֵיכָא דִּכְתִיבִי תַּרְגּוּם וּבְכָל לָשׁוֹן, אֲבָל הָכָא דִּכְתִיבִי בִּלְשׁוֹן הַקֹּדֶשׁ — מַצִּילִין, אוֹ דִילְמָא אֲפִילּוּ לְמַאן דְּאָמַר מַצִּילִין — הָנֵי מִילֵּי הֵיכָא דִּכְתִיבִי בִּדְיוֹ דְּמִיקַּיַּים, אֲבָל הָכָא כֵּיוָן דְּלָא מִיקַּיַּים — לָא. אֲמַר לֵיהּ: אֵין מַצִּילִין. וְהָא רַב הַמְנוּנָא תָּנָא מַצִּילִין! אֲמַר לֵיהּ: אִי תַּנְיָא — תַּנְיָא. מַאי תַּנְיָא? אָמַר רַב אָשֵׁי, כִּדְתַנְיָא: אֵין בֵּין סְפָרִים לִמְגִילָּה אֶלָּא שֶׁהַסְּפָרִים נִכְתָּבִים בְּכׇל לָשׁוֹן, וּמְגִילָּה עַד שֶׁתְּהֵא כְּתוּבָה אַשּׁוּרִית, עַל הַסֵּפֶר, וּבִדְיוֹ.

Perguntou o Resh Galuta (Exilarca) a Rabá bar Rav Huna: se estavam escritos com sam (pigmento amarelado) e com sicra (tinta vermelha), com goma e com sulfato de ferro, na língua sagrada — salvam-nos do incêndio, ou não os salvam? A dúvida se levanta segundo quem diz que se salvam (escritos em outra língua); a dúvida se levanta segundo quem diz que não se salvam. A dúvida se levanta segundo quem diz que não se salvam: talvez isso valha apenas onde estão escritos em targum e em qualquer língua, mas aqui, onde estão escritos na língua sagrada — salvam-se; ou talvez, mesmo segundo quem diz que se salvam, isso valha apenas onde estão escritos com tinta que perdura, mas aqui, já que não perdura — não (se salvam). Disse-lhe: não se salvam. Mas Rav Hamnuna não ensinou que se salvam? Disse-lhe: se foi ensinado (numa baraita), foi ensinado. O que foi ensinado? Disse Rav Ashi: como se ensina — não há diferença entre os livros (da Bíblia) e a Meguilá (de Ester), senão que os livros são escritos em qualquer língua, e a Meguilá, até que esteja escrita em escrita assíria, sobre um rolo (de pergaminho), e com tinta.

Nota

Uma nova dúvida se levanta, agora sobre o material de escrita, não a língua: se escritos sagrados na própria língua sagrada (hebraico) foram feitos com tintas ou pigmentos que não perduram — sam, sicra, goma, sulfato de ferro —, salvam-se do incêndio em Shabat? A Guemará mostra que a dúvida existe tanto para quem, na disputa anterior, sustenta que se salvam quanto para quem sustenta que não se salvam, por razões opostas em cada caso. Rabá bar Rav Huna responde inicialmente que não se salvam, mas o Resh Galuta lhe contesta com uma baraita de Rav Hamnuna que ensina o contrário, levando-o a retratar sua opinião diante da fonte tannaítica. Rav Ashi esclarece então qual é essa baraita: a diferença entre os livros da Bíblia em geral e a Meguilá de Ester é que os livros podem ser escritos em qualquer língua (e, por extensão, com qualquer tinta), enquanto a Meguilá exige especificamente escrita assíria, pergaminho e tinta — implicando que os demais livros sagrados não têm essa exigência de tinta.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hayu ketuvin", "tiba'ei leman de'amar", "delo mikayam", "veha Rav Hamnuna tana" e "mai tanya"
היו כתובין - תורה נביאים וכתובים: תיבעי למ"ד - בנכתבים בכל לשון מצילין תיבעי למ"ד אין מצילין: דלא מיקיים - אין מתקיים כדיו: הא רב המנונא תנא - מצילין: מאי תניא - היכא תניא: מדקאמר מגילה בדיו - וקתני דהוא מן הדברים שבין ספרים למגילה ש"מ שאר ספרים נכתבים בסם ובסיקרא:

"Estavam escritos" — Torá, Profetas e Ketuvim. "A dúvida se levanta segundo quem diz" — que, quanto aos escritos em qualquer língua, se salvam; a dúvida se levanta segundo quem diz que não se salvam. "Que não perdura" — não se conserva como a tinta. "Mas Rav Hamnuna não ensinou" — que se salvam. "O que foi ensinado" — onde foi ensinado. "Do fato de dizer que a Meguilá (deve ser escrita) com tinta" — e se ensina que essa é uma das diferenças entre os livros e a Meguilá, aprende-se daí que os demais livros podem ser escritos com sam e com sicra.

Dúvida de Rav Huna bar Chaluv: um rolo da Torá sem oitenta e cinco letras · סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁאֵין בּוֹ לְלַקֵּט

631Dúvida sobre um rolo sem o mínimo de oitenta e cinco letras, como a parashá de Vayehi Binsoa HaAron; Rav Nachman: não se salva
Rav Huna bar Chaluv; Rav Nachman
בְּעָא מִינֵּיהּ רַב הוּנָא בַּר חֲלוּב מֵרַב נַחְמָן: סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁאֵין בּוֹ לְלַקֵּט שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּגוֹן פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן״, מַצִּילִין אוֹתָן מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה, אוֹ אֵין מַצִּילִין? אֲמַר לֵיהּ: וְתִיבְּעֵי לָךְ פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן״ גּוּפַהּ? הֵיכָא דְּחָסַר פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ״ — לָא קָמִיבַּעְיָא לִי, דְּכֵיוָן דְּאִית בֵּיהּ הַזְכָּרוֹת, אַף עַל גַּב דְּלֵית בֵּיהּ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת — מַצִּילִין. כִּי קָא מִיבַּעְיָא לִי סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁאֵין בּוֹ לְלַקֵּט, מַאי? אֲמַר לֵיהּ: אֵין מַצִּילִין.

Perguntou Rav Huna bar Chaluv a Rav Nachman: um rolo da Torá que não tenha, para se reunir (dele), oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" (Números 10:35–36) — salvam-no do incêndio, ou não o salvam? Disse-lhe: e achas que devias perguntar sobre a própria parashá de "Vayehi Binsoa HaAron"? Onde falta (uma letra) da parashá de "Vayehi Binsoa" — isso não é dúvida para mim, pois, já que há nela menções (do Nome), ainda que não haja nela oitenta e cinco letras — salva-se. Quando é dúvida para mim é quanto a um rolo da Torá que não tenha, para se reunir, (oitenta e cinco letras) — o que (se decide)? Disse-lhe: não se salva.

Nota

Surge uma terceira dúvida, agora sobre a quantidade mínima de texto: oitenta e cinco letras completas é a medida estabelecida pelos Sábios para que um rolo da Torá desgastado ou apagado ainda seja considerado sagrado o suficiente para ser salvo do incêndio — medida derivada da parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" (Números 10:35–36), que forma uma unidade textual à parte e contém exatamente esse número de letras. Rav Huna bar Chaluv pergunta: e um rolo da Torá comum, do qual não se consiga reunir esse mínimo, salva-se? Rav Nachman responde com uma distinção: se falta uma letra à própria parashá de "Vayehi Binsoa" (que contém menções do Nome de D'us), ainda assim se salva, pois a presença de tais menções basta, independentemente da contagem de letras; mas um rolo comum que não alcance as oitenta e cinco letras não se salva.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "bar Chaluv", "pei-hei otiot", "kegon parashat Vayehi Binsoa HaAron", "lelaket", "mahu", "veTiba'ei lach" e "she'ein bo kedei lelaket"
בר חלוב - שם אדם: פ"ה אותיות - זהו שיעור לספר תורה שנמחק או בלה להיות עומד בקדושתו: כגון פרשת ויהי בנסוע הארון - שהוא ספר לעצמו כדלקמן ויש בה פ"ה אותיות: ללקט - שנשארת כאן תיבה ובמקום אחר תיבה: מהו - להצילן: ותיבעי לך פרשת ויהי בנסוע הארון גופה - שנכתבה לבדה וחסרה אות מהו להצילה: שאין בו כדי ללקוט - ובאותו ליקוט עצמו ליכא אזכרות:

"Bar Chaluv" — nome de pessoa. "Oitenta e cinco letras" — esta é a medida para que um rolo da Torá que se apagou ou se desgastou permaneça em sua santidade. "Como a parashá de 'Vayehi Binsoa HaAron'" — que é um livro à parte, como adiante se ensina, e nela há oitenta e cinco letras. "Para reunir" — que resta aqui uma palavra e noutro lugar outra palavra. "O que (se decide)" — quanto a salvá-lo. "E achas que devias perguntar sobre a própria parashá de 'Vayehi Binsoa HaAron'" — que foi escrita sozinha e lhe falta uma letra — o que (se decide) quanto a salvá-la? "Que não tem para reunir" — e nessa própria reunião não há menções (do Nome).

632Objeção: targum escrito como texto, texto como targum, escrita hebraica antiga; o versículo "Yegar Sahadutá"; resolução — para completar
Rav Huna bar Chaluv; Rav Nachman
אֵיתִיבֵיהּ: תַּרְגּוּם שֶׁכְּתָבוֹ מִקְרָא, וּמִקְרָא שֶׁכְּתָבוֹ תַּרְגּוּם, וּכְתָב עִבְרִית — מַצִּילִין מִפְּנֵי הַדְּלֵיקָה. וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר תַּרְגּוּם שֶׁבְּעֶזְרָא וְשֶׁבְּדָנִיאֵל וְשֶׁבַּתּוֹרָה. תַּרְגּוּם שֶׁבַּתּוֹרָה מַאי נִיהוּ? — ״יְגַר שָׂהֲדוּתָא״, וְאַף עַל גַּב דְּלֵית בַּהּ שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת! כִּי תַּנְיָא הַהִיא — לְהַשְׁלִים.

Objetou-lhe: (um trecho de) targum que se escreveu como texto (hebraico), e (um trecho do) texto (hebraico) que se escreveu como targum, e escrita hebraica (antiga) — salvam-se do incêndio. E não é necessário dizer (o mesmo) quanto ao targum que está em Ezra, e que está em Daniel, e que está na Torá. O targum que está na Torá, qual é ele? — "Yegar Sahadutá" (Gênesis 31:47), e ainda que nele não haja oitenta e cinco letras! Quando se ensinou aquilo — foi para completar (o número).

Nota

Rav Huna bar Chaluv objeta a partir de uma baraita que trata de casos híbridos: um trecho de targum escrito como se fosse texto hebraico, um trecho de texto hebraico escrito como targum, e escrita hebraica antiga — todos se salvam, e com maior razão os trechos de targum que já aparecem no próprio texto bíblico, como em Ezra, Daniel e na Torá. O único versículo em aramaico dentro da Torá é "Yegar Sahadutá", o nome que Lavão deu ao monte de testemunho (Gênesis 31:47) — e esse único versículo, por si só, não teria oitenta e cinco letras, o que pareceria contradizer a posição de Rav Nachman. A Guemará resolve: quando essa baraita foi ensinada, referia-se a um caso em que esse versículo aramaico serve para completar uma contagem já quase alcançada por outras letras do rolo, e não que ele sozinho baste como unidade independente.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "targum shebaTorah", "ketav ivrit", "ve'ein tzarich lomar" e "lehashlim"
תרגום שבתורה - יגר שהדותא ושבנביאים כגון כדנא תימרון להום (ירמיהו י׳:י״א) שכתבו מקרא [א"נ] התרגום שבעזרא כתבו מקרא: כתב עברית - אותיות גדולות הן ואין דומות לכתב אשורית אף ע"פ שכתובין בלשון הקדש אלא שכתב האותיות משונות: ואין צריך לומר תרגום שבעזרא ושבדניאל ושבתורה - שכתבו תרגום כהלכתו: להשלים - אם היה בו כדי ללקט ותרגום זו משלימו מצטרף ומצילין בשבילו:

"O targum que está na Torá" — "Yegar Sahadutá"; e o que está nos Profetas, como "Kidná teimerun lehom" (Jeremias 10:11), que se escreveu como texto (hebraico); [ou, segundo outra versão, o targum que está em Ezra], que se escreveu como texto (hebraico). "Escrita hebraica (antiga)" — são letras grandes, que não se assemelham à escrita assíria, ainda que estejam escritas na língua sagrada; apenas a forma das letras é diferente. "E não é necessário dizer (o mesmo) quanto ao targum que está em Ezra, e em Daniel, e na Torá" — que o escreveram em targum, conforme sua norma. "Para completar" — se havia nele o suficiente para reunir (as letras) e este targum o completa; ele se soma, e por causa dele se salva.

Letras justapostas ou dispersas? · מְכוּנָּסוֹת אוֹ מְפוּזָּרוֹת

633Dúvida sobre se as oitenta e cinco letras devem estar juntas ou podem estar dispersas; objeção; Rav Chisda resolve com a noção de palavras inteiras
Rav Huna; Rav Chisda
אִיבַּעְיָא לְהוּ: הָנֵי שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, מְכוּנָּסוֹת אוֹ מְפוּזָּרוֹת? רַב הוּנָא אָמַר: מְכוּנָּסוֹת. רַב חִסְדָּא אָמַר: אֲפִילּוּ מְפוּזָּרוֹת. מֵיתִיבִי: סֵפֶר תּוֹרָה שֶׁבָּלָה, אִם יֵשׁ בּוֹ לְלַקֵּט שְׁמוֹנִים וְחָמֵשׁ אוֹתִיּוֹת, כְּגוֹן פָּרָשַׁת ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן״ — מַצִּילִין, וְאִם לָאו — אֵין מַצִּילִין. תְּיוּבְתָּא דְרַב הוּנָא! תַּרְגְּמַהּ רַב חִסְדָּא אַלִּיבָּא דְרַב הוּנָא בְּתֵיבוֹת.

Perguntaram-se: essas oitenta e cinco letras — juntas ou dispersas? Rav Huna disse: juntas. Rav Chisda disse: mesmo dispersas. Objetaram: um rolo da Torá que se desgastou — se há nele o suficiente para se reunir oitenta e cinco letras, como a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — salva-se; e se não — não se salva. Refutação de Rav Huna! Rav Chisda explicou-a segundo a opinião de Rav Huna: em palavras.

Nota

Levanta-se uma última dúvida sobre a mesma medida de oitenta e cinco letras: devem estar todas justapostas, formando um bloco contínuo, ou basta que estejam dispersas ao longo do rolo, mesmo que separadas? Rav Huna exige que estejam juntas; Rav Chisda admite que estejam dispersas. A Guemará objeta a partir de uma baraita que fala em "reunir" letras de um rolo desgastado — termo que sugere dispersão, o que pareceria refutar Rav Huna de modo definitivo. Rav Chisda, porém, harmoniza essa baraita com a própria posição de Rav Huna: a "reunião" de que fala a baraita não é de letras isoladas espalhadas pelo rolo, mas de palavras inteiras — uma palavra aqui, outra ali —, cada uma delas internamente justaposta, até completar as oitenta e cinco letras; a disputa entre Rav Huna e Rav Chisda subsiste apenas quanto a letras isoladas verdadeiramente dispersas, uma a uma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "teyuvta deRav Huna" e "beteivot"
תיובתא דרב הונא - דמדקתני ללקט מכלל דמפוזרות נינהו: בתיבות - הא דקתני ללקט דמשמע מפוזרות לא ללקט אות ואות לבד אלא ללקט תיבה שלימה תיבה כאן ותיבה כאן עד פ"ה אותיות וכי פלגינין באותיות המפוזרות:

"Refutação de Rav Huna" — pois, do fato de se ensinar "reunir", infere-se que são dispersas. "Em palavras" — o que se ensina "reunir", que sugere dispersão, não significa reunir letra por letra isoladamente, mas reunir palavra inteira — uma palavra aqui, outra palavra ali — até completar oitenta e cinco letras; e a disputa é apenas quanto a letras dispersas (isoladamente).

Baraita: os sinais que cercam a parashá de Vayehi Binsoa HaAron · סִימָנִיּוֹת מִלְּמַעְלָה וּלְמַטָּה

634Baraita sobre os sinais que o Santo, Bendito Seja, colocou acima e abaixo da parashá de Vayehi Binsoa HaAron — início da explicação, sem conclusão
Baraita
תָּנוּ רַבָּנַן: ״וַיְהִי בִּנְסוֹעַ הָאָרוֹן וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה״ — פָּרָשָׁה זוֹ עָשָׂה לָהּ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא סִימָנִיּוֹת מִלְּמַעְלָה וּלְמַטָּה, לוֹמַר

Ensinaram os Sábios: "E foi, quando a Arca partia, que Moshé disse: Levanta-Te, Ó Eterno, e que se dispersem os Teus inimigos, e fujam diante de Ti os que Te odeiam" (Números 10:35) — a esta parashá o Santo, Bendito Seja, fez sinais acima e abaixo, para dizer —

Nota

Encerrada a discussão sobre a contagem de letras, a Guemará retoma a própria parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" (Números 10:35–36) — usada ao longo de todo este trecho como exemplo-padrão de unidade textual autônoma — para explicar por que ela é assim tratada: uma baraita ensina que o próprio Santo, Bendito Seja, colocou sinais especiais antes e depois dessa parashá, no texto da Torá, para separá-la das passagens vizinhas, sinalizando que não pertence ao seu contexto imediato. O daf termina exatamente no início da explicação desse propósito — "para dizer" —, sem que a razão seja registrada nesta folha.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "asah lah simaniyot milmala ulemata" e "milmala ulemata"
עשה לה סימניות מלמעלה ומלמטה - להבדיל' מן הסמוכות לה: למעלה ולמטה - בתחלה ובסוף ויהי בנסוע הארון:

"Fez para ela sinais acima e abaixo" — para separá-la das (passagens) vizinhas a ela. "Acima e abaixo" — no início e no fim de "Vayehi Binsoa HaAron".

O daf termina aqui, no meio da explicação dos sinais que cercam a parashá de "Vayehi Binsoa HaAron" — "לוֹמַר" (para dizer —), sem que a razão seja registrada. A continuação — "שֶׁאֵין זֶה מְקוֹמָהּ" (que este não é o seu lugar) — é o ponto de partida de Shabbat 116a.