Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet-Vav (Ve'elu Kesharim)
כִּי הֲוֵינָא בְּבָבֶל

Completa-se o relato de Rabi Zeira sobre o shofar e a havdalá quando Yom Kipur coincide com Shabat, segundo Rabi Akiva; a distinção de Rav Sheshet sobre shevut próximo e distante; e a divergência sobre aparar verduras quando Yom Kipur cai em Shabat

Shabbat 114b · continua diretamente de 114a · Perek Tet-Vav (Ve'elu Kesharim)

Shabbat 114b abre completando exatamente o que 114a deixara interrompido, na atribuição "disse Rabi Zeira": ele relata que, quando estudava Torá na Babilônia, costumava dizer que era opinião aceita por todos que, quando Yom Kipur cai na véspera de Shabat, não se toca o shofar (como se faz normalmente às sextas-feiras, para anunciar o início do Shabat), e que, quando cai na saída do Shabat, não se faz havdalá. Ao subir para a Terra de Israel, porém, encontrou Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi, sentado e ensinando que essa baraita segue apenas Rabi Akiva — que equipara a santidade de Yom Kipur à de Shabat —, pois, segundo Rabi Yishmael, que sustenta que as gorduras dos sacrifícios de Shabat são oferecidas em Yom Kipur, dever-se-ia tocar o shofar precisamente para avisar os cohanim disso; ao que Rabi Zeira lhe respondeu que os cohanim são diligentes e dispensam aviso. Mar Kashisha, filho de Rav Chisda, objeta a Rav Ashi a partir da mishná de Sucá sobre os seis toques do Templo — três para fazer cessar o povo do trabalho, três para distinguir entre sagrado e profano —, sugerindo que os próprios cohanim precisavam do sinal; resolve-se, com o mesmo princípio que Abaye já formulara a respeito do candelabro erguido pela rainha Helena, que esses toques eram destinados ao resto do povo de Jerusalém, e não aos cohanim. A Guemará pergunta, então, por que não se toca o shofar para avisar que aparar verduras é permitido a partir de minchá em diante; Rav Yossef responde que não se afasta um shevut (proibição de origem rabínica, como o próprio toque de shofar) apenas para permitir outra coisa. Rav Sheshet, filho de Rav Idi, propõe uma distinção: um shevut de necessidade imediata, permitiram afastar; um de necessidade distante, não permitiram. A Guemará objeta a partir da mishná sobre Yom Tov que cai na véspera ou na saída de Shabat, onde mesmo para uma necessidade imediata — saber que o abate já é permitido — não se toca o shofar; conclui-se que a explicação correta é, na verdade, a de Rav Yossef, e não a distinção de Rav Sheshet. Muda-se então o eixo da discussão, do calendário para a própria halachá do dia: Rabi Zeira, em nome de Rav Huna — ou, segundo outros, Rabi Abba em nome de Rav Huna —, ensina que, quando Yom Kipur cai em Shabat, é proibido aparar verduras; Rav Mana traz uma baraita que deriva essa proibição do termo "shabatón" (Êxodo 16,23), já que a proibição do trabalho em si mesma já está explícita em outro versículo. Rabi Chiya bar Abba, em nome de Rabi Yochanan, discorda e ensina que é permitido; à mesma objeção trazida da baraita, responde-se que "shabatón" não trata, de fato, de aparar verduras, mas sim do próprio trabalho — ensinando que quem o realiza transgride tanto um mandamento positivo quanto um negativo. Por fim, cita-se uma baraita que segue a opinião de Rabi Yochanan, segundo a qual, quando Yom Kipur cai em Shabat — terminando o daf interrompido exatamente nesse ponto, sem conclusão, a continuar diretamente em Shabbat 115a, ainda não publicado, onde se lê que é permitido aparar verduras, e que, quando Yom Kipur cai em dia de semana, partem-se nozes e descascam-se romãs a partir de minchá em diante, por causa do desconforto do jejum.

Guemará: completa-se o relato de Rabi Zeira sobre o shofar e a havdalá quando Yom Kipur coincide com Shabat · כִּי הֲוֵינָא בְּבָבֶל

615Rabi Zeira, na Babilônia: não se toca o shofar nem se faz havdalá quando Yom Kipur toca Shabat; na Terra de Israel, Yehuda filho de Rabi Shimon ben Pazi: é (a opinião) de Rabi Akiva; resposta: os cohanim são diligentes
Rabi Zeira; Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi
כִּי הֲוֵינָא בְּבָבֶל הֲוָה אָמְרִינַן: הָא דְּתַנְיָא יוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת עֶרֶב שַׁבָּת — לֹא הָיוּ תּוֹקְעִין, וּבְמוֹצָאֵי שַׁבָּת — לֹא הָיוּ מַבְדִּילִין, דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא. כִּי סְלֵיקְנָא לְהָתָם, אַשְׁכְּחִיתֵיהּ לִיהוּדָה בְּרֵיהּ דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן פַּזִּי דְּיָתֵיב וְקָאָמַר: רַבִּי עֲקִיבָא הִיא, דְּאִי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, כֵּיוָן דְּאָמַר חֶלְבֵי שַׁבָּת קְרֵיבִין בְּיוֹם הַכִּיפּוּרִים, לִיתְקַע, כִּי הֵיכִי דְּלֶיהְוֵי יָדְעִי דְּחֶלְבֵי שַׁבָּת קְרֵיבִין בְּיוֹם הַכִּיפּוּרִים. וְאָמֵינָא לֵיהּ אֲנָא: כֹּהֲנִים זְרִיזִין הֵן.

Quando eu estava na Babilônia, eu costumava dizer: isto que se ensinou (numa baraita) — "Yom Kipur que caiu para ser véspera de Shabat, não tocavam (o shofar); e na saída do Shabat, não faziam havdalá" — são palavras (aceitas) por todos. Quando subi para lá (a Terra de Israel), encontrei Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi, que estava sentado e dizia: é (a opinião) de Rabi Akiva; pois se (fosse a de) Rabi Yishmael, já que ele disse que as gorduras de Shabat são oferecidas em Yom Kipur, que toquem (o shofar), para que saibam que as gorduras de Shabat são oferecidas em Yom Kipur. E eu lhe disse: os cohanim são diligentes.

Nota

Shabbat 114b abre completando exatamente o que 114a deixara interrompido: a atribuição "disse Rabi Zeira" recebe agora seu conteúdo — não uma continuação da sugia sobre as gorduras de sacrifícios (encerrada em 114a), mas um relato pessoal, num tema relacionado por associação (a menção a Rabi Yishmael e às gorduras de Shabat oferecidas em Yom Kipur). Rabi Zeira conta que, ainda estudando na Babilônia, tomava por consenso geral uma baraita sobre a prática do Templo: quando Yom Kipur cai na véspera de Shabat, não se toca o shofar de sexta-feira para anunciar o Shabat que se aproxima; e quando cai na saída do Shabat, não se recita a havdalá que normalmente marca a transição entre a santidade do Shabat e o dia comum. Ao subir para a Terra de Israel, no entanto, ouviu de Yehuda, filho de Rabi Shimon ben Pazi, que essa baraita reflete apenas a opinião de Rabi Akiva, que equipara a santidade de Yom Kipur à de Shabat, e por isso não há necessidade de sinal distintivo entre os dois. Segundo Rabi Yishmael, porém, que considera Yom Kipur mais leve que Shabat (permitindo nele a oferenda das gorduras sobressalentes de Shabat), dever-se-ia tocar o shofar precisamente para avisar os cohanim desse detalhe halárquico. Rabi Zeira responde a essa objeção dizendo que os próprios cohanim são diligentes e conhecedores da lei, dispensando qualquer sinal de aviso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ki havina bevavel", "lo hayu toke'in", "uvmotzaei Shabbat", "lo hayu mavdilin", "Rabi Akiva hi", "de'i Rabi Yishmael" e "zerizim hem"
כי הוינא בבבל - כשלמדתי תורה בבבל קודם שעליתי לא"י: לא היו תוקעין - שש תקיעות שתוקעין בע"ש להבטיל ולהבדיל משום דיוה"כ קדוש כשבת ואסור בכל מלאכה: ובמוצ"ש - אם חל בו יוה"כ: לא היו מבדילין - בתפלה המבדיל בין קדש לקדש כמו שמבדילין בי"ט שחל להיות במוצ"ש: רבי עקיבא היא - דחשיב ליה יוה"כ כשבת הלכך לא בעי למתקע להבדיל בין זה לזה להיכרא דלא תקעינן אלא בין יום קל ליום חמור וכי היכי דבשבת לא תקעי להבדיל כהנים מלהקריב חלבי שבת ביוה"כ ביוה"כ נמי לא תקעינן להבדילן מלהקריב חלבי יוה"כ בשבת: דאי ר' ישמעאל - כיון דקיל ליה יוה"כ משבת ליתקע להבטיל מהקריב חלבי יוה"כ בשבת ובתקיעה זו יבינו שהוא יום הקל ולכשיחול יוה"כ במוצאי שבת ולא יתקעו ידעו שמותר להקריב בו חלבי שבת: זריזים הם - בקיאים הן בכל ואין צריכין סימן דכתיב בהן יורו משפטיך ליעקב.

"Quando eu estava na Babilônia" — quando eu estudava Torá na Babilônia, antes de subir à Terra de Israel. "Não tocavam" — os seis toques que se tocam na véspera de Shabat, para fazer cessar (o trabalho) e para distinguir, pois Yom Kipur é sagrado como Shabat e proibido em todo trabalho. "E na saída do Shabat" — se Yom Kipur caiu nela. "Não faziam havdalá" — na oração, "que distingue entre sagrado e sagrado", como se faz havdalá quando Yom Tov cai na saída do Shabat. "É (a opinião) de Rabi Akiva" — pois ele considera Yom Kipur como Shabat; por isso não é necessário tocar para distinguir entre um e outro, como sinal, já que só se toca entre um dia leve e um dia grave; e assim como em Shabat não tocam para impedir os cohanim de oferecer as gorduras de Shabat em Yom Kipur, também em Yom Kipur não tocam para impedi-los de oferecer as gorduras de Yom Kipur em Shabat. "Pois se (fosse a de) Rabi Yishmael" — já que para ele Yom Kipur é mais leve que Shabat, que toquem para impedir de oferecer as gorduras de Yom Kipur em Shabat, e com esse toque entenderiam que é o dia mais leve; e quando Yom Kipur caísse na saída do Shabat e não tocassem, saberiam que é permitido oferecer nele as gorduras de Shabat. "São diligentes" — são versados em tudo e não precisam de sinal, pois está escrito a respeito deles: "ensinarão Teus juízos a Yaacov" (Devarim 33,10).

616Mar Kashisha, filho de Rav Chisda, a Rav Ashi: a mishná de Sucá sobre os toques do Templo; resposta de Abaye: eram para o resto do povo de Jerusalém
Mar Kashisha, filho de Rav Chisda; Rav Ashi; Abaye
אֲמַר לֵיהּ מָר קַשִּׁישָׁא בְּרֵיהּ דְּרַב חִסְדָּא לְרַב אָשֵׁי: מִי אָמְרִינַן כֹּהֲנִים זְרִיזִין הֵן? וְהָתְנַן: שָׁלֹשׁ לְהַבְטִיל אֶת הָעָם מִמְּלָאכָה, שָׁלֹשׁ לְהַבְדִּיל בֵּין קוֹדֶשׁ לְחוֹל. כְּדַאֲמַר אַבָּיֵי: לִשְׁאָר עַמָּא דְּבִירוּשְׁלֶם, הָכָא נָמֵי לִשְׁאָר עַמָּא דְּבִירוּשְׁלֶם.

Disse-lhe Mar Kashisha, filho de Rav Chisda, a Rav Ashi: acaso dizemos que os cohanim são diligentes? Mas não aprendemos: três (toques) para fazer cessar o povo do trabalho, três para distinguir entre o sagrado e o profano? Como disse Abaye: (foi) para o resto do povo de Jerusalém — também aqui, (foi) para o resto do povo de Jerusalém.

Nota

Mar Kashisha objeta à resposta de Rabi Zeira a partir da mishná de Sucá, que descreve seis toques de shofar tocados no Templo na véspera de Shabat: três para fazer cessar o povo do trabalho, e três para marcar a distinção entre o sagrado e o profano — o que sugeriria que até os próprios cohanim precisavam desse sinal. A Guemará resolve com o mesmo princípio que Abaye já formulara em outro contexto (a respeito do candelabro erguido pela rainha Helena, cujo brilho ao amanhecer avisava o horário de recitar o Shemá): esses toques do Templo não eram destinados aos cohanim, que já sabiam o horário exato, mas ao restante do povo de Jerusalém, que precisava do aviso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "vehatnan", "shalosh lehavtil" e "kedaamar Abaye"
והתנן - במסכת סוכה: ג' להבטיל כו' - ומני להו בתקיעות שבמקדש אין פוחתין מכ"א תקיעות במקדש וקס"ד מדתקעי' להו במקדש להיכרא דכהני' תקעי להו: כדאמר אביי - בסדר יומא בפרק ג' גבי נברשת שעשתה הילני המלכה על פתחו של היכל בשעה שהחמה זורחת ניצוצות יוצאות הימנה והכל יודעים שזמן ק"ש הגיע ומותבינן ורמינהו הקורא ק"ש עם אנשי משמר לא יצא אלמא לאו בזימנא קריין ואמר אביי הא סימן דנברשת לשאר עמא שיקראו ק"ש בעונתה.

"Não aprendemos" — no tratado de Sucá. "Três para fazer cessar etc." — e as contam entre os toques do Templo, dos quais não se reduz de vinte e um toques no Templo; e se poderia pensar, já que as tocavam no Templo como sinal, que eram os próprios cohanim que as tocavam. "Como disse Abaye" — na ordem de Yomá, no terceiro capítulo, a respeito do candelabro que a rainha Helena fez na entrada do Salão, no qual, quando o sol nascia, saíam faíscas dele, e todos sabiam que chegara o momento do Shemá; e objetamos: quem lê o Shemá com os homens do turno (sacerdotal) não cumpriu sua obrigação — o que indica que eles não o liam no horário correto; e disse Abaye: esse sinal do candelabro era para o resto do povo, para que lessem o Shemá em seu horário.

617Por que não tocar para avisar que aparar verduras é permitido desde minchá? Rav Yossef: não se afasta um shevut para permitir
Rav Yossef
וְלִיתְקַע, כִּי הֵיכִי דְּלִידְּעוּ דִּשְׁרֵי בִּקְנִיבַת יָרָק מִן הַמִּנְחָה וּלְמַעְלָה. אָמַר רַב יוֹסֵף: לְפִי שֶׁאֵין דּוֹחִין שְׁבוּת לְהַתִּיר.

E que toquem (o shofar), para que saibam que é permitido aparar verduras a partir de minchá (da tarde) em diante! Disse Rav Yossef: porque não se afasta um shevut (proibição rabínica) para permitir (outra coisa).

Nota

A Guemará levanta uma nova pergunta, ainda no mesmo eixo: em Yom Kipur, a partir de um certo ponto da tarde (minchá), já é permitido aparar verduras em preparação para a refeição que se seguirá ao jejum, o que não é permitido em Shabat comum. Por que, então, não se toca o shofar para avisar o povo desse horário? Rav Yossef responde com um princípio geral: tocar o shofar é, em si, um shevut (proibição de origem rabínica, e não da própria Torá); e um shevut não é afastado apenas para permitir outra ação — mesmo que seja para transmitir uma informação útil, como o novo horário permitido para aparar verduras.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veliskan", "keniva" e "lefi she'ein dochin shevut lehatir"
וליתקע - בין לר"ע בין לרבי ישמעאל לאודעי דקל הוא משבת דיוה"כ שרי בקניבת ירק תלוש לנתק העלין מן הקלחין כדי להשוותם שיהו מוכנים לחתכן ולפרמן דאמרינן לקמן דשרי משום דהוי עינוי שרואה ומזמן ואינו אוכל: קניבה - כי ההיא דכלל גדול (לעיל שבת עג:) האי מאן דקניב סילקא אלא דהתם במחובר והכא בתלוש: לפי שאין דוחין שבות להתיר - תקיעת שופר שבות הוא וקאמרת דלידחיה להודיע היתר בקניבת ירק אין דוחין שבות להתיר אלא לאסור כגון יו"ט שחל להיות בע"ש תוקעין להבטיל ולהבדיל.

"E que toquem" — tanto segundo Rabi Akiva quanto segundo Rabi Yishmael, para dar a saber que (Yom Kipur) é mais leve que Shabat, pois em Yom Kipur é permitido aparar verduras já colhidas — arrancar as folhas dos talos para igualá-las, deixando-as prontas para cortar e picar —, pois dizemos adiante que é permitido, por ser (uma forma de aliviar) o sofrimento (do jejum), já que a pessoa vê e prepara (a comida), mas não come. "Aparar" — como aquilo (mencionado) em "Kelal Gadol" (acima, Shabat 73b): "aquele que apara acelga"; salvo que ali é sobre (a verdura ainda) presa (à terra), e aqui é sobre (a verdura já) colhida. "Porque não se afasta um shevut para permitir" — tocar o shofar é um shevut, e dizes que se deveria afastá-lo para dar a conhecer uma permissão em aparar verduras; mas não se afasta um shevut para permitir, apenas para proibir — como no caso de Yom Tov que cai na véspera de Shabat, quando se toca para fazer cessar (o trabalho) e para distinguir.

618Rav Sheshet, filho de Rav Idi: um shevut de necessidade próxima permitiram afastar; um de necessidade distante, não
Rav Sheshet, filho de Rav Idi
וְרַב שִׁישָׁא בְּרֵיהּ דְּרַב אִידִי אָמַר: שְׁבוּת קְרוֹבָה — הִתִּירוּ, שְׁבוּת רְחוֹקָה — לֹא הִתִּירוּ.

E Rav Sheshet, filho de Rav Idi, disse: um shevut próximo (de necessidade imediata) permitiram (afastar); um shevut distante, não permitiram.

Nota

Rav Sheshet propõe uma distinção que qualificaria o princípio de Rav Yossef: não é que jamais se afasta um shevut para permitir algo; permite-se afastá-lo quando a necessidade é imediata (próxima), mas não quando a necessidade é distante no tempo. No caso de aparar verduras em Yom Kipur, a permissão só se aplica muitas horas depois — a partir de minchá da tarde —, e por isso, segundo Rav Sheshet, tratando-se de uma necessidade distante, não se afasta o shevut do toque do shofar para anunciá-la.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veRav Sheshet beriah deRav Idi amar" e "shevut kerovah"
ורב ששת בריה דרב אידי אמר לעולם דוחין שבות להתיר - אי הוה מיבעי' לן היתרא האידנא אבל השתא דלא מיבעי לן קניבת ירק ביוה"כ שחל להיות בע"ש שהרי בשבת לא יבשלום ולא תהא תקיעה זו אלא להודיענו היתר בשנה אחרת שיחול יה"כ באמצע שבת לא התירו: שבות קרובה - כלומר דחיוב שבות התירו לצורך דבר קרוב ולא לצורך דבר רחוק.

"E Rav Sheshet, filho de Rav Idi, disse: na realidade se afasta um shevut para permitir" — se nos fosse necessária a permissão agora; mas agora que não nos é necessário aparar verduras em Yom Kipur que cai na véspera de Shabat — pois em Shabat não as cozinhariam — este toque seria apenas para nos dar a conhecer uma permissão para outro ano, quando Yom Kipur cair no meio (da semana, coincidindo com) Shabat; (por isso) não permitiram. "Um shevut próximo" — ou seja, permitiram afastar a obrigação de um shevut para (uma necessidade) próxima, mas não para uma necessidade distante.

619Objeção da mishná sobre Yom Tov na véspera ou na saída de Shabat: mesmo necessidade próxima não se toca; conclui-se que a explicação correta é a de Rav Yossef
A guemará; a mishná
וּשְׁבוּת קְרוֹבָה הִתִּירוּ? וְהָתְנַן: יוֹם טוֹב שֶׁחָל לִהְיוֹת עֶרֶב שַׁבָּת — תּוֹקְעִין וְלֹא מַבְדִּילִין. מוֹצָאֵי שַׁבָּת — מַבְדִּילִין וְלֹא תּוֹקְעִין. וְאַמַּאי? לִיתְקַע, כִּי הֵיכִי דְּלִידְּעוּ דִּשְׁרֵי בִּשְׁחִיטָה לְאַלְתַּר! אֶלָּא מְחַוַּורְתָּא כִּדְרַב יוֹסֵף.

Mas permitiram (afastar) um shevut próximo? Não aprendemos: Yom Tov que caiu para ser véspera de Shabat, tocam (o shofar) mas não fazem havdalá; na saída do Shabat, fazem havdalá mas não tocam (o shofar)? E por quê (não tocam)? Que toquem, para que saibam que é permitido abater (animais) imediatamente! Mas está claro (que a explicação é) segundo Rav Yossef.

Nota

A Guemará refuta a distinção de Rav Sheshet a partir de uma mishná já conhecida: quando Yom Tov cai na véspera de Shabat, toca-se o shofar (para anunciar o Shabat que se aproxima, mais grave), mas não se faz havdalá; quando cai na saída do Shabat, faz-se havdalá (marcando a transição do mais grave para o mais leve), mas não se toca o shofar. Ora, ao término do Shabat que antecede um Yom Tov, o abate de animais — proibido em Shabat — passa a ser permitido imediatamente; se um shevut de necessidade imediata fosse afastado, deveria-se tocar o shofar precisamente para anunciar essa permissão nova e próxima. Como isso não ocorre, conclui-se que a distinção de Rav Sheshet não se sustenta, e que a explicação correta, também neste caso, é a de Rav Yossef: um shevut simplesmente não é afastado para permitir outra coisa, seja a necessidade próxima ou distante.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "toke'in", "velo mavdilin", "motzaei Shabbat", "velo toke'in" e "veamai"
תוקעין - להבטיל את העם ממלאכה המותרת ביו"ט כגון אוכל נפש ולהבדיל בין הקודש ובין החול: ולא מבדילין - בתפלה ועל הכוס דלא תקנו לומר הבדלה אלא ביציאת קודש ובכניסת חול ולא בכניסת קדש וביציאת חול דהתם שייך לקדושי יומא וקדוש יום שמקדשין על היין הוי היכירא דיליה: מוצאי שבת - ואם חל יו"ט במוצאי שבת מבדילין בתפלה ועל הכוס המבדיל בין קודש לקודש מפני שהקודש חמור יוצא ונכנס קל: ולא תוקעין - מבעוד יום להבטיל ולהבדיל דהא היוצא חמור והיום לא עשו שום מלאכה: ואמאי - אי ס"ד דוחין שבות להתיר לצורך דבר קרוב יתקע משחשיכה לידע דשרי בשחיטה לאלתר.

"Tocam" — para fazer cessar o povo do trabalho permitido em Yom Tov, como (o preparo de) comida, e para distinguir entre o sagrado e o profano. "Mas não fazem havdalá" — na oração e sobre o cálice, pois não instituíram dizer havdalá senão na saída do sagrado e na entrada do profano, e não na entrada do sagrado e na saída do profano, pois ali cabe a santificação do dia (kidush), e a santificação que se faz sobre o vinho já serve como seu sinal. "Na saída do Shabat" — e se Yom Tov cai na saída do Shabat, fazem havdalá na oração e sobre o cálice, "que distingue entre sagrado e sagrado", pois o (dia) sagrado mais grave está saindo, e o mais leve, entrando. "Mas não tocam" — ainda de dia, para fazer cessar e para distinguir, pois o (dia) que sai é o mais grave, e nesse dia não realizaram trabalho algum. "E por quê" — se pensas que se afasta um shevut para permitir, por uma necessidade próxima, que toquem desde o anoitecer, para saber que é permitido abater imediatamente.

Guemará: Yom Kipur que cai em Shabat — aparar verduras, proibido ou permitido · אָסוּר בִּקְנִיבַת יָרָק

620Rabi Zeira, em nome de Rav Huna: proibido aparar verduras quando Yom Kipur cai em Shabat; Rav Mana: a baraita deriva de "shabatón"
Rabi Zeira, em nome de Rav Huna (ou Rabi Abba, em nome de Rav Huna); Rav Mana
אָמַר רַבִּי זֵירָא אָמַר רַב הוּנָא, וְאָמְרִי לַהּ אָמַר רַבִּי אַבָּא אָמַר רַב הוּנָא: יוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת — אָסוּר בִּקְנִיבַת יָרָק. אָמַר רַב מָנָא, תָּנָא: מִנַּיִן לְיוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת שֶׁאָסוּר בִּקְנִיבַת יָרָק — תַּלְמוּד לוֹמַר: ״שַׁבָּתוֹן״, שְׁבוּת. לְמַאי? אִילֵימָא לִמְלָאכָה — וְהָכְתִיב: ״לֹא תַעֲשֶׂה כׇל מְלָאכָה״! אֶלָּא לָאו, אַקְּנִיבַת יָרָק! שְׁמַע מִינַּהּ.

Disse Rabi Zeira, que disse Rav Huna — e alguns dizem que disse Rabi Abba, que disse Rav Huna: Yom Kipur que caiu para ser em Shabat, é proibido aparar verduras (nele). Disse Rav Mana: foi ensinado (numa baraita): de onde (se aprende) que Yom Kipur que caiu para ser em Shabat é proibido aparar verduras? O versículo ensina: "shabatón" (Êxodo 16,23) — (indica) um shevut. Para quê (isso se aplica)? Se dirás que para (proibir) o trabalho — mas não está escrito: "não farás trabalho algum" (Êxodo 20,9)? Mas sim, não é sobre aparar verduras? Aprenda-se disso.

Nota

Encerrada a discussão sobre shofar e havdalá, a Guemará muda o eixo do debate: do calendário para a própria halachá do dia, tratando agora de Yom Kipur quando cai num Shabat comum (não véspera nem saída, mas coincidindo com o próprio dia). Rabi Zeira, em nome de Rav Huna (tradição atribuída, alternativamente, a Rabi Abba em nome de Rav Huna), ensina que nesse caso é proibido aparar verduras — mesmo sendo essa uma prática normalmente permitida em Yom Kipur a partir da tarde, por causa do sofrimento do jejum. Rav Mana traz uma baraita que apoia essa posição: o versículo sobre o maná, "amanhã é repouso solene (shabatón), Shabat sagrado ao Eterno" (Êxodo 16,23), ensina uma proibição adicional de origem rabínica (shevut). A Guemará pergunta a que essa proibição se aplicaria, já que a proibição do trabalho em si já está explícita noutro versículo ("não farás trabalho algum", Êxodo 20,9); conclui-se que "shabatón" deve, portanto, referir-se especificamente a aparar verduras — atividade que não é trabalho propriamente dito, mas que a Torá proíbe por decreto adicional quando Yom Kipur coincide com Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "assur bikenivat yarok", "talmud lomar", "lemai", "ileima bemelacha", "hakhtiv lo taaseh chol melacha" e "ela lav lekenivat yarok"
אסור בקניבת ירק - ולא מבעי בשבת דעלמא דאסור משום שבות דקטרח משבת לחול אלא אפילו האידנא דיש כאן עינוי דהא בשאר יוה"כ ששאר שבות אסור זה מותר השתא דחל בשבת לא שרו רבנן: ת"ל - בשבת בראשית שבתון שבת קדש ושבתון משמע שבות: ולמאי - באיזה קניבה אסר לן קרא: אילימא במלאכה - כגון מחובר: הא כתיב לא תעשה כל מלאכה - והא תו למה לי: אלא לאו לקניבת ירק - בעלמא בתלוש דמידי דלאו מלאכה קאי עליה בעשה דשבתון שבות וכיון דמדאורייתא אסור בכל שבתות השנה הכא לא שרינן ליה משום עגמת נפש למידחי איסור דאורייתא ובשאר יוה"כ שרי לעגמת נפש ואע"ג דכתיב ביה נמי שבתון שבות לאו ממלאכה הוא אלא מכל דבר המעכב מלהתענות מדסמכינן לועניתם הכי דרשינן לה בפרק בתרא דיומא (דף עד.) לרחיצה וסיכה ודומין להם.

"Proibido aparar verduras" — e não apenas em um Shabat comum, no qual é proibido por causa do shevut, pois se esforça de Shabat para o dia de semana; mas mesmo agora, quando há aqui (o elemento do) sofrimento (do jejum) — pois em outros Yamim Kipurim, quando os demais shevutim são proibidos, isto é permitido —, agora que caiu em Shabat, os sábios não permitiram. "O versículo ensina" — em (a parashá de) Beshalach: "repouso solene (shabatón), Shabat sagrado" (Êxodo 16,23) — e "shabatón" indica um shevut. "Para quê" — para qual aparo o versículo nos proibiu. "Se dirás que para o trabalho" — como (aparar verdura ainda) presa (à terra). "Mas não está escrito 'não farás trabalho algum'" — e para que mais isto me seria necessário? "Mas sim, não é sobre aparar verduras" — em geral, (verdura já) colhida, pois algo que não é trabalho recai sob o mandamento positivo de "shabatón" (que é) um shevut; e já que pela Torá é proibido em todos os Shabatot do ano, aqui não o permitimos por causa do desconforto (do jejum), para afastar uma proibição da Torá; mas em outros Yamim Kipurim é permitido por causa do desconforto, e ainda que também neles esteja escrito "shabatón" (que indica) um shevut, não se refere ao trabalho, mas a tudo o que impede o jejum — pois se vincula (o versículo) a "e afligireis" (Vayicrá 23,27) — assim se expõe, no último capítulo de Yomá (74a), quanto a banhar-se, ungir-se e coisas semelhantes.

621Rabi Chiya bar Abba, em nome de Rabi Yochanan: permitido; objeção da mesma baraita; resposta: "shabatón" é sobre o próprio trabalho, transgredindo-se um mandamento positivo e um negativo
Rabi Chiya bar Abba, em nome de Rabi Yochanan
אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: יוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת — מוּתָּר בִּקְנִיבַת יָרָק. מֵיתִיבִי: מִנַּיִן לְיוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת שֶׁאָסוּר בִּקְנִיבַת יָרָק — תַּלְמוּד לוֹמַר: ״שַׁבָּתוֹן״, שְׁבוּת. לְמַאי? אִילֵימָא לִמְלָאכָה — וְהָכְתִיב: ״לֹא תַעֲשֶׂה כׇל מְלָאכָה״ אֶלָּא לָאו, בִּקְנִיבַת יָרָק! לָא, לְעוֹלָם לִמְלָאכָה, וְלַעֲבוֹר עָלֶיהָ בַּ״עֲשֵׂה״ וְ״לֹא תַעֲשֶׂה״.

Disse Rabi Chiya bar Abba, que disse Rabi Yochanan: Yom Kipur que caiu para ser em Shabat, é permitido aparar verduras. Objetaram: de onde (se aprende) que Yom Kipur que caiu para ser em Shabat é proibido aparar verduras? O versículo ensina: "shabatón" — (indica) um shevut. Para quê? Se dirás que para o trabalho — mas não está escrito: "não farás trabalho algum"? Mas sim, não é sobre aparar verduras? Não; na realidade é sobre o trabalho, e (o versículo ensina) que se transgride, por causa dele, um mandamento positivo e um negativo.

Nota

Rabi Chiya bar Abba, em nome de Rabi Yochanan, discorda de Rabi Zeira e ensina o oposto: mesmo quando Yom Kipur cai em Shabat, é permitido aparar verduras, por causa do sofrimento do jejum, tal como em qualquer outro Yom Kipur. A Guemará traz contra ele a mesma baraita citada na seção anterior, que parecia demonstrar o oposto a partir de "shabatón". A resposta, porém, é diferente: "shabatón" não ensina, de fato, uma proibição adicional sobre aparar verduras, mas sim reforça a proibição do próprio trabalho — ensinando que aquele que realiza um trabalho proibido em Shabat transgride não apenas o mandamento negativo explícito ("não farás trabalho algum"), mas também o mandamento positivo de "shabatón" (descansar). Assim, a baraita deixa de ser uma prova contra a posição de Rabi Yochanan, e aparar verduras permanece permitido mesmo quando Yom Kipur coincide com Shabat.

622Baraita segundo a opinião de Rabi Yochanan: quando Yom Kipur cai em Shabat — início interrompido, sem conclusão
Baraita, segundo Rabi Yochanan
תַּנְיָא כְּווֹתֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן: יוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת

Ensinou-se (numa baraita) de acordo com (a opinião de) Rabi Yochanan: Yom Kipur que caiu para ser em Shabat —

Nota

A Guemará traz uma baraita que confirmaria a posição de Rabi Yochanan — de que aparar verduras é permitido mesmo quando Yom Kipur cai em Shabat —, mas o daf termina exatamente no início dessa citação, antes que seu conteúdo seja registrado. A continuação, em Shabbat 115a, revela que a baraita de fato conclui: "é permitido aparar verduras", confirmando Rabi Yochanan; e prossegue com um dito adicional de Rabi Chiya bar Abba em nome de Rabi Yochanan sobre Yom Kipur que cai em dia de semana, quando se partem nozes e se descascam romãs a partir de minchá em diante, por causa do desconforto do jejum.

O daf termina aqui, no meio da citação "יוֹם הַכִּיפּוּרִים שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת" (Yom Kipur que caiu para ser em Shabat), sem que a conclusão da baraita seja registrada. A continuação — "מוּתָּר בִּקְנִיבַת יָרָק" (é permitido aparar verduras) — é o ponto de partida de Shabbat 115a, ainda não publicado.