Shabbat 113b retoma exatamente onde 113a foi interrompido, nas palavras "e falar palavra" (Isaías 58,13): explica-se que isso significa que tua fala de Shabat não deve ser como tua fala de dia de semana — não se discutem assuntos comerciais ou contas pessoais —, mas que apenas a fala é proibida, enquanto o mero pensamento sobre esses assuntos é permitido. A Guemará então pergunta pelo sentido da cláusula anterior, já citada em 113a: o que significa que "teu andar de Shabat não seja como teu andar de dia de semana"? Responde com o ensinamento de Rav Huna (ou, segundo outros, de Rabi Abba em nome de Rav Huna): quem caminha no Shabat e encontra um riacho de água — se consegue pousar o pé dianteiro do outro lado antes de levantar o de trás, é permitido atravessar; senão, é proibido. Rava contesta: e o que fará então, se não pode nem contornar (o que aumenta a caminhada) nem atravessar a pé (o que molha as roupas e leva a espremê-las, transgressão no Shabat)? Resolve-se que, não havendo alternativa possível, é permitido até saltar sobre o riacho. Conclui-se, então, que a proibição de "andar como em dia de semana" refere-se, na verdade, ao passo largo — como na dúvida que Rabi levantou a Rabi Yishmael, filho de Rabi Yossei: é permitido dar passos largos no Shabat? Este responde que nem em dia de semana é permitido, pois um passo largo tira um quinhentavo da visão de uma pessoa — visão que se restaura no kidush de sexta-feira à noite. Rabi também pergunta a Rabi Yishmael sobre comer terra no Shabat com fins medicinais; a resposta é semelhante: nem em dia de semana é permitido, por ser prejudicial à saúde. Rabi Ami ensina que quem come do pó da Babilônia é como quem come da carne de seus próprios ancestrais ali sepultados; e há quem diga que é como comer répteis e insetos imundos, conforme está escrito sobre o dilúvio. Reish Lakish explica por que a Babilônia se chama Shinar (porque ali foram sacudidos os mortos do dilúvio) e Rabi Yochanan explica por que se chama Metzula (porque ali afundaram); a Guemará questiona se os corpos já não teriam apodrecido totalmente, deixando de ser repteis proibidos, e resolve que o decreto contra comer terra se deve, na verdade, ao dano à saúde — ilustrado pela história de um homem que comeu terra com agrião, e o agrião brotou dentro dele e o matou. Passa-se então ao midrash sobre o livro de Rut: "e te banharás, e te ungirás, e porás tuas vestes" — Rabi Elazar ensina que são as vestes de Shabat; "dá ao sábio e ele ficará mais sábio" refere-se a Rut, a Moabita, e a Shmuel de Rama, que ambos acrescentaram de sua própria sabedoria ao conselho recebido de seus mestres — Rut, ao só se ungir depois de descer à eira, por modéstia; Shmuel, ao responder apenas "fala" sem dizer "ao Senhor", por não ter certeza de que era D'us quem o chamava. Sobre "e foi, e veio, e colheu no campo", Rabi Elazar ensina que Rut caminhou repetidas vezes até achar companhia adequada; sobre a pergunta de Boaz "de quem é esta moça", incomum em seus hábitos, explica-se que ele viu nela sabedoria (colhia apenas duas espigas caídas, não três) e, segundo uma baraita, modéstia (colhia de pé as espigas em pé, e sentada as que haviam caído, para não se abaixar). Sobre "apega-te às minhas moças", também incomum, explica-se que Boaz viu que Rut se apegara a Noemi como Orpá não fizera, e por isso permitiu a aproximação. Rabi Elazar interpreta ainda "vem até aqui" (halom) como alusão profética de que dela sairia a realeza da casa de David, citando o mesmo termo na boca do próprio Rei David; e "molha teu pão no vinagre" como fonte de que o vinagre é bom no calor, ou, segundo Rabi Shmuel bar Nachmani, como alusão a um descendente de atos ácidos como vinagre — o rei Menashe. "E sentou-se ao lado dos ceifeiros", não no meio deles, alude à futura divisão do reino davídico; e "comeu, saciou-se e sobrou" é interpretado, em duas versões e numa baraita, como alusão às eras de fartura crescente nos dias de David, Salomão, Chizkiyahu, Rabi (Yehuda HaNassi) — cujo próprio criado de estábulos era mais rico que o rei da Pérsia —, os dias do Mashiach e o porvir. Por fim, a Guemará expõe Isaías 10,16, sobre a queda do rei da Assíria — "e sob sua honra arderá um ardor como ardor de fogo" —, com disputa entre Rabi Yochanan (que, coerente com seu costume de chamar suas próprias vestes de "meus honradores", entende que apenas as vestes dos soldados de Sancheriv, e não seus corpos, foram poupadas do fogo), Rabi Elazar (para quem "sob sua honra" significa literalmente no lugar de sua honra — o próprio corpo, que foi queimado) e Rabi Shmuel bar Nachmani (que compara a queima à dos filhos de Aharon: a alma queimou, mas o corpo permaneceu intacto) — terminando interrompido no início de um novo ensinamento, sem conclusão: "disse Rabi Acha bar Abba, que disse Rabi Yochanan:" — a continuação é o início de Shabat 114a.
(A cláusula "e falar palavra" ensina) que tua fala de Shabat não seja como tua fala de dia de semana. A fala é proibida; o pensamento é permitido. Está bem quanto a todas essas (cláusulas anteriores) — de acordo; mas quanto a (esta outra, já citada): "que teu andar de Shabat não seja como teu andar de dia de semana" — o que é isso?
Shabbat 113b abre exatamente onde 113a foi interrompido, completando a explicação da última cláusula do midrash sobre Isaías 58,13: "e falar palavra" ensina que a fala no Shabat sobre assuntos pessoais e mundanos não deve se assemelhar à fala de dia de semana — não se discutem negócios, compras ou contas. Mas a Guemará precisa: apenas a fala explícita é proibida; o mero pensamento sobre tais assuntos, sem verbalizá-los, é permitido. Com isso, completa-se a exposição de todas as cláusulas do versículo, exceto uma que já havia sido mencionada em 113a, mas cuja explicação ficara pendente: o que significa que "teu andar de Shabat não seja como teu andar de dia de semana"? A Guemará retoma essa pergunta para respondê-la.
"Que tua fala de Shabat não seja como tua fala de dia de semana" — como, por exemplo, compra e venda e contas. "O pensamento é permitido" — pensar em seu coração: tais e tais despesas precisarei fazer com este campo (após o Shabat).
(A resposta é) como aquilo que disse Rav Huna, que disse Rav — e há quem diga que disse Rabi Abba, que disse Rav Huna: quem estava caminhando no Shabat e encontrou um riacho de água, se pode pousar seu pé dianteiro antes que se levante o de trás — é permitido (atravessar); e se não — é proibido.
A Guemará responde à pergunta pendente com o ensinamento de Rav Huna: se alguém caminha no Shabat e depara com um pequeno riacho a atravessar, a lei depende da largura do riacho. Se o riacho for estreito o bastante para que a pessoa consiga colocar um pé do outro lado antes de erguer o pé de trás — ou seja, sem precisar dar um salto, apenas um passo largo comum — é permitido atravessar dessa forma. Mas se o riacho for largo demais para isso, exigindo um verdadeiro salto com os dois pés simultaneamente no ar, isso se assemelharia ao andar apressado e vigoroso de dia de semana, e por isso seria proibido.
Contestou isso Rava: o que fará, então (se o riacho for largo demais para atravessar sem saltar)? Se contornar — está aumentando sua caminhada. Se atravessar (a pé, pela água) — às vezes suas roupas absorvem a água, e ele chega a espremê-las. Mas nesse caso, já que não é possível (de outro modo) — é bem permitido (saltar).
Rava contesta o ensinamento de Rav Huna, apontando um dilema: se o riacho é largo demais para atravessar com um simples passo, e a pessoa não pode saltar (por ser andar de dia de semana), que outra opção resta? Contornar o riacho significaria caminhar mais do que o necessário, o que também não é ideal; atravessar a pé, pela própria água, arrisca molhar as roupas, levando à necessidade de espremê-las depois — e espremer roupas é uma forma da melacha de lavar, proibida no Shabat. Diante desse impasse, a Guemará resolve que, precisamente porque não há alternativa viável, é permitido saltar sobre o riacho mesmo quando isso exige levantar os dois pés — a proibição de "andar como em dia de semana" não se estende a uma necessidade real e inevitável.
"Contornar" — ir até o lugar onde o riacho termina. "Atravessar" — colocar seu pé na água. "Às vezes suas roupas absorvem" — se encharcam na água. "É bem permitido" — saltar.
Mas (o significado de "andar de dia de semana" é), como aquilo que perguntou Rabi a Rabi Yishmael, filho de Rabi Yossei: o que é (a lei) quanto a dar um passo largo no Shabat? Disse-lhe: e acaso em dia de semana isso é permitido? Pois eu digo: um passo largo tira um quinhentavo da visão dos olhos de uma pessoa. E ela lhe é restaurada no kidush de sexta-feira à noite.
A Guemará conclui, então, que a cláusula "que teu andar de Shabat não seja como teu andar de dia de semana" não se refere ao caso do riacho (já resolvido de forma independente), mas sim à proibição de dar passos largos no Shabat — um andar apressado e vigoroso, típico dos dias de semana. Isso se apoia na dúvida que Rabi (Yehuda HaNassi) levantou a seu mestre Rabi Yishmael, filho de Rabi Yossei: é permitido dar passos largos no Shabat? A resposta surpreende pela reformulação: nem em dia de semana isso é recomendável, pois — ensina Rabi Yishmael — cada passo largo consome um quinhentavo da capacidade visual de uma pessoa; essa perda, no entanto, é restaurada semanalmente através do vinho do kidush na noite de sexta-feira, que revigora a visão. Assim, o passo largo não é tecnicamente proibido no Shabat por uma melachá específica, mas evitado por prejudicar a saúde, tanto em dia de semana quanto no Shabat.
"O que é (a lei) quanto a dar um passo largo" — transgride, acaso, por causa de "de fazeres teus caminhos", (sendo) o passo largo maior que uma amá, (enquanto) o passo mediano é (de) uma amá? "Kidush de sexta-feira à noite" — quem bebe do vinho do kidush nas noites de Shabat.
Perguntou Rabi a Rabi Yishmael, filho de Rabi Yossei: o que é (a lei) quanto a comer terra no Shabat (com fins medicinais)? Disse-lhe: e acaso em dia de semana isso é permitido? Pois eu digo: mesmo em dia de semana é proibido, porque prejudica. Disse Rabi Ami: todo aquele que come do pó da Babilônia — é como se comesse da carne de seus ancestrais. E há quem diga: é como se comesse répteis e vermes imundos, pois está escrito: "e apagou tudo o que existia (etc.)".
Rabi levanta outra dúvida ao mesmo mestre: é permitido comer terra no Shabat, como remédio popular? A resposta segue o mesmo padrão da anterior: nem em dia de semana isso é permitido, pois comer terra é, em si, prejudicial à saúde — independentemente do Shabat. Aproveitando o tema da terra, a Guemará traz um ensinamento relacionado de Rabi Ami: quem come do solo da Babilônia come, em certo sentido, da carne de seus próprios ancestrais, pois muitos exilados de Israel morreram e foram sepultados ali. E há quem vá além, comparando-o a comer répteis e vermes proibidos, citando o versículo do dilúvio (Gênesis 7,23), segundo o qual toda carne viva sobre a terra — inclusive répteis — foi apagada e absorvida no solo, de modo que a terra da Babilônia conteria vestígios desses seres proibidos.
"O que é (a lei) quanto a comer terra" — (termo em francês antigo). Acaso decretaram contra ela por causa de moer especiarias, como as demais medicações, ou não? "Porque prejudica" — leva à doença. "Da carne de seus ancestrais" — que morreram ali no exílio. "Répteis e vermes" — mas certamente já apodreceram totalmente e não se tornaram apenas pó.
Disse Reish Lakish: por que se chama seu nome "Shinar"? Porque todos os mortos do dilúvio foram sacudidos (nin'aru) para lá. Disse Rabi Yochanan: por que se chama seu nome "Metzulá"? Porque todos os mortos do dilúvio afundaram (nitztalelu) para lá. (Mas quanto a) "e há quem diga: é como se comesse" répteis e vermes — mas certamente já apodreceram totalmente! Disseram: já que é prejudicial, os sábios decretaram contra ela. Pois eis que aquele homem que comeu terra e comeu agrião, e o agrião brotou em seu coração, e morreu.
A propósito dos restos dos mortos do dilúvio na terra da Babilônia, a Guemará traz dois jogos etimológicos: Reish Lakish explica que a Babilônia é chamada "Shinar" porque ali foram sacudidos (lashon "nin'aru") os cadáveres do dilúvio; Rabi Yochanan explica que é chamada "Metzulá" porque ali afundaram (lashon "nitztalelu"). A Guemará então questiona a opinião de que comer o pó da Babilônia equivale a comer répteis proibidos: mas certamente, depois de tantos séculos, esses corpos já apodreceram completamente e se tornaram mero pó, deixando de ser tecnicamente "répteis"! Resolve-se que o verdadeiro motivo do decreto contra comer terra não é a preocupação com répteis proibidos, mas simplesmente o dano à saúde — como ilustra a história de um homem que comeu terra (por motivo medicinal) e também agrião, e as sementes do agrião brotaram e cresceram dentro de seu corpo, perfurando-lhe o coração e causando sua morte.
"Já que é prejudicial" — decretaram contra ela como (se fosse a proibição de) comer répteis e vermes. "O agrião brotou nele" — as sementes de agrião se enraizaram na terra (que estava dentro dele) e cresceram em suas entranhas, e tocaram seu coração, e ele morreu.
"E te banharás, e te ungirás, e porás tuas vestes" (Rute 3,3) — disse Rabi Elazar: estas são vestes de Shabat. "Dá ao sábio e ele ficará ainda mais sábio" (Provérbios 9,9) — disse Rabi Elazar: esta (refere-se) a Rut, a Moabita, e a Shmuel de Rama.
A Guemará, ainda dentro do tema das vestes de Shabat, cita o versículo em que Noemi aconselha Rut, sua nora, a se preparar antes de descer à eira onde estava Boaz: "e te banharás, e te ungirás, e porás tuas vestes". Rabi Elazar ensina que essas vestes especiais, mencionadas em honra à ocasião, eram as próprias vestes de Shabat — reforçando o costume, já discutido em 113a, de se vestir de modo diferenciado nesse dia. Aproveitando o livro de Rut, a Guemará traz outro ensinamento de Rabi Elazar sobre o versículo de Provérbios que elogia quem, ao receber um conselho, tem a sabedoria de acrescentar algo por conta própria: isso se aplica tanto a Rut quanto a Shmuel de Rama (o profeta Samuel), que ambos, ao seguirem instruções recebidas de seus mestres — Noemi e Eli, respectivamente —, agiram com discernimento adicional, indo além do que lhes fora literalmente ordenado.
"Tuas vestes" — e acaso estava nua? Mas (refere-se a) vestes especiais, e estas são as de Shabat.
Rut — pois Noemi lhe disse: "e te banharás, e te ungirás, e porás tuas vestes sobre ti, e descerás à eira"; mas quanto a ela mesma está escrito: "e desceu à eira", e só depois "e fez conforme tudo o que sua sogra lhe ordenara". Shmuel — pois Eli lhe disse: "deita-te, e será que, se ele te chamar, dirás: fala, Senhor, pois teu servo escuta"; mas quanto a ele mesmo está escrito: "e veio o Senhor, e se pôs em pé, e chamou como das outras vezes: Shmuel, Shmuel; e disse Shmuel: fala, pois teu servo escuta" — e não disse "fala, Senhor".
A Guemará detalha em que consistiu a sabedoria adicional de Rut e de Shmuel. Quanto a Rut: Noemi lhe instruiu que se banhasse, se ungisse e vestisse suas melhores roupas antes de descer à eira; mas o versículo, ao narrar o que Rut de fato fez, registra apenas que ela desceu à eira, e só depois — já lá — "fez conforme tudo o que sua sogra lhe ordenara". A Guemará entende que Rut, por conta própria, adiou o momento de se ungir e vestir-se elegantemente para depois de chegar à eira, evitando ser vista arrumada demais pelo caminho, o que poderia levantar suspeitas sobre seu caráter. Quanto a Shmuel: Eli lhe ensinara que, se ouvisse a voz chamando, respondesse "fala, Senhor, pois teu servo escuta"; mas quando a voz de fato o chamou, Shmuel respondeu apenas "fala, pois teu servo escuta", omitindo o nome divino — por prudência e humildade, já que ainda não tinha certeza absoluta de que era realmente D'us quem lhe falava, e não quis pronunciar o Nome sem essa certeza.
"E desceu à eira, e só depois fez" — ali (naquele local), ela se ungiu e vestiu vestes elegantes, para que não a encontrassem pelo caminho já enfeitada e dissessem que era uma mulher de má fama. "Shmuel" — pois a Presença Divina o chamava de dentro do Santuário, e ele não sabia quem o chamava; e está escrito ali que Eli entendeu que era o Senhor que chamava o menino, e lhe disse: vai, deita-te, e será que, se te chamar, dirás "fala, Senhor, pois teu servo escuta" — mas ele (Shmuel) não quis mencionar o Nome, temendo que não fosse a Presença Divina.
"E foi, e veio, e colheu no campo" (Rute 2,3) — disse Rabi Elazar: (isso ensina) que foi e veio, foi e veio, até achar pessoas adequadas para ir com elas. "E disse Boaz a seu jovem, encarregado dos ceifeiros: de quem é esta moça?" (Rute 2,5) — e acaso era hábito de Boaz perguntar sobre uma moça? Disse Rabi Elazar: viu nela um assunto de sabedoria. Duas espigas — ela colhia; três espigas — não colhia.
Passando a outro versículo de Rute, a Guemará explica que "foi, e veio, e colheu no campo" ensina que Rut não simplesmente entrou e ficou num único lugar, mas foi e voltou repetidas vezes, procurando encontrar companhia de pessoas honestas e adequadas com quem caminhar até o campo de colheita, por modéstia e cautela. Sobre a pergunta de Boaz a seu capataz, "de quem é esta moça", a Guemará observa que isso era incomum — Boaz não costumava se interessar ou perguntar sobre as moças que trabalhavam em seu campo. Rabi Elazar explica que ele percebeu nela um sinal de sabedoria e conhecimento da halachá: ao colher as espigas caídas pelos ceifeiros, ela recolhia apenas quando encontrava duas espigas juntas (que pertencem ao dono do campo, sendo permitido colhê-las como leket), mas deixava de lado quando via três espigas juntas, sabendo que três ou mais já não são consideradas "leket" (espigas caídas destinadas aos pobres) e pertencem ao dono.
"Pessoas adequadas" — dentre os ceifeiros, para ir com eles. "Perguntar sobre uma moça" — (se fosse hábito perguntar sobre) toda moça que via, então estaria olhando fixamente para elas. "Duas espigas ela colhia" — quando via duas espigas que haviam caído dos ceifeiros, colhia-as; mas três, jazendo juntas, não colhia — pois assim ensina a mishná (Peá 6,5): duas espigas são leket, três não são leket.
Numa baraita foi ensinado: (Boaz) viu nela um assunto de modéstia — (as espigas que estavam) em pé, (colhia) em pé; (as que estavam) caídas, (colhia) sentada. "E assim te apegarás às minhas moças" (Rute 2,8) — e acaso era hábito de Boaz apegar-se a mulheres? Disse Rabi Elazar: quando viu que "e Orpá beijou sua sogra, mas Rut apegou-se a ela" (Rute 1,14), disse: é permitido apegar-se a ela.
Uma baraita acrescenta outra qualidade que Boaz percebeu em Rut: modéstia no modo de colher. Quando as espigas estavam em pé (esquecidas de pé pelos ceifeiros), ela as colhia permanecendo de pé; mas quando estavam caídas no chão, colhia-as sentada, evitando abaixar-se de forma imodesta diante dos homens que trabalhavam ali. A Guemará então questiona outro versículo, em que Boaz convida Rut a "apegar-se" às suas moças (as trabalhadoras de seu campo) — um convite de aproximação incomum para alguém de sua posição e cuidado com a modéstia. Rabi Elazar explica que Boaz baseou essa permissão num sinal que já vira anteriormente: quando Orpá, a outra nora de Noemi, se despediu com um beijo e voltou para seu povo, enquanto Rut se apegou (davka) a Noemi e insistiu em segui-la, Boaz reconheceu nesse apego um gesto de fidelidade e retidão, e por isso considerou permitido, e até adequado, que ela se aproximasse de suas próprias moças.
"Em pé" — as espigas que ficaram em pé, esquecidas por Boaz (na colheita) — pois esquecimento de plantação em pé também é considerado esquecimento (e permitido aos pobres) — ela colhia de pé. "Caídas" — as que haviam caído dos ceifeiros, colhia sentada, e não se curvava para tomá-las, por modéstia.
"E disse-lhe Boaz, na hora de comer: chega aqui (halom)" (Rute 2,14) — disse Rabi Elazar: um sinal (profético) lhe deu a entender: no futuro, a realeza da casa de David sairá de ti, pois está escrito nela (na realeza) "halom", como está dito: "e veio o Rei David, e sentou-se diante do Senhor, e disse: quem sou eu, Senhor D'us, e quem é minha casa, que me trouxeste até aqui (halom)?" (II Samuel 7,18). "E molharás teu pão no vinagre" — disse Rabi Elazar: daqui (aprendemos) que o vinagre é bom no calor.
A Guemará interpreta mais um versículo de Rute como alusão profética: quando Boaz convida Rut a "chegar aqui" (halom) na hora da refeição, Rabi Elazar entende que houve, nessa expressão, um sinal profético sutil de que a realeza da casa de David surgiria dela — pois o próprio termo "halom" reaparece, séculos depois, na boca do Rei David, quando este, já estabelecido em seu trono, expressa humildemente perante D'us sua surpresa por ter sido trazido "até aqui" (halom), à grandeza da monarquia. Sobre a instrução de molhar o pão no vinagre, Rabi Elazar extrai um ensinamento prático, à parte do simbolismo: o vinagre é benéfico para suportar o calor, provavelmente por suas propriedades refrescantes ou estimulantes do apetite em dias quentes.
"Um sinal lhe deu a entender" — a inspiração divina (ruach hakodesh) foi lançada nele (em Boaz).
Rabi Shmuel bar Nachmani disse: um sinal lhe deu a entender: no futuro, sairá de ti um filho cujos atos serão duros como o vinagre — e quem é ele? Menashe. "E sentou-se ao lado dos ceifeiros" (Rute 2,14) — disse Rabi Elazar: ao lado dos ceifeiros, e não no meio dos ceifeiros — um sinal lhe deu a entender que, no futuro, a realeza da casa de David se dividirá.
Rabi Shmuel bar Nachmani propõe uma leitura diferente e mais sombria da mesma instrução sobre o vinagre: em vez de um mero conselho culinário, seria também um sinal profético de que, entre os descendentes de Rut, sairia um rei cujos atos seriam tão ácidos e amargos quanto o vinagre — referindo-se ao Rei Menashe, conhecido por sua idolatria e maldade, apesar de descender da linhagem davídica. Continuando a extrair sinais do mesmo episódio, Rabi Elazar nota que o texto diz que Rut se sentou "ao lado" dos ceifeiros, e não "no meio" deles — um detalhe aparentemente insignificante que, segundo ele, prenuncia que o reino da casa de David não permaneceria unido para sempre, mas viria a se dividir (entre o Reino de Judá e o Reino de Israel).
"Ao lado dos ceifeiros" — todos os ceifeiros se interpuseram entre ele e ela, e ele não a fez sentar entre eles nem junto de si; a inspiração divina foi lançada nele, como sinal de que a realeza da casa de David, saída de ambos, no futuro se dividiria — pois, se ela tivesse se sentado entre eles, isso não seria sinal de separação entre os dois (reinos).
"E (Boaz) lhe estendeu grão tostado, e ela comeu" (Rute 2,14). Disse Rabi Elazar: "e comeu" — nos dias de David; "e se saciou" — nos dias de Salomão; "e sobrou" — nos dias de Chizkiyahu. E há quem diga: "e comeu" — nos dias de David e nos dias de Salomão; "e se saciou" — nos dias de Chizkiyahu; "e sobrou" — nos dias de Rabi. Pois disse o Mestre: o encarregado dos estábulos de Rabi era mais rico que o rei Shapur. Numa baraita foi ensinado: "e comeu" — neste mundo; "e se saciou" — nos dias do Mashiach; "e sobrou" — no porvir.
A Guemará continua extraindo sinais proféticos do mesmo versículo, agora sobre a fartura material que os descendentes de Rut, os reis da casa de David, experimentariam progressivamente. Segundo Rabi Elazar, "comeu" alude à prosperidade nos dias do Rei David, "saciou-se" à maior prosperidade nos dias de seu filho Salomão, e "sobrou" (com excedente) aos dias do Rei Chizkiyahu. Há outra versão, que estende a sequência até os dias de Rabi (Yehuda HaNassi), o editor da Mishná, cuja enorme riqueza é ilustrada pelo fato de que até mesmo seu encarregado dos estábulos era mais rico que o rei persa Shapur. Uma terceira versão, numa baraita, projeta a sequência para o futuro messiânico: a fartura "comida" já existe neste mundo, a "saciedade" plena virá nos dias do Mashiach, e o "sobrar" — a fartura definitiva e sem limites — só se realizará no porvir, na era final da redenção.
"E comeu, e se saciou" — é expressão de riqueza; sobre David, Salomão e Chizkiyahu está escrita riqueza, pois todos os reis da terra lhes traziam tributo. "Seu encarregado dos estábulos" — o responsável por seus cavalos e mulas.
"E sob sua honra arderá um ardor, como ardor de fogo" (Isaías 10,16). Disse Rabi Yochanan: "sob sua honra" — e não sua honra mesma. Rabi Yochanan (segue) seu próprio raciocínio, pois Rabi Yochanan chamava suas vestes de "meus honradores".
Retomando o tema das vestes que conferem honra — já mencionado em 113a a respeito de Rabi Yochanan, que chamava carinhosamente suas próprias roupas de "meus honradores" — a Guemará expõe o versículo de Isaías 10,16, que profetiza a queda do exército do rei da Assíria, Sancheriv: "e sob sua honra arderá um ardor, como ardor de fogo". Rabi Yochanan interpreta "sob sua honra" como significando que o que ardeu foi aquilo que está sob a honra — isto é, os corpos dos soldados —, mas não a "honra" propriamente dita, que ele entende como as vestes. Assim, segundo Rabi Yochanan, os corpos dos soldados de Sancheriv foram consumidos pelo fogo, mas suas vestes (a "honra") permaneceram milagrosamente intactas — interpretação coerente com seu próprio costume de chamar as vestes de "honra".
Rabi Elazar diz: "sob sua honra" — sob (no lugar de) sua honra mesma. Rabi Shmuel bar Nachmani disse: "sob sua honra" — como a queima dos filhos de Aharon. Assim como ali (foi) queima de alma e o corpo permaneceu, também aqui (foi) queima de alma e o corpo permaneceu.
Rabi Elazar discorda de Rabi Yochanan e entende a palavra "tachat" (sob) no sentido de "em lugar de" — como em outros versículos da Torá que usam essa palavra para indicar substituição (por exemplo, "pagará em lugar do touro"). Segundo ele, "sob sua honra" significa "no lugar de sua honra mesma" — isto é, o próprio corpo, que é a verdadeira honra da pessoa, foi consumido pelo fogo, e restaram apenas cinzas em seu lugar. Rabi Shmuel bar Nachmani propõe uma terceira leitura, combinando elementos das duas anteriores: "sob sua honra" refere-se ao que está sob a carne — ou seja, à alma —, e o evento se assemelha à morte miraculosa dos filhos de Aharon (Nadav e Avihu), consumidos por um fogo divino que queimou apenas suas almas, deixando os corpos externamente intactos e incorruptos. Da mesma forma, ensina Rabi Shmuel bar Nachmani, os soldados de Sancheriv tiveram suas almas queimadas, mas seus corpos permaneceram fisicamente preservados.
"E sob sua honra" — por estar tratando, no versículo, da disputa entre Rabi Yochanan, Rabi Elazar e Rabi Shmuel bar Nachmani, (o Talmud) a trouxe aqui. Assim se ensina: Rabi Yochanan diz "sob sua honra", e não sua honra mesma — Rabi Yochanan (segue) seu próprio raciocínio, pois chamava suas vestes de "meus honradores". Rabi Elazar diz: sob sua honra mesma. Rabi Shmuel bar Nachmani disse: "sob sua honra" — como a queima dos filhos de Aharon, etc. E assim é a explicação: tanto para Rabi Yochanan quanto para Rabi Elazar, o corpo foi queimado; mas para Rabi Yochanan, "tachat kevodo" tem o sentido de "sob", como em "sob seus pés" (embaixo), e "sua honra" são suas vestes — e o sentido é: sob as vestes dos soldados de Sancheriv ardeu um ardor, mas as vestes mesmas não se queimaram. E para Rabi Elazar, "tachat" tem o sentido de substituição, como em "pagará em lugar do touro" — pois Rabi Elazar não chamava suas vestes de "meus honradores"; por isso, para ele, "sua honra" é necessariamente seu corpo, e o sentido é: sua honra mesma será queimada, e em seu lugar restará cinza, e a queima será como ardor de fogo. E para Rabi Shmuel bar Nachmani, "tachat" tem o sentido de Rabi Yochanan, e "sua honra" tem o sentido de Rabi Elazar; por isso o versículo se interpreta, segundo Rabi Yochanan, como "sob sua honra ardeu, e não sua honra mesma" — e esta "sua honra" é o próprio corpo; e por isso (a queima foi) como a queima dos filhos de Aharon: queima de alma e o corpo permaneceu, como dizemos em Sanhedrin, no capítulo das quatro mortes.
Disse Rabi Acha bar Abba, que disse Rabi Yochanan:
O daf termina abruptamente na atribuição de um novo ensinamento — "disse Rabi Acha bar Abba, que disse Rabi Yochanan" — sem que o conteúdo do próprio ensinamento seja registrado antes da virada de folha. Este mesmo dito continua diretamente no início de Shabbat 114a, onde se revela tratar de outro tema totalmente distinto do midrash de Isaías que ocupou o restante do daf: a fonte bíblica para a troca de vestes, extraída do versículo sobre o cohen que retira as cinzas do altar ("e removerá suas vestes, e vestirá vestes diferentes", Vayicrá 6,4), e o ensinamento da escola de Rabi Yishmael de que a Torá ensinou boas maneiras.