Shabbat 111a abre exatamente de onde 110b foi interrompido, completando a citação de Rabi Chiyya bar Abba em nome de Rabi Yochanan: todos concordam que quem leveda uma oferenda depois de já levedada, ou quem castra (rompe) depois de já castrado (cortado), é responsável pela segunda ação — e o remédio que causa esterilidade, discutido no daf anterior, só é permitido para um velho que já cessou de gerar filhos. A Guemará objeta a partir do próprio Rabi Yochanan, que disse que certos remédios de fertilidade o devolveram à juventude — prova de que um velho ainda pode gerar —, e resolve que o remédio da icterícia foi discutido quanto a uma mulher, que não está mandada quanto à procriação; uma segunda objeção, a partir de Rabi Yochanan ben Beroka, que inclui a mulher nesse mandamento, é resolvida distinguindo uma mulher idosa ou estéril. Segue-se uma nova Mishná: quem tem dor nos dentes não deve sorver vinagre para se curar, mas pode mergulhar seu alimento nele como de costume; quem tem dor nos rins não deve untar vinho e vinagre, mas pode untar óleo comum — nunca óleo de rosas, caro e usado só para cura, exceto os filhos de reis, cujo costume é untá-lo também em dias comuns; Rabi Shimon estende esse privilégio a todo o povo de Israel. Na Guemará, Rav Acha Aricha levanta uma contradição perante Rabi Abahu sobre se o vinagre é bom ou ruim para os dentes, resolvida por duas distinções possíveis; uma baraita distingue sorver-e-cuspir de sorver-e-engolir, e Rava distingue ainda entre antes e depois de mergulhar o alimento no vinagre; a Guemará então invoca o princípio do "hoil" que Rava sustenta a respeito da imersão no Shabat e em Iom Kipur, mas conclui que ele se retratou dessa posição quanto ao vinagre, confirmado por uma baraita sobre imersões obrigatórias. O daf termina interrompido no meio de uma objeção sobre a rolha de pano (mesocharia) de um barril, levantada a partir de outro dito de Rav — cuja continuação é o ponto de partida de Shabat 111b, ainda não publicado.
Todos concordam que quem leveda (uma oferenda) depois de quem já a levedou é responsável, como está dito: “não se coza levedado”, “não se fará levedado”. (Todos concordam) que quem castra depois de quem já castrou é responsável, como está dito: “e o esmagado, e o triturado, e o rompido, e o cortado” — se por “cortado” é responsável, por “rompido” não é ainda mais evidente (que é responsável)? Mas sim, (o versículo vem) para incluir que quem rompe depois de quem corta é responsável. Mas sim, (fala-se aqui do remédio que causa esterilidade,) de um velho.
Este beat completa a citação de Rabi Chiyya bar Abba em nome de Rabi Yochanan, interrompida em Shabat 110b logo após a atribuição. O conteúdo revelado traz duas regras paralelas sobre repetir um ato proibido: quanto à oferenda, todos concordam que fermentá-la novamente, depois que já foi fermentada, gera responsabilidade adicional, derivada da dupla menção “não se coza levedado, não se fará levedado”. Quanto à castração, o versículo de Levítico 22:24 lista quatro graus de dano ao órgão reprodutor; dele se infere, por um argumento a fortiori invertido, que a Torá precisou incluir explicitamente o caso de romper (um dano mais leve) depois de já ter cortado (um dano mais grave), pois de outro modo se pensaria que o segundo ato, sendo redundante, não gerasse responsabilidade própria. A Guemará então retoma o fio da discussão do daf anterior sobre a permissibilidade do remédio que causa esterilidade incidental: conclui que ele só é permitido para um homem já velho, que cessou de gerar filhos.
“Todos concordam” — ainda que discordem sobre o primogênito (do rebanho) que foi atingido por sangramento, se é permitido sangrá-lo ou não, o que seria causar uma mácula num animal já com mácula, e há quem permita sangrá-lo e assim causar-lhe mácula — todos concordam, quanto a levedar uma oferenda depois de já a ter levedado, que todos os atos de preparação da oferenda são proibidos com fermento. “Como está escrito: não se coza levedado, não se fará levedado” — a cozedura estava incluída (na proibição geral); por que então foi (mencionada) separadamente? Para comparar a ela: assim como a cozedura é um ato distinto e se é responsável por ela em si mesma, etc. — e todos concordam que se o primeiro sovou (a massa) com fermento, e veio o segundo e a arranjou com fermento, e o terceiro a assou, todos são responsáveis. “Cortado (karut)” — quando não os separa por completo, mas os corta e ficam pendurados na bolsa. “Mas sim, de um velho” — que já cessou de gerar filhos.
Mas não disse Rabi Yochanan: elas mesmas me devolveram à minha juventude! Mas sim, (fala-se aqui) de uma mulher. E para Rabi Yochanan ben Beroka, que disse que sobre ambos ele fala: “e Deus os abençoou, e Deus lhes disse: frutificai e multiplicai-vos” — o que há para dizer? (Fala-se) de uma mulher idosa, ou então de uma mulher estéril.
A Guemará objeta à conclusão anterior com as próprias palavras de Rabi Yochanan, citadas no tratado Guitin: certos remédios o devolveram à sua juventude quanto à capacidade de gerar filhos — o que prova que mesmo um homem velho ainda pode procriar, e portanto não poderia usar um remédio que causa esterilidade. A Guemará resolve que o remédio da icterícia (discutido no daf anterior) foi permitido não para um velho, mas para uma mulher, que não está obrigada pelo mandamento de “frutificai e multiplicai-vos”. Levanta-se então uma segunda objeção, a partir da opinião de Rabi Yochanan ben Beroka, que interpreta a bênção de Gênesis 1:28 como dirigida a ambos, homem e mulher, incluindo assim a mulher no mandamento de procriar — o que anularia a permissão. A Guemará resolve, por fim, que mesmo segundo Rabi Yochanan ben Beroka, o remédio é permitido para uma mulher idosa, que já passou da idade de gerar, ou para uma mulher estéril, que nunca poderia cumprir o mandamento de qualquer modo.
“Mas não disse Rabi Yochanan” — no capítulo “Mi Sheachazo”, no tratado Guitin. “Elas mesmas me devolveram à minha juventude” — os remédios mencionados ali para quem não está saudável na relação conjugal; e disse Rabi Yochanan que, depois que envelheceu, esses remédios o devolveram à sua juventude para a relação — logo, um velho pode gerar. “Mas sim, de uma mulher” — que não está mandada quanto a frutificar e multiplicar-se, como dizemos em Yevamot: “frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra e sujeitai-a” — é próprio do homem sujeitar (a terra), e não é próprio da mulher sujeitar.
Mishná. Quem tem dor nos dentes — não sorva com eles o vinagre, mas pode mergulhar (seu alimento) em seu costume, e se ficou curado — ficou curado. Quem tem dor nos rins — não unte vinho e vinagre, mas pode untar óleo (comum). E não óleo de rosas. Os filhos dos reis untam óleo de rosas sobre suas feridas, pois esse é o seu costume de untar (mesmo) em dias comuns. Rabi Shimon diz: todo Israel são filhos de reis.
Uma nova Mishná abre um novo tema dentro do mesmo capítulo, os remédios permitidos e proibidos no Shabat por critérios de discrição: quem tem dor de dente não pode sorver vinagre pela boca com intenção medicinal (ato claramente identificável como cura), mas pode mergulhar seu alimento em vinagre como faz habitualmente, mesmo que isso acabe por curá-lo. Do mesmo modo, quem tem dor nos rins (lombo) não pode untar vinho e vinagre, misturas reconhecidas como remédio, mas pode untar óleo comum, uso cotidiano e não suspeito. Óleo de rosas, porém, é caro demais para uso comum e delataria intenção curativa — exceto para os filhos de reis, cujo costume é usá-lo também em dias comuns, tornando-o indistinguível de um uso não medicinal. Rabi Shimon estende esse privilégio a todo o povo de Israel, que é chamado de “filhos de reis”.
“Mishná: pode mergulhar em seu costume” — seu alimento e seu pão em vinagre. “Não unte com eles vinho e vinagre” — pois ninguém unta com isso senão para cura. “Mas não óleo de rosas” — porque seu preço é caro e não é comum, e fica evidente que se faz (isso) para cura. “Pois esse é seu costume de untar em dias comuns” — sem ferida.
Levantou uma contradição Rav Acha Aricha — que é Rav Acha bar Papa — perante Rabi Abahu: aprendemos (na Mishná): quem tem dor nos dentes não sorva com eles vinagre. Isso quer dizer que o vinagre é bom para os dentes?! Mas não está escrito: “como vinagre para os dentes e como fumaça para os olhos” (Provérbios 10:26)? Não há dificuldade: esta (a advertência do versículo) fala do azedume da fruta (vinho ainda não bem fermentado), aquela (a Mishná) fala de vinagre (de vinho). E se quiseres, diz: esta e aquela falam de vinagre (de vinho) — esta (a Mishná) fala de onde há ferida, aquela (o versículo) de onde não há ferida. Havendo ferida, (o vinagre) cura; não havendo ferida, enfraquece.
A Guemará abre a análise da nova Mishná com uma contradição levantada por Rav Acha Aricha (identificado como Rav Acha bar Papa) diante de Rabi Abahu: se a Mishná proíbe sorver vinagre pelos dentes por ser um remédio eficaz, isso implicaria que o vinagre é bom para os dentes — mas o versículo de Provérbios 10:26 compara o vinagre aos dentes de modo claramente negativo, junto à fumaça que prejudica os olhos. A resposta oferece duas resoluções possíveis, sem decidir entre elas: a primeira distingue entre dois tipos de vinagre — o azedume ainda cru da uva não totalmente fermentada, que é prejudicial, e o vinagre de vinho propriamente dito, que é benéfico; a segunda mantém que ambas as fontes falam do mesmo vinagre de vinho, mas distingue conforme a condição dos dentes — havendo uma ferida ou fragilidade, o vinagre cura; não havendo, ele apenas enfraquece e afrouxa os dentes saudáveis.
“Kiuha” — vinho que não fermentou o suficiente em suas uvas, é duro para os dentes. “Não havendo ferida, enfraquece” — a junção da carne e dos dentes se afrouxa, ficam distantes um do outro, “se deslocam” (dechalcer, em francês antigo).
“Não sorva com eles o vinagre.” Mas não foi ensinado (numa baraita): não sorva e cuspa, mas pode sorver e engolir! Disse Abaie: quando também aprendemos isso na Mishná, aprendemos (que se refere a) sorver e cuspir. Rava disse: mesmo que digas (que a Mishná se refere) a sorver e engolir, (a distinção é outra:) aqui (na baraita, é) antes de mergulhar (o alimento), ali (na Mishná, é) depois de mergulhar.
A Guemará retorna ao texto da Mishná para questionar seu alcance: uma baraita parece contradizê-la, permitindo sorver e engolir vinagre, e proibindo apenas sorver e cuspir (que é claramente medicinal, pois não há razão para cuspir um alimento saboroso). Duas resoluções são propostas. Abaie limita o âmbito da própria Mishná: ela só proíbe sorver e cuspir, e portanto não há contradição com a baraita. Rava, por outro lado, aceita que a Mishná também proíbe sorver e engolir, mas distingue por outro critério: antes de mergulhar o alimento no vinagre — quando ainda se pode atribuir o ato a um simples gosto por vinagre puro — é permitido sorver; depois de já ter mergulhado e comido o alimento com vinagre, sorver o vinagre puro revela claramente uma intenção medicinal, e é proibido.
“Não sorva e cuspa” — pois fica evidente que é para cura. “Antes de mergulhar” — antes de comer é permitido, pois era costume mergulhar em vinagre todo dia, e quem vê diz: isto é seu (costume de) mergulhar; e depois de mergulhar é proibido, pois todos sabem que já comeu e já mergulhou o quanto precisava.
Mas digamos: já que antes de mergulhar é permitido, depois de mergulhar também deveria ser permitido, pois ouvimos de Rava que ele sustenta (o princípio de) “hoil” (“já que”). Como disse Rava: não há nada que seja permitido no Shabat e proibido em Iom Kipur; já que é permitido no Shabat, também é permitido em Iom Kipur!
A Guemará desafia a distinção de Rava com o próprio princípio metodológico que ele costuma aplicar noutro contexto: o princípio do “hoil” (“já que”), segundo o qual, uma vez que algo é permitido em determinada circunstância, essa permissão se estende a situações relacionadas, sem distinções artificiais. Rava havia enunciado esse princípio a respeito da imersão ritual: já que o banho é permitido no Shabat (por parecer um ato de prazer, não de reparo), ele deveria também ser permitido em Iom Kipur para quem precisa se purificar por imersão — ainda que o banho por prazer seja proibido nesse dia. Se Rava aplica esse raciocínio à imersão, por que não o aplicaria também ao vinagre: já que sorver antes de mergulhar é permitido, também deveria ser permitido depois?
“Mas digamos que já que antes de mergulhar é permitido...” etc. — pois não há (nada) que seja proibido numa parte do Shabat e permitido noutra parte dele, já que ouvimos de Rava, no capítulo “Iom Tov” do tratado Beitsá, que ele diz, a respeito da imersão, (o princípio de) “hoil” de modo semelhante — pois se ensina ali que não se imergem utensílios no Shabat, mas uma pessoa pode imergir-se; e perguntamos: utensílios, por quê (não)? Porque, disse Rava, parece como quem conserta um utensílio; mas uma pessoa parece como quem se refresca. E dizemos: está bem no Shabat, onde o banho é permitido; mas em Iom Kipur, onde o banho é proibido, e todos sabem que ele se imerge e se conserta a si mesmo, o que há para dizer? Haveria que decretar (proibição) por causa de quem conserta o couro de um cervo (na água)! E disse Rava: não há nada de proibição do Shabat que, sendo permitido no Shabat, seja proibido em Iom Kipur; e já que no Shabat não havia motivo para proibi-lo, também em Iom Kipur não decretaram sobre isso.
Rava retratou-se disso. De onde (se sabe) que foi disso que se retratou? Talvez tenha sido daquilo (a posição sobre a imersão) que se retratou? Não te venha à mente (pensar assim), pois foi ensinado: todos os obrigados a imersões se imergem em seu costume, tanto em Tisha BeAv quanto em Iom Kipur.
A Guemará responde que Rava, de fato, retratou-se de sua posição — mas não da posição sobre a imersão ritual, e sim da distinção que fazia sobre o vinagre, aceitando afinal que sorver depois de mergulhar também é proibido, sem recorrer ao princípio do “hoil”. A Guemará então questiona como se sabe qual das duas posições foi retratada, já que ambas dependem do mesmo princípio: talvez Rava tenha se retratado da posição sobre a imersão, concluindo que ela é proibida em Iom Kipur, e mantido sua distinção original sobre o vinagre? A resposta é que isso é impensável, pois uma baraita ensina explicitamente que todos os que têm obrigação de imersão ritual — inclusive por impureza — imergem-se normalmente tanto em Tisha BeAv quanto em Iom Kipur, confirmando que a posição permissiva sobre a imersão permanece firme; logo, foi da posição sobre o vinagre que Rava se retratou.
“Aqui lemos: Rava retratou-se disso” — daquilo (que dissera) sobre antes de mergulhar, e (agora) estabelece a Mishná como se referindo a sorver e cuspir, como Abaie; e isto (a opinião anterior) foi dita primeiro, e depois ele se retratou dela. “Talvez tenha sido daquilo que se retratou” — e sustentasse que em Iom Kipur é proibido imergir-se, e não dizemos “hoil”; e aquilo (a opinião sobre a imersão) foi dito primeiro.
“Quem tem dor nos rins...” etc. Disse Rabi Abba bar Zavda que disse Rav: a lei é como Rabi Shimon. Isso quer dizer que Rav opina como Rabi Shimon? Mas não disse Rav Shimi bar Chiya em nome de Rav: esta rolha de pano (mesocharia) do barril...
A Guemará passa à última cláusula da Mishná, sobre a permissão de untar óleo de rosas nos rins doloridos — restrita, no texto da Mishná, aos filhos de reis, mas estendida por Rabi Shimon a todo o povo de Israel. Rabi Abba bar Zavda transmite em nome de Rav que a lei prática segue Rabi Shimon, permitindo o óleo de rosas a qualquer israelita. A Guemará então expressa surpresa: será que Rav, de modo geral, decide como Rabi Shimon nas leis do Shabat? Levanta-se uma objeção a partir de outro ensinamento transmitido por Rav Shimi bar Chiya em nome do mesmo Rav, relativo à rolha de pano (mesocharia) usada para tapar a torneira de um barril de vinho — um caso em que, aparentemente, Rav não decide como Rabi Shimon. O texto se interrompe aqui, no meio da citação dessa nova fonte, antes que seu conteúdo seja revelado; a continuação, incluindo o que Rav disse sobre a rolha do barril e sua relação com a opinião de Rabi Shimon, é o ponto de partida de Shabat 111b, ainda não publicado.
“Isso quer dizer que Rav” — nas leis mais leves do Shabat (outra versão: em todas as leis do Shabat) opina como Rabi Shimon? Mas não disse... etc. “Esta mesocharia” — pano que se enrola na torneira de um barril de barro, porque o furo não é uniforme.