Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
הָתָם לָא שְׁכִיחָא שִׁכְרוּת

Por que a Minchá é mais temida que a arvit, os exemplos dos sábios ao se prepararem para rezar, o tempo da Torá e o tempo da oração, os marcos de início do julgamento, até quando os juízes ficam sentados, as horas de comer, e o início da sugya sobre rezar no banho

Shabbat 10a — a explicação de que a embriaguez é rara de dia mas comum à noite, e de que na Minchá a pessoa teme perder o horário fixo enquanto em arvit (que dura a noite toda) não teme e pode relaxar; a objeção de Rav Sheshet e a resposta a partir de "Prepara-te para encontrar teu D-us, Israel"; os exemplos de Rava bar Rav Huna, Rava e Rav Kahana ao se aprumarem antes da tefilá; Rava observando Rav Hamnuna se alongar na oração e a distinção entre tempo de Torá e tempo de oração; Rabi Zeira repreendendo Rabi Yirmeya por se apressar a rezar no meio do estudo; os marcos de início do julgamento segundo Rabi Yirmeya e Rabi Yona; os exemplos de Rav Ami e Rav Assi estudando entre as colunas, e de Rav Chisda e Rabá bar Rav Huna, que se enfraqueciam de julgar o dia todo, e o ensinamento de Rav Chiyya bar Rav de Difti a partir de "o povo ficou em pé diante de Moshé, de manhã até a tarde"; até quando os juízes permanecem sentados, segundo Rav Sheshet e Rav Chama, a partir do versículo de Isaías sobre a terra cujos príncipes comem na hora certa; a baraita das cinco horas de refeição (dos lidim, dos ladrões, dos herdeiros, dos trabalhadores, de todo homem), a correção de Rav Papa e a distinção de Abaie sobre quem já provou algo de manhã; e o início da sugya de Rav Adda bar Ahava sobre rezar dentro do banho, com a objeção da baraita que distingue as três zonas do bet-hamerchatz.

O daf continua a explicação de por que, na tefilá da Minchá, teme-se que a pessoa se descuide e perca o horário, enquanto na arvit isso não se teme: de dia a embriaguez é rara, mas à noite, na hora da refeição, é comum; e além disso, a Minchá tem horário fixo e estreito, que causa temor, enquanto a arvit, podendo ser rezada a noite toda, não desperta o mesmo cuidado. Rav Sheshet objeta que afrouxar o cinto não é trabalho, e pergunta por que não ficar de pé assim mesmo e rezar — respondendo-se que é por causa do versículo "Prepara-te para encontrar teu D-us, Israel", que exige preparação e recato ao rezar. Seguem-se exemplos de sábios que se preparavam com formalidade antes da tefilá — Rava bar Rav Huna calçando sapatos elegantes, Rava tirando o manto e cruzando as mãos como servo diante do senhor, e Rav Kahana fazendo o mesmo em tempos de aflição, mas vestindo-se com dignidade em tempos de paz. A seguir, Rava observa Rav Hamnuna se alongando em sua oração e comenta que ele abandona a vida eterna (o estudo da Torá) para se ocupar da vida temporária (a oração) — pois Rav Hamnuna entendia que o tempo da tefilá e o tempo do estudo da Torá são distintos e não se pode prolongar um às custas do outro. Um episódio semelhante narra Rabi Yirmeya sentado perante Rabi Zeira estudando, que se apressa para rezar ao entardecer, e é repreendido com o versículo "quem desvia o ouvido de ouvir a Torá, também sua oração é abominável". A Guemará então define os marcos de início do julgamento (segundo Rabi Yirmeya e Rabi Yona: quando os juízes se envolvem no manto, ou quando as partes começam a apresentar seus argumentos) e narra os costumes de Rav Ami e Rav Assi, que batiam na porta convidando quem tivesse um caso a entrar, e de Rav Chisda e Rabá bar Rav Huna, que se enfraqueciam de julgar o dia inteiro, sendo consolados pelo ensinamento de Rav Chiyya bar Rav de Difti sobre a grandeza de julgar com verdade. Discute-se até quando os juízes ficam sentados (até a hora da refeição, segundo Rav Sheshet, apoiado no versículo de Kohelet sobre a terra cujo rei é jovem e cujos príncipes comem de manhã, versus a terra cujo rei é livre e cujos príncipes comem na hora certa, com força de Torá e não de vinho). Segue a baraita que enumera as cinco horas do dia e a quem correspondem os hábitos de comer nelas, a correção de Rav Papa (quarta hora é hora de refeição para todo homem) e a ressalva de Abaie sobre quem já provou algo de manhã. O daf fecha com o início de uma nova sugya: Rav Adda bar Ahava ensina que se pode rezar a tefilá dentro do próprio bet-hamerchatz (banho), e a Guemará traz uma baraita que distingue as diferentes zonas do banho — onde as pessoas ficam vestidas, onde ficam vestidas e nuas, e onde ficam nuas — quanto à permissão de ler, rezar, saudar e usar tefilin; a discussão sobre essa aparente contradição prossegue no daf seguinte.

Por que a Minchá é mais temida que a arvit · הָתָם לָא שְׁכִיחָא שִׁכְרוּת

01Explicação: de dia a embriaguez é rara, à noite é comum; e a Minchá tem horário fixo que causa temor
A Guemará; Rav Sheshet
הָתָם לָא שְׁכִיחָא שִׁכְרוּת, הָכָא שְׁכִיחָא שִׁכְרוּת. אִי נָמֵי, בְּמִנְחָה — כֵּיוָן דִּקְבִיעָא לַהּ זִימְנָא מִירְתַת וְלָא אָתֵי לְמִפְשַׁע. עַרְבִית — כֵּיוָן דְּכוּלֵּהּ לֵילְיָא זְמַן עַרְבִית, לָא מִירְתַת וְאָתֵי לְמִפְשַׁע. מַתְקִיף לַהּ רַב שֵׁשֶׁת: טְרִיחוּתָא לְמֵיסַר הֶמְיָינֵיהּ?! וְעוֹד, לֵיקוּ הָכִי וְלִיצַלֵּי! — מִשּׁוּם שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִכּוֹן לִקְרַאת אֱלֹהֶיךָ יִשְׂרָאֵל״.

Ali (à noite, antes da arvit) não é comum a embriaguez; aqui (de dia, antes da Minchá) é comum a embriaguez (por isso não se teme tanto interromper a refeição noturna para rezar). Ou, alternativamente: na Minchá — já que seu horário é fixo (e estreito), (a pessoa) teme e não vem a se descuidar. (Já) na arvit — já que toda a noite é horário de arvit, não teme, e vem a se descuidar. Rav Sheshet objeta a isso: é trabalhoso amarrar de novo o cinto?! E além disso, que fique (de pé) assim mesmo e reze! (Resposta:) por causa do que se diz: "Prepara-te para encontrar teu D-us, Israel".

Nota

O daf abre continuando a explicação, iniciada no fim de 9b, de por que os "companheiros babilônios" não incomodavam quem já havia afrouxado o cinto para a refeição da noite, mesmo segundo quem considera a tefilá de arvit obrigatória. A Guemará oferece duas razões: primeiro, que de dia a embriaguez na refeição é rara, mas à noite é comum, de modo que interromper a refeição noturna para rezar traria o risco real de a pessoa já estar embriagada e rezar de forma inadequada; segundo, e alternativamente, que o horário da Minchá é fixo e relativamente estreito, o que desperta temor e cuidado, ao passo que o horário da arvit se estende por toda a noite, e por isso a pessoa relaxa e corre o risco de esquecer. Rav Sheshet contesta essa segunda explicação: afrouxar o cinto não é um esforço tão grande a ponto de justificar a dispensa — a pessoa poderia perfeitamente ficar de pé como está e rezar sem se preocupar com o cinto. A Guemará responde citando o versículo de Amós, "Prepara-te para encontrar teu D-us, Israel", que ensina a necessidade de se preparar e se arrumar com dignidade antes de comparecer, por assim dizer, diante de D-us em oração — por isso não bastaria ficar de pé de qualquer jeito, e a pessoa de fato precisa se ajeitar antes de rezar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "não é comum a embriaguez" e "Prepara-te para encontrar"
לא שכיחא שכרות - אין דרך להשתכר מבע"י לפיכך גומר ויתפלל אבל בלילה עשוי להשתכר בסעודתן:

"Não é comum a embriaguez" — não é costume se embriagar antes de escurecer (de dia); por isso (a pessoa) termina (a refeição) e depois reza; mas à noite costuma-se embriagar durante a refeição.

הכון לקראת אלהיך - התנאה לפניו:

"Prepara-te para encontrar (teu D-us)" — enfeita-te diante d'Ele.

02Os exemplos de Rava bar Rav Huna, Rava e Rav Kahana ao se prepararem para rezar
Rava bar Rav Huna; Rava; Rav Ashi; Rav Kahana
רָבָא בַּר רַב הוּנָא רָמֵי פּוּזְמָקֵי וּמְצַלֵּי, אָמַר: ״הִכּוֹן לִקְרַאת״ וְגוֹ׳. רָבָא שָׁדֵי גְּלִימֵיהּ וּפָכַר יְדֵיהּ וּמְצַלֵּי. אָמַר: ״כְּעַבְדָּא קַמֵּיהּ מָרֵיהּ״. אָמַר רַב אָשֵׁי: חֲזֵינָא לֵיהּ לְרַב כָּהֲנָא כִּי אִיכָּא צַעֲרָא בְּעָלְמָא, שָׁדֵי גְּלִימֵיהּ וּפָכַר יְדֵיהּ וּמְצַלֵּי. אָמַר: ״כְּעַבְדָּא קַמֵּי מָרֵיהּ״. כִּי אִיכָּא שְׁלָמָא לָבֵישׁ וּמִתְכַּסֵּי וּמִתְעַטֵּף וּמְצַלֵּי. אָמַר: ״הִכּוֹן לִקְרַאת אֱלֹהֶיךָ יִשְׂרָאֵל״.

Rava bar Rav Huna calçava sapatos elegantes e rezava, dizendo: "Prepara-te para encontrar (teu D-us)", etc. Rava lançava fora seu manto e cruzava as mãos, e rezava, dizendo: "Como um servo diante de seu senhor". Disse Rav Ashi: eu via Rav Kahana, quando havia alguma aflição no mundo, lançar fora seu manto, cruzar as mãos, e rezar, dizendo: "Como um servo diante de seu senhor"; (mas) quando havia paz, ele se vestia, se cobria, se envolvia (no manto), e rezava, dizendo: "Prepara-te para encontrar teu D-us, Israel".

Nota

A Guemará traz exemplos concretos de como diversos sábios levavam a sério a preparação antes da tefilá, cada um à sua maneira. Rava bar Rav Huna calçava sapatos importantes (à moda ocidental), demonstrando respeito, e recitava o versículo de Amós. Rava, por sua vez, jogava fora o manto (para não parecer importante) e cruzava as mãos em postura de submissão, como um servo temeroso diante de seu senhor, recitando um versículo diferente que expressa humildade. Rav Ashi relata que Rav Kahana adaptava sua postura à situação: em tempos de aflição geral, adotava a postura humilde de servo temeroso; mas em tempos de paz, se vestia com dignidade e recitava o versículo de preparação e enfeite diante de D-us.

03Rava e Rav Hamnuna: vida eterna e vida temporária; Rabi Zeira repreende Rabi Yirmeya
Rava; Rav Hamnuna; Rabi Yirmeya; Rabi Zeira
רָבָא חַזְיֵיהּ לְרַב הַמְנוּנָא דְּקָא מַאֲרֵיךְ בִּצְלוֹתֵיהּ. אֲמַר: מַנִּיחִין חַיֵּי עוֹלָם, וְעוֹסְקִים בְּחַיֵּי שָׁעָה. וְהוּא סָבַר זְמַן תְּפִלָּה לְחוּד וּזְמַן תּוֹרָה לְחוּד. רַבִּי יִרְמְיָה הֲוָה יָתֵיב קַמֵּיהּ דְּרַבִּי זֵירָא וַהֲווֹ עָסְקִי בִּשְׁמַעְתָּא. נְגַהּ לְצַלּוֹיֵי וַהֲוָה קָא מְסַרְהֵב רַבִּי יִרְמְיָה. קָרֵי עֲלֵיהּ רַבִּי זֵירָא: ״מֵסִיר אׇזְנוֹ מִשְּׁמוֹעַ תּוֹרָה גַּם תְּפִלָּתוֹ תּוֹעֵבָה״.

Rava viu Rav Hamnuna se alongando em sua oração. Disse (Rava): abandonam a vida eterna (o estudo da Torá) e se ocupam da vida temporária (a oração)! Mas ele (Rav Hamnuna) entendia que o tempo da tefilá é uma coisa, e o tempo da Torá é outra coisa (e não há problema em dedicar tempo devido à oração, mesmo que isso interrompa o estudo). Rabi Yirmeya estava sentado perante Rabi Zeira, e ambos se ocupavam de uma tradição (em estudo). Escureceu (chegou a hora) de rezar, e Rabi Yirmeya se apressava (para interromper e rezar). Aplicou a ele Rabi Zeira (o versículo): "Quem desvia o ouvido de ouvir a Torá, também sua oração é abominação".

Nota

A Guemará traz dois episódios que parecem, à primeira vista, em tensão entre si. No primeiro, Rava critica Rav Hamnuna por se alongar demais em sua oração, dizendo que ele estaria abandonando a "vida eterna" (o estudo da Torá, que tem valor permanente) para se dedicar à "vida temporária" (a oração, cujo valor, embora grande, diz respeito às necessidades imediatas desta vida — saúde, paz, sustento). O texto explica que Rav Hamnuna discordava dessa crítica implícita, pois entendia que o tempo dedicado à tefilá e o tempo dedicado ao estudo da Torá são categorias distintas, cada uma com seu lugar próprio, e alongar-se na oração dentro do seu próprio tempo não rouba tempo do estudo. Já no segundo episódio, o problema é o oposto: Rabi Yirmeya estava estudando com Rabi Zeira e, ao chegar o horário da oração, se apressou para interromper abruptamente o estudo e ir rezar — e por isso foi repreendido com o versículo de Provérbios, que ensina que quem se desvia de ouvir a Torá (mesmo para rezar) torna sua própria oração abominável, pois a pressa em abandonar o estudo revela uma atitude incorreta.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sapatos elegantes", "lançava fora o manto", "vida eterna", "escureceu" e "se apressava"
רמי פוזמקי - נותן אנפילאות חשובים ברגליו ובלע"ז קאלצו"ס:

"Calçava sapatos elegantes" — colocava calçados importantes nos pés, chamados calças, em língua estrangeira.

שדי גלימא - משליך אדרתו מעליו שלא יראה כחשוב:

"Lançava fora seu manto" — jogava sua capa fora de si, para não parecer importante.

ופכר ידיה - חובק ידיו באצבעותיו מרצי"ר בלע"ז כאדם המצטער מאימת רבו:

"E cruzava as mãos" — entrelaçava as mãos pelos dedos, marsir em língua estrangeira, como alguém que se aflige por temor de seu senhor.

חיי עולם - תורה תפלה צורך חיי שעה היא לרפואה לשלום ולמזונות:

"Vida eterna" — (refere-se à) Torá; a tefilá é necessidade da vida temporária, para cura, para paz e para sustento.

נגה - איחר:

"Escureceu" — atrasou-se (o horário se aproximava do fim).

מסרהב - ממהר לעמוד:

"Se apressava" — apressava-se a se levantar.

Os marcos de início do julgamento · מֵאֵימָתַי הַתְחָלַת דִּין

04Rabi Yirmeya e Rabi Yona: quando os juízes se envolvem no manto, ou quando as partes começam a argumentar
Rabi Yirmeya; Rabi Yona
מֵאֵימָתַי הַתְחָלַת דִּין? — רַבִּי יִרְמְיָה וְרַבִּי יוֹנָה. חַד אָמַר מִשֶּׁיִּתְעַטְּפוּ הַדַּיָּינִין. וְחַד אָמַר מִשֶּׁיִּפְתְּחוּ בַּעֲלֵי דִינִים. וְלָא פְּלִיגִי, הָא, דְּעָסְקִי וְאָתוּ בְּדִינָא. הָא, דְּלָא עָסְקִי וְאָתוּ בְּדִינָא.

A partir de quando (se considera) o início do julgamento? (Disputam) Rabi Yirmeya e Rabi Yona. Um disse: a partir de quando os juízes se envolvem (em seus mantos). E outro disse: a partir de quando as partes começam (a apresentar seus argumentos). E não discordam: este (fala do caso) em que já estavam ocupados (em outro julgamento) e vem (uma nova parte) com um caso; aquele (fala do caso) em que não estavam ocupados e vêm (as partes) com um caso.

Nota

Voltando ao tema dos marcos de início de cada atividade (retomado de 9b), a Guemará agora define quando se considera iniciado um julgamento — o que determina se os juízes podem concluí-lo sem interromper para a Minchá. Há uma disputa entre Rabi Yirmeya e Rabi Yona: um diz que o início é quando os próprios juízes se envolvem formalmente em seus mantos, sinal de que estão prontos para começar a julgar; o outro diz que o início é apenas quando as partes litigantes de fato começam a apresentar seus argumentos. A Guemará harmoniza a disputa: quando os juízes já estavam ocupados julgando outro caso (e portanto já envolvidos no manto) e surge um novo caso, o início desse novo caso já se conta a partir do momento em que as partes começam a falar (pois o envolvimento no manto já havia ocorrido antes). Mas quando os juízes ainda não estavam ocupados em nenhum julgamento, o início se conta apenas a partir de quando eles se envolvem no manto para começar.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "os juízes se envolvem no manto" e "já estavam ocupados"
דיינין מתעטפין בטליתן - כשפותחין בדין מאימת שכינה ושלא יפנו ראשן לכאן ולכאן ותהא דעתן מיושבת עליהם:

"Os juízes se envolvem em seus mantos" — quando começam o julgamento, por temor da Presença Divina, e para que não virem a cabeça para cá e para lá, e sua mente fique tranquila e concentrada.

עסיקי ואתו - בדין אחר וכבר מעוטפים הן וכשנגמר אותו דין בא לפניהם דין אחר סמוך למנחה הויא התחלתן משיפתחו בעלי הדין בטענות דהכא ליכא למימר משיתעטפו:

"Já estavam ocupados (e vêm)" — em outro julgamento, e já estavam envolvidos (nos mantos); e quando aquele julgamento termina, vem perante eles outro julgamento perto da Minchá — o início deste é a partir de quando as partes começam com seus argumentos, pois aqui não se pode dizer "a partir de quando se envolvem (no manto)" (já que isso já ocorrera antes).

05Rav Ami e Rav Assi entre as colunas; Rav Chisda e Rabá bar Rav Huna, e o ensinamento de Rav Chiyya bar Rav de Difti
Rav Ami; Rav Assi; Rav Chisda; Rabá bar Rav Huna; Rav Chiyya bar Rav de Difti
רַב אַמֵּי וְרַב אַסִּי הֲווֹ יָתְבִי וְגָרְסִי בֵּינֵי עַמּוּדֵי. וְכֹל שַׁעְתָּא וְשַׁעְתָּא הֲווֹ טָפְחִי אַעֵיבְרָא דְּדַשָּׁא וְאָמְרִי: אִי אִיכָּא דְּאִית לֵיהּ דִּינָא, לֵיעוּל וְלֵיתֵי. רַב חִסְדָּא וְרַבָּה בַּר רַב הוּנָא הֲווֹ יָתְבִי בְּדִינָא כּוּלֵּי יוֹמָא, הֲוָה קָא חָלֵישׁ לִבַּיְיהוּ. תְּנָא לְהוּ רַב חִיָּיא בַּר רַב מִדִּפְתִּי: ״וַיַּעֲמֹד הָעָם עַל מֹשֶׁה מִן הַבֹּקֶר עַד הָעָרֶב״, וְכִי תַּעֲלֶה עַל דַּעְתְּךָ שֶׁמּשֶׁה יוֹשֵׁב וְדָן כׇּל הַיּוֹם כּוּלּוֹ? תּוֹרָתוֹ מָתַי נַעֲשֵׂית? אֶלָּא לוֹמַר לָךְ כׇּל דַּיָּין שֶׁדָּן דִּין אֱמֶת לַאֲמִיתּוֹ, אֲפִילּוּ שָׁעָה אַחַת, מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִילּוּ נַעֲשָׂה שׁוּתָּף לְהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית. כְּתִיב הָכָא: ״וַיַּעֲמֹד הָעָם עַל מֹשֶׁה מִן הַבֹּקֶר עַד הָעָרֶב״, וּכְתִיב הָתָם: ״וַיְהִי עֶרֶב וַיְהִי בֹקֶר יוֹם אֶחָד״.

Rav Ami e Rav Assi ficavam sentados e estudavam entre as colunas (da casa de estudo). E a cada hora batiam na dobradiça da porta e diziam: se há alguém que tem um julgamento (a apresentar), que entre e venha. Rav Chisda e Rabá bar Rav Huna ficavam sentados em julgamento o dia todo, e seu coração se enfraquecia. Ensinou-lhes Rav Chiyya bar Rav de Difti: "e o povo ficou em pé diante de Moshé, de manhã até a tarde" — e acaso te ocorreria que Moshé ficava sentado julgando o dia inteiro? Quando se fazia sua (própria) Torá (seu estudo pessoal)? Mas (o versículo vem) para te dizer: todo juiz que julga um julgamento de verdade em sua veracidade, ainda que por uma hora, a Escritura o considera como se tivesse se tornado sócio do Santo, bendito seja, na obra da criação. Está escrito aqui: "e o povo ficou em pé diante de Moshé, de manhã até a tarde", e está escrito ali: "e foi tarde e foi manhã, um dia".

Nota

A Guemará traz exemplos práticos de como sábios lidavam com o julgamento e o estudo. Rav Ami e Rav Assi preferiam ficar estudando entre as colunas da casa de estudo, e apenas periodicamente batiam na porta anunciando disponibilidade para julgar quem precisasse — priorizando assim o estudo, mas sem negligenciar quem precisasse de julgamento. Já Rav Chisda e Rabá bar Rav Huna se dedicavam integralmente a julgar o dia todo, o que os deixava fisicamente enfraquecidos e angustiados por não poderem estudar. Rav Chiyya bar Rav de Difti os consola citando o versículo do Êxodo sobre Moshé julgando o povo "de manhã até a tarde", e explicando que isso não significa literalmente que Moshé ficasse sentado julgando o dia inteiro sem tempo para seu próprio estudo — mas que o versículo ensina que qualquer juiz que julga com verdade, mesmo que por apenas uma hora, é considerado pela Escritura como sócio de D-us na própria obra da criação, comparando a expressão "de manhã até a tarde" à expressão usada no relato da criação, "e foi tarde e foi manhã, um dia".

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "entre as colunas" e "se enfraquecia o coração"
עמודי - שעליית בית המדרש נשען עליהם:

"Colunas" — nas quais se apoiava o andar superior da casa de estudo.

חליש לבייהו - מצטערין שלא עסקו אותו יום בתורה:

"Se enfraquecia seu coração" — afligiam-se por não terem se ocupado naquele dia com a Torá.

Até quando os juízes ficam sentados, e as horas de comer · עַד מָתַי יוֹשְׁבִין בַּדִּין

06Rav Sheshet e Rav Chama: até a hora da refeição, a partir do versículo de Kohelet
Rav Sheshet; Rav Chama
עַד מָתַי יוֹשְׁבִין בַּדִּין? אָמַר רַב שֵׁשֶׁת: עַד זְמַן סְעוּדָה. אָמַר רַב חָמָא: מַאי קְרָא? — דִּכְתִיב: ״אִי לָךְ אֶרֶץ שֶׁמַּלְכֵּךְ נָעַר וְשָׂרַיִךְ בַּבֹּקֶר יֹאכֵלוּ. אַשְׁרֵיךְ אֶרֶץ שֶׁמַּלְכֵּךְ בֶּן חוֹרִים וְשָׂרַיִךְ בָּעֵת יֹאכֵלוּ בִּגְבוּרָה וְלֹא בַשְּׁתִי״. בִּגְבוּרָה שֶׁל תּוֹרָה, וְלֹא בִּשְׁתִיָּיה שֶׁל יַיִן.

Até quando (os juízes) ficam sentados em julgamento? Disse Rav Sheshet: até a hora da refeição. Disse Rav Chama: qual é o versículo? Pois está escrito: "Ai de ti, terra cujo rei é jovem, e teus príncipes comem de manhã (cedo demais, entregues à bebida); feliz de ti, terra cujo rei é filho de homens livres, e teus príncipes comem na hora certa, com força, e não em bebedeira" — com força da Torá, e não na bebida do vinho.

Nota

A Guemará pergunta até que horário do dia os juízes devem permanecer sentados julgando. Rav Sheshet responde que é até a hora da refeição — quando chega o horário de comer, encerra-se a sessão de julgamento daquele dia. Rav Chama traz apoio dessa regra a partir do versículo de Kohelet (Eclesiastes), que contrasta a "terra" cujo rei é jovem e imaturo, cujos príncipes comem cedo demais pela manhã (entregues a excessos e à bebida, sem cumprir primeiro seus deveres), com a "terra" abençoada cujo rei é de linhagem nobre e livre, e cujos príncipes só comem na hora apropriada — e ainda assim comem "com força e não em bebedeira", isto é, fortalecidos pelo estudo da Torá antes da refeição, e não entorpecidos pelo vinho. Esse versículo é lido como elogio ao costume de dedicar a manhã ao estudo e ao julgamento, comendo apenas depois, na hora certa.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "teu rei"
שמלכך - דיינך שהדיין קרוי מלך שנאמר מלך במשפט יעמיד ארץ (משלי כ״ט:ד׳):

"Teu rei" — teu juiz, pois o juiz é chamado de "rei", conforme se diz: "o rei, com julgamento, estabelece a terra" (Provérbios 29:4).

07A baraita das cinco horas de comer, a correção de Rav Papa e a distinção de Abaie
Baraita (Tanu Rabanan); Rav Papa; Abaie
תָּנוּ רַבָּנַן: שָׁעָה רִאשׁוֹנָה — מַאֲכַל לוּדִים. שְׁנִיָּה — מַאֲכַל לִסְטִים. שְׁלִישִׁית — מַאֲכַל יוֹרְשִׁין. רְבִיעִית — מַאֲכַל פּוֹעֲלִים. חֲמִישִׁית — מַאֲכַל כׇּל אָדָם. אִינִי?! וְהָאָמַר רַב פָּפָּא רְבִיעִית זְמַן סְעוּדָה לְכׇל אָדָם! אֶלָּא רְבִיעִית מַאֲכַל כׇּל אָדָם. חֲמִישִׁית — מַאֲכַל פּוֹעֲלִים. שִׁשִּׁית — מַאֲכַל תַּלְמִידֵי חֲכָמִים. מִכָּאן וְאֵילָךְ — כְּזוֹרֵק אֶבֶן לַחֵמֶת. אָמַר אַבָּיֵי: לָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלָא טְעֵים מִידֵּי בְּצַפְרָא, אֲבָל טְעֵים מִידֵּי בְּצַפְרָא — לֵית לַן בַּהּ.

Ensinaram os sábios: a primeira hora (do dia é) comida dos lodim; a segunda, comida dos assaltantes; a terceira, comida dos herdeiros; a quarta, comida dos trabalhadores; a quinta, comida de todo homem. Mas seria assim?! E não disse Rav Papa que a quarta é o horário de refeição para todo homem?! Antes: a quarta é comida de todo homem; a quinta, comida dos trabalhadores; a sexta, comida dos discípulos dos sábios. Daí em diante, (comer é) como quem atira uma pedra num odre (inchado, isto é, prejudicial). Disse Abaie: não dissemos isso senão de quem não provou nada de manhã; mas quem já provou algo de manhã, não há problema.

Nota

A Guemará traz uma baraita que associa cada uma das primeiras horas do dia a um tipo de pessoa que costuma comer naquele horário — os lodim (um povo voraz e glutão) comem já na primeira hora; assaltantes, que trabalham à noite e dormem até tarde, comem na segunda; herdeiros de fortuna, que não precisam se esforçar, comem na terceira; trabalhadores braçais, que precisam repor energia cedo, comem na quarta; e todo homem comum come na quinta hora. A Guemará questiona essa ordem, pois Rav Papa já havia ensinado que a quarta hora é o horário de refeição de todo homem (não apenas dos trabalhadores) — e por isso corrige a baraita: a quarta hora é comida de todo homem, a quinta é dos trabalhadores (que atrasam por estarem ocupados), e acrescenta-se uma sexta categoria: a sexta hora é a comida dos discípulos dos sábios, que atrasam ainda mais por se dedicarem ao estudo. Daí em diante, comer se torna prejudicial ao corpo, como quem atira uma pedra contra um odre já inchado. Abaie qualifica essa última afirmação: o prejuízo de comer tarde demais só se aplica a quem não provou absolutamente nada durante toda a manhã; mas quem já comeu algo pela manhã, mesmo que pouco, pode comer sua refeição principal mais tarde sem produzir esse dano.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lodim", "comida dos herdeiros" e "como quem atira pedra no odre"
לודים - אומה שקורין קנלינ"ש ואוכלי אדם הן והם רעבתנין:

"Lodim" — um povo chamado canelinas, que comem gente (um povo voraz), e são glutões.

מאכל יורשים - יורשי הון רב שלא טרחו בו ואין עסוקים ודואגין לשוט אחרי מזונות ולעסוק במלאכה:

"Comida dos herdeiros" — herdeiros de grande fortuna, que não se esforçaram por ela, e não estão ocupados nem preocupados em correr atrás do sustento nem em se dedicar ao trabalho.

כזורק אבן לחמת - קשה לגוף ולי נראה לא קשה ולא יפה:

"Como quem atira uma pedra no odre" — é prejudicial ao corpo; e a mim parece (que não é apenas) prejudicial, mas também não é bom.

Rezar dentro do banho · מִתְפַּלֵּל אָדָם בְּבֵית הַמֶּרְחָץ

08Rav Adda bar Ahava: pode-se rezar no banho; a objeção da baraita sobre as três zonas do banho
Rav Adda bar Ahava; Baraita (Meitivi)
אָמַר רַב אַדָּא בַּר אַהֲבָה: מִתְפַּלֵּל אָדָם תְּפִלָּתוֹ בְּבֵית הַמֶּרְחָץ. מֵיתִיבִי: הַנִּכְנָס לְבֵית הַמֶּרְחָץ, מָקוֹם שֶׁבְּנֵי אָדָם עוֹמְדִין לְבוּשִׁין — יֵשׁ שָׁם מִקְרָא וּתְפִלָּה. וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שְׁאֵילַת שָׁלוֹם. וּמַנִּיחַ תְּפִילִּין, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שֶׁאֵינוֹ חוֹלֵץ. מָקוֹם שֶׁבְּנֵי אָדָם עוֹמְדִים עֲרוּמִּים וּלְבוּשִׁין — יֵשׁ שָׁם שְׁאֵילַת שָׁלוֹם, וְאֵין שָׁם מִקְרָא וּתְפִלָּה, וְאֵינוֹ חוֹלֵץ תְּפִילִּין, וְאֵינוֹ מַנִּיחַ לְכַתְּחִלָּה. מָקוֹם שֶׁבְּנֵי אָדָם עוֹמְדִין עֲרוּמִּים — אֵין שָׁם שְׁאֵילַת שָׁלוֹם, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר מִקְרָא וּתְפִלָּה, וְחוֹלֵץ תְּפִילִּין, וְאֵין צָרִיךְ לוֹמַר שֶׁאֵינוֹ מַנִּיחָן!

Disse Rav Adda bar Ahava: reza a pessoa sua tefilá dentro do bet-hamerchatz (casa de banho). Objetam: quem entra no bet-hamerchatz — no lugar onde as pessoas ficam vestidas, ali há (permissão para) leitura (da Torá) e tefilá, e não é necessário dizer (que há permissão para) saudação; e (pode) colocar tefilin, e não é necessário dizer que não (precisa) retirá-los. No lugar onde as pessoas ficam ora nuas ora vestidas, ali há (permissão para) saudação, mas não há ali leitura nem tefilá; e (quem já está usando tefilin) retira os tefilin, e não os coloca de início. No lugar onde as pessoas ficam nuas — não há ali saudação, e não é necessário dizer (que não há) leitura nem tefilá; e retira os tefilin, e não é necessário dizer que não os coloca!

Nota

Encerrada a sugya sobre os horários de julgamento e refeição, o daf introduz uma nova sugya, que se estenderá para o daf seguinte: Rav Adda bar Ahava ensina que é permitido rezar a tefilá dentro do próprio bet-hamerchatz (casa de banho). A Guemará traz uma objeção a partir de uma baraita que distingue três zonas dentro do bet-hamerchatz romano, que tinha múltiplos compartimentos: a zona externa, onde as pessoas permanecem vestidas (o vestiário), onde é permitido ler a Torá, rezar, saudar e usar tefilin normalmente; a zona intermediária, onde as pessoas transitam ora vestidas ora nuas, onde é permitido apenas saudar (mas não ler nem rezar), e onde, se a pessoa já está com os tefilin, deve retirá-los, mas não deve colocá-los ali pela primeira vez; e a zona interna, onde as pessoas ficam completamente nuas (para o banho propriamente dito e o vapor), onde nem sequer é permitido saudar, e muito menos ler, rezar ou usar tefilin. Essa baraita parece contradizer Rav Adda bar Ahava, pois em nenhuma dessas três zonas — nem mesmo na mais externa, vestida — se menciona explicitamente a permissão de rezar dentro do banho como ele afirmou; a resolução dessa aparente contradição prossegue no início do daf 10b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre as três zonas do banho e "retira os tefilin"
מרחצאות שלהן ג' חדרים היו לו פנימי להזיע ולהשתטף אמצעי שיורד לתוכו מן המרחץ ולובש חלוקו ויוצא לחיצון וגומר לבישתו ונח שם שעה מיגיעת המרחץ:

Os banhos deles (dos romanos) tinham três compartimentos: um interno, para suar e se lavar; um intermediário, ao qual (a pessoa) desce vindo do banho e veste sua túnica, e (depois) sai para o externo e termina de se vestir, e ali descansa um pouco do cansaço do banho.

עומדים ערומים - פנימי:

"Ficam nuas" — (refere-se ao compartimento) interno.

ערומים ולבושים - אמצעי שיוצא בו ערום וממהר לכסות את עצמו ויוצא לחיצון:

"Nuas e vestidas" — (refere-se ao compartimento) intermediário, no qual (a pessoa) sai nua e se apressa a se cobrir, e (depois) sai para o externo.

וחולץ תפילין - מראשו ואין צ"ל שאם אוחזן בידו בתיק שלהן שאינו מניח והא דתני ואין צ"ל כו' איידי דבעי למיתני מציעתא ואינו מניח ואינו חולץ שאמצעי לא כמרחץ גמור הוא ומקצת תורת מרחץ עליו הלכך היו בראשו אין חולצן:

"E retira os tefilin" — da cabeça; e não é necessário dizer que, se os segura na mão em seu estojo, isso não impede (de os manter ali). E o fato de se ensinar "e não é necessário dizer", etc. é porque se quis ensinar (também) sobre o (compartimento) intermediário: "não coloca (de início) e não retira" — pois o intermediário não é como um banho completo, e tem sobre si apenas parte das regras do banho; por isso, se (os tefilin) já estavam em sua cabeça, não os retira ali.