Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Alef
שָׁאנֵי בֵּית הַכִּסֵּא דִּמְאִיס

A diferença entre o banheiro (repugnante) e o banho, a proibição de saudar com "shalom" no banho, o dom do Shabat que precisa ser anunciado, o episódio de Rav Chisda e os dois presentes, o filho preferido de Yaakov, e a cidade de povoamento recente

Shabbat 10b — a resposta de que o banheiro é diferente do banho por ser repugnante, o que exclui ali toda leitura e tefilá; a Tosefta que proíbe saudar com "shalom" no banho, apoiada no ensinamento de Rav Hamnuna em nome de Ulla a partir do versículo de Gidon; a objeção sobre "heimanuta" e sua resolução, distinguindo o nome próprio de D-us do mero adjetivo; o ensinamento de Rav (transmitido por Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria) de que quem dá um presente a outro precisa avisá-lo, a partir do dom do Shabat revelado a Moshé, com o sinal do óleo e do kohl (ou da mesma comida, por causa da feitiçaria) que Rabban Shimon ben Gamliel prescreve para o presente à criança; a objeção a partir do rosto de Moshé que brilhava sem que ele soubesse, resolvida pela distinção entre o que costuma se revelar e o que não costuma; o episódio de Rav Chisda com os dois presentes do boi, prometidos a quem trouxesse um ensinamento novo em nome de Rav, e o diálogo com Rava bar Machseya sobre a lã fina e as duas versões do ensinamento; o ensinamento de Rav de que a pessoa nunca deve distinguir um filho entre os irmãos, a partir do peso de dois selaim de lã que Yaakov deu a mais a José, o que gerou a inveja dos irmãos e o descer ao Egito; e o ensinamento de Rav de que a pessoa deve sempre buscar habitar em cidade de povoamento recente, a partir do pedido de Lot para fugir a Tzoar, com a análise da palavra "próxima" e a gematria de "na" trazida por Rabi Avin, terminando em aberto no tema da tranquilidade de Sodoma.

O daf abre respondendo à objeção que fechou 10a: a baraita das três zonas do bet-hamerchatz não contradiz Rav Adda bar Ahava, pois ele falava do banho propriamente dito, enquanto a baraita, ao negar leitura e tefilá mesmo na zona intermediária, trata na verdade do banheiro (bet-hakisse), que é diferente por ser repugnante — uma vez chamado de banheiro, o lugar é indigno mesmo para quem ali só está de passagem, mas o banho permanece apto para a tefilá até que a pessoa de fato entre para se banhar. Segue-se uma Tosefta que proíbe saudar com a palavra shalom dentro do banho, o que apoia o ensinamento de Rav Hamnuna em nome de Ulla, a partir do altar que Gidon chamou de "Hashem Shalom" — sendo Shalom um dos nomes de D-us. A Guemará objeta que, por essa lógica, também "heimanuta" (fidelidade, palavra usada para D-us como "o D-us fiel") deveria ser proibida no banheiro, mas Rav já havia permitido dizê-la ali; a resposta distingue: "fiel" é um adjetivo traduzido sobre D-us, mas não o nome próprio d'Ele, enquanto Shalom é o nome próprio mesmo. Em seguida, a Guemará traz, encadeados na mesma cadeia de transmissão (Rava bar Machseya, em nome de Rav Chama bar Guria, em nome de Rav), uma série de ensinamentos independentes: que quem dá um presente a outro deve avisá-lo, aprendido do próprio Shabat, que D-us mandou Moshé anunciar a Israel como um presente do Seu tesouro; daí o costume de avisar a mãe da criança que recebeu pão, com o sinal do óleo e do kohl (ou, por causa da preocupação com feitiçaria, da mesma comida); a objeção a partir do rosto brilhante de Moshé, que ele não percebeu, resolvida pela distinção entre o que costuma se revelar por si mesmo e o que não costuma, sendo a recompensa do Shabat algo que precisa ser anunciado mesmo que o próprio Shabat já fosse conhecido. Narra-se então o episódio de Rav Chisda, que guardava dois presentes sacerdotais de um boi prometidos a quem lhe trouxesse uma nova tradição em nome de Rav, e o diálogo com Rava bar Machseya sobre o valor da lã fina e as duas versões sucessivas do mesmo ensinamento. Seguem-se dois ensinamentos finais da mesma cadeia: que a pessoa nunca deve favorecer um filho entre os irmãos, aprendido do peso extra de lã que Yaakov deu a José e que desencadeou a descida ao Egito; e que a pessoa deve sempre procurar habitar em cidade de povoamento recente, cujos pecados são poucos, aprendido do pedido de Lot para fugir a Tzoar, com a análise da palavra "próxima" e a gematria de Rabi Avin comparando a idade de Tzoar à de Sodoma — encerrando o daf no meio do tema da tranquilidade de Sodoma, que prossegue em 11a.

A diferença entre o banheiro e o banho · שָׁאנֵי בֵּית הַכִּסֵּא דִּמְאִיס

01O banheiro é diferente por ser repugnante
A Guemará
שָׁאנֵי בֵּית הַכִּסֵּא דִּמְאִיס.

O banheiro (bet-hakisse) é diferente, pois é repugnante (e por isso, uma vez chamado assim, o lugar todo se torna indigno para leitura e tefilá, ao contrário do banho, que só se torna impróprio quando a pessoa de fato começa a se banhar).

Nota

O daf abre resolvendo a objeção que fechara 10a. A baraita das três zonas do bet-hamerchatz parecia contradizer Rav Adda bar Ahava, pois em nenhuma delas se permitia expressamente rezar dentro do banho propriamente dito. A Guemará responde que, na verdade, a baraita não fala do banho (bet-hamerchatz), mas do banheiro (bet-hakisse) — um lugar categoricamente diferente, pois é repugnante por natureza: uma vez que um espaço é designado e chamado de banheiro, ele se torna indigno para leitura e tefilá em toda a sua extensão, mesmo nas zonas onde a pessoa ainda está vestida. Já o banho comum permanece apto para a tefilá enquanto a pessoa ainda não entrou de fato para se banhar — é somente o ato do banho, e não a mera designação do espaço, que o torna impróprio. Assim, a permissão de Rav Adda bar Ahava de rezar no bet-hamerchatz refere-se à zona externa, ainda vestida, antes do banho propriamente dito.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "o banheiro é diferente, pois é repugnante"
שאני בית הכסא דמאיס - ושם מגונה עליו מש"ה מספקא לן בהזמנתו:

"O banheiro é diferente, pois é repugnante" — e um nome vergonhoso recai sobre ele; por isso temos dúvida quanto à sua mera designação (bastar chamá-lo assim para torná-lo impróprio, ao contrário do banho).

02A Tosefta: proibido saudar com "shalom" no banho, por ser nome de D-us
Tosefta; Rav Hamnuna em nome de Ulla
אֵין שָׁם שְׁאֵילַת שָׁלוֹם. מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַב הַמְנוּנָא מִשְּׁמֵיהּ דְּעוּלָּא דְּאָמַר: אָסוּר לְאָדָם שֶׁיִּתֵּן שָׁלוֹם לַחֲבֵירוֹ בְּבֵית הַמֶּרְחָץ, מִשּׁוּם שֶׁנֶּאֱמַר ״וַיִּקְרָא לוֹ ה׳ שָׁלוֹם״.

Ensinaram (na Tosefta): não há ali (no banheiro) saudação. Isso apoia (o ensinamento) de Rav Hamnuna em nome de Ulla, que disse: é proibido à pessoa dar shalom a seu companheiro dentro do bet-hamerchatz (banho), por causa do que se diz: "e chamou-o o Eterno de Shalom" (Juízes 6:24).

Nota

Continuando o tema, a Guemará traz uma Tosefta que ensina que não há saudação dentro do banheiro — o que serve de apoio ao ensinamento de Rav Hamnuna, transmitido em nome de Ulla, de que é proibido saudar o próximo com a palavra shalom dentro do banho, pois Shalom é um dos nomes de D-us, como se vê no versículo em que Gidon construiu um altar e o chamou de "Hashem Shalom" (o Eterno é Paz). Sendo Shalom um nome divino, seria desrespeitoso pronunciá-lo em um lugar indigno como o banho.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "e chamou-o"
ויקרא לו - גדעון להקב"ה ה' שלום:

"E chamou-o" — Gidon chamou o Santo, bendito seja, (pelo nome) "Hashem Shalom".

03A objeção sobre "heimanuta" e a distinção entre nome próprio e adjetivo
A Guemará; Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav
אֶלָּא מֵעַתָּה ״הֵימָנוּתָא״ נָמֵי אָסוּר לְמֵימַר בְּבֵית הַכִּסֵּא, דִּכְתִיב: ״הָאֵל הַנֶּאֱמָן״. וְכִי תֵּימָא הָכִי נָמֵי, וְהָאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא, אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא, אָמַר רַב: שָׁרֵי לְמֵימַר ״הֵימָנוּתָא״ בְּבֵית הַכִּסֵּא! הָתָם שֵׁם גּוּפֵיהּ לָא אִיקְּרִי הָכִי, דִּמְתַרְגְּמִינַן ״אֱלָהָא מְהֵימְנָא״, הָכָא שֵׁם גּוּפֵיהּ אִיקְּרִי ״שָׁלוֹם״ דִּכְתִיב ״וַיִּקְרָא לוֹ ה׳ שָׁלוֹם״.

Mas então, também "heimanuta" (fidelidade) deveria ser proibido dizer no banheiro, pois está escrito: "o D-us fiel" (Devarim 7:9)! E se disseres que é assim mesmo (que também é proibido), não disse Rava bar Machseya, em nome de Rav Chama bar Guria, em nome de Rav: é permitido dizer "heimanuta" no banheiro?! (Resposta:) ali (no caso de "fiel") o nome próprio d'Ele não é chamado assim, pois traduzimos (o versículo) como "D-us fiel" (um adjetivo); aqui (no caso de "shalom") o nome próprio d'Ele é chamado "Shalom", pois está escrito: "e chamou-o o Eterno de Shalom".

Nota

A Guemará levanta uma objeção: se Shalom é proibido no banho por ser nome de D-us, então "heimanuta" (fidelidade) também deveria ser proibida, já que a Torá chama D-us de "o D-us fiel". Mas isso contradiz um ensinamento já estabelecido de Rav (transmitido por Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria) de que é permitido dizer "heimanuta" no banheiro. A Guemará resolve a dificuldade distinguindo os dois casos: "fiel" é apenas um adjetivo qualificando D-us — como se traduz, "D-us fiel" — mas não é, em si, um nome próprio d'Ele; já "Shalom", como se vê no versículo de Gidon, é usado como nome próprio de D-us mesmo, e não como mero atributo. Por isso apenas "Shalom" é proibido no banho e no banheiro, mas "heimanuta" continua permitido.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "heimanuta"
הימנותא - להזכיר אמונה בבית הכסא:

"Heimanuta" — mencionar (a palavra) fidelidade dentro do banheiro.

Quem dá um presente deve avisar · הַנּוֹתֵן מַתָּנָה לַחֲבֵירוֹ צָרִיךְ לְהוֹדִיעוֹ

04O ensinamento de Rav: o dom do Shabat, o sinal do óleo e do kohl para a criança, e a preocupação com feitiçaria
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav; Baraita; Rabban Shimon ben Gamliel; Abaie; Rav Papa
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: הַנּוֹתֵן מַתָּנָה לַחֲבֵירוֹ, צָרִיךְ לְהוֹדִיעוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״לָדַעַת כִּי אֲנִי ה׳ מְקַדִּשְׁכֶם״. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: ״לָדַעַת כִּי אֲנִי ה׳ מְקַדִּשְׁכֶם״, אָמַר לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה: מַתָּנָה טוֹבָה יֵשׁ לִי בְּבֵית גְּנָזַי וְשַׁבָּת שְׁמָהּ, וַאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִיתְּנָהּ לְיִשְׂרָאֵל, לֵךְ וְהוֹדִיעָם. מִכָּאן אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: הַנּוֹתֵן פַּת לְתִינוֹק, צָרִיךְ לְהוֹדִיעַ לְאִמּוֹ. מַאי עָבֵיד לֵיהּ? אָמַר אַבָּיֵי: שָׁאֵיף לֵיהּ מִשְׁחָא, וּמָלֵי לֵיהּ כּוּחְלָא. וְהָאִידָּנָא דְּחָיְישִׁינַן לִכְשָׁפִים מַאי? אָמַר רַב פָּפָּא: שָׁאֵיף לֵיהּ מֵאוֹתוֹ הַמִּין.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: quem dá um presente a seu companheiro precisa avisá-lo (que lho deu), pois se diz: "para saber que Eu sou o Eterno que os santifica" (Shemot 31:13). Também se ensinou assim (numa baraita): "para saber que Eu sou o Eterno que os santifica" — disse o Santo, bendito seja, a Moshé: um bom presente tenho em Minha casa de tesouros, e Shabat é seu nome, e Eu quero dá-lo a Israel; vai e avisa-os. Daqui disse Rabban Shimon ben Gamliel: quem dá pão a uma criança precisa avisar a mãe dela. O que se faz a ela (à criança, para que a mãe saiba)? Disse Abaie: esfrega-se nela óleo, e enche-se (a região dos olhos) de kohl. E agora que nos preocupamos com feitiçarias, o que (se faz)? Disse Rav Papa: esfrega-se nela (comida) do mesmo tipo (que se deu a comer).

Nota

Aproveitando a mesma cadeia de transmissão (Rava bar Machseya, em nome de Rav Chama bar Guria, em nome de Rav), a Guemará traz um ensinamento independente sobre presentes: quem dá um presente a outra pessoa deve avisá-la de que está dando, e não apenas entregá-lo silenciosamente — pois assim se aprende do próprio Shabat, que D-us mandou Moshé anunciar formalmente a Israel como um presente especial guardado em Seu tesouro. O anúncio evita que o beneficiário se envergonhe ao recebê-lo sem saber sua origem, e faz com que aprecie devidamente o presente e quem o deu. Daí Rabban Shimon ben Gamliel deriva que também quem dá pão a uma criança deve avisar a mãe dela, para que ela saiba que o filho comeu e não fique preocupada, e para que agradeça a quem deu. Como avisar sem palavras (já que a criança pode não conseguir explicar)? Abaie sugere um sinal visível — óleo e kohl ao redor dos olhos — que levará a mãe a perguntar e a criança a contar quem lhe deu. Rav Papa atualiza a prática para uma época de maior preocupação com feitiçaria (marcas estranhas no corpo de uma criança poderiam ser suspeitas de bruxaria): melhor esfregar nela um pouco da própria comida que se deu, como sinal discreto e inofensivo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "precisa avisá-lo", "para saber", "esfrega-se óleo", "enche-se de kohl" e "feitiçarias"
צריך להודיעו - מתן פלוני אתן לך וזהו דרך כבוד דשמא יתבייש לקבלה ומתוך כך מתרצין בדברים ואינו בוש בדבר וכן אם נתנה בביתו שלא מידיעתו צריך להודיעו שמידו באה לו שמתוך כך יהא אוהבו:

"Precisa avisá-lo" — (dizendo:) "tal presente te darei", e isso é um modo de honra, pois talvez (o outro) se envergonhe de recebê-lo (sem aviso); e com isso se resolve com palavras, e ele não se envergonha do assunto. E do mesmo modo, se (o presente) foi dado em sua casa sem seu conhecimento, é preciso avisá-lo de que veio por sua mão (de quem deu), para que assim venha a amá-lo.

לדעת כי אני ה' וגו' - להודיעם אני בא שאני רוצה לקדשם:

"Para saber que Eu sou o Eterno", etc. — para avisá-los (diz D-us): Eu venho, pois quero santificá-los.

שייף ליה משחא - ישפשפנו בשמן בין עיניו דבר הנראה שתשאלנו אמו מי עשה כן ויאמר לה התינוק פלוני עשה וגם פת נתן לי:

"Esfrega-se nela óleo" — esfrega-se (a criança) com óleo entre os olhos, coisa visível, para que a mãe pergunte quem fez isso, e a criança lhe diga: "fulano fez, e também me deu pão".

ומלי ליה כוחלא - נותן כחול סביב עינו וכן לשונו בתלמוד:

"E enche-se de kohl" — coloca-se kohl ao redor de seu olho; e assim é sua expressão no Talmud.

לכשפים - שתחשדנו שכשפו:

"Feitiçarias" — para que não se suspeite de que ele (a criança) foi enfeitiçado.

05A objeção do rosto brilhante de Moshé, e a distinção entre o que costuma se revelar e o que não
A Guemará; Rav Chama bar Rabi Chanina
אִינִי וְהָאָמַר רַב חָמָא (בַּר) [בְּרַבִּי] חֲנִינָא: הַנּוֹתֵן מַתָּנָה לַחֲבֵירוֹ אֵין צָרִיךְ לְהוֹדִיעוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״וּמֹשֶׁה לֹא יָדַע כִּי קָרַן עוֹר פָּנָיו בְּדַבְּרוֹ אִתּוֹ״! — לָא קַשְׁיָא: הָא בְּמִילְּתָא דַּעֲבִידָא לְאִגַּלּוֹיֵי, הָא בְּמִילְּתָא דְּלָא עֲבִידָא לְאִגַּלּוֹיֵי. וְהָא שַׁבָּת, דַּעֲבִידָא לִגַלּוֹיֵי? — מַתַּן שְׂכָרָהּ לָא עָבֵיד לִגַלּוֹיֵי.

Seria assim (que sempre é preciso avisar)?! E não disse Rav Chama bar Rabi Chanina: quem dá um presente a seu companheiro não precisa avisá-lo, pois se diz: "e Moshé não sabia que a pele de seu rosto brilhava, ao falar com Ele" (Shemot 34:29) (ou seja, D-us lhe deu esse presente sem avisá-lo)?! (Resposta:) não há dificuldade: este (caso, em que não é preciso avisar) é de algo que costuma se revelar por si mesmo; aquele (caso, em que é preciso avisar) é de algo que não costuma se revelar por si mesmo. Mas o Shabat, não costuma se revelar (por si mesmo, sendo conhecido de todos)? (Resposta:) a entrega de sua recompensa (a bênção especial do dia) não costuma se revelar.

Nota

A Guemará traz uma objeção contra o próprio ensinamento de Rav: Rav Chama bar Rabi Chanina havia ensinado o oposto, que quem dá um presente não precisa avisar, trazendo prova do rosto de Moshé, que brilhava após ele falar com D-us no Sinai sem que ele próprio soubesse disso. A Guemará resolve a contradição distinguindo dois tipos de presente: quando o presente é algo que, por sua própria natureza, tende a se revelar por si mesmo com o tempo (como o brilho no rosto de Moshé, que logo seria percebido por todos), não há necessidade de avisar antecipadamente; mas quando o presente é algo que não tende a se revelar sozinho, é necessário avisar, para que o beneficiário saiba o que recebeu e de quem. A Guemará então questiona: mas o próprio Shabat não é algo já conhecido e revelado a todos, sendo um dos Dez Mandamentos? Por que então seria necessário avisar Israel sobre ele especificamente? A resposta é que não é o Shabat em si que precisava ser anunciado (isso já era sabido), mas sim a recompensa e a santidade especiais atribuídas a ele como presente — esse aspecto particular não se revelaria por si só, e por isso precisava ser comunicado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "costuma se revelar" e "a entrega de sua recompensa"
לאגלויי - מי נתנו לו:

"Se revelar" — quem lho deu.

מתן שכרה כו' - והוא הודיעם [ע"י משה] בעל פה מה שכרה:

"A entrega de sua recompensa", etc. — e Ele (D-us) os avisou, por meio de Moshé, oralmente, qual era sua recompensa.

06Rav Chisda e os dois presentes de boi; o diálogo com Rava bar Machseya
Rav Chisda; Rava bar Machseya
רַב חִסְדָּא הֲוָה נָקֵיט בִּידֵיהּ תַּרְתֵּי מַתְּנָתָא דְתוֹרָא, אָמַר: כׇּל מַאן דְּאָתֵי וְאָמַר לִי שְׁמַעְתָּתָא חַדְתָּא מִשְּׁמֵיהּ דְּרַב יָהֵיבְנָא לֵיהּ נִיהֲלֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ רָבָא בַּר מַחְסֵיָא, הָכִי אָמַר רַב: הַנּוֹתֵן מַתָּנָה לַחֲבֵירוֹ צָרִיךְ לְהוֹדִיעוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר: ״לָדַעַת כִּי אֲנִי ה׳ מְקַדִּשְׁכֶם״. יַהֲבַהּ נִיהֲלֵיהּ. אֲמַר חֲבִיבִין עֲלָךְ שְׁמַעְתָּתָא דְּרַב כּוּלֵּי הַאי? אֲמַר לֵיהּ: אִין. אֲמַר לֵיהּ: הַיְינוּ דְּאָמַר רַב: מֵילָתָא אַלָּבֵישַׁיְיהוּ יַקִּירָא. אֲמַר לֵיהּ: אֲמַר רַב הָכִי?! בָּתְרָיְיתָא עֲדִיפָא לִי מִקַּמָּיְיתָא, וְאִי הֲוָה נָקֵיטְנָא אַחֲרִיתִי, יָהֵיבְנָא לָךְ.

Rav Chisda tinha em sua mão dois presentes (sacerdotais) de um boi (o braço e a queixada e o estômago que se dão ao kohen). Disse: todo aquele que vier e me disser uma tradição nova em nome de Rav, eu lha darei. Disse-lhe Rava bar Machseya: assim disse Rav: quem dá um presente a seu companheiro precisa avisá-lo, pois se diz: "para saber que Eu sou o Eterno que os santifica". (Rav Chisda) deu-lha (o presente, a Rava bar Machseya). Disse (Rav Chisda): são tão queridos para ti os ensinamentos de Rav, assim tanto? Disse-lhe: sim. Disse-lhe (Rav Chisda): eis o que disse Rav: "a lã fina é preciosa para os que a vestem (costumam usá-la)". Disse-lhe (Rava bar Machseya): Rav disse isso?! A última (versão) é preferível para mim mais que a primeira, e se eu tivesse outro (presente) em mãos, eu to daria.

Nota

A Guemará narra um episódio ilustrando na prática o próprio ensinamento recém-citado. Rav Chisda, que era kohen, guardava em mãos dois presentes sacerdotais retirados de um boi, prometendo-os a quem lhe trouxesse uma tradição nova em nome de Rav. Rava bar Machseya se apresenta e relata precisamente o ensinamento sobre a necessidade de avisar ao dar um presente — o que serve, ironicamente, de prova viva do próprio ensinamento, pois Rav Chisda já estava avisando a todos, publicamente, sobre o presente que daria. Rav Chisda entrega-lhe os presentes, e então, testando seu apreço pelos ensinamentos de Rav, pergunta se eles lhe são assim tão queridos; ao ouvir que sim, revela-lhe outro dito de Rav — de que a lã fina só é apreciada por quem já está acostumado a vesti-la, uma metáfora sobre como apenas quem valoriza a qualidade percebe as sutilezas dos ensinamentos de Rav. Rava bar Machseya, encantado, declara que prefere esse segundo ensinamento ao primeiro, e lamenta não ter mais nenhum presente para lhe oferecer em troca.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dois presentes de um boi", "uma tradição nova" e "a lã fina é preciosa"
הוה נקיט תרתי מתנתא דתורא - זוג של זרוע לחיים וקיבה שנתנה לו ורשאי להאכילן לישראל:

"Tinha em mãos dois presentes de um boi" — um par: o braço, a queixada, e o estômago, que lhe foram dados (como kohen), e ele podia dá-los de comer a um israelita (comum).

חדתא - חדשה שלא שמעתיה:

"Nova" — que ele (Rav Chisda) ainda não tivesse ouvido.

מילתא אלבישי' יקירא - מעיל דמיו יקרים למי שרגיל ללובשו כלומר לפי שאתה תלמידו של רב ורגיל בשמועותיו אתה מחזר אחריהם:

"A lã fina é preciosa para os que a vestem" — o manto tem preço alto para quem está acostumado a vesti-lo; isto é, já que és discípulo de Rav e estás acostumado com seus ensinamentos, tu os buscas com afinco.

Não distinguir um filho, e habitar em cidade nova · לְעוֹלָם אַל יְשַׁנֶּה אָדָם בְּנוֹ בֵּין הַבָּנִים

07Não distinguir um filho entre os irmãos, a partir da túnica de José
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: לְעוֹלָם אַל יְשַׁנֶּה אָדָם בְּנוֹ בֵּין הַבָּנִים, שֶׁבִּשְׁבִיל מִשְׁקַל שְׁנֵי סְלָעִים מֵילָת שֶׁנָּתַן יַעֲקֹב לְיוֹסֵף יוֹתֵר מִשְּׁאָר בָּנָיו, נִתְקַנְּאוּ בּוֹ אֶחָיו וְנִתְגַּלְגֵּל הַדָּבָר וְיָרְדוּ אֲבוֹתֵינוּ לְמִצְרַיִם.

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: nunca distinga a pessoa um filho seu entre os (demais) filhos, pois por causa do peso de dois selaim de lã fina que Yaakov deu a José a mais que aos demais filhos, seus irmãos tiveram ciúme dele, e o assunto se desenrolou, e nossos pais desceram ao Egito.

Nota

Mais um ensinamento independente da mesma cadeia de transmissão: a pessoa jamais deve distinguir ou favorecer um de seus filhos em relação aos irmãos, pois isso gera inveja e discórdia grave. A prova vem do relato de Yaakov e José: apenas por causa do peso de dois selaim a mais de lã fina que Yaakov usou para presentear José com a túnica colorida — uma diferença de tratamento aparentemente pequena — os irmãos de José se enciumaram dele, o que desencadeou toda a sequência de eventos que levou à venda de José e, por fim, à descida de toda a família aos Egito. O ensinamento serve de advertência prática sobre as consequências duradouras do favoritismo entre filhos, por menor que pareça o gesto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "peso de dois selaim"
משקל ב' סלעים - לאו דוקא נקט בתלמידי רבינו יצחק הלוי מצאתי כתונת פסים סביב פס ידו נתן מילת ולא כל הכתונת:

"Peso de dois selaim" — não é dito com exatidão (literal); nos (escritos) dos discípulos de Rabenu Yitzchak Halevi encontrei: (quanto à) "túnica de listras", ao redor da bainha de sua manga (Yaakov) deu lã fina, e não em toda a túnica.

08Habitar em cidade de povoamento recente: o caso de Tzoar e a gematria de Rabi Avin
Rava bar Machseya em nome de Rav Chama bar Guria em nome de Rav; Rabi Avin
וְאָמַר רָבָא בַּר מַחְסֵיָא אָמַר רַב חָמָא בַּר גּוּרְיָא אָמַר רַב: לְעוֹלָם יְחַזֵּר אָדָם וְיֵשֵׁב בְּעִיר שֶׁיְּשִׁיבָתָהּ קְרוֹבָה, שֶׁמִּתּוֹךְ שֶׁיְּשִׁיבָתָהּ קְרוֹבָה עֲוֹנוֹתֶיהָ מוּעָטִין. שֶׁנֶּאֱמַר: ״הִנֵּה נָא הָעִיר הַזֹּאת קְרוֹבָה לָנוּס שָׁמָּה וְהִיא מִצְעָר״. מַאי ״קְרוֹבָה״? אִילֵימָא קְרוֹבָה דְּמִיקָּרְבָא וְזוּטָא — וְהָא קָא חָזוּ לַהּ! אֶלָּא מִתּוֹךְ שֶׁיְּשִׁיבָתָהּ קְרוֹבָה, עֲוֹנוֹתֶיהָ מוּצְעָרִין. אָמַר רַבִּי אָבִין: מַאי קְרָא? — דִּכְתִיב: ״אִמָּלְטָה נָּא שָׁמָּה״. ״נָא״ בְּגִימַטְרִיָּא — חַמְשִׁין וְחַד הָוֵי, וְשֶׁל סְדוֹם חֲמִישִּׁים וּשְׁתַּיִם. וְשַׁלְוָתָהּ

E disse Rava bar Machseya, (que) disse Rav Chama bar Guria, (que) disse Rav: sempre deve a pessoa buscar e habitar numa cidade cujo povoamento seja próximo (recente), pois, já que seu povoamento é próximo, seus pecados são poucos, conforme se diz: "eis que esta cidade está próxima para fugir para lá, e ela é pequena (Tzoar)" (Bereshit 19:20). O que (significa) "próxima"? Se dissermos: próxima em distância e pequena — mas isso (Lot e as filhas) já a viam! Antes (o sentido é): já que seu povoamento é próximo (recente), seus pecados são poucos (atenuados). Disse Rabi Avin: qual é o versículo (que prova a idade recente de Tzoar)? Pois está escrito: "escaparei para lá, por favor (na)". (A letra) "na" em guematria — vale cinquenta e um, e a de Sodoma (tinha) cinquenta e dois (anos). E a tranquilidade dela (de Sodoma)

Nota

O daf fecha com mais um ensinamento da mesma cadeia: a pessoa deve sempre procurar habitar em uma cidade de povoamento recente, pois seus habitantes ainda não tiveram tempo de acumular muitos pecados coletivos. A prova vem do pedido de Lot ao anjo, ao fugir da destruição de Sodoma, para que lhe fosse permitido refugiar-se em Tzoar, chamando-a de "próxima". A Guemará questiona o sentido da palavra "próxima": não pode significar simplesmente "próxima em distância e pequena em tamanho", pois isso já era visivelmente óbvio para Lot e as filhas, sem necessidade de ser dito ao anjo; portanto, deve significar que seu povoamento era recente, e por isso seus pecados ainda eram poucos — tornando-a um refúgio mais seguro que Sodoma. Rabi Avin traz apoio textual adicional a partir da palavra "na" (por favor) no pedido de Lot, cujo valor em guematria (as letras nun e alef somam cinquenta e um) indica que Tzoar tinha cinquenta e um anos de existência, um ano a menos que Sodoma, que tinha cinquenta e dois — confirmando que Tzoar era, de fato, mais recentemente povoada. O daf termina em aberto no início do tema da "tranquilidade" atribuída a Sodoma, que a Guemará prossegue a discutir em 11a.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "seu povoamento é próximo", "próxima em distância", "pequena", "isso já viam" e "seu povoamento é próximo" (a idade de Tzoar)
שישיבתה קרובה - שנתיישבו בה מקרוב כלומר עיר חדשה:

"Seu povoamento é próximo" — que se estabeleceram nela recentemente, isto é, uma cidade nova.

דמקרבא - לנוס שם:

"Que é próxima" (no sentido de distância) — para fugir para lá.

וזוטא - ולא צריכין אתם להקפיד על קיומה:

"E pequena" — e não precisais insistir (perante o anjo) quanto à sua preservação (por ser insignificante).

הא קא חזו לה - למה ליה למימר להו:

"Isso já viam" — (se o sentido fosse distância e tamanho), por que precisaria dizer isso a eles (aos anjos, já que era evidente aos olhos)?

שישיבתה קרובה - שנה אחת קדמה לה סדום כדמפרש של סדום חמשים ושתים דע"כ בוני מגדל בארץ שנער היו ולא היה ישוב בעולם אלא באותה בקעה כדכתיב ויהי כל הארץ שפה אחת וגו' ויהי בנסעם מקדם ומשם נפוצו למקומות אחרים כשנתפלגו ובנו להם עיירות ומשנתפלגו עד שחרבה סדום אינו אלא חמשים ושתים שנה:

"Seu povoamento é próximo" (no sentido de recente) — Sodoma a precedeu em um ano, conforme se explica (a seguir) que Sodoma (tinha) cinquenta e dois (anos); pois certamente os construtores da torre estavam na terra de Shinar, e não havia povoamento no mundo senão naquele vale, conforme está escrito: "e toda a terra era de uma só língua", etc., "e foi ao partirem do oriente"; e dali se espalharam para outros lugares quando se dispersaram, e construíram para si cidades; e desde que se dispersaram até que Sodoma foi destruída não passaram mais que cinquenta e dois anos.