Shabbat 108a abre completando a frase de Abaié interrompida no final de 107b: aquele que arranca um cogumelo da alça (asa) de um jarro está obrigado pela melachá de arrancar algo de seu lugar de crescimento — pois ali, junto à umidade do jarro, é o seu modo natural de crescer, diferente do que se ensina sobre um vaso não perfurado. A guemará então retoma a cláusula da mishná de 107a sobre ferir um animal ou uma ave, para discutir se se pode escrever tefilín sobre pele de ave pura: Rav Huná afirma que sim; Rav Yossef pergunta o que isso acrescenta à mishná; Abaié responde que ensina algo além, quanto aos muitos buracos de onde saem as penas, resolvido pelo princípio de que todo buraco sobre o qual a tinta passa sem penetrá-lo não invalida a escrita. Rabi Zeira objeta, a partir do versículo sobre a oferta de ave ("por suas asas"), e recebe duas respostas de Abaié, registradas em duas versões. Segue-se a dúvida de Mar, filho de Ravina, sobre pele de peixe, respondida por Rav Nachman bar Yitzchak com a expressão "se vier Eliyahu e disser" — esclarecida como referindo-se não à existência de pele, mas ao mau odor do peixe. A guemará narra então o encontro de Shmuel e Karna à margem do rio Malka: as águas turvas anunciam a chegada de um grande sábio (Rav) vindo de Eretz Yisrael, e Karna é enviado para "cheirar seu barril" — testá-lo com perguntas. Rav responde sobre a fonte bíblica das peles aptas para tefilín, sobre o sangue vermelho, e sobre o local da circuncisão (derivado por analogia verbal de "orlá" a respeito da árvore recém-plantada); rejeita as tentativas de Karna de aplicar a mesma palavra ao coração ou ao ouvido, e, percebendo que fora testado, amaldiçoa Karna com um trocadilho sobre seu nome. Mais tarde, Shmuel, médico, tenta curar as dores intestinais de Rav com um tratamento drástico sem lhe explicar o propósito, o que provoca uma maldição de Rav contra os filhos de Shmuel, cumprida com o tempo. A guemará identifica essa mesma questão da circuncisão como uma disputa explícita de tanaítas (Rabi Yoshiyá e Rabi Natan), cita uma baraita completa sobre quais peles — kosher, não kosher, neveilá ou trefá — servem para tefilín, e relata a pergunta paralela de um beitusi a Rabi Yehoshua HaGarsí sobre o mesmo tema, respondida com a parábola dos dois condenados à morte. O daf termina com a abertura de uma nova mishná — "não se faz salmoura no Shabat" — cujo texto é interrompido, com a continuação em 108b.
(Continuação de 107b) Disse Abaié: aquele que arranca um cogumelo da alça (asa) de um jarro está obrigado por (a melachá de) arrancar algo de seu (lugar de) crescimento. Rav Oshaya objetou: quem colhe (uma planta) de um vaso perfurado está obrigado, e (de um vaso) que não é perfurado está isento (pois não se considera ligado ao solo). Ali, não é este o seu modo de crescer; aqui, este é o seu modo de crescer.
Este beat completa exatamente a frase que 107b deixou interrompida. Abaié aplica a mesma melachá já estabelecida por Rav Sheshet a respeito do lúpulo arrancado dos espinheiros (e por Mar bar Hamdurei a respeito do feto arrancado do ventre) a um terceiro caso: o cogumelo que cresce na alça de um jarro de barro, sustentado pela umidade que ali se acumula. Rav Oshaya traz uma objeção a partir de uma mishná já conhecida (Massechet Uktzin/Chulin): quem colhe uma planta de um vaso perfurado — que mantém contato indireto com o solo através do buraco — está obrigado, mas de um vaso não perfurado, que é considerado totalmente desligado da terra, está isento. Se o cogumelo do jarro se assemelha ao vaso não perfurado (pois o jarro não tem contato algum com o solo), deveria ser isento, contradizendo Abaié. A guemará resolve a dificuldade: o vaso não perfurado não é o modo natural de crescimento de uma planta (que normalmente se planta na terra), por isso não conta como "crescimento" pleno; mas a alça do jarro, onde cogumelos costumam de fato brotar a partir da umidade acumulada, é o modo natural desse crescimento específico — e por isso conta como uma verdadeira melachá de arrancar.
"'Pitra'" — cogumelos, "bolim" (em francês antigo). "'Da alça do jarro'" — às vezes ele cresce na borda do balde, a partir da água (umidade). "'E o que não é perfurado está isento'" — porque não está ligado ao solo do mundo. "'Não é este o seu modo de crescer'" — pois não há ali costume de plantio; mas aqueles (répteis, o lúpulo, o feto) que mencionamos, esse é o principal de seu crescimento.
"Animal ou ave..." etc. (retomando a mishná de 107a). Disse Rav Huná: escrevem-se tefilín sobre a pele de uma ave pura (kosher). Disse Rav Yossef: o que ele nos ensina? Que (a ave) tem pele — já ensinamos: quem os fere está obrigado! Disse-lhe Abaié: ele nos ensina muitas coisas; pois, se (eu soubesse) apenas da mishná, eu diria: já que (a pele da ave) tem muitos buracos, não (se poderia escrever nela sobre santidade); ele nos ensina, como dizem no Ocidente (Eretz Yisrael): todo buraco sobre o qual a tinta passa (sem penetrá-lo) não é (considerado) um buraco.
A guemará retoma a cláusula final da mishná de 107a: "animal ou ave que estão em posse de alguém... quem os fere está obrigado" — pressupondo que aves têm pele distinta da carne. Rav Huná estende esse princípio a uma aplicação prática: já que a ave tem pele, essa pele pode servir de pergaminho para escrever os textos sagrados dos tefilín. Rav Yossef questiona o valor desse ensinamento, pois a existência de pele na ave já era conhecida pela própria mishná (que obriga por feri-la). Abaié explica que Rav Huná ensina algo adicional e não óbvio: a pele da ave está repleta de pequenos orifícios, de onde brotam as penas — e se poderia pensar que tais orifícios invalidariam o pergaminho para escrita sagrada (que exige uma superfície íntegra, sem interrupções). Rav Huná ensina, seguindo um princípio conhecido em Eretz Yisrael, que um buraco tão pequeno que a tinta, ao ser aplicada, o atravessa sem vazar através dele (permanecendo contínua) não é considerado uma verdadeira interrupção — e por isso a pele da ave, apesar de seus muitos poros, é apta para a escrita.
"'Muitos buracos'" — o lugar onde se assentam as penas. "'Não se deveria escrever'" — pois o Misericordioso disse "e escrevereis" (Devarim 6:9) — uma escrita completa, íntegra, e não interrompida.
Rabi Zeira objetou: "(e a rasgará) por suas asas" (Vayikrá 1:17) — para tornar apta a pele. E se te vem à mente que (a pele da ave) é pele (de fato), como o inclui o versículo? Disse-lhe Abaié: é pele, e o Misericordioso a incluiu (por decreto).
Rabi Zeira traz uma baraita sobre a oferta-queimada de ave (olat ha'of), que se rasga sem se dividir completamente, "por suas asas" — versículo interpretado como ensinando que a pele da ave deve ser oferecida junto com o resto (diferente da oferta de animal, cuja pele é retirada antes do sacrifício). Se a pele da ave fosse considerada pele plena, igual à de um animal, argumenta Rabi Zeira, não haveria necessidade de um versículo especial para incluí-la na oferta — pois, sendo pele comum, seguiria naturalmente junto com a carne, como qualquer parte do corpo. O fato de o versículo precisar incluí-la explicitamente sugeriria que, na realidade, a pele da ave não é considerada "pele" no sentido pleno (e por isso poderia, a princípio, ser tratada como algo à parte, exigindo inclusão especial) — o que contradiria a premissa de Rav Huná. Abaié responde com uma resolução direta: apesar de ser pele de fato, a Torá ainda assim precisou incluí-la explicitamente entre o que se oferece — um decreto bíblico específico para esse caso, sem que isso implique que ela não seja pele verdadeira para outros efeitos, como a escrita dos tefilín.
"'Por suas asas'" — trata da oferta-queimada de ave: que a rasgue enquanto suas asas ainda estão nela, e queime suas asas (junto com o corpo); toda a plumagem do corpo (chama-se) "blos" em francês antigo — é a penugem fina que está na carne, como uma espécie de lã, que não tem raízes (hastes) duras. "'Para tornar apta a pele'" — o versículo te ensinou que (a oferta de ave) não precisa de esfolamento, diferente da oferta-queimada de animal, na qual (a Torá) invalidou a pele (exigindo que fosse retirada antes).
Há quem diga: disse Rabi Zeira: também nós ensinamos isto: "por suas asas" — para incluir a pele. Se dizes, está bem: (se) é pele — eis por que o versículo precisou incluí-la. Mas se dizes que não é pele — por que o versículo precisou incluí-la? Disse-lhe Abaié: de fato, digo-te que não é pele, e (ainda assim) foi necessário (incluí-la): poderia vir à tua mente dizer que, já que ela tem muitos buracos, é repugnante — ele nos ensina (que, apesar disso, deve ser sacrificada).
Esta versão alternativa da mesma troca inverte a lógica: aqui, Rabi Zeira usa o próprio versículo como apoio a Rav Huná, e não como objeção. Segundo esta versão, a necessidade de o versículo incluir explicitamente a pele da ave na oferta é justamente a prova de que ela é pele de fato — pois, se não fosse considerada pele, não haveria razão para incluí-la especificamente (ela seguiria junto com a carne de qualquer modo, como parte do corpo). Abaié, porém, mantém sua posição de que a pele da ave não é pele plena, e explica a necessidade da inclusão de outro modo: sem o versículo, poder-se-ia pensar que a pele da ave, coberta de buracos por onde saíam as penas, seria repulsiva demais para o altar e deveria ser descartada — o versículo vem apenas para dizer que, apesar de sua aparência, ela ainda assim deve ser oferecida. As duas versões (479 e 480) mostram a mesma disputa entre Rabi Zeira e Abaié abordada por dois ângulos textuais diferentes, mas preservando a mesma conclusão final de Abaié.
"'Pirtzei'" — o mesmo que "buracos" (nikvei).
Mar, filho de Ravina, perguntou a Rav Nachman bar Yitzchak: qual é a lei quanto a escrever tefilín sobre a pele de um peixe puro (kosher)? Disse-lhe: se vier Eliyahu e disser. O que significa "se vier Eliyahu e disser"? Se dizes que (a dúvida é) se (o peixe) tem pele ou se não tem pele — mas nós já vemos que ele tem pele! E, além disso, não ensinamos: os ossos do peixe e sua pele protegem (da impureza) numa tenda (onde há) um morto! Mas (o sentido é): se vier Eliyahu e disser se seu mau odor cessou dele, ou se seu mau odor não cessou dele.
A guemará estende agora a discussão da pele de ave à pele de peixe. Mar, filho de Ravina, pergunta se ela também pode servir de pergaminho para tefilín. Rav Nachman bar Yitzchak responde com a expressão idiomática "se vier Eliyahu e disser" — indicando uma dúvida que só seria resolvida se o profeta Eliyahu viesse anunciar a resposta correta (uma expressão usada para questões sem solução aparente na época, não como se a halachá realmente dependesse de uma revelação futura). A guemará então investiga o que exatamente permanece em dúvida: não pode ser a existência de pele em si, pois isso já é evidente (e confirmado por uma mishná independente, em Massechet Kelim, de que ossos e pele de peixe bloqueiam a transmissão de impureza numa tenda com um cadáver — o que só faz sentido se o peixe de fato tem pele própria). A dúvida real, explica a guemará, é sobre o odor característico do peixe: será que, com o tempo e o processamento, esse mau cheiro (zuhamá) se dissipa completamente da pele curtida, tornando-a apta para um uso sagrado como os tefilín, ou permanece um resíduo que a desqualificaria?
"'O que significa: se vier Eliyahu e disser'" — o permitido e o proibido não dependem dele (Eliyahu), pois "não está nos céus" (Devarim 30:12). "'E não ensinamos: os ossos do peixe e sua pele protegem numa tenda com um morto'" — porque não recebem impureza, como se ensina na Torat Kohanim: "'pele' — poderia (incluir) as peles que são do mar" etc.; e também os ossos do peixe (não recebem impureza), pois, quanto aos utensílios de osso, que recebem impureza, aprendemos (a regra) de "toda obra de cabras" (Bamidbar 31:20), para incluir o que vem das cabras — dos chifres e dos cascos — mas não os peixes; e tudo que não recebe impureza serve de barreira diante da impureza; e esta mishná está em Massechet Kelim.
Shmuel e Karna estavam sentados na margem do rio Malka. Viram que as águas subiam e ficavam turvas. Disse Shmuel a Karna: um grande homem está vindo do Ocidente (Eretz Yisrael), e sofre (de dores) em suas entranhas, e as águas sobem para recebê-lo (com honra); vai, cheira o seu barril. Foi e encontrou Rav. Disse-lhe: de onde (se aprende) que só se escrevem tefilín sobre a pele de um animal puro (kosher)? Disse-lhe: como está escrito: "para que a Torá do Eterno esteja em tua boca" (Shemot 13:9) — a partir do que é permitido em tua boca. De onde (se aprende) que o sangue (proibido) é vermelho? Como está dito: "e viram os moabitas, de longe, as águas vermelhas como sangue" (Melachim II 3:22).
A guemará interrompe a sequência de dúvidas legais com uma narrativa memorável, ainda ligada ao tema das peles aptas para tefilín. Shmuel e Karna, sentados junto ao rio Malka (que corria de Eretz Yisrael até a Babilônia), notam um sinal incomum: as águas sobem e ficam turvas sem vento algum. Shmuel interpreta isso como um prenúncio simbólico da chegada de um grande sábio — Rav, que vinha de Eretz Yisrael sofrendo de dores intestinais — e envia Karna para "cheirar seu barril", expressão idiomática para testar sua erudição com perguntas difíceis, como se avaliasse a qualidade de um vinho pelo cheiro. Karna encontra Rav e lhe faz duas perguntas: a fonte bíblica de que os tefilín só podem ser escritos em pele de animal kosher (derivada do versículo que liga a Torá "em tua boca" — ou seja, feita de algo que se pode comer), e a fonte de que o sangue impuro (por exemplo, da nidá) deve ter uma tonalidade avermelhada — derivada por analogia da descrição das águas que os moabitas confundiram com sangue.
"'Que subiam'" — suas ondas se elevavam. "'E turvas'" — expressão de sofrimento, por causa de seu (do grande homem) sofrimento, pois também ela (a água) ficou turva; e como não havia vento soprando, e viu as águas formando ondas, entendeu que era em honra de um grande homem; e o rio se estendia de Eretz Yisrael até a Babilônia. "'Para recebê-lo'" — para fazer uma mechitzá (separação) ao redor dele, quando ele se aliviasse junto às bordas do barco, para que sua nudez não fosse vista; outra explicação: para limpá-lo. "'Cheira'" — cheirou seu barril, se era vinho ou se havia azedado, como "bat teiha" que se diz a respeito do vinho de idolatria (Avodá Zará 66b) — ou seja: examina-o, se é sábio ou não. "'De onde (se aprende) que o sangue é vermelho'" — pois, a respeito da nidá, está escrito "sangue", e ensinamos (Nidá 19a): cinco (tipos de) sangue são impuros na mulher, e todos eles porque sua aparência é vermelha; ainda que se ensine entre eles a cor preta, dizemos: o preto é (um tipo de) vermelho que sofreu deterioração.
De onde (se aprende) que a circuncisão é naquele lugar (o órgão)? Está dito aqui "sua orlá (prepúcio)" (Vayikrá 12:3), e está dito adiante "sua orlá" (a respeito da árvore recém-plantada, Vayikrá 19:23); assim como ali é algo que produz fruto, também aqui é algo que produz fruto. Diria eu que é o coração, pois está escrito: "e circuncidareis a orlá de vosso coração" (Devarim 10:16)?! Diria eu que é o ouvido, pois está escrito: "eis que seu ouvido é incircunciso" (Yirmiyahu 6:10)?! Deriva-se "sua orlá" — (forma) completa — de "sua orlá" — (forma) completa; e não se deriva "sua orlá" — completa — de "orlá de" — que não é completa.
Karna faz uma terceira pergunta a Rav: de onde se sabe que o mandamento da circuncisão se aplica especificamente ao órgão reprodutor masculino, já que a Torá simplesmente diz "circuncidará a carne de sua orlá", sem especificar o lugar? Rav responde com uma analogia verbal (guezerá shavá): a mesma palavra "orlató" ("sua orlá") aparece também a respeito de árvores frutíferas recém-plantadas, cujos frutos são proibidos (orlá) nos primeiros três anos; assim como ali a palavra se refere claramente a algo que produz fruto, também aqui deve se referir a um órgão associado à "produção" (a capacidade reprodutiva). Karna desafia essa derivação com dois contraexemplos bíblicos onde a palavra "orlá" é usada metaforicamente para outras partes do corpo — o coração "incircunciso" (insensível) e o ouvido "incircunciso" (surdo às palavras) — sugerindo que a palavra sozinha não localiza precisamente o órgão da circuncisão. Rav resolve a dificuldade com uma regra hermenêutica mais refinada: só se comparam formas gramaticalmente "completas" da palavra entre si (orlató, com o sufixo pronominal pleno) — como nos dois versículos sobre a circuncisão física e a árvore — e não com formas "incompletas" (como "orlat", em construção com outra palavra, como em "orlat levavchem" ou "areilá oznam"), que não contam para a analogia.
"'E está dito adiante: sua orlá'" — a respeito da árvore recém-plantada (Vayikrá 19). "'Completa'" — em suas letras: "orlató" (com o sufixo pronominal completo). "'E não se deriva "sua orlá" de "orlá de"'" — pois esta não é uma expressão completa, já que não está explícito, dentro da palavra "orlat", orlá de quê.
Disse-lhe (Rav): qual é o teu nome? (Respondeu:) Karna. Disse-lhe: que seja (da) vontade (de D'us) que lhe saia um chifre (karna) no olho.
Depois de responder às perguntas de Karna, Rav percebe que fora submetido a um teste deliberado — não uma busca genuína de conhecimento, mas uma avaliação de sua erudição, como Shmuel havia orquestrado. Ao perguntar o nome de seu interlocutor e ouvir "Karna" (que também significa "chifre" em aramaico), Rav responde com uma maldição em forma de trocadilho: que um chifre literal lhe saia no olho — expressando seu desagrado por ter sido testado dessa maneira, ainda que a maldição jogue com o próprio nome de Karna de forma quase jocosa.
"'Que lhe saia um chifre no olho'" — entendeu (Rav) que ele (Karna) tinha vindo para testá-lo.
No fim, Shmuel o trouxe (Rav) para sua casa; deu-lhe de comer pão de cevada e um prato de peixe pequeno frito, e deu-lhe cerveja para beber, e não lhe mostrou o banheiro, para que (o corpo) se soltasse. Rav amaldiçoou e disse: quem me causa sofrimento — que não sobrevivam seus filhos. E assim foi.
O episódio conclui com Shmuel, que era médico, levando Rav — ainda sofrendo das dores intestinais mencionadas no início — para sua própria casa, com a intenção genuína de curá-lo. Shmuel lhe dá uma dieta específica (pão de cevada, peixe frito, cerveja) conhecida por seu efeito laxante, e deliberadamente não lhe indica onde fica o banheiro, para que os alimentos "se soltem" completamente em suas entranhas antes de serem evacuados, potencializando o efeito curativo. Rav, sem compreender a intenção médica por trás desse tratamento (e sofrendo o desconforto de não poder se aliviar), interpreta o gesto como uma afronta deliberada, e o amaldiçoa — pedindo que os filhos de quem lhe causa esse sofrimento não sobrevivam. A guemará observa secamente que, apesar da boa intenção de Shmuel, a maldição se cumpriu: os filhos de Shmuel de fato não sobreviveram por muito tempo — um lembrete da guemará sobre o poder das palavras dos sábios, mesmo quando pronunciadas sob um mal-entendido.
"'Deu-lhe de comer pão de cevada'" — para causar diarreia, pois Shmuel era médico. "'E não lhe mostrou o banheiro'" — pois, por causa disso, os excrementos se revolvem e se misturam em suas entranhas, e tudo se dissolve.
(Isto é) como (uma disputa) entre tanaítas: de onde (se aprende) que a circuncisão é naquele lugar? Está dito aqui "sua orlá", e está dito adiante "sua orlá"; assim como ali é algo que produz fruto, também aqui é algo que produz fruto — palavras de Rabi Yoshiyá. Rabi Natan diz: não é necessário (este raciocínio); eis que ele (o versículo) diz: "e o macho incircunciso, que não circuncidar a carne de sua orlá" (Bereshit 17:14) — (indicando) o lugar onde se distingue entre o masculino e o feminino.
A guemará observa que a resposta que Rav deu a Karna não é uma tradição isolada, mas reflete o lado de uma disputa explícita entre tanaítas registrada em outra fonte. Rabi Yoshiyá sustenta exatamente a analogia verbal usada por Rav — derivando o local da circuncisão da comparação com "orlá" da árvore, um item que produz fruto. Rabi Natan, porém, considera essa analogia desnecessária: para ele, o próprio versículo de Bereshit 17:14, que fala do "macho incircunciso" (arel zachar), já indica com suficiente clareza que a circuncisão ocorre no órgão que distingue fisicamente o sexo masculino do feminino — sem necessidade de recorrer a uma comparação indireta com outro contexto bíblico. Esta seção não traz comentário de Rashi na edição impressa padrão.
Ensinaram os Sábios: escrevem-se tefilín sobre a pele de um animal doméstico puro (kosher), e sobre a pele de um animal selvagem puro, e sobre a pele de suas neveilot (carcaças não abatidas ritualmente) e trefot (com lesão que causaria a morte). E são envoltas (as tiras dos batim) com seu pelo, e cosidas com seu tendão; e é uma halachá (transmitida) a Moshé no (monte) Sinai que os tefilín são envoltos com seu pelo e cosidos com seu tendão. Mas não se escreve nem sobre a pele de um animal doméstico impuro, nem sobre a pele de um animal selvagem impuro, e não é necessário dizer (que não se escreve) sobre a pele de sua neveilá e trefá (impuras). E não são envoltas com seu pelo, nem são cosidas com seu tendão.
A guemará traz agora uma baraita completa e sistemática que resume a lei prática sobre peles aptas para tefilín, reunindo os princípios já discutidos. A regra central: qualquer pele de animal (doméstico ou selvagem) de espécie pura (kosher) serve para o pergaminho dos tefilín — mesmo que aquele animal específico não tenha sido abatido ritualmente (neveilá) ou tivesse uma lesão que o tornaria proibido para consumo (trefá), pois o critério não é se aquele indivíduo pode ser comido, mas se sua espécie, em princípio, é permitida em "tua boca" (como derivado no beat anterior). O mesmo vale para as tiras de couro que envolvem os pergaminhos (usando pelo do mesmo animal) e para as costuras (usando tendão) — sendo esta última prática uma halachá transmitida oralmente a Moshé no monte Sinai, sem base direta em nenhum versículo. Em contraste absoluto, nenhuma pele, pelo ou tendão de espécie impura pode ser usado, independentemente das circunstâncias do abate — pois, tratando-se de espécie proibida por natureza, nem mesmo o princípio de "algo permitido em tua boca" poderia jamais se aplicar a ela.
"'E são envoltas'" — as "igrot" (as tiras/rolos que envolvem os pergaminhos). "'Com seu pelo'" — destes (animais mencionados); e depois as introduz nos moldes de sua caixa (do tefilín).
E esta é a pergunta que um beitusi (saduceu) fez a Rabi Yehoshua HaGarsí: de onde (se aprende) que não se escrevem tefilín sobre a pele de um animal impuro? Como está escrito: "para que a Torá do Eterno esteja em tua boca" — a partir de algo que é permitido em tua boca. Mas então, sobre a pele de neveilot e trefot (de animais kosher), não se deveriam escrever! Disse-lhe: vou te propor uma parábola. A que se assemelha isto? A dois homens que foram condenados à morte pelo reino. Um, o rei o matou; e o outro, o executor o matou. Qual deles é mais louvável? Deves dizer: aquele que o rei matou. Mas então, deveriam ser comidas (as neveilot)! Disse-lhe: a Torá disse "não comereis nenhuma neveilá" (Devarim 14:21), e tu dizes que se deveriam comer?! Disse-lhe: kalos (bem dito).
A guemará fecha o tema com um episódio paralelo à baraita anterior: um beitusi (membro de uma seita que rejeitava a tradição oral rabínica) desafia Rabi Yehoshua HaGarsí com a mesma pergunta que Karna havia feito a Rav — a fonte para a proibição de peles impuras nos tefilín — e recebe a mesma resposta baseada em "para que a Torá esteja em tua boca". O beitusi então levanta a mesma dificuldade lógica: se o critério é apenas "o que pode ser comido", por que as peles de neveilá e trefá de animais kosher (que não podem ser comidos, por não terem sido abatidos corretamente ou por lesão fatal) ainda assim são permitidas para tefilín? Rabi Yehoshua HaGarsí responde com uma parábola: dois homens condenados à morte pelo reino — um morto diretamente pelo rei, outro por um executor contratado — sendo o primeiro mais "digno", pois morreu por mão direta da autoridade suprema. Da mesma forma, um animal kosher que morre "por mão do Céu" (doença ou acidente, como na neveilá/trefá) mantém uma dignidade superior à de um animal intrinsecamente impuro, mesmo que ambos não possam ser comidos — a proibição de comer neveilá/trefá é uma restrição adicional específica ("não comereis"), não um rebaixamento de sua categoria essencial. O beitusi, satisfeito com a resposta, responde em grego: "kalos" — bem dito.
"'Ispaklator'" — chefe dos carrascos (executores), em grego. "'Aquele que o rei matou'" — e estes (as neveilot/trefot) foram atingidos por meio de seu Criador. "'Kalos'" — este argumento é louvável (bem dito).
MISHNÁ. Não se faz salmoura (helmei) no Shabat, ...
Confirmado via Sefaria: o daf 108a termina precisamente na abertura de uma nova mishná, cujo texto completo (que trata das leis de preparar salmoura e outros líquidos temperados no Shabat, dentro do mesmo Perek Yud-Dalet) segue apenas em 108b. Apenas a primeira cláusula está disponível nesta unidade textual: "não se faz salmoura no Shabat" — a palavra "helmei" designa uma salgamoura usada para conservar ou temperar alimentos, cujo preparo no Shabat envolve potencialmente a melachá de "curtir" (me'abed) ou de "cozinhar" (mevashel), dependendo da concentração e do uso pretendido — mas a formulação completa da mishná, suas condições e exceções, permanecem para a continuação em 108b.
"'MISHNÁ: helmei'" — "salmuera" (água salgada, em francês/espanhol antigo).