Shabbat 107b abre concluindo a baraita interrompida no final de 107a: os Sábios diziam "não há pele senão para o que os Sábios enumeraram" — a guemará mostra que essa formulação, à primeira vista, parece contraditória, e passa por três tentativas de leitura (a de Abaié, a de Rava, e a objeção sobre Rabi Yochanan ben Nuri) até que Rav Ada bar Matna resolve emendando o texto da baraita. A seguir, a guemará traz uma baraita nova e completa sobre a mesma questão, agora quanto ao Shabat, com a definição de "ferida que não se refaz" (chaburá) e a opinião de Rabi Yochanan ben Nuri de que os oito répteis têm peles. Rav Ashi identifica o tanaíta anônimo dessa baraita como Rabi Yehudá, que segue a espessura da pele; Levi pergunta a Rabi (Yehudá HaNassi) a fonte bíblica da irreversibilidade da ferida, derivada do versículo sobre o cuxita e o leopardo (Jeremias 13:23). A guemará então retoma a segunda cláusula da mishná de 107a — "os demais insetos, quem os mata está obrigado" — atribuindo-a a Rabi Eliezer (que equipara matar um piolho a matar um camelo), com a objeção de Rav Yossef de que a disputa dos Sábios se restringe ao piolho, que não procria; ambas as opiniões derivam da pele dos carneiros usados na cobertura do Tabernáculo, gerando um debate sobre se piolhos realmente procriam ("ovos de piolhos") e sobre a pulga, que procria mas cuja captura é objeto de disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua — resolvida por Rav Ashi como uma questão de captura, não de morte. A guemará identifica então Rabi Shimon (o princípio de melachá não necessária para si mesma) como o tanaíta por trás de três ensinos formulados de modo idêntico: quem caça por necessidade está obrigado (a cláusula final da mishná), quem rompe um abscesso para lhe fazer uma abertura está obrigado mas para tirar o pus está isento, e quem caça uma cobra para fins medicinais está obrigado mas para não ser mordido está isento. Shmuel ensina que quem tira um peixe do mar está obrigado por matá-lo assim que uma área do tamanho de um sela secou nele (ou, segundo Rav Ashi, mesmo que apenas tenha formado uma baba viscosa). Por fim, Mar bar Hamdurei, em nome de Shmuel, ensina que quem estende a mão às entranhas de um animal e solta um feto do ventre está obrigado, por analogia com quem arranca lúpulo dos espinheiros (arrancar algo de seu crescimento) — e o daf termina em meio a uma nova declaração de Abaié, cuja continuação segue em 108a.
(Conclusão da baraita citada no final de 107a) — "...para o que os Sábios enumeraram." Pelo contrário, (objeta a guemará:) para o que os Sábios enumeraram não têm pele (própria, pois suas peles são como sua carne)! E disse Abaié: assim ele está dizendo (o tanaíta): não há pele distinta da carne senão para o que os Sábios não enumeraram. Disse-lhe Rava: mas ele disse "para o que os Sábios enumeraram"? Mas disse Rava: assim ele está dizendo: não há pele que transmita impureza como a carne senão para o que os Sábios enumeraram. Por inferência, segundo Rabi Yochanan ben Nuri, também aqueles (répteis) que os Sábios não enumeraram transmitem impureza? Mas não foi ensinado: Rabi Yochanan ben Nuri diz: os oito répteis têm peles, e não transmitem impureza! Disse Rav Ada bar Matna: resolve assim (emendando a baraita): "e os Sábios dizem: quanto à questão da impureza, não há pele para o que os Sábios enumeraram."
Este beat retoma exatamente o ponto em que 107a terminou, no meio da citação de uma baraita. A frase final dos Sábios — "não há pele senão para o que os Sábios enumeraram" — parece, à primeira leitura, dizer o oposto do que se esperaria: se os Sábios (em Massechet Chulin) enumeraram quatro répteis (a anaká, o koach, a lagartixa e o chomet) cujas peles são consideradas como sua carne (ou seja, sem pele distinta), então dizer que "só eles têm pele" pareceria uma contradição — deveriam ser precisamente os outros quatro (não enumerados) a ter pele distinta. Abaié tenta resolver invertendo o sentido: a baraita quis dizer que a pele distinta existe apenas nos répteis que os Sábios não enumeraram. Rava rejeita essa leitura por forçar demais o texto. Rava propõe outra leitura: a frase não trata da existência física da pele, mas da transmissão de impureza — apenas a pele dos répteis enumerados pelos Sábios transmite impureza como a carne (por extensão do versículo "estes são os impuros"). Isso gera nova dificuldade: segundo essa leitura, Rabi Yochanan ben Nuri sustentaria que os répteis não enumerados pelos Sábios também transmitem impureza pela pele — mas uma baraita explícita diz o contrário, que, segundo ele, nenhum dos oito transmite impureza pela pele. Rav Ada bar Matna resolve emendando o texto da baraita: a frase deve ser atribuída aos Sábios, não a Rabi Yochanan ben Nuri, dizendo que, quanto à impureza, não há pele distinta senão para os quatro que eles mesmos enumeraram (os outros quatro, contra Rabi Yochanan ben Nuri, para os Sábios não têm pele distinta).
"'Para o que os Sábios enumeraram'" — no (tratado) Chulin, (os Sábios listam) estes cujas peles são como sua carne; e isto certamente é um texto corrompido; pelo contrário, para o que os Sábios enumeraram não têm pele, pois eles dizem que suas peles são como sua carne. "'E disse Abaié: assim ele está dizendo: não há pele distinta da carne'" — senão para aqueles quatro que os Sábios não enumeraram: a doninha, o rato, a tartaruga e a toupeira; mas a anaká, o koach, a lagartixa e o chomet — a pele deles não é distinta de sua carne, e não há (neles) ferida (chaburá); e, de todo modo, isto é difícil para Rav. "'Disse-lhe Rava: mas ele disse: para o que enumeraram'" — e o tanaíta não confunde entre o que enumeraram e o que não enumeraram. "'Não há pele que transmita impureza como a carne'" etc. — e assim lhe dizem: aquilo que disseste, que quanto ao Shabat têm pele, mas quanto à impureza suas peles são como sua carne, pois foram incluídas a partir de (o versículo) "os impuros" — não há pele que transmita impureza como a carne senão para aqueles quatro que (os Sábios) enumeraram. "'Por inferência, segundo Rabi Yochanan'" etc. — em tom de espanto; e não foi ensinado ali, a respeito da impureza, que, segundo Rabi Yochanan ben Nuri, todos os oito répteis têm peles? "'Resolve assim'" — apaga (a palavra) da baraita, e ensina apenas: "não há pele para o que os Sábios enumeraram"; porém, para Rav isto não é difícil, pois assim lhe dizem: quanto ao Shabat, concordamos contigo que quem os fere está obrigado; mas quanto à impureza, discordamos — pois não há pele (própria) para aqueles quatro que (os Sábios) enumeraram.
E ainda, quanto à questão do Shabat, (dizes que) não discordam? Mas não foi ensinado (numa baraita): quem caça um dos oito répteis mencionados na Torá — quem os fere está obrigado, (tratando-se) de répteis que têm peles. E qual é a ferida que não se refaz? O sangue se acumula, ainda que não tenha saído. Rabi Yochanan ben Nuri diz: os oito répteis têm peles.
Depois de resolver a primeira baraita atribuindo a disputa entre Rabi Yochanan ben Nuri e os Sábios exclusivamente à questão da impureza, a guemará traz uma nova prova de que essa conclusão pode não ser exata: uma baraita distinta, completa, que trata especificamente da lei de Shabat. Essa baraita ensina que quem caça ou fere um dos oito répteis está obrigado, tratando-se de répteis com pele — e define tecnicamente o que conta como "ferida que não se refaz" (chaburá), a condição necessária para a obrigação por ferir: basta que o sangue se acumule sob a pele num só ponto, ainda que não tenha efetivamente saído para fora. A baraita então atribui esse ensino nominalmente a Rabi Yochanan ben Nuri, sugerindo — contrariamente à conclusão anterior de Rabá bar Rav Huná — que também quanto ao Shabat pode haver disputa entre ele e os Sábios sobre quais répteis efetivamente têm essa pele.
"'Répteis que têm peles'" — aqueles quatro que (os Sábios) não enumeraram. "'O sangue se acumula'" — é reunido e amarrado num só lugar, e já não volta a ser absorvido.
Disse Rav Ashi: quem é o primeiro tanaíta (desta baraita, o autor anônimo do início)? É Rabi Yehudá, que segue a espessura (a textura) da pele. Pois ensinamos: Rabi Yehudá diz: a lagartixa é como a doninha. Mas os Sábios, que discordam de Rabi Yochanan (ben Nuri) quanto à questão da impureza, quanto à questão do Shabat concordam com ele. Se assim é, esta (expressão) "palavras de Rabi Yochanan ben Nuri" deveria ser "palavras de Rabi Yochanan (ben Nuri) e sua disputa"! Ensina: "palavras de Rabi Yochanan ben Nuri e sua disputa".
Rav Ashi identifica o autor anônimo (tanna kamma) da nova baraita: não é a disputa entre Rabi Yochanan ben Nuri e os Sábios sobre impureza que está em jogo aqui, mas uma terceira posição, a de Rabi Yehudá, que classifica os répteis não pelo versículo bíblico, mas pela espessura física da pele — por isso ele equipara a lagartixa à doninha (que tem pele grossa e distinta), enquanto os outros três (anaká, koach, chomet) não teriam pele distinta, também quanto ao Shabat. Já os Sábios de Massechet Chulin, que discordam de Rabi Yochanan ben Nuri apenas quanto à impureza (incluindo a lagartixa entre os que têm pele como carne, por uma leitura do versículo), na verdade concordam com ele plenamente quanto ao Shabat — pois lá o critério é físico, não hermenêutico, e fisicamente todos os oito têm pele. Isso levanta uma dificuldade textual: se os Sábios (de Chulin) concordam com Rabi Yochanan ben Nuri quanto ao Shabat, a baraita não deveria dizer apenas "palavras de Rabi Yochanan ben Nuri" (implicando disputa), mas sim "palavras de Rabi Yochanan ben Nuri e sua disputa (com os Sábios, quanto à impureza)" — precisando, então, emendar o texto da baraita para refletir isso com precisão.
"'Quem é o primeiro tanaíta'" — desta baraita, que diz "répteis que têm peles", o que subentende que há entre eles (répteis) pelos quais se está isento. "'É Rabi Yehudá'" — pois, quanto à impureza, ele não deriva de "estes são os impuros", mas (do critério) daquele que tem "guishtá" (espessura, textura da pele): aquele cuja pele é espessa e tem pele de fato não é como a carne, e aquele cuja (pele) não é espessa é como a carne; e a lagartixa, porque sua pele é espessa, ele a equipara à doninha em (o capítulo) "HaOr VeHarotev"; portanto, quanto ao Shabat também, não há pele em três delas — a anaká, o koach e o chomet. Mas para os Sábios, que em "HaOr VeHarotev" enumeraram a lagartixa entre aquelas cujas peles são como sua carne — segue-se que o motivo deles não é por causa da (espessura da) pele, mas por causa da interpretação do versículo; quanto à impureza é que discordam por causa do versículo, mas quanto ao Shabat concordam que certamente (todos) têm pele. "'Palavras de Rabi Yochanan ben Nuri'" — que foi ensinado naquela baraita acima, quanto ao Shabat; visto que os Sábios só discordam dele quanto à impureza, deveria ter dito "palavras de Rabi Yochanan ben Nuri e sua disputa".
Levi perguntou a Rabi (Yehudá HaNassi): de onde (se aprende) que há uma ferida que não se refaz? Pois está escrito: "Acaso mudará o cuxita a sua pele, e o leopardo as suas manchas (chavarburotav)?" (Jeremias 13:23). O que é "chavarburotav"? Se dizes que se refere às marcas manchadas (do leopardo, sua coloração natural), este (versículo) "e o leopardo as suas manchas" deveria dizer "o leopardo as suas cores"! Mas (o sentido é): como o cuxita — assim como a pele do cuxita não muda (de cor), também a ferida não se refaz.
Este beat busca a fonte bíblica para o conceito central que sustenta toda a discussão até aqui: por que uma ferida sob a pele (com sangue acumulado) é considerada "irreversível", ao ponto de tornar quem a causa passível da mesma obrigação que se aplica a degolar. Levi traz a questão a Rabi (Yehudá HaNassi), que responde citando o versículo de Jeremias sobre a impossibilidade de o etíope (cuxita) mudar a cor de sua pele ou o leopardo suas manchas — usado metaforicamente para a impossibilidade de o povo mudar seus maus costumes. A guemará então examina a palavra "chavarburotav": se significasse simplesmente "as manchas naturais do leopardo" (sua pelagem característica), o versículo teria usado uma palavra mais direta, como "suas cores"; o fato de usar uma palavra derivada de "chaburá" (ferida, contusão) sugere que o sentido pretendido é outro — uma comparação com o cuxita: assim como a pele escura do cuxita jamais muda de cor por meios naturais, também uma ferida verdadeira (com sangue coagulado sob a pele) não retorna ao seu estado anterior por si mesma — distinguindo-a de um mero arranhão superficial, que sara e desaparece.
"'De onde (se aprende) que há uma ferida que não se refaz'" — e para derivar que aquela (ferida) que se refaz não é (considerada) uma ferida (chaburá) — como, por exemplo, aqueles (répteis) que não têm pele em que o sangue se acumule, cuja ferida volta ao seu estado anterior, ou uma ferida pequena em que o sangue não se acumulou. "'Se dizes que se refere às marcas manchadas'" — e (que se trata) de um leopardo de fato, disse o versículo que ele é manchado em cores. "'Mas (o sentido é) como o cuxita'" etc. — e este "namer" é uma expressão de troca: "acaso mudará o cuxita a sua pele, e trocará (yamir) as suas manchas" — isto é: e trocará a ferida de sua pele para que volte ao seu estado anterior, de modo que a pele não endureça no lugar da ferida.
"E os demais insetos (impuros)..." etc. (retomando a mishná de 107a). Por inferência, quem os mata está obrigado. Quem é o tanaíta (que sustenta isto)? Disse Rabi Yirmeyá: é (a opinião de) Rabi Eliezer, pois foi ensinado: Rabi Eliezer diz: quem mata um piolho no Shabat é como quem mata um camelo no Shabat. Rav Yossef objetou: até aqui, os Sábios só discordam de Rabi Eliezer quanto ao piolho, que não procria; mas quanto aos demais insetos e répteis que procriam, não discordam.
A guemará volta agora à mishná de abertura do perek (já citada integralmente em 107a): "os demais insetos e répteis — quem os fere está isento; quem os caça, obriga-se por necessidade, isenta-se sem necessidade". A mishná nada diz explicitamente sobre matá-los — mas a formulação implícita, ao distinguir apenas ferir e caçar, sugere por inferência que matá-los sempre obriga (já que matar não é mencionado como caso especial de isenção). Rabi Yirmeyá identifica essa posição implícita com a opinião explícita de Rabi Eliezer, que compara matar um piolho — o menor e mais insignificante dos insetos — a matar um camelo, o maior dos animais domésticos: para ele, tirar qualquer vida no Shabat é igualmente proibido, independentemente do tamanho ou da espécie do animal. Rav Yossef contesta essa identificação: talvez a disputa dos Sábios com Rabi Eliezer seja mais restrita do que parece — talvez discordem dele apenas quanto ao piolho especificamente, por não procriar (e por isso, talvez, não seria considerado uma "vida" plena para efeitos desta melachá), mas concordariam com ele que matar outros insetos e répteis, que procriam normalmente, sempre obriga.
"'Camelo'" — porque é grande, o menciona (como exemplo extremo).
E ambos (Rabi Eliezer e os Sábios) só aprenderam isto dos carneiros (usados na cobertura avermelhada do Tabernáculo). Rabi Eliezer entende (a lei) segundo os carneiros: assim como os carneiros têm neles a tomada de uma alma (vida), também tudo que tem nele a tomada de uma alma (está incluído na proibição de matar). E os Sábios entendem (a lei) segundo os carneiros: assim como os carneiros procriam, também tudo que procria. Disse-lhe Abaié: mas o piolho não procria? E não disse o Mestre: o Santo, abençoado seja, senta-se e sustenta desde os chifres dos bois selvagens até os ovos dos piolhos! (Respondeu Rav Yossef:) há uma espécie que se chama "ovos de piolhos" (mas o piolho em si não procria por ovos).
A guemará explica a raiz comum de onde tanto Rabi Eliezer quanto os Sábios derivam sua posição: a melachá de matar um animal no Shabat (parte da categoria de "degolar", shochet) é derivada dos carneiros cuja pele avermelhada cobria o Tabernáculo (Êxodo 26) — precisamente os mesmos carneiros já mencionados como fonte para a definição de chaburá (ferida irreversível). A diferença está em qual traço dos carneiros cada lado extrai como critério generalizável: Rabi Eliezer foca no fato de que os carneiros são seres com vida ("tomada de alma") — e por isso qualquer criatura viva, por menor que seja, entra na proibição de matar; os Sábios focam no fato de que os carneiros são animais que procriam — e por isso apenas criaturas que se reproduzem entram na proibição, excluindo o piolho, que (segundo a crença popular da época) nasceria espontaneamente da sujeira, sem reprodução. Abaié desafia essa premissa citando um ensinamento tradicional de que Deus sustenta toda a criação "desde os chifres dos bois selvagens até os ovos dos piolhos" — o que pressuporia que piolhos de fato põem ovos, ou seja, procriam. Rav Yossef responde que a expressão "ovos de piolhos" é apenas o nome popular de uma espécie distinta de inseto minúsculo, e não uma referência à reprodução real do piolho.
"'Dos carneiros'" — carneiros avermelhados que foram degolados para a obra do Tabernáculo, por causa de suas peles. "'E não disse o Mestre'" — no primeiro capítulo do tratado Avodá Zará. "'Ovos de piolhos'" — pensava-se (à primeira vista) que fossem piolhos pequenos ao saírem de seus ovos.
E não foi ensinado (numa baraita): "os tefuyim e os ovos de piolhos" (listados juntos, como espécies distintas de insetos)? (Resposta:) há uma espécie que se chama "ovos de piolhos". E eis que a pulga procria (segundo todas as opiniões), e foi ensinado: quem caça uma pulga no Shabat — Rabi Eliezer obriga, e Rabi Yehoshua isenta! Disse Rav Ashi: estás comparando captura com morte?! Até aqui, Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua só discordam quanto a isto: um Mestre (Rabi Eliezer) entende que uma coisa cuja espécie não costuma ser caçada — está obrigado (por caçá-la); e o outro Mestre (Rabi Yehoshua) entende que está isento. Mas quanto à questão de matar — até Rabi Yehoshua concorda (que se procria, está obrigado).
A guemará insiste na objeção contra Rav Yossef: uma baraita lista "tefuyim" (um tipo de larva ou inseto) e "ovos de piolhos" lado a lado, como duas espécies distintas de criaturas — o que sugeriria novamente que "ovos de piolhos" é algo real, não apenas um nome figurado. A guemará responde repetindo a mesma resposta: trata-se apenas do nome de uma espécie própria, sem relação com a reprodução do piolho comum. A guemará então levanta uma dificuldade mais séria: a pulga certamente procria (todos concordam com isso), e ainda assim há uma baraita que registra disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua sobre capturá-la no Shabat — o que pareceria contradizer a afirmação de Rav Yossef de que "quanto aos demais insetos que procriam, não há disputa". Rav Ashi resolve a dificuldade apontando que se trata de categorias diferentes de melachá: a disputa sobre a pulga refere-se especificamente à captura (tzeidá) — Rabi Eliezer sustenta que mesmo uma espécie que normalmente não é caçada de propósito (por ser pequena e sem uso prático) ainda assim gera obrigação se for de fato capturada, enquanto Rabi Yehoshua isenta nesse caso, por faltar o padrão típico de "caça" com finalidade útil. Mas quanto à melachá de matar (haragá), que é uma categoria totalmente separada, mesmo Rabi Yehoshua concorda que matar qualquer criatura que procria — inclusive a pulga — gera plena obrigação, sem qualquer disputa.
"'Os tefuyim'" — "o réptil dos tefuyim e ovos de piolhos" é uma baraita, e não sei onde foi ensinada. "'Quem caça uma pulga'" — de um lugar onde ela não está capturada e parada, como sobre o chão, ou de fora de suas roupas.
"Quem os caça por necessidade está obrigado" etc. (retomando a última cláusula da mishná de 107a). Quem é o tanaíta? Disse Rav Yehudá, disse Rav: é (a opinião de) Rabi Shimon, que diz: por uma melachá que não é necessária para si mesma, está isento.
A guemará volta à última cláusula da mishná citada em 107a: "os demais insetos e répteis... quem os caça por necessidade está obrigado; sem necessidade está isento". Essa distinção — obrigação depende do propósito da ação, não apenas de sua execução física — reflete um princípio específico de Rabi Shimon, segundo o qual uma melachá "que não é necessária para si mesma" (melachá she'einá tzerichá legufáh) — isto é, realizada não pelo resultado direto e usual daquela ação, mas por um propósito colateral — isenta quem a realiza. Aplicado aqui: caçar um inseto ou réptil sem qualquer uso pretendido (por exemplo, apenas para se livrar dele) não é uma "captura" no sentido pleno da melachá (que pressupõe um interesse útil no animal capturado), e por isso é isento; apenas quando há um propósito real — alimento, remédio, ou outro uso — a ação conta como a melachá plena de caçar. Este princípio de Rabi Shimon será agora aplicado a mais dois casos análogos nos beats seguintes.
Há quem ensine isto (o dito de Rav) a respeito disto: quem rompe um abscesso no Shabat — se (o faz) para lhe fazer uma abertura, está obrigado; se (o faz) para tirar dele o pus, está isento. Quem é o tanaíta? Disse Rav Yehudá, disse Rav: é (a opinião de) Rabi Shimon, que diz: por uma melachá que não é necessária para si mesma, está isento.
A guemará registra uma tradição alternativa sobre a que caso exatamente Rav aplicou seu ensinamento ("é a opinião de Rabi Shimon..."): não à mishná sobre caçar répteis, mas a um caso já visto em 107a, dentro do ensino de Shmuel sobre os três casos "isento e permitido" — o de romper um abscesso. Se a intenção é criar uma abertura permanente e útil (como fazem os médicos), há a melachá de "construir uma abertura" ou "consertar um utensílio" (aplicada ao corpo como se fosse um objeto reparado), e há obrigação plena. Mas se a intenção é apenas aliviar a dor drenando o pus imediato, sem se importar se o furo tornar a se fechar logo depois, o resultado (a abertura) não é o objetivo da ação — apenas um efeito colateral necessário para atingir o alívio da dor — o que é exatamente a definição de melachá "não necessária para si mesma" de Rabi Shimon, e por isso isenta (embora ainda proibida a princípio, por decreto rabínico, exceto que aqui os Sábios não decretaram, por causa da dor, como Rashi explica em 107a).
"'Para tirar dele o pus'" — é uma melachá que não é necessária para si mesma, pois a abertura é a melachá (em si), e este não precisa que haja aqui uma abertura desde já.
E há quem ensine isto a respeito disto: quem caça uma cobra no Shabat — se se ocupa dela para que não o morda, está isento; se (o faz) para fins medicinais, está obrigado. Quem é o tanaíta? Disse Rav Yehudá, disse Rav: é (a opinião de) Rabi Shimon, que diz: por uma melachá que não é necessária para si mesma, está isento.
Uma terceira tradição aplica o mesmo dito de Rav ao terceiro caso "isento e permitido" de Shmuel, já citado em 107a: capturar uma cobra. Se o propósito é apenas se defender de uma mordida (sem qualquer interesse na cobra em si, apenas afastá-la ou contê-la), a captura não é a melachá pretendida — o objetivo real é a proteção pessoal, e a "captura" é meramente incidental; por isso é isento (e, como já visto em 107a, permitido desde o início). Mas se o propósito é capturar a cobra para usá-la com fins medicinais (por exemplo, extrair veneno ou outro uso terapêutico da época), há um interesse direto e real no animal capturado, e a ação conta como a melachá plena de caçar, gerando obrigação. As três tradições registradas nestes últimos beats (mishná dos répteis, abscesso, cobra) ilustram o mesmo princípio de Rabi Shimon aplicado a três contextos diferentes — todos já vistos ou aludidos em 107a — demonstrando a amplitude de seu alcance na jurisprudência do Shabat.
"'Quem caça uma cobra'" — também aqui a captura é a melachá (em si), e este não precisa da captura, senão para que ela não o morda; e se soubesse que ela ficaria parada e não o prejudicaria, não a caçaria.
Disse Shmuel: quem tira um peixe do mar — assim que secou nele (uma área) do tamanho de um sela, está obrigado (por matá-lo). Disse Rabi Yossei bar Avin: e (isto vale) entre suas barbatanas. Disse Rav Ashi: não digas que secou de fato; mas mesmo que tenha apenas formado uma baba (viscosa).
A guemará muda de tema para outro ensino de Shmuel, agora sobre pesca. Um peixe já capturado (fora d'água desde antes do Shabat, portanto sem o problema da melachá de caçar) morre pouco depois de ser retirado do mar; a questão é em que ponto exatamente ele é considerado "morto" para efeitos da melachá de matar (netilat neshamá). Shmuel estabelece um sinal físico: quando uma área da pele do peixe, do tamanho de uma moeda sela, secou ao ar, o peixe já não pode sobreviver, e quem o segurou até esse ponto (ou o retirou) é responsável por sua morte. Rabi Yossei bar Avin acrescenta uma condição: esse sinal só é decisivo quando a área seca está entre as barbatanas (uma região sensível do corpo do peixe); ressecamento em outras partes pode não indicar a mesma coisa. Rav Ashi esclarece que não é necessário esperar um ressecamento completo e visível — basta que a área tenha alcançado o estágio de ficar viscosa e pegajosa ao toque, sinal já suficiente de que a morte é iminente e certa.
"'Quem tira um peixe'" — que estava capturado e parado desde antes (de escurecer, já retirado da água). "'Do tamanho de um sela'" — do tamanho da largura de uma moeda sela. "'Está obrigado'" — por (a melachá de) tomar uma alma (vida), pois já não sobrevive mais. "'Formou uma baba'" — que, ao tocá-lo, um fio viscoso se estende do dedo.
Disse Mar bar Hamdurei, disse Shmuel: quem estende a mão às entranhas de um animal (no Shabat) e solta (arranca) um feto que está em seu ventre — está obrigado. Qual é a razão? Disse Rava: Bar Hamdurei me explicou isto: não disse Rav Sheshet: aquele que arranca lúpulo dos espinheiros e das urtigas está obrigado por (a melachá de) arrancar algo de seu (lugar de) crescimento? Também aqui, está obrigado por arrancar algo de seu (lugar de) crescimento. Disse Abaié: aquele que arranca... (o texto continua em 108a).
O daf encerra-se com um novo ensino de Shmuel, transmitido por Mar bar Hamdurei: quem introduz a mão nas entranhas de um animal vivo e desaloja (dilduel) um feto de dentro do útero está obrigado por uma melachá no Shabat. A princípio, essa obrigação é surpreendente — o feto, por não ter nascido, não é obviamente enquadrado nas categorias usuais de "tomar uma vida" ou "caçar". Rava explica, citando o próprio Bar Hamdurei, que a razão não é nenhuma dessas duas melachot, mas uma terceira, inesperada: a melachá de "arrancar algo de seu lugar de crescimento" (oker davar migidulo), um derivado de colher (ketzirá). Essa categoria já havia sido estabelecida por Rav Sheshet a respeito de quem arranca lúpulo (usado para cerveja) que cresce entrelaçado em espinheiros e urtigas silvestres — mesmo sem estar diretamente enraizado no solo, o lúpulo é sustentado pelo cheiro/umidade da terra através da planta hospedeira, e por isso arrancá-lo conta como "desenraizar" algo de seu crescimento. Da mesma forma, o feto no ventre da mãe é sustentado e "cresce" a partir dela como se fosse uma extensão de seu corpo, e desalojá-lo à força conta como a mesma melachá de arrancar algo de seu lugar de crescimento. O daf termina precisamente quando Abaié começa a formular um novo ensino relacionado ao mesmo tema de "arrancar" — texto que é interrompido aqui e cuja continuação abre o daf 108a.
"'Soltou'" — arrancou, de modo que o fez cair por meio deste ato de soltar. "'Bar Hamdurei me explicou'" — a razão desta questão. "'Lúpulo'" — humulus, e cresce em meio aos espinheiros, a partir do cheiro (umidade) da terra que o espinheiro suga (e lhe transmite). "'Está obrigado'" — ainda que (o lúpulo) não esteja preso diretamente à terra, como dizemos em outro lugar (Eruvin 28b): "cresce do ar".