Shabbat 104a abre respondendo a pergunta deixada em suspenso ao final de 103b: sera que uma letra fechada tornada aberta e uma aberta tornada fechada sao realmente comparaveis? A Guemara conclui que tornar uma letra fechada em aberta eleva o seu status, pois o mem e o samech das tabuas da Alianca ficavam de pe por milagre mesmo sendo totalmente vazados; ja tornar uma aberta em fechada diminui o seu status, pois foram os profetas que instituiram as formas finais mem-nun-tzadi-pe-caf. A Guemara objeta: mas um profeta pode inovar algo na Tora, se o versiculo diz 'estas sao os mandamentos', ensinando que nada mais pode ser acrescentado apos o Sinai? Resolve-se que as duas formas ja existiam desde o Sinai, apenas foram esquecidas com o tempo e os profetas as restabeleceram em suas posicoes corretas. A Guemara retorna entao ao tema das tabuas em si, citando Rav Chisda: a escrita das tabuas era vazada e podia ser lida tanto por dentro quanto por fora, em ordem invertida, como demonstram exemplos de palavras biblicas. A partir daqui, o daf se abre para uma longa digressao agadica, iniciada quando os Sabios contam a Rabi Yehoshua ben Levi que criancas pequenas vieram a casa de estudo e interpretaram cada letra do alfabeto hebraico com ensinamentos eticos: alef-beit ensina a aprender sabedoria; guimel-dalet ensina a recompensar os pobres, com a perna do guimel voltada para o dalet (para correr atras do necessitado) e a perna do dalet voltada para o guimel (para que o pobre se apresente), mas o rosto do dalet volta-se para longe do guimel (para que a caridade seja dada discretamente); he-vav e o Nome do Santo, bendito e Ele; as letras seguintes prometem sustento, favor, bondade, heranca e uma coroa no Mundo Vindouro a quem segue esse caminho; o mem aberto e fechado alude a declaracoes abertas e esotericas da Torah; o nun curvado e reto alude ao fiel humilde que se tornara reconhecido; samech-ayin ensina a apoiar os pobres; a boca deve saber quando se abrir e quando se fechar; o tzadi curvo e reto ensina que o justo humilde se tornara manifesto, e daqui se aprende que a Torah foi dada com abaixamento de cabeca; o kuf (santo) e o reish (impio) tem seus rostos voltados um para longe do outro, pois o Santo nao quer olhar para o impio, mas sua coroa se volta para o reish, prometendo uma coroa como a Sua caso ele se arrependa, e sua perna fica suspensa para lhe permitir a entrada; a Guemara explica, apoiando-se em Reish Lakish, que a quem vem se contaminar abrem-lhe a porta, e a quem vem se purificar ajudam-no desde os Ceus; shin (mentira) e tav (verdade) tem suas letras dispostas de forma reveladora — as da mentira, proximas entre si e apoiadas sobre uma unica perna instavel, e as da verdade, distantes entre si e apoiadas sobre bases largas como tijolos, pois a mentira e comum mas nao permanece, e a verdade e rara mas permanece. O daf termina com uma segunda digressao alfabetica, agora usando o codigo atbash (pareando a primeira letra com a ultima, e assim por diante): primeiro a 'medida dos impios', em que Deus pergunta retoricamente se deveria ter misericordia de quem O desprezou, e depois a 'medida dos justos', em que a mesma sequencia de letras promete abrigo, protecao contra a ira e o satan a quem tem vergonha do pecado — culminando no dialogo entre o principe do Geinom e Deus, que primeiro lhe concede os que rejeitaram o adulterio, depois lhe nega a semente de Set e a semente de Yitzchak, prometendo-lhe outras nacoes em seu lugar.
(Continuando a pergunta deixada em suspenso ao final de 103b:) ele eleva o seu status, pois disse Rav Chisda: o mem e o samech que estavam nas tábuas ficavam de pé por milagre. Mas, (se alguém) tornou aberta uma letra fechada — ele diminui o seu status, pois disse Rabi Yirmeya, e alguns dizem que foi Rabi Chiyya bar Abba quem disse: (as formas finais) mem, nun, tzadi, pê, caf — os profetas as disseram (instituíram).
A Guemará conclui, finalmente, a comparação que 103b havia deixado em aberto: as duas direções — letra aberta tornada fechada, e letra fechada tornada aberta — não são, de fato, simétricas. Tornar uma letra fechada em aberta apenas eleva o seu status, aproximando-a da condição miraculosa das letras mem e samech que, segundo Rav Chisda, estavam nas tábuas da Aliança inteiramente vazadas (perfuradas de lado a lado) e, mesmo assim, ficavam de pé por milagre, sem cair. Já tornar uma letra aberta em fechada diminui o seu status, pois, segundo Rabi Yirmeya (ou, segundo outra versão, Rabi Chiyya bar Abba), foram os profetas — e não Moshé no Sinai — que instituíram as formas finais das letras mem, nun, tzadi, pê e caf (conhecidas pelo acrônimo mnemônico 'mantzefach'). Como essas formas datam apenas da época dos profetas, elas são consideradas menos significativas do que as formas originais do Sinai.
"'Ele eleva o seu status'" — porque havia um mem fechado nas tábuas, mas não havia um mem aberto nas tábuas, como se explica (adiante: as formas finais) "mantzefach", (que) os profetas disseram. E, já que Rav Chisda disse que o mem e o samech das tábuas ficavam de pé por milagre, só é possível situar isso no (mem) fechado, pois, sendo que a escrita era visível de ambos os lados (das tábuas), a peça central deveria ter caído, não fosse o fato de que, por milagre, ficava de pé; mas o (mem) aberto não tem milagre nele. Por isso, o "mantzefach" de Rabi Yirmeya, que disse que os profetas as disseram, refere-se às formas abertas. Há quem objete esta sugya contra a sugya que se ensina no tratado Meguilá, onde se contrapõe a afirmação de Rabi Yirmeya à de Rav Chisda, dando a entender que ambas se referem às formas fechadas; mas isso não é uma objeção real, pois assim é o costume do Talmud: inverter o raciocínio aqui para que surja uma dificuldade, e em outro lugar invertê-lo conforme a dificuldade local; e, se ali quisesse resolver dizendo que a afirmação de Rav Chisda se refere às formas fechadas e a de Rabi Yirmeya às abertas, poderia tê-lo resolvido assim — mas ali o Talmud preferiu uma resolução melhor, e o raciocínio é o mesmo aqui. "'Já existiam'" — ambas (as formas), mas não se sabia qual (ficava) no meio da palavra, etc.
Mas, acaso se pode pensar assim?! Não está escrito: "estes são os mandamentos" (Vayikrá 27:34) — (ensinando) que o profeta não tem permissão de inovar coisa alguma a partir de agora? Mas (as formas) já existiam; (apenas) não se sabia qual (delas ficava) no meio da palavra, qual no fim da palavra, e vieram os profetas e as instituíram. E ainda (permanece a dificuldade de) "estes são os mandamentos" — que o profeta não tem permissão de inovar coisa alguma a partir de agora! Mas, (na verdade), esqueceram-nas, e voltaram a restabelecê-las.
A Guemará rejeita a explicação anterior em sua forma literal: se os profetas realmente instituíram as formas finais das letras, isso contradiria o princípio derivado do versículo "estes são os mandamentos" (Vayikrá 27:34), que ensina que nenhum profeta tem autoridade para acrescentar qualquer elemento novo à Torá depois do Sinai. A primeira resposta é que as duas formas de cada letra (aberta e fechada) já existiam desde o Sinai, mas ainda não haviam sido fixadas em posições específicas — ninguém sabia qual forma deveria ser usada no meio de uma palavra e qual no final; foram os profetas que fixaram essa convenção posicional, sem inventar nenhuma forma nova. Mas a Guemará aponta que essa resposta ainda não resolve completamente a dificuldade: mesmo fixar a posição de algo já existente pareceria uma forma de inovação proibida pelo mesmo versículo. A resposta final, portanto, é que a convenção posicional também já existia desde o Sinai, mas foi esquecida ao longo do tempo pelo povo, e os profetas simplesmente a restabeleceram — não inovaram nada, apenas recuperaram um costume perdido.
Quanto à matéria em si: disse Rav Chisda: o mem e o samech que estavam nas tábuas ficavam de pé por milagre. E disse ainda Rav Chisda: a escrita que estava nas tábuas se lia por dentro e se lia por fora, como, por exemplo: "nevuv" — (lido ao contrário, letra por letra) "bet, vav, bet, nun"; "rahav" — "bet, hê, reish"; "saru" — "vav, reish, samech".
A Guemará retoma, na forma de "a matéria em si" (guf'a) — fórmula que costuma introduzir uma citação integral de um dito já mencionado de passagem —, a afirmação original de Rav Chisda sobre o mem e o samech das tábuas, e acrescenta um segundo ensinamento seu sobre a natureza física dessa escrita: como as letras eram entalhadas perfurando a tábua de lado a lado, o texto podia ser lido tanto pelo lado da frente quanto pelo lado de trás, e, ao ser lido pelo lado de trás, as letras apareciam invertidas em sua ordem. Rav Chisda ilustra esse fenômeno com três palavras que aparecem em outros lugares da Bíblia (não necessariamente nas próprias tábuas, mas como exemplos do princípio): "nevuv" (oco), lida ao contrário, produziria a sequência de letras bet-vav-bet-nun; "rahav" (Reahav, ou soberba), lida ao contrário, produziria bet-hê-reish; e "saru" (desviaram-se), lida ao contrário, produziria vav-reish-samech.
"'E se lia por fora'" — as letras invertidas e a palavra invertida; e isso não vem ensinar senão que o entalhe perfurava toda a tábua, e por isso o mem e o samech dependiam de milagre. "'Nevuv, rahav, saru'" — não estavam nas tábuas, mas o Talmud tomou apenas essas palavras como exemplo, em geral.
Disseram os Sábios a Rabi Yehoshua ben Levi: vieram hoje crianças pequenas à casa de estudo e disseram coisas semelhantes às quais nem nos dias de Yehoshua bin Nun se disseram. "Álef-beit" — aprende (alaf) sabedoria (bina). "Guímel-dálet" — recompensa (gemol) os pobres (dalim). Qual é a razão pela qual a perna do guímel se estende em direção ao dálet? Porque é o caminho de quem pratica atos de bondade correr atrás dos pobres. E qual é a razão pela qual a perna do dálet se estende em direção ao guímel? Para que ele (o pobre) apresente a si mesmo (a quem quer dar). E qual é a razão pela qual o rosto do dálet se volta para longe do guímel? Para que lhe dê (a caridade) discretamente, de modo que ele não se envergonhe dele.
Inicia-se aqui uma longa digressão agádica: os Sábios relatam a Rabi Yehoshua ben Levi que crianças pequenas — que ainda mal conheciam mais do que o alfabeto — apresentaram, na casa de estudo, interpretações éticas surpreendentes para cada dupla de letras hebraicas, na ordem em que aparecem no alfabeto. "Álef-beit" é lido como uma instrução: "alaf bina" — aprende sabedoria (da Torá). "Guímel-dálet" é lido como "gemol dalim" — recompensa (ajuda) os pobres. As crianças então explicam três detalhes da forma escrita dessas duas letras à luz dessa mensagem: a perna do guímel (que se estende visualmente em direção ao dálet, à sua esquerda) representa o doador correndo atrás do pobre para ajudá-lo; a perna do dálet (que também se estende em direção ao guímel) representa o pobre se apresentando, para não sobrecarregar o doador com a tarefa de procurá-lo; e o fato de o "rosto" do dálet (a parte de cima, mais larga) se voltar para longe do guímel ensina que a caridade deve ser dada discretamente, para não envergonhar quem a recebe.
"'Aprende sabedoria'" — aprende a Torá. "'Qual é a razão pela qual a perna do guímel se estende em direção ao dálet'" — e não em direção ao beit. "'Qual é a razão pela qual a perna do dálet se estende em direção ao guímel'" — e não em direção ao hê, que se inclina um pouco para o lado do guímel. "'Para que ele se apresente'" — que o pobre apresente a si mesmo, e não sobrecarregue o dono da casa a correr atrás dele.
"Hê-vav" — este é o nome do Santo, bendito é Ele. "Zayin-chet, têt-yud, caf-lámed" — e se fizeres assim, o Santo, bendito é Ele, te alimenta (zan), e te favorece (chan), e te faz bem (meitiv), e te dá uma herança (yerushá), e te ata uma coroa (kéter) para o Mundo Vindouro (la'olam habá). "Mem aberto, mem fechado" — (há) declaração aberta e declaração fechada. "Nun curvo, nun reto" — (há) fiel curvado e fiel reto (erguido).
As crianças prosseguem pela ordem do alfabeto. "Hê-vav" é lido como um dos nomes do próprio D'us (comparável ao "Ani vaHu" mencionado em Sucá 45a). As letras seguintes — zayin-chet, têt-yud, caf-lámed — formam, por suas iniciais e semelhanças sonoras, uma promessa em cadeia: quem segue o caminho da bondade descrito antes (guimel-dalet) recebe sustento (zan), favor (chan), bondade (meitiv), herança (yerushá) e, por fim, uma coroa no Mundo Vindouro (la'olam habá) — cinco recompensas aludidas por cinco letras. A interpretação então se volta para a própria forma das letras: o mem, que tem uma forma aberta (usada no meio da palavra) e uma forma fechada (usada no final), alude à existência de dois tipos de ensinamento na Torá — um "aberto", acessível a todos, e outro "fechado" (esotérico), reservado a poucos, como o relato da Carruagem Divina (Ma'assê Merkavá). Já o nun, que tem uma forma curvada (no meio da palavra) e uma forma reta e erguida (no final), alude à pessoa fiel: humilde e curvada durante a vida, mas destinada a se tornar reconhecida e "erguida" no fim.
"'Hê-vav'" — como em "Ani vaHu" (Sucá 45a), (que) são nomes (de D'us). "'E te faz bem'" — isso é (aludido pelo) têt. "'Herança'" — isso é (aludido pelo) yud. "'Coroa'" — isso é (aludido pelo) caf. "'Para o Mundo Vindouro'" — isso é (aludido pelo) lámed. "'Declaração aberta e declaração fechada'" — há coisas cuja exposição foi permitida, e há outras que se ordena manter fechadas, como o Ma'assê Merkavá (a Obra da Carruagem Divina). "'Fiel curvado'" — a pessoa íntegra precisa ser curvada e humilde, e seu destino é tornar-se reta e erguida no Mundo Vindouro.
"Samech-áyin" — apoia (semoch) os pobres (aniyim). Outra versão: faz sinais (mnemônicos) na Torá e adquire-a. "Pê curvo, pê reto" — (há) boca aberta, boca fechada. "Tzadi curvo e tzadi reto" — (há) justo curvado, justo reto (erguido). Mas isso não é o mesmo que "fiel curvado, fiel reto"? (A Guemará responde:) o texto te acrescentou uma curvatura sobre a sua (outra) curvatura; daqui (se aprende) que a Torá foi dada com abaixamento de cabeça.
"Samech-áyin" é lido como "semoch aniyim" — apoia os pobres, sustentando quem já está fraco antes que caia de vez; uma segunda versão lê essas letras como uma instrução para criar sinais mnemônicos que ajudem a fixar o estudo da Torá. O pê, com sua forma curvada (no meio) e reta (no final), alude à boca: há momentos de abrir a boca para ensinar (quando reunidos com quem quer aprender) e momentos de fechá-la (na presença de quem sabe mais). O tzadi, curvo e reto, alude ao justo: humilde e curvado durante a vida, tornando-se manifesto no fim — mensagem quase idêntica à do nun. A Guemará nota essa redundância e explica que o texto quis, de fato, acrescentar uma segunda camada de humildade sobre a primeira, e que dessa ênfase repetida se aprende que a Torá foi dada no Sinai com uma atmosfera de gravidade e abaixamento de cabeça — recebida com temor e extrema humildade.
"'Sinais (mnemônicos)'" — da ordem dos ensinamentos de um tanna ou amora no estudo, para que não esqueças nenhum deles, como estes que há no Talmud. "'Boca aberta'" — na hora dos que reúnem (o conhecimento), espalha (ensina). "'Boca fechada'" — na hora dos que espalham, recolhe-te, se houver alguém maior do que tu. "'Com abaixamento de cabeça'" — com tremor e humildade extrema.
"Kuf" — santo (kadosh). "Reish" — ímpio (rashá). Qual é a razão pela qual o rosto do kuf se volta para longe do reish? Disse o Santo, bendito é Ele: não posso olhar para o ímpio. E qual é a razão pela qual a coroa do kuf se volta para o reish? Disse o Santo, bendito é Ele: se ele se arrepender, eu lhe atarei uma coroa como a minha. E qual é a razão pela qual a perna do kuf fica suspensa? Para que, se ele se arrepender, possa entrar (por ali).
As crianças passam ao kuf e ao reish, letras foneticamente semelhantes: kuf é lido como "kadosh" (santo, referindo-se a D'us) e reish como "rashá" (ímpio). Três detalhes gráficos são então explicados: o "rosto" do kuf (a parte de cima) parece voltar-se para longe do reish — na verdade, tecnicamente é o reish que se afasta do kuf, mas a expressão é formulada eufemisticamente — ensinando que D'us não deseja olhar para o rosto do ímpio; a pequena "coroa" (um traço decorativo, uma espécie de zayin) que se forma no topo do kuf, do lado do reish, volta-se em sua direção, prometendo que, se o ímpio se arrepender, D'us lhe atará uma coroa semelhante à Sua própria; e a perna do kuf, que não se une completamente ao seu teto, deixando um pequeno vão, permanece "suspensa" para que, caso o ímpio se arrependa, ele possa entrar por essa abertura.
"'Qual é a razão pela qual o rosto do kuf se volta para longe do reish'" — é uma expressão eufemística, pois na verdade são as costas do reish (que se voltam) em relação ao kuf, (ensinando) que o Santo, bendito é Ele, não quer olhar para o rosto do ímpio. "'A coroa do kuf'" — uma espécie de zayin que se faz no fim do teto do kuf. "'A perna do kuf fica suspensa'" — pois não se une ao seu teto.
Mas que entre por essa (mesma abertura que já existe embaixo)! Isto apoia (a opinião de) Reish Lakish, pois disse Reish Lakish: o que significa o que está escrito: "se se trata dos escarnecedores, ele escarnece deles, e aos humildes dá graça" (Mishlê 3:34)? Quem vem para se contaminar — abrem-lhe (a porta); quem vem para se purificar — ajudam-no.
A Guemará faz uma pergunta técnica sobre a explicação anterior: se a perna do kuf já é suspensa, deixando uma abertura embaixo (dos dois lados), por que o ímpio precisaria da abertura especial do lado direito para poder entrar e se arrepender — que entre pela abertura que já existe naturalmente! A Guemará responde que essa própria dificuldade apoia um ensinamento independente de Reish Lakish sobre o versículo de Mishlê 3:34: "se se trata dos escarnecedores, Ele escarnece deles, e aos humildes dá graça". Reish Lakish explica que quem vem, por sua própria iniciativa, para se contaminar (pecar) recebe apenas uma abertura já existente — o caminho não é bloqueado, mas também não é facilitado; ele age sozinho, sem ajuda nem impedimento divino. Mas quem vem para se purificar recebe assistência ativa dos Céus. Essa distinção explica por que o kuf tem duas aberturas diferentes: a abertura inferior, comum e passiva, corresponde a quem apenas não é impedido de pecar; a abertura lateral especial, formada apenas quando ele se arrepende, corresponde à ajuda ativa oferecida a quem busca se purificar.
"'Que entre por essa'" — que contorne por baixo da perna do kuf e entre pela abertura do lado direito. "'Ajudam-no'" — e preparam-lhe uma abertura. "'Ele mesmo escarnece'" — por si mesmo escarnece; não o ajudam nem o impedem. "'E se aos humildes'" — e ele se inclina para o bom caminho. "'Dá graça'" — ajudam-no desde os Céus.
"Shin" — mentira (shéker). "Tav" — verdade (emet). Qual é a razão pela qual as letras de "sheker" estão próximas entre si (no alfabeto), e as letras de "emet" estão distantes entre si? A mentira é comum, a verdade não é comum. E qual é a razão pela qual (as letras de) "sheker" ficam de pé sobre uma única perna, e (as de) "emet" (se assentam) como tijolos? A verdade permanece de pé, a mentira não permanece de pé.
A digressão chega às duas últimas letras do alfabeto convencional (deixando de lado, por ora, o mem final já discutido): shin, lida como "sheker" (mentira), e tav, lida como "emet" (verdade). As crianças observam dois padrões na própria grafia dessas palavras. Primeiro, no alfabeto, as três letras que soletram "sheker" (shin, kuf, reish) estão próximas umas das outras, enquanto as três que soletram "emet" (álef, mem, tav) estão espalhadas — uma no início, uma no meio, uma no fim do alfabeto —, refletindo que a mentira é fácil de encontrar (seus "ingredientes" estão à mão), mas a verdade é rara e exige reunir elementos distantes. Segundo, cada letra de "sheker" fica de pé sobre uma única perna estreita (instável), enquanto as letras de "emet" se assentam sobre bases largas, como tijolos — refletindo que a verdade permanece firme e duradoura, enquanto a mentira não se sustenta.
"'Suas letras são próximas'" — as três letras são próximas na ordem do alfabeto. "'As de emet são distantes'" — uma está no início do alfabeto, outra no meio, e outra no fim. "'Uma só perna'" — cada uma das letras (de sheker) fica de pé sobre uma única perna. "'Emet como tijolos'" — suas letras se assentam de forma estável, à maneira de um tijolo; pois o álef tem duas pernas, e seu assento é bom, e a segunda perna é larga.
"Álef-tav, beit-shin": a Mim me desprezou, e eu o desejaria? "Beit-shin": a Mim não quis (chashak), Meu Nome repousaria sobre ele? "Guímel-reish": seu corpo contaminou, e eu teria piedade dele? "Dálet-kuf": Minhas portas trancou, e eu não cortaria os seus chifres? Até aqui, (foi exposta) a medida dos ímpios,
A digressão introduz um segundo sistema de leitura do alfabeto: o código atbash, que empareia a primeira letra com a última (álef com tav), a segunda com a penúltima (beit com shin), e assim sucessivamente. Aplicado à "medida dos ímpios" (a forma como D'us relaciona-Se, retoricamente, com quem O rejeita), cada par de letras é lido como o início de uma frase que D'us dirige, em tom de pergunta espantada, a respeito do ímpio: se ele Me desprezou (oti ti'ev), acaso eu o desejaria (etaveh)? Se ele não Me quis (bi lo chashak), Meu Nome (shemi) repousaria sobre ele? Se ele contaminou seu próprio corpo (gufo timê), eu teria piedade dele (arachem alav)? Se ele trancou Minhas portas (daltotai na'al) — recusando-Me entrada em sua vida —, eu não cortaria os seus chifres (poder, orgulho)? Esta série de perguntas retóricas, todas com resposta implícita negativa, expõe "a medida dos ímpios": tal como agiram para com D'us, é assim que D'us, retoricamente, considera agir para com eles.
"'Eu o desejaria'" — em tom de pergunta retórica (espanto); e assim todas (as demais expressões desta lista). "'Até aqui, a medida dos ímpios'" — assim se expõe (o alfabeto) quanto aos ímpios.
Mas quanto à medida dos justos: "álef-tav, beit-shin" — se tens vergonha (de pecar). "Guímel-reish, dálet-kuf" — se fazes assim, habitarás (gur) no firmamento (dok). "Hê-tzadi, vav-pê" — haverá uma separação entre ti e a ira (af). "Zayin-áyin, chet-samech, têt-nun" — e não serás abalado pelo satã. "Yud-mem, caf-lámed" — disse o príncipe do Geinom diante do Santo, bendito é Ele: Senhor do Universo, (dá) para o mar tudo (o resto).
As crianças retomam exatamente o mesmo código atbash, mas o reaplicam à "medida dos justos", produzindo um sentido inteiramente diferente: já não são perguntas retóricas de rejeição, mas uma promessa condicional dirigida a quem tem vergonha de pecar. Se tens vergonha (im atá bosh) — as duas primeiras duplas de letras servem de prótase — então (seguindo com as duplas seguintes) habitarás protegido sob o firmamento celeste (gur bedok, ecoando Yeshaiáhu 40:22); haverá uma separação protetora entre ti e a ira divina (chatzitzá havei beincha la'af); e não serás abalado pelo satã. A sequência culmina com um breve diálogo: o príncipe do Geinom, vendo que os justos escapam de seu domínio por meio dessa proteção, pede a D'us que, em compensação, lhe entregue "o mar", ou seja, todo o restante da humanidade — פa maioria que vai parar no Geinom — incluindo, se possível, até Israel.
Disse o Santo, bendito é Ele: "álef-chet-samech, beit-têt-áyin, guímel-yud-pê" — eu tenho piedade deles (ani chas aleihem), porque rejeitaram (ba'atu) o adultério (gif). "Dálet-caf-tzadi" — são puros (dakim), são honestos (kenim), são justos (tzadikim). "Hê-lámed-kuf" — não tens parte neles. "Vav-mem-reish-zayin-nun, shin-tav" — disse o Geinom diante d'Ele: Senhor do Universo, meu Senhor (mari), sustenta-me (zuneni) com a semente de Shet.
D'us responde ao pedido do príncipe do Geinom usando ainda outra ordenação alfabética (também listada, segundo Rashi, no Sêfer Yetzirá). D'us recusa o pedido, explicando que tem piedade dos justos precisamente porque eles rejeitaram (ba'atu) a licenciosidade (gif, termo aramaico para adultério) — são puros, honestos e justos, e por isso o Geinom não tem parte alguma neles. Diante da recusa, o príncipe do Geinom insiste, agora pedindo, em vez disso, sustento a partir de "toda a semente de Shet" (Set, filho de Adão) — expressão que, segundo Rashi, abrange tanto os idólatras quanto o próprio povo de Israel, revelando a ousadia crescente do pedido.
"'Disse-lhe: álef-chet-samech, beit-têt-áyin, guímel-yud-pê'" — é (outra ordenação do) alfabeto, próxima à de álef-tav, beit-shin, e todas estão dispostas no Sêfer Yetzirá. "'Eu tenho piedade deles, porque rejeitaram o gif'" — o adultério. "'Dálet-caf-tzadi'" — acróstico de "puros, honestos, justos". "'Não tens (parte)'" — o Geinom não tem parte neles, entre os (filhos de) Israel. "'E vav-mem-reish-zayin-nun, shin-tav'" — e diz o príncipe do Geinom: sustenta-me da semente de Shet — de todos os idólatras e também de Israel.
Disse-lhe: "álef-lámed, beit-mem" — não (al) (terás parte) neles (bam). "Guímel-nun, dálet-samech" — para onde os levarei (olichen)? Para o jardim de murta (gan hadas). "Hê-áyin, vav-pê" — disse o Geinom diante do Santo, bendito é Ele: Senhor do Universo, estou cansado (ayef anochi). "Zayin-tzadi, chet-kuf" — estes são a semente de Yitzchak. "Têt-reish, yud-shin, caf-tav" — espera (tor), tenho grupos e mais grupos (kitot kitot) das nações do mundo que te darei.
O daf se encerra com a resposta final de D'us ao príncipe do Geinom, ainda no mesmo código: mais uma vez a recusa é reafirmada — não terás parte neles (al bam) —, e D'us revela para onde levará os justos: ao jardim de murta (gan hadas), isto é, o Gan Éden. O príncipe do Geinom, agora claramente desesperado, declara estar faminto (ayef anochi), suplicando por qualquer alma. D'us insiste que os justos em questão são a semente de Yitzchak, e não podem lhe ser entregues, mas promete compensá-lo: pede que ele aguarde (tor), pois há, em seu lugar, grupos e mais grupos de outras nações do mundo que lhe serão dados em troca. Com esta imagem — do Geinom sendo consolado com a promessa de outras nações, enquanto a semente de Yitzchak é reservada para o Gan Éden — termina a digressão agádica sobre o alfabeto, e com ela, o daf 104a.
"'Não neles'" — disse-lhe o Santo, bendito é Ele: não terás parte neles. "'Guímel-nun, dálet-samech'" — disse o Santo, bendito é Ele: eu os levarei ao jardim de murta, ao Gan Éden. "'Hê-áyin, vav-pê'" — eis que estou desfalecido de fome. "'Zayin-tzadi, chet-kuf'" — estes são a semente de Yitzchak, e não os darei a ti. "'Têt-reish, yud-shin, caf-tav'" — guarda-te (espera) para mim, e aguarda; tenho outros grupos (de nações para te dar)."